Part 2
Nesta porção de estrada, ensombrada pelas arvores de vistoso cerrado, o leito, ainda que já bastante arenoso, é firme e parece mais álea de bem tratado jardim, do que caminho de tropas e carreadores.
Ainda augmenta os encantos daquelle lance a innumera quantidade de rolas caboclas a brincar na areia e de pombas de cascavel, cujo bater de azas produz um arruido tão caracteristico e singular.
O nosso viajante, se caminhava distrahido e meio pensativo, não parecia, comtudo, de genio sombrio ou pouco divertido.
Muito ao contrario, sacudia ás vezes o torpôr em que vinha e entrava a cantarolar, ou assoviar, esporeando a valente cavalgadura, que na marcha que tomava ia abanando alternadamente as orelhas com o movimento cadencial da cabeça.
N'uma dessas reacções contra alguma preoccupação, disse em voz alta, puxando por um relogio de prata, seguro em corrente do mesmo metal:
--Ás duas horas pretendo sestear no paiol do Leal. Falta pouco para o meio dia, e tenho tempo diante de mim a botar fóra...
Moderou, pois, a andadura que levava o animal e mais activamente recomeçou a zurzir os galhos das arvores bocejando de tedio.
Tambem pouco tempo caminhou só, por isto que em breve ao seu lado emparelhou outro viajante, escanchado n'um cavallinho feio e zambro, mas muito forte, o qual, coberto como estava de suor, mostrava ter vindo quasi a galope.
Homem já de alguma idade, o recem-chegado era gordo, de compleição sanguinea, rosto expressivo e franco. Trajava á mineira e parecia como realmente era, morador daquella localidade.
[Ilustração: Olá, patricio, exclamou conchegando a cavalgadura.]
--Olá, patricio, exclamou elle conchegando a cavalgadura á da pessoa a quem interpellava, então se vai botando para Camapoan?
Olhou o nosso cavalleiro com desconfiança e sobranceria para quem o interrogava tão sem ceremonia e meio-enviezado respondeu:
--Talvez sim ... talvez não ... Mas a que vem a pergunta?
--Ah! desculpe-me, replicou o outro rindo-se, nem siquer o saudei... Sou mesmo um estabanado... Deus esteja comvosco. Isto sempre me acontece... A minha lingua fica as vezes tão douda que se põe logo a bater-me nos dentes ... que é um Deus nos acuda e ... não ha que avisar: agua vae! Olhe, por vezes já me tem vindo damno, mas que quer? É sestro antigo... Não que eu seja malcriado, Deus de tal me defenda, _abrenuncio_; mas pega-me tal comichão de fallar que vou logo, sem tir-te, nem guar-te, dando á taramela...
A volubilidade com que foram ditas estas palavras causou certo espanto ao mancebo e o levou a novamente encarar o inopinado companheiro, desta feita com mais demora e ar menos altivo.
Notou então a physionomia alegre e bonachã do tagarella e, com ar de sympathia, correspondeu ao communicativo sorriso daquelle que, á força, queria travar conversação.
--Pelo que vejo, disse elle, o Sr. gosta de prosear.
--Ora se! retrucou o mineiro. Nestes sertões só sinto a falta de uma cousa: é de um christão com quem de vez em quando dê uns dedos de _parola_. Isto sim, por aqui é _vasqueiro_. Tudo anda tão calado!... uma verdadeira caipiragem!... Eu, não. Sou das Geraes[13] _geralista_ como por cá se diz; nasci no Parahybuna, conheci no meu tempo pessoas de muita educação, gente mesma de _truz_ e fui criado na Matta do Rio como homem e não como bicho do _monte_[14].
--Ah! o senhor é de Minas?
--Geraes, se me faz favor. Baptizei-me em Vassouras, mas sou mineiro da gemma. Andei séca e méca antes de vir deitar poita neste _paiz_. Isto já faz muito tempo, pois tambem vou ficando velho. Ha mais de quarenta annos pelo menos que sahi da casa dos meus pais...
E interrompendo o que dizia, perguntou:
--O senhor também é de Minas?
--Nhor-não, respondeu o outro. Sou caipira de S. Paulo: nasci na villa de Casa-Branca, mas fui criado em Ouro-Preto.
--Ah! na cidade Imperial[15]?...
--Lá mesmo.
--Então é quasi de casa, replicou o mineiro rindo-se ruidosamente. Ora, quem diria! Por isto me batia a passarinha, quando vi o seu rasto fresco na areia. Ahi vai, disse eu por vezes com os meus botões um sujeitinho que não tem pressa de pousar. Tambem tocando o meu _canivete_, tratei de agarral-o para não fazer a viagem a olhar para o céu e a banzar. Acha que obrei mal?
--Não, senhor, protestou o moço com affabilidade. Muito lhe agradeço a intenção. Assim alcançarei sem cansaço o Leal, onde pretendo dar hoje com os ossos.
--Oh! exclamou o outro todo expansivo, a caminhada é a mesma. Pois, meu rico senhor, eu moro a meia legua do Leal, torcendo á esquerda, e se vosmecê não tem compromissos lá com o homem fár-me-ha muito favor agasalhando-se em tecto de quem é pobre, mas amigo de servir. Minha tapera[16] é pouco retirada do caminho, e quem vem montado como o senhor, não tem que andar contando bocadinhos de leguas.
Convite tão espontaneo e amavel não podia deixar de ser bem aceito, sobretudo naquellas alturas, e trouxe logo entre os dous caminhantes a familiaridade que tão depressa se estabelece em viagem.
--Com toda a satisfacção irei parar em sua casa, retrucou o joven. Nunca vi o Leal, pois agora é a primeira vez que cruzo este sertão, e ando de pouso em pouso, pedindo um cantinho de paiol ou de rancho para passar a noite com os meus camaradas.
--Traz então tropa?
--Tropa, não; apenas dous bagageiros que vem com as minhas cargas e uma besta á _dextra_.
--Olá! o amigo viaja á fidalga, observou o mineiro com gesto folgazão.
--Qual!... Bastantes privações tenho já cortido.
--De certo não as sentirá em nossa casa todo o tempo que lá quizer ficar. Não encontrará _luxarias_[17] nem cousas da capital, unicamente o que se póde ter nestes _mundos_[18]: quatro paredes de páo a pique mal rebocadas, uma cama de vento, bom feijão a fartar, hervas á mineira, arroz de papa, farinha de milho torradinha, café com rapadura e talvez até um lombo fresco de porco.
--Olá! exclamou o moço rindo-se com expansão, vou passar vida de capitão-mór. Não queria tanto, bastava-me...
--O que sobretudo desejo é que tenha commigo o coração na boca. Se não gostar do passadio, vá logo _desembuxando_. Na minha rancharia pousa pouca gente, porque fica para dentro da estrada ... assim, talvez lhe falte alguma cousa; em todo o caso farei pelo melhor...
Depois de breve pausa, continuou:
--_Mas porem_ creio que já é occasião, agora que nos conhecemos como dous amigos do tempo do Rojão, saber com quem lidamos. Eu, quanto a mim, me chamo Martinho dos Santos Pereira e a minha historia conto-lh'a em duas palhetadas... Sua graça, ainda que mal pergunte?
--Cyrino Ferreira de Campos, respondeu o outro viajante, um criado para o servir.
--Obrigado, agradeceu Pereira inclinando-se cortezmente e levando a mão ao chapéu. Como lhe disse ha pouco, minha historia é historia de entrar por uma porta e sahir por outra. Minha gente não é de má raça, pelo contrario; meu pai, que Deus lhe dê a gloria, possuia alguma cousa de seu e deixou aos seus muitos filhos um nome limpo e respeitado. Cada qual de nós--eramos sete--tomou o seu rumo. Quanto a mim, casei muito mocinho e fui morar na Diamantina, onde abri casa de negocio. Depois de alguns annos, uns bons, outros _caipóras_, morreu minha dona e mudei-me, a principio, para Piumhy e mais tarde para Uberaba. A vida começou a desandar-me de todo, e fiz logo este calculo: estar tão longe, antes afundar-me no matto de uma boa feita. Vendi minha lojinha de ferragens e internei-me até cá com tres escravos. Ha doze annos que moro nestes _socavões_[19] e, palavra de honra, até ao presente não me tenho arrependido. Na minha situação ha fartura, e louvado seja! nunca passei necessidade... Não posso por isto queixar-me sem ingratidão. Deus Nosso Senhor Jesus Christo tem olhado para mim, e me julgo bem amparado, sobretudo quando me lembro do _despotismo_[20] de miserias, que vai por estas terras fóra... Cruzes! nem falar n'isto é bom... Diga-me porém uma cousa: vosmecê para onde se atira?
--Homem, Sr. Pereira, não tenho destino certo.
--Deveras? Então está caminhando á toa?
--Eu ponho-lhe já tudo em pratos limpos. Ando por estes _fundões_[21] curando maleitas e feridas _brabas_.
--Ah! exclamou Pereira com manifesto contentamento, vosmecê é doutor, não é? Physico, como chamavam os nossos do tempo de dantes.
--É facto, confirmou Cyrino com alguma satisfacção.
--Ora, pois, muito que bem, cahe-me a sopa no mel; sim, senhor, vem mesmo ao pintar ... a talhe de fouce.
--Porque?
--Daqui a pouco saberá... Mas, diga-me ainda... Onde é que vosmecê leu nos livros, aprendeu suas historias e bruxarias? Na côrte do Imperio?
--Não, respondeu Cyrino, primeiro no collegio do Caraça; depois fui para Ouro Preto, onde tirei carta de pharmacia.
E acrescentou com infatuação:
--Desde então tenho batido todo o poente de Minas e feito curas que é um milagre.
--Ah! a sabença é cousa boa... Eu tambem tinha geito para saber mais do que lêr e escrever, isto mesmo _malmente_; mas quem nasceu para carreiro, vira, mexe, larga e pega, sempre acaba junto ao carro. Com o que, entonces, vosmecê entende de curar?...
--Entendo, affirmou Cyrino sem o menor constrangimento.
--Pois cahiu-me muito ao geito na mão; sim, senhor. Estou com uma menina doente de maleitas, minha filha, e por essa causa tinha ido a Sant'Anna buscar quina do commercio; mas lá não havia da maldita e voltava bem agoniado. Ora...
--Trago, interrompeu o outro, muito remedio nas minhas malas. Para sezões, tenho uma composição infallivel...
--Já se sabe; entra composição de quina. Deveras é santa mézinha. A pequena tomou a do campo; mas essa pouco _talento_[22] tem, de maneira que a sezão não lhe deixou o corpo.
--Ha quantos dias appareceu o tremor de frio? perguntou o intitulado doutor.
--Faz hoje, salvo engano, dez dias.
Até agora era uma rapariga _forçuda_, sadia e rosada como um jambo; nem sei até como lhe entrou a maleita no corpo. Ninguem póde fiar-se na tal villa de Sant'Anna; é uma peste de febres. Eu bem a não queria levar até lá; mas ella pediu tanto que consenti! demais como era para ver a madrinha, uma boa senhora, de muita _circumstancia_[23], a mulher do major Mello Taques... Não conhece?
--Pois não.
--E dá-se com o major? perguntou Pereira para abrir novo campo á sua garrulice.
--Quando pousei na villa, estive com elle.
--E não gostou? Aquillo sim é homem ás direitas. Tambem é páu para toda a obra na Senhora Sant'Anna é o _tutú_[24] de lá. Em querendo taramelar um pouco mais a meu gosto, busco o compadre. Isto arma logo uma conversa que me dá um fartão... E depois pessoa de muitas lettras... Escreve ao governo; é juiz de paz, major reformado, serve de juiz municipal, já fez a campanha dos Farrapos lá no Rio Grande do Sul para as bandas dos Castelhanos e merece muita estimação. Móra n'uma casa de _andar_[25] e tem loja muito sortida, por signal que bem baratinha para a distancia. E as historias que conta? É um nunca acabar. O homem parece que sabe o Imperio de cór e salteado! Nem o vigario! Olhe, Sr. Cyrino, vou dizer-lhe uma cousa, que talvez lhe pareça embromação: ás vezes dou um pulo até á villa só para bater lingua com o major, porque com esta gente daqui não se tira partido: _escurraçada_ e arisca que é um Deus nos acuda! Então, como lhe ia contando, galopeio até lá, e pego n'uma _mapiagem_[26] que me enche as medidas. Não ha...
--Gabo-lhe a pachorra, atalhou Cyrino. Mas, diga-me, Sr. Pereira; farei por aqui algum negocio?
--Homem, conforme. Gente doente é _matto_[27]: mas tambem _mofina_[28] como ella só. Meio arredado da minha casa, fica o Coelho que está morre não morre ha muitos annos, e é homem de boas patacas. Este, se vosmecê o curar, talvez caia com os cobres. Tudo o mais é uma _récula_ de gente _mais ou menos_.
--Vosmecê traz bastante quina do commercio? perguntou em seguida.
--Trago, respondeu Cyrino, mas é cara.
--Que é cara, bem sei. Pois é quanto basta, porque no fundo aqui tudo são sezões.
Começou então o bom do Sr. Pereira a desenrolar as diversas molestias que o haviam salteado no correr da vida, raras na verdade, mas todas perigosas; e com esse thema ás ordens achou meios e modos de falar até quasi perder o folego.
Recolheu-se o outro ao silencio e ouviu talvez preoccupado, ou em todo caso, muito distrahidamente, o que lhe contava o seu novo amigo, sahindo, de vez em quando, da apathica attenção para instigar com a voz e o calcanhar a cavalgadura, quando esta parecia querer por si tomar descanso ou buscava comer os rebentões mais appetitosos do capim a grelar.
Afinal notou Pereira o tal ou qual abatimento do companheiro.
--Vosmecê a modo que está triste? disse elle. Deixou alguma cousa de seu lá por traz?
--Homem, para ser franco, respondeu Cyrino dando um suspiro, deixei; e essa cousa é uma divida ... divida de jogo.
--Isso é mau, retrucou o mineiro fechando um tanto a cara. Por causa desse vicio e das mulheres, é que as cruzes nascem á beira das estradas. Mas é _côco_[29] grosso?
--Trezentos mil réis.
--Já é _gimbo_[30] graúdo. E com quem jogou?
--Com o Totó Siqueira, de Sant'Anna. Por isto pretendeu atrazar-me a viagem; mas prometti mandar-lhe tudo do Sucuriú por um camarada e passei-lhe um papel. No que estou pensando, é se acharei até lá meios de cumprir a palavra.
--Se lhe pagarem como devem, com certeza. Em todo o caso aperte um pouco com os doentes.
--Não imagina, replicou Cyrino com verdadeiro sentimento, quanto me tem amofinado essa maldita divida. Não pelo dinheiro, que delle faço pouco caso; mas por ter pegado em cartas, cousa que nunca tinha feito na minha vida; isto sim...
--Pois meu rico senhor, proseguiu Pereira, sirva-lhe esta de lição e tome tento com a gente do sertão, não com esses que moram nas suas casas, socegados e amigos de servir, mas com viajantes, homens de tropas e carreiros. Isso sim, é uma sucia de jogadores que andam armados de baralhos e visporas e, por dá cá aquella palha, empurram uma facada na barriga de um christão ou descarregam uma garrucha na cabeça de um companheiro, como se fosse em melancia podre. Depois, o demonio do jogo, quando entra no corpo de um desgraçado, faz logo ninho e de lá pincha fora a vergonha. Da má vida com raparigas airadas, fadistas e mulheres á toa, ainda a gente endireita; mas com cartas e sortes, só na caldeira de Pedro Botelho é que se cuida em mudar de rumo. Quem lhe fala, teve um tio morador nas Traíras, para cá de Camapoan cinco leguas, que trabalhava todo o anno na terra para vir jogar até perder o ultimo _cobre_ nas rancharias do Sucuriú.
Pereira, de posse de tão largo assumpto, contou mil historias, umas lugubres, outras jocosas, veridicas, inventadas na occasião ou reproduzidas.
Haviam no entretanto os dous caminhado bastante. Inclinára-se no horizonte o sol, e a briza da tarde já vinha soprando do lado do poente, viva, perfumosa.
--Nós, observou o mineiro, com a nossa conversa deixámos os nossos animaes vir cochilando. Também já está aqui a minha estradinha. Metta-se nella, Sr. Cyrino; em frente ia parar no Leal: minha fazendola começa neste ponto á beira do caminho e vai por ahi afóra até bem longe, um mundo de alqueires de terra, que nem tem conta.
Ao dizer estas palavras, tomou elle a dianteira e dando a direita á estrada geral, enveredou por uma aberta larga e muito sombreada que levava com voltas e tortuosidades á margem rasa de copioso e limpido ribeirão, de alveo areento, todo elle. Que sitio risonho, encantador, esse, ensombrado por magestosa e elegante ingazeira, toda ponctuada das mimosas e balsamicas floresinhas!
Os animaes, ao perceberem o bater da agua, apertaram o passo e, entrando na fresca corrente quasi até aos peitos, estiraram o pescoço e pozeram-se a beber ruidosamente, avançando aos poucos de encontro ao fio caudal, para buscarem o que houvesse mais puro em lympha.
--Não deixe a sua besta se _empanzinar_ observou Pereira. Upa! continuou elle puxando pela redea do cavallo e batendo-lhe amigavelmente na pá do pescoço, upa, Canivete! Vamos matar a fome no milho!
Transposto o ribeirão, alargava-se a vereda e, depois de cortar copada matta, abria-se n'uma verdadeira estrada, que os dous cavalleiros tomaram a meio galope.
Trasmontava afinal o sol, quando, além de ralo mattagal, surgiu a ponta de um mastro de S. João, que o mineiro saudou com mostras de grande alegria, como signal percursor da querida vivenda.
Antes, porém, de n'ella penetrarmos, digamos quem era aquelle mancebo que viajava ornado do pomposo titulo de doutor, e, o que mais é, revestido de autoridade para ir, a seu talante, applicando remedios e preconisando curas milagrosas.
[Nota 13: De Minas Geraes.]
[Nota 14: Matto.]
[Nota 15: É o titulo honorifico que tinha a capital de Minas-Geraes.]
[Nota 16: Casa velha e abandonada.]
[Nota 17: Superfluidades de luxo.]
[Nota 18: Lugares.]
[Nota 19: Buracos, lugares retirados.]
[Nota 20: Grande quantidade.]
[Nota 21: Sitios distantes, ermos.]
[Nota 22: Força, valentia. É quasi sempre tomado no sentido material.]
[Nota 23: Importancia.]
[Nota 24: _Tutú_, isto é, a pessoa de mais consideração e que tudo póde. Pereira fala do major Martinho de Mello Taques, o qual morava com effeito na villa de Sant'Anna do Paranahyba e gozava de merecida influencia.]
[Nota 25: Sobrado.]
[Nota 26: Conversação.]
[Nota 27: Isto é: ha abundancia.]
[Nota 28: Pouco liberal.--Tambem quer dizer: ou doente ou covarde.]
[Nota 29: Dinheiro.]
[Nota 30: Quantia.]
CAPITULO III
O DOUTOR
Semeai promessas: a ninguem causam desfalque, e o mundo é rico de palavras.
A esperança quando outros n'ella creem faz ganhar muito tempo.
OVIDIO.
Ao morreres, dota a algum collegio ou o teu gato.
POPE.
Sganarello--De toda parte vem gente procurar-me, e se as cousas continuarem assim, sou de parecer que de uma vez devo dedicar-me á medicina. Acho que de todos os officios é este o preferivel por que, ou se faça bem ou mal, sempre no fim ha dinheiro.
MOLIÈRE.--_O medico á força._
Nascera Cyrino de Campos, como dissera a Pereira, na provincia de S. Paulo, na socegada e bonita villa de Casa-Branca, a qual demora umas 50 leguas do littoral. Filho de um vendedor de drogas, que se intitulava boticario e a esse officio accumulava o importante cargo de administrador do correio, crescera debaixo das vistas paternas até á idade de doze annos, completos os quaes fôra enviado, em tempos de festas e a titulos de recordação saudosa, a um velho tio e padrinho, morador na cidade de Ouro-Preto, em Minas-Geraes.
Este parente, solteirão, de genio rabugento, misanthropo, e dado ás praticas da mais extrema carolice, recebeu o pequeno com máu modo e manifesto descontentamento, tanto mais quanto a presença de um estranho vinha interromper os habitos de completa solidão a que se acostumara desde longos annos.
Era homem que trajava ainda á moda antiga usando de sapatos de fivela, calções de braguilha, e cabelleira empoada com o competente rabicho.
A sua reputação de pessoa abastada era, em toda a cidade de Ouro Preto, tão bem firmada quanto a de refinado sovina, chegando a voz publica a affirmar que o seu dinheiro, e não pouco, estava todo enterrado em numerosos buracos no chão da alcova de dormir.
--Meu amigalhote, disse o tal padrinho a Cyrino, poucos dias depois da chegada, fique sabendo que por qualquer cousinha lhe sacudo a poeira do corpo. Dê-se por avisado e ande direitinho que nem um fuso.
O menino, transido de medo, passou a tarde a chorar n'um canto sombrio da casa, onde relembrou, até lhe vir o somno, a alegre vida de outr'ora, os folguedos que fazia com os camaradas na viçosa relva do Cruzeiro á entrada da villa Casa-Branca e sobretudo os carinhos da saudosa mamãe.
Em seguida áquella admoestação preventiva fôra o tio á casa de uns padres que tinham influencia na direcção do Collegio do Caraça e com elles arranjara a admissão do afilhado n'aquelle estabelecimento de instrucção.
Como finorio que era, conseguiu este resultado sem muita difficuldade, pagando-o, a juros compostos, com tentadoras promessas.
--Por ora, resmoneou elle, nada poderei fazer pela educação do rapaz; mas ... emfim ... um dia ... estou já velho, e tratarei de mostrar que não me esqueci dos bons padres que tanto me ajudam hoje.
Lançada, assim, a eventualidade de uma verba testamentaria, ficou decidida a entrada de Cyrino na casa collegial.
O presentimento da falta de protecção natural torna as crianças doceis e resignadas. Tambem não tugiu nem mugiu o caipirasinha ao penetrar no internato em que devia passar tristonhamente os melhores annos da sua adolescencia.
Optimo negocio fizera incontestavelmente o velho tio. Ia tão somente desembolsando boas palavras e, por estar agarrado á vida, chegou até a levar ao cemiterio dous dos padres que se haviam prendido ás esperanças de valiosa recordação.
Afinal como tinha por seu turno que pagar o tributo universal, um bello dia morreu quando menos se esperava, deixando muito recommendado um seu testamento, que foi com effeito aberto com sofreguidão digna de melhor exito.
Testamento havia, força é confessar; não já testamento, mas extenso arrazoado todo da letra do velho; barras de ouro, porém, ou maços de notas, nem sombra.
Esfuracou-se a casa de alto a baixo levantaram-se os soalhos; escutaram-se todas as paredes; quebraram-se os moveis: nada appareceu, nada denunciou esconderijo de riquezas, nem cousa que com isso se avizinhasse.
Descobriu-se então que aquelle carola fôra um pensador desabusado, antigo admirador de Xavier, o Tira-Dentes, que nunca tivera vintem e vivera como philosopho, grazinando lá comsigo mesmo, de tudo e de todos.
Era o seu testamento uma gargalhada meio de gosto, meio de ironia, atirada de além tumulo e corroborada pelo legado sarcastico que em pomposo codicillo, fazia aos padres do Caraça da sua bibliotheca «afim, dizia elle, de ajudar a educação dos mancebos e auxiliar as boas intenções dos seus honrados e virtuosos directores.»
Procuraram-se os taes livros, e topou-se com um bahú cheio de obras, em parte devoradas pelo cupim, que foram, incontinenti, entregues ás chammas de um grande auto de fé. Eram as Ruinas de Volney, o Homem da Natureza, as poesias eroticas de Bocage, o Diccionario philosophico de Voltaire, o Citador de Pigault-Lebrun, a Guerra dos Deuses de Parny, os romances do Marquez de Sade e outras producções de igual alcance e quilate, algumas até em francez, mas annotadas por leitor assiduo e mais ou menos convencido.
A consequencia desse pesado gracejo posthumo, que destruia de raiz o conceito de uma vida inteira, foi a immediata exclusão de Cyrino do collegio do Caraça.
Tinha então dezoito annos e, como era vivo conseguiu, apezar da natural pecha que lhe atirava o parentesco com o estrambotico e defunto protector, ir servir de caixeiro n'uma botica velha e _manhosa_ onde entre drogas e receituarios lhe foram voltando os habitos da casa paterna.
Leve era o trabalho, e o aviamento de prescripções tão lento que os ingredientes pharmaceuticos ficavam mezes inteiros nos embaçados e esborcinados frascos á espera de que alguem se lembrasse de tiral-os daquelle bolorento esquecimento.
Em localidade pequena, de simples boticario a medico não ha mais que um passo. Cyrino, pois, foi aos poucos e com o tempo creando tal ou qual pratica de receitar e, agarrando-se a um Chernoviz, já seboso de tanto uso, entrou a percorrer, com alguns medicamentos no bolso e na mala da garupa, as visinhanças da cidade á procura de quem se utilisasse dos seus serviços.
Nessas curtas digressões principiou a receber o tratamento de doutor. Então para melhor o firmar, depois de se ter despedido da botica em que servia, matriculou-se na escola de pharmacia de Ouro-Preto com a intenção de tirar a carta de boticario, que o presidente de Minas Geraes tem o privilegio de conferir, dispensando documentos de qualquer faculdade reconhecida.