Innocencia

Part 5

Chapter 53,876 wordsPublic domain

--Pois, _Júque_, se eu falo, como é que posso estar dormindo?

--Então não quer petiscar?

--Comer, não é?

--Está visto.

--Oh! se tivesse!... Pensava agora nisso...

--Pois eu estou _manducando_ ... Quer um bocadinho?

--Que é que _vóce_ me dá?

--Rapadura com farinha de milho...

Está deveras de patente!... Gostoso como tudo...

--Então, _Júque_, passe-me um pouco.

Levantou-se o offertante com toda a boa vontade e ás apalpadelas começou a procurar a cama do patrão, o que só conseguiu depois de ter esbarrado na mesa e numas cangalhas velhas atiradas a um canto da sala.

Afinal agarrou num dos pés do naturalista, a quem entregou uma nesga de rapadura e uns restos de farinha embrulhados em papel, pitança, mais que sóbria, que foi devorada com satisfacção pelo bom do Saxonio.

[Nota 58: Bem vestido.]

[Nota 59: Affirmação usada pelo povo, correspondente a sim.]

[Nota 60: O diphtongo ei, pronunciando-se em allemão ai, muito natural é a pergunta de Pereira e as confusões que amiudadas vezes faz com esse nome.]

CAPITULO IX

O MEDICAMENTO

Não tendes que labutar com doente muito grave, e eis o serviço que de vós espero...

HOFFMANN.--_A porta entaipada._

Quem me poderá dizer porque me parece tão duro o leito?... Porque passei esta noite, que se me figurou tão longa, sem gozar um momento de socego?... Surge a verdade: em meu seio, penetraram as agudas settas do amor.

OVIDIO.--_Elegia II._

Quando Cyrino entrou no quarto de Innocencia, já estava ella acordada. Sentara-se o pae á cabeceira da cama, a cujos pés se acocorara Tico o anão, sobre uma grande pelle de onça.

--Então, perguntou o medico tomando o pulso á mimosa doente, como se sente?

--Melhor respondeu ella.

--Suou bastante?

--Ensopei tres camisas.

--Muito bem... Agora a senhora está com a pelle fresquinha que mette gosto. Isto de sezões, não é nada, se a gente acode a tempo e o sangue não tem maus humores. Mas quando tomam conta do corpo, nem o demo com ellas pode. Que é do café? pediu elle em seguida a Pereira.

--Já vem já... Homem vou eu mesmo buscal-o, lá á cosinha. A Maria Conga está ficando uma verdadeira lesma. Venha para aqui e espere-me um _nadinha_.

Levantando-se então da cadeira, indicou-a a Cyrino, a quem fez sentar antes de sahir.

Ficou este, pois, ao lado da menina e, como sobre o lindo rosto batesse de chapa a luz collocada numa prateleira da parede, pôz-se a contemplal-a com enleio e vagar, ao passo que da sua parte o anão lhe deitava olhares inquietos e algo sombrios.

Pousara Innocencia a cabeça no travesseiro e, para occultar a perturbação de se ver tão de perto observada, fingia dormir. Pelo menos tinha as grandes palpebras cerradas e o rosto sereno; mas arfava-lhe apressado o peito e, de vez em quando, fugaz rubor lhe tingia as faces descoradas.

Pereira tardava; e Cyrino com os olhos fixos, a physionomia meditativa e um pouco de pallidez, que denunciava a intima commoção, não se fartava de admirar a belleza da gentil doente.

Uma vez, entreabriu os olhos e a medo atirou um olhar que se cruzou com o do mancebo, olhar rapido, instantaneo, mas que lhe repercutiu direito ao coração e lhe fez estremecer o corpo todo.

Sem saber porque, batia-lhe o queixo, e um arrepio de frio lhe circulava nas veias.

--Sente mais febre? perguntou Cyrino muito baixinho.

--Não sei, foi a resposta, e resposta demorada.

--Deixe-me ver o seu pulso.

E tomando-lhe a mão, apertou-a com ardor entre as suas, retendo-a, apezar dos ligeiros esforços que para a retrahir, empregou ella por vezes.

Nisto, entrou Pereira. Innocencia fechou com presteza os olhos e Cyrino voltou-se rapidamente, levando um dedo aos labios para recommendar silencio.

--Está dormindo, avisou com voz sumida.

--Ora, disse Pereira no mesmo tom, a tal Maria Conga deixou entornar a cafeteira, de _maneiras_ que precisei fazer outra porção. Demorei muito?

--Não, respondeu Cyrino com toda a sinceridade.

--Mas agora, observou Pereira, é mister acordar a pequerrucha.

--Não ha outro remedio.

Chegou-se o pae á cama e, com todo o carinho, chamou: _Nocencia_! _Nocencia_!

E como não a visse despertar logo, sacudio-a com brandura até que ella abrisse uns olhos espantados.

--Apre! Que somno! disse o bondoso velho. Num instante que fui lá dentro?!... Vamos, são horas de tomar a mézinha.

Deitara Cyrino sulfato de quinina no café e diluia-o vagarosamente.

--Olhe, dona, aconselhou elle, beba de um só trago e chupe, logo depois, uns gomos de limão doce.

--Então é muito mau? choramigou a doente.

--É amargo; mas num gole mecê toma isto.

--Papae, recalcitrou a moça, não quero ... eu não quero.

--Ora, filhinha do meu coração, não se _canhe_[61]; é preciso... Amanhã ha-de você sentir-se boa; não é doutor?

--Com certeza, se tomar esta poção, assegurou Cyrino.

--Depois, quando eu ir lá á villa, hei-de trazer para você uma cousa bonita ... uns _lavrados_[62]. Ouviu?

--Nhôr-sim.

--Ande, Tico, accrescentou o mineiro voltando-se para o anão, vae depressa buscar limão doce; na cosinha ha um meio _cascado_[63].

--Tome, dona, implorou por seu turno Cyrino, approximando o pires da boca da formosa medicanda.

Levantou uns olhos supplices e, agarrando resolutamente o remedio, bebeu-o todo de um jacto.

Depois deu um suspiro de enjôo e ficou com os labios entreabertos, á espera que o adocicado sumo do limão lhe tirasse o amargor do medicamento.

--Então, exclamou Pereira, era maior o medo que a cousa em si! Você tome a dose numa _relancina_.

--Amanhã de manhã, ou melhor hoje de madrugada, temos que engolir outra dose, declarou Cyrino. Depois, a dona, poderá levantar-se.

--Ainda outra? protestou Innocencia com gesto de amúo.

--Nhã, sim; é de toda a percisão, replicou o amoroso medico modificando pela suavidade da voz a dureza das prescripções.

--De certo, corroborou tambem Pereira.

--Depois deve mecê deixar de comer carne fresca, hervas, ovos ou farinha de milho por um mez inteiro, e de provar leite por muito tempo. Hade sustentar-se só de carne de sol bem secca, com arroz quasi sem sal e por cima tomará café com muito pouco _doce_[64].

--Fica ao meu cuidado, asseverou Pereira, olhar para o _rejume_[65].

--Agora, durma bem e não se assuste de lhe apparecer zoeira nos ouvidos e até de se sentir mouca Isto é da mézinha; pelo contrario é muito bom signal.

--Estes doutores sabem tudo, murmurou Pereira dando ligeiro estalo com a lingua.

Não se descuidou Cyrino, antes de se retirar, de novamente tomar o pulso e, á conta de procurar a arteria, assentou toda a mão no punho da donzella, envolvendo-lhe o braço e apertando-o docemente.

Saiu-se mal de tudo isso: porque se tratava da cura de alguem, para si arranjava enfermidade e bem grave.

Com effeito, de volta á sala dos hospedes, não poude mais conciliar o somno e, sem que houvesse conseguido fruir um só momento de descanço, viu raiar a aurora. Parecia-lhe que o peito ardia todo em chammas a subirem-lhe ás faces, abrazando-lhe o pensamento.

Aquelle venusto rosto que contemplára a sós; aquelles formosos olhos, cujo brilho a furto percebera, aquelle collo alabastrino que a medo se descobrira, aquellas indecisas curvas de um corpo adoravel, todo aquelle conjuncto harmonioso e encantador que vira á luz de frouxa vela, fatalmente o lançavam nesse pelago semeado de tormentos que se chama paixão!

Effeitos de tão temivel mal já ia o misero sentindo. Inquieto se revolvia (facto virgem!) no duro leito, ao passo que a respiração isochronica e ruidosa do companheiro de hospedagem, o allemão Meyer, respondia ao sonoro resonar do garrulo José Pinho.

[Nota 61: Acanhar-se, amofinar-se.]

[Nota 62: Contas de ouro.]

[Nota 63: Em toda a provincia de Matto-Grosso e em geral no interior diz-se cascar por descascar. Dizem até cascar um boi por esfolal-o, tirar-lhe o couro.]

[Nota 64: Assucar.]

[Nota 65: Corruptela de regimen.]

CAPITULO X

A CARTA DE RECOMMENDAÇÃO

Aquelle bom velho, cuja benevola hospitalidade não tinha limites, julgara do seu dever tratar do melhor modo possivel a Waverley, fosse elle o ultimo camponez saxonio... Mas o titulo de amigo de Fergus fel-o considerar como precioso deposito, merecedor de toda a sua solicitude e da mais attenta obsequiosidade.

WALTER SCOTT.--_Waverley._

Quando Meyer abriu os olhos, já achou Cyrino de pé, arranjando uma canastrinha.

--Oh! exclamou elle em tom de louvor, o Sr. madruga muito.

--É verdade, replicou o outro, um tanto melancolico.

--E _Júque_ ainda dorme!... Este _Júque_ parece mais um tatú do que um homem... Todo o dia o estou acordando...

E juntando o feito ao dito, foi o pachorrento amo sacudir a criado. Depois de se espreguiçar á vontade, sentou-se este no couro em que dormira, e pôz-se a esfregar com todo o vagar os olhos papudos ainda cheios de somno.

--Deus esteja com vossuncês, disse elle entre dois bocejos. Ora, _Mochú_, o Sr. acordou-me no melhor do somno. Estava sonhando que voltára para o Rio de Janeiro e ia acompanhando uma musica pelo largo do Rocio a fóra. Conhece o largo do Rocio? perguntou a Cyrino.

--Não, respondeu-lhe este.

--Chi! Que largo! Hen, _Mochú_?

E novo bocejo cortou-lhe a descripção da louvada praça.

--_Júque_, exclamou Meyer coçando a barba com ar alegre, o dia hoje está claro e bonito. Havemos de apanhar pelo menos umas doze borboletas novas.

--E quanto me dá _Mochú_, se eu agarro vinte e cinco?

--Vinte e cinco? repetiu o allemão com alguma duvida.

--Sim, vinte e cinco ... e até mais, vinte e seis. Diga, quanto me dá?

--Oh! eu dou a _vóce_ dois mil réis.

--Está dito, fecho o negocio. Eu cá sou assim pão pão, queijo queijo; tão certo como chamar-me José Pinho, seu criado, carioca de nascimento e baptisado na freguezia da Lagoa, lá para as bandas do _Brocó_, e...

--Agora, interrompeu Meyer; vá buscar agua para lavar a cara, e tire sabão e pente na canastra.

--Olhe, Sr. doutor, continuou o camarada sentado sempre e voltando-se para o lado de Cyrino, esta minha vida é levada de seiscentos mil diabos. Nós saimos do Rio já ha mais de dois annos; não é, _Mochú_?

--Vinte e tres mezes, rectificou Meyer.

--Pois bem; desde esse tempo estamos a viajar como se fosse penitencia de confissão. E não é só isso, não, senhor. Todos os dias ando pelo menos nove leguas correndo aqui e acolá, dando voltas, caindo, atraz dos bichos voadores...

--_Júque_! tentou atalhar Meyer, olhe...

--Pois é o que lhe digo, proseguiu José Pinho. Tenho hoje uma raiva daquellas porcarias todas... Nem sei porque, Nosso Senhor Jesus Christo foi crear esta sucia de creaturas sem prestimo... Emfim. Elle é quem sabe... Quanto a mim, se pudesse, atacava fogo em todas as lagartas, porque da lagarta é que nascem esses _anicetos_, que estão enchendo mundos... Mas, veja, Sr. doutor, lá na terra deste homem,--(coitado, é bem bomzinho e me estima muito!)--valem esses bichos mais do que ouro em pó... Tambem, se o _Mochú_ não gostasse de mim, _havéra_ de ser muito ingrato... Outro como eu, não encontra mais, não senhor... Tenha a santa paciencia ... não, senhor, isto é o que lhe posso afiançar.

No meio desse fluxo de palavras, Meyer fora em pessoa procurar na canastra o pente e o sabão.

Mostrando os objectos ao fallador, ordenou com energia:

--Cale a boca, _Júque_, cale a boca, tagarella! Vá buscar agua já; senão ... não levo _vóce_ ao matto hoje.

Levantou-se de prompto José Pinho e meio a resmungar saiu, tomando uma das canastras.

--Esse camarada, disse Meyer depois de algum silencio e para explicar o seu procedimento, é uma pessoa muito boa ... fiel e intelligente. Mas ... fala demais. É-me precioso, porque apanha borboletas com muito talento e geito.

Entrando José Pinho e ouvindo o final do elogio, depoz com ar de grave importancia a bacia no chão.

Deante della, e depois de tirar do nariz os oculos collocou-se logo Meyer, ou antes acocorou-se e em relação ao tronco, tão compridas eram as suas pernas que, inclinado por sobre a agua, lhe ficava a cabeça a altura dos joelhos.

Levou a ablução uns largos minutos e foi com os cabellos grudados ao casco e escorrendo agua que elle se levantou, justamente quando entrava Pereira.

Nesse momento, assumira o typo daquelle homem proporções do mais pasmoso grotesco; entretanto, tão vária é a apreciação de cada um, tão caprichoso é o julgamento individual, que o mineiro, acercando-se de Cyrino, disse baixinho:

--Vosmecê já reparou, amigo, como este _estranja_ é figura bonita? _Tão arvo_! E que olhos que tem!... As mulheres hão-de perder a cachola por causa deste bicharrão... Então, Sr. Maia, continuou interpellando em voz alta o seu especimen de belleza masculina, que tal passou aqui a noite?

--Oh! Sr. Pereira!... Desculpe, se o não vi... Estava sem oculos... Já lhe respondo ... espere um bocadinho.

E ainda todo molhado, correu a tomar os oculos, que assentou em cima dos salientes luzios.

--Agora, muito bem... Dormi, meu bom amigo, como quem não tem peccados...

--Então, observou Cyrino, quasi mau grado seu, tenho-os eu; porque, da meia noite para cá, não pude mais pregar olho...

--Isto é volta de algum namoro, replicou Pereira batendo-lhe com força no hombro e rindo-se.

Cyrino descorou ligeiramente.

--Sim, vosmecê é moço ... deixou lá por Minas algum _rabicho_, e de vez emquando o coração lhe comicha... Está na idade...

--Pode muito bem ser, apoiou Meyer com gravidade.

--Não é? insistiu Pereira, Ora, confesse ... não lhe fica mal... Isso é volta de enguiço...

--Juro-lhes, balbuciou Cyrino.

--Oh! se é, confirmou José Pinho que julgou dever metter o bedelho na conversa, eu no Rio de Janeiro... Negocio de saias, é de pôr um homem tonto. Não lhes conto nada, mas uma vez...

Voltou-se o allemão para elle com calma, e, interrompendo-o:

--_Júque_, va ver onde estão burrinhos e não bote sua colher, quando gente branca está falando com o seu patrão.

E, como o camarada quizesse retorquir:

--Ande, ande, verberou sempre sereno, discussão nunca serviu para nada.

Deu José meia duzia de muchochos abafados e foi embora, praguejando entre dentes.

Novamente suppoz Meyer dever desculpal-o.

--Bom homem, disse, bom homem ... porem fala terrivelmente!

--Mas agora me conte, perguntou Pereira com ar de quem queria certificar-se de cousa posta muito em duvida, deveras o senhor anda _palmeando_ estes sertões para fisgar _anicetos_?

--Pois não, respondeu Meyer com algum enthusiasmo, na minha terra valem muito dinheiro para estudos, musêos e collecções. Estou viajando por conta de meu governo, e já mandei bastantes caixas todas cheias... É muito precioso!

--Ora, vejam só, exclamou Pereira. Quem _havéra_ de dizer que até com isso se póde _bichar_! Cruz! Um homem destes, um doutor, andar correndo atraz de vagalumes e voadores do matto, como menino ás voltas com cigarras! Muito se aprende neste mundo! E quer o senhor saber uma coisa? Si eu não tivesse familia, era capaz de ir com vosmecê por esses fundões _afóra_, por que sempre gostei de lidar com pessoas de qualidade e instrucção... Eu sou assim... Quem me conhece, bem sabe... Homem de repentes... Vem-me cá uma idéa muito estrambotica ás vezes, mas embirro e acabou-se; porque, se ha alguem esturrado e teimoso, é este seu criado... Quando empaco, empaco de uma boa vez... Fosse no tempo de solteiro, e eu me botava com o senhor a catar toda essa bicharada dos sertões. Era capaz de ir dar com os ossos lá na sua terra... Não me olhe pasmado, não... Isso lá eu era... Nem que tivesse de passar canseiras como ninguem... O caso era metter-se-me a tenção nos cascos... Dito e feito; acabou-se... Fossem buscar o remedio onde quizessem ... mas duvido que o achassem.

--Como vae a doente? perguntou distrahidamente Cyrino cortando aquella catadupa de palavras.

--Ora estou muito contente. Já tomou nova dose, e parece quasi boa. Está com outra feição. O senhor fez um milagre...

--Abaixo de Deus e da Virgem purissima, concordou Cyrino com toda a modestia.

--O sr. não cura? perguntou Pereira a Meyer.

--_Nô_ senhor. Sou doutor em philosophia pela universidade de Iena, onde...

--Isso é nome de bicho? atalhou o mineiro.

--_Nô_ senhor. É uma cidade.

--Ninguem diria... Pois, Snr. Maia, continuou Pereira apontando para Cyrino, alli está um com quem molestias não brincam.

--Ah! rouquejou o allemão abrindo ainda mais os olhos. Estimo muito conhecel-o como notabilidade... Nestes lugares aqui é muito raro...

--Se é! exclamou Pereira. Felizmente passou por cá nem de proposito, para pôr de pé a menina ... uma filha minha... Cahiu-me a talho de fouce e...

Não pôde Cyrino furtar-se a um movimento de vangloria. Com ar grave interrompeu:

--Não falle nisso, Sr. Pereira; o caso era simples. Febre das enchentes ... não vale quasi nada. Vi logo o que era de urgencia: um simples suador, duas ou tres doses de sulfato de quinina ... e ficou tudo sanado... É simplicissimo... O estomago não estava sujo ... não havia necessidade de vomitorio...

Ouvira Meyer estas indicações therapeuticas com os olhos muito fitos em quem as dava: depois, voltando-se para Pereira disse com um approbatorio aceno de cabeça:

--_Pom_ medico! _pom_ medico!

Desse momento em deante, votou Cyrino ao allemão a mais decidida symphatia; e Pereira, presenciando o congraçamento daquelles dois homens, de si para si illustres e incontestaveis sabichões, sentiu-se feliz por abrigal-os a um tempo em sua humilde vivenda.

--Então, disse o mineiro voltando á questão das borboletas, com o que o seu governo paga-lhe bem, não Sr. _Maia_?

--Sufficientemente ... demais, todas as autoridades deste bello paiz muito me ajudam. Tenho muitos officios ... cartas de recommendação... Olhe, quer ver? _Juque_, _Juque_! chamou Meyer sem reparar que o criado ha muito se fora do quarto, dê-me... É verdade, foi levar os burrinhos á agua... Não faz mal... Mostro-lhe já tudo...

E, procurando entre as cargas uma malinha coberta de panno impermeavel, abriu-a e tirou um masso de cartas cuidadosamente numeradas com fitas de diversas côres.

--Isto é para Miranda, em Matto Grosso. Isto para Coxim, Cuyabá ... para Poconé, Diamantino ... isto são cartas cujos donos não encontrei, e que hão de voltar para as pessoas que as escreveram.

--E são muitas? perguntou Pereira.

--Tres ou quatro. Vejamos ... uma é para o Sr. João Manuel Quaresma, no Pitanguy; esta, para o Sr. Martinho dos Santos _Perreira_, em Piumhy...

--Que é? perguntou o mineiro levantando-se de um pulo e mostrando muita admiração. Leia outra vez ... leia por favor...

Meyer obedeceu.

--Mas este nome é o meu! exclamou Pereira. Esta carta então é para mim...

--Hu, hu! gaguejou o allemão boquiaberto. É muito _currioso_ isto!

--Sou eu, sou eu mesmo! continuou o mineiro abrindo os diques á volubilidade. Está claro, clarissimo!... Quando me escreveram, pensavam que eu ainda morava lá em Piumhy. Pois, se nunca contei a ninguem em que _buraqueira_ me vim metter... Abra a carta sem susto... Oh! Senhora Sant'Anna, que dia hoje! Quem diria? Uma carta! Uma carta nestas alturas! Póde ler, Sr. _Maia_... Estou doido por saber quem se deu ao trabalho de me escrever... Martinho dos Santos Pereira, de Piumhy ... sou eu! Que duvida: não ha dois. Veja só o nome ... pelo amor de Deus, o nome de quem me _direge_ a carta.

Rompeu o allemão com alguma duvida e escrupulo o selo; correndo com os olhos a lauda escripta, procurou a assignatura e pausadamente leu «Francisco dos Santos Pereira».

--Gentes! bradou o mineiro no auge da alegria, meu irmão ... o Chiquinho!... E eu que o fazia morto e enterrado!... Nosso Senhor o conserve por muitos annos!... O Chiquinho!... Já se viu coisa _ansim_?... Como se anda neste mundo, hem, Sr. Cyrino? Quem _havéra_ de dizer que este homem, que aqui chegou hontem por acaso e alta noite, havia de trazer na canastra uma carta de um irmão que não vejo ha mais de quarenta annos?!... Ora esta!... São voltas deste mundo... As pedras se encontram... Foi em 1819 ... não, em 20... Mas ... depressa leia a carta ... vamos ver o que me diz o Chiquinho... Da familia passava por ser o de mais juizo tambem era o mais velho de todos nós... O Roberto o caçula... Seja o senhor muito bemvindo nesta casa... Depois de tantos annos, trazer-me noticias da minha gente!

Cortou Meyer aquelle movimento de effusão que promettia ir longe, começando a ler com todo o vagar ou, melhor, a soletrar a carta, cujos garranchos, que não letras, por vezes se viu obrigado a encostar aos olhos para poder decifrar.

«Martinho, dizia a despretenciosa epistola, dirijo-te estas mal traçadas linhas só para saber da tua saude e dizer que o portador desta é um senhor de muita leitura e vae para os sertões _brutos_, viajando e estudando paizes e povos. Veio-me do Rio de Janeiro muito recommendado. Peço que o agasalhes, não como a um _transuente_ qualquer, mas como se fosse eu em pessoa, teu irmão mais velho e chefe da nossa familia...»

--Pobre mano! exclamou Pereira meio choroso.

«É homem, continuou Meyer, de bastante criação. Adeus Martinho. Eu estou estabelecido na Matta do Rio, numa fazendola. Tenho cinco filhos, tres machos e duas _familias_[66], estas casadas, e que me deram netos; já faz bastante tempo. Não estou muito quebrado de forças. Ha mais de oito annos que não tenho noticias tuas. Soube que o Roberto tinha morrido no _Paranan_...»

--Roberto?!... Coitado do Roberto! atalhou Pereira com voz angustiosa.

E repentinamente, representando-lhe a memoria os tempos da infancia, arrasaram-se-lhe os olhos de lagrimas.

«Sem mais _aquella_, concluiu Meyer, adeus. Felicidade e saude. Teu irmão, Francisco dos Santos Pereira».

--Deveras, disse o mineiro depois de breve silencio adeantando-se para o allemão e apresentando-lhe a dextra aberta, o Sr. me deu um fartão de alegria. Toque nesta mão e, quando ella se levantar para bulir num só cabello de sua cabeça ou de alguem da sua familia, qualquer que seja o aggravo que me possam fazer, seja ella logo cortada por Deus, que nos está ouvindo.

--Obrigado, Sr. Pereira, respondeu com animação o outro, retribuindo o aperto de mão e corroborando-o com um concerto de garganta.

--Sim, senhor, continuou o mineiro. Esta carta vale, para mim, mais que uma letra do Imperador que governa o Brazil. É o que lhe digo, Sr. _Maia_...

--Meyer, corrigiu o allemão apoiando com força na ultima syllaba, Meyer.

--Ah! é verdade. É preciso traduzir Meyer, Meyer. Agora já atinei com a cousa. Mais como ia lhe dizendo, esta casa é sua. Meu irmão, o meu irmão mais velho deu-me ordem que eu o recebesse como se fosse elle mesmo em pessoa, o Chico; ... acabou-se. O Sr. é como se fosse dos meus. Não ha que ver, é o que elle quer. Entendi logo; o mais é ser muito bronco e, com o favor de Deus, não me tenho nesta conta. O Sr. ponha e disponha de mim, da minha tulha, das minhas terras, meus escravos, gado ... tudo o que aqui achar. Parta e reparta... Quem está falando aqui, não é mais dono de coisa nenhuma; ... é o Sr.... Meu irmão me escreveu, é escusado pensar que não sei respeitar a vontade de meus superiores e parentes. É como se recebesse uma ordem do punho do Sr. D. Pedro II, filho de D. Pedro I, que pinchou os _emboabas_[67] para fora desta terra do Brazil e levantou o Imperio nos campos do Ypiranga, lá para os lados de S. Paulo de Piratininga, onde houve em seu tempo collegio de padres e fradaria _grossa_[68], e d'onde os _mamalucos_ sahiam para ir por esses mundos fóra bater indios _brabos_ e caçar onças, botando bandeiras até na costa do Paraguay e no salto do Paraná, tanto assim que deram nas reducções[69] e trouxeram de lá uma _immundicie_[70] de gente amarrada, por signal que muitos amolaram a canella em caminho, e só chegaram uns cento e tantos, tão magros que...

Enfiava Pereira todas estas phrases com suprehendedora rapidez, ao passo que Meyer o contemplava extatico, á espera que a torrente de palavras lhe desse tempo e occasião de exprimir algum vocabulo de agradecimento.

Só, porem, minutos depois, e a custo é que elle pronunciou um aspero e retumbante.

--Obrigado!

E accrescentou em seguida: