Infanta: tragédia

Part 1

Chapter 13,684 wordsPublic domain

INFANTA

DO AUTOR

ORAÇÃO DA RAÇA 1918 INFANTA 1921

_a seguir_:

O REI LUZIADA

EDIÇÕES LUSITANIA _Rua Arco do Limoeiro, 17, 1.ᵒ-Lisboa_

_Todos os direitos reservados_

INFANTA

TRAGEDIA POR

MANUEL DE FIGUEIREDO

_Diz a Lenda que certo Poeta se apaixonou por uma filha do Rei D. Manuel I, o Venturoso. Chamava-se a Princeza, Beatriz e o Poeta, Bernardim._

_A Infanta foi Duqueza de Saboia, e, exilada no seu Ducado humilde e pobre, deu provas de grande engenho e sabedoria, mas a sua vida, dizem as Chrónicas e a Lenda foi triste e saudosa_...

* * * * *

_Este livro não é, nem mesmo em sua origem, a historia do amor do Poeta e da Princeza, ou uma evocação da côrte manuelina._

_Só depois de abstractamente ter «vivído» o sonho das Descobertas e das Conquistas, e de ter encontrado, para mim, o seu significado, procurei as personagens, fixei os seus valores, defini as suas atitudes e os seus gestos._

_Tem portanto este livro um sentido mais alto e mais profundo. É a Tragédia d'um momento que passou e a crença, a fé, a certeza, n'um momento que ha-de vir. É o triumpho eterno da Raça perante o Mundo, os Homens, e o Destino._

* * * * *

_Não fiz nem quiz fazer theatro. As personagens têem um sentido mais symbolico do que humano._

_A minha Alma viveu o momento passado e visionou o momento futuro:--o Triumpho espiritual da Raça!_

DRAMATIS PERSONAE

INFANTA POETA NAUTA ASTROLOGO PINTOR UM BANDARRA O PHYSICO D'EL-REI

AIAS, NOBRES, PAGENS, GENTE DO POVO, MARITIMOS, MULHERES, SOLDADOS E VELHOS.

Salla ampla, forrada d'Arrazes, abrindo para uma larga arcaria praticável. Por entre as columnatas e os rendilhados da balaústrada, avista-se o rio espraiado e colorido. Hora de sol-poente. Na distancia, terras em bruma.

PINTOR--_na arcaria_

O Céu está um boqueirão de fogo. E no movimento constante do vai-vem das aguas, os reflexos de luz estão bailando como se fôra um bailado de pedrarias a arder.

Sinto que os meus olhos enlouquecem de tanta luz, de tanta côr...

POETA--_que se aproximou_

Olha antes, álêm, os galeões que hão-de levar a Princeza!

Sem vellas, lembram ossadas...

Envolvem-nos as sombras, e as sombras são caricias de abandono e esquecimento, adormecendo meus olhos magoados...

PINTOR--_surprêso_

Para que continuar sonhando?...

POETA--_n'uma exaltação quási desvairada_

Sonhar é bem differente!

É crear um mundo nosso, onde uma só alma exista, e n'essa alma, a alegria e a dôr do Universo. É modelar o nosso sonho numa imagem, e nessa imagem viver milhares de vidas!... Vivê-las encantado n'um momento, soffrê-las perdidamente até á loucura, resurgi-las depois em novas formas, para de novo as soffrer e exaltar!...

O sonho que é attingido, que se deixa tocar, desfaz-se, aniquila-se, em esquecimento, em abandono.

Para viverem, meus sonhos em cada hora se transformam.

A imagem é sempre a mesma, é sempre Ella; n'Ella os encarno e lhes dou vida...

PINTOR

E é assim que pouco a pouco vai morrendo o amor desvairado d'outr'ora?...

POETA--_sereno, quasi indifferente_

Adormecendo, dizei antes, que morrer é apenas um gesto; o vôo necessário para uma vida maior.

Morre-se na vida infinitamente. Morre-se sempre para viver... até ser attingida a luz final, suprema, em que vida e sonho se confundem...

Na imagem, na sua imagem mystica, dulcissima, o meu amor é sempre o mesmo; na alma, maior, sempre maior...

PINTOR

Mas para que soffrer, agora que vai partir, tão doidamente?

POETA--_muito calmo_

Para a remir em minha dôr! Exalta-la no meu coração--altar do seu sacrificio!

Para a santificar na minha alma!

_n'uma mudança brusca_

Conheces bem as terras para onde vai. Por lá andaste, peregrino annos e annos e d'ellas tens dito maravilhas...

PINTOR

Minhas palavras, de tão pouco que dizem, são quási mentirosas...

POETA

Eu nunca sahí d'esta cidade de maravilha e de encanto, mas n'ella tenho sentido, vivido, o mundo inteiro!

_em exaltação_

Que importa o mundo?! As maravilhas estranhas de que fallais que importam?

A vida estonteante, allucinada, que me cerca, tem para mim, agora, a indifferença da morte e é de agonia a alegria em que vivo! Ando a enterrar a toda a hora as minhas dôres. Sou um eterno coveiro, e cavo fundo, fundo, mas os sonhos--ai de mim!--tambem teem alma!

Como hei-de enterrar minhas saudades!?

_com dolorosa serenidade_

Vai partir... Longe, alguem a espera!... E vai tê-la em seus braços, possui-la!...

Amar, é a dor mais forte e mais profunda, a dor que humanisa a creatura e a torna mulher.

Ella será mulher tambem... Mas a sua alma--eu sei, eu sinto--estará longe, estará distante, indecisa, como receosa de acordar para a vida, receosa de adormecer na morte!

_n'um esforço de recordar, materialisando_

Nunca os seus olhos serenos, suavissimos, de princeza e de menina, me olharam. Se os encontro, fogem, receosos...

Não sei o que elles buscam olhando os longes?! Ficam vagos, anciosos, illuminados, distantes... Olhar immenso, olhar profundo, visionario, de sonho, d'amor e de triumpho!

Nunca os seus olhos me olharam assim! Parecem sorver a luz! Embebem-se de luz como o céu ao acordar; são sombras de soes os olhos d'ella! Prendem-se na distancia, e assim presos, de encantados, por largo tempo nada vêem! E como ella fica então queda e hieratica!

_dolorosamente_

Para a sonhar de novo, em nova forma, anniquilo a minha carne, despedaço-a!

Nunca mais a verei olhando os longes, assim immaterial, assim divina...

Vai partir... Um principe a espera... Para que veio até mim quem tão alto nasceu?!

PINTOR--_suavemente_

E para que tão alto erguer os olhos? Há, na Terra, imagens que são sombras; lindas para ver, não para sonhar!...

_Fóra, vozes, entrecortadas, gritam_

O POVO

A armada!--A armada que volta!--A frota toda!--A nau S. Bento!--Santa Maria da Barca!--O galeão maior!--Deus os levou, Deus os trouxe na sua guarda!--Deus é Pae!--Deus é bom!--Pela Virgem Mãe!--Pelas Cinco Chagas!--Milagre!--Milagre!--A armada!--A frota toda!--A armada!--Vinde ver!--Milagre!--Milagre!--Deus os salvou!--Deus os trouxe na sua mão...

_Continuam vozes_

PINTOR

Não ouves?...

_indo á arcaria_

Na frota que entra a todo o pano, de tão vermelhas que veem, as vellas lembram enormes labaredas!...

POETA--_longe, distante, com dôr que tenta visionar para soffrer, continuando intimos pensamentos_

Há-de tocá-la!... Há-de beijá-la... Far-se-há carne tambem a sua alma!...

_ao pintor, que de novo se aproximou_

Aquellas vozes?!

PINTOR

De longe que estavas nem me ouviste... A frota grande que volta e entra a barra:--o povo, de joelhos, rezando na praia.

Escuta... vem gente...

POETA--_depois de curta hesitação, indo á arcaria, dominado_

Encantamento da morte!

_Pagens afastam o largo reposteiro de brocado. Entram, lentamente, a Infanta, suas aias e alguns nobres. O Poeta e o Pintor, de joelhos, beijam as mãos á Princeza--esguia, branca, serena, triumphal._

INFANTA

É «Frol de la mar» que vem entrando?

PINTOR

Se os meus olhos não mentem, julgo ser...

UM NOBRE--_na arcaria_

O galeão maior... Santhiago... Santa Maria da Barca... A nau São Bento... Toda a frota.

UMA AIA

A Senhora ouviu os nossos rogos pelos que andavam perdidos por sôbre as aguas do mar...

OUTRA AIA

Levou-os e trouxe-os em sua guarda...

INFANTA--_que lentamente se aproximara da arcaria, depois de um longo silencio, com deslumbramento e mysticismo_.

É mais, muito mais do que uma armada entrando de novo a barra!

Ha almas n'aquellas vellas:--sinto-as, vivem, palpitam em mim!

_exaltando-se_

São como mãos do Destino aquellas naus! Ellas andam buscando, a toda a hora, o mundo maior que Deus creou! Andam buscando, perdidas entre as ondas, os reinos da luz e do mystério, os reinos das pedrarias e do oiro!

Errantes, sem rumo, á aventura, foram quebrando o feitiço ás ilhas perdidas do mar! As ilhas, castellos encantados, que, por nossa voz, despertam a cantar! São como nossas mãos aquellas naus!

Dia a dia, andam realizando o nosso sonho! Abrindo nossos olhos deslumbrados ante horizontes novos e estranhos! Por ellas, transfigurado, o mundo acorda, desperta, da noite negra! Por ellas o mar e a terra são maiores! Por ellas o céu tem mais estrellas!

São como mãos do Destino aquellas naus! São como nossas mãos! São como mãos de Deus!

_nos olhares deslumbrados da côrte passam, por momentos, as palavras da Infanta._

_Ao Poeta_

Que faz alêm, na praia, o povo?!

POETA

Chora saudades...

INFANTA

Chorar?! E de joelhos?!...

POETA

Rezam...

INFANTA--_quási com violencia_

Mas para que rezar, chorando?! Eu rezo erguendo um cantico em minha alma deslumbrada.

Se fossem esquifes as caravellas e as naus, como rezar? Como rezar pelos mortos?

Só o sol é triumphante e glorioso! E é n'aquella luz de poente, n'aquelle céu em fogo, triumphal, supremo, que eu rezo a minha oração.

Em vez de cantarem a morte gloriosa, rezam pedindo a vida humilde que renuncia ao sonho creador... Ajoelham-se... Cegam os olhos, baixam-nos para a terra, quando os deviam abrir á luz e erguê-los para o Céu!

UMA AIA

Perdoai, mas o povo, Senhora, é simples demais para comprehender...

INFANTA

Mas não para sentir! As arvores não veem o sol, mas sentem-no e adoram-no, e para elle estendem sempre seus ramos, e para elle vão crescendo sempre, para mais o sentir e adorar!

A intelligencia vê, o sentimento adivinha!

E o mundo, por nós, é maior, mais bello, em cada dia! Communga em nós a toda a hora, e por nós se redime e engrandece!

_olhando vagamente em seu redor_

Olho os montes d'alem, aquellas terras, o rio e a casaria e tudo que me cerca, tudo, tudo, tem para mim o encantamento de um mysterio no maravilhoso de uma revelação. Tudo ri e canta e vibra e se espiritualiza em reflexos!

Só o povo chora e reza! Sente dôr o povo? São de dôr as suas orações? Em vez de entoar canticos reza ladainhas?

_á côrte_

E vós?! Acaso não sentis como eu tambem? Olhando as náus, só vêdes náus?!

_sahindo fóra, á arcaria_

Olhai agora. Vêde, como ellas vêem! A Cruz n'aquellas vellas ganhou azas. Está mais perto do Céu, é mais divina!

_com violencia_

Não sentis em verdade como eu?

Não olhais para aquellas naus como milagres de Deus?!

Não comprehendeis que é um mundo de phantasmas, tenebroso, horrendo, sombrio, que desappareceu, illuminado por nova luz, por nossa luz? Que o novo mundo que nasce em novos povos, em novas terras, em novos ideais, é nossa creação?!

_em exaltação crescente, com violencia maior, n'uma alucinação_

Onde estão os mares de sangue? Os mares de fogo? Os deuses infernais, os gigantes disformes, horrorosos, os negros boqueirões dos abysmos profundos?! Ilhas de morte! terras de fogo! brumas eternas! onde estais?!... onde estais?!...

UMA AIA--_baixo, a outra aia_

Como desvaira...

POETA--_a meia voz, ao pintor_

E sempre longe... cada vez mais longe de nós!...

INFANTA--_mais calma, continuando_

É um mundo de sangue e de morte, creado pelos homens, que desapparece. É um mundo novo de vidas novas que nasce, e em que se ergue bem alta, na tragedia suprema de luctar e vencer, a luz de Deus!

Os deuses infernais onde estão elles?!

São como nossas mãos, são como mãos de Deus, aquellas naus!...

POETA

Mas ha cadaveres, Senhora, boiando no mar...

INFANTA

Que importa triumphar ou morrer, quando, na morte e na victoria, se reza o mesmo cantico, vivendo o mesmo sonho?! Se, para alem da morte, a alma continua, e da vida ficou, em rasto triumphal, uma Via-Lactea de Herois, perpetuando...

_ao pintor_

Fixai bem a armada...

PINTOR

Meus olhos, em seu deslumbramento, estão cegos, Senhora!

_Movimento entre o povo, sussurro, vozes..._

UMA VOZ--_atona, sombria_

Dia e noite, ha uma estrada de luar por sobre as águas... São os mortos que vão a enterrar... São os mortos, amantes das vagas... Cortejo de naufragos, por cyrios de luar alumiados...

Olhae, olhae agora... É a estrada da Morte que a armada vem seguindo...

INFANTA--_com horror_

O agoiro...

UMA AIA

Vinde, Senhora, não lhe deis ouvidos.

UM NOBRE

Que os pagens o mandem afastar...

INFANTA--_em grande exaltação_

Que o afastem. Que se cale. Que ninguem o ouça. Mente!... Mente!...

_caindo em si, n'uma mudança brusca, novamente serena_

Calai-vos. Eu quero ouvir, quero entendê-lo. Como disse elle? Cortejo de naufragos...

A VOZ--_novamente_

Mas qual rumo seguir? Olhai! não vedes?! É a Morte que vem por timoneira...

_A luz, pouco a pouco, torna-se crepuscular. O rio escurece. As terras, na distancia, desapparecem na bruma._

VOZES DO POVO--_desencontradas_

Cala-te!--Cala-te!--Mau agoiro!--Pelas Cinco Chagas!...--Pela Virgem Mãe!...--Misericordia!--Misericordia!...

INFANTA

O povo nem o olha; tem-lhe medo!

De rastos, de joelhos, a gritar misericordia! Que estranho e desvairado está o povo!

O «BANDARRA»--_afastando-se_

Mas para que rezais?... para que chorais?!

Olhai o sol, olhai a luz! É tudo oiro... é tudo oiro!... O despertar não tarda, mas ainda não veio...

Por que chorais? É tudo oiro... Toca a cantar... toca a bailar, que ainda é folia...

Olhai!... porque rezaes?! Bailai!... Bailai!...

VOZES DO POVO--_a distancia, entrecortadas_

Por Santhiago!--Pela Virgem Mãe!...--Misericordia!--Christo, ouvi-nos!--Christo, valei-nos!--Christo, ajudai-nos!--Ave agoirenta!...

INFANTA

Que tem o povo? Que loucura a d'elle! Que estranha voz! Quem o entendeu?

_olhando em roda_

Ninguem?! E mestre Lopo onde está? Ide chamá-lo...

_ao Poeta e ao Pintor_

Ficai...

_a um fidalgo_

Trazei-mo aqui.

A VOZ DO «BANDARRA»--_ainda mais distante_

Porque rezais? É tudo oiro... é tudo oiro... Toca a cantar... Ide bailar... Toca a cantar que ainda é folia!...

_Curto silencio. A tarde continua escurecendo._

INFANTA--_recordando, como n'um sonho_

Quando eu, criança ainda, ia com El-Rei meu Pae ver chegar as naus, o povo não rezava, não chorava... Cantava e ria o povo; e era ainda cantando que resava! Agora chora!... Porque estranha loucura chora o povo agora?! Que vê, que sente, elle?!

A terra tem o mesmo encanto e a mesma alegria o céu! É o mesmo scenario de magia. E o povo chora... e o povo reza...

Parece não vêr o que o cerca; fica como cego a ouvir o agoureiro. Chamam-lhe a Ave-agoirenta; receiam-no, temem-no, acreditam n'elle!

Mas que verdade, teem, acaso, as suas fallas?! A sua voz, fria e distante, lembra morte, é certo. É uma voz d'alem tumulo, d'alem vida--prophetica! Ainda a julgo estar ouvindo!...

UMA AIA

Desviai de vós, Senhora, tão negro imaginar. Para que recordar palavras doidas? Para que estar, Senhora, a dar-lhe ouvidos?!

INFANTA--_impressionada_

Palavras doidas sim, palavras doidas!... Se não fôra o tom da sua voz! Como ella é fria, fria, e lembra a Morte!

UM VELHO PHYSICO--_rudemente_

A Morte não vê, não falla, não ouve. É cega, é surda, é muda a Morte! Para que estar, Senhora, imaginando que ella pode fallar na voz de um doido?

Eu, que sou physico d'El-Rei, e já um velho, a quem a morte de manso vem tomando, por vezes, estudando as caveiras interrogo-me!

Olho-as bem... Vejo n'ellas o meu dia de amanhã, e não as olho com horror; pelo contrario, vejo-as com amor, com simpathia... e até, recordando as minhas dôres, acaricio-as!

As orbitas não teem olhos; as boccas não teem lingua; os ouvidos são buracos apenas. Não podem ouvir, nem ver, nem fallar!

Porque, Senhora!? Porque a Morte é paz, socego, anulamento; é nada... Os mortos dormem e não querem que os acordem. Que se importam elles dos vivos, se repousam!?... Deixai a voz do doido...

INFANTA--_serenamente_

Porque só olhaes e interrogaes caveiras não podeis comprehender os mysterios que nos cercam. Só mestre Lopo, que lê nos astros, poderá dizer toda a verdade.

_Docemente, na distancia, os sinos tocam as Trindades._

Ave-Marias! Rezemos...

_pondo as mãos, em prece, mysticamente_

E um anjo do Senhor, cheio de luz, desceu dos Céus á Terra e disse: «Ave-Maria cheia de graça, o Senhor é comtigo...»

_Silencio. A corte ajoelha e reza por momentos; os pagens, acendem luzes._

INFANTA--_finda a oração, indo á arcaria_

Como é grande a calma religiosa d'esta hora!

Como anoiteceu depressa! A terra dorme já em sombra e bruma. Só o rio e o céu teem ainda luz!

PINTOR

Tudo adormece em silencio, tudo dorme...

Só eu fico ancioso esperando a madrugada! Tenho ancia de luz como as flores e as aves! As sombras são negras, entristecem-me; fico como cego. Só no sol, só nas côres, sinto a vida e tenho alegria e ancia de viver.

POETA

A luz só a adoro, só a sinto, no adormecer suave d'esta hora, em que a natureza inteira está tambem de mãos postas a rezar!

Luz que queima, que enlouquece, e tudo revela, tudo acorda, eu a maldigo!

Luz que é fogo em minha alma, e maravilha em meus olhos, eu a odeio.

Mas esta, em que a saudade se deixou cruxificar, e tem mãos de mysterio e acaricia, e vem de manso afagar meus olhos, embalando meu sonho pela noite fora, e em negrumes abafa minha dôr, dando-me paz, serenidade, calma, esta, Senhora minha, eu a adoro, eu a bendigo.

INFANTA

Mas porque odiar assim a luz, assim a vida?

POETA--_com intensão_

Porque acorda... Porque tece feitiços de loucura... Porque illumina, revela, transfigura. Porque cria sonhos. Imagens que são reaes e que se afastam, que vemos e não podemos alcançar...

Odeio a luz, Senhora, porque ella illumina o meu soffrer, e entra em meu coração e abre-o de par em par ao soffrimento!

Porque estendo os braços, anciosos, loucos, e meus braços se perdem no ar!...

Vejo o meu sonho e não o alcanço... Tenho-o junto a mim e está distante... E soffro mais ainda!

Antes a noite! Vejo-o, sinto-o, palpita e vive em mim, como se meu coração ganhasse azas e em meu peito ficassem a bater, como a quererem livrarem-no da Morte, antes da Morte vir e lhe tocar!

INFANTA

Mas se sonhais... O sonho é pensamento, não se vê, nem se alcança, só pode ser imaginar...

POETA--_muito calmo_

Senhora, perdoai... Tendes razão, por certo. Mas foram meus olhos, de encantados, que peccaram, foram meus olhos que sonharam primeiro.

Elles viram, sentiram, deslumbraram-se. Que culpa teem elles?! Depois... minha alma enlouquecida, encheu-se de sombras e de dôr!

E a Dôr é a grande alma do Universo, que entrando em nós toma-nos todo, torna-nos meninos em seus braços, e fica a embalar-nos para a Morte, a cantar e a chorar!...

Senhora, por muito alto que estais, perdoae ter-vos fallado de mim...

_Um longo silencio._

VOZES DO POVO--_mais dolorosas, mais espaçadas, mais distantes_

Pela Virgem Mãe...--Por Santhiago...--Miserere nobis...--Misericordia!...

INFANTA--_com forçada naturalidade, como querendo, fallando, affastar seus pensamentos_

E sempre o povo!... Escutai... ainda se ouve... Só o sinto rezar, só o ouço chorar!... Assim só se reza pelos mortos...

Mestre Lopo entende o povo?!

POETA

Mestre Lopo nunca vê o povo. Foge da multidão com horror, quasi com medo.

Sosinho, em silencio, olha as estrellas toda a noite. E levado por ellas, em seus roteiros, é um caminheiro do céu, a desvendar segredos de Deus!

INFANTA

Oh! quem me dera ver como elle vê! Desvendar o mysterio... mas eu olho o céu e nada vejo.

O PHYSICO

Comprehender estrellas, em verdade vos digo, Senhora, que não entendo. Parece-me phantasia ou loucura de astrologo.

POETA

Olhá-las e escutá-las!... Quantas vezes meus olhos, pela noite, as teem ouvido...

UMA AIA

Que dizem ellas?

POETA--_indiferente_

Trovas... Talvez as minhas...

_O vozear do povo toma-se mais intenso._

INFANTA

O povo... o povo, que desvairado está! Que loucura a d'elle! Não o entendo, nunca o vi assim!

UM NOBRE

Chora e reza, mas acreditae, Senhora, que não sabe porque o faz. Chora e reza como poderia cantar e bailar...

INFANTA

O povo é adivinho,--todos dizem... Sente apenas. O povo chora; soffre. Reza; tem medo. A alma do povo é de presagios.

_A mestre Lopo, que entra_

Bemvindo sejaes Mestre Lopo.

ASTROLOGO--_ajoelhando e beijando-lhe a mão_

Em que vos posso servir, Senhora Infanta?

INFANTA

Dizendo-me o que dizem as estrellas...

ASTROLOGO--_hesitando_

O que dizem?! Em verdade vos digo, Senhora, que não sei.

INFANTA

Porque não dizer a verdade?! Porque fingir não saber?!

_vincando as palavras, com intenção_

Não ha presagios negros pelo céu?...

ASTROLOGO--_mais hesitante ainda_

Presagios!... Muito ao longe, talvez... De distantes que estão ainda os não poude comprehender.

INFANTA

Mas porque chora o povo?

Porque reza chorando? Porque, de joelhos, pede misericordia? Porque em grita desvairada, louco, transfigurado, parece ver naufragios?! É a armada que entra triumphal e dir-se-hia estar vendo entrar esquifes...

E o agoireiro! Mestre Lopo, dizei-me, se sabeis, que sentido querem ter as suas fallas?

ASTROLOGO

Não sei, não sei!... O povo sente, Senhora, e eu só sei comprehender os mystérios do céu.

O povo sente a morte já?! Ainda está longe, muito longe, mas foi isso que o agoireiro quiz dizer.

A armada vai fundear, e o povo bailará ao redor dos que chegaram... O povo é bailador. Ainda é folia.

Bailará á luz dos archotes, dos brandões, logo, no terreiro. E o agoireiro julgará ver, não archotes, mas cyrios...

INFANTA--_serenamente_

Quereis dizer... É a Morte que vem?!

ASTROLOGO

De manso, a rastejar... E vem tão linda! Cobrem-na brocados, pedrarias... Nem parece ella! Mas não me deis ouvidos, que isto diz o povo e não estrellas...

_A Princesa pouco a pouco transfigurou-se; parece nem vêr, nem ouvir._

_Approxima-se de novo da arcaria. O povo está silencioso. A côrte segue-a. Hierática e serena, fita longamente as naus, negras e vagas, levemente tocadas pela luz quási extinta do crepusculo._

INFANTA--_violentamente_

Dominar! vencer!--razão suprema, humana, do destino dos homens sobre a terra. Transfiguração do triumpho em soffrimento, exaltação da morte pela morte, da alma pela vida!

Vencer o mar, desvendar os mysterios, por ancia de luctar e renuncia de viver a vida passageira, vencendo da morte o esquecimento! Ha uma Via-Lactea de guerreiros mortos a envolver o mundo, um enterro de naufragos a povoar o mar!

Por nós o mar tornou-se Humano!

Por nós o mundo é já Divino!?...

_Silencio profundo de assombro e de terror, como se mãos mysteriosas, invisiveis, a todos prendessem. Immobilidade completa: nem um gesto; olhares que a medo se interrogam._

_A vida arrasta-se sem fim; momentos são horas._

_Sem ruído, entra um pagem; queda-se surpreso por instantes, olha em roda, e, lentamente, de manso, acerca-se da aia; fallam baixo, muito baixo._

A AIA--_hesitante, approximando-se da Infanta, a custo, como receando_

El-Rei, meu Senhor e vosso Pae, espera-vos para seroar...

_A Infanta não a ouve; continúa extática. O silencio é agora maior e mais pesado._

A AIA--_mais hesitante, mais baixo_

Senhora, perdoae... mas El-Rei, meu Senhor e vosso Pae, espera-vos para seroar...

_Numa immobilidade de estatua, a Princeza continúa olhando as naus._

_Silenciosas, inconscientes e hesitantes, como somnambulas, dominadas, as aias afastam-se, abrindo alas. A Infanta desperta. Olha, cansada, os que a rodeiam. Interroga-os com um olhar: comprehende, tem um gesto vago de recusa, fixa mais uma vez o rio e os longes, e, deixando-se ir como arrastada, sahe, seguida da côrte. Os pagens levam os candelabros. A luz do crepusculo é extinta. Só negrumes. Nas columnatas bruxoleam vagos clarões._

A VOZ DO BANDARRA--_fóra_

Bailai, bailai, que ainda é folia!!...

Acendei cyrios... Trazei mais cyrios... Acendei mais...

_O povo, com os que desembarcaram das naus, canta e dança, no terreiro, á luz d'archotes._

Uma das sallas da camara da Infanta, abrindo sobre o rio por duas grandes janellas abertas de par em par.