Part 1
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HISTORIAS SEM DATA
OBRAS DO AUTOR
MEMORIAS POSTHUMAS DE BRAZ CUBAS 1 vol. HISTORIAS SEM DATA 1 vol. PAPEIS AVULSOS 1 vol. HELENA 1 vol. YAYÁ GARCIA 1 vol. A MÃO E A LUVA 1 vol. RESURREIÇÃO 1 vol. PHALENAS, poesias 1 vol. AMERICANAS, poesias 1 vol. CHRYSALIDAS, poesias 1 vol. CONTOS FLUMINENSES 1 vol. HISTORIAS DA MEIA NOITE 1 vol. TU SÓ, TU, PURO AMOR 1 vol. OS DEUSES DE CASACA, comedia 1 vol. DESENCANTOS 1 vol. THEATRO 1 vol.
MACHADO DE ASSIS
HISTORIAS SEM DATA
A EGREJA DO DIABO--O LAPSO--ULTIMO CAPITULO CANTIGA DE ESPONSAES--UMA SENHORA SINGULAR OCCURRENCIA--FULANO--CAPITULO DOS CHAPÉOS GALERIA POSTHUMA CONTO ALEXANDRINO--PRIMAS DE SAPUCAIA ANECDOTA PECUNIARIA--A SEGUNDA VIDA--EX-CATHEDRA MANUSCRIPTO DE UM SACRISTÃO AS ACADEMIAS DE SIÃO NOITE DE ALMIRANTE--A SENHORA DO GALVÃO
_RIO DE JANEIRO_ B. L. GARNIER.--LIVREIRO-EDITOR _71--Rua do Ouvidor--77_
1884.
Typ. lith. a vapor, encadernação e livraria LOMBAERTS & C.
INDICE
PAGS. ADVERTENCIA vij A EGREJA DO DIABO 1 O LAPSO 17 ULTIMO CAPITULO 33 CANTIGA DE ESPONSAES 49 SINGULAR OCCURRENCIA 57 GALERIA POSTHUMA 71 CAPITULO DOS CHAPÉOS 87 CONTO ALEXANDRINO 113 PRIMAS DE SAPUCAIA! 131 UMA SENHORA 147 ANECDOTA PECUNIARIA 161 FULANO 181 A SEGUNDA VIDA 191 NOITE DE ALMIRANTE 205 MANUSCRIPTO DE UM SACRISTÃO 219 EX CATHEDRA 235 A SENHORA DO GALVÃO 251 AS ACADEMIAS DE SIÃO 263
ERRATA
Escaparam alguns erros typographicos faceis de emendar; entre outros, estes: _coser-lhe_ por _coser_ (pag. 43); _estar-lhe a contar_ por _estar a contar-lhe_ (pag. 182); _deram a força_ por _lhe deram a força_ (pag. 211); _evidente mais_ por _evidentemente mais_ (pag. 272), etc.
ADVERTENCIA
De todos os contos que aqui se acham ha dous que effectivamente não levam data expressa; os outros a tem, de maneira que este titulo _Historias sem data_ parecerá a alguns inintelligivel, ou vago. Suppondo, porém, que o meu fim é definir estas paginas como tratando, em substancia, de cousas que não são especialmente do dia, ou de um certo dia, penso que o titulo está explicado. E é o peor que lhe póde acontecer, pois o melhor dos titulos é ainda aquelle que não precisa de explicação.
M. de A.
A EGREJA DO DIABO
CAPITULO I
DE UMA IDÉA MIRIFICA
Conta um velho manuscripto benedictino que o Diabo, em certo dia, teve a idéa de fundar uma egreja. Embora os seus lucros fossem continuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde seculos, sem organisação, sem regras, sem canones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obsequios humanos. Nada fixo, nada regular. Porque não teria elle a sua egreja? Uma egreja do Diabo era o meio efficaz de combater as outras religiões, e destruil-as de uma vez.
--Vá, pois, uma egreja, concluiu elle. Escriptura contra Escriptura, breviario contra breviario. Terei a minha missa, com vinho e pão á farta, as minhas predicas, bullas, novenas e todo o demais apparelho ecclesiastico. O meu credo será o nucleo universal dos espiritos, a minha egreja uma tenda de Abrahão. E depois, emquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha egreja será unica; não acharei diante de mim, nem Mahomet, nem Luthero. Ha muitos modos de affirmar; ha só um de negar tudo.
Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto magnifico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para communicar-lhe a idéa, e desafial-o; levantou os olhos, accesos de odio, asperos de vingança, e disse comsigo:--Vamos, é tempo. E rapido, batendo as azas, com tal estrondo que abalou todas as provincias do abysmo, arrancou da sombra para o infinito azul.
CAPITULO II
ENTRE DEUS E DIABO
Deus recolhia um ancião, quando o Diabo chegou ao céu. Os seraphins que engrinaldavam o recem chegado, detiveram-se logo, e o Diabo deixou-se estar á entrada com os olhos no Senhor.
--Que me queres tu? perguntou este.
--Não venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo, mas por todos os Faustos do seculo e dos seculos.
--Explica-te.
--Senhor, a explicação é facil; mas permitti que vos diga: recolhei primeiro esse bom velho; dai-lhe o melhor logar, mandai que as mais afinadas citharas e alaúdes o recebam com os mais divinos córos...
--Sabes o que elle fez? perguntou o Senhor, com os olhos cheios de doçura.
--Não, mas provavelmente é dos ultimos que virão ter comvosco. Não tarda muito que o céu fique semelhante a uma casa vasia, por causa do preço, que é alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma egreja. Estou cançado da minha desorganisação, do meu reinado casual e adventicio. É tempo de obter a victoria final e completa. E então vim dizer-vos isto, com lealdade, para que me não accuseis de dissimulação... Boa idéa, não vos parece?
--Vieste dizel-a, não legitimal-a, advertiu o Senhor.
--Tendes razão, acudiu o Diabo; mas o amor proprio gosta de ouvir o applauso dos mestres. Verdade é que n'este caso seria o applauso de um mestre vencido, e uma tal exigencia... Senhor, desço a terra; vou largar a minha pedra fundamental.
--Vai.
--Quereis que venha annunciar-vos o remate da obra?
--Não é preciso; basta que me digas desde já por que motivo, cançado ha tanto da tua desorganisação, só agora pensaste em fundar uma egreja?
Diabo sorriu com certo ar de escarneo e triumpho. Tinha alguma idéa cruel no espirito, algum reparo picante no alforge da memoria, qualquer cousa que, n'esse breve instante da eternidade, o fazia crer superior ao proprio Deus. Mas recolheu o riso, e disse:
--Só agora conclui uma observação, começada desde alguns seculos, e é que as virtudes, filhas do céu, são em grande numero comparaveis a rainhas, cujo manto de veludo rematasse em franjas de algodão. Ora, eu proponho-me a puxal-as por essa franja, e trazel-as todas para minha egreja; atraz d'ellas virão as de seda pura...
--Velho rhetorico! murmurou o Senhor.
--Olhai bem. Muitos corpos que ajoelham aos vossos pés, nos templos do mundo, trazem as anquinhas da sala e da rua, os rostos tingem-se do mesmo pó, os lenços cheiram aos mesmos cheiros, as pupillas centelham de curiosidade e devoção entre o livro santo e o bigode do peccado. Vêde o ardor,--a indifferença, ao menos,--com que esse cavalheiro põe em lettras publicas os beneficios que liberalmente espalha,--ou sejam roupas ou botas, ou moedas, ou quaesquer d'essas materias necessarias á vida... Mas não quero parecer que me detenho em cousas miudas; não fallo, por exemplo, da placidez com que este juiz de irmandade, nas procissões, carrega piedosamente ao peito o vosso amor e uma commenda... Vou a negocios mais altos...
N'isto os seraphins agitaram as azas pesadas de fastio e somno. Miguel e Gabriel fitaram no Senhor um olhar de supplica. Deus interrompeu o Diabo.
--Tu és vulgar, que é o peior que póde acontecer a um espirito da tua especie, replicou-lhe o Senhor. Tudo o que dizes ou digas está dito e redito pelos moralistas do mundo. É assumpto gasto; e se não tens força, nem originalidade para renovar um assumpto gasto, melhor é que te cales e te retires. Olha; todas as minhas legiões mostram no rosto os signaes vivos do tedio que lhes dás. Esse mesmo ancião parece enjoado; e sabes tu o que elle fez?
--Já vos disse que não.
--Depois de uma vida honesta, teve uma morte sublime. Colhido em um naufragio, ia salvar-se n'uma taboa; mas viu um casal de noivos, na flor da vida, que se debatiam já com a morte; deu-lhes a taboa de salvação e mergulhou na eternidade. Nenhum publico: a agua e o céu por cima. Onde achas ahi a franja de algodão?
--Senhor, eu sou, como sabeis, o espirito que nega.
--Negas esta morte?
--Nego tudo. A misanthropia póde tomar aspecto de caridade; deixar a vida aos outros, para um misanthropo, é realmente aborrecel-os...
--Rhetorico e subtil! exclamou o Senhor. Vai, vai, funda a tua egreja; chama todas as virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os homens... Mas, vai! vai!
Debalde o Diabo tentou proferir alguma coisa mais. Deus impuzera-lhe silencio; os seraphins, a um signal divino, encheram o céu com as harmonias de seus canticos. O Diabo sentiu, de repente, que se achava no ar; dobrou as azas, e, como um raio, caiu na terra.
CAPITULO III
A BOA NOVA AOS HOMENS
Uma vez na terra, o Diabo não perdeu um minuto. Deu-se pressa em enfiar a cogula benedictina, como habito de boa fama, e entrou a espalhar uma doutrina nova e extraordinaria, com uma voz que reboava nas entranhas do seculo. Elle promettia aos seus discipulos e fieis as delicias da terra, todas as glorias, os deleites mais intimos. Confessava que era o Diabo; mas confessava-o para rectificar a noção que os homens tinham d'elle e desmentir as historias que a seu respeito contavam as velhas beatas.
--Sim, sou o Diabo, repetia elle; não o Diabo das noites sulphureas, dos contos somniferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e unico, o proprio genio da natureza, a que se deu aquelle nome para arredal-o do coração dos homens. Vêde-me gentil e airoso. Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos lá: tomai d'aquelle nome, inventado para meu desdouro, fazei d'elle um trophéu e um labaro, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo...
Era assim que fallava, a principio, para excitar o enthusiasmo, espertar os indifferentes, congregar, em summa, as multidões ao pé de si. E ellas vieram; e logo que vieram, o Diabo passou a definir a doutrina. A doutrina era a que podia ser na bocca de um espirito de negação. Isso quanto á substancia, porque, ácerca da fórma, era umas vezes subtil, outras cynica e deslavada.
Clamava elle que as virtudes aceitas deviam ser substituidas por outras, que eram as naturaes e legitimas. A soberba, a luxuria, a preguiça foram rehabilitadas, e assim tambem a avareza, que declarou não ser mais do que a mãi da economia, com a differença que a mãi era robusta, e a filha uma esgalgada. A ira tinha a melhor defeza na existencia de Homero; sem o furor de Achilles, não haveria a _Illiada_: «Musa, canta a colera de Achilles, filho de Peleu...» O mesmo disse da gula, que produziu as melhores paginas de Rabelais, e muitos bons versos de _Hyssope_; virtude tão superior, que ninguem se lembra das batalhas de Lucullo, mas das suas ceias; foi a gula que realmente o fez immortal. Mas, ainda pondo de lado essas razões de ordem litteraria ou historica, para só mostrar o valor intrinseco d'aquella virtude, quem negaria que era muito melhor sentir na bocca e no ventre os bons manjares, em grande cópia, do que os máus boccados, ou a saliva do jejum? Pela sua parte o Diabo promettia substituir a vinha do Senhor, expressão metaphorica, pela vinha do Diabo, locução directa e verdadeira, pois não faltaria nunca aos seus com o fructo das mais bellas cepas do mundo. Quanto á inveja, prégou friamente que era a virtude principal, origem de prosperidades infinitas; virtude preciosa, que chegava a supprir todas as outras, e ao proprio talento.
As turbas corriam atraz d'elle enthusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a grandes golpes de eloquencia, toda a nova ordem de cousas, trocando a noção d'ellas, fazendo amar as perversas e detestar as sãs.
Nada mais curioso, por exemplo, do que a definição que elle dava da fraude. Chamava-lhe o braço esquerdo do homem; o braço direito era a força; e concluia: Muitos homens são canhotos, eis tudo. Ora, elle não exigia que todos fossem canhotos; não era exclusivista. Que uns fossem canhotos, outros dextros; aceitava a todos, menos os que não fossem nada. A demonstração, porém, mais rigorosa e profunda, foi a da venalidade. Um casuista do tempo chegou a confessar que era um monumento de logica. A venalidade, disse o Diabo, era o exercicio de um direito superior a todos os direitos. Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéo, cousas que são tuas por uma razão juridica e legal, mas que, em todo caso, estão fóra de ti, como é que não pódes vender a tua opinião, o teu voto, a tua palavra, a tua fé, cousas que são mais do que tuas, porque são a tua propria consciencia, isto é, tu mesmo? Negal-o é cair no absurdo e no contraditorio. Pois não ha mulheres que vendem os cabellos? não póde um homem vender uma parte do seu sangue para transfundil-o a outro homem anemico? e o sangue e os cabellos, partes physicas, terão um privilegio que se nega ao caracter, á porção moral do homem? Demonstrando assim o principio, o Diabo não se demorou em expôr as vantagens de ordem temporal ou pecuniaria; depois, mostrou ainda que, á vista do preconceito social, conviria dissimular o exercicio de um direito tão legitimo, o que era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a hypocrisia, isto é, merecer duplicadamente.
E descia, e subia, examinava tudo, rectificava tudo. Está claro que combateu o perdão das injurias e outras maximas de brandura e cordialidade. Não prohibiu formalmente a calumnia gratuita, mas induziu a exercel-a mediante retribuição, ou pecuniaria, ou de outra especie; nos casos, porém, em que ella fosse uma expansão imperiosa da força imaginativa, e nada mais, prohibia receber nenhum salario, pois equivalia a fazer pagar a transpiração. Todas as fórmas de respeito foram condemnadas por elle, como elementos possiveis de um certo decoro social e pessoal; salva, todavia, a unica excepção do interesse. Mas essa mesma excepção foi logo eliminada, pela consideração de que o interesse, convertendo o respeito em simples adulação, era este o sentimento applicado e não aquelle.
Para rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a solidariedade humana. Com effeito, o amor do proximo era um obstaculo grave á nova instituição. Elle mostrou que essa regra era uma simples invenção de parasitas e negociantes insolvaveis; não se devia dar ao proximo se não indifferença; em alguns casos, odio ou despreso. Chegou mesmo á demonstração de que a noção de proximo era errada, e citava esta phrase de um padre de Napoles, aquelle fino e lettrado Galliani, que escrevia a uma das marquezas de antigo regimen: «Leve a breca o proximo! Não ha proximo!» A unica hypothese em que elle permittia amar ao proximo era quando se tratasse de amar as damas alheias, porque essa especie de amor tinha a particularidade de não ser outra cousa mais do que o amor do individuo a si mesmo. E como alguns discipulos achassem que uma tal explicação, por metaphysica, escapava á comprehensão das turbas, o Diabo recorreu a um apologo:--Cem pessoas tomam acções de um banco, para as operações communs; mas cada accionista não cuida realmente se não nos seus dividendos: é o que acontece aos adulteros. Este apologo foi incluido no livro da sabedoria.
CAPITULO IV
FRANJAS E FRANJAS
A previsão do Diabo verificou-se. Todas as virtudes cuja capa de velludo acabava em franja de algodão, uma vez puxadas pela franja, deitavam a capa ás ortigas e vinham alistar-se na egreja nova. Atraz foram chegando as outras, e o tempo abençoou a instituição. A egreja fundára-se; a doutrina propagava-se; não havia uma região do globo que não a conhecesse, uma lingua que não a traduzisse, uma que não a amasse. Diabo alçou brados de triumpho.
Um dia, porém, longos annos depois notou o Diabo que muitos dos seus fieis, ás escondidas, praticavam as antigas virtudes. Não as praticavam todas, nem integralmente, mas algumas, por partes, e, como digo, ás occultas. Certos glotões recolhiam-se a comer frugalmente tres ou quatro vezes por anno, justamente em dias de preceito catholico; muitos avaros davam esmolas, á noite, ou nas ruas mal povoadas; varios dilapidadores do erario restituam-lhe pequenas quantias; os fraudulentos fallavam, uma ou outra vez, com o coração nas mãos, mas com o mesmo rosto dissimulado, para fazer crer que estavam embaçando os outros.
A descoberta assombrou o Diabo. Metteu-se a conhecer mais directamente e mal, e viu que lavrava muito. Alguns casos eram até incomprehensiveis, como o de um droguista do Levante, que envenenára longamente uma geração inteira, e, com o producto das drogas soccorria os filhos das victimas. No Cairo achou um perfeito ladrão de camellos, que tapava a cara para ir ás mesquitas. O Diabo deu com elle á entrada de uma, lançou-lhe em rosto o procedimento; elle negou, dizendo que ia alli roubar o camello de um drogman; roubou-o, com effeito, a vista do Diabo e foi dal-o de presente a um muezzin, que rezou por elle a Allah. O manuscripto benedictino cita muitas outras descobertas extraordinarias, entre ellas esta, que desorientou completamente o Diabo. Um dos seus melhores apostolos era um calabrez, varão de cincoenta annos, insigne falsificador de documentos, que possuia uma bella casa na campanha romana, telus, estatuas, bibliotheca, etc. Era a fraude em pessoa; chegava a metter-se na cama para não confessar que estava são. Pois esse homem, não só não furtava ao jogo, como ainda dava gratificações aos criados. Tendo angariado a amizade de um conego, ia todas as semanas confessar-se com elle, n'uma capella solitaria; e, comquanto não lhe desvendasse nenhuma das suas acções secretas, benzia-se duas vezes, ao ajoelhar-se, e ao levantar-se. Diabo mal póde crer tamanha aleivosia. Mas não havia duvidar; o caso era verdadeiro.
Não se deteve um instante. O pasmo não lhe deu tempo de reflectir, comparar e concluir do expectaculo presente alguma cousa analoga ao passado. Voou de novo ao céu, tremulo de raiva, ancioso de conhecer a causa secreta de tão singular phenomeno. Deus ouviu-o com infinita complacencia; não o interrompeu, não o reprehendeu, não triumphou, sequer, d'aquella agonia satanica. Poz os olhos n'elle, e disse-lhe:
Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? é a eterna contradicção humana.
FIM DA EGREJA DO DIABO.
O LAPSO
E vieram todos os officiaes... e o resto do povo, desde o pequeno até ao grande.
E disseram ao propheta Jeremias: Seja aceita a nossa supplica na tua presença.
JEREM. XLII, 1, 2.
Não me perguntem pela familia do Dr. Jeremias Halma, nem o que e que elle veiu fazer ao Rio de Janeiro, n'aquelle anno de 1768, governando o Conde de Azambuja, que a principio se disse o mandára buscar; esta versão durou pouco. Veiu, ficou e morreu com o seculo. Posso affirmar que era medico e hollandez. Viajára muito, sabia toda a chimica do tempo, e mais alguma; fallava correntemente cinco ou seis linguas vivas e duas mortas. Era tão universal e inventivo, que dotou a poesia malaia com um novo metro, e engendrou uma theoria da formação dos diamantes. Não conto os melhoramentos therapeuticos, e outras muitas cousas, que o recommendam á nossa admiração. Tudo isso, sem ser casmurro, nem orgulhoso. Ao contrario, a vida e a pessoa d'elle eram como a casa que um patricio lhe arranjou na rua do Piolho, casa singelissima, onde elle morreu pelo natal de 1799. Sim, o Dr. Jeremias era simples, lhano, modesto, tão modesto que... Mas isto seria transtornar a ordem do conto. Vamos ao principio.
No fim da rua do Ouvidor, que ainda não era a via dolorosa dos maridos pobres, perto da antiga rua dos Latoeiros, morava por esse tempo um tal Thomé Gonçalves, homem abastado, e, segundo algumas inducções, vereador da camara. Vereador ou não, este Thomé Gonçalves não tinha só dinheiro, tinha tambem dividas, não poucas, nem todas recentes. O descuido podia explicar os seus atrazos, a velhacaria tambem; mas quem opinasse por uma ou outra dessas interpretações, mostraria que não sabe ler uma narração grave. Realmente, não valia a pena dar-se ninguem a tarefa de escrever algumas laudas de papel para dizer que houve, nos fins do seculo passado, um homem que, por velhacaria ou deleixo, deixava de pagar aos credores. A tradição affirma que este nosso concidadão era exacto em todas as cousas, pontual nas obrigações mais vulgares, severo e até meticuloso. A verdade é que as ordens terceiras e irmandades que tinham a fortuna de o possuir (era irmão-remido de muitas, desde o tempo em que usava pagar), não lhe regateavam provas de affeição e apreço: e, se é certo que foi vereador, como tudo faz crer, póde-se jurar que o foi a contento da cidade.
Mas então...? La vou; nem é outra a materia do escripto, senão esse curioso phenomeno, cuja causa, se a conhecemos, foi porque a descobriu o Dr. Jeremias. Em uma tarde de procissão, Thomé Gonçalves, trajado com o habito de uma ordem terceira, ia segurando uma das varas do pallio, e caminhando com a placidez de um homem que não faz mal a ninguem. Nas janellas e ruas estavam muitos dos seus credores; dois, entretanto, na esquina do becco das Cancellas (a procissão descia a rua do Hospicio), depois de ajoelhados, resados, persignados e levantados, perguntaram um ao outro, se não era tempo de recorrer á justiça.
--Que é que me póde acontecer? dizia um d'elles. Se brigar commigo, melhor; não me levará mais nada de graça. Não brigando, não lhe posso negar o que me pedir, e na esperança de receber os atrasados, vou fiando... Não, senhor; não póde continuar assim.
--Pela minha parte, acudiu o outro, se ainda não fiz nada, é por causa da minha dona, que é medrosa, e entende que não devo brigar com pessoa tão importante... Mas eu como ou bebo da importancia dos outros? E as minhas cabelleiras?
Este era um cabelleireiro da rua da Valla defronte da Sé, que vendera ao Thomé Gonçalves dez cabelleiras, em cinco annos, sem lhe haver nunca um real. O outro era alfaiate, e ainda maior credor que o primeiro. A procissão passára inteiramente; elles ficaram na esquina, ajustando o plano de mandar os meirinhos ao Thomé Gonçalves. O cabelleireiro advertiu que outros muitos credores só esperavam um signal para cahir em cima do devedor remisso; e o alfaiate lembrou a conveniencia de metter na conjuração o Matta-sapateiro, que vivia desesperado. Só a elle devia o Thomé Gonçalves mais de oitenta mil reis. N'isso estavam, quando por traz d'elles ouviram uma voz, com sotaque estrangeiro, perguntando porque motivo conspiravam contra um homem doente. Voltaram-se, e, dando com o Dr. Jeremias, desbarretaram-se os dois credores, tornados de profunda veneração; em seguida disseram que tanto não era doente o devedor, que lá ia andando na procissão, muito teso, pegando uma das varas do pallio.
--Que tem isso? interrompeu o medico; ninguem lhes diz que está doente dos braços, nem das pernas...
--Do coração? do estomago?
--Nem coração, nem estomago, respondeu o Dr. Jeremias. E continuou, com muita doçura, que se tratava de negocios altamente especulativos, que não podia dizer alli, na rua, nem sabia mesmo se elles chegariam a entendel-o. Se eu tiver de pentear uma cabelleira ou talhar um calção--accrescentou para os não affligir,--é provavel que não alcance as regras dos seus officios tão uteis, tão necessarios ao Estado... Eh! eh! eh!