Part 7
--Não, não, não, não, respondeu o saxonio com uma serie de negativas que pareciam não dever ter fim.
--Neste mundo, rosnou Pereira mais para si do que para ser ouvido, ninguem mette prego sem estopa: mas com sertanejos ... não se brinca.
Cyrino tomara a garrafa.
--Isto, affirmou elle, acaba com certeza a cura.
E, esquivando-se de pronunciar o nome e a qualidade da pessoa de quem estava tratando:
--Ella, hade ter hoje algum appetite e poderá levantar-se um pouco, pois já tomou o seu caldinho.
--Então, ao meio dia, recommendou Pereira muito baixinho a Cyrino, vosmecê mande chamar a nossa doente e dê-lhe a mézinha. Ouviu? Já avisei lá dentro...
Cyrino abanou a cabeça, tomando ar mysterioso.
--Eu por mim estarei de olho vivo no bichão... Parece-me _çuçuarana_ á espreita de veadinhas campeiras... Não terá este vinho algum feitiço?
Contestou o outro com energia tal possibilidade.
--Eu sei lá, insistiu Pereira. Estes namoradores são capazes de muita coisa.... Nunca ouviu contar historias de _pirlas_[82] e beberagens ... hen? diga-me, nunca?
--Socegue, Sr. Pereira, acudiu Cyrino, hei-de examinar o liquido ... tenho certeza de que não haverá novidade.
--Muito que bem... Então, ao meio dia em ponto ... chame a Maria Conga ou o Tico. _Nocencia_ hade arrastar-se até cá ... e o doutor lhe dará a dose...
--Ella sahir já? objectou Cyrino com admiração. Não senhor; em tal não consinto... Irei dar-lhe o remedio... Não me custa nada...
Pereira ficara meio perplexo.
--Não sei...
E com subita resolução:
--Pois bem, virei da roça ate cá... Se eu não apparecer, então o senhor dê um pulo e faça-lhe tomar a poção... Quanto a este _allamão melado_, levo-o para longe e não o trago senão bem tarde e tão moido do passeio que só ha-de pensar em dormir.
Com Pereira se dava um facto natural e comezinho nas singularidades do mundo moral.
Á medida que as suspeitas sobre as intenções do innocente Meyer iam tomando vulto exagerado, nascia illimitada confiança naquelle outro homem que lhe era tambem desconhecido e que a principio lhe causara tanta prevenção quanto o segundo.
É que as difficuldades e collisões da vida, quando se aggravam, tão fundo nos incutem a necessidade do apoio, das sympathias e dos conselhos de outrem, que qualquer alliado nos serve, embora de muito mais proveito fora bem pensada reserva e menos confiança em auxiliares de occasião.
[Nota 82: Pilulas.]
CAPITULO XIV
REALIDADE
Cordelia--Hade o tempo desvendar o que hoje esconde a discreta hypocrisia.
SHAKESPEARE.--_O Rei Lear_, Acto I.
Depois que Cyrino viu sumir-se Pereira com os dois companheiros além do laranjal da casa, seguindo em direcção á roça por uma vereda pedregosa e cheia de seixos rolados, nos quaes iam as patas dos animaes batendo; depois que teve certeza de que ficara só n'aquella vivenda, entrou em grande agitação.
Ora, passeava pelo quarto rapida e inquietantemente; ora, media-o com passo lento em muitas direcções; ora emfim, sahia para o terreiro e alli, com a cabeça descoberta, ficava a olhar attentamente para diversos lados, abrigando com a mão aberta os olhos, dos vivissimos raios do sol.
Promettia o dia ser muito calido. Por toda a parte chiavam as estridulas cigarras, e ao longe se ouvia o metallico cacarejar das seriemas nos campos.
Ás vezes, encarava Cyrino o sol; depois tapava os olhos deslumbrados e, tomado de vertigem, voltava para a sala, onde recomeçava os seus passeios.
Porque, porem não descansava o mancebo?
Entrando familiarmente pela sala dentro, os bacorinhos se haviam abrigado dos ardores do dia e, deitados debaixo de uns giraus, resonavam, presa de gostoso somno.
Tudo quando vivia appetecia a sombra e o repouso. Fóra, o sol reverberava violento em seus fulgores, e as sombras das arvores iam cada vez mais diminuindo. Até uma egua com o esguio e peludo poldrinho deixara o distante pasto e viera abrigar-se, à protecção da casa, junto á qual parara já meio a cochilar.
Á enervadora acção do calor estival, juntavam sua influencia as monotonas modulações de umas chulas e modinhas, cantadas ao som da viola de tres cordas pelos camaradas de Cyrino, accommodados no rancho junto ao paiol de milho.
A tudo entretanto resistia o joven, e com ascendente desassocego consultava o seu relogio de prata, tirando-o a cada instante do bolso.
Passaram-se segundos, minutos e horas. Afinal soltou elle um suspiro de allivio:
--Meio dia!... Cuidei que nunca havia de chegar!...
Sahindo todo animado para o terreiro, chamou com voz forte:
--Maria... Ó Maria Conga!...
Ninguem lhe respondeu. Só do lado da cozinha ladraram uns cães.
Depois de esperar algum tempo, rodeou Cyrino toda a casa, como fizera com Pereira e, encostando-se á cerca que impedia a approximação do lanço dos fundos, tornou a chamar:
--Ó Maria?!... Maria!... Está dormindo, minha velha?
Vendo que os gritos ficavam sem resposta, saltou então o cercado e foi caminhando para a porta da cozinha, de vagar porem, e como que a medo.
--Ó Maria?!... Minha tia!... Olá! Ó de casa! chamava elle.
Afinal appareceu não a velha escrava mas o anão Tico que pareceu, com imperioso movimento de cabeça, indagar a causa daquelle intempestivo alarma.
--Que é da Maria Conga? perguntou Cyrino chegando-se a elle.
Por meio de moderada gesticulação, mas muito expressivamente, deu Tico a entender que a preta fora ao corrego lavar roupa.
--E não ha mais ninguem em casa? inquiriu o outro.
Mostrou o anão, com singular expressão de orgulho e despeito, que alli estava elle e deitou um olhar de colera para o imprudente curioso.
--Bem, replicou Cyrino sorrindo-se, vá você então dizer á sinhá dona, que já chegou a hora de tomar o remedio. Trago o vinho, e é preciso quanto antes preparar café.
Desappareceu Tico, fazendo um aceno ao intitulado medico para que esperasse fóra.
--Ora, exclamou este com aborrecimento e tom de chacota, aqui ao sol?... Não está má esta!... E que tal o mestre _nanica_?...
Sem mais cerimonia entrou, pois, na casa, penetrando no quarto que ficava entre a cozinha, theatro da actividade de Maria Conga e a sala de jantar, onde se dera a apresentação de Meyer a Innocencia.
Dahi a pouco, ouviu passos arrastados e aos seus olhos mostrou-se Innocencia embrulhada em uma grande manta de algodão de Minas de variegadas côres e com os longos e formosos cabellos cahidos e puxados todos para traz. Os grandes e avelludados olhos orlados de fundas olheiras, e o quebrantamento do semblante, muita fraqueza denunciavam ainda; entretanto, as setinosas faces como que se apressavam a tomar côres, a semelhança de rosas impacientes de desabrochar e expandir-se vivazes e alegres. Ao chegar à porta, não a transpoz; mas encostando-se á grossa trave que fazia de umbral, alli ficou parada, indecisa, com o olhar turbado e esquivo.
Ao vel-a, deu Cyrino com timidez alguns passos ao seu encontro; depois, por seu turno estacou junto a uma cadeira de comprido espaldar, antigo e solido traste trazido por Pereira da sua casa de Piumhy.
Após longa pausa, em que por vezes se cruzaram incertos os olhares, perguntou com esforço:
--Então ... minha senhora ... como está?... Sente-se melhor?
--Melhor, obrigada, respondeu Innocencia com voz aflautada e muito tremula.
--Comeu já alguma coisa?
--Nhôr-sim ... uma aza de frango, mas com ... bastante vontade.
--Sente o corpo abatido?
--A canseira está passando ... hontem muito mais...
A pouco e pouco, fora Cyrino recuperando o sangue frio e se approximando da moça, que mais se apegou á umbreira, como que a procurar abrigo e protecção.
De um lado da porta ficou ella; do outro Cyrino, ambos tão enleiados e cheios de sobresalto que davam razão ás olhadas de espanto com que os encarava Tico, empertigado bem defronte dos dois em suas encurvadas perninhas.
--Pois chegou a hora de tomar o remedio...
--Já seu doutor implorou Innocencia.
--Nhã-sim.
--Eu não tenho mais nada...
--É para cortar de uma vez as sezões... Olhe, se ellas voltassem ... era um grande desgosto para mim...
--Mas é tão mau, objectou ella.
--Não é bom _deveras_ ... mas _bem melhor_ é voltar à saude... Com um bocadinho de coragem, a gente engole tudo sem muito custo... Já que lhe amarga tanto ... beberei tambem um pouco...
--Oh! não! protestou Innocencia.
--É para lhe mostrar ... que quero sentir ... o que mecê sente.
Fez-se a menina da cor da pitanga, levantou uns olhos surpresos e voltou logo o rosto para fugir dos olhares ardentes de Cyrino.
--A mézinha? pediu ella por fim toda commovida.
--Ah! é verdade! exclamou Cyrino. Ande, Tico: vá buscar café á cozinha. Lave bem um pires ... percebeu?
O anão fitou o moço com altivez e não se mexeu.
--Você é surdo?
--Não, respondeu Innocencia. Tico ás vezes, por manha é que se faz _ansim_ de mouco.
Voltando-se então para o homunculo, insistiu com voz meiga e carinhosa:
--Vai Tico; é para mim, ouviu?
Transformou-se repentinamente a physionomia do anão. Pairou-lhe nos labios ineffavel sorriso, meneou a cabeça duas ou tres vezes com a força de uma affirmação mas, colerico, enrugou a testa e moveu olhos inquietos e duvidosos.
Innocencia teve que repetir o recado.
--Já lhe disse, Tico: vai buscar o café.
A esta quasi ordem não ousou elle resistir mas sahiu devagarsinho, voltando-se várias vezes antes de entrar na cozinha, onde muito pouco se demorou.
Neste entrementes tomara Cyrino o pulso de Innocencia e, sem pensar no que fazia, quebrando a debil resistencia da menina, cobrira-lhe de beijos o braço e a mãosinha que havia segurado.
--Meu Deus! balbuciou ella, que é isto?... Olhe ahi vem o Tico.
Recuou então o mancebo e, para melhor disfarçar a commoção adeantou-se para o anão que vinha trazendo na mão direita uma vasilha de folha de Flandres, e na outra um pires com colher.
--Muito bem, disse elle, ponha tudo em cima da mesa.
E preparando rapidamente o medicamento, apresentou-o a Innocencia, que sem hesitação o sorveu todo.
--Deixe-me um pouco, exorou com ternura Cyrino, um pouco só ... Se é tão mau ... soffra eu tambem.
--Não, respondeu ella com alguma energia, porque _havéra_ de mecê soffrer?
E, ou por effeito do inexprimivel e desconhecido abalo que experimentara no estado de debilidade a que chegara, ou por ser aquella a hora em que costumava a febre salteal-a, o certo é que teve de encostar-se ou melhor, agarrar-se ao umbral para não cahir a fio comprido no chão.
--Oh! exclamou com angustia Cyrino, a senhora vae desmaiar.
Transpondo então o limiar da porta, tomou nos braços a pallida donzella, sem reluctancia encostou a desfallecida cabeça ao seu hombro e, com o hálito offegante, aos poucos lhe foi fazendo voltar ás faces o precioso sangue.
--Estou melhor, balbuciou ella procurando afastar a cabeça de Cyrino.
--Não faça de forte á toa, acudiu este. Vamos até aquella cadeira.
E, com toda a lentidão e cuidado, foi levando a convalescente até sental-a, desembaraçando-a depois dos muitos cabellos que, todos revoltos, lhe haviam invadido o collo e se esparziam sobre o rosto.
--Quanto cabello! exclamou Cyrino meio risonho.
Com muita attenção seguira Tico as peripecias de toda aquella scena. Ao ver Innocencia perder quasi os sentidos, soltou um grito surdo de desespero; depois, foi seguindo-a até a cadeira e, ajoelhado deante della, contemplou-a com inquietação.
Cyrino quiz aproveitar a occasião para um congraçamento.
--Então está com cuidado, Sr. Tico?... Não é nada ... sua ama fica boa logo... Não é o que você quer?
Ao ouvir esta interpellação, levantou-se o anão e correspondeu ao sympathico annuncio do moço com um olhar de desprezo e pouco caso, como que a dizer:
--Não se metta commigo, que não quero graças com você, medico de arribação!
--Agora, disse Cyrino voltando-se para Innocencia, vae mecê beber dois goles deste vinho... Verá logo, que _sustancia_ hade sentir dentro do corpo.
Desarrolhou, então, com a ponta da comprida faca que tirou do cinto, a garrafa de vinho offerecida por Meyer, e num caneco de louça branca apresentou á moça um pouco do roborante liquido.
Molhou a doentinha os labios e gratificou o obsequioso mancebo com um sorriso encantador.
Decididamente lhe agradava aquelle medico: curava do seu corpo enfermo e entendia-lhe com a alma. Raros homens que não seu pae e Manecão, além de pretos velhos, tinha até então visto; mas a ella, tão ignorante das cousas e do mundo, parecia-lhe que ente algum nem de longe poderia ser comparado em elegancia e belleza a esse que lhe ficava agora em frente. Depois, que cadeia mysteriosa de sympathia a ia prendendo aquelle estranho, simples viajante que via hoje, para sem duvida, nunca mais tornar a vel-o?
Quem sabe, se a meiguice e bondade que lhe dispensava Cyrino não eram a causa unica, desse sentimento novo, desconhecido, que de chofre nascia em seu peito, como depois da chuva brota a florsinha do campo?
A muito obriga a gratidão.
Rapidos correram esses pensamentos pela mente de Innocencia, ao passo que as suas pupillas se iam erguendo até se fixarem em Cyrino, limpidas, grandes, abertas, como que dando entrada para elle ler claro o que se lhe passava na alma.
--Sinto-me tão bem disse ella com metal de voz muito suave, tão leve de corpo, que parece nunca mais hei-de ficar _mofina_.
--Não, não, de certo! exclamou Cyrino, nunca mais. Alem disso, aqui estou e...
Com a sua chegada, interrompeu Maria Conga, a velha negra, aquelle começo de dialogo. Vinha da fonte com volumosa trouxa de roupa que entrou a estender em compridos bambús, assentes horizontalmente sobre forquilhas fincadas no chão.
Despedindo-se então Cyrino de Innocencia:
--Agora, lhe disse elle risonho e pegando-lhe na mão, socegue um pouco: depois tome um caldo e ... queira-me bem.
--Gentes! Porque lhe não _havéra_ de querer? perguntou ella com ingenuidade. Mecê nunca me fez mal...
--Eu, retrucou Cyrino com fogo, fazer-lhe mal? Antes morrer... Sim ... dona ... da minha alma, eu...
E, sem concluir, disse repentinamente:
--Adeus!
Depois, com passo lento, foi se retirando e passou deante da janella junto á qual ficara Innocencia sentada.
--Olhe! recommendou elle recostando-se ao peitoril, cuidado com o sereno...
--Nhor-sim...
--Não beba leite...
--Mecê já disse.
--Coma só carne de sol...
--Já sei...
--Então, adeus ... adeus, menina bonita!
E, a custo, despegou-se daquelle lugar, onde quizera ficar, até que de velhice lhe fraqueassem as pernas.
CAPITULO XV
HISTORIAS DE MEYER
Grande felicidade é ter um filho prudente e instruido; mas, quanto a filhas, é para todo pae carga bem pesada.
MENANDRO.--_Os Primos._
Com a tarde voltaram Meyer, José Pinho e Pereira e, pouco depois d'elles, tres avelhentados escravos; estes dos trabalhos agricolas, aquelles de grandes excursões entomologicas.
Vinha o mineiro meio risonho e em altos gritos acordou Cyrino que deitando-se a dormir, sonhara todo o tempo com a graciosa doente.
--Olá, amigo! olá, doutor! chamou Pereira com voz retumbante, isso é que é vida, hen? Emquanto nós trabalhamos, eu e o _Mochú_ do José, você está nessa cama de velludo!...
--É verdade, concordou o moço, apenas os Srs. se foram, estendi as pernas e até agora enfiei um somno só...
--E o remedio da menina? perguntou Pereira abaixando a voz.
--Ora, Sr., e eu que me esqueci!... Não faz mal... se ella não teve febre... Ah! espere ... agora me lembro!... Eu lh'o dei ... estou ainda tonto de somno.
Riu-se Pereira.
--Estes doutores matam a gente, como se fosse cachorro sem dono.... Num momento lhes passa da cachola se deram ou não mézinhas e venenos a christãos...
Vendo que Meyer sahira da sala, mudou repentinamente de tom, proseguindo em voz baixa e muito rapidamente:
--Então, sabe que o tal _allamão_ levou todo o dia, só querendo puxar conversa sobre a menina?
--Devéras?
--É o que lhe digo... E ... eu com as mãos atadas por aquelle offerecimento de leval-o a comer lá dentro!... Nada, nem que desconfie e se arrenegue dos meus modos ... não me pisa em quarto de familia... Deus te livre!...
Com effeito á hora da ceia, Meyer manifestou surpresa de comer na mesma sala; não, que tivesse motivo para desejar outro qualquer local; mas, methodico como era, gravara na mente a promessa de Pereira e, por delicadeza, suppunha dever lembrar-lhe.
As desculpas que o mineiro apresentou foram arranjadas de momento e ajudadas victoriosamente por Cyrino, carregando este com a responsabilidade de haver recommendado á enferma muito socego, quasi completa solidão.
De modo muito expansivo se manifestou tambem o reconhecimento de Pereira.
--Estou conhecendo, disse elle em aparte e apertando a mão de Cyrino, que o doutor é homem serio e com quem se póde contar... Deixe estar ... o Manecão hade ser amigo seu... Isso hade sel-o... Pessoas de bem devem conhecer-se e estimar-se... Ora, veja o tal _cujo_ ... que temivel, hen?...--Não faz mal, hade ter o pago.
Se Pereira se mostrava contrariado e inquieto, muito pelo contrario parecia o naturalista nadar em mar de rosas.
--Sr. doutor, declarou elle a Cyrino á mesa da ceia, por muitos motivos, estou em extremo contente com a minha estada aqui... Hoje achei mais bichinhos curiosos do que em todas as zonas porque tenho andado.
--Vosmecê nem imagina, interrompeu Pereira dirigindo-se para Cyrino, o que faz este senhor quando está dentro do matto. Ainda hade quebrar o pescoço n'algum barranco a que se atire, pois caminha com as ventas para o ar... Não sei como não tem ambos os olhos furados ... não repara em galhos nem em nada ... só o que quer é agarrar _anicetos_... Já o avisei umas poucas de vezes; agora, sua alma, sua palma...
Judiciosas eram as advertencias do mineiro e bem cabidas; tanto assim que numa das tardes seguintes voltou Meyer todo arranhado e com um gilvaz tão grande, que immediatamente deu nas vistas de Cyrino.
--Que foi isso, Sr. Meyer? perguntou elle com admiração. O Sr. andou por ahi fora aos trambolhões com alguma onça?
--Oh! não é nada, respondeu fleugmaticamente o allemão.
--E a sua roupa vem suja de barro ... toda rota...
Desatou Pereira a rir.
--Isto são historias deste homem... Bem lhe dizia eu que mais dias menos dias isso havia de acontecer. Meu amigo não sabe do dictado:... Fia-te na Virgem e não corras, verás o tombo que levas!... Tambem foi um dia em que me ri a mais não poder. Tomei um fartão... Imagine vosmecê que o tal Sr. Meyer, como ja lhe contei, anda pulando dentro da matta como se fosse veado mateiro... O José Pinho, que é mitrado, vae sempre pela estrada limpa...
--Preguiçoso, atalhou Meyer a modo de observação.
--Juizo tem elle, proseguiu o mineiro: mas, como ia dizendo cá, o Sr. com seus arrancos e saltos parece anta disparada. Em apparecendo bichinho voador, zás trás que darás, lá vae elle logo sem olhar para os paus, podendo pisar em cobras e espinhos, com aquella rede na mão, e tanto faz que engalfinha sempre algum animalejo... Hoje fui para a roça, e o homem furou o matto, emquanto José buscou uma sombrinha e entrou logo a roncar como um perdido...
--Eu, não Sr., protestou José Pinho que queria ouvir a historia.
--_Vóce_ sim, corroborou Meyer com severidade, preguiçoso!... Ande ... dê cá a pita.
--Pois bem, continuou Pereira, dahi a duas horas voltou _Mochú_ neste estado pouco mais ou menos; mas trazia uma caixa cheia de bichos do matto...
--Oh! perguntou Cyrino, e são bonitos?
--Não ha mais nada, suspirou Meyer com tom dolente, o trabalho ficou perdido!... Eu tinha apanhado cinco especies novas... Uma queda...
--Deixe-me contar o caso, atalhou Pereira. Oh! eu ri-me ... ri-me...
E, para confirmar a asserção, pôz-se novamente a dar gargalhadas, que foram acompanhadas por José Pinho e até por Meyer, da parte deste com menos expansão comtudo.
--Appareceu-me o _Mochú_ muito contente com a sua caixa, como se tivesse o rei na barriga. Era uma _immundicie_ de besouros, cascudos e cigarras, que o Sr. nem póde imaginar... Havia de tudo; depois, quando voltamos da roça, enxergou elle num pau podre um _aniceto_ vermelho e foi correndo a apanhal-o. Eu bradei-lhe:--Olhe, que ahi tem barranco: a arvore é podre e oca, e vosmecê rola pelo despenhadeiro, que nem a sua alma se salva.--Qual! O homem é teimoso, como um cargueiro empacador... Eu gritava-lhe:--Tome tento, _Mochú_!--Sem attender a nada, começou a caminhar em cima da _cipoada_ que cobria a boca de um _percipicio_, fundo como tudo neste mundo... Quando ia botar a mão no tal bicho encarnado, encostou-se ao pau e ... zás! ... afundou-se, dando um grito esganiçado que parecia de cotia. Mal teve tempo de agarrar-se aos cipós e lá ficou entre a vida e a morte, chamando _Júque_, _Júque_!... Eu quando vi isso, mandei a toda a pressa buscar á roça uma vara comprida e, se ella não chega logo, o Sr. Meyer e toda a sua bicharada rolavam de uma vez por aquelles fundões.
--Não, rectificou o allemão, bicho rolou; caixa abriu e tudo lá se foi no fundão...
--Pois bem, o _Mochú_ segurou-se com unhas e dentes ao páo e nós puxámos devagarinho, devagarinho, com um medo, um medo!... Maria Santissima!...
Fazendo breve pausa:
--O mais engraçado ainda não chegou, avisou o mineiro: Ah! vosmecê vae tomar uma boa _data_[83] de riso. Quando o _Mochú_ ganhou pé em terra, pôz-se a pular como um cabrito doido, por aqui, por acolá, pulo e mais pulo, e gritando como se o estivessem esfolando... Estava ... ah! meus Deus! ... estava cheio de formigas _novatas_![84]
--Sim, exclamou Meyer com desespero, formiga de pau podre! ... _mein Gott_... Eu rasgo a roupa ... eu pulo ... eu gemo ... fico nú como quando minha mãe me botou no mundo!... Horrivel... Formiga do diabo!... Faz calombo em todo o meu corpo... Muita dor!...
Com reiteradas e estrondosas gargalhadas acolheram Pereira, Cyrino e José Pinho essas energicas imprecações.
--Poderá isso, observou o mineiro, cural-o da mania de não ouvir os outros que conhecem as coisas.
E voltando-se para Cyrino:
--Verdade é que o corpo delle... Que corpo. Sr. doutor, tão _arco_! ... ficou todo empolado que foi preciso esfregal-o com folhas de fumo. Depois, tomou um banho no ribeirão...
--Tudo estava muito bom, observou Meyer, se caixa não abre e atira no buraco meu trabalho...
--Ora, ficará para amanhã, consolou philosophicamente o camarada.
Pereira, acalmado o frouxo de riso, approximara-se de Cyrino e lhe falava a meia voz:
--Ah! doutor, tive uma vontade de deixar este _allamão_ sumir-se no socavão!...
Se não fosse meu hospede, emfim, e recommendado de meu mano, palavra de honra pinchava-o de uma vez no inferno...
Não sou nenhum _pinoia_[85]...
--Mas porque? indagou Cyrino simulando admiração...
--O Sr. ainda me pergunta?... Porque o homem não me faz senão falar em _Nocencia_... Outra vez me disse que ella era muito bonita e mil cousas ... perguntou se estava casada, se não; que era preciso casar as mulheres para bem dellas... Eu lá sei o que mais?... Isto é um bruto perdido ... um namorador!...
--Qual, Sr. Pereira!...
--É o que lhe digo!... Por acaso sou cobra de duas cabeças[86] que não veja?!... Ah! que peso uma filha! Ah! E então uma menina que já está apalavrada... Isto é uma anarchia[87]! Que diria meu genro, o Manecão?...
--Não poderá dizer nada, retrucou o moço. E que diga, não faltará quem queira sua filha...
--Louvado Deus, não de certo! Eu é que não quero que ella ande de mão em mão... Ou casa com o Dóca ou...
--Ou ... o que? perguntou Cyrino com inquietação mas fingindo pouca curiosidade.
--Ou mato a quem lhe vier transtornar a cabeça... Commigo ninguem hade tirar farofa!... E não hei de ter mil cuidados, quando vejo este _estranja_ estar com suas macaquices a dar no fraco das mulheres?
Por ora, nada fez elle...
Por ora ... só leva a falar na pobre menina, que a Sra. Sant'Anna guarde de todo o mal!... Podesse eu advinhar e macacos me mordam, se punha os olhos em cima de _Nocencia_. Nem que viesse com cartas e ordens do Sr D. Pedro II....