Idyllios á beira d'agua Romance original

Part 4

Chapter 43,807 wordsPublic domain

São precisas algumas palavras d’explicação. Sebastião Valladares, natural de Vianna, havia completado o curso universitario quando, perseguido por suas idéas politicas, teve d’emigrar em 1828. A esse tempo contava elle vinte e cinco annos e tinha, sacrificado o coração, nas aras do amor, á senhora que, annos depois, desposara. João Nicolau de Brito possuia uma quinta, sombreada de copado arvoredo, á ourella do rio Lima; foi ahi que o bacharel Valladares vira, em dezembro de 1827, a formosissima dama bracharense, e foi d’ahi que se amaram.

Compellido a emigrar, Sebastião Valladares vizinhou em Rennes de Almeida Garrett e de Manuel Rodrigues da Silva e Abreu. Ahi, nas angustias do destêrro, se estreitaram os laços que os deviam prender toda a vida. Em 1832 voltaram á patria os saudosos emigrados: Manuel Rodrigues da Silva e Abreu era nomeado official do governo civil de Braga; Almeida Garrett voltava á politica e á litteratura; e Sebastião Valladares casava e abria banca d’advogado no Porto.

João Nicolau era affeiçoado á causa absolutista e n’isto vae a razão da sua entranhada sympathia por José Agostinho de Macedo. Aos ouvidos do proprietario bracharense soavam continuamente aquelles dois enthusiasticos versos da _Viagem extactica_:

No meio do clarão veio no throno Cercado d’esplendor Miguel Primeiro.

João Nicolau apenas consentiu no casamento quando as instancias da esposa, estremosa pela filha, e o caracter decisivo da lucta civil não lhe permittiram resistir por mais tempo. Quando porém admittiu á sua presença o bacharel, disse-lhe de sobr’ôlho carregado:

—Pode levar minha filha, se a quizer sem dote. Não sou rico e os meus padecimentos obrigam-me a despesas constantes; não posso desviar o que tenho. Em eu morrendo, e minha mulher tambem, levem tudo, que tudo lhes pertencerá então.

Com o decorrer do tempo foi-se diminuindo a distancia respeitosa que separava sogro e genro, a ponto de João Nicolau tomar sob sua responsabilidade a educação do neto.

Postas estas explicações, voltemos ao anno de 1851 em que se passa este caso que vimos historiando.

Sebastião Valladares conservava com os seus dois amigos e correligionarios os estreitos laços d’amizade vinculados ao coração nas horas melancholicas do exilio. Almeida Garrett escrevia-lhe frequentes vezes. O bacharel, quando abria as cartas assignadas por _João Baptista_, costumava dizer:

—Os amigos que se adquirem na desgraça são os verdadeiros.

Manuel Rodrigues da Silva e Abreu estava a esse tempo exercendo o cargo de primeiro bibliothecario da Bibliotheca de Braga[4]. Dos tres amigos era o bacharel Valladares o menos favorecido da fortuna, mas não era o menos venturoso. Recusou sempre a protecção que os seus amigos lhe offereciam, nomeadamente Almeida Garrett. Costumava dizer o bacharel:

—Trabalho todo o dia para viver, mas adormeço á noite tranquillo, e vivo escondido do mundo. O Garrett, tanto o Garrett politico como o Garrett litterato, tem soffrido que farte. Não lhe invejo a sorte.

Tres annos depois, em 1854, expirava o reformador da litteratura portugueza; e só então, cerrado o tumulo, principiava a ser julgado como devia, no tribunal da posteridade, o que tanto merecera da patria e tamanhas injustiças colhêra na sua esplendida carreira.

XVI

O bacharel Valladares escreveu a Manuel Rodrigues da Silva e Abreu solicitando a graça de allumiar com bom conselho a estrada em que o inexperiente estudante arriscava os primeiros passos da sua mocidade.

O bibliothecario de Braga, coração sem mancha e intelligencia distinctissima, acolheu o moço com a amenidade de tracto que lhe era peculiar. Eduardo Valladares, terminadas as aulas, subia ordinariamente á bibliotheca onde o velho amigo de seu pae estava labutando em azafama continua, e sobremodo se deliciava á sombra d’aquella arvore vetusta meio tombada para o chão.

O auctor d’este livro reiteradas vezes teve a felicidade de, na sala da bibliotheca bracharense, ouvir a palavra sempre fluente e amena de Rodrigues Abreu. Infundia respeito ver levantar-se aquelle busto venerando, coberto de cans, d’entre montões de livros a que elle chamava _a sua familia_. Uma vez bibliothecario, empenhou-se afanosamente pela causa da bibliotheca. Não se cansou de pedir os indispensaveis melhoramentos materiaes, dos quaes o primeiro era inquestionavelmente maior espaço para a conveniente arrumação de preciosos livros que jaziam a monte. A sua voz clamou no deserto e nem a palavra auctorisada de tão respeitavel varão nem repetidos artigos da _Revista Universal Lisbonense_ lograram obter despacho favoravel.

Como se este constante e baldado empenho não fôsse canseira de sobra, Rodrigues d’Abreu entregava-se a trabalhos de bibliotheconomia e chegou a publicar sobre este assumpto um opusculo que denominou _Novidades bibliotheconomicas_.

Para daguerreotyparmos o homem, que já hoje é da historia, aproveitemos os traços caracteristicos que nos offerece o sr. Soares Romeu Junior: «... Era alto de estatura, rosto claro e comprido, nariz proeminente, olhos escuros e a fronte espaçosa, coroada de alvissimas cans.»

Do escriptor diremos apenas que trasladou o _Eliezer_, de Florian, a versos portuguezes, dos quaes o leitor pode avaliar o sabido quilate pela apreciação que de tão notavel obra fez no _Panorama_[5] o sr. Alexandre Herculano.

Consagradas estas poucas linhas á memoria de Rodrigues d’Abreu, prosigamos em a nossa narrativa.

Eduardo Valladares refez o seu espirito, nas horas feriadas de canseiras amorosas, em proficua leitura que lhe ministrava Rodrigues d’Abreu. Se levantava os olhos dos livros era para os fitar na imagem radiosa que lhe flammejava auroras no coração; e como quer que os livros substanciosamente doutrinarios tenham o seu tanto de agri-doces, Eduardo repousava da leitura nas amenidades do amor.

O bibliothecario bracharense, quando escrevia ao bacharel Valladares, costumava dizer-lhe: «O teu filho é uma perola, mas receio pela felicidade d’um espirito que, em tão verdes annos, tamanhos merecimentos revela. Já que me arvoraste em medico espiritual, direi que o seu temperamento requer brandura.»

No fim do anno lectivo de 1851 a 1852, Rodrigues d’Abreu abraçou jubiloso o estudante que sahia premiado das aulas preparatorias.

Decorrido tempo, no fim de setembro de 1852, Eduardo Valladares subiu á sala da bibliotheca evidentemente sombrio, a ponto de inspirar sobresalto ao seu velho e dedicado amigo.

—Recebi ordem terminante de meu avô para me ir matricular no Seminario, e o meu coração não pode resistir ao supplicio que esta resolução lhe impõe, disse com accento melancholico Eduardo Valladares.

Na casa da rua do Carvalhal ouvia-se a esse tempo a voz atroadora de João Nicolau clamando:

—Amanhã vae o rapaz matricular-se no Seminario. Lá o Rubicon do lyceu, vencido está. Agora vamos a vêr como se sae da theologia, que sempre é coisa mais séria...

—É pois chegada a occasião de reflectires maduramente, respondia D. Maria d’Assumpção. D’esta decisão depende o futuro de teu neto, e não deves ser precipitado. É conveniente pensar.

—Já pensei e tornei a pensar. Está dito, está dito. Vae matricular-se no Seminario.

—Sondaste lhe porventura a vocação? Quem sabe se lhe repugnará o futuro que tu despoticamente lhe preparas, homem?

—Despoticamente! Essa agora é muito boa! Pois é despota quem faz um beneficio?

—Não digas beneficio. De quem ha de vir a ser tudo o que nós temos, pouco ou muito, senão d’elle ou dos paes?

—Quem sabe o que Deus fará, mulher? O que é que nós temos? Algumas propriedades em Braga e uma quinta em Vianna! Olha a riqueza! E se vier uma doença prolongada não havemos de gastar quanto fôr preciso? Lá do Sebastião tenho pena, por que não é mau rapaz, á parte o ter desembarcado em 32 com não sei quantos outros _mindelleiros_ que vinham estropeados a ponto de mal poderem com a arma ás costas! Por isso é que mandei vir o rapazinho, e já que o pae m’o confiou posso pôr e dispôr á minha vontade.

—Reflexiona, homem de Deus, reflexiona.

—Mas que destino queres tu que se dê ao rapaz? Pensas que temos dinheiro para o mandar a Coimbra? Olha que um patrimonio fica em conta, mas uma formatura compra-se a peso d’ouro. E demais a mais fica-nos aqui debaixo da vista, e pouco será o que houvermos de gastar em livros. Está decidido. Amanhã vae matricular-se no Seminario.

XVII

Estamos em novembro de 1852.

Na alameda da Mãe d’Agua respira-se no ar balsamico a suavidade d’uma primavera perpétua.

Após dias de cerrada invernia, mostra se no formoso céo do norte este sol esplendido de Portugal, que é a delicia de nacionaes e extrangeiros.

Esperava-se por um dia alegre e sereno para remoçar o espirito, cansado da monotonia da chuva.

D. Maria d’Assumpção tinha falado n’um passeio ao Bom Jesus logo que o tempo estiasse; as meninas Machados receberam, por escripto, participação do alvitre e applaudiram-n’o sobremodo.

Lampejaram n’um domingo clarões de formosissima aurora; deu-se rebate e preparou-se alegremente o rancho.

João Nicolau subiu a montanha abordoado á sua bengala de canna da India, galhofando com ares de sincero e expansivo contentamento. Eduardo Valladares parecia, ao contrário de todos, entre concentrado e triste. O avô olhava para elle de soslaio e dizia de si para si:—«Lá vae o rapaz com a maldita poesia!»

D. Maria d’Assumpção, que de sobra conhecia as angustias do neto, pensava compadecida:—«Pobre martyr!»

Maria Luiza reprimia no coração dolorosas tempestades, e desabrochava nos labios um sorriso que daria fel bastante para muitas lagrimas.

Cêrca do meio dia, Eduardo Vallares e Maria Luiza puderam encontrar-se na Mãe d’Agua.

Foi dolorosamente triste o mudo dialogo d’uns olhos que, n’um momento de silencio, resumiram as mais pungentes expansões.

Olharam-se, e não puderam articular uma unica palavra. Decorreram alguns momentos que valiam seculos d’angustia. O filho do bacharel Valladares pôde alfim dominar a commoção que lhe estrangulava a voz na garganta.

—Esperava por este momento anciosamente, disse elle. Escrevi-te, procurei no écho da tua alma um allivio para os meus infortunios, mas escrever-te não bastava. Era preciso ver-te, ouvir-te, escutar-te. Ha dois mezes que eu abafo no coração a procella do desespêro. Oh! Dá-me um raio d’esperança para eu não morrer, dize-me ao menos que me amas para que eu tire das tuas palavras a coragem que me falta. Ha dois mezes que eu esperava a hora de poder escutar a tua voz como a alma condemnada aos tormentos do purgatorio deve esperar o momento de subir, expurgada das suas culpas, á bem-aventurança do Céo. Oh! isto é horrivel, meu Deus!

A pobre menina tremia agitada pela convulsão dos nervos, e sentia fugir-lhe a voz e a vista.

—Dilacera-me o remorso, continuou elle com violenta commoção—dilacera-me o remorso de ter acorrentado a tua alma angelica ao poste da minha desgraça. Sacrifiquei a tua alegria, a tua tranquillidade, o teu futuro, a tua vida ao egoismo do meu coração. Amar-te não bastava? Quiz tambem ser amado, e despenhei-te, anjo innocente, das paragens remançosas onde te libravas descuidosa e tranquilla. Quiz tambem ser amado e impuz á tua alma o sacrificio de exgottar o calix da amargura ao tempo que o teu amor dulcificava os filtros celestiaes que me embriagavam. Perdôa-me, oh! perdôa-me, por que o meu amor era immenso, indomavel, e eu preferia morrer, a ver desfeita a minha esperança, a ver desabar o meu sonhado paraiso...

—Se te perdôo! murmurou maviosamente Maria Luiza. Perdôa-me tu, que é por mim que tu soffres...

—Ah! interrompera a elle de golpe. Pois é certo que me perdôas? Que importa então que imponham á minha alma um futuro que ella não pode acceitar! O escravo, o humilde, o servo de gleba ha de erguer-se soberbo da riqueza da sua alma, e repellir a mão que ao mesmo tempo empresta um futuro que nos repugna e exige como hypotheca a felicidade de duas existencias consubstanciadas n’uma unica. Irei trabalhar para onde a sorte me levar; procurarei em toda a parte o que me vendiam aqui a trôco de lagrimas, mas terei no meu coração a dulcissima alegria da esperança, da esperança que me queriam roubar para me garantirem a felicidade material da vida, como se a vida sem a esperança não fôsse uma ironia cruel e deshumana! Irei, é preciso fugir...

—Fugir! fugir! Dize antes que me queres roubar a consolação de compartilhar as tuas angustias. Fugir e deixar-me sósinha, entregue á minha saudade, á minha desventura, ao meu desespêro! Dize antes...

—Cala-te, por alma do anjo que morreu beijando-te, cala-te. Peço-t’o eu.

—Fugir! E querias assim despedaçar as ternas cadeias que nos prendem um ao outro, só para alimentares no coração a esperança de reatal-as um dia?

—Perdôa-me, que eu fui cruel, porque me enlouqueceu a dôr. Não te ver, não te ouvir! E poderia eu viver? Iria morrer longe de ti, anjo do meu coração, sem ouvir na hora derradeira, á beira do meu leito, o murmurio das tuas orações...

—E depois, com que profundissimas dôres não irias despedaçar o coração estremoso de tua mãe! com que maldito tormento não irias infernar a velhice de teu pae e levar a desgraça á serenidade alegre da tua casa!

—Comprehendo a nobreza da tua alma, anjo. Agradeço-te por mim, por minha mãe, por meu pae, por Deus. Ficarei. Acceitarei resignado o sacrificio que me impõem e appellarei para a Providencia, que vela por todos os desgraçados. Juro-te que serei submisso.

—Obrigada. Pertence-me metade das tuas afflições e como poderia eu luctar com o destino se me faltasses tu a dar-me alento nas horas attribuladas da nossa commum desventura?

—E has de soffrer tu, santa do martyrio, que merecias a felicidade na terra? E hei de eu ser teu algoz, eu, que te amo até á loucura? E hei de eu ser teu algoz e sacrificar a tua alma immaculada, exigindo que soffras, que chores, que morras na lenta agonia dos desgraçados, só por que eu tambem agoniso, e choro e soffro? E não ha de Deus escutar-nos e não ha de o céo condoer-se das nossas afflicções! Oh! sinto na minha alma a labareda maldita do inferno!...

XVIII

Não tinham decerto escutado ainda mais doloroso idyllio as arvores sombrias da _Mãe d’Agua_.

Eduardo Valladares esperava com febril anciedade, como dissera, aquelle momento que se lhe afigurava decisivo. Durante dois mezes, apenas pudera entregar ao papel as pungentes confidencias da sua alma.

Quando, nos ultimos dias de setembro, João Nicolau de Brito o chamou á puridade para ordenar-lhe, severo e inexoravel, que immediamente fôsse abrir matricula no Seminario, escutou o submissamente, abafando no coração a tempestade revôlta que, n’aquelle momento, fibra a fibra lh’o estava despedaçando.

Sahiu da sala para correr á Bibliotheca, onde lhe ouvimos o brando queixume que o coração amigo de Rodrigues d’Abreu recolhera compadecido.

João Nicolau, matriculado Eduardo no primeiro anno do curso de theologia, jubilava com o bom rumo que os seus planos tomavam hora a hora.

Esperava talvez resistencia da parte do neto e cabalmente se enganou. Todos os dias o observava com olhos perscrutadores; via-o triste e sombrio, mas não extranhava.

Não era elle de natural melancholico?

Estas investigações quotidianas levaram-n’o a modificar as suas conjecturas. «O rapaz, dizia de si para si, acceita com boa disposição a vida ecclesiastica, esperançado talvez em alliar a poesia com o sacerdocio. E d’ahi quem sabe? Pode ser um vulto distincto em eloquencia sagrada.»

E, uma vez possuido d’esta idéa, empenhava-se pelo destino do neto, no intuito de o ver ainda prégador da Real Capella, no que n’esse tempo consistia e ainda hoje consiste a maxima distincção com que podem ser galardoados os oradores sagrados portuguezes.

Já é incentivo!

João Nicolau não curava de razoar sobre a mesquinhez ou exorbitancia do galardão, nem cuidava de tirar a limpo que proventos e honras importava. N’isto se assemelhava com os mil e um pretendentes que sollicitam mercês honrosas actualmente; querem a venera seja qual fôr e custe o que custar. Com João Nicolau acontecia exactamente o mesmo. Firme no seu designio, declarou solemnemente á mulher e ao neto a suspensão temporaria de visitas com o proposito de não distrahir o espirito do futuro prégador da Real Capella. Queria-lhe parecer que esta medida de segurança attingia dois fins egualmente appeteciveis:

_Primo_: Concentrar a attenção do novel seminarista nas materias theologicas.

_Secundo_: Afastar cuidadosamente as distracções mundanas, que não só prejudicariam a regularidade do estudo mas até insinuariam na alma do neto philtros que não devem perturbar o espirito d’um sacerdote.

D. Maria d’Assumpção andava sobremodo condoída das angustias do pobre Eduardo. Vira nascer a chamma do amor e confiava na brevidade com que usam levantar-se e morrer labaredas em corações que desabrocham.

Era este o segredo da sua medicina. O amor passageiro dos dezeseis annos esperava ella que fôsse antidoto efficaz ás asperezas d’uma vida nova, e sobremodo aborrecida, em que o neto ia entrar.

O que porém não pensou aquella boa alma foi que poderia tornar-se incendio o que se lhe afigurava chamma e que o coração dos dezeseis annos, como o coração de todas as edades, tanto procura o sol para aquecer-se n’uma hora de desconfôrto como para inflammar-se n’um momento de febril anciedade.

Em Eduardo Valladares o amor não era devaneio; era a paixão intensa, a paixão que perde ou que salva.

Estão-me agora cahindo dos bicos da penna uns certos dizeres de D. Francisco Manuel, que veem de geito: «Persuado-me que esta cousa a que o mundo chama amor, não é só uma cousa, porém muitas com um proprio nome. Poderá bem ser, que por isto os antigos fingissem haver tantos amores no mundo, a que davam diversos nascimentos; e tambem pode ser venha d’aqui, que ao amor chamamos amores: pois se elle fôra um só, grande impropriedade fôra esta. Eu considero dois amores entre a gente. O primeiro é aquelle commum affecto com que, sem mais causa que sua propria violencia, nos movemos a amar, não sabendo o que, nem por que amamos. O segundo é aquelle, com que proseguimos em amar o que tratamos, e conhecemos.»

Eduardo Valladares amava Maria Luiza antes de a vêr. Em horas de dulcissimos arroubos creara a sua phantasia uma visão aerea, formada de perfumes e de estrellas, meio anjo meio mulher, meio do céo meio da terra... Este era o primeiro amor de que fala D. Francisco Manuel, o amor do ignoto e do intangivel. Depois, um dia, por acaso, encontrara a consubstanciação de todas essas particulas aereas, deixem-me assim dizer, encontrára na terra a realidade dos seus sonhos queridos e absorvera n’aquelle sentimento impetuoso toda a vida de que uma organisação extremamente delicada pode dispor.

Para aquella alma ardente e sonhadora o amor não podia ter a serenidade das estrellas n’uma noite d’estio: devia de ser violento como as convulsões do vulcão que levanta ao céo as lavas encandescentes.

D. Maria d’Assumpção enganava-se pois, como todas as almas que nasceram, dedicadas e boas, para o remanso dos affectos vulgares.

Rodrigues d’Abreu, coração aquecido ao fogo da poesia posto que duramente provado pelas amarguras do mundo real, Rodrigues d’Abreu é que se não enganava assim, nem se deixava cegar pela tranquillidade apparente do filho do bacharel.

O bibliothecario de Braga, que tinha tanto de poeta como de christão, andava sobremodo inquieto com os soffrimentos d’aquella alma cujos soffrimentos devassava. Lembrou-se de escrever a Sebastião Valladares com a rude franqueza de homens que choraram juntos as lagrimas do exilio. Escrever-lhe seria, porém, mostrar ao pae a profundidade do abysmo em que se debatia a alma do filho. Este alvitre rejeitou-o o honrado bibliothecario por demasiadamente impiedoso e cruel.

Rodrigues d’Abreu bem comprehendera que Eduardo Valladares amava, e sabia que era coagido a seguir a carreira ecclesiastica. Não bastava todavia comprehender e saber isto; era preciso mais.

Era preciso ao medico espiritual ouvir a exposição circumstanciada do doente. Receava porém provocar as labaredas do incendio latente, e este receio acobardava-o. Mas como deixaria consumir-se lentamente aquella alma cuja pureza aquilatara tantas vezes, elle, que era bom, dedicado e nobre? O velho bibliothecario, n’essas horas de attribulada incerteza, pedia ao Céo a luz da inspiração.

XIX

Rodrigues d’Abreu costumava abraçar-se, quando a sua alma carecia de confôrto, ao esteio d’um coração amigo, que era urna de balsamos para todas as afflicções.

Frei Domingos do Amor-Divino, o conselheiro, o arrimo, o cyreneu do bibliothecario bracharense, tinha purificado o seu coração nas asperezas da disciplina conventual, nas tribulações da miseria e nas lagrimas choradas na solidão, deante d’um crucifixo.

Carmelita descalço, foi sempre modêlo e exemplo nos cargos que teve de exercer em hospicios differentes por decisão do definitorio geral da sua ordem.

Na rigorosa observancia do regimen monastico e na prática constante da virtude lentamente se mundificara a alma do religioso carmelita, já de natural propensa ao bem.

O convento foi-lhe sempre chrysol desde que solemnemente professou no convento de Nossa Senhora dos Remedios, em Lisboa, até que, silencioso e compungido, sahira com o resto da communidade do convento do Carmo de Braga, dizendo para sempre adeus á casa que lhe devia ser tumulo.

Nunca Frei Domingos do Amor-Divino se entrincheirou com as reixas do mosteiro para, a coberto de perseguições, accender odios partidarios e soprar injurias a qualquer das duas facções que por longo tempo se degladiaram em accêsa lucta civil.

Não lhe ouviram nunca razoamento, nem sequer monosyllabo, que denunciasse o rumo das suas inclinações politicas.

Quando chegava ás cellas do convento um echo das tempestades exteriores, costumava dizer Frei Domingos do Amor-Divino:

—Não curemos de profundar essas negruras. A porta que se fechou sobre nós é uma como barreira que nos separa das desgraças que pesam sobre Portugal. Que o espirito do Senhor desça sobre nós e seja comnosco, irmãos.

Retumbou finalmente aos ouvidos do carmelita um como trovão que parecia abalar os alicerces do convento: era a voz de debandada que se repercutia ao mesmo tempo no seio de todos as ordens religiosas de Portugal. Frei Domingos do Amor-Divino cruzou com os seus confrades um olhar afogado em lagrimas e desceu á claustra para se despedir da lage sob a qual esperava dormir o somno eterno. N’esse momento, voltavam umas andorinhas que tinham fabricado o ninho no friso da crasta.

Foi dilacerante aquelle lance. As andorinhas, ficavam e a communidade... sahia.

Frei Domingos do Amor-Divino foi um dos religiosos portuguezes que emmudeceram na sua dôr, e procuraram na solidão o refugio que não podiam encontrar em qualquer outra parte.

Dissolvida a grande familia monastica portugueza e serenadas as tormentas politicas que mergulharam em rios de sangue as decantadas boninas das varzeas de Portugal, Frei Domingos do Amor-Divino assentou residencia em Braga.

—Quero vêr a toda a hora o ninho das andorinhas, dizia elle referindo-se ao convento do Carmo. Ali lhes escutei o alegre chilrear e alli esperava morrer com ellas. O meu coração precisa d’este consôlo.

Sua grande affeição á casa onde tinha vivido, esquecido do mundo, levou o a escolher cubiculo d’onde ao menos pudesse espreitar as torres do seu convento. Recolheu se Frei Domingos a uma pobre mansarda da rua do Carvalhal e ahi viveu a vida angustiada da miseria e da solidão. Muitas pessoas, que ajoelharam a seus pés com o coração requeimado, levantaram se do confessionario com os olhos marejados de lagrimas.

Isto diz-se para até certo ponto se explicar o respeito com que os vizinhos o olhavam e cumprimentavam quando sahia e entrava.

João Nicolau, se acertava vêl-o, dizia ordinariamente:

—Ó mulher, estes pobresinhos dos frades, sem casa e sem pão, fazem realmente despedaçar a alma a quem os vê. E olha como o nosso vizinho vive resignado, que até se lhe rie o semblante! Deus perdôe a quem...