Idyllios á beira d'agua Romance original

Part 5

Chapter 53,860 wordsPublic domain

E deixava quasi sempre a phrase incompleta para não evocar recordações pungentes que tinha recalcadas no coração.

Um dia uma viuva desvalida, mãe de quatro filhos, ajoelhou supplicante aos pés de Frei Domingos.

O virtuoso carmelita levantou-a compassivo e disse-lhe:

—Se na minha mão estivesse remediar a vossa miseria, remediada estava. Não desanimemos porém. «Pedi e dar-se-vos-ha, buscae e achareis, batei e abrir-se-vos-ha» disse o Divino Mestre no sermão da Montanha. Sigamos pois o conselho de quem nol-o podia dar.

E foi-se de porta em porta, seguido da viuva e das creancinhas, esmolando para a mãe e para os filhos.

Rodrigues d’Abreu foi um dos não muitos corações que se enterneceram a lagrimas deante d’aquelle edificante e extranho espectaculo. Desde então nunca na alma do bibliothecario bracharense passava uma dôr intima, que elle não fôsse desafogal-a no coração de Frei Domingos do Amor-Divino.

A sorte desventurosa do filho do bacharel Valladares trazia trabalhado de crueis angustias o espirito do bibliothecario bracharense. Foi pois n’umas das horas de doloroso cogitar a tal respeito, que na alma de Rodrigues d’Abreu passou um lampejo d’esperança, ao lembrar-se do muito que podia fazer, em tão apertado caso, Frei Domingos do Amor-Divino.

Não hesitou um momento. Tinha pedido ao Céo a luz da inspiração e á conta d’inspiração celeste tomara elle o pensamento que o impellia para o religioso carmelita.

Foi procural-o, falou-lhe, desdobrou-lhe o quadro das afflicções que eram d’outrem e que sentia como suas. Frei Domingos attendeu-o e escutou-o humilde e compassivo, respondendo finalmente:

—É grave e trabalhoso demover o proposito d’um ánimo resoluto. Operemos e esperemos todavia. _Deus autem noster in cælo; omnia quæ cumque voluit, fecit._[6]

Depois que Rodrigues d’Abreu sahiu do cubiculo da rua do Carvalhal, Frei Domingos do Amor-Divino ajoelhou-se deante do seu crucifixo invocando as graças do Céo. Durante a oração illuminou-se-lhe o espirito, e quando o carmelita se levantou, tinha já traçado o plano da obra espinhosa que tomara sobre si, esperançado no auxilio divino, como revelam estas palavras que murmurara ao oscular o crucifixo:

—_In tribulatione mea invocavi Dominum, et ad Deum meum clamavi._[7]

Depois desceu as escadas com extranhavel vigor, atravessou a rua e aldravou á porta de João Nicolau de Brito.

XX

Eduardo Valladares e Maria Luiza, na impossibilidade de fallar-se, viam-se apenas. Triste correspondencia era essa escripta com lagrimas de dois corações que se deviam estar inflorando, n’aquella sazão, em jubilosas primaveras. Não acontecia assim, porém.

As cartas de Maria Luiza principiavam por palavras de resignação e fechavam com outras d’esperança; as de Eduardo Valladares tinham longo prefacio de desalentos e terminavam com assomos de mal contido desespêro.

Demoremo-nos um momento a medir a profundeza de dois abysmos.

Maria Luiza, alma que se desatara em perfumes e amores ao sôpro virginal do primeiro affecto, conhecia de sobra os despenhadeiros que lhe estava cavando um amor desventuroso, e resignadamente se deixaria despenhar só para não arrastar na queda outra alma que vivia sob o influxo d’uma estrella commum.

Por isso, com o coração despedaçado, aconselhava a medicina da resignação e deixava entrever diluculos d’esperança através de uma chuva de lagrimas que não podia reprimir.

Os vestigios das lagrimas choradas desvelariam a um espirito desassombrado o segredo que o coração de Maria Luiza com tamanho empenho recatava; bastariam para eloquentemente denunciar os soffrimentos crueis que ella procurava dissimular trocando em flores o orvalho dos seus olhos.

Eduardo Valladares, moralmente sobreexcitado, lia as cartas e, diga-se a verdade, encontrava n’ellas um como refrigerio ministrado por mão do anjo da guarda; por momentos se tranquillisava com as esperanças a que o estava convidando o ánimo apparentemente tranquillo de Maria Luiza.

Durava apenas momentos, como dissemos, a acção benefica da leitura. Após aquelle instantaneo repouso, rugiam de novo as mesmas tempestades e era então o revolver se no mesmo leito de Procusto, em desesperadora ancia. O que elle claramente via n’esses angustiosos momentos era o infernal dilemna que comprimia a sua vida entre dois estiletes rubros de fogo maldito:—Succumbir ou rebellar se.

Succumbir era amortalhar se na batina do sacerdote; dilacerar o coração, dia a dia, hora a hora; despenhar em abysmo insondavel as mais formosas visões do céo da sua mocidade; separar-se d’ella, da mulher adorada, para nunca mais aspirar o perfume dos seus labios, e não só separar-se mas tambem infelicital-a; e depois passar sereno e tranquillo, aconselhando esperança, por entre os que se ajoelhassem para beijar-lhe a fimbria da batina. Rebellar-se era ter de fugir, levando para toda a parte o remorso de haver envenenado a tranquillidade do lar paterno; era ter de abandonar o anjo que na linguagem dulcissima do Céo lhe pedia que ficasse; era dar á sociedade o direito de insultar as suas dores mais santas; era finalmente faltar á promessa, que fizera, de esperar resignado o momento em que chovesse do Céo o refrigerio que só o Céo podia ministrar em tão difficil conjunctura.

Ficou pois; como havia promettido.

Approximam-se as férias do Natal de 1852 e Eduardo Valladares denunciou vontade de não vir ao Porto, pretextando trabalhos escholares, especialmente o de redigir duas dissertações.

É que se não via com a coragem precisa para abeirar-se de sua mãe sem revelar os segredos que lhe corroíam o coração, sem lhe dizer que tudo quanto parecia sujeição voluntaria era sacrificio de victima impotente, e sem lhe attribular para sempre as horas que á boa senhora corriam remançosas ao lado do marido.

Em meado de dezembro, n’uma quinta-feira que amanhecia radiosa como para descoalhar as neves que alvejavam nas agulhas das serranias, especialmente no Gerez, Eduardo Valladares deixou-se ir, de rua em rua, absorto nos pensamentos que lhe preoccupavam o espirito.

Ao desemboccar no Campo de Sant’anna, sahiu-lhe ao encontro um seminarista seu condiscipulo, um tal Mendonça, natural de Guimarães, talento contubernal de homens devassos nos alcouces bracharenses, brigão de emboscadas nocturnas, que seguia a carreira ecclesiastica para acobertar com a batina as ulceras d’uma alma devastada pelo vicio.

A approximação d’este sujeito façanhoso, que apregoava, chanceando-se, as repugnantes aventuras de sua chronica, entediava sobremodo Eduardo Valladares, o qual pensava, ao vêl-o, na maneira por que a sociedade costuma encarar o padre que sacrifica a propria felicidade aos pés de Deus, e o padre cujos dedos empeçonhados da lepra do crime devem macular a alvura do amicto.

Eduardo Valladares pensava n’isto e conhecia que a sociedade não levantava entre um e outro barreira que pudesse distancial-os, para que a lama, levantada na passagem do mau padre, não fôsse salpicar a face do sacerdote exemplar.

Esta distancia conservava-a Eduardo Valladares no seu espirito, que é unicamente onde se pode distinguir vicio e virtude quando é uso confundil-os e tomal-os um pelo outro só para se não castigar o vicio nem premiar a virtude.

N’aquella dolorosa introversão do seu espirito, via se Eduardo Valladares já sacerdote, offerecendo todos os dias a Deus no calix do sacrificio a vida que lentamente lhe arrancavam e, como se isto não fôsse provação de sobra, via-se tambem exposto aos chascos da sociedade que insulta um raro exemplo de virtude, quando elle apparece, por estar habituada a encontrar a torpeza, a cada hora, nas praças como nos templos.

Corroendo a arvore sacrosanta do evangelho, regada pelo suor dos virtuosos cultores e mimosa dos cuidados d’elles, descobria o ominoso áspide, o verme da reacção, que contramina a obra piedosa e envenena com a baba immunda os fructos que puderam ser opimos, damnificando a colheita. Quando apparece o modêlo das verdadeiras virtudes evangelicas, quando surge, de longe a longe, um Frei Domingos do Amor-Divino, a sociedade, na maxima parte, repelle-o e vitupera-o e apedreja-o irreverentemente.

No dia em que o religioso carmelita sahira a mendigar de porta em porta para a viuva e para os quatro orphãos, não muitos, como já dissemos, foram os corações que se abriram ao benefico influxo d’aquelle espectaculo edificante. Muitos o repelliram com desamor e remoques d’esta laia:

—Que peça para um, que já não é pouco. A gente não tem obrigação de sustentar as familias dos frades pobres e devassos...

E Frei Domingos sahia, com a sua velhice e com a sua humildade, chamando mentalmente o medico divino para o coração empedrenido.

O seminarista de Guimarães abeirou se de Eduardo Valladares com rude familiaridade:

—Ó homem! estava longe de te encontrar aqui! Tão recatado vives, que não ha pôr-te a vista senão á hora da aula! Ora dize-me uma coisa. Tu levas isto a sério ou usas de santimónias de Tartufo?

O filho do bacharel fitou com admiração o de Guimarães e ponderou entre delicado e digno:

—Não comprehendo, como desejava, a referencia da palavra _isto_. Tens a bondade de m’a explicar?

—Isto, replicou Mendonça desfechando uma gargalhada, isto, é a alienação do direito de ser homem, que a sociedade nos quer impor, a nós, os que seguimos a vida ecclesiastica; isto, é a investidura ridicula da batina; isto, é a tonsura com que nos cerceiam os cabellos emparelhando-nos aos scelerados que estigmatisavam nos logares publicos; isto, é este assentamento de praça na milicia sagrada, que não pode deixar de ter as liberdades de todas as milicias...

—E isso, o que tu disseste, replicou Eduardo Valladares, é a linguagem desbragada do soldado que veste as armas, não para militar pela causa que jurou, mas unicamente para ter direito á pilhagem...

—Santimónias de Tartufo, bem dizia eu! Olha que nem tu nem eu havemos d’enriquecer com a pilhagem. E d’ahi, pode ser que tu chegues a fazer casa... Quantas missas tencionas dizer por dia?

Eduardo Valladares ia denunciar o asco que lhe estava causando aquelle falar licencioso, quando um maltrapilho, que passava, bateu familiarmente no hombro de Mendonça e apostrophou:

—Ó homem! eu dormi quatro horas e tu não havias de dormir muitas mais! Perdi tudo... A sorte negou-se, e deixou-me a tinir!

Eduardo Valladares foi seguindo seu caminho, sobremodo entendia da approximação d’aquelle repulsivo caracter. O de Guimarães e o maltrapilho ficaram conversando e revendo provavelmente as paginas ascorosas da historia d’uma noite passada em qualquer espelunca de jôgo.

O filho do bacharel foi seguindo sempre pelo Campo de Sant’Anna adeante e, transposta a egreja de S. Victor, sentou-se no caminho desfrequentado a olhar para o arvoredo que ao de leve ondulava na encosta do Bom Jesus. Ahi, n’esse cogitar em si mesmo, passou duas horas que tanto tiveram de tribulação como de doçura. N’aquelle seu ermar havia um misto d’esperança e desespêro, que praza a Deus que os que hoje se julgam felizes nunca possam comprehender.

O leitor, que se defrontou já com o perfil respeitavel de Frei Domingos do Amor-Divino, ponha os olhos no reverso da medalha, n’este seminarista de Guimarães, que já cem vezes ou mais deve ter levantado com mãos impuras o calix que Frei Domingos offerecia a Deus todos os dias, e depois volte a pagina e leia o capitulo seguinte para restituir á sua alma as doçuras religiosas que os labios de nossa mãe coáram aos nossos ouvidos quando nos ensinaram as primeiras orações.

XXI

João Nicolau vinha, com uma braçada de flores, de jardinar nos seus canteiros, quando ouviu bater á porta. Foi elle mesmo abrir e entre admirado e contente se mostrou ao dar de rosto com Frei Domingos do Amor-Divino. Não teve mão em si que, ao conduzir para a sala o carmelita, não fôsse gritando com alegre alvoroço:

—Anda cá, Maria, anda cá. Está aqui o nosso vizinho Frei Domingos; não te demores, anda de pressa...

D. Maria d’Assumpção acudiu pressurosa ao clamoroso chamamento e, quando encarou no marido que embraçava ainda as flores, pediu desculpa após desculpa de tão descerimoniosa recepção.

Frei Domingos respondeu com jovialidade:

—Com flores me receberam; não pode haver mais galhardo acolhimento. O snr. João Nicolau está-me fazendo recordar agora d’uma passagem de Salomão. Ora lá vae e tenham paciencia; isto é veso incuravel de frade velho: «Desci ao jardim das nogueiras para vêr os pomos dos valles e para examinar se a vinha tinha lançado flor e se as romãs tinham brotado». Foi o sr. João Nicolau vêr as flores do seu jardim e mimosas as encontrou, a julgar pelas que trouxe. Não ha, pois, razão para desculpas e não falemos mais n’isso.

—Ó sr. Frei Domingos, replicou João Nicolau, nunca eu desço ao quintal que não sinta um peso na alma ao deitar os olhos para as torres do Carmo. Ai que tristes recordações!...

—Não podes falar n’outra coisa! atalhou D. Maria d’Assumpção.

—Não me molesta, antes me consola o assumpto, respondeu Frei Domingos. É sempre doce para o coração d’um filho ouvir falar da casa paterna; e tanto eu quero ainda áquelle tecto, que me fiquei por aqui para o estar namorando a toda a hora...

—Perseguirem os frades! regougou João Nicolau. Que mal lhes faziam? Não houve delicto de que os não accusassem!...

—Não sejamos tão severos, não sejamos. Nos conventos, como em todas as sociedades, havia trigo e joio.

—Isso assim é, acudiu João Nicolau. Lá diz o que escreveu _Os frades julgados no tribunal da razão_[8], curioso livrinho que tenho alli, lá diz elle: «A primeira familia do mundo teve um Caim».

—Bem disse o auctor e com verdade falou. No convento havia homens e por tal razão idéas e sentimentos diversos. Mas entre tantas cabeças e tantos corações alguma cabeça haveria que pensasse reflectidamente, algum coração haveria propenso ao bem e ao justo. A obra d’esse varão aproveitaria ao mundo. Muito melhor o diz o livro sagrado: «Pequena é a abelha entre os animaes volateis, e com tudo isso logra o seu fructo a primazia da doçura»[9].

D. Maria d’Assumpção escutava enlevada e ao mesmo tempo compadecida das angustias do frade.

—Tudo quanto havia de bom, fora e dentro dos conventos, tudo a guerra nos levou, ponderou João Nicolau. Perderam-se vidas, correram rios de sangue, consumiu-se, matou-se, espoliou-se... As consequencias fôram tristes como os factos.

—Sou extranho a tudo o que respeita a politica; no convento desconheci-a sempre; fora do convento egualmente a desconheço.

—Ler a historia da guerra civil, disse João Nicolau, é doloroso; feliz quem se puder forrar a semelhante leitura.

—D’essa historia, respondeu Frei Domingos, sei apenas que o sr. D. Pedro era um principe portuguez, que já morreu e que o sr. D. Miguel, seu irmão, é outro principe que vive em terra extranha.

—Pobre e saudoso, elle, o sr. rei, o rei legitimo, como provou José Agostinho, como provou Frei Matheus da Assumpção, e como provaram tantos outros!

—Pobre e saudoso se me afigura que deve viver. Mas, exclamou Frei Domingos com ar prazenteiro, fechemos as chronicas nacionaes que estão ainda a rever sangue. É tempo de expor o motivo que me levou a entrar na casa desconhecida...

—Muito prazer nos deu a sua visita, sr. Frei Domingos, apostrophou D. Maria d’Assumpção.

—Não sabe quanto me apraz relacionarmo-nos! accrescentou João Nicolau. Espero que continuará a dar-nos o gosto de o vermos e ouvirmos. E depois tenho cá um meu neto que anda no Seminario e que precisa de pedir sombra a boa arvore. O sr. Frei Domingos sei eu que não se recusa a uma obra piedosa.

—Nada sou e nada valho. Se não é molesta a minha presença, virei. Não ha melhor asylo do que o aposento do varão honesto e honrado. Ah! mas reatando a conversa... Costumam alguns corações piedosos encarregar-me, n’esta grandissima festa do Nascimento, de distribuir esmolas por pessoas realmente carecidas. Sempre é bom prevenir, e mais sabem tres do que um. Não tem o snr. João Nicolau pessoa de suas relações que se veja em estado d’acceitar a moeda abençoada da caridade?

—Oh! sr. Frei Domingos! A sua lembrança penhora-nos! exclamou D. Maria d’Assumpção. Temos, sim, senhor. A Joaquina, que fez em tempo os recados da nossa casa, está pobre e entrévada ha dois annos e, se lhe não valesse o auxilio da caridade, já teria morrido de doença e miseria.

—É verdade, a Joaquina! bem empregada esmola! confirmou João Nicolau.

—Pois esperemos o Natal, e da colheita repartiremos pela entrevada Joaquina, perorou Frei Domingos, levantando-se para sahir.

Á despedida, João Nicolau e D. Maria d’Assumpção reiteraram instancias que demovessem o frade a prometter nova visita e, quando elle transpunha o limiar, ficaram ambos dizendo:

—Frei Domingos é uma santa alma!

As mesmo tempo ia monologando o carmelita:

—_Dominus Deus auxiliator meus_[10]. Deus me guiará pelo caminho appetecido.

XXII

—Temos passado as férias,—disse D. Maria d’Assumpção a João Nicolau, sem darmos um unico passeio! Eu acho que já estou trôpega. Nada! É preciso aproveitar estes dois dias. Em se abrindo as aulas, começa a gente a cabecear com somno como se a casa fôsse de ermitões. E agora, que são férias, parece que tambem era prohibido falar em passeios para não distrahir o nosso estudante!...

—Ó mulher! tu não tens lembrado... Eu estou por tudo.

—Pois não vês que este rapaz, de genio triste, não pode supportar semelhante viver de velhos?

—Olha que é preciso educal-o para a vida que ha de levar. A vida do bom sacerdote deve ser a vida do descanso e da meditação... Põe os olhos em Frei Domingos...

—Pois quando elle fôr padre, falaremos. Guiemol-o por bom caminho, mas não o opprimamos. A oppressão dá causa, por via de regra, á reacção.

—Reagir, elle! Não se reage contra as proprias inclinações. Em tempo pareceu-me que era avesso á carreira ecclesiastica. Hoje estou completamente convencido de que sonha com as glorias do pulpito e com o renome conquistado pelas suas homilias futuras. É que o chama para alli o coração, e esta coincidencia de encontrar o animo do Eduardo affeiçoado á minha vontade, só a Deus a posso agradecer. Por isso, para satisfazer aos deveres que me aconselha a consciencia, é que já lhe comprei outro dia os sermões do Padre Antonio Vieira...

—Por mais audaciosas que sejam as aspirações do rapaz, por maior que seja a sua tendencia para a vida ecclesiastica, sempre te direi que a leitura de sermonarios deve ser muito indigesta para um espirito de dezesete annos.

—Sim! hei de talvez dar a ler essa praga de romances, que se introduziu em Portugal ha poucos annos, a um rapaz que eu educo para ser um padre digno dos respeitos da sociedade! Que mau padre não o quero eu. Prefiro vel-o morrer. Frei Domingos é o typo que eu escolho como padrão do bom clerigo.

—Ora essa! Pois tu imaginas que ha muitos Frei Domingos?! Uma alma assim manda-a Deus á terra para allivio dos infelizes.

—Não digo que seja egual, que eu sou o primeiro a reconhecer em Frei Domingos virtudes excepcionaes. Ninguem tem por elle mais respeito e mais dedicação do que eu. Quero porém que o exemplo do nosso vizinho aproveite á sociedade; bem sabes que deve ser de bençãos a sombra d’aquella arvore veneranda.

—Disseste «sociedade» e querias referir-te ao Eduardo. Percebi a tua intenção. Pois se tu dissesses a Frei Domingos: «Tenho aqui encarcerado a sete chaves este rapaz de dezesete annos, só para que não se acalente ao sol do mundo» verias como elle te havia de responder: «Deixe-o entregue ás alegrias castas da sua idade, e não opprima o coração delicado.»

—Ó mulher! pois eu opponho-me? Valha-me Deus! Passeiemos. Já agora encarreiramos para o Bom Jesus. Pois vamos lá; e se queres ir para outro sitio, dize.

—Vamos ao Bom Jesus que é mais commodo e menos dispendioso. Vamos lá depois d’amanhã passar o dia. Visto que está em costume, mando dizer ás Machados.

—Pois manda. Depois não me chames ermitão...

D. Maria d’Assumpção vingára o seu proposito. O que ella queria era alliviar por um momento as sombras espessas que ennoiteciam dia a dia, cada vez mais, a alma do neto. Tanto lhe bastava, e para isso era preciso não dissipar as illusões do marido, o que seria o mesmo que fazer subitamente estalar uma tempestade. João Nicolau, inimigo figadal do romantismo, andava acumulando de velharias mysticas a estante de Eduardo.

A pobre senhora conhecia a inconveniencia, mas nem se oppunha, nem sequer mostrava desagrado. Esperava em Deus. Era para o Céo que ella appellava na impossibilidade de suster a marcha de acontecimentos a que era contraria.

A antipathia de João Nicolau pelo romantismo, aquelle odio explosivo votado ao romance tal qual o architectára Garrett no _Arco de Sant’Anna_ e principalmente na historia da Joanninha das _Viagens_, póde explicar se ainda pela cega dedicação a José Agostinho de Macedo e á seita litteraria seguida pelo auctor da _Viagem extatica_.

Tudo o que não fosse a declamação emphatica vasada nos velhos moldes aristotelicos, era somenos para João Nicolau. Bem se lembrava elle de que o seu auctor favorito escrevera: «Depois da praga gazetal o _romancismo_ é a peste litteraria, que mais tem grassado por toda a Europa. Assim que W. Scott, e o Byron em Inglaterra, e em França seus macaquinhos, Lamartine, d’Arlincourt, Victor Hugo e outros de igual jaez publicaram seus monstruosos delirios, logo houve em Portugal quem os imitasse.» Estas palavras, e as mais que se seguem, e não nos permittimos transcrever, acepilhadas de quejandas blasphemias, eram doutrina corrente e moente para o velho absolutista.

D’aqui, e da esperança de vêr o neto prégador da real capella, provinham as frequentes compras de sermonarios e chronicas milagreiras para a estante, dia a dia enriquecida, do filho do bacharel.

No quarto de Eduardo Valladares havia, porem, um livro não recheado de erudição fradesca nem modelado pelos velhos paradigmas litterarios. Esse era o livro querido, o livro sempre lido, sempre veneno e sempre balsamo: era o _Eurico_, do sr. Alexandre Herculano. João Nicolau, indifferente senão adverso aos applausos que esta obra notavel despertara, suppunha o neto, por via de regra, absorvido em leituras devotas, á hora em que elle aliás estava vendo a sua alma no espelho em que se projectava o perfil do presbytero de Carteia.

Não era Eurico um desgraçado como elle ou elle um desgraçado como Eurico?

Ambos amavam, ambos soffriam, ambos choravam, e ambos podiam perguntar a si mesmos: «Que fôra a vida se n’ella não houvera lagrimas?»[11]

A viuva Machado, convidada de vespera para tomar parte no passeio ao _Bom Jesus_, respondeu que gostosamente iria se, d’um dia para o outro, se não aggravassem uns leves incómmodos que todavia a não deixavam sahir. D. Maria d’Assumpção ficou muito contrariada, mas não era conveniente transferir o passeio, e foi.

Eduardo Valadares chegou á floresta do Bom Jesus com o coração despedaçado. Era a primeira vez que alli entrava sem Maria Luiza, e a folhagem verde da encosta, quando elle passava, parecia murmurar este nome; d’aqui o olhar para si mesmo e fugir apavorado da solidão dolorosa da sua alma. Mas o que era isto, esta saudade ao mesmo tempo suavisada pelas doces recordações que lhe eram socias, o que era esta triste solidão a par da solidão perpetua a que a sua alma se via condemnada; das infinitas dores curtidas nas longas horas das noites de vigilia, das lagrimas choradas, das esperanças para sempre perdidas, das lacerantes recordações que elle em vão tentaria abafar, e que de si mesmas resurgiriam, umas após outras, no espirito do presbytero?

Insensivelmente foi procurando o trilho da Mãe d’agua; ia-o guiando o coração, sem que elle désse por isso.

Era aquella a mesma alameda, aquella a mesma cupula de verdura, o mesmo cedro em cujo cortix entalhara as iniciaes M. L., o mesmo ar cheio de murmurios, a mesma corrente suspirosa, a mesma sombra e a mesma suavidade. Mas faltava ella, a doce companheira, a visão formosa d’aquella tão doce estancia, e a solidão era triste, pesada, esmagadora.