Idyllios á beira d'agua Romance original

Part 3

Chapter 33,998 wordsPublic domain

—Ah! V. ex.ᵃ tem soffrido tambem, é verdade, porque conserva ainda na alma os vestigios d’uma longa saudade. Hoje, que é domingo, o dia em que v. ex.ᵃ costumava ir depôr um ramo de flores sobre o tumulo de sua irmã, ouvir-me-ha, pois, como se eu lhe estivesse falando á beira d’esse tumulo querido...

—Despedaça-me o coração... Tenha piedade.

—Supponha que o repellido da fortuna poz um dia os olhos n’uma esperança, e que vêl-a tornada realidade seria o mesmo que subitamente enriquecer de tudo o que lhe falta agora, de tudo o que deixa na alma d’elle um vácuo tão profundo como sombrio. Supponha que o desventuroso peregrino pedia gasalhado ao seu coração, e que via pendente dos labios de v. ex.ᵃ toda a sua vida, toda a sua felicidade, todo o seu futuro... Mas...

—Fale, fale...

—Mas quem me diz, quem me prova que o coração de v. ex.ᵃ tem ainda a liberdade de entregar-se? Quem me diz, quem me prova que v. ex.ᵃ não deu já a outrem a felicidade que eu lhe estava pedindo? Mas quem me diz, quem me prova que v. ex.ᵃ tem a abnegação de ligar o seu destino a um destino incerto e sombrio como o que me espera talvez amanhã? Ah! não fala, não responde... Que está lendo v. ex.ᵃ na veia d’agua, em que fixou o seu olhar? Talvez esteja lendo o meu futuro, que é decerto o futuro de todos os desgraçados... Nasce a agua entre estas sombras queridas que pendem dos troncos seculares. O destino impelle-a para longe. Ella lá vae, descendo de fonte em fonte, afastando-se cada vez mais do seu berço querido, até que se some, ao sopé da montanha, nos abysmos da terra. Quer v. ex.ᵃ que lhe desenhe melhor o quadro d’uma vida obscura e triste como ha de ser a minha? Oh! diga, diga, que estava lendo o meu destino na corrente d’esta floresta sagrada...

—Quer saber o que estava pensando? respondeu Maria Luiza no tom firme d’uma resolução inabalavel. Não pensava no seu destino, pensava no meu. Olhe como a agua corre livre vencendo o dique d’aquella folha verde que encontrou no caminho. Pois bem. A agua da montanha é tão livre como eu.

X

Fez-se a luz.

Descerraram-se de par em par as portas d’esse olympo esplendido aonde só podem subir duas almas identificadas n’uma unica aspiração.

Eduardo Valladares sentiu n’um momento dissiparem-se todas as dúvidas, todos os receios, todas as angustias. Maria Luiza deixara-se fascinar pelos clarões rutilantes d’esse mundo que entrevira em sonhos e, irmã da mariposa, lançava-se á chamma sem curar de saber se encontraria a morte. São realmente dignas de estudo naturezas como a sua.

Ha certas creaturas que entraram no mundo com o coração a trasbordar d’alegria.

As scenas variegadas da vida absorvem-nas e enlevam-nas, como as cambiantes d’um caleidoscopo enlevam e absorvem uma creança.

Tudo as namora, tudo as fascina. Seguem com estremecimentos de jubilo as choreas caprichosas das borboletas e das aves; parecem querer luctar com a perfidia da onda, quando estão á beira mar, e deixar-se-hiam morrer se soubessem que a morte era... alegre. Mas—singular contradicção!—um ligeiro incidente as commove; derrubae um ninho e vel-as-heis chorar.

São porém nevoas que se dissipam com um sôpro. A alegria impelle-as, e ellas, as venturosas creaturas, deixam se deslizar suavemente por uma estrada de rosas...

Um dia quer Deus que lhes embargue o passo o leito d’um moribundo, permittam-me o exemplo. Admirae-as então. Sabeis o que são estremos de dedicação inegualavel? Se não sabeis, vinde apprendel-os com ellas. De tudo se esquecem, tudo alienam, a propria vida, a felicidade, a alegria para se absorverem n’um unico pensamento e n’uma unica afflicção.

É por isso que fomos encontrar Maria Luiza á beira do leito da pobre irmã como a mais solicita e dedicada enfermeira que jámais houve.

É por isso que pudemos vêl-a, a ella, a inquieta toutinegra, ajoelhada sobre o tumulo querido, como o anjo da saudade, orvalhando-o de abundantissimas lagrimas.

É por isso que a admiramos no momento de confiar o seu coração, immaculado e puro, ao homem que revelava, nos éstos d’uma paixão impetuosa, um coração egualmente puro e immaculado.

É por isso que teremos de contemplal-a...

Corre-nos obrigação de deixar a phrase incompleta. O romancista não pode accelerar a marcha dos acontecimentos com uma especie de velocidade electrica. Tem o dever de ser methodico e nós, que tentamos o primeiro passo no caminho do romance, devemos respeitar as tradições até hoje seguidas pelos fazedores de novellas veridicas e não veridicas.

O que devemos dizer é que Eduardo Valladares e Maria Luiza se carteavam quasi diariamente.

As dulcissimas phrases que se mutuavam adivinha-as o leitor.

Os namorados—especialmente os namorados como Maria Luiza e Eduardo Valladares—fazem lembrar aquelles celebres habitantes de que fala Camões:

Contam certos auctores Que, junto da clara fonte Do Nilo, os moradores Vivem do cheiro das flores Que nascem n’aquelle monte.

De que vivem os namorados? Embriagam-se nos celestiaes aromas das flores que desabrocham nos rosaes escondidos no coração. O que elles sabem dizer é um como frémito de rosas baloiçadas por uma viração suavissima;—linguagem quasi mysteriosa apenas entendida por duas almas. Em que é que pensam? Em que é que sonham?

Pensam e sonham nas amenidades do seu vergel encantado, nas flores do seu canteiro intimo, nas harmonias que uns desconhecidos rouxinoes gorgeiam por entre os invisiveis rosaes.

«Tenho dó dos demonios; pois se elles não amam!» creio que escreveu algures Santa Thereza, _toda delirante de ternura_, como notou o mais vernaculo dos nossos escriptores contemporaneos.

Oh! espiritos beatificos, que nascestes fadados para os arroubos asceticos, ó santos e santas da côrte celestial, até vós prelibastes as doçuras que resumbram do favo do amor!

Quero lembrar-me tambem agora de que S. Francisco de Salles disse «que o amor tem o primeiro logar entre as paixões da alma»; e não sei ao certo quantos mais santos discretearam ácêrca do amor. Que admira, porém? Não se resumia a doutrina e philosophia do vosso divino Mestre n’este dulcissimo preceito: «Amae-vos uns aos outros»?

XI

—Nota que estamos a dezenove de setembro... disse João Nicolau de Brito, n’esse mesmo dia, a sua mulher.

—Oh! homem! Felicidade como eu tive! Tu dispensas um repertorio! replicou D. Maria d’Assumpção.

—Nota que estamos a dezenove de setembro. Isto quer dizer que faltam poucos dias para chegar outubro.

—Ah! temos rabugice! Falas do Eduardo, pois não falas?

—Falo do Eduardo, sim, senhora, falo do Eduardo. Ando cá desconfiado...

—Desconfiado de que?

—De que pegou o namorico com a Maria Luiza.

—Deixal-o pegar.

—Ora que tu não has de querer nunca desviar as tempestades imminentes...

—Quaes tempestades imminentes? Deixa namorar o rapaz, que está no seu tempo. Que queres tu que se faça?

—O peor é em se abrindo as aulas. Estou com receio de que gaste mais tempo a lêr nos olhos da Machado do que nos livros.

—Deixa que lhe ha de chegar o tempo para tudo, se assim fôr. E depois quem te disse que elles se namoram? Que provas tens? Sabemos apenas que elle gosta d’ella; mais nada. O que é certo é que tudo isto tem sido uma felicidade. Olha como o rapaz está acclimado, como parece outro, como revê alegria!...

—Por isso mesmo... Dize cá. Tu sabes se elles conversaram no Bom Jesus nos dois domingos que lá passámos?

—Eu sei lá isso! Tu não viste que não sahi de ao pé de ti?

—Pois domingo sou eu que quero ir ao Bom Jesus.

—Para que? Para os veres conversar? Olha que vale a pena, na verdade!

—Eu cá tenho tambem o meu systema...

Seja-nos licito saber o que estava fazendo Eduardo Valladares ao tempo em que n’uma das salas contiguas ao seu quarto dialogavam d’esta maneira D. Maria d’Assumpção e João Nicolau de Brito.

O que estaria fazendo? Escrevia. Transmittia ao papel as harmonias que lhe resoavam na lyra do coração: escrevia a Maria Luiza. E tão ligeira esvoaçava a penna sobre o papel, que, se o visseis, dirieis que eram pensamentos sem nexo, caprichos e devaneios d’um espirito radioso o que estava escrevendo:

«Vinde e subamos ao monte do Senhor», escreveu o propheta.

«E fomos, e subimos. Entrei na floresta sagrada e para logo senti inebriar-se a minha alma n’uma vaga e dulcissima esperança. Fui subindo e, á medida que subia, perpassavam no meu espirito as melodias que parece sahirem d’entre o arvoredo sombrio. Tudo é doce, tudo é inefavel na montanha do Senhor. Ha no interior d’aquella esplendida cathedral de verdura um como longinquo e continuo suspirar d’um orgão vibrado por mãos invisiveis.

«Para aquelle concerto perenne da floresta contribue tudo quanto se esconde em tão deliciosas sombras: o arvoredo que murmura, as fontes que suspiram, as aves que chilriam dialogos maviosos, e os corações que se expandem na linguagem suavissima do amor...

«Foi na montanha do Senhor que as nossas almas se identificaram para sempre n’uma unica existencia.

«Foi lá que tu recebeste no teu coração as queixas do romeiro e lh’as devolveste em ridentissimas esperanças depois de purificadas no crisol d’um amor celestial.

«E a tua voz sobrelevava todos os murmurios e todas as melodias da floresta e soou aos meus ouvidos como um hymno cadenciado na harpa d’um cherubim.

«E eu repeti as palavras que momentos antes se me tinham deparado na legenda da _Esposa dos cantares_ e disse:

A tua voz murmure a meus ouvidos[3]

e deliciei-me nas cadencias inimitaveis que a tua bôcca jorrava ao murmurar: «A agua da montanha é tão livre como eu».

«É pois certo? A tua alma é tão livre como a onda prateada que desliza por entre as verduras da serra e cae em chuva de perolas na amphora de cada fonte? A tua alma é tão livre que possa juncar de flôres a estrada dos meus dezeseis annos á semelhança da corrente da montanha que vae orvalhando as boninas da encosta?

«Estavamos no _monte do Senhor_, na _santa Jerusalem_ e os teus labios falaram a linguagem do teu coração... Os échos da montanha guardam o segredo da nossa felicidade. Que as nossas esperanças todas se desatem em florecimentos perpetuos como os da primavera que cada dia enche de vida nova e nova opulencia a floresta sagrada.

* * * * *

XII

Estava n’esse dia, como sempre, cheia de amenidade a alameda da Mãe d’Agua.

—Que felicidade! dizia Eduardo Valladares apertando entre as suas as mãos de Maria Luiza. Que felicidade! Abençoado o teu amor que me dá confôrto e alento para ir procurar a realidade dos meus sonhos, dos nossos, devia dizer, onde quer que ella esteja... E todavia eu d’antes era triste, tão triste, que nem tu sabes! Meu pae, quando me surprehendia a escrever, dizia para minha mãe:—Este rapaz ha de ser desgraçado! Por que? perguntava ella com terna inquietação. Porque começa a sonhar muito cedo, concluia meu pae. Oh! dize-me que era falsa esta prophecia. Por que não havemos de ser felizes? Tu amas-me muito, pois não amas?

—Que transformação completa na minha vida, Eduardo! As minhas amigas tinham-me á conta d’um coração que nasceu para ser livre como a aguia, e só para isso. Eu, porém, consultando-me a mim mesma, conhecia-me muito outra do que me suppunham. E não me enganei; bem sabes tu que me não enganei. Havemos de ser felizes. Sabes o que é ter no Céo um anjo que vela por nós a toda a hora? Lembra-te de minha irmã, que era um anjo, e fortalece-te com essa esperança. Se porém o Céo da nossa felicidade tem de se annuvear com tempestades invenciveis, se temos de separar-nos um dia para tomar cada um por differente caminho, se tudo isto tem d’acontecer, então que a alma de minha irmã me chame para o pé de si, que eu prefiro morrer a vêr-me sem ti no mundo...

—Oh! Cala-te, cala-te, que me sinto morrer. Afasta da tua alma esses presentimentos sombrios, que são meras visualidades. Não somos nós felizes? Olhemos em redor de nós. Tudo placido e ameno como hontem e como ámanhã. E, no meio d’esta tranquillidade do ermo, não hão de sonhar as nossas almas em leito de rosas e esperanças? Para que havemos d’ir procurar os espinhaes que nos não vedam o passo? Põe de parte esses pavores imaginarios. Consulta antes a tua alma e pergunta-lhe se é tão firme que sacrifique todo o futuro a um affecto, se é tão corajosa que possa dizer ao desprotegido da fortuna: «Sei que és pobre, mas quero soffrer metade das tuas amarguras.»

—Pois duvidas ainda! Pela alma de minha irmã te juro que o meu amor será eterno. Por que é falares de pobreza? Acaso eu, egualmente desprotegida da fortuna, podia levantar o meu espirito a desmedidas ambições? Que importa o valor da riqueza, quando se trata do valor da felicidade? Promette que não mais falarás d’um assumpto que magôa dolorosamente a minha alma. É tamanha a nossa esperança que ella só nos deve absorver...

—Oh! perdôa-me...

De repente uma voz conhecida, denunciando sobresalto, viera interromper o caloroso dialogo.

O leitor vae saber o que se passou.

João Nicolau de Brito, D. Maria d’Assumpção, e a viuva Machado ficaram-se a conversar, sentados nos poucos degraus que dão entrada para a hospedaria denominada hoje da Boa-Vista, com pessoas das suas relações que tinham procurado as sombras da floresta do Bom Jesus para se furtarem ás calmas de setembro.

O sogro do bacharel Valladares, quando julgou opportuno espionar o neto, segredou á mulher:

—Viste para que lado fôram as Machados com o rapaz?

—Olha que está alli a mãe...

—Pergunto-te se viste para que lado fôram as filhas. Não tenho nada que ver com a mãe.

—Fôram por ahi acima e acho que estarão na Mãe d’Agua.

João Nicolau de Brito levantou a voz e apostrophou:

—Ora fiquem em santa paz, que eu já estou aborrecido d’estar sentado n’estes degraus. Vou por ahi acima espairecer um pouco.

Sentada nos degraus do chafariz, que fica ao centro do largo dos Evangelistas, estava, absorta na leitura de não sei que romance, a menina Rosa Machado. Como quer que levantasse casualmente os olhos de cima do livro e reconhecesse ao fundo da avenida João Nicolau, correu pressurosa a dar rebate aos enamorados interlocutores da Mãe d’Agua. O que é certo é que quando João Nicolau chegou ao largo, depois de ter trilhado vagarosamente a longa avenida que parte do templo, já as duas irmãs Machados estavam sentadas nos degraus d’uma das capellas, e como que ambas embevecidas na leitura do mesmo livro.

XIII

—Sósinhas? exclamou João Nicolau ao vêl-as, dando assim largas á sua extrema admiração.

—Nunca estão sós duas irmãs, respondeu de golpe Maria Luiza.

—A ler, não é verdade?

—A matar o tempo.

—Que é do meu neto, que assim as deixa sem lhes fazer companhia?

—O seu neto continua a ser poeta. Desde que chegámos aqui, embrenhou-se por essa alameda da Mãe d’Agua e lá está talvez devaneando a desafiar os rouxinoes.

—Olhem que para boa lhe havia de dar!

—Tambem acho que sim!... replicou Maria Luiza.

—Se não era melhor estarmos aqui todos a conversar! accrescentou Rosa.

—É que estes poetas gostam d’andar a conversar comsigo mesmos. Toda a minha vida ouvi dizer que se deve desconfiar de pessoas que falem sós.

—Os poetas não falam sós, tornou Maria Luiza. Não posso deixar de censurar o procedimento de seu neto, sr. João Nicolau; mas quero levantar a luva que lançou a quantos versejam n’este mundo de Christo. Os poetas pensam como o sr. João Nicolau, como eu, como toda a gente. Se procuram, ás vezes, a solidão, é de certo para que os rumores do mundo lhes não interrompam os maviosos pensamentos.

—Ande lá, que não pode negar que é affeiçoada á poesia...

—Admiro-a, e mais a admiraria se pudesse comprehendel-a. Ora de poetas que teem seu tanto de mysanthropos, como o sr. Eduardo, é que eu não gosto. Quero a poesia que transige com os deveres sociaes. O Camões, segundo dizem, emquanto a fortuna lhe luziu, usava de boa cortezia com as damas da côrte.

—E de que valeu ao Camões ser poeta? interrogou João Nicolau apoiando-se no braço de Maria Luiza e fazendo menção de voltar á hospedaria.

—Valeu muito, respondeu ella, tomando pela avenida, de braço dado com João Nicolau. Valeu-lhe estarmos agora nós falando d’elle.

—Sempre é ligarmo-nos muita importancia, pois não acha?

—Tem razão. Eu devia ser menos vaidosa e mais verdadeira. Valeu-lhe a admiração de todo o mundo, porque todo o mundo admira o genio deslumbrante d’um homem que soube exaltar n’uma epopêa as glorias da patria que o deixou morrer de miseria.

—Bravo, minha cara menina! Gostei d’ouvil-a!

—O sr. João Nicolau está gracejando. Mas a verdade é que o genio de Camões conseguiu muito, na minha opinião. Deu a conhecer ao mundo civilisado o quadro das velhas glorias portuguezas, para que ficasse de pé a chronica nobilissima d’um povo quando as convulsões sociaes subvertessem a nossa individualidade historica. Uma epopêa é muitas vezes um epitaphio levantado sobre o tumulo d’uma nação que foi. Tenho ouvido dizer que os poemas de Homero e Virgilio representam hoje a Grecia e Roma. Quem sabe se os _Lusiadas_ serão a unica recordação que sobreviva ás ruinas de Portugal?

—A modo que tem razão... Ora deixe-me ver se me lembro d’uns versos do José Agostinho, que vinham agora a proposito. Olhe que o José Agostinho é um poeta que me enche as medidas! Tem ouvido falar d’elle?

—Ah! bem sei. Do José Agostinho não gosto.

—Não gosta! Pois já leu?

—O José Agostinho não tem sentimento nem inspiração.

—Ora não diga isso!

—São opiniões. O certo é que meu pae tinha algumas obras do José Agostinho e eu algumas folheei. Mas vamos aos versos, que os desejo ouvir recitados pelo sr. João Nicolau.

—Deixe ver se me lembram. São do epicedio á morte do Bocage:

Voando o tempo os seculos ajunta E co’as immensas incansaveis azas Cobre os vestigios da grandeza humana: Na Historia, os deixa só, e á vista os furta. De Esparta, a mãe d’heroes, mãe da virtude, Hoje occupa o logar mesquinha aldeia; De Epaminondas...

Ora deixe vêr como é o resto... Ah!

...d’Aristides pisam Incultos Scythas barbaros os lares...

O resto é que me não lembra.

—Ora ainda bem que o sr. João Nicolau não é tão inimigo da poesia como se mostra!

Chegavam finalmente ao extremo da avenida. João Nicolau, logo que pôde, chamou de parte a mulher e disse-lhe:

—A rapariga lá doutora é e sabe mais do que eu, mas por emquanto não temos nada a recear...

—Eu bem t’o dizia, homem de Deus, respondeu D. Maria d’Assumpção.

—Sabes de quem devemos temer?

—De quem é?

—Das musas, mulher, das musas, que transtornam a cabeça ao rapaz!

XIV

João Nicolau de Brito assentou de si para si que não tinha ainda sido traspassado pelas frechas cupidinias o coração do neto, e em confidencia com a mulher lamentava que o cerebro d’um rapaz de dezeseis annos se deixasse eivar de semelhante monomania poetica, como elle dizia.

D. Maria d’Assumpção escutava o marido com a maxima paciencia e, podemos dizel-o tambem, com a maxima reserva.

—Lá que elle é um estudante distincto, isso é! exclamava João Nicolau, frequentes vezes, depois de abertas as aulas do lyceu bracharense. Os professores elogiam-n’o e dizem que o rapaz pode ser considerado, sem favor, o melhor do curso. Mas a dizer-te a verdade, mulher, não me parece que gaste muito tempo a estudar...

—Ora por que dizes tu isso? Quem sabe é porque estuda. Não t’o elogiaram os mestres? Que mais queres? É preciso ter paciencia de santo para viver comtigo!

—Não sabes por que razão digo isto? É por que o vejo ir todas as tardes para Guadelupe. Provavelmente vae para lá falar só e fazer versos. Ora um estudante não pode sahir todos os dias ou chova ou faça sol...

—Oh! homem, quem te diz que elle não vae para lá estudar?

—Qual estudar! Estudar o que? Em que livros? Só se fôr nas palmas das mãos... Que lá do namôro com a Machado acho que não temos a recear...

—Pois ainda te não desenganaste!... O rapaz é um genio excentrico, e genios assim não são muito para amores... Quem sabe lá! Deixal-o versejar, que talvez chegue a ser como esse Castilho, de Lisboa, que, apesar de ser cego, é um poeta de fama, segundo dizem.

—Qual poeta de fama! O meu poeta era o José Agostinho. Ainda não li nada do Castilho, mas vou jurar que não chega aos calcanhares do frade.

—Pois não deves julgar de nada pelo que te parecer.

—Deixemo-nos de rhetoricas. Com versos não se ganha a vida. Padre é que elle ha de ser. Disse e está dito. Lá como o tal estudantinho de Coimbra, de que falava o Sebastião na carta, é que me não ha de fazer. Se gostar da theologia, melhor para elle; se não gostar, que se aguente; e se morrer, que o leve a breca; a gente não nasce para outra coisa.

—Estás hoje com instinctos sanguinarios. Olha que eu tenho medo de mata-mouros, homem!

Chegou dezembro. Alvejavam, cobertos de neve, os cimos do Sameiro e da Falpêrra. As férias do Natal chamavam os filhos ausentes ao lar paterno. Eduardo Valladares veiu ao Porto consoar, e seis dias antes de terminarem as férias, estava já em Braga. João Nicolau ficou sobremodo admirado; D. Maria d’Assumpção comprehendeu tudo, mas conservou-se, como sempre, na defensiva.

—Ó mulher! dizia João Nicolau na sinceridade da sua admiração. Pois elle chegou aqui, da primeira vez, com cara de ter perdido na renda, a tal ponto lhe entrou o mal das saudades, que foi preciso que lhe receitassem passeios ao Bom Jesus. Chega o Natal, vae ao Porto e rebenta-nos á porta seis dias antes de acabarem as férias! Eu declaro-te que não entendo nada de tudo isto!

—Pois olha que tudo isto é claro como agua. É uma delicadeza do rapaz. Não quiz dar-nos campo a suppormos que estava aborrecido de nós. Repartiu as férias com os paes e comnosco. Quem fôsse menos desconfiado do que tu, só tinha motivo para se lisonjear.

—Nada. Não vou para ahi, mulher. Rapazes não teem delicadezas com ninguem e muito menos com parentes. Aqui anda mysterio.

—Mas tu bem vês que este rapaz não parece que o é. É preciso respeitar as suas esquisitices, para que não diga que lhe vendemos muito caro o beneficio que lhe estamos fazendo.

—Pois sim, sim. Mas olha que o rapazinho é finorio e sabe muito bem o que faz.

—Por isso mesmo é que nos quiz captivar com esta delicadeza. E depois pode ser que se lembrasse de que, vindo no ultimo dia de férias, talvez tu dissesses que tinha voltado a cumprir os seus deveres por de todo em todo não poder ficar no Porto...

—Lá isso é que pode ser...

—Isso é o que foi. O rapaz por emquanto porta-se dignamente e não descubro coisa que nos faça arrepender de o termos chamado á nossa companhia. É preciso não ser impertinente com gente nova, e sobretudo impertinente sem motivo...

—Isto tambem já é velhice, mulher!

XV

Sebastião Valladares fez egualmente reparo na partida precipitada do filho e consultou o coração da mulher, que por ser de mulher e de mãe devia adivinhar e lançar luz sobre o que aos olhos do bacharel se afigurava mysterio. D. Adozinda serenou o ánimo do marido com estas placidas palavras:

—Desvarios nem o genio lh’os tolerava, nem os podia ter que lh’os não soffria meu pae. Quando Deus quer, temos amores, e não vejo n’uns amores dos dezeseis annos sombra de tempestade que possa inquietar-nos.

—Talvez seja isso, respondeu o bacharel. Olha que receio todavia por este rapaz, cujo temperamento, por demasiadamente ardente e delicado, se me afigura perigoso. O nosso filho tem grande inclinação á poesia e, como se não bastasse versejar, dá indicios de vir a sentir como verdadeiro poeta. Ha certas almas que, em vez de se repartirem pelo mundo exterior, tiram de si mesmas, á semelhança do pelicano, a seiva com que alimentam a propria vida. Ora o Eduardo, que me parece ter nascido fadado para eguaes destinos, precisava de ter a seu lado um conselheiro mais eloquente e menos severo que teu pae.

—Dizes bem.

—Até já me lembrei d’escrever ao Rodrigues, que é meu amigo desde a emigração, e que tem coração e intelligencia de sobra para mentor d’um espirito febricitante.