Idyllios á beira d'agua Romance original

Part 7

Chapter 73,809 wordsPublic domain

Vae longa a dissertação. Cumpre pôr ponto final. _Dissertation, ennui_; sirva para alguma coisa o dito de Bastiat.

XXVI

Retrogrademos.

Maria Luiza desceu a montanha do Bom Jesus do Monte apoiada no braço da outra menina sua irmã.

Quando vinham encosta abaixo havia na floresta, através da qual se viam scintillar as chammas do occidente, a doçura inexplicavel com que o dia desliza ao abysmo da eternidade...

A viuva Machado revelava certa inquietação—talvez prophecia de coração materno—pelos symptomas de repentino soffrimento claramente desenhados na face pallida da filha.

João Nicolau animava-a com palavras banaes, attribuindo a excitação nervosa um incommodo que, a seu vêr, não podia ter outras consequencias além d’um ligeiro abatimento.

Maria Luiza procurava sorrir para dar alento aos dois mais desconfortados corações—o de sua mãe e o de Eduardo—mas o sorriso desabrochava triste e de pressa morria á flôr dos labios.

D. Maria d’Assumpção vinha suspeitosa e concentrada. Adivinhava-lhe o coração tudo quanto se passara na alameda da Mãe d’Agua. Estava-lhe dizendo uma voz interior por que abysmos tinham resvalado, n’um momento de commum desespêro, aquellas duas amorosissimas almas.

Eduardo Valladares vinha ao lado das duas irmãs Machados. Que dolorosa ancia lhe comprimia o peito adivinha-a o leitor, se é que alguma vez se sentiu avergado ao peso da sua cruz.

No sopé da montanha, antes de transporem o portico de cantaria, curvou-se Maria Luiza para colhêr uma flôr silvestre, que se debruçava sobre ervagens verdes. A alguns passos de distancia ficava a capella do Horto, que representa Jesus em Gethsemani, quando desce o anjo a offerecer o calix da amargura. Maria Luiza relanceou os olhos á inscripção latina e murmurou:

—Deve ser triste a legenda d’esta capella...

—«Agonisante, orava profundamente,» traduziu Eduardo Valladares, deixando ver lagrimas que de subito lhe embaciaram o olhar.

—Decora-a, peço-t’o eu, e guarda esta flôr com a perpetua recordação do meu pedido.

—Que dizes?...

—Que não esqueças aquella legenda, Eduardo.

Aproximavam-se João Nicolau, D. Maria d’Assumpção e a viuva Machado.

Ficou interrompido o dialogo apenas escutado pela melancolica Rosinha, que sentiu o perpassar d’uma nuvem que a cegara. Eram lagrimas... Maria Luiza empallideceu até á lividez do cadaver e, quando lhe perguntaram se se sentia recobrada de forças, respondeu affirmativamente, e deixou esvoaçar nos labios o mesmo sorriso breve e melancholico.

Pelo caminho, veio João Nicolau galhofando a proposito de quanto lhe lembrava com o piedoso intuito de serenar a inquietação da viuva Machado e de distrahir Maria Luiza. Não ousamos asseverar se era escutado; o certo é que vinha fallando.

—Dia de Reis! disse elle depois d’um momento de silencio. Este dia é d’alegres recordações para mim. Era eu solteiro. Vai isto ha um bom par d’annos, e estou agora a vêr tudo como se se passasse hoje! Tinhamos sido convidados, alguns rapazes de Braga, para jantar em Guimarães n’este dia. Alegremente cavalgamos e seguimos jornada com o enthusiasmo expansivo dos vinte annos. Foi opiparo o banquete e divertidissima a odysséa. Ao fim da tarde, batemos os cavallos para Braga. Era já noite quando chegamos aos _Quatro irmãos_, um logar historico que fica ao sopé da Falpêrra. É verdade! Nunca ouviram falar da lenda dos _Quatro irmãos_?

—Sabes lá se a gente está de paciencia para te ouvir? respondeu D. Maria d’Assumpção, que de sobra conhecia quanto o marido vinha sendo incómmodo n’aquelle momento.

—Estejam que não estejam. Eu é que sempre a vou contar, replicou João Nicolau insistindo no proposito de distrahir os companheiros. Diz-se que um parocho da freguezia proxima ao logar dos _Quatro irmãos_ vivia em companhia d’uma sobrinha, rapariga de formosura capaz de trazer alvoroçados todos os pintalegretes montezinhos d’esse tempo. O caso é que o abbade precisou de sair da residencia por alguns dias, e levou uma noite inteira a fazer eleição de casa onde, com mais socego do seu espirito, poderia deixar em deposito a donairosa sobrinha. Lembrou se d’uma viuva do logar, mulher idosa e d’exemplares costumes. Se esta lembrança foi tentação do demonio ou não, dir-m’o-hão depois que souberem que a pobre mulher tinha quatro filhos, quatro rapagões da boa raça minhota. Não sem difficuldade acceitou a viuva o encargo, depois de muito instada. Entrou a rapariga na casa da mulher escolhida para depositaria do thesouro querido do abbade e logo os mocetões começaram a requestal-a porfiadamente. Sempre ouvi dizer que «amigos, amigos, negocios á parte». Cahiu de chofre o pomo da discordia entre os quatro filhos da viuva. Desvairou-os o ciume. Reptaram-se. Como valentões que eram, não se recusaram o cartel. Pouco depois, zuniam os varapaus fratricidas a certa distancia do tecto commum. Trez dos contendores cahiram exanimes; e o outro ficou gravemente ferido. O abbade regressava n’aquelle dia e passara ali. Estava moribundo, no logar da lucta, o que sobrevivera, mas teve ainda voz para contar ao velho sacerdote a lamentosa façanha. Depois debateu-se nas vascas d’afflictiva morte, e expirou. O povo, quando o successo se espalhou, negou aos quatro irmãos sepultura em sagrado. Enterrou-os ao sopé da Falpêrra, no mesmo logar, e levantou sobre as vallas quatro pedras ainda hoje pregoeiras da tradição. Ora aqui teem a historia. Não acha bonita? perorou João Nicolau voltado á viuva Machado.

—É interessante... Não sabia a lenda...

—Mas eu trazia isto a proposito do jantar de Guimarães... O Falcão Osorio, que deve estar velho como eu, cavalgava na vanguarda. Ao chegar aos _Quatro irmãos_ susteve o cavallo e veio, sobresaltado, segredar-nos que tinha visto umas sombras, as quaes sombras lhe pareceram bandidos. Não pensamos se a apprehensão era sensata. Acautelamo-nos subitamente para a defensiva e mettemos a passo dando-nos ares de valorosos cavalleiros. A Falpêrra d’aquelles tempos era covil de salteadores; o coração, a julgar por mim, batia-nos desordenadamente. Ainda a julgar por mim, posso dizer que era... de medo. Mas ó soprema irrisão que o destino nos preparára, nivelando-nos com o cavalleiro de Mancha ao esgrimir contra os moinhos! Os bandidos... eram arvores!

D. Maria d’Assumpção, ouvindo agora a centessima edição d’este conto, sorriu ainda pela centessima vez. A viuva Machado simulou ter achado graça; Eduardo e as duas meninas, se é que tinham ouvido, não sorriram.

João Nicolau fez reparo n’isto e apostrophou, dirigindo-se aos tres:

—Olhem que parecem uns velhos carrancudos! A menina Maria Luiza, porque os nervos se lhe desafinaram, imagina-se em artigos de morte. A menina Rosa vai silenciosa por não ver alegre a irmã, e o meu Eduardo, ao lembrar-se de que terminam hoje as férias, perdeu a voz!...

—Como são muitos os divertimentos que elle tem em tempo de férias!... objectou D. Maria d’Assumpção.

João Nicolau não esperava o remoque e replicou meio irritado:

—Tem os que quer ter.

—Não vale a pena agastares-te. O defeito, já t’o tenho dito, é de todos os velhos, e por isso é de crer que tambem seja meu. A gente, quando é velha, desassisadamente teima em moldar a vontade das pessoas novas, que nos cercam, pela nossa, e não nos lembramos de que já não ha para nós novidade nem surpresa. Lembro-me agora só d’uma excepção: a da mãe d’estas meninas, que apesar de estar hontem indisposta, não se recusou a dar-nos hoje o prazer de nos acompanhar. Isto é que é ser condescendente.

—É verdade, acrescentou por delicadesa João Nicolau.

—Que será da velhice dos rapazes de hoje, tornou D. Maria d’Assumpção relanceando um olhar de benevolencia a Eduardo e a Maria Luiza, se se não divertirem? Nem sequer terão para contar aos contemporaneos o caso... de haverem tomado arvores por bandidos.

João Nicolau sorriu, porque D. Maria d’Assumpção lhe bateu amigavelmente no hombro.

* * * * *

Ao despedirem-se as duas familias, Maria Luiza segredou a Eduardo, estendendo-lhe a mão convulsa e ardente:

—Eu sinto-me tão triste, que só o teu amor me póde dar coragem. Lembra-te de mim, e sê forte.

XXVII

Foi profunda a prostração que sopitou Maria Luiza durante a noite. Ao entreluzir da manhã, sobreveio certa agitação febril.

Chamado o facultativo, absteve-se de diagnosticar. Escrupulosamente inquiriu porém se a doente tinha revelado soffrimento anterior ou se havia experimentado uma sensação violenta que provocasse excitação do systema nervoso.

A viuva Machado respondeu negativamente e pediu ao facultativo, com os olhos banhados em lagrimas, que lhe não occultasse a verdade. Serenou-a o medico dizendo que os temperamentos excessivamente nervosos tinham caprichos especiaes que muitas vezes ludibriavam a medicina e que podia bem ser que a febre desapparecesse depois d’um breve periodo de intensidade.

A outra hypothese occultou-a elle para não ferir o coração materno todo receios e afflicção: vinha a ser que podia a febre prolongar-se, e tomar o caracter typhoide.

Trez dias depois, realisava-se a fatal hypothese. Sobreveiu o delirio e Maria Luiza balbuciava palavras sem nexo:

—Impossivel... Disseste que chorava... Na capella do Horto... Não sentia as lagrimas...

Outras vezes curvava-se a melancholica Rosinha sobre o leito e recolhia este murmurio:

—O sol por entre as arvores... Sempre impossivel... Uma tristeza immensa. Emilia... Deus...

A doze de janeiro escrevia Rosinha a Eduardo Valladares estas palavras:

«Hontem á noite delirou e tornou a fallar da capella do Horto e do sol que scintillava através das arvores. Felizmente ainda não pronunciou o seu nome. Não desespere, que eu ainda não desesperei tambem, e peça a Deus por ella e por nós.»

Foram decorrendo os dias e nos ultimos do mez raiou um vislumbre d’esperança.

Tendo passado a noite tranquilla, perguntou Maria Luiza, de madrugada, á irmã, a que horas tinham vindo na vespera do Bom Jesus.

Rosinha respondeu, reprimindo impetos d’alegria:

—Viemos á noitinha, não te lembras?

—Não me lembrava, disse a doente. O que sei é que foi hontem. Foi tão comprida esta noite!

Quando veiu o medico, jubilou com a boa nova da doente ter dado accordo de si e perguntado a que horas vieram do Bom Jesus, suppondo que tinham lá estado no dia antecedente.

—Ella tem razão, disse o doutor. Desde que veio de lá não tem vivido... Todavia é uma grande esperança.

No dia seguinte, a viuva Machado e Rosinha choraram d’alegria ao ouvir este prognostico do facultativo:

—Creio que posso dizer que está salva, apesar de ter ainda doença para longo tempo. Cumpre haver o maximo cuidado no tratamento. Não lhe dissipem sobretudo o engano a respeito do dia em que esteve no Bom Jesus.

Momentos depois recebia Eduardo Valladares as seguintes linhas:

«Diz o medico que está salva. Agradeçamos a Deus, meu amigo».

Estendeu-se pelo mez de fevereiro a longa convalescença de Maria Luiza. Eduardo Valladares recebia todos os dias palavras da mão de Rosinha convidando-o a confiar da misericordia de Deus a solução d’uma crise que Elle visivelmente favorecia com as melhoras de sua irmã.

O filho do bacharel Valladares lia as cartas e redigia sobre as paginas d’um livro intimo as longas meditações das noites de insomnia:

«Vão engrinaldar-se de flôres as arvores do valle e tapetar-se de verduras os declives dos outeiros. Só a minha primavera não chega, Senhor. Só não voltam com as andorinhas as minhas esperanças de um dia. Embora. Deixaste que o anjo ficasse ainda na terra, e deixa tambem que se abrandem as angustias que não merece. Eu creio em ti, Senhor, mas choro nas trevas da minha noite, como tu choraste na cruz. Eras Deus e foste homem. Bem sabes o que é soffrer e chorar. Não me exaspero nem te maldigo. Tu eras filho do Eterno e soffreste; tu eras Deus e choraste lagrimas de sangue. Como ha de o homem, cuja vida custa dores, eximir-se ao pêso da sua cruz, se tu vergaste sob o madeiro? como não ha de chorar, se os tens olhos orvalharam o sudario da piedosa mulher?

«Perdoa-me, se choro, Senhor Deus de misericordia.

* * * * *

«Agonisante, orava profundamente», _Factus in agonia prolixius orabat_, dizia a inscripção da capella do Horto. E pediste-me tu, anjo e martyr, que entregasse á memoria o verbo das Escripturas!

«Querias dizer-me que me abraçasse á cruz nas horas de tribulação da minha alma, ou significavas que o teu espirito olhava para Deus na lenta agonia do teu supplicio?

«Era um incentivo ou um exemplo o que me apontavas?

«Se era incentivo, sabe que a minha alma só adormece quando sobe ás alturas, embalada na religião de meus pais. Se era exemplo, repetir-te-hei que comprehendo a extensão do teu soffrimento, que te vejo sempre ajoelhada deante do teu crucifixo e que abraçaria a tua fé, balsamo para todas as chagas, se desde o berço não houvesse apprendido a balbuciar o nome de Deus.

«Choro, e por me vêres lacrimoso não acredites na minha descrença.

«Devo dizer-te que me não abandona a fé.

«Só a Deus peço que enxugue as lagrimas dos teus olhos, que restitua ao teu coração as alegrias que eram d’elle. Este é o fito da minha esperança, o alvo da minha fé immensa.

«Entrou commigo o remorso de te haver amado. Fui injusto quando fiz estalar sobre a tua cabeça a tempestade das minhas desventuras. Choro a minha culpa, a minha injustiça, e peço a Deus que não complete a obra da tua abnegação.

* * * * *

«Levantas-te do leito quando as flores se levantam no pendor da serra. Põe os olhos no Céo, que ainda lá encontrarás a estrella confidente das serenas alegrias da tua infancia. Desvia-os da terra para me não vêres chorar. Não choro de desespero; choro porque tu choraste. As orações d’alguem, de minha mãe talvez, trouxeram do Céo balsamo para a minha alma. Se Frei Domingos soubesse das minhas amarguras, acreditaria que tinha orado por mim.

* * * * *

«E amo-te muito, mas porque te amo, Maria, não quero que os teus olhos chorem as minhas lagrimas. Que te esqueças de mim ou que succumbas, este é o meu pedir. E não ha impiedade na minha súpplica. Morrer não é soffrer, é renascer. Eu é que preciso de viver para chorar. Renasce tu para as auroras da tua patria ou foge dos espinhaes do meu caminho que rasgariam de certo as tuas azas. Como havias de restituil-as depois ao Senhor que t’as deu?»

* * * * *

Uma noite, estava Eduardo Valladares escrevendo no seu livro intimo, quando sentiu alvoroço na sala proxima. Acudiu a saber o que era.

Frei Domingos, que se não tinha ainda retirado, approximou-se e disse-lhe:

—Animo, filho. Espero que pedirá ao Céo a coragem que precisa para lêr...

E apresentou-lhe um telegramma, que João Nicolau recebera do Porto. O telegramma dizia:

«Morreu repentinamente Sebastião Valladares. A viuva pede providencias com a menor demora possivel».

Eduardo rompeu em afflictivo chôro. Frei Domingos encostou ao seu peito a cabeça do orphão e afastou-o da sala onde D. Maria d’Assumpção e João Nicolau choravam.

Ao romper da manhã vinham em caminho do Porto avô e neto, em caleça alugada expressamente.

É breve a historia do passamento do bacharel. Sahiu do escriptorio, onde estava trabalhando, estremamente anciado. D. Adozinda acudiu sobresaltada ao chamamento de um escrevente. Sebastião Valladares inclinou a cabeça sobre o hombro da esposa, e morreu. Disseram os medicos que tinha succumbido a uma lesão do coração. O que os medicos disseram pouco faz ao nosso proposito.

Dias depois do funeral, annunciou-se leilão da modesta mobilia e, concluido isto, voltou João Nicolau a Braga, levando em sua companhia o neto e a filha, cobertos do mesmo luto.

XXVIII

O bacharel Valladares, momentos antes de morrer, estava escrevendo ao filho um carta que deixou incompleta.

Os mais significativos periodos d’essa carta diziam assim:

«Faze por ser humilde, e sujeita-te respeitoso aos conselhos das pessoas que t’os podem dar, nomeadamente á vontade de teu avô, em quem eu vejo, além d’um dedicado amigo, o pae de tua mãe. Não ponhas os olhos n’umas alturas em que o commum da humanidade fita a vista, se queres ser feliz. Se eu te posso servir d’espelho em alguma coisa, é no que toca a desambição e a serenidade d’espirito e de consciencia. Vivo tranquillo para os affectos da minha casa; se tu estivesses n’esta hora ao pé de mim e de tua mãe, julgar-me-hia em plena posse da verdadeira felicidade.

«Quando saio a nossa porta, sinto-me triste. É que entro no mundo, não no mundo em que vivo, mas no mundo em que vivem todos. Os olhares dos que vão passando, não me offendem por desdenhosos, mas incommodam-me porque não são doces e sinceros como os de tua mãe. Realmente não me sinto bem no meio da turbamulta.»

«A idéa da morte, se me entristece, é porque me faz lembrar que tenho de separar-me de tua mãe para sempre...»

N’este relanço levantara se anciado o bacharel para não mais se sentar á sua banca. Morreu como viveu: serenamente. Um momento d’agonia não se lhe afigurou decerto o resvalar para o tumulo, e não teve por isso tempo de sentir estalar os élos que o prendiam á felicidade. Encostou ao seio amigo a cabeça para descansar. Queria talvez adormecer... Cerrou os olhos e não accordou.

Rezaram-se os responsos de sepultura na egreja dos extinctos carmelitas do Porto. Antes de chegar o feretro, appareceu na sacristia um sacerdote que entrou, curvado de velhice, relanceando um olhar saudoso para um e outro lado.

Era Frei Domingos do Amor-Divino.

Durante os officios, foi notorio que o mais edoso dos padres não podia reprimir as lagrimas. Os raros amigos de Sebastião Valladares affirmavam não o ter visto uma unica vez em casa do bacharel. Correu porém voz de ser carmelita, e logo se explicou a razão de suas copiosas lagrimas, lançando-as á conta de saudades do hábito, evocadas pela entrada n’um templo da sua ordem.

Frei Domingos, depois de terminados os responsos, solicitou licença do sacristão para vêr o cadaver. Largo tempo o esteve contemplando com os olhos afogados, em lagrimas.

—Dizem que era um homem honrado, apostrophou o sacristão.

—Oiço dizer que sim, respondeu Frei Domingos. E, vendo-o, acredito que o foi.

—Pois... não eram amigos?

—Nunca lhe falei, nem sequer o vi.

—Deixou-lhe talvez alguma coisa? replicou o sacristão affeito a vêr copiosamente chorar nos enterros as pessoas contempladas com verbas testamentárias.

—Deixou-me... sincera pena de o não haver conhecido, respondeu Frei Domingos agradecendo e retirando-se.

Ás seis horas da manhã, entrava Frei Domingos na diligencia de Braga. Ninguem no Porto soube como se chamava e d’onde era. Os amigos do bacharel noticiaram a João Nicolau e a Eduardo Valladares que, na egreja, um dos sacerdotes, frade carmelita segundo se disse, estivera chorando a ponto da commoção lhe embargar a voz. Outrosim perguntaram se este frade era relação da casa, parente ou amigo. Eduardo Valladares deteve-se um momento a consultar a memoria e respondeu negativamente. João Nicolau, como porém tivesse ouvido falar em frade carmelita, sentiu se impressionado, e sem pensar que fosse elle, lembrou-se n’aquelle momento de Frei Domingos do Amor-Divino.

Quando o velho egresso voltou ao seu cubiculo da rua do Carvalhal, a trémula Gertrudes sahiu a recebel-o mais jubilosa que nunca.

—Ó sr. Frei Domingos, exclamou ella, como me disse que tinha de fazer jornada, sempre estava inquieta. V. s.ᵃ já não está muito para andar pelos caminhos!

—Ó boa mulher! com o auxilio de Deus vae-se bem para toda a parte. Mal sabe a sr.ᵃ Gertrudes d’onde eu venho. Pois oiça lá: fui ao Porto.

—Ao Porto! acudiu admirada a velhinha.

—Ao Porto, sim. E olhe que me não succedeu mal nenhum. Jornadeei em diligencia pela primeira vez na minha vida. E sempre lhe direi que isto de diligencias não foi a peor cousa que o progresso nos trouxe.

—Oura-se muito, pois não oura?

—Não se oura nada, mulher. A gente acostuma-se aos solavancos, e depois vae menos mal. Comparado isto com as jornadas a cavallo, d’outros tempos!

—Acho que ha lá por fora muitas coisas novas. Eu é que não tenho visto nada, nem quero vêr. «Boa romaria faz quem em sua casa vive em paz.»

—Assim é, mulher, mas ha casos que podem mais do que as leis. Tambem me chegou a minha vez d’andar em diligencia.

O medico assistente de Maria Luiza dera-lhe licença de sahir pela primeira vez, justamente no dia em que se enterrava no Porto o bacharel Valladares.

Era um formoso dia dos ultimos de fevereiro.

—Ora vá, disse-lhe o facultativo. Não tardam a desabrochar as flores; v. ex.ᵃ deve apparecer tambem. Tome porém cuidado com o passeio. Não vá longe.

—É que realmente não sei para que lado hei de ir.

—Convem que se não exponha. Vá para o lado de Infias, mas não se demore muito.

Quando o facultativo sahiu, Maria Luiza sentou-se a escrever a Eduardo Valladares as seguintes linhas:

«Tenho licença para sahir hoje pela primeira vez. Emfim! Vou com minha mãe e com Rosinha. Ao meio dia apparece, como quem anda passeando, perto da quinta de Infias. Não faltes.»

Maria Luiza chamou a irmã para fazer chegar o bilhete ao seu destino. Rosinha ficou inquieta. Tinha occultado a morte do bacharel e a sahida de Eduardo para o Porto. Revelar a verdade era alancear o coração de Maria Luiza; continuar a occultal-a seria o mesmo que não explicar a falta de Eduardo no passeio a Infias.

—Está decerto agora nas aulas e talvez o não possa receber...

—Não me disseste outro dia que elle tinha recebido bilhetes teus no Seminario?

—Sim... disse. Mas se estiver nas aulas... Eu vou mandal-o... oxalá que ainda vá a tempo.

Quando sahiram, Rosinha levava o coração opprimido.

—Vaes triste? notou Maria Luiza.

—Não vou; ir calada não é ir triste.

—Tens razão.

Chegaram a Infias.

O coração de Maria Luiza pulsava vertiginosamente—d’esperança; o de Rosinha batia tambem agitado—d’afflicção.

A estrada estava deserta. Decorreram minutos. Ninguem. Maria Luiza relanceou á irmã um olhar de eloquente interrogação. Rosinha simulou não dar tento, e fitou os olhos n’um ponto que ella nem sequer via...

Decorreram mais alguns minutos de completo silencio.

—Não vaes boa? perguntou a viuva Machado a Maria Luiza, inquieta pela vêr extremamente pallida.

—Vou boa, minha mãe. Não é nada...

—Talvez seja longo o passeio. Voltemos, se querem.

—Não, vamos até alli mais adeante, e voltemos depois, respondeu Maria Luiza.

Era a ultima esperança.

Fôram um pouco mais adeante. Não appareceu ninguem. Maria Luiza voltou-se e disse abruptamente:

—Vamos embora; agora é que me não sinto boa.

E depois, segredando á irmã:

—Não veiu!

Então Rosinha achou que devia dizer meia verdade. Contou que Eduardo Valladares tinha ido ao Porto por motivo imprevisto.

Maria Luiza sorriu doloridamente e disse:

—É possivel que fosse ao Porto, mas é impossivel que não estivesse hoje aqui se já me não tivesse esquecido.

E, tão agitada como incredula, repelliu todos os protestos que lhe fazia a irmã de haver dito a verdade quanto á ida ao Porto.

—Fez-te mal sahir! disse a viuva Machado com o coração opprimido por um torturante presentimento.

—Não é nada, minha mãe; socegue. Vêl-a inquieta, é que me incommoda.

Maria Luiza, a mariposa alegre d’outros tempos, alma creada para as flores e para o sol, era, bem o sabeis, uma d’essas creaturas que se deixam ir embaladas no ambiente da felicidade e que um dia, ao encontrarem a chamma que as namora, ou a atravessam impunemente ou crestam n’ella as azas iriadas. São estas frageis creaturas as que mais podem luctar com as tempestades da vida, mas se uma vez succumbem, deixam-se morrer lentamente, abraçadas, permittam-me que diga assim, ao pensamento que lhes envenena o coração.