Idyllios á beira d'agua Romance original
Part 2
—É uma historia que tem graça. Da janella do meu quarto, no collegio onde me eduquei, andava eu a espreitar nas horas de recreio para a janella d’um terceiro andar onde morava uma costureirinha d’olhos negros...
—Uma costureirinha! O teu neto revela mais fidalgos e poeticos instinctos. Ama romanescamente. Tu andavas mais terra a terra. Não tens que vêr. Iremos domingo ao Bom Jesus.
—Iremos se quizeres. Não sei que systema teem ás vezes as mulheres!
—O meu systema é o do jardineiro experimentado. É preciso cuidar da flor, dar-lhe sol, para que desabrochem depois todas as galas que a Providencia lhe der.
—Anda lá, anda lá, quero ver se a theologia lhe ha de dar tempo para andar com a cabeça á roda!
IV
Batiam sete horas da manhã nas torres do Bom Jesus do Monte, quando João Nicolau de Brito, sua mulher, Eduardo e as duas meninas Machados subiam em alegre caravana o escadorio do santuario. Pelo que diz respeito aos dois velhos, em cujo grupo faltava a viuva Machado, iam cansados da subida; não assim os companheiros, que saltavam alegremente d’escada em escada, como tres avesinhas que voltassem no mesmo dia á liberdade do ar, depois d’uma reclusão asperrima, e fôssem chilreando de fronde em fronde pela encosta acima.
Affluiram, n’esse dia, ao Bom Jesus muitas familias de Braga, de sorte que se augmentara consideravelmente a ruidosa caravana.
Demoraram-se na hospedaria João Nicolau, sua mulher e os outros velhos, seus conhecidos, trôpegos de rheumatismo; o resto da caravana errava pela montanha ao sabor de cada um.
Eduardo Valladares sentiu por momentos necessidade de conversar com a sua alma em jubiloso dialogo. Subiu ao largo dos Evangelistas, e embrenhou-se na matta sombria da Mãe d’Agua.
Estava elle escrevendo a lapis na carteira, quando casualmente descobriu, através da folhagem, um vulto indistincto.
Encobriu-se com o muro posterior á mina e ficou d’atalaia, a coberto da parede. Passados alguns momentos reconheceu ser Maria Luiza e sentiu bater-lhe o coração vertiginosamente.
Vinha ella, pensativa, subindo a alameda. Depois sentou-se n’um banco de pedra e descahiu a scismar, encostada á mesa, que tambem era de pedra[2].
Eduardo Valladares espreitava-a silencioso. Ora sentia estuar-lhe o sangue nas arterias escandescentes ora esfriar-se com esvahimentos de moribundo anciado. Maria Luiza quedara-se a scismar com os olhos fitos no vago e o rosto descansado na mão. É um mysterio que se não comprehende, um enigma que se não decifra—o que seja este vago d’uns olhos contemplativos, o ponto indistincto e nebuloso onde se fita o olhar, a não ser que esse ponto seja a lente que reflicta o olhar de si mesmo namorado. Pois em que mais se pode extasiar uma alma venturosa a não ser na intima contemplação da primavera interior? Dizem pois, e dizem bem, os que entendem do coração, que os olhos são o espelho da alma e o olhar a muda expressão do sentimento que a domina. Tudo isto nos vae levando insensivelmente a uma conclusão provavel. Pois se o olhar é o reflexo da alma, se a alma está absorta em júbilo, e se a vista se concentra n’um ponto unico, quem poderá duvidar de que esse ponto seja a lente mysteriosa que está espelhando o fogo do nosso olhar, o fogo da nossa alma? Ora se não é isto o vago d’uns olhos contemplativos, não sei eu bem o que seja o vago. O que sei, porém, é que todas as almas placidamente inebriadas teem d’estas horas de arroubo em que os olhos se embellezam no azul d’um horizonte desconhecido aos outros.
Estava, pois, Maria Luiza extasiada n’estes ineffaveis enlêvos, quando sentira cahir-lhe aos pés um papel, que mão invizivel impellira. Despertou de subito d’aquelle dulcissimo _far niente_, que é o sonhar accordado da alma. Pegou no papel e desdobrou-o precipitadamente; desdobrou-o e leu-o.
Dizia assim:
«Disse a rosa á borboleta: —«Abre uma aza, inquieta, Faze-me d’ella um docel...»— Volveu ella:—«Flor dos valles, Dá-me, em paga, do teu calix A seiva, o licor, o mel...»— Assim nós tambem. N’um dia Sob a aza da poesia Dormiste e sonhaste, ó flor. Eu, namorado e poeta, Hei de ser a borboleta, Tu a rosa; o mel, o amor...
Voltou-se surprehendida Maria Luiza como a procurar nas sombras do arvoredo o apaixonado fauno que furtivamente viera requestar com incendidos madrigaes a nayade formosa; o mesmo foi encarar no moço enamorado, que procurava lêr nos olhos d’ella a impressão dos versos, e que sentira esvahidas as fôrças quando tentou fugir d’aquella suavissima prisão que alli o tinha como galvanisado.
—Aqui? disse-lhe ella. Pensei que tinha acompanhado o resto da caravana.
—Idealista, como v. ex.ᵃ—volveu elle convulsamente e como querendo dominar uma impressão violenta—procuro ás vezes a solidão. Não temos que extranhar o encontrarmo-nos aqui.
—De mais extranheza será, porém, dizer-lhe eu que se occultam n’estas sombras da Mãe d’Agua faunos poetas, que sabem escrever bonitos versos ao sabor de madrigaes. Aqui tenho eu uns que me parecem maviosos; ou me vieram da mão d’um fauno, que, por engano, me tomara á conta de nayade, ou cahiram por acaso da aza d’uma andorinha, que era correio d’amantes.
Eduardo Valladares empallidecia extremamente.
—E comtudo esta lettra não me é extranha, continuou Maria Luiza. Notavel coincidencia! Parece-se muito com a sua, com a dos versos que teve a gentileza de me enviar ante-hontem. Ora veja...
N’este momento ouviu-se ao fundo da alameda uma voz de mulher. Quedaram-se os dois á escuta. Passados instantes, porém, descobriu-se através das arvores o vulto já distincto da irmã de Maria Luiza.
Chamava para o almôço, que esperava por elles na mesa da hospedaria.
V
Tres dias depois do primeiro passeio ao Bom Jesus do Monte escrevia Eduardo Valladares a sua mãe:
«Escuso de lhe dizer que me resenti da falta do carinho materno, da mudança de terra e de casa, da differença de costumes, de tudo isto finalmente que a gente conhece desde os primeiros annos da vida. Devo dizer-lhe, porém, minha mãe, que sahi da minha familia para encontrar outra familia que tambem é minha, e onde, para ser a felicidade completa, apenas me falta o livro sagrado do seu coração que eu sabia delettrear e comprehender.
«Da cidade—e não sei se para isto contribuirá o ter nascido aqui minha mãe—da cidade, que é em verdade pittoresca, dir-lhe-hei que não desgosto e que se me afigura melhor do que o Porto para se respirar ar saudavel e morrer a gente com uma gordura fradesca.
«A falta de movimento que se nota em Braga, procedente da exiguidade da população, é uma garantia de commodidade, longe de ser um defeito. Pode a gente dormir á vontade, até altas horas do dia, que não corre perigo d’accordar sobresaltada pelo estrepito das ruas. Só os sinos... Ai! os sinos de Braga, minha mãe, badalejam que é de qualquer pessoa ensurdecer dentro de quarenta e oito horas. Isso sim, que é horroroso!
«A esta praga dos sinos só acho comparavel em semsaboria a extensão das noites de Braga.
«Desde que vim, só uma noite me pude esquecer de que não, estava no Porto. Quiz a avó convidar algumas familias das suas relações, cuido que para festejar a minha chegada, e passou-se o serão alegremente, mais alegremente do que era de esperar.
«Das senhoras que concorreram, apenas merecem especial menção as meninas Machados, que são muito estimaveis e sympathicas. Em companhia d’estas senhoras passamos o dia de domingo no Bom Jesus do Monte, a mais formosa paizagem que tenho visto em vida minha. Aquillo sim, que é bonito e suave! N’aquellas sombras deliciosas sente a gente abrir-se o coração para sentimentos novos. Minha mãe, que decerto alli viveu alguns dos dias da sua mocidade, deve comprehender que impressões dulcissimas recebi. Quando desci da montanha, vinha saudoso, preciso confessal-o. Saudoso de quê? Da montanha, que posso visitar quando me aprouver? Não sei Saudoso talvez d’umas horas agradaveis que lá vivi.
«E depois no Bom Jesus do Monte nem os homens andam embuçados em capotes, como na cidade, nem as senhoras espreitam os transeuntes a coberto das rotulas das janellas. Alli ha completa liberdade, principiando pelas aves que se desenfadam de tronco em tronco sem que ninguem as persiga.»
A carta do filho do bacharel Valladares merece-nos reparos.
Pelo que diz respeito ao seu estado moral, cumpre fazer notar estas phrases involuntariamente significativas:
«... para ser a felicidade completa, apenas me falta o livro santo do seu coração que eu sabia delettrear e comprehender.»
«Desde que vim, só uma noite me pude esquecer de que não estava no Porto.»
«Das senhoras que concorreram, merecem especial menção as meninas Machados, que são muito estimaveis e sympathicas.»
Referindo-se ao Bom Jesus do Monte dissera Eduardo Valladares, como o leitor viu, que «n’aquellas sombras deliciosas sente a gente abrir-se o coração para sentimentos novos.»
Quereria elle dizer que a sua alma se estava enflorando para exuberantes primaveras e auroras ainda não conhecidas?
O futuro nol-o dirá.
No attinente á apreciação de Braga, corre-nos obrigação de lembrar ao leitor que o filho do bacharel Valladares escrevia n’um tempo em que Braga conservava ainda os biocos d’uma verdadeira provinciana.
Vão hoje, em pleno anno de 1870, visitar a capital do Minho e dir-me-hão se não enlevaram os olhos nas graças das damas bracharenses que passeiam a sua elegancia por entre os alegretes do campo de Sant’Anna.
Homens de capote só os ha lá... quando está frio, o que se me afigura uma prova irrecusavel do bom senso da população masculina d’aquellas paragens.
Diz um adagio «Deus dá o frio conforme a roupa». Quer-me parecer, porém, que seria muito mais verdadeiro e sensato dizer se «Deus deu a roupa por causa do frio.»
Quanto aos sinos, ainda em 1870, como então, são egualmente detestaveis os de Braga e os... do Porto.
Chateaubriand escreveu algures que o christianismo conseguiu dar suspiros ao bronze.
Sem querer desvirtuar a poetica idéa do auctor do _Genio do Christianismo_, sou a dizer que me não quer parecer «suspirar», um martelar continuo de toadas populares nos sinos das cidades. A musica das ruas invadiu a egreja.
Suspirar é o do sino da aldeia, que nos viu nascer, quando vibra sonoro ao pôr do sol, no meio da solidão.
Acceito de melhor sombra estas palavras do mesmo Chateaubriand no _René_:
«Tudo se encontra nas encantadas meditações que em nós desperta o sino natal: religião, familia, patria, o berço e o tumulo, o passado e o futuro.»
VI
Depois do primeiro passeio ao Bom Jesus do Monte, Eduardo Valladares só a furto vira Maria Luiza ao declinar da tarde, durante nove dias.
Quando o sol inclinava para o occaso, sahia elle em direcção a Guadelupe. Ao passar na rua de Santo André, sempre os seus olhos se encontravam com os de Maria Luiza como por magnetismo. Seria um acaso? Quem diria a ella, da primeira vez, que elle ia passar? Amal-o-hia? Se o amava, se sentia que o ia amar, dizia-lhe uma voz interior que elle viria? Mas pareceu fital-o tranquilla, sem revelar um indicio de commoção... Não o amaria, zombaria de um sentimento celestialmente puro? Mas nem que o coração lhe estivesse adivinhando a hora a que elle viria! Nem um só dia deixaram de se ver...
Era a furto, é verdade; que o timido moço não sabia que impressões conservaria Maria Luiza do passeio ao Bom Jesus. Erguia o seu olhar para ella, e desviava-o subitamente...
Os versos, pensava elle, fôram pouco menos d’uma indiscreção. Quem lhe dera motivo para alimentar uma esperança? Ella, Maria Luiza? Que lhe dissera que deixasse entrever os primeiros clarões d’uma aurora? E todavia arriscara-se elle a escrever:
Eu, namorado e poeta, Hei de ser a borboleta, Tu a rosa; o mel, o amor...
Estas dúvidas alanceavam-lhe o espirito. Que devia fazer? Conformar-se com a incerteza, fugir á luz, áquella luz que o estava attrahindo, a elle, a mariposa dos dezeseis annos? Mas fugir-lhe era morrer, que se podia viver longe do ninho querido, do carinho materno, das recordações da sua infancia, era porque a tinha visto, era porque a tinha encontrado...
E—pensamento cruciante!—quem lhe dizia que ella era livre, que se não deixava embalar nas dulcissimas esperanças d’um amor feliz? Este pensamento infernava-lhe a alma e, n’esses momentos dolorosamente attribulados, lembrava-se de sua mãe, e parecia que o invocar o nome materno valia tanto como sentir calmarem-se as tempestades interiores.
N’aquella solidão de Guadelupe era que Eduardo Valladares gostava de se deixar atormentar por estas dúvidas queridas. Aquella agitação tinha alguma coisa de pungente e alguma coisa de deliciosa... E depois, alongando o olhar, via extender-se ao sopé de Guadelupe a rua de Santo André... E para o outro lado, ao nascente, avultava no horizonte a montanha do Bom Jesus onde tinha sentido os primeiros enlêvos, onde um anjo mysterioso, de azas brancas talvez, lhe segredara docemente uma palavra de esperança...
Era lá, onde a coma do arvoredo frondejava mais espessa, no alto da serra, que Maria Luiza lêra os seus versos, e parecia que a amenidade melancholica da floresta santa lhe entrava no coração... Seria aquella montanha o seu Gethesemani? O futuro era mudo. Na serra campeava a cruz, phanal salvador dos náufragos da existencia, e elle tinha ainda na memoria as doces orações que sua mãe lhe ensinara a balbuciar.
E as sombras da noite pareciam emergir d’entre o arvoredo, e serra, e floresta, e cruz desappareciam envôltas na escuridão.
Quando Eduardo Valladares descia de Guadelupe, era sempre noite cerrada; um unico pensamento o occupava—ver Maria Luiza no dia seguinte.
VII
Dez dias volvidos disse D. Maria Assumpção, de manhã, ao neto:
—Vamos hoje passar a noite a casa das Machados. É preciso fazeres-te homem. As mulheres é que vivem encerradas dentro de quatro paredes. Passas a manhã em casa a ler, e apenas saes de tarde um boccadinho! Onde vaes tu?
—Sento-me em Guadelupe e gosto d’aquelle sitio, respondeu Eduardo procurando ler a impressão da resposta no olhar da avó.
—É bonito... mas triste. Precisas de procurar relações e de afastar de ti uns ares improprios da tua edade. Domingo, havemos de tornar ao Bom Jesus. É preciso divertir e passear emquanto é tempo, rapaz, que o mez de outubro está ahi á porta e depois, cursando o lyceu, não tens remedio senão deitar-te aos livros.
—Estou preparado para isso e cuido que hei de saber corresponder á dedicação de meus avós.
—Assim deve ser. Põe o teu chapéo e vae sahir, anda, mysanthropo.
—Agora... estou tão bem em casa...
—O que tu quizeres, teimoso! Já te disse que depois de abertas as aulas hão de ser poucas as distracções.
—E não iremos mais ao Bom Jesus? ousou perguntar Eduardo.
—Iremos; menos vezes. Eu tambem gosto d’aquelle passeio, e sinto que me faz bem. Mas não se cifram no Bom Jesus os sitios bonitos dos arrabaldes. Has de gostar tambem das margens do Cávado.
—Mais que do Bom Jesus?
—Não sei.
—Ah! mais que do Bom Jesus acho que não posso gostar.
D. Maria d’Assumpção foi ter com o marido e disse-lhe:
—Este rapaz é magico, não quer sahir!
—Deixa-o lá, elle se aborrecerá d’estar em casa.
—Não é tanto assim, homem de Deus! É preciso distrahil-o, aconselhal-o com brandura, que é filho de nossa filha. Domingo havemos de tornar ao Bom Jesus.
—Mas que empenho tens tu em andar a passear o rapaz?
—Quero amenizar-lhe esta passagem repentina da vida em que foi creado para outra vida completamente nova. Depois, abrindo-se as aulas, é que eu não quero que elle passeie. Já lhe disse que, em chegando outubro, era preciso estudar como um homem.
—E elle que respondeu?
—Deu mostras de querer desempenhar cabalmente. Mas não comeces tu depois a opprimil-o demasiadamente com as tuas asperezas. Olha que o espirito, cansado do estudo, precisa d’um refrigerio.
—Livremol-o de relações estreitas com estudantes, que são, por via de regra, rapazes que vivem em liberdade pouco digna.
—Eis ahi por que me parecia que um namorito...
—Vocês, as mulheres, ligam-se tamanha importancia, que julgam que o render-vos preito é a suprema salvação de qualquer. O rapazinho se começar a desmandar-se torna pelo mesmo caminho por onde veiu. Tu sabes que eu não sou muito para graças. Este anno ha de acabar os preparatorios e para o anno ha de cursar o Seminario. Isto é se quizer; se não quizer, que volte para a companhia do pae.
—Mas tambem que proposito é esse de assentar com tamanha antecipação o destino do rapaz? Estás dominado do espirito religioso de Braga e achas que ser padre é caminhar proveitosamente pela estrada social em direcção ao Céo! Não sei como te não ordenaste?
—Temos em mim um exemplo da efficacia dos namoritos. Meu pae queria me ordenar, porque era meu amigo. Vi-te, comecei a desorientar me e casei...
—Olha que perdeste muito! Estavas agora arcebispo, pelo menos, se obtivesses absolvição, para os teus burguezes devaneios com a costureira do terceiro andar.
E como D. Maria d’Assumpção caminhasse para a porta da saleta, chamou a o marido com a brandura de quem deseja reconciliar-se:
—Olha cá. Pelo que disse a meu respeito, sabes que não passa tudo de graça. Lá quanto a ordenar-se o rapaz, é coisa assente e proposito firme. Que queres tu que elle seja? Queres que o mande para Coimbra gastar-nos rios de dinheiro para o vermos ao cabo de cinco annos a caçar môscas como o pae?
VIII
Eduardo Valladares, quando soube que n’essa noite poderia vêr Maria Luiza, sentiu no coração uma alegria subita que de momento a momento era obscurecida por umas sombras ligeiras... Dir se-hia que n’aquella alma de dezeseis annos se travara lucta entre os lampejos d’uma esperança e as nuvens d’uns receios que são attributo da timidez procedente da inexperiencia.
N’aquella alma, digamol o pois, preparava-se uma aurora: luctava a luz com as trevas.
Ver Maria Luiza era levantar o espirito a páramos celestiaes ante gostados em horas de dulcissima meditação; era voejar nas azas da esperança até onde a felicidade pudesse subir uma creatura absorta em sonhos do Céo. Mas vêl-a não seria despenhar-se em abysmos insondaveis, se nos labios d’ella não desabrochasse um sorriso equivalente a uma promessa? Todas as dúvidas, que até ahi o haviam salteado dia e noite, como que se levantaram em tropel e deliciosamente lhe pungiram o coração amoroso.
O filho do bacharel entrou na sala da viuva Machado com a timidez de quem arriscasse um passo n’um estrado sobreposto ao boqueirão d’um despenhadeiro. O mesmo porém foi entrar e cegar-se deante d’aquella visão aerea, tentadora, que parecia encher a casa d’alegria e esplendores.
A aurora da felicidade, que a cercava, afigurou-se porém a Eduardo Valladares o clarão sinistro d’um incendio que lhe vinha requeimar o coração.
A elle, que se sentia triste, porque amava, a elle, que luctava com a incerteza, porque esperava, a elle pareceu pois que só a estrema despreoccupação d’espirito podia dar a tranquilla alegria que Maria Luiza revelava no gesto e no olhar.
Ó deliciosas illusões dos dezeseis annos, que sois a verdadeira felicidade, quem pudera rehaver-vos, uma só vez que fôsse, depois de transposta a barreira que separa o mundo das chimeras do mundo das realidades!
A experiencia é fria como tudo o que é positivo, material e immutavel. Ultrapassada a linha divisoria, sabe-se que o coração freme em tempestuosa lucta quando aos labios apontam sorrisos de felicidade. Ó experiencia, ó escalpello das coisas mundanas, queres rasgar, decompor, retalhar, para saber!
Aos dezeseis annos contentam-se os olhos com vêr a superficie d’este mar chamado—coração humano. E não se sabe então que o oceano, cuja face se azuleja como o céo nas regiões polares, e disputa negruras com a tempestade na costa das Maldivas, não se sabe que o oceano, diziamos, occulta sob uma superficie crystallina ou sombria um mundo sempre cheio dos mesmos mysterios e da mesma escuridade... Ó abençoada ignorancia, que tamanhas saudades deixas para toda a vida!
Aos dezeseis annos ignora-se ainda que ha certas organizações robustas, que não só chegam a dissimular os proprios sentimentos, mas até logram manifestar commoções differentes das que lhe estão deliciando ou corroendo o coração. Já dissemos que Maria Luiza era uma d’essas organisações de rija têmpera, e o leitor sabe como ella modulava um trecho de _seguidilla_ no momento em que mais lhe vergava o espirito sob o consolador gravame das saudades de sua irmã.
Amaria ella Eduardo Valladares? Amal-o, na verdadeira accepção d’esta palavra, talvez não. Mas sentia-se impellida por uma onda alegre e suave, que lhe embalava o pensamento e o levava a paragens tão formosas como desconhecidas. Alli encontrava o vulto sympathico do filho do bacharel, aureolado d’extranhos esplendores, e não sabia bem se tamanha claridade partia d’elle ou se era apenas o reflexo cambiante d’uns astros desconhecidos que illuminavam o céo de um mundo novo. Mas d’aquella felicidade que a embriagava, guardava o segredo no coração; e era apparentemente a mesma creatura alegre e descuidosa. Como quer porém que elle, de desejoso, andasse evitando falar-lhe, Maria Luiza approximou-se e disse-lhe:
—Olhe que um rapaz-velho é tão irrisorio como um velho-rapaz.
—Minha senhora! balbuciou Eduardo tomando o dito á conta d’uma pungente zombaria.
—Ainda não dansou hoje, e como supponho que se esquiva á dansa para se furtar ao desprazer de me aturar durante uma valsa, venho sacrifical-o nas aras da minha ousadia, e convidal-o para meu... par.
Eduardo Valladares ia a responder, nem elle sabia o que, mas o preludio d’uma valsa salvou-o d’uma conjunctura estremamente difficil.
Depois, o piano passou d’uma cadencia maviosa para uma vertigem febril, e o mesmo aconteceu aos corações que, de tão juntos, pareciam permutar-se as pulsações...
Meia hora volvida, Eduardo Valladares e Maria Luiza conversavam debruçados á janella...
IX
Estamos, outra vez, no Bom Jesus do Monte.
O leitor conspira, porém, contra o poder de ubiquidade que o romancista possue e deseja saber que maviosos dialogos suspiraram Eduardo Valladares e Maria Luiza, ao clarão saudoso das estrellas. O que disseram não o repetiram os échos da noite. Suppomos, todavia, que elle conservara a mesma timidez e que ella não se apartou da alegre tranquillidade que momentos antes revelava. Mas se assim foi, n’aquelle dialogar, apparentemente frivolo, insensivelmente se iam alliando duas almas, a julgar pela leitura das seguintes linhas.
Vamos encontrar Eduardo Valladares e Maria Luiza subindo ambos a alameda sombria da Mãe d’Agua.
—Parece-me hoje mais triste que da primeira vez que estivemos aqui! disse Maria Luiza.
—Creio que não tem v. ex.ᵃ razão para se admirar. É que hoje já vou procurando recordações por entre estas sombras deliciosas.
—Recordações? Ah! recordações da visão mysteriosa que inspirou o seu madrigal.
—Se fôra assim, a presença de v. ex.ᵃ dissiparia essas recordações, ousou pronunciar Eduardo Valladares.
—Eu!
—V. ex.ᵃ mesma. Ha de perdoar-me, continuou elle com a voz extremamente trémula, mas resolvi-me, ao cabo de muitas horas de hesitação, a usar d’uma sinceridade que não pode e não deve melindrar v. ex.ᵃ. Que hei de fazer eu senão pensar, meditar, eu que vivo aos dezeseis annos longe da terra que me viu nascer, dos sitios que recordam as horas alegres da minha infancia, dos meus amigos queridos, do conchego da familia, das consolações de minha mãe, do braço protector de meu pae? Ah! se v. ex.ᵃ comprehendesse como tudo isto é profundamente triste, e se depois se lembrasse tambem de que venho acceitar um futuro que me offerece a generosidade d’um parente, porque o trabalhar constante de meu pae não basta para abrir á felicidade a porta da nossa casa, se v. ex.ᵃ comprehendesse tudo isto, ouvir-me hia como se ouve um amigo que vem entregar ao nosso coração o segredo das suas maguas.
—Jesus! Como me entristece!