Part 4
Quando Cyrino penetrou no quarto da filha do mineiro, era quasi noite, de maneira que, no primeiro olhar que atirou ao redor de si, só pôde lobrigar, alem de diversos trastes de formas antiquadas, uma dessas camas, muito em uso no interior; altas e largas, feitas de tiras de couro engradadas. Estava encostada a um canto, e nella havia uma pessoa deitada.
Mandara Pereira accender uma vela de sebo. Vinda a luz, aproximaram-se ambos do leito da enferma que, achegando ao corpo e puxando para debaixo do queixo uma coberta de algodão de Minas, se encolheu toda, e se voltou para os que entravam.
[Ilustração: Está aqui o doutor, disse-lhe Pereira.]
--Está aqui o doutor, disse-lhe Pereira, que vem curar-te de vez.
--Boas noites, dona, saudou Cyrino.
Timida voz murmurou uma resposta, ao passo que o joven, no seu papel do medico, se sentava n'um escabello junto á cama e tomava o pulso á doente.
Caía então a luz de chapa sobre ella, illuminando-lhe o rosto, parte do collo e da cabeça, coberta por um lenço vermelho atado por traz da nuca.
Apezar de bastante descorada e um tanto magra, era Innocencia de belleza deslumbrante.
Do seu rosto irradiava singela expressão de encantadora ingenuidade, realçada pela meiguice do olhar sereno que a custo, parecia coar por entre os cilios sedosos a franjar-lhe as palpebras, e compridos a ponto de projectarem sombras nas mimosas faces.
Era o nariz fino, um bocadinho arqueado; a bocca pequena, e o queixo admiravelmente torneado.
Ao erguer a cabeça para tirar o braço de sob o lençol, descera um nada a camisinha de crivo que vestia, deixando nú um collo de fascinadora alvura, em que resaltava um ou outro signal de nascença.
Razões de sobra tinha, pois o pretenso facultativo para sentir a mão fria e um tanto incerta, e não poder atinar com o pulso de tão gentil cliente.
--Então? perguntou o pae.
--Febre nenhuma, respondeu Cyrino, cujos olhos fitavam com mal disfarçada surpresa as feições de Innocencia.
--E que temos que fazer?
--Dar-lhe hoje mesmo um suador de folhas de laranjeira da terra a ver se transpira bastante e, quando for meia noite, acordar-me para vir administrar uma boa dóse de sulfato.
Levantára a doente os olhos e os cravara em Cyrino, para seguir com attenção as prescripções que lhe deviam restituir a saúde.
--Não tem fome nenhuma, observou o pae; ha quasi tres dias que só vive de beberagens. É uma ardencia continua; isto até nem parecem maleitas.
--Tanto melhor, replicou o moço; amanhã verá que a febre lhe sáe do corpo, e daqui a uma semana sua filha está de pé com certeza. Sou eu que lh'o afianço.
--Fale o doutor pela boca de um anjo, disse Pereira com alegria.
--Hão-de as côres voltar logo, continuou Cyrino.
Ligeiramente enrubeceu Innocencia e descançou a cabeça no travesseiro.
--Porque amarrou esse lenço? perguntou em seguida o moço.
--Por nada, respondeu ella com acanhamento.
--Sente dor de cabeça?
--Nhôr-não.
--Tire-o pois: convém não chamar o sangue; solte, pelo contrario, os cabellos.
Pereira obedeceu e descobriu uma espessa cabelleira, negra como o amago da cabiúna e que em liberdade devia cair até abaixo da cintura. Estava enrolado em bastas tranças, que davam duas voltas inteiras ao redor do cocoruto.
--É preciso, continuou Cyrino, ter de dia o quarto arejado e pôr a cama na linha do nascente ao poente.
--Amanhã de manhãsinha hei-de viral-a disse o mineiro.
--Bom, por hoje então, ou melhor, agora mesmo, o suador. Fechem tudo, e que a dona sue bem. Á meia noite, mais ou menos, virei aqui dar-lhe a mézinha. Socegue o seu espirito e reze duas Ave-Maria para que a quina faça logo effeito.
--Nhôr-sim, balbuciou a enferma.
--Não lhe dóe a luz nos olhos? perguntou Cyrino, achegando-lhe um momento a vela ao rosto.
--Pouco ... um nadinha.
--Isso é bom signal. Creio que não hade ser nada.
E levantando-se, despediu-se:
--Até logo, sinhá-moça.
Depois do que, convidou Pereira a sahir.
Este acenou para alguem que estava num canto do quarto e na sombra.
--Ó Tico, disse elle, venha cá...
Levantou-se, a este chamado, um anão muito entanguido, embora perfeitamente proporcionado em todos os seus membros. Tinha o rosto sulcado de rugas, como se já fôra entrado em annos; mas os olhinhos vivos e a negrejante guedelha mostravam edade pouco adeantada. Suas perninhas um tanto arqueadas terminavam em pés largos e chatos que, sem grave desarranjo na conformação, poderiam pertencer a qualquer palmipede.
Trajava comprida blusa parda sobre calças que, por haverem pertencido a quem quer que fosse muito mais alto, formavam em baixo volumosa rodilha, apezar de estarem dobradas. Á cabeça, trazia um chapéu de palha de _carandá_[52] sem cópa, de maneira que a melena lhe apparecia toda arrepiada e erguida em torcidas e emmaranhadas grenhas.
--Oh! exclamou Cyrino ao ver entrar no circulo de luz tão estranha figura, isto devéras é um _tic_[53] de gente.
--Não _anarchise_[54] o meu Tonico, protestou sorrindo-se Pereira. Elle é pequeno ... mas bom. Não é meu nanico?
O homunculo riu-se, ou melhor, fez uma careta mostrando dentinhos alvos e agudos, ao passo que deitava para Cyrino olhar inquisidor e altivo.
--O Snr. vê, doutor, continuou Pereira esta creaturinha de Christo ouve perfeitamente tudo quanto se lhe diz e logo comprehende. Não póde falar ... isto é, sempre póde dizer uma palavra ou outra, mas muito a custo e quasi a estourar de raiva e de canseira. Quando se mette a querer explicar qualquer coisa, é um barulho dos seiscentos, uma gritaria dos meus peccados, onde apparece uma voz aqui, outra acolá, mais christãsinhas no meio da barafunda.
--É que não lhe cortaram a lingua, observou Cyrino.
--Não tinha nada que cortar, replicou Pereira. De nascença é o defeito e não póde ser remediado. Mas isto é um diabrete, que cruza este sertão de cabo a rabo, a todas horas do dia e da noite. Não é verdade, Tico?
O anão abanou a cabeça, olhando com orgulho para Cyrino.
--Mas é filho aqui da casa? perguntou este.
--Nhôr-não; tem mãe à beira do rio Sucuriú daqui a 40 leguas, e envereda de lá para cá n'um instante, vindo a pousar pelas casas que todas o recebem com gosto, porque é bichinho que não faz mal a ninguem. Aqui fica duas, tres e mais semanas e depois dispara como um _matteiro_[55] para a casa da mãe. É uma especie de cachorro de _Nocencia_. Não é, Tico?
Fez o mudo signal que sim e apontou com ar risonho para o lado da moça.
Pereira, depois de todas aquellas explicações que o anão parecia ouvir com satisfacção, disse voltando-se para este, ou melhor abaixando-se em cima da sua cabeça:
--Agora, meu filho, vae ao curral grande e apanha _para mim_[56] um _mãosada_[57] de folhas de laranjeira da terra ... daquelle pé grande que encosta na _tronqueira_.
Mostrou o homunculo com expressivo gesto que entendera e saiu correndo.
Ia Cyrino deixar o quarto, não sem ter olhado com demora para o lugar onde estava deitada a enferma, quando Pereira o chamou:
--Ó doutor, _Nocencia_ quer beber uma pouca de agua... Fará mal?
--Aqui não ha limões doces? indagou o moço.
--É um nunca acabar ... e dos melhores.
--Pois, então, faça sua filha chupar uns gomos.
Pereira, depois de ter paternalmente arranjado e disposto os cobertores ao redor do corpo da menina, acompanhou Cyrino que, parado á porta de saida, estava mirando as primeiras estrellas da noite.
--Vosmecê achou, doutor, perguntou o mineiro com voz um tanto tremula, algum perigo no que tem aquelle anjinho?
--Não, absolutamente não, respondeu Cyrino. Verá o senhor que, daqui a tres dias, sua filha não tem mais nada.
--Malditas febres!... Quando não derrubam um christão, o amofinam annos inteiros... Eu não quizera que minha filha ficasse esbranquiçada, nem feia... As moças quando não são bonitas, é que estão doentes... Ah! mas ia me esquecendo dos limões doces... Que cabeça!...
Adeantou-se Pereira no terreiro e, pondo as mãos junto á bocca, chamou com voz forte:
--Ó Tico!
Prolongado grito respondeu-lhe a certa distancia.
O mineiro pôz-se a assobiar com modulações á maneira dos indios.
Houve uns momentos de silencio; depois veiu correndo o anão e, chegando-se para perto, mostrou por signaes que não ouvira bem o recado.
--Uns limões doces, já!... _Nocencia_ está com sêde...
Disparou o pequeno como uma setta, sumindo-se logo na densa escuridão que já se espessara entre as arvores do pomar.
[Nota 48: Passaro de plumagem negra como indica a denominação indigena--guira una (passaro preto)--o seu canto é muito melodioso e os seus habitos eminentemente sociaes.]
[Nota 49: Respondeu.]
[Nota 50: Chama-se _lavrados_ na provincia de Matto-Grosso collares de contas de ouro e adornos de ouro e prata.]
[Nota 51: Animal.]
[Nota 52: Palmeira muito parecida com a carnaúba, si não for a mesma.]
[Nota 53: Pedaço.]
[Nota 54: Ridicularise.]
[Nota 55: Veado do matto.]
[Nota 56: Esse para mim é accrescimo obrigatorio em certas locuções do sertão.]
[Nota 57: Mão grande, porção boa.]
CAPITULO VII
O NATURALISTA
A minha philosophia toda resume-se em oppôr a paciencia ás mil e uma contrariedades de que a vida está inçada.
HOFFMANN.--_O reflexo perdido._
Serena e quasi luminosa corria a noite. No puro campo do céu, scintillava com iriante brilho um semnumero de estrellas, projectando na larga fita da estrada do sertão, mysteriosa e dubia claridade.
Pelo caminhar dos astros havia de ser quasi meia noite; e entretanto a essa hora morta, em que só vagueiam á busca de pasto os animaes bravios do deserto, vinham a passo lento, pelo caminho real, dois homens, um a pé, outro montado n'uma besta magra e já meio estafada.
Mostrava o pedestre ser, como de feito era, um simples camarada, e vinha com grossa e comprida vara na mão tangendo deante de si lerdo e orelhudo burro, sobre cujo lombo se erguia elevada carga de canastras e malinhas, cobertas por um grande ligal.
Quem estava montado e cavalgava todo encurvado sobre o sellim com as pernas muito estiradas e abertas, parecia entregue a profunda cogitação. Devia ser homem bastante alto e esguio e, como o observamos, apezar da hora adiantada da noite, com olhos de romancista, diremos desde já que tinha rosto redondo, juvenil, olhos gazeos, esbugalhados, nariz pequeno e arrebitado, barbas compridas, escorrido bigode e cabellos muito louros. O seu trajo era o commum em viagem: grandes botas, paletot de alpaca em extremo folgado, e chapéo do Chile desabado. Trazia entretanto, a tiracollo umas quatro ou cinco caixinhas de lunetas ou quaesquer outros instrumentos especiaes, e na mão segurava um páu fino e roliço, preso a uma saccóla de fina gaze côr de rosa.
Homem de meia edade, de physionomia vulgar e balorda era o camarada e, pelos modos e impaciencia com que fustigava o animal de carga, indicava não estar afeito ao genero de vida que exercia.
Em silencio e na ordem indicada, caminhava a tropinha: o burro carregado na frente, logo atraz o inhabil recoveiro; em seguida fechando a marcha, o viajante encarapitado na magra cavalgadura.
Houve momento em que, depois de algumas pauladas de incitamento, pareceu querer o cargueiro protestar contra o tratamento que tão fóra de hora recebia e, fincando os pés na areia, resolutamente parou.
Provocou a reluctancia, porém, uma chuva de verdadeiras cacetadas que echoaram longe e se confundiam com os brados e pragas do camarada.
--Burro do diabo! berrava elle. Mil raios te partam, bicho damnado! Arrebenta de uma vez!... _Vá_ para os infernos! Entrega a carcassa aos urubús.
Durante uns bons minutos, o cavalleiro, que fizera parar o seu animal, esperou pacientemente qualquer resultado: ou que a renitente azemola se désse afinal por convencida e avançasse ou então estourasse.
--_Júque_, disse elle de repente com accento fortemente guttural e que denunciava a origem teutonica, se porretada chove assim no seu lombo, _vóce_ gosta?
O homem a quem haviam dado o nome de Juca, voltou-se com arrebatamento:
--Ora, _Mochú_, isto é um perverso sem vergonha, que deve morrer debaixo do páu. Esta vida não me serve!...
--Mas, _Júque_, replicou o allemão com inalteravel calma, quem sabe se a cangalha não está ferindo a pobre creatura?
--Qual! bradou o camarada, isto é manha só. Conheço este safado, este infamo, este...
E, levantando o varapáu, descarregou tal paulada no trazeiro do animal que lhe fez soltar surdo gemido de dor.
--_Júque_, observou o patrão em tom pausado, quem sabe se na frente ha páu cahido ou pedra, que não deixa elle ir para deante?
--Pedra, _Mochú_, o páu na cabeça até rachal-a, é que precisa este ladrão...
--Vê, _Júque_, insistiu o allemão.
--Ora, _Mochú_...
--Vê, sempre...
Saiu resmungando o camarada de detrás do burrego e deu a volta.
Na frente avistou logo o ramo quebrado que Pereira deixara cair no meio da estrada para desviar os acompanhadores de Cyrino.
--Ué! Ué! exclamou com muita surpreza, aqui esteve alguem e pôz este signal para que não se passasse...
--Eu não disse a _vóce_, replicou o cavalleiro com voz até certo ponto triumphante. Asno tem razão: para deante ha alguma cousa.
--Mas na villa, contestou José, nos disseram que o caminho vae sempre direitinho sem _atrapalhação_ nenhuma...
--Na villa disseram isso, confirmou o outro.
--E então?
--E então? repetiu o allemão.
Houve uns segundos de silencio.
Depois o cavalleiro accrescentou com a mesma imperturbavel serenidade, e como que achando explicação muitissimo natural:
--Na villa muita gente não sabe caminho. É...
--Mil milhões de diabos, interrompeu o camarada todo frenetico, levem o gosto de andar por esses mattos do inferno a horas tão perdidas! Eu bem disse a _Mochú_, ninguem viaja assim. Isto é uma calamidade...
--_Júque_, atalhou por seu turno o patrão, o que é que adeanta estar a berrar como um damnado?... Olhe, antes, se por ahi _vóce_ não vê algum caminho do lado.
Obedeceu o outro e sem difficuldade achou a entrada da picada que levava á morada de Pereira.
--Está aqui, _Mochú_, está aqui! annunciou elle com alegria. É um trilho que corta a estrada e vae dar nalguma casa pertinho...
Mudando repentinamente de tom, observou com voz tristonha;
--Comtanto que até lá não haja alguma legua de beiço...
--Ah! eu não lhe disse, respondeu o allemão. Agora toque burro devagarinho; elle anda que nem vento.
Pareceu o animal comprehender o alcance moral da victoria que acabara de colher e prestes enveredou pela trilha com alento novo e até desusada celeridade.
A razão é que tambem dahi a pouco sorvia elle, teimoso e marralheiro bicho como soem ser os da sua especie, a bella agua do ribeirão, em que se haviam refrescado as cavalgaduras de Cyrino e de Pereira.
CAPITULO VIII
OS HOSPEDES DA MEIA NOITE
Sei, sim, sei que é noite!
XAVIER DE MAISTRE.--_Viagem ao redor do meu quarto._
Não tardou muito que os dois nocturnos viajantes começassem a ouvir os latidos furiosos dos cães que no terreiro de Pereira denunciavam approximação de gente suspeita junto á casa entregue á sua vigilante guarda.
--Por aqui perto fica algum rancho, _Mochú_, avisou o camarada; havemos emfim de descansar hoje... Mas, que gritaria faz a cachorrada!... São capazes de nos engulir antes que venha alguem saber se somos christãos ou não... Safa! Que canzoada!... Ó _Mochú_, o Sr. deve ir na frente ... rompendo a marcha...
--_Vóce_, respondeu o allemão, bate nelles com cacete...
--Nada, retrucou José com energia, isso não é do ajuste... Quem está montado, caminhe adiante... Ainda por cima agora essa!
Depois de resmonear algum tempo, exclamou:
--Ah! espero já me lembrei do uma coisa... O filho do velho é mitrado...
E, dizendo esta palavra, de um só pulo montou na anca do cargueiro, que, ao sentir aquelle inesperado accrescimo de peso, parou por instantes e com surdo ronco procurou lavrar um protesto.
--_Júque_, observou o allemão sem a menor alteração na voz, assim burro quebra cadeira. Depois morre ... o _vóce_ tem de levar as cargas delle ás costas...
Quiz o camarada encetar nova discussão, mas a a esse tempo chegavam ao terreiro, onde o ataque furioso dos cães justificou a medida preventiva de José, o qual entrou, todo encolhido atraz das cargas, a gritar como um possesso:
--Ó de casa! Eh! lá, gentes! Ó amigos!
Augmentou a algazarra da cachorrada por tal modo, que os tropeiros de Cyrino, pousados no rancho proximo, acordaram e bradaram juntos:
--Que diabo é isto? Temos matinada de lobishomens?
--Abriu-se nesse momento a porta da casa e appareceu Cyrino na frente do Pereira, trazendo este uma vela que com a mão aberta amparava da briza nocturna.
--Quem vem lá? clamaram os dois a um tempo.
--Camarada o viajante, respondeu com voz forte e sympathica o allemão, achegando-se á luz e tratando de descer da cavalgadura. Quem é o dono desta casa?
--Está aqui elle, respondeu Pereira levantando a vela acima da cabeça para dar mais claridade em torno de si.
--Muito bem, replicou o recem-chegado. Desejo agasalho para mim e para o meu creado e peço muitas desculpas por chegar tão tarde.
Aproximara-se tambem o José, cuidando logo, no meio de muchôchos e pragas, de pôr em terra a carga do burrinho, o qual amarrara pelo cabresto a uma vara fincada no chão.
--Mas, observou Cyrino, que faz o Sr. por estas horas mortas a viajar?...
--Deixe o homem entrar, atalhou Pereira, e acommodar-se com o que achar... Pois, meu senhor, _desapeie_. Bem vindo seja quem procura tecto que é meu.
--Obrigado, obrigado, exclamou com effusão o estrangeiro.
E, apresentando a larga mão, apertou com tal força as de Cyrino e Pereira que lhes fez estalar os dedos.
Em seguida, penetrou na sala e tratou logo de arranjar os objectos que trazia a tiracollo, collocando-os cuidadosa e methodicamente em cima da mesa, no meio dos olhares de espanto trocados por quantos o estavam rodeando.
Na verdade, digna de reparo era aquella figura á luz da bruxoleante vela de sebo; compridas pernas, corpo pequeno, braços muito longos e cabellos quasi brancos, de tão louros que eram.
--Será algum bruxo? perguntou a meia voz Cyrino a Pereira.
--Qual! respondeu o mineiro com sinceridade, um homem tão bonito, tão _bem limpo_[58]!
Entrára José com uma canastra ao hombro e, descarregando-a no canto menos escuro do quarto, julgou dever, sem mais demora, declinar a qualidade e importancia da pessoa que lhe servia de amo.
--O Sr. aqui é doutor, disse elle apontando para o allemão e dirigindo-se para Cyrino...
--Doutor?! exclamou este com despeito.
--Sim, mas doutor que não cura doenças. É _allamão_, lá da _estranja_, e vem desde a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro caçando _anicetos_ e picando barboletas...
--_Barboletas_? interrompeu com admiração Pereira.
--_Acui cui_![59] Por todo o caminho vem apanhando bichinhos. Olhem ... aquelle sacco que elle traz...
--O meu camarada, avisou com toda a tranquillidade e pausa o naturalista, é muito falador. Os senhores tenham paciencia... Ande, _Júque_, deixe de tagarellar!...
--Não, protestou Pereira levado de curiosidade, é bom saber com quem se lida... Então o Sr. vem matando _anicetos_? Mas para que, Virgem Santissima!...
--Para que? retrucou o camarada descansando as mãos na cintura. O patrão e eu já temos mandado mais de dez caixões todos cheinhos lá para as terras delle...
--Depois o paiz fica sem borboletas, respondeu Cyrino num assomo de despeitado patriotismo.
--Mas, como é que o Sr. se chama? perguntou Pereira, voltando-se para o allemão que estava virado para a parede a contemplar um desses grandes e sombrios lepidopteros, da especie dos esphinges.
--_Júque_, disse elle sem lhe importar a interpellação e acenando para o camarada, depressa ... um alfinete, dos grandes ... dos maiores...
--Temos historia, avisou José, fazendo expressivo signal a Cyrino, o Sr. vae ver...
O naturalista, de posse de um comprido aculeo, fincou-o com segura e adestrada mão bem no meio do insecto, o qual começou a bater convulsamente as azas e girar em torno do centro a que estava preso.
--A pita! A pita! exclamou o patrão. Vamos, _Júque_.
--Satisfez José o pedido, depois de abrir uma malinha, onde já estavam enfileirados e espetados vinte ou trinta bonitos bichinhos.
--É uma _saturnia_ ... e não commum, murmurou o allemão fisgando num pedaço de pita o novo especimen, sobre o qual derramou algumas gottas de chloroformio, de um vidrinho que sacou dum dos muitos bolsos da sobrecasaca.
--O Sr. é viajante zoologista, não é? perguntou Cyrino, depois que viu terminada a operação.
O interrogado levantou a cabeça com surpresa e respondeu todo risonho:
--Sim, senhor; sim, senhor! Como é que o Sr. o soube? Viajante naturalista, sim, senhor! Eu vejo que o Sr. é muito instruido... Muito bem, muito bem! Muita instrucção!
E, abrindo uma carteira de notas, escreveu logo umas linhas tortuosas.
--Ah! este tambem é doutor, disse Pereira com certo orgulho por hospedar em sua casa sabichão de tal quilate.
--Oh! doutor? doutor!? Muito bem, muito bem. Doutor que _curra_?
--Sim, senhor, respondeu com gravidade o proprio Cyrino.
--Ah! ... ah! muito bem.
Pereira, porém voltara à carga.
--Mas, como é que o Sr. se chama?
--Meyer, respondeu o allemão, para o servir.
--Maia?[60] perguntou o mineiro.
--Não, senhor, Meyer; sou da Saxonia, da Allemanha.
--Isto deve ser o mesmo que Maia na terra delle, observou Pereira, abaixando um pouco a voz.
O camarada José, no entretanto, trouxera para dentro todas as malas e canastras e sem cerimonia alguma intrometteu-se na conversação.
--Este _Mochú_, disse, vem de muito longe só por causa destas historias de _barboletas_, e com o negocio ganha _côco_ grosso... Quanto a mim...
--_Júque_, atalhou Meyer com fleuma, vai bota os animaes no pasto.
--Não, disse Pereira, solte-os no terreiro até raiar o dia; roerão o que acharem; ha por ahi muito resto de milho nos sabugos...
--Pois é o que fiz, declarou o camarada; mas como lhes dizia, sou carioca do Rio de Janeiro, chamo-me José Pinho e venho de bem longe acompanhando este _allamão_, que é um homem muito de bem.
--É verdade? indagou Pereira, olhando para Meyer.
Este esbugalhou mais os olhos e confirmou tudo com um sim guttural que echoou em toda a sala.
--Elle o que tem, continuou José é que é muito teimoso. Eu lhe digo sempre: _Mochú_, isto de viajar de noite é uma tolice e uma canseira á tôa... Qual! pensa lá no seu bestunto que assim é melhor. Tambem a gente anda por estas estradas fóra como se fosse alma do outro mundo a penar ... algum currupira ... ou boitatá... Cruzes!
--Pois, Sr. _Maia_, disse Pereira, tome posse desta sala, e faça de conta que é sua... Se quizer uma rede...
--Muito obrigado, muito obrigado! ... minha cama é canastra. Não se incommode...
--Amanhã então conversaremos, concluiu Pereira esfregando as mãos de contente.
Promettia-lhe na verdade a companhia boas occasiões de dar largas á volubilidade, sobretudo com o tal José Pinho, filho da Côrte do Rio de Janeiro e, pelo que parecia, tagarella de grande força.
--Assim, pois, disse Pereira, durmam bem o restante da noite.
E abriu a porta para se retirar.
--Ui! exclamou elle olhando para o céu. Doutor, já passa muito da meia noite... Com a bréca, o Cruzeiro está virando de uma vez...
Cyrino, que tornara a deitar-se com presteza calçou as botas e tomou uns papeisinhos que de antemão preparara e puzera a um canto da mesa.
--Não faz mal, disse, já estou com tudo prompto e em tempo havemos de dar o remedio. Vá o Sr. deitar um pouco de café num pires e acorde sua filha, caso esteja dormindo, como é muito natural depois do suador.
Saiu então Pereira, levando a vela e, acompanhado de Cyrino, deu volta á casa para buscar a entrada dos aposentos interiores.
Ficaram pois o allemão e seu criado em completa escuridão; ambos, porém, já estirados a fio comprido, um em cima das canastras, tendo por travesseiro roliça maleta, outro sobre o ligal aberto e estendido no meio do aposento.
--Ó _Mochú_, perguntou José, que mastigava qualquer coisa, está já ferrado?
--Ferrado? replicou Meyer levantando a cabeça. Que é isto agora?
--Pergunto se já pegou no somno?