Infanta: tragédia

Part 3

Chapter 3854 wordsPublic domain

Piedade, Senhor!...--Tende compaixão de nós!...--Misericordia!...--Piedade!...

O VELHO

E o castigo do Senhor será terrivel e a sua colera não terá limites porque judeus, feitos Christãos, andam a blasphemar o Santo Nome de Deus!

VOZES

Malditos sejam!...--Santo é o Nome de Deus!--Que as penas do inferno sejam poucas para elles...--Que sejam malditos!--Mil vezes malditos!

O VELHO--_continuando_

E as aguas secarão nas levadas e nas fontes... E o sol queimará os milharais e as searas; e as vides ficarão secas e mirradas... Os gados não terão pastos, os homens não terão pão, e a peste os levará...

VOZES--_desvairadas, amarguradas, agonisantes_

Calai-vos!...--Maldição!...--Piedade!...--Maldição!...--Antes a morte...--Vêr morrer os nossos filhos...--Piedade!--Piedade!--Maldição!

O VELHO--_continuando a custo_

E será então que um rei virá--rei estranho, gente inimiga, homens d'armas--conquistar este reino de cadaveres...

Será então que um rei virá matar um Rei que não morre... a quem a Morte não matou...

VOZES--_de soffrimento, de desespero, de confiança e de odio_

Maldição!...--Piedade!--Piedade!--Que Deus seja comnosco...--Que os herejes sejam mortos!...--Que sejam malditos!--Que sejam queimados...--Que Christo reine em nossos corações!--Que a Sua lei seja cumprida!...--Deus é comnosco!...--Deus é Pae!...--Deus é bom...

UM MARITIMO MOÇO--_com vehemencia_

Quem sabe o que é do dia d'amanhã... Esses horrores que dizeis quem os prophetisou? Quem pode dizer o destino dos homens e pode conhecer a vontade de Deus? Só quem não andou embarcado e não viu os Mundos Novos que são nossos, essas terras estranhas por nós descobertas, só quem não sahiu deste torrão de terra abençoado para servir a Deus e a El-Rei n'esse imperio imenso que fica para alem,

_apontando_

para as bandas donde nasce o sol; só quem não luctou com o mar e o venceu, pode acreditar nas negras prophecias!...

VOZES

Dizes bem...--É assim mesmo.--Dizes bem...

O MARITIMO

Deixai, que o mundo é nosso, porque nós o descobrimos e lhe demos vida por nossas vidas! O mundo é nosso filho, tem o nosso sangue!

_As mulheres rezam baixo._

VOZES

Dizes bem...--É assim... é assim...

UMA MULHER

Ouvi como o povo canta em redor da Princeza... E Ella nem os ouve, nem os vê.

O MARITIMO

Os olhos dos marinheiros andam sempre errantes... No mar os olhos não se prendem, que o mar é todo igual. Só á noite as estrellas do ceu prendem os olhos! A Senhora Infanta é como nós; tem olhos de marinheiro, olhos errantes!

_Silencio. Uma nuvem ligeira escureceu o sol, assombreando a terra._

A VOZ DO «BANDARRA»--_não muito longe_

Cautella, Senhor Rei!... Cuidado!... O mar nunca perdôa, os mortos nunca esquecem! Olhai que ides tambem a naufragar... Nós todos somos naufragos, cadaveres para o mar!...

VOZES--_entre o povo aqui e alem_

Senhor Deus misericordia! Pae do Céu misericordia!--Por nossos filhos... Por El-Rei...--Miserere nobis!--Misericordia! Misericordia!

UMA MULHER

El-Rei parou... todo o cortejo... seguem... continuam...

OUTRA MULHER

Que a Virgem Nossa Senhora proteja a Senhora Infanta!...

_As mulheres ajoelham; os homens descobrem-se e alto, em côro:--Avé Maria, cheia de graça..._

_Mestre Lopo, o astrologo, o poeta e o pintor apparecem pela direita, a caminho da praia. Ao verem o povo de joelhos, param e descobrem-se. Rezam tambem. Acabada a oração põem-se de novo a caminho; o poeta fica..._

PINTOR--_voltando-se_

Ficais aqui?

POETA--_docemente_

Para que ir comvosco?!

Eu ando agora a viver o sonho d'Ella!... Em tudo que me cerca eu vejo-a sempre, mais pura, mais santa, mais perfeita! D'aqui eu vejo o mar e o mar é a sua alma, a nossa alma, o sonho maior que transfigurou o mundo e sobre o mundo ficará eternamente! O sonho creador e redemptor!...

ASTROLOGO

Já não acreditais nas prophecias?

POETA

O sonho é a unica certeza em face dos homens e do Destino...

ASTROLOGO

E nas estrellas?...

POETA

Mentem tambem. Mentiram sempre... Ella o disse, Ella o revelou ás nossas almas!...

_O pintor e o astrologo afastam-se apressados. O poeta, lentamente, aproxima-se do cruzeiro._

VOZES

Afastem-se!...--Abram alas!...--Já ahi vem El-Rei...--Afastem-se...--Abram alas...

_Os grupos afastam-se em silencio, abrindo alas. Pela esquerda, rodeada das suas aias, toda de branco, hierática, serena, suavissima, sem um gesto, sem um sorriso, e d'um olhar divino, triumphal--olhar cheio de visões gloriosas, de claridades infinitas, de sonhos revelados, e de certezas eternas--apparece a Infanta..._

_Os homens descobrem-se, as mulheres atiram flores ao caminho, juncam o caminho de flores, e quêdos; silenciosos, ficam a olhá-la, espantados, como se estivessem em face d'um milagre, d'uma apparição divina!_

VOZES DOS MARITIMOS

Viva a Senhora Infanta!--Viva a nossa Princeza!--Que Deus guarde a nossa Santinha!--Que Nossa Senhora a proteja! Que os anjos a levem em sua guarda!--Como vai linda!...--Como Ella vai!...--Que a estrella do norte seja seu guia... Que as ondas a embalem...--Viva a nossa Princeza!--Viva a Senhora Infanta!...

_As vellas vão pouco a pouco subindo nos mastros e, como azas enormes, enchem o céu._

_Junto ao cruzeiro, alheio, indifferente, distante, o Poeta continua olhando os longes..._

ACABOU DE SE IMPRIMIR ESTE LIVRO NAS OFICINAS GRAFICAS DA RUA FORMOSA, NUMERO 50, DA CIDADE DE LISBOA, NOBRE E LEAL, AOS QUATORZE DIAS DO MEZ DE NOVEMBRO DO ANO DA GRAÇA DE MCMXXI

Notas

Os problemas com a pontuação e a ortografia foram corrigidos.