Historias Sem Data

Part 2

Chapter 23,899 wordsPublic domain

Rindo assim, amigavelmente cortejou-os e foi andando. Os dois credores ficaram embascados. O cabelleireiro foi o primeiro que fallou, dizendo que a noticia do Dr. Jeremias não era tal que os devesse afrouxar no proposito de cobrar as dividas. Se até os mortos pagam, ou alguem por elles, reflexionou o cabelleireiro, não é muito exigir aos doentes igual obrigação. O alfaiate, invejoso da pilheria, fel-a sua cosendo-lhe este babado:--Pague e cure-se.

Não foi dessa opinião o Matta-sapateiro, que entendeu haver alguma razão secreta nas palavras do doutor Jeremias, e propoz que primeiro se examinasse bem o que era, e depois se resolvesse o mais idoneo. Convidaram então outros credores a um conciliabulo, no domingo proximo, em casa de uma D. Anninha, para as bandas do Rocio, a pretexto de um baptizado. A precaução era discreta, para não fazer suppor ao intendente da policia que se tratava de alguma tenebrosa machinação contra o Estado. Mal anoiteceu, começaram a entrar os credores, embuçados em capotes, e, como a illuminação publica só veiu a principiar com o vice-reinado do conde de Rezende, levava cada qual uma lanterna na mão, ao uso do tempo, dando assim ao conciliabulo um rasgo pintoresco e theatral. Eram trinta e tantos, perto de quarenta--e não eram todos.

A theoria de Ch. Lamb ácerca da divisão do genero humano em duas grandes raças, é posterior ao conciliabulo do Rocio; mas nenhum outro exemplo a demonstraria melhor. Com effeito, o ar abatido ou afflicto d'aquelles homens, o desespero de alguns, a preoccupação de todos, estavam de antemão provando que a theoria do fino ensaista é verdadeira, e que das duas grandes raças humanas,--a dos homens que emprestam, e a dos que pedem emprestado,--a primeira contrasta pela tristeza do gesto com as maneiras rasgadas e francas da segunda, _the open, trusting, generous manners of the other_. Assim que, n'aquella mesma hora, o Thomé Gonçalves, tendo voltado da procissão, regalava alguns amigos com os vinhos e gallinhas que comprára fiado; ao passo que os credores estudavam ás escondidas, com um ar desenganado e amarello, algum meio de rehaver o dinheiro perdido.

Logo foi o debate; nenhuma opinião chegava a concertar os espiritos. Uns inclinavam-se á demanda, outros á espera, não poucos aceitavam o alvitre de consultar o Dr. Jeremias. Cinco ou seis partidarios d'este parecer não o defendiam senão com a intenção secreta e disfarçada de não fazer cousa nenhuma; eram os servos do medo e da esperanca. O cabelleireiro oppunha-se-lhe, e perguntava que molestia haveria que impedisse um homem de pagar o que deve. Mas o Matta-sapateiro:--«Sr. compadre, nos não entendemos d'esses negocios; lembre-se que o doutor é estrangeiro, e que nas terras estrangeiras sabem cousas que nunca lembraram ao diabo. Em todo caso, só perdemos algum tempo e nada mais.» Venceu este parecer; deputaram o sapateiro, o alfaiate e o cabelleireiro para entenderem-se com o Dr. Jeremias, em nome de todos, e o conciliabulo dissolveu-se na patuscada. Terpsychore bracejou e perneou diante d'elles as suas graças jocundas, e tanto bastou para que alguns esquecessem a ulcera secreta que os roia. _Eheu! fugaces..._ Nem mesmo a dor é constante.

No dia seguinte o Dr. Jeremias recebeu os tres credores, entre sete e oito horas da manha. «Entrem, entrem...» E com o seu largo carão hollandez, e o riso derramado pela bocca fóra, como um vinho generoso de pipa que se rompeu, o grande medico veiu em pessoa abrir-lhes a porta. Estudava n'esse momento uma cobra, morta de vespera, no morro de Santo Antonio; mas a humanidade, costumava elle dizer, é anterior á sciencia. Convidou os tres a sentarem-se nas tres unicas cadeiras devolutas; a quarta era a d'elle; as outras, umas cinco ou seis, estavam atulhadas de objectos de toda a casta.

Foi o Matta-sapateiro quem expoz a questão; era dos tres o que reunia maior cópia de talentos diplomaticos. Começou dizendo que o engenho do Sr. doutor ia salvar da miseria uma porção de familias, e não seria a primeira nem a ultima grande obra de um medico que, não desfazendo nos da terra, era o mais sabio de quantos cá havia desde o governo de Gomes Freire. Os credores de Thomé Gonçalves não tinham outra esperança. Sabendo que o Sr. doutor attribuia os atrazos d'aquelle cidadão a uma doença, tinham assentado que primeiro se tentasse a cura, antes de qualquer recurso á justiça. A justiça ficaria para o caso de desespero. Era isto o que vinham dizer-lhe, em nome de dezenas de credores; desejavam saber se era verdade que, além de outros achaques humanos, havia o de não pagar as dividas, se era mal incuravel, e, não o sendo, se as lagrimas de tantas familias...

--Ha uma doença especial, interrompeu o Dr. Jeremias, visivelmente commovido, um lapso da memoria; o Thomé Gonçalves perdeu inteiramente a noção de pagar. Não é por descuido, nem de proposito que elle deixa de saldar as contas; é porque esta idéa de pagar, de entregar o preço de uma cousa, varreu-se-lhe da cabeça. Conheci isto ha dois mezes, estando em casa d'elle, quando alli foi o prior do Carmo, dizendo que ia «pagar-lhe a fineza de uma visita». Thomé Gonçalves, apenas o prior se despediu, perguntou-me o que era _pagar_; accrescentou que, alguns dias antes, um boticario lhe dissera a mesma palavra, sem nenhum outro esclarecimento, parecendo-lhe até que já a ouvira a outras pessoas; por ouvil-a da bocca do prior, suppunha ser latim. Comprehendi tudo; tinha estudado a molestia em varias partes do mundo, e comprehendi que elle estava atacado do lapso. Foi por isso que disse outro dia a estes dois senhores que não demandassem um homem doente.

--Mas então, aventurou o Matta, pallido, o nosso dinheiro está completamente perdido...

--A molestia não é incuravel, disse o medico

--Ah!

--Não é; conheço e possuo a droga curativa, e já a empreguei em dous grandes casos: um barbeiro, que perdera a noção do espaço, e, á noite estendia a mão para arrancar as estrellas do céu, e uma senhora da Catalunha, que perdera a noção do marido. O barbeiro arriscou muitas vezes a vida, querendo sahir pelas janellas mais altas das casas, como se estivesse ao rez do chão...

--Santo Deus! exclamaram os tres credores.

--É o que lhes digo, continuou placidamente o medico. Quanto á dama catalã, a principio confundia o marido com um licenciado Mathias, alto e fino, quando o marido era grosso e baixo; depois com um capitão, D. Hermogenes, e, no tempo em que comecei a tratal-a com um clerigo. Em tres mezes ficou boa. Chamava-se D. Agostinha.

Realmente, era uma droga miraculosa. Os tres credores estavam radiantes de esperança; tudo fazia crer que o Thomé Gonçalves padecia do lapso, e, uma vez que a droga existia, e o medico a tinha em casa... Ah! mas aqui pegou o carro. O Dr. Jeremias não era familiar da casa do enfermo, embora entretivesse relações com elle; não podia ir offerecer-lhe os seus prestimos. Thomé Gonçalves não tinha parentes que tomassem a responsabilidade de convidar o medico, nem os credores podiam tomal-a a si. Mudos, perplexos, consultaram-se com os olhos. Os do alfaiate, como os do cabelleiro, exprimiram este alvitre desesperado; cotisarem-se os credores, e, mediante uma quantia grossa e appetitosa, convidarem o Dr. Jeremias á cura; talvez o interesse... Mas o illustre Matta via o perigo de um tal proposito, porque o doente podia não ficar bom, e a perda seria dobrada. Grande era a angustia; tudo parecia perdido. O medico rolava entre os dedos a boceta de rapé, esperando que elles se fossem embora, não impaciente, mas risonho. Foi então que o Matta, como um capitão dos grandes dias, viu o ponto fraco do inimigo; advertiu que as suas primeiras palavras tinham commovido o medico, e tornou ás lagrimas das familias, aos filhos sem pão, porque elles não eram senão uns tristes officiaes de officio ou mercadores de pouca fazenda, ao passo que o Thomé Gonçalves era rico. Sapatos, calções, capotes, xaropes, cabelleiras, tudo o que lhes custava dinheiro, tempo e saude... Saude, sim, senhor; os callos de suas mãos mostravam bem que o officio era duro; e o alfaiate, seu amigo, que alli estava presente, e que entisicava, ás noites, á luz de uma candeia, zas-que-darás, puchando a agulha...

Magnanimo Jeremias! Não o deixou acabar; tinha os olhos humidos de lagrimas. O acanho de suas maneiras era compensado pelas expansões de um coração pio e humano. Pois, sim; ia tentar o curativo, ia pôr a sciencia ao serviço de uma causa justa. Demais, a vantagem era tambem e principalmente do proprio Thomé Gonçalves, cuja fama andava abocanhada, por um motivo em que elle tinha tanta culpa como o doudo que pratica uma iniquidade. Naturalmente, a alegria dos deputados traduziu-se em rapa-pés infindos e grandes louvores aos insignes merecimentos do medico. Este cortou-lhes modestamente o discurso, convidando-os a almoçar, obsequio que elles não aceitaram, mas agradeceram com palavras cordialissimas. E, na rua quando elle já os não podia ouvir, não se fartavam de elogiar-lhe a sciencia, a bondade, a generosidade, a delicadeza, os modos tão simples! tão naturaes!

Desde esse dia começou Thomé Gonçalves a notar a assiduidade do medico, e, não desejando outra cousa, porque lhe queria muito, fez tudo o que lhe lembrou por atal-o de vez aos seus penates. O lapso do infeliz era completo; tanto a ideia de _pagar_, como as ideias co-relatas de _credor_, _divida_, _saldo_, e outras tinham-se-lhe apagado da memoria, constituindo-lhe assim um largo furo no espirito. Temo que se me argua de comparações extraordinarias, mas o abysmo de Pascal é o que mais promptamente veiu ao bico da penna. Thomé Gonçalves tinha o abysmo de Pascal, não ao lado, mas dentro de si mesmo, e tão profundo que cabiam n'elle mais de sessenta credores que se debatiam lá embaixo com o ranger de dentes da Escriptura. Urgia extrahir todos esses infelizes e entulhar o buraco.

Jeremias fez crer ao doente que andava abatido, e, para retemperal-o, começou a applicar-lhe a droga. Não bastava a droga; era mister um tratamento subsidiario, porque a cura operava-se de dous modos:--o modo geral e abstracto, restauração da ideia de pagar, com todas as noções co-relatas--era a parte confiada á droga; e o modo particular e concreto, insinuação ou designação de uma certa divida e de um certo credor--era a parte do medico. Supponhamos que o credor escolhido era o sapateiro. O medico levava o doente ás lojas de sapatos, para assistir á compra e venda da mercadoria, e ver uma e muitas vezes a acção de pagar; fallava da fabricação e venda dos sapatos no resto do mundo, cotejava os preços do calçado n'aquelle anno de 1768 com o que tinha trinta ou quarenta annos antes; fazia com que o sapateiro fosse dez, vinte vezes a casa de Thomé Gonçalves levar a conta e pedir o dinheiro, e cem outros estratagemas. Assim com o alfaiate, o cabelleireiro, o segeiro, o boticario, um a um, levando mais tempo os primeiros, pela razão natural de estar a doença mais arraigada, e lucrando os ultimos com o trabalho anterior, d'onde lhes vinha a compensação da demora.

Tudo foi pago. Não se descreve a alegria dos credores, não se transcrevem as bençãos com que elles encheram o nome do Dr. Jeremias. Sim, senhor, é um grande homem, bradavam em toda a parte. Parece cousa de feitiçaria, aventuravam as mulheres. Quanto ao Thomé Gronçalves, pasmado de tantas dividas velhas, não se fartava de elogiar a longanimidade dos credores, censurando-os ao mesmo tempo pela accumulação.

--Agora, dizia-lhes, não quero contas de mais de oito dias.

--Nós é que lhe marcaremos o tempo, respondiam generosamente os credores.

Restava entretanto, um credor. Esse era o mais recente, o proprio Dr. Jeremias, pelos honorarios d'aquelle serviço relevantes. Mas, ai delle! a modestia atou-lhe a lingua. Tão expansivo era de coração, como acanhado de maneiras; e planeou tres, cinco investidas, sem chegar a executar nada. E aliás era facil; bastava insinuar-lhe a divida pelo methodo usado em relação á dos outros; mas seria bonito? perguntava a si mesmo; seria decente? etc., etc. E esperava, ia esperando. Para não parecer que se lhe mettia á cara, entrou a rarear as visitas; mas o Thomé Gonçalves ia ao casebre da rua do Piolho, e trazia-o a jantar, a ceiar, a fallar de cousas estrangeiras, em que era muito curioso. Nada de pagar. Jeremias chegou a imaginar que os credores... Mas os credores, ainda quando pudesse passar-lhes pela cabeça a ideia de ir lembrar a divida, não chegariam a fazel-o, porque a suppunham paga antes de todas. Era o que diziam uns aos outros, entre muitas formulas da sabedoria popular:--Matheus, primeiro os teus--A boa justiça começa por casa--Quem é tolo pede a Deus que o mate, etc. Tudo falso; a verdade é que o Thomé Gonçalves, no dia em que fallecera, tinha um só credor no mundo:--o Dr. Jeremias.

Este, nos fins do seculo, chegára á canonisação.

--«Adeus, grande homem!» dizia-lhe o Matta, ex-sapateiro, em 1798, de dentro da sege, que o levava á missa dos carmelitas. E o outro, curvo de velhice, melancolicamente, olhando para os bicos dos pés:

--Grande homem, mas pobre diabo.

FIM DO LAPSO.

ULTIMO CAPITULO

Ha entre os suicidas um excellente costume, que é não deixar a vida sem dizer o motivo e as circumstancias que os armam contra ella. Os que se vão calados, raramente é por orgulho; na maior parte dos casos ou não têm tempo, ou não sabem escrever. Costume excellente: em primeiro logar, é um acto de cortezia, não sendo este mundo um baile, de onde um homem possa esgueirar-se antes do cotilhão; em segundo logar, a imprensa recolhe e divulga os bilhetes posthumos, e o morto vive ainda um dia ou dois, ás vezes uma semana mais.

Pois apezar da excellencia do costume, era meu proposito sahir calado. A razão é que, tendo sido caipora em minha vida toda, temia que qualquer palavra ultima pudesse levar-me alguma complicação á eternidade. Mas um incidente de ha pouco trocou-me o plano, e retiro-me deixando, não só um escripto, mas dous. O primeiro é o meu testamento, que acabo de compor e fechar, e está aqui em cima da mesa, ao pé da pistola carregada. O segundo é este resumo de autobiographia. E note-se que não dou o segundo escripto senão porque é preciso esclarecer o primeiro, que pareceria absurdo ou inintelligivel, sem algum commentario. Disponho alli que, vendidos os meus poucos livros, roupa de uso e um casebre que possuo em Catumby, alugado a um carpinteiro, seja o producto empregado em sapatos e botas novas, que se distribuirão por um modo indicado, e confesso que extraordinario. Não explicada a razão de um tal legado, arrisco a validade do testamento. Ora, a razão do legado brotou do incidente de ha pouco, e o incidente liga-se á minha vida inteira.

Chamo-me Mathias Deodato de Castro e Mello, filho do sargento-mór Salvador Deodato de Castro e Mello e de D. Maria da Soledade Pereira, ambos fallecidos. Sou natural de Corumbá, Matto Grosso; nasci em 3 de março de 1820; tenho portanto, cincoenta e um annos, hoje, 3 de março de 1871.

Repito, sou um grande caipora, o mais caipora de todos os homens. Ha uma locução proverbial, que eu litteralmente realisei. Era em Corumbá; tinha sete para oito annos, embalava-me na rede, á hora da sesta, em um quartinho de telha vã; a rede, ou por estar frouxa a argola, ou por impulso demasiado violento da minha parte, desprendeu-se de uma das paredes, e deu commigo no chão. Cahi de costas; mas, assim mesmo de costas, quebrei o nariz, porque um pedaço de telha, mal seguro, que só esperava occasião de vir abaixo, aproveitou a commoção e cahiu tambem. O ferimento não foi grave nem longo; tanto que meu pai caçoou muito commigo. O conego Brito, de tarde, ao ir tomar guaraná comnosco, soube do episodio e citou o rifão, dizendo que era eu o primeiro que cumpria exactamente este absurdo de cahir de costas e quebrar o nariz. Nem um nem outro imaginava que o caso era um simples inicio de cousas futuras.

Não me demoro em outros revezes da infancia e da juventude. Quero morrer ao meio-dia, e passa de onze horas. Além d'isso, mandei fóra o rapaz que me serve, e elle póde vir mais cedo, e interromper-me a execução do projecto mortal. Tivesse eu tempo, e contaria pelo miudo alguns episodios doloridos, entre elles, o de umas cacetadas que apanhei por engano. Tratava-se do rival de um amigo meu, rival de amores e naturalmente rival derrubado. O meu amigo e a dama indignaram-se com as pancadas quando souberam da aleivosia do outro; mas applaudiram secretamente a illusão. Tambem não fallo de alguns achaques que padeci. Corro ao ponto em que meu pai, tendo sido pobre toda a vida, morreu pobrissimo, e minha mãi não lhe sobreviveu dois mezes. O conego Brito, que acabava de ser eleito deputado, propoz então trazer-me ao Rio de Janeiro, e veiu commigo, com a idéa de fazer-me padre; mas cinco dias depois de chegar morreu. Vão vendo a acção constante do caiporismo.

Fiquei só, sem amigos, nem recursos, com dezeseis annos de idade. Um conego da Capella Imperial lembrou-se de fazer-me entrar alli de sachristão; mas, posto que tivesse ajudado muita missa em Matto Grosso, e possuisse algumas lettras latinas, não fui admittido, por falta de vaga. Outras pessoas induziram-me então a estudar direito, e confesso que aceitei com resolução. Tive até alguns auxilios, a principio; faltando-me elles depois, lutei por mim mesmo; emfim alcancei a carta de bacharel. Não me digam que isto foi uma excepção na minha vida caipora, porque o diploma academico levou-me justamente a cousas mui graves; mas, como o destino tinha de flagellar-me, qualquer que fosse a minha profissão, não attribuo nenhum influxo especial ao grau juridico. Obtive-o com muito prazer, isso é verdade; a idade moça, e uma certa superstição de melhora, faziam-me do pergaminho uma chave de diamante que iria abrir todas as portas da fortuna.

E, para principiar, a carta de bacharel não me encheu sósinha as algibeiras. Não, senhor, tinha ao lado d'ella umas outras, dez ou quinze, fructo de um namoro travado no Rio de Janeiro, pela semana santa de 1842, com uma viuva mais velha do que eu sete ou oito annos, mas ardente, lepida e abastada. Morava com um irmão cégo, na rua do Conde; não posso dar outras indicações. Nenhum dos meus amigos ignorava este namoro; dous d'elles até liam as cartas, que eu lhes mostrava, com o pretexto de admirar o estylo elegante da viuva, mas realmente para que vissem as finas cousas que ella me dizia. Na opinião de todos, o nosso casamento era certo, mais que certo; a viuva não esperava senão que eu concluisse os estudos. Um d'esses amigos, quando eu voltei graduado, deu-me os parabens, accentuando a sua convicção com esta phrase definitiva:

--O teu casamento é um dogma.

E, rindo, perguntou-me se por conta do dogma, poderia arranjar-lhe cincoenta mil réis; era para uma urgente precisão. Não tinha commigo os cincoenta mil réis; mas o _dogma_ repercutia ainda tão docemente no meu coração, que não descancei em todo esse dia, até arranjar-lh'os; fui leval-os eu mesmo, enthusiasmado; elle recebeu-os cheio de gratidão. Seis mezes depois foi elle quem casou com a viuva.

Não digo tudo o que então padeci; digo só que o meu primeiro impulso foi dar um tiro em ambos; e, mentalmente, cheguei a fazel-o; cheguei a vel-os, moribundos, arquejantes, pedirem-me perdão. Vingança hypothetica; na realidade, não fiz nada. Elles casaram-se, e foram ver do alto da Tijuca a ascenção da lua de mel. Eu fiquei relendo as cartas da viuva. «Deus, que me ouve (dizia uma d'ellas), sabe que o meu amor é eterno, e que eu sou tua, eternamente tua...» E, no meu atordoamento, blasphemava commigo:--Deus é um grande invejoso; não quer outra eternidade ao pé d'elle, e por isso desmentiu a viuva:--nem outro dogma além do catholico, e por isso desmentiu o meu amigo. Era assim que eu explicava a perda da namorada e dos cincoenta mil réis.

Deixei a capital, e fui advogar na roça, mas por pouco tempo. O caiporismo foi commigo, na garupa do burro, e onde eu me apeei, apeou-se elle tambem. Vi-lhe o dedo em tudo, nas demandas que não vinham, nas que vinham e valiam pouco ou nada, e nas que, valendo alguma cousa, eram invariavelmente perdidas. Além de que os constituintes vencedores são em geral mais gratos que os outros, a successão de derrotas foi arredando de mim os demandistas. No fim de algum tempo, anno e meio, voltei á côrte, e estabeleci-me com um antigo companheiro de anno: o Gonçalves.

Este Gonçalves era o espirito menos juridico, menos apto para entestar com as questões de direito. Verdadeiramente era um pulha. Comparemos a vida mental a uma casa elegante; o Gonçalves não aturava dez minutos a conversa do salão, esgueirava-se, descia á copa e ia palestrar com os creados. Mas compensava essa qualidade inferior com certa lucidez, com a presteza de comprehensão, nos assumptos menos arduos ou menos complexos, com a facilidade de expôr, e, o que não era pouco para um pobre diabo batido da fortuna, com uma alegria quasi sem intermittencias. Nos primeiros tempos, como as demandas não vinham, matavamos as horas com excellente palestra, animada e viva, em que a melhor parte era d'elle, ou fallassemos de politica, ou de mulheres, assumpto que lhe era muito particular.

Mas as demandas vieram vindo; entre ellas uma questão de hypotheca. Tratava-se da casa de um empregado da alfandega, Themistocles de Sá Botelho, que não tinha outros bens, e queria salvar a propriedade. Tomei conta do negocio. O Themistocles ficou encantado commigo: e, duas semanas depois, como eu lhe dissesse que não era casado, declarou-me rindo que não queria nada com solteirões. Disse-me outras cousas e convidou-me a jantar no domingo proximo. Fui; namorei-me da filha d'elle, D. Rufina, moça de dezenove annos, bem bonita, embora um pouco acanhada e meia morta. Talvez seja a educação, pensei eu. Casámo-nos poucos mezes depois. Não convidei o caiporismo, é claro; mas na egreja, entre as barbas rapadas e as suiças lustrosas, pareceu-me ver o carão sardonico e o olhar obliquo do meu cruel adversario. Foi por isso que, no acto mesmo de proferir a formula sagrada e definitiva do casamento, estremeci, hesitei, e, emfim, balbuciei a medo o que o padre me dictava...

Estava casado. Rufina não dispunha, é verdade, de certas qualidades brilhantes e elegantes; não seria, por exemplo, e desde logo, uma dona de salão. Tinha, porém, as qualidades caseiras, e eu não queria outras. A vida obscura bastava-me; e, com tanto que ella m'a enchesse, tudo iria bem. Mas esse era justamente o agro da empreza. Rufina (permittam-me esta figuração chromatica) não tinha a alma negra de lady Macbeth, nem a vermelha de Cleopatra, nem a azul de Julieta, nem a alva de Beatriz, mas cinzenta e apagada como a multidão dos seres humanos. Era boa por apathia, fiel sem virtude, amiga sem ternura nem eleição. Um anjo a levaria ao céu, um diabo ao inferno, sem esforço em ambos os casos, e sem que, no primeiro lhe coubesse a ella nenhuma gloria, nem o menor desdouro no segundo. Era a passividade do somnambulo. Não tinha vaidades. O pai armou-me o casamento para ter um genro doutor; ella, não; aceitou-me como aceitaria um sachristão, um magistrado, um general, um empregado publico, um alferes e não por impaciencia de casar, mas por obediencia á familia, e, até certo ponto, para fazer como as outras. Usavam-se maridos; ella queria usar tambem o seu. Nada mais antipathico á minha propria natureza; mas estava casado.