Idyllios á beira d'agua Romance original
Part 8
Maria Luiza julgou-se esquecida pelo homem a quem amava. Esta ingratidão suffocava-a. «Por que não iria elle, perguntava a si mesma na sua afflicção, porque não iria vêr-me, depois de me não ter visto ha tanto tempo? E os meus pensamentos todos eram seus! Se sonhava... via-o no meu sonho. Dizia-me o coração que não morria, porque o amava... E elle não foi!»...
Á noite, queixou-se de extrema inquietação. Chamou-se á pressa o facultativo.
Antes d’elle chegar, Maria Luiza levantou-se de golpe, disse que uma nuvem vermelha lhe tirava a vista, e bolçou sangue.
XXIX
Moralmente, Rosinha soffrera tanto ou mais que Maria Luiza.
O seu amor, a sua dedicação pela irmã estremecida levou-a a occultar a morte do bacharel Valladares.
—Sabendo-o, soffrerá metade das dores que dilaceram o coração luctuoso de Eduardo. Peorará decerto, pensara Rosinha nos extremos do seu carinho.
Depois, acercou-se de sua mãe e disse:
—Não lhe parece que será melhor não dizermos que morreu o genro do João Nicolau?
—Sim... talvez.
—É sempre desagradavel a noticia d’um fallecimento. Agora, porém, tão impressionavel a tornou a doença, que parece-me que seria melhor occultarmos...
—Pois sim, não digamos nada.
Quando Maria Luiza lhe entregou o bilhete, Rosinha ficou sobresaltada. Exprimiu o receio de Eduardo Valladares o não receber a tempo, para ir dispondo o ánimo da irmã. Não previu as tristes consequencias que vieram surprehendel-a. Suppoz que o adeantado da hora seria razão sufficiente para explicar a ausencia de Eduardo, e que Maria Luiza diria de si para comsigo «não pôde vir» em vez de «não quiz vir.»
Para acalmar a irmã, resolveu-se, como vimos, a dizer ao menos meia verdade.
Não foi acreditada.
É inexplicavel o que em algumas horas soffreu a boa alma, toda dúvida e receio, toda amor e afflicção...
Em casa, no regresso d’aquelle triste passeio, Rosinha, muito atribulada, disse á irmã:
—Socega, por Deus. Amanhã te explicarei toda a verdade.
Maria Luiza olhou-a com fixidez, e sorriu um breve sorriso que tinha tanto de tristeza como de incredulidade. E continuou a luctar com a mesma ancia, cada vez maior.
O facultativo ficou surprehendido do estado em que veiu encontrar Maria Luiza e não pôde deixar de o attribuir a hemorrhagia da membrana mucosa pulmonar. A hemoptyse estava manifesta. O sangue era acompanhado de tosse violenta e no meio da ancia, que a suffocava, queixava-se Maria Luiza de intenso calor sobre o peito.
Quando a doente socegou algum tanto, o facultativo disse em particular á viuva Machado:
—Sua filha, comquanto fôsse clara certa predisposição que infundia receio, enganou-me, e eu vou dizer em que. Fiei muito d’uma convalescença remançosa, que ella devia ter e que, rigorosamente observada, seria barreira á obra da destruição. N’isto foi que me enganei. Sei que estou dilacerando o coração da mãe, mas devo usar d’esta franqueza para com a enfermeira. Tiremol-a d’aqui, quanto antes, o mais breve possivel. Para que não vae v. ex.ᵃ para a quinta do Prado? Está á porta a primavera; appellemos para ella.
—Para a quinta do Prado... Mas para lá...
—Diz v. ex.ᵃ?...
—Ha o inconveniente de a approximarmos do tumulo da irmã, por quem morria d’amores...
—Ah! Fez v. ex.ᵃ bem em me informar d’essa circumstancia, que eu desconhecia. Não sabia onde repousava a filha de v. ex.ᵃ; sabia apenas que tinha succumbido a uma tisica pulmonar. É pois conveniente escolhermos outro local.
—Lembro-me do Bom Jesus, que é o seu passeio favorito. Podiamos requerer aposento na _Casa da mesa_. Que lhe parece, sr. doutor?
—Sabe v. ex.ᵃ que de todos os sitios affluem numerosos doentes ao Bom Jesus. É difficil encontrar mais salutar atmosphera. Mas ainda assim, pelo que toca a condições hygienicas, não pode comparar-se com a quinta do Prado. Torna-se, porém, indispensavel atalhar o mal obstinadamente, e haver rigorosa observancia de prescripções. Convem livral-a sobretudo do nevoeiro da serra, de certa viração perfida que sopra de manhã e de tarde no Bom Jesus.
—Oh! mas diga-me se tem esperanças de a salvar, sr. doutor, lembre-se n’este momento de que sou mãe.
—Socegue, minha senhora. Empenharemos todos os esforços e restituil-a-hemos á vida.
Sahiu o medico, dissipando com as exhalações d’um charuto as esperanças de salvar Maria Luiza.
Ha só uma coisa comparavel á consciencia dos medicos: é a consciencia dos ministros. Esta relação de semelhança deve lisonjear os homens da sciencia...
Na manhã do dia seguinte, Rosinha curvou-se sobre o travesseiro de Maria Luiza e murmurou:
—Se me podes ouvir, ou se estás para isso, queria dizer-te uma coisa...
—Dize.
—Perdôa-me, por Deus, perdôa-me. Hontem não te disse toda a verdade. Pobre de mim, que não previ o mal que ia fazer!
—Eu sabia que me enganavas. Comprehendi, porque sei quanto és minha amiga, Rosinha...
—Tu sabias?
—Sabia. Sabia que querias justificar a ingratidão, o esquecimento d’elle, só para não me magoares.
—Enganas-te. O amor desvaira-te. Elle não pôde ir, porque...
—Por que?...
—Socega. Vejo-me, porém, obrigada a fazer-te esta revelação. Pesa-me de não a ter feito hontem. Quando a mamã estiver presente, mostra que não sabes...
—Dize, dize.
—O Eduardo está realmente no Porto.
—Quiz fugir-me?
—Não. Foi chamado á pressa. Sebastião Valladares... morreu.
—Morreu! E por que m’o não disseste? Receavas que me fizesse mal, bem sei, minha boa irmã. Morreu! Como elle terá soffrido! E eu accusava-o, Rosinha, accusava-o porque me dilacerava o coração a lembrança de me não ter ido vêr, a mim, que me levantava do leito depois de tantos dias de soffrimento... Como eu fui injusta...
—Socega. Que não te vá fazer mal...
—Não faz, não. Pobresinho d’elle, que parece ter nascido sob o influxo d’uma estrella funesta. Não lhe bastava o que soffria por minha causa! Ainda mais isto! Soffre-se tanto quando se fica sem pae! Lembras-te do que nós sentimos e chorámos, quando nos faltou o nosso, Rosinha?
—Cala-te, minha amiguinha, cala-te. Pode ouvir a mamã. Não fales mais. Hontem de tarde, se t’o dissesse para remediar o mal que involuntariamente fiz, talvez não acreditasses.
—Talvez não.
—Hoje, porém, tenho provas.
—Tens provas?
—Promette que te não alvoroças, se não...
—Ah! escreveu-te! Deixa-me ver, deixa-me ver.
—Eu leio...
—Não sejas cruel, Rosinha. Deixa-me ler, que já tenho saudades de ver a sua lettra...
Rosinha entregou a carta que tinha recebido, do Porto momentos antes. Maria Luiza leu:
«Minha boa amiga:
Escrevo-lhe do Porto. Sabe já decerto que meu pae morreu. Occulte-o a ella, por quem é, occulte-lh’o. Como sentiria as dores que eu só devo sentir, se ella o soubesse! Podia talvez peorar.
«Quando olho em mim, e conheço que levei a minha desgraça áquella alma, que não a merecia, sinto remorsos de a ter amado. Que Deus me perdôe, e a salve a ella. Não posso ser mais extenso. Basta dizer-lhe que meu pae baixa hoje á sepultura. Voltarei dentro de pouco dias.»
—Rosinha, minha irmã, reza commigo a Nossa Senhora. Rezemos por elle, que é muito infeliz; por mim, não, que eu sinto-me boa.
E brilharam-lhe lagrimas nos olhos. Sobreveiu um frouxo de tosse, e após a tosse uma lufada de sangue...
Passadas horas, respondia Rosinha a occultas da irmã:
«Occultamos-lhe a morte de seu pae. Procuramos, porém, afastar um mal, e approximamos outro. Mando-lhe o bilhete que ella me dava hontem para eu lh’o fazer entregar, na supposição de estar, em Braga. Continuei ainda a occultar a cruel verdade sem pensar nas consequencias funestas da minha dedicação. Á conta de esquecimento tomou ella a sua ausencia. Era manifesto que soffria muito quando recolhemos, mas foi-me então impossivel remediar o mal, revelando toda a verdade. Ás nove horas da noite, sentia-se muito incommodada e momentos depois abafava-lhe a voz uma onda de sangue. Pobre irmã! Venha depressa, que eu sinto que me falta o ánimo. Hoje confessei-lhe tudo. Quiz lêr a sua carta, e lamentou-o muito com os olhos cheios de lagrimas. Vamos amanhã para o Bom Jesus. O facultativo aconselhou ares mais puros sem perda de tempo. Venha depressa, sim? A precipitação com que lhe estou escrevendo explicará o laconismo destas linhas.»
Quando Rosinha voltou ao quarto, disse-lhe Maria Luiza:
—Tu respondes hoje?
—Eu! Não tenciono.
—Quero então pedir-te um favor.
—Dize o que é.
—Se me deixavas escrever...
—Escrever! Mas se te vae fazer mal...
—Não faz, eu sei que não faz.
—Com uma condição: quatro palavras, apenas.
—Pois bem. Quatro palavras apenas, respondeu Maria Luiza.
E escreveu com bastante difficuldade para sustentar a penna na mão convulsa:
«Sei o que terás soffrido, meu pobre Eduardo!... Que o meu amor te dê coragem. Não receies por mim, não? Eu estou boa. Queria que viesses, porque vamos ámanhã para o Bom Jesus, e não sei como hei de estar lá sem ti. Já não te vi ha tanto tempo...»
Rosinha interrompeu-a para dizer-lhe:
—Já escreveste muito. Se te faz mal... Se vem a mamã.
E ouviram-se passos no corredor.
—Ella ahi vem, não ouves?
XXX
João Nicolau e Frei Domingos estavam conversando um dia e naturalmente veiu a declinar o dialogo sobre o futuro de Eduardo, que parecia mais triste do que nunca.
—É pois resolução assente o sacerdocio? perguntou o carmelita.
—Assente, respondeu João Nicolau. Foi sempre desejo meu encarreiral-o por este caminho. Ao principio receei que o meu proposito o contrariasse. Ha tempos a esta parte, cuido perceber que lhe não desagrada o futuro que lhe dou gostosamente.
—Hade o sr. João Nicolau lançar á conta da amizade com que me trata as impertinencias d’um velho. Deixe-me todavia ser franco—disse Frei Domingos do Amor Divino com os olhos marejados de lagrimas. Entrei n’esta casa supplicando a Deus que me preparasse um dia este momento, em que eu pudesse dizer ao homem honrado: «Aqui estão os meus cabellos brancos; ouve-me, se elles te inspiram compaixão.»
João Nicolau sentia-se perplexo e commovido.
Frei Domingos continuou:
—Um dia, um homem velho como eu, coração sem mancha, como prouvera ao Senhor que fôra o meu, bateu á minha porta e disse: «Desgraças communs prenderam o meu coração ao coração d’outro homem, cujo filho se abeira hoje de mim, a instancias do pae, para pedir conselho á minha velhice, não á minha discreção. Descobri sombras na fronte que se devia illuminar com o clarão da mocidade. Vi curvada com melancholico pendor a roseira que se devia erguer attrahida pelas flechas do sol. Sondei. Desci cautelosamente ao coração de dezeseis annos e encontrei-o traspassado por um espinho. A pobre alma confrangia-se deante d’um futuro que se approximava dia a dia, e que ella queria remover, ou porque estivesse embalada nas castas doçuras da sua edade, ou porque a apavorasse a austeridade do sacerdocio.» Disse-me isto o ancião com voz trémula de commoção e velhice. Depois, voltando-se de novo para mim, accrescentou: «A missão do levita é supplicar e esclarecer. Vá: supplique e esclareça. Fale ao coração piedoso do homem que chamou a si o neto desprotegido da fortuna para lhe aplanar o caminho da vida. Vá e diga-lhe curvado de respeito: «Venho desafogar comtigo, porque sei que o teu coração é brando; ouve-me e Deus te agradecerá». Era eloquente e justa esta voz. Obedeci e vim. Aqui estou, sr. João Nicolau, para lhe pedir que me oiça. Direi o que a razão me fôr suggerindo; depois terminarei com o dito da Escriptura: «Se eu errei, corrige-me tu; se eu falei com iniquidade, não accrescentarei mais.[13]»
—Oh! sr. Frei Domingos... exclamou João Nicolau sem poder concluir a phrase.
—O melhor futuro não é o que nos parece melhor; é o que Deus nos prepara. O coração affectuoso pode enganar-se ao talhar felicidades que nunca cheguem. Não digo que venha a ser assim; quero dizer que o coração do sr. João Nicolau, estremoso e bom, pode enganar-se em sua mesma bondade. Um dia as lagrimas de seu neto podiam amargurar-lhe os remanços da velhice. O sr. João Nicolau choraria a sua e a alheia desgraça ao ver despida de flores a arvore do seu amor. Não me pesa a mim a batina, porque a procurei e a vesti eu mesmo. Prouvera ao Senhor, porém, que conhecesse menos hombros avergados sob ella, que era então certo conhecer menos infelizes. O sacerdote que não tem o ánimo despreoccupado, serve mal a Deus e á sua alma. Não me quero engrandecer, nem aos que voluntariamente abraçam o sacerdocio. Quero dizer que não poderia curar promptamente as dores alheias, se todos os dias tivesse de pensar a chaga incuravel do meu desespêro. Toda a vida tem espinhos; o sacerdocio tambem. O marinheiro que voluntariamente embarca, corajoso lucta com as tempestades do mar e todo se delicia na contemplação do azul purissimo das aguas, quando céo e mar estão serenos. O que navega coagido nem desteme a tormenta nem se consola com a suavidade da paizagem. Para tal marinheiro, o mar é sempre um abysmo, ou durma ou se encapelle. Que cada um procure o rumo da sua derrota. Depois, quando já tiver embarcado, digamos assim ao nauta querido do nosso coração: «Filho, deixa-me guiar o teu batel, em quanto o teu braço fraqueja».
Frei Domingos parou um momento, fatigado pela commoção. João Nicolau approximou-se e disse com olhos humidos de pranto:
—Sr. Frei Domingos, as suas palavras convencem me. Pensei que meu neto não ia sacrificado ao destino que lhe eu dava. Suppuz a principio que a idéa da solidão do presbytero lhe pusera medo. Chegada, porém, a hora de lhe indicar um caminho, vi-o calar se sereno e...
—Agradeçamos a Deus que lhe não endureceu o coração; é humilde. O filho d’aquelle homem, cuja face gelada era serena como a superficie d’um lago, devia compartilhar das virtudes enthesouradas no coração do pae. Eu vi o cadaver de seu genro...
—O sr. Frei Domingos! Ah! pois era o carmelita?...
—Fui ao Porto, que me dizia a consciencia que devia ir. Entrei aqui, e fui recebido, sob este tecto, como não merecia. D’esta grande divida que tenho em aberto, e que decerto não posso saldar, procurei pagar a centesima parte dos juros, amontoados. Á volta do feretro d’um parente intimo d’esta casa, reuniam-se sacerdotes; era lá o meu logar; fui tomal-o. Não faltavam á viuva e ao orphão consolações d’amigos; as minhas seriam menos prestantes. Foi por isso que não appareci á familia annojada. Na egreja senti uma extranha commoção: chorei. Talvez fôsse fraqueza o chorar; talvez. São percalços da velhice. Estava-me lembrando das desgraças que poderiam fulminar o orphão, se a minha voz fôsse impotente para convencer o sr. João Nicolau. E olhe que não vae n’isto offensa ao seu coração. Não receava por elle; receava por mim. Da palavra do conselheiro depende a efficacia do conselho. O bom terreno, por mal semeado, pode deixar de fructificar. Enganei-me, sr. João Nicolau, enganei-me. Não é verdade? Não é verdade que veiu Deus em nosso auxilio, porque o seu entendimento adivinhou o que eu deixei de dizer? Diga-me que sim, que é esta a maior alegria de ha trinta annos. O sr. João Nicolau é bom... Bem vejo que está chorando. «Fazei justiça ao necessitado e ao orphão»[14] diz o _Psalterio_. O sr. João Nicolau é religioso, e ha de fazel-a. Dê-me um abraço, meu amigo, que eu leio nas suas lagrimas a resposta que a commoção lhe não permitte dar-me...»
Foi edificante aquelle lance em que dos olhos dos dois velhos brotaram copiosas lagrimas. Por longo tempo nem um nem outro pôde falar. O silencio dava certa grandeza ao quadro.
Decorreram minutos, após os quaes Frei Domingos conseguiu dizer:
—Bemdito seja o nome do Senhor! Vou d’aqui rejuvenescido. Vou dizer a Rodrigues d’Abreu...
—Tinha adivinhado logo que era elle. Em Braga, não podia ser outro. Bom coração aquelle!
—Bom coração é, realmente. A elle devemos esta alegria, que veiu illuminar a nossa velhice. Vou dizer-lhe: Permittiu Deus que eu visse a realisação de tamanha esperança. Receei uma vez, e chorei. O Senhor das alturas perdoou-me, cobriu-me com a Sua grandeza, depois de ter inspirado o coração a que me dirigi.
Passados dias, João Nicolau chamou o neto á sua presença e disse-lhe:
—Estamos sós, e espero que me falarás com a lizura com que falarias a teu pae.
—Responderei com a voz do coração.
—Cabe-me o dever de dirigir a tua educação, e não quero violentar-te a acceitares um futuro que te repugne. Se até hoje fiz mal, determinando-te uma carreira, dir-m’o-has agora. Responde-me com franqueza. Da resolução que tomares depende tudo e, depois de consummada a obra, é impossivel a emenda. A tua recusa não me desgosta, nem me contraria. Se assim fôsse, não te chamaria para me expores a tua vontade.
Eduardo Valladares levantou para o avô os olhos tristes, e respondeu com firmeza:
—Agradeço do fundo do coração, meu avô, o sentimento que o levou a querer ouvir-me sobre este ponto. Respondo, abrindo-lhe a minha alma. O sacerdocio, a que me destinava, apavorava-me quando eu sentia enflorar-se o peito com as primaveras que são apanagio dos primeiros annos da vida. Entre mim e a minha esperança, via levantar se a barreira do sacerdocio. Chorei, exasperei-me, e levei o écho das minhas amarguras aos ouvidos de quem entrava no mundo com direito a sahir d’elle sem rasgar o coração na minha corôa d’espinhos. Quiz rebellar-me, no meu desespêro, contra a vontade de meu avô. Suspendeu-me sempre á beira do precipicio um braço amigo, apontando-me para o Céo. Esperei do Céo o balsamo, o confôrto. Sem deixar de crer em Deus, via porém crescer hora a hora o meu desespêro. Era horrivel viver assim, meu avô! Fui vivendo uma vida d’esperanças e de lagrimas, de fé e de descrença... Só sabe comprehender isto, quem viveu assim. Era delicado de mais para tamanhas procellas o coração que eu amei. Despedaçou-o aquella agonia lenta. Despedacei-o eu, meu avô. A martyr succumbiu ás minhas dores. Amava-me de mais para me esquecer. Chorei de desespêro; choro agora de remorso. Encherei com as minhas lagrimas o calix do sacrificio. Na expiação de todos os dias supplicarei o perdão de Deus. Quero e devo expiar assim, meu avô, se a pessoa a quem me refiro adormecer no tumulo para accordar no Céo.
XXXI
«As arvores tanto as tenho para mim como para os passaros» escreveu Lamartine no formoso livro _Pedreiro de Saint-Point_.
Ó alma sublime de poeta, tu não levavas o teu egoismo ao extremo de quereres as arvores unicamente para te envolverem em mysteriosa sombra nas tardes meditativas do estio. Tu sabias que esse mundo de folhas verdes, sussurrante e oloroso, se pode servir de cupula ao homem em horas de profunda meditação, é tambem das aves que se deixam absorver nos seus extasis d’amor, e querem esconder-se nas sombras da floresta, para cantar, sem que ninguem as veja.
Deixemol-as entoar os seus modilhos emquanto nós pensamos.
Ellas estão no seu mundo, nós estamos no nosso.
O universo é para todos.
Faz-me tristeza ver que os homens as perseguem, a ellas, que tornam alegre a solidão dos campos e que traduzem em musicas suavissimas os mais delicados pensamentos do amor e da saudade. Nós, quantas vezes nos não embriagamos nos mais delicados pensamentos, nos mais mimosos affectos, sem que possamos encontrar na palavra o prisma que reproduza as formosas cambiantes do nosso espirito! Ellas, as aves, teem uma inflexão para cada idéa, uma harmonia para cada sentimento. Merecem mais respeito as pobresinhas, se não fôr por outra coisa, ao menos por isto—que já é muito.
A creança d’hoje ha de ser homem amanhã e, se lhe ensinarem a disparar a sua clavina, irá desfechal-a contra o seio offegante d’uma andorinha, que commetteu o unico delicto de querer procurar alimento para a sua pequenina familia. Não digamos pois á creança que se embriaga nas innocentes alegrias da sua edade: «Amanhã, visto que estás homemzinho, faze-te caçador. Pega n’esta espingarda e vae pelo caminho fora. Rompe através do matto, salta córregos, galga montanhas, que todos esses sacrificios serão pagos pelo prazer sanguinario de matar. Se vires um bando d’aves, ainda que seja uma caravana de passarinhos alegres, que vão cruzando o espaço, como uma tribu nómada que atravessa o deserto, faze pontaria e atira. Se ferires a mãe, fecha o coração á magua de teres levado a orphandade e a viuvez a uma familia inteira, cerra os ouvidos aos saudosos lamentos de quem fica viuvo e orphão n’esse deserto dos céos! Se ferires o filho, esquece-te de que roubaste a alegria d’um coração de mãe, de que a ave é tanto mãe, ou mais ainda, do que a mulher, esquece-te, oh esquece-te... d’isto tudo e... desfecha a tua espingarda».
Apraz-me entrar n’um cerrado onde as aves vivem em plena liberdade sem recearem da clavina do caçador, nem das redes da creança. Ahi cantam, amam e noivam sem emmudecer de sobresalto uma unica vez. Se o bosque fica perto d’uma corrente murmurosa, diremos que estamos no jardim do amor, ao ouvir os rouxinoes. Se fica n’um retiro formosamente triste, diremos que estamos na estancia da saudade, ao escutar as rôlas.
As aves da floresta do Bom Jesus do Monte seriam verdadeiramente ditosas, se não as perseguissem as creanças—os unicos inimigos que ellas lá podem ter. Quem quer ouvil-as, sobe á montanha sagrada; as creanças ouvem-n’as, namoram-se de suas toadas alegres e querem prender as proprias aves, para que já lhes não fuja aquella doce musica.
Maria Luiza e Eduardo Valladares estiveram na alameda da Mãe d’Agua, no dia trinta de março, dia em que a floresta toda se levantava em jubilos e canticos para saudar a primavera.
Maria Luiza, meio inclinada para o tumulo, parecia sorrir á amenidade d’aquelle dia.
Tinha nas faces a pallidez da morte, mas descerravam-se-lhe os labios n’um sorriso sereno como o da esperança. Esperaria ainda ella a felicidade terrena? Cremos que sim. Dizia tranquillamente a Eduardo Valladares, que no Céo havia um écho para cada desgraçado, e que lhe segredava o coração que não estava longe a felicidade. Queria vêl-o queria falar-lhe, queria ouvil-o a miude, e o pobre moço, desenganado pela voz da medicina, amparava-a nos braços, na afflictiva ancia que precedia quasi sempre uma nova hemoptyse. Muitas vezes dissera Maria Luiza, quando ainda era alegre:
—Quem sabe se virei a morrer da morte de minha irmã? Talvez... Eramos tão amigas!...
Depois que começara a soffrer, especialmente depois que foi para o Bom Jesus, dizia a Rosinha:
—Eu hei de melhorar. Aqui amei e aqui soffri. Mas a gente gosta tanto dos sitios onde soffre, amando, que é como se tivesse vivido n’elles sem nunca ter chorado... Não posso morrer aqui, bem vês. Tudo são recordações a chamar-me á vida. Não posso morrer, não.
—Pois não morres, não, respondia Rosinha, abafando a sua dôr.
N’esse dia, trinta de março, estavam Maria Luiza e Eduardo Valladares na alameda da Mãe d’Agua. Acompanhara-a elle, dando-lhe o braço. Rosinha sentou-se a distancia.
Á sombra das copadas arvores andavam armando aos passarinhos umas creanças, filhas de duas familias inglezas, que do Porto, onde ainda hoje residem, tinham ido passar alguns dias no Bom Jesus do Monte.
Andavam estas creanças folgando em commum divertimento. Quando uma avesinha incauta descia a pousar na varinha traiçoeira, e ficava presa no visco, sahiam os pequenos de trás dos troncos afastados, chalrando alegremente n’uma linguagem que a plumosa victima devia entender, visto ter dito Carlos V que o inglez é para se falar aos passaros.
Depois de prêsa a ave, armavam de novo, tornavam a esconder-se, e trocavam-se ordinariamente no esconderijo estas phrases com intervallos sempre deseguaes:
—_Be silent..._
—_It is coming..._
—_It has perched..._
—_It is caught!_
O mysterioso dialogo das impiedosas creanças orça por isto em portuguez:
—Sciu...
—Chegou...
—Pousou...
—Está preso!
Maria Luiza tinha dito a Eduardo Valladares, quando entraram na alameda:
—Trouxe-te hoje papel e lapis. Tenho saudades... dos teus versos, meu amor! Desapprendeste a cantar nas tuas afflicções, mas hoje quero que escrevas ao pé de mim para me certificar de que a tua alma está serena como a minha...