Infanta: tragédia

Part 2

Chapter 23,721 wordsPublic domain

Forram-na brocados de seda branca e oiro palido; veludos doirados cobrem os coxins. Na parede da esquerda, ao centro, sobre um estrado, uma cadeira de espaldar alto, coberta de pano de oiro, tendo por fundo uma tapeçaria armoriada e, a encimá-la, um docel de lhama. Mesa rendilhada de marfim e embutidos d'oiro, ao centro, sobre uma alcatifa oriental.

Á direita e á esquerda portas cobertas por damascos brancos, brazonados.

* * * * *

É uma salla de luar em que o outomno deixou cair as folhas...

_Aias trabalham afanosas, em silencio, dobrando grandes peças de brocado d'oiro, de lhama prateada, de sedas damascadas. Outras, sentadas nos degraus do estrado, escolhem joias, que passam de mão em mão, e que a aia Leonor--pequenina como feita para o dedal--entrega á princeza.--Escurece._

_Uma das aias canta em surdina_:

«_Estava a bella Infanta_» «_No seu jardim assentada_» «_Com o pente d'oiro fino_» «_Seus cabellos penteava._» «_Deitou os olhos ao mar_» «_Viu vir uma nobre armada;_» «_Capitão que n'ella vinha_» «_Muito bem que a governava._»

INFANTA--_com abandono, deixando cair lentamente pedras soltas, uma a uma, na mão da aia_

São como gottas de sangue estes rubis... Pedaços de céu estas saphiras... Lágrimas de estrella os diamantes...

UMA AIA--_acercando-se da janella aberta_

Já vai anoitecendo... É sempre o rio o mais lindo vitral a esta hora.

INFANTA

O entardecer é feito de vitrais...

A AIA

Até o casario, em reflexos, parece feito de crystal.

OUTRA AIA

E o luar já vem de manso. Para os lados d'alem, por traz d'aquellas serras, ha uma luz azulada, um vago clarão...

OUTRA AIA

Arrefece.

_á Infanta_

Que a aragem fresca e leve, que vem do mar a esta hora, vos não faça mal, Senhora!

INFANTA

Socegai...

Lisboa, ao luar, é uma cidade d'almas, acaricia.

_bruscamente_

O mar, Leonor, quando fez mal?

_reparando num collar de esmeraldas que a aia segura, pegando n'elle, e passando-as uma a uma pelos dedos, como contas de um rosario, depois de um momento de silencio, como se fallasse para si, sonhando alto_

Ha vagas mais verdes e mais lindas ainda que estas esmeraldas... Eu gosto das esmeraldas porque me lembram o mar. O mar é verde, sempre verde; eu nunca vi o mar azul,--azul é o céu e o rio.

Olhar o mar não é ir vê-lo de longe, é ir até elle, até bem junto d'elle, é vê-lo e senti-lo em cada vaga que vem bater na penedia e desfeita se espraia pela areia... É vê-lo soffrer! É vê-lo luctar! Ondas que veem, que se espraiam, que vão, que voltam, que luctam sempre, e não repousam e não descançam em eterno soffrer!...

_Silencio. Voltando-se para a aia Leonor_

Tu tambem vês, Leonor, como os mais, o mar azul?

Tu tambem crês que o mar, o verdadeiro mar, é aquelle que se estende sereno até ao horizonte distante, azul, muito azul?

A AIA

Eu vejo o mar azul...

INFANTA

Tu olhas o céu no mar, diz antes, mas diz tambem que nunca viste o mar.

A AIA

Eu nunca soube ver como vós, Senhora!

INFANTA

Por que tens medo de ir até á praia e de estar junto d'elle, como eu, quando as vagas veem umas sobre outras, enormes como vellas ao vento, bramindo, rugindo... São mãos potentosas, gigantes, que se desfazem em espuma.

Nunca olhaste de frente as vagas?! Nunca as viste, Leonor, em transparencia?! Pois são verdes, mais verdes e mais lindas ainda que estas esmeraldas!

A AIA

Eu nunca soube ver o mar...

_depois de um silencio, procurando n'um anel de opala os reflexos, e mostrando-a á princeza_

Como é mysteriosa e tentadora! Se as pedrarias tivessem vida ... se ellas morressem ... eu diria que tinham escolhido as opalas para sarcophagos das suas cores...

OUTRA AIA

Trazem desgraça as opalas. São como maus olhados... Teem fogo ... queimam...

INFANTA

São lindas! São phosphorescentes como o mar em noites negras!... Mas escurece... Os pagens que tragam os candelabros. O nauta, dentro em pouco, estará comnosco...

UMA AIA

Já ha luar. O rio e o ceu estão de lhama...

INFANTA

Pouzem as minhas joias; não as guardem...

A AIA

E o diadema?

INFANTA--_atenta_

Tambem... pousai tudo... deixai ficar...

_levantando-se e acercando-se dos vitrais, após curto silencio_

Tantas luzes, alem, subindo a encosta! Quasi se apagam... scintillam mais, agora... Vão em filha... par a par...

_chamando a aia_

Repara, Leonor. O que será?

A AIA--_hesitante_

Talvez o Santo Viatico... talvez procissão... Mas o rio está tão lindo!

Olhai antes o rio...

INFANTA--_já não a ouvindo, attenta, em expressão de dôr_

Mas ouve-se cantar. Não ouves? Cantam ou rezam?

A AIA-_insistindo_

Olhai antes o rio... aquellas naus...

INFANTA--_sem a ouvir_

Porque será, Leonor, que os cantos de hoje são tristes, sempre tristes?! Porque foge o povo do sol e só canta e baila pela noite, como hontem?!

Parece ter medo da luz e só gostar de se esconder nas sombras... Os seus bailados, á luz dos archotes, lembram rondas de mortos, de phantasmas...

E se mestre Lopo tivesse razão?

_agarrando-se á aia, com horror_

Não respondes? Tambem tu acreditas, Leonor?!

_em grande exaltação_

Acaso as caravellas mentem?! Acaso os mundos novos não existem, e são alucinações e são chimeras?!

_depois de um silencio_

E as novas estrellas!? Que dizem ellas? Quem as ouve? Quem as procura entender?

Leonor, tu não respondes!... Tambem tu julgas?! Tambem tu acreditas?!...

A AIA--_meigamente_

Mas socegai... Bem sabeis... eu não sei.

INFANTA--_repentinamente calma, noutro tom_

Olha a sombra d'aquellas naus, alem. São sombras d'azas, voam sempre!

Mestre Lopo engana-se, as estrellas enganam-no.

_Ouve-se de novo o canto, mais distintamente:--é como um côro_

Aquellas luzes, aquelle canto, fazem-me mal. Fechem os vitrais por agora...

A AIA--_baixo, a outra aia, emquanto a Infanta volta para a cadeira de espaldar_

Não percebeu... Rezemos baixo... É um homem da armada, um mareante, que vai a enterrar...

A OUTRA AIA--_com desalento_

Mais um!... Mais um!... E já são tantos!

_Batidos pelo luar os vitrais illuminam-se._

INFANTA

Como são lindos assim, estes vitrais!

A AIA--_depois de um momento, como a findar as orações_

Lembram até, pela suavidade do colorido, as illuminuras do vosso livro d'horas...

INFANTA

O luar que as illumina é um luar de reflexos, um luar d'aguas. Abrem sobre o rio...

As janellas d'este paço estão mais altas que as de nenhum outro; quando d'ellas me acerco eu vejo o mundo!... e sinto-o e ouço-o palpitar em seus anceios--coração do Homem e de Deus!

_n'um recordar enternecido, saudosissimo_

Deitam sobre o rio as janellas d'este paço... E foi d'ellas, de junto d'esses vitrais, que eu ainda tamanina, de olhos muito abertos, deslumbrados, vi chegar as naus e caravellas que foram um dia em busca do imperio, por mares distantes... ignorados... mysteriosos...

_em recolhimento de intimos pensamentos, passando pelos dedos as perolas do collar_

É um rosario de saudades o meu collar... São contas de saudade as minhas perolas...

* * * * *

_Os olhos da princeza, fixos, pasmados, revêem o passado. As aias trocam olhares, fallam a medo... Um silencio de vida adormecida._

_De repente, distinctamente, gritos da multidão, ululante, desvairada, fanatica, sanguinaria._

A MULTIDÃO

Á morte!--Á morte!...--Herejes malditos!--Filhos de Satanaz!...--Perros tinhosos!--Bruxos de perdição!--Malditos!--Malditos!--Por Jesus Christo!--Pelos nossos filhos!--Á morte!--Á morte!...

UMA AIA--_abrindo uma das janellas, espreitando receosa, e fechando-a em seguida_

O povo anda perseguindo mais uma vez os Christãos-Novos...

INFANTA--_com soffrimento e como despertando d'um grande sonho_

Os Christãos-Novos! Julgara ter ouvido gritos de combate em terras de além-mar...

_Muito de manso entram os pagens com os candelabros; fallam baixo as aias. Um grande silencio religioso_.

UMA AIA--_á Infanta_

O nauta aguarda, Senhora, as vossas ordens...

INFANTA

Entregaste-lhe as minhas prendas? E ao pintor? E ao poeta?

_a um signal afirmativo da aia_

Que venham em bôa hora!

_As aias, sem ruido, todas de branco, veem cercar a Infanta, sentando-se uma a uma nos degraus do estrado. Sobre a mesa, dispersas, brilham as pedrarias. Á luz dos candelabros os diamantes do diadema scintillam em fogo vivo. A cruz, a esphera, e as quinas dos vitrais, em coloridos suavissimos, são brazões de luar, brazonando o Infinito_.

_Entram o Nauta, o Astrologo, o Pintor, o Poeta e alguns nobres_.

O NAUTA--_ajoelhando, tirando a espada da bainha e pousando-a no degrau do estrado_

É vossa a minha espada...

INFANTA

Que São Jorge proteja a tua espada...

PINTOR--_beijando a mão á princesa_

As minhas graças, Senhora, pelas mercês e honras que de vós recebi.

INFANTA

Uma lembrança...

POETA--_ajoelhando_

Bendita sejais, Senhora, eternamente, entre as mulheres...

INFANTA

Uma lembrança...

ASTROLOGO

As minhas bençãos vão para vós, Senhora!

INFANTA

Que Deus as confirme... Queria que viesseis para ouvir tambem, e ouvindo, dizer ás estrellas, a grande, a eterna prophecia.

_fitando-o_

Não acreditais?!

_Ao nauta_

Travara-se o combate... Contai...

_Silencio. Todos cercam o estrado; só o nauta fica frente á Infanta_.

O NAUTA--_alheado_

Como dizer-vos?... Era como se o mar, desobediente a Deus, entrasse pela terra dentro em furia insana... Cada homem, Senhora, era uma onda potentosa, gigante e indomavel.

INFANTA--_enlevada_

Somos como o mar! O mar humanizou-se em nós... Temos a voz do mar em nossas almas, temos a força das ondas em nossos braços!...

_silencio_

Ias dizendo...

NAUTA

Que tão grande era a força dos guerreiros que dir-se-hia que a força do mar estava n'elles! Os que ficaram na armada não fallavam, e eu mesmo, por mim, não sei se viviam. Eu não sabia onde estava, se no céu, se na terra, ao ver tanta façanha! Não sentia o corpo, e ainda agora penso se não foi sonho ou visão tudo o que vi!

Em nosso redor só havia gritos:--gritos de triumpho, gritos de dôr, gritos de morte! Por São Jorge os nossos abriam clareiras na multidão alucinada. Por Christo tocavam as trombetas, abafando o canto plangente, o choro louco, das mulheres, das crianças e dos velhos. As lanças e as espadas reluziam ao sol como rubis, mas o sangue não abafava o grito agudo e frio do bater dos ferros, do chocar das laminas! Gritos, só gritos, Senhora, em meu redor!

De repente, entre as gentes no combate, avistei o grande Capitão, cercado, perdido, abandonado, entre as lanças dos cavalleiros arabes... Quantas lanças? Não sei! Mas eram muitas, todas cruzadas! Era como um silveiral de lanças em seu redor... Lanças que caíram uma a uma, como se fôra tojo a ser rossado!

INFANTA

Deixai a batalha... Em nossos braços os montantes sempre foram foices de rossar lanças... Já de volta ao galeão, o Guerreiro dizia-vos?...

O NAUTA

Que o imperio ainda estava por formar... Que ia mais alem do que julgavamos. E disse então d'esta guiza, ainda me lembro, ainda me parece tê-lo em minha frente, estar a ouvi-lo:

--Tenho que obedecer á voz do meu Destino. Escutar o sonho que me chama para novos soffrimentos, maiores feitos. Em mãos de infieis estão ainda os Logares Santos. Milhares de homens lá foram para arranca-los ás profanações e nunca Deus quiz que seus desejos fossem realizados. Só um povo de gigantes e de eleitos pode remir as Terras Santas. E nunca um povo lá foi, só foram homens, crentes peregrinos, sonhadores guerreiros, de terras diferentes e estranhas! Eis o Imperio que eu quero formar. Imperio eterno de redempção eterna! Os mundos novos não bastam. Este Imperio é grande para os homens, não para Deus! Fechar os mares em nossas mãos foi empreza facil. A empreza maior é a de maior sacrificio. Esquecerei até ao fim a dôr e o soffrimento dos homens, porque morrer é não realizar o sonho idealizado... Não vamos para a conquista de mais terras;--vamos buscar a eternidade!

ASTROLOGO

Vã gloria a dos homens!... Louco engano de cuidarem eterna a fama de um momento.

INFANTA

A alma dos povos vive sempre, passa de geração em geração.

ASTROLOGO

E a memoria dos homens passa breve...

INFANTA

Os crentes não esquecem.

_ao nauta_

Ias dizendo...

NAUTA--_sereno, mas vincando as palavras quasi violentamente_

Que era maior ainda, em sonho, em força e em audacia do que o sonho dos cruzados, o sonho do guerreiro! Ligar todo o Imperio, e sobre elle estender, em benção de eterna protecção, a sombra suavissima da Cruz, bem alta alevantada nas terras remidas dos Santos Logares!... O Imperio de Christo sobre a Terra!

INFANTA--_ás aias, numa exaltação de deslumbramento e mysticismo_

Abri os vitrais para que o mundo ouça tambem...

ASTROLOGO

Ou para que chegue a este paço, o canto fatal dos Reis-cegos...

O NAUTA--_violentamente_

Cantaram, é certo... É lenda velha que elles annunciam a morte dos eleitos.

_exaltando-se_

A lenda cumprir-se-ha talvez, mas que importa?! O Imperio já está formado, já existe. É nosso o mar oriental e ocidental, de lés a lés, de cabo a cabo, e por essa costa fóra, ao brazeiro do sol, mil padrões de gloria, marcam os roteiros onde chegaram naus, caravellas, mareantes!

Os mortos mandam eternamente na terra. As almas dos herois e dos santos não morrem; vivem em alma junto dos homens e de Deus! O sonho da vida continúa na morte e cada brazão das quinas é feito de almas:--o sonho d'um santo ou de um heroi!...

POETA

O brazão fatal das Cinco Chagas...

ASTROLOGO

Calvario eterno, de soffrimento eterno, em que a alma deste povo, dia a dia, anda a ser crucificada...

INFANTA--_bruscamente_

Deixai os presagios...

_ao nauta_

Contai a vizão...

_Pelas janellas abertas entra o luar em grandes manchas azuladas_.

NAUTA--_serenamente, seguro de si, numa certeza religiosa_

Como Eleito do Destino, já na conquista da cidade, por graça de Deus, lhe fôra dado vêr Santhiago a seu lado, combatendo os moiros, de armadura branca e de vermelha cruz no manto branco. Havia uma Via-Lactea de conchas luminosas a marcar o roteiro do santo; e n'essas estrellas, o Guerreiro vira naus e caravellas! Esta foi a visão primeira, ante-manhã; depois rubro do sol, aureolado de sol, faiscante de sol, entrara na cidade...

_após curto silencio_

Agora o milagre não foi só para o Guerreiro; nós vimos tambem, eu vi tambem. No céu, para o horizonte, para os lados onde fica a Terra Santa, uma cruz immensa de sangue gottejante, abriu os braços... Enchia o céu... como se o céu fosse a vella maior de uma nau! Tangeu o côro das trombetas, ressoou pelo ar o estrondo das bombardas... E nós vimos, e eu vi, até ser sol-poente, a Cruz a gotejar no ceu azul e immenso a marcar-nos o caminho que o Guerreiro horas antes traçara. Foi então, Senhora, que eu, nós todos que o cercavamos, nos sentimos como elle, eleitos cavalleiros, mysticos cruzados, ungidos pelo Destino!...

_á côrte_

É esta a nossa fé:--se ousais nega-la, mentis aos homens e mentis a Deus!

_Silencio profundo e longo. A Infanta tem o olhar distante e vago preso ao céu. As aias, baixo, murmuram orações. O nauta, olhar de illuminado, é como cego... O silencio parece não ter fim. O luar, é branco, muito branco._

POETA--_baixo, acercando-se do astrologo_

A cruz a gottejar!... Repara na noite: o luar cahe como agua das fontes e é mais branco e mais frio do que um marmore...

ASTROLOGO

Cadaveres rosados e quentes onde os vistes, amigo?

INFANTA--_como despertando, n'uma exaltação_

Não acreditais? Negais tambem?! Negais tudo, até os milagres!? Não acreditais tambem n'elles?!... Negais?!...

ASTROLOGO--_sereno_

Eu creio e porque creio, Senhora, entendo bem... Ha mortos no mar, mortos na terra!... Vã cubiça e vã gloria, levou-nos á loucura...

NAUTA

Cavar leiras de terra, como quem cava sepulturas, é destino dos homens, mas nunca o foi dum povo.

ASTROLOGO--_continuando, como se não tivesse ouvido o nauta_

A antiga fé está perdida. Os herois, deslumbrando-se com os seus feitos, imaginam-se santos!...

_com vehemencia_

Porque vencem os homens julgam vencer o proprio Deus! Dantes morriam em santidade nos conventos, longe do mundo, e chorando e rezando remiam o homem!

Mas era d'antes... Agora...

NAUTA--_desabridamente_

Morrem a lutar, a batalhar...

ASTROLOGO--_sereno_

A matar... a escravisar...

INFANTA

Imaginais então?

ASTROLOGO

Que é de sangue como a cruz gottejante, este imperio, o nosso imperio, Senhora!

NAUTA--_num grito_

Por minha fé o juro... Mentis!...

_Silencio de espanto, prolongado e doloroso. Olhares que receiam encontrar-se; gestos que receiam acordar o silencio; estatuas..._

INFANTA--_suavemente, n'uma exaltação mystica, n'uma oração_

Sangue bemdicto, porque vive eternamente e revive a cada hora, em novas estrellas, novos mundos, novos povos!

_em exaltação maior, levantando-se_

Sangue bemdicto porque floresce. É sangue de sacrificio; almas dadas a Deus para remir outras almas, corpos dados ao mar para buscar outras vidas!...

_Com a cabeça deitada para traz, os braços erguidos, as mãos em concha, tocando-se ao de leve, como ofertando rithualmente um calix_:

Sangue que eu adoro e que eu bemdigo...

ASTROLOGO--_n'uma immobilidade de estatua, com firmesa_

Sangue de morte e vã gloria que uma sombra negra envolve, perde e esquece...

NAUTA--_como louco_

Mentira!... Traição!... Mentira!...

INFANTA--_estatica, hirta, desce os degraus do estrado. Olha em roda como petrificada; fitando o Astrologo, friamente, quasi serena_

E para alem dessa sombra, se Ella existe?...

ASTROLOGO

É tudo sombra; nada sei, nada vejo, para além...

INFANTA

Nada mais dizem as estrellas?!

ASTROLOGO--_frio, vincando as palavras_

Nada mais.

INFANTA--_com infinito orgulho_

Pouco dizem... e o nosso Imperio transfigurou o mundo!

ASTROLOGO

As maldições do Destino não perdoam...

INFANTA--_quasi violentamente_

O Destino, por nós, já foi vencido.

ASTROLOGO--_sereno, fitando-a_

Os homens enganam-se...

_A côrte entreolha-se, vazia. A Infanta acerca-se do diadema. Pega n'elle quasi a medo. Os seus dedos esguios mal lhe tocam. Beija-o. Sempre hirta e estática, junto da janella aberta, frente á noite, ergue-o em sacrificio, em elevação, ergue-o bem alto! O luar escorre-lhe pelos braços. As pedrarias scintillam intensamente. Em sagração, como se fosse poisá-lo em pedra d'ara, colloca-o nos seus cabellos negros. Assim coroada, não vê, não ouve. O sonho encarnou-se no seu coração em soffrimento amargurado. Em face da certeza do Astrologo, ella busca uma certeza maior que a domine._

INFANTA--_n'uma vibração profunda, intensissima--a sua alma frente a frente ao destino de milhares d'almas, abrangendo n'uma vizão a vida toda, o passado e o futuro, echo perdido duma voz prophetica_:

E as estrellas mentem!...

_Queda-se estática; o luar embranquece-a como um marmore. Ha claridades deslumbrantes e extranhas nos seus olhos muito abertos, sempre fixos._

* * * * *

_Estremece como labareda batida pelo vento: desmaia. Os olhos sempre abertos, sempre fixos._

_As aias amparam-na, aflictas, emquanto a côrte sae desordenada, buscando o physico. Os pagens approximam luzes; cerram os vitrais._

* * * * *

_Na Infanta os reflexos são aureolas; divinisam-na..._

Um alto de collina, arido, de hervas maninhas e rasteiras, tendo ao centro um cruzeiro tosco de granito escuro.

Manhã de sol fulgurante e quente.

Da direita alta vem um carreiro estreito, que cortando a scena de lado a lado, segue até ao rio, que se estende da esquerda ao fundo, espraiado e muito azul, em grande perspectiva, até ao mar.

Ha uma nevoa azulada envolvendo os montes distantes da margem oposta, suavisando-lhes os contornos dos cabeços.

Entre as naus e caravellas, mais junto da praia, um galeão; nos mastros, sem vellas, estandartes reaes e mil bandeiras...

Junto ao cruzeiro, gente do povo, em grupo, conversando.

UMA MULHER--_que chega_

Ainda estão na igreja. El-Rei, a côrte toda, commungou. Mas a Senhora Infanta, bastava vê-la, de joelhos, de mãos postas a rezar, era mesmo uma santinha!

OUTRA MULHER

Pois se ella é tão linda!

OUTRA MULHER

E sempre tão triste que até faz dó!

UM MARITIMO--_como procurando dar ternura á sua voz forte e enternecendo-se pouco a pouco_

Pois haviam de a vêr como eu a vi, um dia, junto ao mar. Então ella estava alegre e o mar estava mau.

O mar é como os homens, tem tambem as suas zangas, os seus ralhos. As ondas cresciam sempre, tão grandes como torres e vinham avançando pela praia dentro, cada vez mais, cada vez mais... E a Senhora Infanta a olhá-las de frente e tão esquecida, que uma vaga mais forte a molhou toda! E ella sem se mexer, sempre quêda a olhá-las, assim a modos como uma santa no altar!

A Senhora Infanta não tem medo do mar. Se a deixassem era capaz de ir como nós á aventura... Quem a viu como eu a vi nesse dia, e não soubesse quem ella era, havia de cuidar que tinha nascido no mar--que tinha sido embalada, não por aias, mas por ondas!

OUTRO MARITIMO--_com enthusiasmo e ternura_

E sempre foi assim! Ainda tamanina, quando chegavam as naus--as que tinham ido sem rumo e traziam novas terras a esta terra--já a Senhora Infanta ao lado de El-Rei as ficava a olhar, de olhos muito abertos, cheios de riso. E queria saber tudo--como fôra, o que viramos, como eram as nossas terras, onde ficavam... o que nos acontecera...--e a ouvir-nos contar nossa aventura, os seus olhos enchiam-se ainda mais de riso.

UMA MULHER

Pois agora vai triste. Eu vi-a passar para a igreja. Não olhava, não sorria... Os olhos muito abertos, olhando sempre em frente, muito brilhantes... até me fez chorar... Nunca vi olhos assim! E toda de branco! Parecia enfeitiçada!...

UM VELHO

Deixai lá... Ella tambem gosta desta loucura em que vivemos. Nunca se importou a Senhora Infanta dos que morrem no mar, dos que lá ficam nessas terras distantes a combater! Morrem: deixá-lo! A Senhora Infanta é como as mais; não se importa!...

VOZES

Calai-vos! Calai-vos!--Ave de mau agoiro!--Nós tambem temos filhos! Nós tambem temos mortos!...

O VELHO

Mas não chorais como eu...

VOZES

Calai-vos... Calai-vos!...

OUTRO VELHO--_com violencia_

É assim, é assim mesmo. Quem se importa já da terra!? Quem a lavra e a amanha com amor? É esta Babilonia que nos perde! Aqui é a torre de Babel. Só se vê estrangeiros, só se ouvem linguas estranhas que ninguem entende e que--Deus louvado!--nem parecem de gente!

D'antes a nossa terra era só nossa, tinha as portas fechadas por castellos. Agora é de todos... Perros malditos!

UM MARITIMO

Porque fosteis então batalhar em terra alheia?...

OS DOIS VELHOS

Para servir a Deus e a El-Rei; e El-Rei ia comnosco, e tambem batalhava!...

UMA MULHER

Ouvi. Tocam os sinos... El-Rei, a côrte toda, vai saír... vão, até embarcar, em procissão.

_O grupo vai augmentando; junta-se mais povo._

OUTRA MULHER

A Senhora Infanta vai como morta! Chamais doido a quem diz verdades. Não acreditais, mas é assim. Não sou Ave-agoirenta, não; mas isto é um enterro.

OUTRA MULHER

É o castigo de Deus! Andamos levados pelo Demo, sempre a tentar ao Senhor...

VOZES

Calai-vos!... Calai-vos!...

UMA MULHER--_da frente do grupo_

Já sahiram da igreja... lá sae El-Rei... a Rainha, os Principes...

OUTRA VOZ

E a Senhora Infanta vem á frente, reparai... vêde se não é como eu dizia. Vai a enterrar, vai como morta...

O Senhor Bispo vem tambem... Atraz a cleresia, toda a côrte...

OUTRA MULHER

É uma procissão... é um enterro...

UM VELHO

Sabeis as prophecias?

VOZES

Contai... dizei... contai...

O VELHO--_hesitante_

No céu, para os que sabem lêr nos astros, ha presagios maus! Quem não tem visto estes dias a lua ao nascer tinta de sangue?! É sangue de infieis, sangue de moirama ou sangue nosso? Ninguem sabe... ninguem!...

E diz-se que hade vir um Principe de tentação para nos perder. Um Principe loiro como o sol, que nos ha-de tentar! E com elle nós iremos todos, a cantar, buscar a morte! Os infieis serão na mão do Senhor o seu instrumento de castigo! O Senhor castigará nossa soberba com aquelles que abatemos!...

VOZES