Idyllios á beira d'agua Romance original

Part 6

Chapter 63,977 wordsPublic domain

Um livro, o livro de todos os dias, de todas as horas, fôra mais uma vez aberto no momento em que mais era preciso.

Eduardo Valladares folheava o _Eurico_, e os seus olhos deletreavam estas palavras:

«Outras noites, em que mais tranquillo podia a sós comigo engolfar-me nos pensamentos de Deus, a tua imagem vinha interpôr-se entre mim e a lampada mortiça que me allumiava, e o hymno do presbytero de Carteia, que devia talvez escrever-se nos livros sagrados das cathedraes de Hespanha, ficava incompleto, ou terminava por uma blasphemia secreta; porque te via tambem sorrir, mas a outrem, mas a homem feliz com o teu amor, e eu tinha então sêde... sêde de sangue... Era uma lenta agonia! E sempre tu ante mim: nas solidões das brenhas, na immensidade das aguas, no silencio do presbyterio, nos raios esplendidos do sol, no reflexo pallido da lua, e até na hostia do sacrificio... sempre tu!... e sempre para mim impossivel!»

—Impossivel! repetia Eduardo Valladares. Impossivel!

E no seu hombro pousára a mão d’alguem que elle não vira.

Quem era?

XXIII

Era ella, Maria Luiza.

Eduardo Valladares, por um momento, julgára sonhar. Todavia o seu anjo adorado, entre o qual e elle se ia cavar o abysmo insondavel do impossivel, estava alli, soluçante, convulso, com os olhos merejados de lagrimas.

A viuva Machado, restabelecida da ligeira indisposição da vespera, accedera ás instancias das filhas e resolvera ir, posto já não pudesse acompanhar D. Maria d’Assumpção.

O moço seminarista, na violenta sobreexcitação que o agitava, deixara assomar aos labios a tempestade que lhe refervia na alma.

—Impossivel! murmurava elle. E sabes tu o que é o impossivel? Sabes o que é a distancia infinita que separa o reprobro da estrella polar que elle vê através das reixas do carcere? Sabes o que é morrer abafado na propria dôr, na dôr que não tem linitivo, que não tem cura, que não tem um só momento de repouso, um só instante d’esquecimento? Pois bem, entre nós que nos amamos e que vivemos a mesma vida, vai abrir-se a voragem do impossivel, como se dissesse que vai sentar-se o espectro da morte, para o vêrmos a toda a hora em glacial immobilidade, sem querer condoer-se das nossas afflicções. Morrer! Que influxo benefico não coaria a morte aos nossos corações calcinados por metal candente! Que felicidade não sorri na morte ao desgraçado! Será fraqueza pedil-a? Pois se o coração trasborda de lagrimas como o oceano na tormenta, pois se a alma foge de si mesma amedrontada, como do espectaculo sombrio d’um tumulo aberto, porque não hade perdoar o Deus de misericordia a quem fica prostrado na via dolorosa exclamando: Senhor! os meus olhos cegaram de chorar; illuminae em troca a minha alma com o resplendor das vossas eternas auroras?! Não sabes tu que o Salvador da humanidade, alanceado o coração de supremas angustias, elevava o seu espirito attribulado ao Deus das alturas, cujo filho era, exclamado exhausto: «Meu Deus, meu Deus, porque me desamparastes?» E não havemos nós, corações terrenos, pedir ao Céo, na cerração da vida, que nos aproxime do tumulo, da porta que se abre sobre nós dando passagem aos fulgores inextinguiveis da eternidade?

Maria Luiza, pendida sobre o hombro de Eduardo Valladares, orvalhava-lhe as faces de lagrimas abrasadoras.

Sentira-as elle, e procurara dominar os impetos da sua alma, envenenando-a com o trago das lagrimas reprimidas.

—Choras! E sou eu, e é o meu amor que te enche os olhos de pranto! Tremo da justiça dos Céos, Maria! Quem me deu a mim o insolito direito de te lembrar que tambem és desgraçada? Como ouso eu arrancar as flores da tua esperança, para calcal-as aos pés, sem me lembrar de que estou calcando com ellas o teu amantissimo coração. Oh! sim, tu esperas, não é verdade? Não é certo que tens no thesouro da tua alma a esperança que me offereces e queres repartir comigo? Enganares-me tu... Não, não, perdoa-me o que ha de injustiça n’estas palavras. Se a esperança ou se Deus, que tudo vem a ser o mesmo, te houvesse desamparado, não ousarias insinuar-me nova fé com receio de que eu descobrisse a verdade, a verdade negra e terrivel, sob os teus hymnos de mentirosa crença... Tu esperas, não é verdade? Deus, que formou de essencia divina as almas dos anjos como tu, não podia roubar-lhes a esperança, condemnando-as ao desespêro dos réprobos... Não chores...

—Não choro. Promette tu dominar a exaltação do teu espirito, que eu prometto não provocal-a de novo com as minhas lagrimas. Chorar eu! Passou acaso no nosso coração o sôpro devastador da descrença? Só os que não esperam, os que não crêem, é que choram, por que esses devem ser muito desgraçados, pois não devem?

E rolavam-lhe pelas faces copiosas lagrimas, como se Maria Luiza nem sequer soubesse que estava chorando e desvendando os dolorosos segredos da sua alma.

—Ah! pois tu choras! Estás involuntariamente denunciando com as tuas lagrimas que tambem és desgraçada, porque não esperas, porque não crês...

—Meu Deus! Eu enlouqueço! Dizes-me que choro e não sinto as lagrimas!...

—É que a tua alma verga n’este momento ao peso d’um presentimento que a domina, e que ella está revelando sem que tu mesma tenhas consciencia da propria existencia. Ah! como nós somos ambos infelizes, meu amor. Bem m’o dizia o coração, bem m’o disse ainda ha pouco, antes d’abrir este livro, n’um momento que não sei se foi de sonho se de meditação. Meditação, não; não foi. Eu estava quasi adormecido... Meditação, não. Queres que te conte o meu sonho, como o estou recordando n’este instante?

—Oh! conta, conta...

—Um camponez, que tinha vivido expatriado em longes terras, privado dos carinhos da esposa, saudoso dos filhos que deixara no berço, do torrão que o vira nascer, da cabana onde amara e vivera, das serras da sua patria, de tudo o que é doce e consolador, voltava em demanda do tugurio querido, e a todas as horas recordado, após os lacerantes soffrimentos d’um longo exilio. Quando vinha transpondo a serra do tôpo da qual se avistava a sua cabana, coberta de colmos como a tinha deixado, desciam do céo as sombras da noite e, quanto mais veloz elle caminhava, mais o arvoredo se perdia n’um fundo negro. Era a noite que descia. Fumegavam ao longe as casas d’aldeia disseminadas na encosta; a sua tambem. Áquella hora devia estar repartindo a triste mãe com as desmimosas creanças o pão da ceia amassado nas lagrimas de todos os dias. Elle, o caminheiro, vinha descendo a encosta, offegante e quasi exhausto. A sua choupana ficava na vertente fronteira. Entre a aldeia e a serra corria um rio, largo e caudaloso, que mugia no valle engrossado pelas chuvas torrencias do inverno. Era preciso chegar á ribeira antes do barqueiro ter amarrado a barca do outro lado. «Depressa!» dizia o caminheiro a si mesmo. E não corria, voava. A meia encosta, chamou. Ninguem respondeu. Brilhou-lhe nos olhos um clarão de desespero. A barca da passagem estava decerto amarrada a um salgueiro da outra margem, e já o barqueiro devia ir em caminho do seu palheiro que ficava ao centro da povoação. Afflicto, desesperado, chamou, gritou.

O sussurro da corrente impetuosa abafava a sua voz, tanto mais debil, quanto maior era a commoção. Depois...

—Depois?

—Via fumegar ainda no tôpo da serra fronteira o tecto do seu lar, e uma voz interior lhe estava dizendo que no coração de sua pobre mulher passava, n’aquelle instante, o presentimento de que nunca mais o tornaria a vêr. Como ella havia de reprimir a sua dôr, para que as pobres creanças a não vissem chorar e lhe perguntassem: «Virá hoje, virá?» Que alegria, que felicidade se elle os pudesse ouvir, e vêr, e abraçar para dizer-lhes: «Aqui está o vosso pai; eil-o aqui está». E a escuridão da noite era cada vez mais profunda e o estrepito das aguas tinha um não sei que de lugubre que punha medo. O fumo branco das casas d’aldeia foi rareando a pouco e pouco. Dissipou se lentamente a coluna ondulante que sahia do seu tecto. Acabava a ceia. Iam adormecer as crianças, sem terem sido abençoadas pela mão paterna. E, recolhidos os pequenos, deitava-se a mãe para desvellar as horas da noite em mil tumultuosos pensamentos. E elle separado de tudo isto, dos seus filhos, da sua mulher, do seu lar, por uma barreira que não podia transpôr e que se não abria para lhe dar passagem, como as aguas do mar Vermelho, por mais dolorosos que fossem os seus gritos, por mais impias que fossem as suas blasphemias! Aqui tens o impossivel, Maria; o impossivel é tudo isto, este desespero, este abrasar da alma em lavas incandescentes. Um genio mau desenhou decerto este quadro d’incomparavel afflicção para que eu experimentasse o duplo martyrio de vêr e sentir, deixando ao meu espirito, meio adormecido, o trabalho de, quando despertasse, procurar a relação que para logo denuncía que este desespero é o seu proprio desespero, que este inferno é o seu mesmo inferno.

Maria Luiza soltou um grito d’angustia; Eduardo Valladares ficou extremamente prostrado d’aquella dolorosa excitação.

—Meu Deus! murmurára ella vendo-o com a cabeça febril mal amparada nos braços tremulos.

—Meu Deus! repetia elle em brando echo. Não fujas de mim, doce amor, e pede ao teu Deus, que é tambem o meu, que me perdoe estes desvarios d’uma alma atormentada. Enlouqueceu-me a dor. Perdôa-me tu; que Elle, o Senhor de misericordia, me perdoará tambem. Não fugas de mim como se foge do precito. Desde que minha mãe infiltrou na minha alma o balsamo sacratissimo das doces orações da infancia, conheço e amo Deus. Depois, desde que sigo o rumo da minha desventurosa estrella, sempre o invoco em horas de desconfôrto e afflicção. Vale-me, Tu, Senhor! que abençôas os que choram.

XXIV

Frei Domingos do Amor-Divino anciosamente esperava os óbolos da caridade para repartil-os pelos pobres, no numero dos quaes devia incluir-se a cega designada por D. Maria d’Assumpção.

Chegou o Natal, e o virtuoso carmelita recebeu, de procedencia anonyma, duas cartas contendo dinheiro destinado a enxugar por alguns dias as lagrimas de dois indigentes. Frei Domingos rasgou o primeiro involucro com intima satisfação, que no doce fulgor dos olhos se estava manifestando. O papel que continha a moeda consagrada á beneficencia, trazia esta restricção:—_Para uma viuva_. Aberto o segundo involtorio, que encerrava um _soberano_ inglez, leu Frei Domingos o seguinte:—_Um cego, que deve á Providencia o não ser tambem necessitado, pede que seja entregue a outro cego, mais infeliz do que elle_.

Estas palavras commoveram a lagrimas o carmelita, que relanceou ao seu Christo de marfim um olhar afogado em pranto, murmurando ao mesmo tempo:

—Abençoado seja o nome do Senhor, que por tal modo e com tamanhos dons abastece a colheita dos pobres! É ao Céo que eu peço me ensine o trilho por onde possa ir direito á mais necessitada cegueira, e á mais desamparada viuvez.

Ajoelhou, com as mãos postas, e por largo tempo ficou a orar.

Depois sahiu, indagou, examinou e, ao cabo de dois dias de trabalhosas investigações, depositou nas mãos d’um cego e d’uma viuva, que mais carecidos lhe pareceram, o dinheiro da caridade.

Quando recolheu ao cubiculo da rua do Carvalhal, era noite cerrada. Acudiu a recebel-o, com a sua habitual expressão de estima e reconhecimento, uma velhinha que lhe cosinhava a frugal collação e que, se não fôra o amparo de Frei Domingos, teria morrido de fome pouco depois de cahir varado por um pelouro nas linhas do Porto o filho que lhe era esteio.

O carmelita encarou n’ella, viu-a radiosa como sempre, e apostrophou com semblante prazenteiro:

—Alegre a vejo sr.ᵃ Gertrudes, e a Deus agradeço o encontral-a em disposição d’ánimo que favorece o meu designio.

A velhinha quedou se a olhal-o com surpreza; Frei Domingos continuou:

—Que me responderia a boa Gertrudes, se eu houvesse de dizer-lhe: «Precisamos de dar metade do nosso pão, durante alguns dias, a quem mais carece d’elle do que nós?»

Gertrudes achegou-se do carmelita e disse com tanta alegria quanta commoção:

—Olhe que não sabia o que o snr. Frei Domingos queria dizer! Eu feliz vivo, e a minha felicidade chamou-a do Céo para a menos merecedora das creaturas o sr. Frei Domingos. Do pão que recebo e que me aproveita mais do que a riqueza aos ricos, sempre cresce e, se não crescesse, todo o daria para alliviar miserias que, Deus louvado! não conheço.

—Nós somos ricos, sr.ᵃ Gertrudes, nós somos ricos, porque desconhecemos a pobresa. «Mais vale um pequeno boccado de pão sêcco com alegria que uma casa cheia de victimas com pelejas»[12] são palavras santas, que não falham. Esta é a verdadeira riqueza. Tudo o mais é cuidado e inquietação. Façamos pois economia durante alguns dias e, passados elles, verá como havemos de sentir-nos mais contentes. É que realmente estamos esperdiçando, e não é assim que se agrada a Deus. Repartamos, pois, com os pobres, e aproveitemos em vez de esperdiçar.

No dia seguinte, foi Frei Domingos abrir a gaveta depositaria das mealhas que lhe pareciam sobejas ás suas necessidades. Montava o peculio a novecentos e sessenta réis, um thesouro de dois cruzados novos embrulhados em papel branco. Tirou-os da gaveta para o bolso, pôz o chapéo, desceu as escadas e entrou no portal de João Nicolau.

O sogro do bacharel Valladares e D. Maria d’Assumpção receberam Frei Domingos com sincero contentamento, lamentando apenas que tivessem decorrido alguns dias sem que lhe aprouvesse visital-os.

—É que eu queria dar boa conta de mim e dos meus negocios, respondeu o carmelita. Depois receava que a presença d’um intruso fosse de mais n’estas festas que commemoram os grandes acontecimentos do christianismo e servem ainda, e sempre servirão, para estreitar os laços de cada familia reunida no seu lar. N’este quadro de intimas alegrias era de certo importuno um frade velho como a Sé da nossa Braga, perorou, sorrindo Frei Domingos.

—Estou capaz de dizer... pronunciou a medo D. Maria d’Assumpção.

—Pois dize, dize, e com isso responderás aos infundados receios do nosso vizinho, atalhou do lado João Nicolau.

—Visto que me auctorisas, sempre ousarei fazer uma confissão. Pode acreditar o sr. Frei Domingos que tivemos ambos a lembrança de lhe pedir que viesse honrar a nossa modesta consoada. Receamos incommodal-o, e não nos atrevemos...

—Beijo lhes as mãos pela immerecida attenção; confesso-me penhorado como se tivera recebido e acceitado o convite.

Mas por que não ha de vir mais a miude, replicou João Nicolau, por que não ha de, visto que estamos tão perto, vir tomar o chá comnosco? Nem o nosso Eduardo viu ainda o sr. Frei Domingos!

—Infiro d’ahi que tem sido feliz o neto de v. s.ᵃ. Olhe que realmente parlandas de frade não são para se ouvir a pé quedo, e muito menos por gente nova.

E, galhofando sempre, entregou a D. Maria d’Assumpção os novecentos e sessenta réis, que para elle e para a velha Gertrudes eram pecunia sufficiente para o passadio de alguns dias.

João Nicolau não o deixou sahir sem que primeiro aprazasse nova visita. Frei Domingos prometteu voltar em dia determinado, e desempenhou a sua palavra. Á terceira visita encontrou se com Eduardo e lera-lhe nos olhos, sempre banhados em melancholia, as muitas amarguras que faziam noite escura n’aquelle coração de dezesete annos.

O filho do bacharel, por sua parte, esqueceu-se de si mesmo enlevado na suavidade que recendiam as palavras de Frei Domingos. O desaffrontar-se por um momento da cerração que lhe opprimia o peito, foi para Eduardo Valladares consolo que deixou após si gratissimas impressões. Livrára-o a Providencia de lembrar se de que aquelle homem, cuja serenidade d’alma se reflectia no olhar, tinha vestido o habito de frade e poderia ter amortalhado n’elle um coração ferido pelas desgraças da terra. Não lhe lembrou isto, e por tanto não rompeu clamoroso contra a voz da oppressão que diz «Morre, despedaçando-te» ao coração opulento de seiva e esperança. No que pensou foi na serena alegria d’aquella alma, que em vez de se sentir retransida pela nortada do tumulo, já proximo, refloria em amenidades bafejando lenitivos ás pallidas flores d’uma primavera desconfortada. Aquelle homem entremostrou-lhe Deus—o Deus a quem invocavam as doces orações da sua infancia, o Deus que adorava no templo e em toda a parte onde podia vêr o Céo, o Deus que elle chamava quando mais se condensavam as trevas no horizonte da sua mocidade.

Viu-o, examinou-o com olhar perscrutador e disse de si para si:

—Se eu fôsse assim, não era decerto tão desgraçado.

Amiudáram-se as visitas de Frei Domingos. Rodrigues d’Abreu perguntou-lhe d’uma vez se tinha esperança de restituir a um coração de dezesete annos as alegrias proprias da sua edade.

Frei Domingos sorriu placidamente e disse:

—Tenho. A si devo e a Deus o sentir ainda no coração o influxo benefico d’uma esperança: a de procurar a felicidade para quem a não tem.

XXV

Eduardo Valladares tinha em 1852 dezesete annos.

Estou a lembrar-me d’isto, e a perceber que uns sujeitos maiores de trinta annos, e umas senhoras que devem á acção do fluido transmutativo o envelhecer com os cabellos pretos, lançam um olhar de desdem para a futil historia do filho do bacharel Valladares.

Para estes corações apodrentados, se é que para taes creaturas o coração é mais alguma cousa do que o centro das funcções sanguineas, o amor dos dezesete annos deve ser uma creancice piegas apenas admissivel na conversação de meninas da mesma edade, que andam delineando os poemas do coração suspensas entre as saudades das bonecas e os receios de não serem convidadas para a valsa que redemoinha na sala.

Não sei agora ao certo que idade tinha Romeu quando levantou olhos para Julieta; do Paulo, de Saint-Pierre, lembro-me que tinha a mesma altura de Virginia; o Simão Botelho, do _Amor de perdição_, do nosso Alexandre Dumas, vamos encontral-o aos dezeseis annos; o Pedrinho, dos _Contos ao luar_, de Cesar Machado, é uma creança.

Achei que estes modelos eram bons. Procurei no coração humano, para estudal-a, a fibra menos corroida, e deparou-se-me uma unica—a que resumava a seiva dos dezeseis annos.

Um sujeito de vinte, que andava suspirando no violão serenatas á mulher adorada, e se dizia capaz de comprehender o que no amor póde haver d’ethereo, dias depois de resvalar ao tumulo o anjo querido que elle desposara, garbosamente refreava os galões d’um cavallo comprado com as economias provaveis do primeiro anno de viuvez. O coração dos vinte annos fazia isto, dispendia na farta ração d’um cavallo de raça o que faltara talvez á gentil esposa tão longo tempo requestada.

A viscera amorosa dos cincoenta annos affigurou-se-me gangrenada ao estremo de inspirar terror. A historia do cynismo, que arremessa á face da innocencia a moeda doirada da corrupção, é revoltante para se offerecer a todos os paladares.

Determinei os extremos—os vinte e os cincoenta annos. A estrada interposta a estes dois marcos, recortada de charcos immundos, deve deixar enlodados os pés do que a percorrer com o vagar indispensavel a quem tiver de fazer relatorio da trabalhosa peregrinação.

Não invejo a gloria de certos romancistas victoriados pelas multidões. Só elles sabem o que ha de doloroso em vencer a repugnancia natural que leva o espirito, iriado da luz das suas auroras, a fugir do esterquilinio que vapora exhalações mephiticas. E que improficuo trabalho! A humanidade vê no espelho do romance o que ella mesma tem de hedionda, e não cora nem se rehabilita; passa adeante, deixando ao desfortunoso trabalhador a consolação de labutar noite e dia para não morrer de fome.

Não serei eu que vá mergulhar nas trevas que ennoitecem os hypogeus sociaes para dizer á humanidade: «Aqui estão as tuas nodoas, lodo; aqui está a tua negrura, sombra!»

No mais profundo antro sempre entra um raio de sol a cujo esplendor scintillam as concreções vitreas da abobada. Em vez de medir a extensão do antro, quero sentar-me á entrada, onde chegue a luz, e onde possa vêr o cristal das stalactites rutilar em formosas cambiantes.

Poderão dizer: A humanidade não é só isso, a humanidade não é apenas o cristal que se doira. Certo é. Mas a humanidade tambem não é só o que vós pintaes, ó pintores de quadros negros; a humanidade não é só o cynismo, a dobrez, e o lodo.

E eu entrei no antro escuro da humanidade, e tive medo das sombras que se condensavam ao fundo. Parei. O sol que tremeluzia nos cristaes da rocha, era limpido e formoso. Deslumbrou-me. Não arrisquei mais um passo; quedei-me a contemplal-o.

Coração dos dezeseis annos, não és tu puro como os relevos crystallinos que resaltam do tecto anfractuoso d’uma gruta?

Os que já se internaram na escuridade, os que perderam a memoria com o coração e com a consciencia, esses, cadaveres condemnados ao supplicio da vida, já não comprehendem o que seja o estremecer das rosas no roseiral ao bafejo da viração matutina.

Uma coisa que sobremodo me admira é que os rapazes de hoje suffoquem a voz do coração, que está modulando o poema dos vinte annos, para raciocinarem friamente, sentados em ruinas como Volney, até chegarem ao scepticismo, á duvida, ao nada; até murmurarem com Voltaire na satira a Luiz XIV:

_J’ai vu ces maux et je n’ai pas vingt ans._

Quem é que aos vinte annos não vae depôr a sua mocidade, como novello de espuma, na mão rosada d’uma mulher, que a pode desfazer, comprimindo os dedos, ou que tem o capricho de a fazer brilhar com as esplendidas fulgurações de um cristal, se lhe deu um raio d’amor?

Creio que todos. Os que não fizerem isto são anomalias. Deus me livre de homens que não teem de homens nem o coração.

O amor é o sol e eu sou como todos os fructos verdes: preciso de sol para amadurecer.

É por isso que leio e releio, sem me cansar, o _Raphael_ e a _Graziella_, de Lamartine; a _Chave do enygma_, de Castilho; o _Livro d’Elisa_, de João de Lemos; o _Paulo e Virginia_, de Saint-Pierre; os _Idyllios da rua Plumet_, dos _Miseraveis_; a _Menina dos rouxinoes_, das _Viagens_, de Garrett; o _Thomas dos passarinhos_, de Rodrigo Paganino, e muitos outros poemas de amor que consolam a alma, e que se nos dão o seu tanto de tristeza, é uma tristeza tão suave, que chega a ser deliciosa. Estes livros, que são balsamo e crença, quero lel-os e compraria a trôco da vida a gloria de os escrever.

Namora-me esta litteratura que delicía a alma. Ha livros que deixam remorsos de se haverem lido. Esses não os quero eu. Para que hei de sentir ferida a consciencia nos poucos momentos que destinava para descanço do espirito? Livros dos que retalham o coração lê-os a gente por ahi nos passeios e nas praças publicas a toda a hora do dia; são uns certos homens que encadernaram a negrura da alma em pergaminhos de illicita riqueza, e certas mulheres que escondem a deshonra em brochuras de velludo.

Sabe-lhes a gente da vida e anda cheia d’aquellas historias vivas, que se abrem á luz do sol, para que elle bata em cheio no escandalo, e o mostre á claridade do dia. Quando o espirito precisa de um momento de tranquillidade para se desanojar d’estas e quejandas leituras sociaes, devem pôr se de parte os livros igualmente desagradaveis.

Os contos, ainda que se perfumem na doce poesia da infancia, _contes de fées_ ou _contes bleus_, como dizem os francezes, embriagam-me o espirito como o suspirar longinquo de um piano n’uma noite de luar. A historia licenciosa, _conte gras_, repugna-me, aborrece-me. A litteratura deve ter um não sei que de ethereo irmão da inspiração. Tudo o que não fôr assim, é verdadeiramente terreno e vulgar.

O homem que entra em casa com um livro de pessima doutrina, tem o cuidado de escondel-o como a um frasco de acido prussico, se occultasse o proposito de se suicidar. Esconde o livro como esconderia o veneno: para dissimular a sua vergonha e o segredo humilhante da propria fraqueza.

A sua mãe, alma toda amor e toda luz, que lhe ensinara a deletrear nos livros santos, a ella, coração de ouro, haveria de dizer, se uma imprevista circumstancia descobrisse a licenciosa brochura: «Perdôa-me; bem sei que não foi para isto que me ensinaste a ler.»