Innocencia

Part 3

Chapter 33,830 wordsPublic domain

Antes, porém, de conseguir a posse d'aquelle lisonjeiro documento, fez-se Cyrino, n'um dia de capricho, de partida decidida e começou então a viajar pelos sertões povoados a medicar, sangrar e retalhar, unindo a alguns conhecimentos de valor positivo outros que a experiencia lhe ia indicando ou que a voz do povo e a superstição lhe ministravam.

Toda a sua sciencia assentava alicerces no tal Chernoviz. Tambem era o inesperavel _vade-mecum_; seu livro de ouro; Homero á cabeceira de Alexandre. Noite e dia o manuseava; noite e dia o consultava á sombra das arvores ou junto ao leito dos enfermos.

Contem Chernoviz, dizem os entendidos, muitos erros, muita lacuna, muita cousa inutil e até disparatada; entretanto no interior do Brazil é obra que incontestavelmente presta bons serviços, e cujas indicações tem força de evangelho.

Conhecia Cyrino o seu exemplar de cór e salteado; abria-o com segurança nos trechos que desejava consultar e graças a elle formara um fundo de instrucção real e até certo ponto exacta, a que unira o estudo natural das utilissimas e ainda pouco aproveitadas hervinhas do campo.

Afim de augmentar os seus recursos em materia medica vegetal, foi a pouco e pouco dilatando as excursões fóra das cidades, para as quaes voltava, quando se via falto de medicamentos ou quando, digamol-o sem rebuço, queria gastar nos prazeres e folias o dinheiro que ajuntara com a clinica do sertão.

Afinal, afeito a habitos de completa liberdade, resolvera emprehender viagem para Camapoan e sul de Matto-Grosso, não só com o intuito de estender o raio das operações, como levado do desejo de ver terras novas e longinquas.

Curandeiro, simples curandeiro, ia por toda a parte grangeando o tratamento de doutor, que gradualmente lhe foi parecendo, a si proprio, titulo inherente á sua pessoa e a que tinha incontestavel direito.

Bem formado era o coração daquelle moço, sua alma elevada e incapaz de pensamentos menos dignos; entretanto no intimo do seu caracter se haviam insensivelmente enraizado certos habitos de orgulho, repassado de tal ou qual charlatanismo, oriundo não só da flagrante insufficiencia scientifica, como da roda em que sempre vivera.

Afastava-se em todo caso, ainda assim com os seus defeitos, do commum dos medicos ambulantes do sertão, typos que se encontram frequentemente naquellas paragens, eivados de todos os attributos da mais crassa ignorancia, mas rodeados de regalias completamente excepcionaes.

Por toda parte entra, com effeito, o doutor; penetra no interior das familias, verdadeiros gyneceos; tem o melhor lugar á mesa dos hospedes, a mais macia cama, é emfim, um personagem cahido do céu e junto ao qual acodem logo, de muita leguas em torno, não já enfermos, mas fanatisados crentes, que durante largos annos se haviam medicado ou por conselhos de vizinhos ou por suas proprias inspirações e que na chegada desse Messias depositam todas as ardentes esperanças do almejado restabelecimento.

CAPITULO IV

A CASA DO MINEIRO

Está a ceia na mesa. Torne o bom acolhimento desculpavel o mau passadio.

WALTER SCOTT.--_Ivanhoe._

Quando assomaram os dous viajantes á entrada do terreiro que rodeava a vivenda de Pereira, correram-lhes ao encontro quatro ou cinco cães altos e magros, que aos pulos saudaram o dono da casa com uma cainçada de alegria.

Puzeram-se algumas gallinhas a girar atarantadas, ao passo que varios gallos, ja empoleirados na cumieira da morada, bradavam novidade e uns porcos e bacorinhos aqui e acolá se erguiam de entre palhas de milho e, estremunhados, olhavam para os recem-chegados com olhos pequenos e cheios do somno.

Do interior da habitação, não tardou a sahir uma preta idosa, mal vestida, trazendo atado á cabeça um panno branco de algodão, cujas pontas pendiam até ao meio das costas.

--Olá, Maria Conga, perguntou Pereira, que ha de novo por cá?

--A benção, meu senhor, pediu a escrava chegando-se com alguma lentidão.

--Deus te faça santa, respondeu o mineiro. Como vai a menina? _Nocencia_?

--Nhã está com _sezão_.

--Isto sei eu, rapariga de Christo; mas como passou ella de trasanthontem para cá?

--Todo o dia, vindo a hora, nhã bate o queixo, nhor-sim.

--Está bem... É que o mal ainda não abrandou... Daqui a pouco, veremos. E a _janta_?... Está prompta? Venho varado de fome. Que diz, sr. Cyrino? indagou, voltando-se para o companheiro.

--Não se me dava tambem de comer alguma cousa. Temos razão para...

--Pois então, interrompeu Pereira, ponha pé no chão e pise forte, que o terreno é nosso. Minha casa, já lh'o disse, é pobre, mas bastante farta e a ninguem fica fechada.

Deu logo o exemplo, e descavalgou do cavallinho zambro, o qual foi por si correndo em direcção a uma dependencia da casa com formas de tosca estrebaria.

Apeou-se igualmente Cyrino, mas, ao penetrar n'uma especie de alpendre de palha que ensombrava a frente toda, mostrou repentina e viva contrariedade no gesto e na physionomia.

--Ora, Sr. Pereira, exclamou elle batendo com o tacão da bota n'um sabugo de milho, só agora é que me lembro que as minhas cargas vão todas tomar caminho do Leal e aqui me deixam sem roupa, nem medicamentos. Que massada! Deviamos ter esperado na boca da sua picada.

Respondeu-lhe o mineiro todo desfeito em expansivo riso:

--Olé, pois o doutor é tão novato assim em viagens? Então pensa que lá não deixei aviso seguro á sua gente? Não se lembra de um ramo verde que puz bem no meio da estrada real?

--É verdade, confirmou Cyrino.

--E então? D'aqui a pouco a sua camaradagem está batendo o nosso rasto. Entremos, que a fome já vai apertando.

Consistia a morada de Pereira n'um casarão vasto e baixo, coberto de sapé, com uma porta larga entre duas janellas muito estreitas e mal abertas. Na parede da frente que, talvez com o peso da coberta, bojava sensivelmente fóra da vertical, grandes rachas longitudinaes mostravam a urgencia de sérias reparações em toda aquella obra feita de terra amassada e grandes páos a pique.

Ao oitão da direita existia encostado um grande paiol construido de troncos de palmeiras, por entre os quaes iam rolando as espigas de milho, com o continuo fossar dos porquinhos, que dalli não arredavam pé.

Corrido na frente de toda a vivenda, via-se um alpendre de palha de bority, sustentado por grossas taquaras, ligeiro appendice acrescentado por occasião de alguma passada festa, em que o numero de convidados ultrapassara os limites de abrigo da hospitaleira habitação.

Internamente era ella dividida em dous lanços: um, todo fechado, com excepção da porta por onde se entrava, e que constituia o commodo destinado aos hospedes: outro, á rectaguarda, pertencia, á familia, ficando portanto completamente vedado ás vistas dos estranhos e sem communicação interna com o compartimento da frente.

Era de barro compacto e socado o chão desta sala, vendo-se n'elle signaes de que ás vezes alli se acendia fogo: pelo que estavam o sapé do forro e o ripamento revestidos de luzidia e tenue camada, de picuman que lhes dava brilho singular como se tudo fôra jacarandá envernizado.

--Isto aqui, disse Pereira penetrando na sala e sentando-se n'uma tripeça de páo, não é meu, é de quem me procura. Poucos vêm cá de certo parar, mas emfim é sempre bom contar com elles... Minha gente mora na dependencia dos fundos.

E apontou para a parede fronteira á porta de entrada, fazendo um gesto para mostrar que a casa se estendia além.

--Sr. Pereira, disse Cyrino recostando-se a uma solida marqueza, não se incommode commigo de maneira alguma... Faça de conta que aqui não ha ninguem.

--Pois então, retorquio o mineiro, deite-se um pouco, emquanto vou lá dentro ver as novidades. A hora é mais de comer, que de cochilar; mas espere deitadinho e a gosto, o que é sempre mais commodo do que ficar de pé ou sentado.

Não desprezou o hospede o convite. Tirou o pala, puxou as botas e, cruzando-as, fez dos canos travesseiros, em que descansou a cabeça.

Quem se colloca em posição horizontal, depois de vencidas umas estiradas leguas, adormece com certeza. Depressa veio, pois, o somno cerrar as palpebras do recem-chegado a entumecer-lhe o peito com socegada respiração.

Dormiu talvez hora e meia, e mais houvera dormido, se não fosse acordado pelo tropel de animaes que paravam, e por grita de gente a pôr cargas em terra. Assomou Pereira á porta com ar jovial.

--Então que lhe disse eu?

--De facto; estou agora socegado.

--E o Sr. tomou uma boa _data_[31] de somno.

--_Quem sabe_[32] uma hora?

--Boa duvida, se não mais. Fiquei todo esse tempo ao lado de _Nocencia_, que de frio batia o queixo, como se estivesse agora em Ouro-Preto, quando cahe geada na rua.

--Então não vae melhor?

--Qual!... Depois que o Sr. tiver comido, ha-de ir vel-a. Está, pobresinha, tão desfeita que parece doente de uns tres mezes atraz.

--Felizmente, observou Cyrino com alguma enfatuação, aqui estou eu para pôl-a de pé em pouco tempo.

--Deus o ouça, disse Pereira com verdadeira uncção.

--Patricios! Ó gente! gritou elle em seguida para os dois camaradas chegados de pouco, vão mecês sentar naquelle rancho, alli. Perto ha boa agua, e lenha é o que não falta: basta estender o braço. Olhem dêm ração de fartar aos animaes. Aproveitem o milho, emquanto ha: é a _sustancia_ desses bichos. Aqui, vendo-o baratinho. Um _atilho_[33] por um _cobre_[34] e não são espigas chochas, nem de grão _soboró_[35]. Eh! lá! Maria Conga, vamos com isso!... _janta_ a mesa!...

Foram o chamado e as indicações de Pereira cumpridas sem demora.

Appareceu a velha escrava, que estendeu em larga e mal aplainada mesa uma toalha de algodão, grosseira mas muito alva, sobre a qual derramou duas boas cuias de farinha de milho: depois, emborcou um prato fundo de louça azul, e ao lado collocou uma colher e um garfo de metal.

--Sente-se, doutor, disse Pereira para Cyrino, agora não _manduco_ com mecê, porque já petisquei lá dentro. Desculpe se não achar a comida do seu agrado.

Vinha nesse momento entrando Maria Conga com dois pratos bem cheios e fumegantes, um de feijão cavallo, outro de arroz.

--E as hervas? peguntou Pereira. Não ha?

--Nhôr-sim. Eu trago já, respondeu a preta que com effeito voltou d'ahi a pouco.

Tornou o mineiro a desculpar-se da insufficiencia e mau preparo da comida.

--Não lhe dou hoje lombo de porco; mas o promettido não cae em esquecimento, isto lhe posso assegurar.

--Estou muito contente com o que ha, protestou com sinceridade Cyrino.

E, de facto, pelo modo porque começou a comer, repetindo animadas vezes dos pratos, deu evidentes mostras de que falava inteira verdade.

--Maria, disse Pereira para a escrava que se fora collocar a alguma distancia da mesa com os braços cruzados, traz agora _mel_[36] e café com _doce_[37].

--Ah! exclamou Cyrino com patente satisfacção estirando os braços, fiquei que nem um ovo. O feijão estava de patente. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo, que me deu este bom agasalho.

--Amen! respondeu Pereira.

--Agora, amigo meu, disse o moço depois de pequena pausa, estou ás suas ordens; podemos ver a sua doentinha e aproveitar a parada da febre _para mim_[38] atalhal-a de prompto. Em taes casos, não gosto de adiamentos.

Cobriu-se o rosto do mineiro de ligeira sombra: franziram-se lhe os sobrolhos, e vaga inquietação lhe pairou na fronte.

--Mais tarde, disse elle com precipitação.

--Nada, meu senhor, retrucou Cyrino, quanto mais cedo, melhor. É o que lhe digo.

--Mas, que pressa tem mecê? perguntou Pereira com certa desconfiança.

--Eu? respondeu o outro sem perceber a intenção, nenhuma. É mesmo para bem da moça.

Acenderam-se os olhos de Pereira de repentino brilho.

--E como sabe que minha filha é moça? exclamou com vivacidade.

--Pois não foi o senhor mesmo quem mo disse na _prosa_ do caminho?

--Ah! ... é verdade. Ella ainda não é moça... Quatorze, quinze annos, quando muito... Quinze annos e meio... Uma creança, coitadinha!...

--Emfim, replicou o outro, seja como fôr. Quando o Sr. quizer, venha procurar-me. Emquanto espero, remexerei nas minhas malas e tirarei alguns remedios para tel-os mais á mão.

--Muito que bem, aprovou Pereira, bote os seus _trens_[39] naquelle canto e fique descansado: ninguem bulirá nelles... Quanto a minha filha ... eu ja venho ... dou um pulo lá dentro, e ... depois conversaremos.

[Nota 31: Quantidade, porção.]

[Nota 32: Talvez.]

[Nota 33: Um atilho compôe-se de 4 espigas amarradas.]

[Nota 34: Dois vintens.]

[Nota 35: Soboró é o grão falhado.]

[Nota 36: Melado.]

[Nota 37: Rapadura de assucar.]

[Nota 38: É este erro commum no interior de todo o Brazil e sobretudo na provincia de S. Paulo, onde pessoas até illustradas nelle incorrem com frequencia.]

[Nota 39: Trem na provincia de Matto-Grosso é uma das palavras mais empregadas e com as mais singulares accepções. Neste caso significa objectos, cargas etc.]

CAPITULO V

AVISO PREVIO

Onde ha mulheres, ahi se congregam todos os males a um tempo.

MENANDRO.

Nunca é bom que um homem sensato eduque seus filhos de modo a desenvolver-lhes de mais o espirito.

EURIPIDES.--_Medéa._

Filhos, sois para os homens o encanto da alma.

MENANDRO.

Estava Cyrino fazendo o inventario da sua roupa e já começava a anoitecer, quando Pereira novamente a elle se chegou.

--Doutor, disse o mineiro, pode agora mecê entrar para ver a pequena. Está com o pulso que nem um fio, mas não tem febre de qualidade nenhuma.

--Assim é _bem melhor_[40], respondeu Cyrino.

E, arranjando precipitadamente o que havia tirado da canastra, fechou-a e pôz-se de pé.

Antes de sahir da sala, deteve Pereira o hospede com ar de quem precisava tocar em assumpto de gravidade e ao mesmo tempo de difficil explicação.

Afinal começou meio hesitante:

--Sr. Cyrino, eu cá sou homem muito bom de genio, muito amigo de todos, muito accommodado e que tenho o coração perto da boca, como vosmecê deve ter visto.

--Por certo, concordou o outro.

--Pois bem, mas ... tenho um grande defeito; sou muito desconfiado. Vae o doutor entrar no interior da minha casa e ... deve portar-se como...

--Oh, Sr. Pereira! atalhou Cyrino com animação, mas sem grande estranheza, pois conhecia o zelo com que os homens do sertão guardam da vista dos profanos os seus aposentos domesticos, posso gabar-me de ter sido recebido no seio de muita familia honesta e sei proceder como devo.

Expandiu-se um tanto o rosto do mineiro.

--Vejo, disse elle com algum acanhamento, que o doutor não é nenhum _pé rapado_, mas nunca é bom facilitar... E já que não ha outro remedio, vou dizer-lhe todos os meus segredos... Não mettem vergonha a ninguem, com o favor de Deus; mas em negocios da minha casa não gosto de bater lingua... Minha filha _Nocencia_ fez 18 annos pelo Natal, e é rapariga que pela feição parece moça de cidade, muito ariscasinha de modos, mas bonita e boa deveras... Coitada, foi creada sem mãe, e aqui nestes _fundões_[41]. Tenho outro filho, este, um latagão, barbado e _grosso_[42] que está trabalhando agora em porcadas para as bandas do Rio.

--Ora muito que bem, continuou Pereira caindo aos poucos na habitual garrulice, quando vi a menina tomar corpo, tratei logo de casal-a.

--Ah! é casada! perguntou Cyrino.

--Isso é, é e não é. A coisa está apalavrada. Por aqui costuma labutar no costeio do gado para S. Paulo um homem de mão cheia, que talvez o Sr. conheça ... o Manecão Dóca...

--Não, respondeu Cyrino abanando a cabeça.

--Pois _isso_ é um homem ás direitas, desempenado e _trabucador_[43] como elle só ... fura estes sertões todos e vem tangendo[44] pontas de gado que mettem pasmo. Tambem dizem que tem _bichado_[45] muito e ajuntado cobre grosso, o que é possivel, porque não é gastador nem dado a mulheres. Uma feita que estava aqui de pousada ... olhe, mesmo neste logar onde estava mecê inda _agorinha_, falei-lhe em casamento ... isto é, dei-lhe uns toques ... porque os paes devem tomar isso a si para bem de suas _familias_[46]; não acha?

--Boa duvida, approvou Cyrino, dou-lhe toda a razão; era do seu dever.

--Pois bem, o Manecão ficou _ansim_ meio em duvida; mas quando lhe mostrei a pequena, foi outra cantiga... Ah! tambem é uma menina!...

E Pereira, esquecido das primeiras prevenções, deu um muchôcho expressivo, apoiando a palma da mão aberta de encontro aos grossos labios.

--Agora, está ella um tanto desfeita; mas, quando tem saúde é coradinha que nem mangaba do arêal. Tem cabellos compridos e finos como sêda de paina, um nariz mimoso e uns olhos matadores...

--Nem parece filha de quem é...

A gabos imprudentes era levado Pereira pelo amor paterno.

Foi o que repentinamente pensou lá comsigo, de modo que, reprimindo-se, disse com hesitação manifesta:

--Esta obrigação de casar as mulheres é o diabo!... Se não tomam estado, ficam _jururús_ e _fanadinhas_...; se casam podem cair nas mãos de algum marido malvado... E depois, as historias!... Hi, meu Deus, mulheres numa casa, é coisa de metter medo... São redomas de vidro que tudo pode quebrar... Emfim, minha filha, emquanto solteira, honrou o nome de meus paes... O Manecão que se aguente, quando a tiver por sua... Com gente de sáia não ha que fiar... Cruz! botam familias inteiras a perder, emquanto o demo esfrega um olho.

Esta opinião injuriosa sobre as mulheres é, em geral, corrente nos nossos sertões e traz como consequencia immediata e pratica, além da rigorosa clausura em que são mantidas, não só o casamento convencionado entre parentes muito chegados para filhos de menor edade, mas sobretudo os numerosos crimes commettidos, mal se suspeita possibilidade de qualquer intriga, amorosa entre pessoa da familia e algum estranho.

Desenvolveu Pereira todas aquellas idéas e applaudiu a prudencia de tão preventivas medidas.

--Eu repito, disse elle com calor, isto de mulheres, não ha que fiar. Bem faziam os nossos do tempo antigo. As raparigas andavam direitinhas que nem um fuso... Uma piscadella de olho mais duvidosa, era logo páu... Contaram-me que hoje lá nas cidades ... arrenego! ... não ha menina, por pobresinha que seja, que não saiba ler livros de letra de forma e garatujar no papel ... que deixe de ir a _fonçonatas_ com vestidos abertos na frente como _raparigas fadistas_ e que saracoteiam em dansas e falam alto e _mostram os dentes_ por dá cá aquella palha com qualquer _tafulão_ malcreado ... pois pelintras e beldroegas não faltam... Cruz!... Assim, tambem é demais; não acha? Cá no meu modo de pensar, entendo que não se maltratem as coitadinhas, mas tambem é preciso não dar azas ás formigas... Quando ellas ficam taludas, atamanca-se uma festança para casal-as com um rapaz decente ou algum primo, e acabou-se a historia...

--Depois, acrescentou elle abrindo expressivamente com o pollegar a palpebra inferior dos olhos, cautela e faca afiada para algum meliante que se faça de[47] tolo e venha engraçar-se fóra de villa e termo... Minha filha...

Pereira mudou completamente de tom:

--Pobresinha... Por esta não ha-de vir o mal ao mundo ... é uma pombinha do céu ... Tão boa, tão carinhosa!... E feiticeira!! Não posso com ella ... só o pensar em que tenho de entregal-a nas mãos de um homem, bole commigo todo... É preciso, porém. Ha annos ... devia já ter cuidado nesse arranjo, mas ... não sei ... cada vez que pensava nisso ... caia-me a alma aos pés ... Tambem é menina que não foi creada como as mais... Ah! Sr. Cyrino, isto de filhos, são pedaços do coração que a gente arranca do corpo e bota a andar por esse mundo de Christo.

Humedeceram-se ligeiramente os cilios do bom pae.

--O meu mais velho para, Deus sabe onde.... Se eu morresse neste instante, ficava a pequena ao desamparo... Tambem, era preciso acabar com esta incerteza... Além disso, o Manecão prometteu-me deixal-a aqui em casa, e deste modo fica tudo arranjado ... isto é remediado, filha casada é traste que não pertence mais a pae.

Houve uns instantes de silencio.

--Agora, proseguiu Pereira com certo vexame, que eu tudo lhe disse, peço-lhe uma coisa: veja só a doente e não olhe para _Nocencia_ ... falei assim a mecê, porque era de minha obrigação... Homem nenhum, sem ser muito chegado a este seu creado, pisou nunca no quarto de minha filha... Eu lhe juro... Só em casos destes de extrema _percisão_...

--Sr. Pereira, replicou Cyrino com calma, já lhe disse e torno-lhe a dizer que, como medico, estou ha muito tempo acostumado a lidar com familias e a respeital-as. É este meu dever, e até hoje, graças a Deus, a minha fama é boa... Quanto ás mulheres, não tenho as suas opiniões, nem as acho razoaveis nem de justiça. Entretanto, é inutil discutirmos, porque sei que isso são prevenções vindo de longe, e quem torto nasce, tarde ou nunca se endireita.... O Sr. falou-me com toda a franqueza, e tambem com franqueza, lhe quero responder. No meu parecer, as mulheres são tão boas como nós, senão melhores: não ha pois motivo para tanto desconfiar dellas e ter os homens em tão boa conta... Emfim, essas suas idéas podem quadrar-lhe á vontade, e é costume meu antigo a ninguem contrariar, para viver bem com todos e delles merecer o tratamento que julgo ter direito a receber. Cuide cada qual de si, olhe Deus para todos nós, e ninguem queira arvorar-se em palmatoria do mundo.

Tal profissão de fé, expedida em tom dogmatico e superior, pareceu impressionar agradavelmente a Pereira, que fôra applaudindo com expressivo movimento de cabeça a sensatez dos conceitos e a fluencia da phrase.

[Nota 40: Locução muito usual no interior.]

[Nota 41: Sertões.]

[Nota 42: Gordo.]

[Nota 43: Trabalhador.]

[Nota 44: Este elegante verbo é muito usado no interior.]

[Nota 45: Feito bichas, ganho dinheiro.]

[Nota 46: Filhas.]

[Nota 47: _Fazer-se_ de brazileirismo corrente no interior do paiz.]

CAPITULO VI

INNOCENCIA

Nesta donzella é que se acham juntas a minha vida e a minha morte.

HENOCH.--_O livro da amizade._

Jamais vira cousa tão perfeita como o seu rosto pallido, os seus olhos franjados de sedosos cilios muito espessos e o seu ar meigo e doentio.

GEORGE SAND.--_Os mestres gaiteiros._

Tudo, em Fenella, realçava a idéa de uma miniatura. Alem do mais, havia em sua physionomia e, sobretuto no olhar, extraordinaria promptidão, fogo e atilamento.

WALTER SCOTT.--_Peveril do Pico._

Depois das explicações dadas ao seu hospede, sentiu-se o mineiro mais despreoccupado.

--Então, disse elle, se quizer, vamos já ver a nossa doentinha.

--Com muito gosto, concordou Cyrino.

E, sahindo da sala, acompanhou Pereira, que o fez passar por duas cêrcas e rodear a casa toda, antes de tomar a porta do fundo, fronteira a um magnifico laranjal, naquella occasião todo pontuado das brancas e olorosas flores.

--Neste lugar, disse o mineiro apontando para o pomar, todos os dias se juntam tamanhos bandos de _graúnas_[48], que é um barulho dos meus peccados. _Nocencia_ gosta muito disso e vem sempre coser debaixo do arvoredo. É uma menina exquesita...

Parando no limiar da porta, continuou com expansão:

--Nem o senhor imagina ... ás vezes, aquella criança tem lembranças e perguntas que me fazem _embatucar_ ... Aqui, havia um livro de horas da minha defunta avó.

... Pois não é que um bello dia ella me pediu que lhe ensinasse a ler?... Que idéa!

... Ainda ha pouco tempo me disse que quizera ter nascido princeza... Eu lhe retruquei: E sabe você o que é ser princeza? Sei me _secundou_[49] ella com toda a clareza, é uma moça muito boa, muito bonita, que tem uma coroa de diamantes na cabeça, muitos _lavrados_[50] no pescoço e que manda nos homens... Fiquei meio tonto. E se o senhor visse os modos que tem com os bichinhos?!... Parece que está falando com elles e que os entende... Uma _bicharia_[51], em chegando ao pé de _Nocencia_, fica mansa que nem ovelhinha parida de fresco... Se fosse agora a contar-lhe historias dessa rapariga, seria um não acabar nunca... Entremos, que é melhor...