Part 3
Felizmente--ah! um felizmente n'este ultimo capitulo de um caipora, é, na verdade, uma anomalia; mas vão lendo, e verão que o adverbio pertence ao estylo, não á vida; é um modo de transição e nada mais. O que vou dizer não altera o que está dito. Vou dizer que as qualidades domesticas de Rufina davam-lhe muito merito. Era modesta; não amava bailes, nem passeios, nem janellas. Vivia comsigo. Não mourejava em casa, nem era preciso; para dar-lhe tudo, trabalhava eu, e os vestidos e chapéus, tudo vinha «das francezas», como então se dizia, em vez de modistas. Rufina, no intervallo das ordens que dava, sentava-se horas e horas, bocejando o espirito, matando o tempo, uma hydra de cem cabeças, que não morria nunca; mas, repito, com todas essas lacunas, era boa dona de casa. Pela minha parte, estava no papel das rãs que queriam um rei; a differença é que, mandando-me Jupiter um cepo, não lhe pedi outro, por que viria a cobra e engolia-me. Viva o cepo! disse commigo. Nem conto estas cousas, senão para mostrar a logica e a constancia do meu destino.
Outro _felizmente_; e este não é só uma transição de phrase. No fim de anno e meio, abotoou no horisonte uma esperança, e, a calcular pela commoção que me deu a noticia, uma esperança suprema e unica. Era o desejado que chegava. Que desejado? um filho. A minha vida mudou logo. Tudo me sorria como um dia de noivado. Preparei-lhe um recebimento regio; comprei-lhe um rico berço, que me custou bastante; era de ebano e marfim, obra acabada; depois, pouco a pouco, fui comprando o enxoval; mandei-lhe coser as mais finas cambraias, as mais quentes flanellas, uma linda touca de renda, comprei-lhe um carrinho, e esperei, esperei, prompto a bailar diante d'elle, como David diante da arca... Ai, caipora! a arca entrou vasia em Jerusalem; o pequeno nasceu morto.
Quem me consolou no mallogro foi o Gonçalves, que devia ser padrinho do pequeno, e era amigo, comensal e confidente nosso. Tem paciencia, disse-me, serei padrinho do que vier. E confortava-me, fallava-me de outras cousas, com ternura de amigo. O tempo fez o resto. O proprio Gonçalves advertiu-me depois que, se o pequeno tinha de ser caipora, como eu dizia que era, melhor foi que nascesse morto.
--E pensas que não? redargui.
Gonçalves sorriu; elle não acreditava no meu caiporismo. Verdade é que não tinha tempo de acreditar em nada; todo era pouco para ser alegre. Afinal, começára a converter-se á advocacia, já arrasoava autos, já minutava petições, já ia ás audiencias, tudo porque era preciso viver, dizia elle. E alegre sempre. Minha mulher achava-lhe muita graça, ria longamente dos ditos d'elle, e das anecdotas, que ás vezes eram picantes demais. Eu, a principio, reprehendia-o em particular, mas acostumei-me a ellas. E depois, quem é que não perdoa as facilidades de um amigo, e de um amigo jovial? Devo dizer que elle mesmo se foi refreando, e d'alli a algum tempo, comecei a achar-lhe muita seriedade. Estás namorado, disse-lhe um dia; e elle, empallidecendo, respondeu que sim, e accrescentou sorrindo, embora frouxamente, que era indispensavel casar tambem. Eu, á mesa, fallei do assumpto.
--Rufina, você sabe que o Gonçalves vai casar?
--É caçoada d'elle, interrompeu vivamente o Gonçalves.
Dei ao diabo a minha indiscrição, e não fallei mais n'isso; nem elle. Cinco mezes depois... A transição é rapida; mas não ha meio de a fazer longa. Cinco mezes depois, adoeceu Rufina, gravemente, e não resistiu oito dias; morreu de uma febre perniciosa.
Cousa singular:--em vida, a nossa divergencia moral trazia a frouxidão dos vinculos, que se sustinham principalmente da necessidade e do costume. A morte, com o seu grande poder espiritual, mudou tudo; Rufina appareceu-me como a esposa que desce do Libano, e a divergencia foi substituida pela total fusão dos seres. Peguei da imagem, que enchia a minha alma, e enchi com ella a vida, onde outr'ora occupára tão pouco espaço e por tão pouco tempo. Era um desafio á má estrella; era levantar o edificio da fortuna em pura rocha indestructivel. Comprehendam-me bem; tudo o que até então dependia do mundo exterior, era naturalmente precario: as telhas cahiam com o abalo das redes, as sobrepellizes recusavam-se aos sachristães, os juramentos das viuvas fugiam com os dogmas dos amigos, as demandas vinham tropegas ou iam-se de mergulho; emfim, as crianças nasciam mortas. Mas a imagem de uma defunta era immortal. Com ella podia desafiar o olhar obliquo do mau destino. A felicidade estava nas minhas mãos, presa, vibrando no ar as grandes azas de condor, ao passo que o caiporismo, semelhante a uma coruja, batia as suas na direcção da noite e do silencio...
Um dia, porém, convalescendo de uma febre, deu-me na cabeça inventariar uns objectos da finada e comecei por uma caixinha, que não fora aberta, desde que ella morreu, cinco mezes antes. Achei uma multidão de cousas minusculas, agulhas, linhas, entremeios, um dedal, uma tesoura, uma oração de S. Cypriano, um rol de roupa, outras quinquilharias, e um maço de cartas, atado por uma fita azul. Deslacei a fita e abri as cartas: eram do Gonçalves... Meio dia! Urge acabar; o moleque póde vir, e adeus. Ninguem imagina como o tempo corre nas circumstancias em que estou; os minutos voam como se fossem imperios, e, o que é importante n'esta occasião, as folhas de papel vão com elles.
Não conto os bilhetes brancos, os negocios abortados, as relações interrompidas; menos ainda outros acintes infimos da fortuna. Cansado e aborrecido, entendi que não podia achar a felicidade em parte nenhuma; fui além: acreditei que ella não existia na terra, e preparei-me desde hontem para o grande mergulho na eternidade. Hoje, almocei, fumei um charuto, e debrucei-me á janella. No fim de dez minutos, vi passar um homem bem trajado, fitando a miudo os pés. Conhecia-o de vista; era uma victima de grandes revezes, mas ia risonho, e contemplava os pés, digo mal, os sapatos. Estes eram novos, de verniz, muito bem talhados, e provavelmente cosidos a primor. Elle levantava os olhos para as janellas, para as pessoas, mas tornava-os aos sapatos, como por uma lei de attracção, anterior e superior á vontade. Ia alegre; via-se-lhe no rosto a expressão da bemaventurança. Evidentemente era feliz; e, talvez, não tivesse almoçado; talvez mesmo não levasse um vintém no bolso. Mas ia feliz, e contemplava as botas.
A felicidade será um par de botas? Esse homem, tão esbofeteado pela vida, achou finalmente um riso da fortuna. Nada vale nada. Nenhuma preoccupação d'este seculo, nenhum problema social ou moral, nem as alegrias da geração que começa, nem as tristezas da que termina, miseria ou guerra de classes, crises da arte e da politica, nada vale, para elle, um par de botas. Elle fita-as, elle respira-as, elle reluz com ellas, elle calca com ellas o chão de um globo que lhe pertence. D'ahi o orgulho das attitudes, a rigidez dos passos, e um certo ar de tranquillidade olympica... Sim, a felicidade é um par de botas.
Não é outra a explicação do meu testamento. Os superficiaes dirão que estou doudo, que o delirio do suicida define a clausula do testador; mas eu fallo para os sapientes e para os malfadados. Nem colhe a objecção de que era melhor gastar commigo as botas, que lego aos outros; não, porque seria unico. Distribuindo-as, faço um certo numero de venturosos. Eia, caiporas! que a minha ultima vontade seja cumprida. Boa noite, e calçai-vos!
FIM DO ULTIMO CAPITULO.
CANTIGA DE ESPONSAES
Imagine a leitora que está em 1813, na egreja do Carmo, ouvindo uma daquellas boas festas antigas, que eram todo o recreio publico e toda a arte musical. Sabem o que é uma missa cantada; podem imaginar o que seria uma missa cantada daquelles annos remotos. Não lhe chamo a attenção para os padres e os sacristães, nem para o sermão, nem para os olhos das moças cariocas, que já eram bonitos nesse tempo, nem para as mantilhas das senhoras graves, os calções, as cabelleiras, as sanefas, as luzes, os incensos, nada. Não fallo sequer da orchestra, que é excellente; limito-me a mostrar-lhes uma cabeça branca, a cabeça desse velho que rege a orchestra, com alma e devoção.
Chama-se Romão Pires; terá sessenta annos, não menos, nasceu no Vallongo, ou por esses lados. É bom musico e bom homem; todos os musicos gostam delle. Mestre Romão é o nome familiar; e dizer familiar e publico era a mesma cousa em tal materia e naquelle tempo. «Quem rege a missa é mestre Romão,»--equivalia a esta outra forma de annuncio, annos depois: «Entra em scena o actor João Caetano»;--ou então: «O actor Martinho cantará uma de suas melhores arias». Era o tempero certo, o chamariz delicado e popular. Mestre Romão rege a festa! Quem não conhecia mestre Romão, com o seu ar circumspecto, olhos no chão, riso triste, e passo demorado? Tudo isso desapparecia á frente da orchestra; então a vida derramava-se por todo o corpo e todos os gestos do mestre; o olhar accendia-se, o riso illuminava-se: era outro. Não que a missa fosse delle; esta, por exemplo, que elle rege agora no Carmo é de José Mauricio; mas elle rege-a com o mesmo amor que empregaria, se a missa fosse sua.
Acabou a festa; é como se acabasse um clarão intenso, e deixasse o rosto apenas allumiado da luz ordinaria. Eil-o que desce do côro, apoiado na bengala; vae á sacristia beijar a mão aos padres e aceita um logar á mesa do jantar. Tudo isso indifferente e calado. Jantou, saiu, caminhou para a rua da Mãi dos Homens, onde reside, com um preto velho, pae José, que é a sua verdadeira mãe, e que neste momento conversa com uma visinha.
--Mestre Romão lá vem, pae José, disse a visinha.
--Eh! eh! adeus, sinhá, até logo.
Pae José deu um salto, entrou em casa, e esperou o senhor, que d'ahi a pouco entrava com o mesmo ar do costume. A casa não era rica naturalmente; nem alegre. Não tinha o menor vestigio de mulher, velha ou moça, nem passarinhos que cantassem, nem flores, nem cores vivas ou jocundas. Casa sombria e nua. O mais alegre era um cravo, onde o mestre Romão tocava algumas vezes, estudando. Sobre uma cadeira, ao pé, alguns papeis de musica; nenhuma d'elle...
Ah! se mestre Romão podesse seria um grande compositor. Parece que ha duas sortes de vocação, as que tem lingua e as que a não tem. As primeiras realisam-se; as ultimas representam uma luta constante e esteril entre o impulso interior e a ausencia de um modo de communicação com os homens. Romão era d'estas. Tinha a vocação intima da musica; trazia dentro de si muitas operas e missas, um mundo de harmonias novas e originaes, que não alcançava exprimir e pôr no papel. Esta era a causa unica da tristeza de mestre Romão. Naturalmente o vulgo não atinava com ella; uns diziam isto, outros aquillo: doença, falta de dinheiro, algum desgosto antigo; mas a verdade é esta:--a causa da melancholia de mestre Romão era não poder compor, não possuir o meio de traduzir o que sentia. Não é que não rabiscasse muito papel e não interrogasse o cravo, durante horas; mas tudo lhe sahia informe, sem idéa nem harmonia. Nos ultimos tempos tinha até vergonha da visinhança, e não tentava mais nada.
E, entretanto, se pudesse, acabaria ao menos uma certa peça, um canto esponsalicio, começado tres dias depois de casado, em 1779. A mulher, que tinha então vinte e um annos, e morreu com vinte e tres, não era muito bonita, nem pouco, mas extremamente sympathica, e amava-o tanto como elle a ella. Tres dias depois de casado, mestre Romão sentiu em si alguma cousa parecida com inspiração. Ideou então o canto esponsalicio, e quiz compol-o; mas a inspiração não pode sahir. Como um passaro que acaba de ser preso, e forceja por transpor as paredes da gaiola, abaixo, acima, impaciente, aterrado, assim batia a inspiração do nosso musico, encerrada n'elle sem poder sair, sem achar uma porta, nada. Algumas notas chegaram a ligar-se; elle escreveu-as; obra de uma folha de papel, não mais. Teimou no dia seguinte, dez dias depois, vinte vezes durante o tempo de casado. Quando a mulher morreu, elle releu essas primeiras notas conjugaes, e ficou ainda mais triste, por não ter podido fixar no papel a sensação da felicidade extincta.
--Pae José, disse elle ao entrar, sinto-me hoje adoentado.
--Sinhô comeu alguma cousa que fez mal...
--Não; já de manhã não estava bom. Vae á botica...
O boticario mandou alguma cousa, que elle tomou á noite; no dia seguinte mestre Romão não se sentia melhor. É preciso dizer que elle padecia do coração:--molestia grave e chronica. Pae José ficou atterrado, quando viu que o incommodo não cedera ao remedio, nem ao repouso, e quiz chamar o medico.
--Para que? disse o mestre. Isto passa.
O dia não acabou peor; e a noite supportou-a elle bem, não assim o preto, que mal pôde dormir duas horas. A visinhança, apenas soube do incommodo, não quiz outro motivo de palestra; os que entretinham relações com o mestre foram visital-o. E diziam-lhe que não era nada, que eram macacoas do tempo; um accrescentava graciosamente que era manha, para fugir aos capotes que o boticario lhe dava no gamão,--outro que eram amores. Mestre Romão sorria, mas comsigo mesmo dizia que era o final.
--Está acabado, pensava elle.
Um dia de manhã, cinco depois da festa, o medico achou-o realmente mal; e foi isso o que elle lhe viu na physionomia por traz das palavras enganadoras:--Isto não é nada; é preciso não pensar em musicas...
Em musicas! justamente esta palavra do medico deu ao mestre um pensamento. Logo que ficou só, com o escravo, abriu a gaveta onde guardava desde 1779 o canto esponsalicio começado. Releu essas notas arrancadas a custo, e não concluidas. E então teve uma idéa singular:--rematar a obra agora, fosse como fosse; qualquer cousa servia, uma vez que deixasse um pouco de alma na terra.
--Quem sabe? Em 1880, talvez se toque isto, e se conte que um mestre Romão...
O principio do canto rematava em um certo _lá_; este _lá_, que lhe cahia bem no logar, era a nota derradeiramente escripta. Mestre Romão ordenou que lhe levassem o cravo para a sala do fundo, que dava para o quintal: era-lhe preciso ar. Pela janella viu na janella dos fundos de outra casa dous casadinhos de oito dias, debruçados, com os braços por cima dos hombros, e duas mãos presas. Mestre Romão sorriu com tristeza.
--Aquelles chegam, disse elle, eu saio. Comporei ao menos este canto que elles poderão tocar...
Sentou-se ao cravo; reproduziu as notas e chegou ao _la_...
--_Lá, lá, lá..._
Nada, não passava adeante. E comtudo, elle sabia musica como gente.
--_Lá, dó... lá, mi... lá, si, dó, ré... ré... ré..._
Impossivel! nenhuma inspiração. Não exigia uma peça profundamente original, mas emfim alguma cousa, que não fosse de outro e se ligasse ao pensamento começado. Voltava ao principio, repetia as notas, buscava rehaver um retalho da sensação estincta, lembrava-se da mulher, dos primeiros tempos. Para completar a illusão, deitava os olhos pela janella para o lado dos casadinhos. Estes continuavam alli, com as mãos presas e os braços passados nos hombros um do outro; a differença é que se miravam agora, em vez de olhar para baixo. Mestre Romão, offegante da molestia e de impaciencia, tornava ao cravo; mas a vista do casal não lhe supprira a inspiração, e as notas seguintes não soavam.
--_Lá... lá... lá..._
Desesperado, deixou o cravo, pegou do papel escripto e rasgou-o. Nesse momento, a moça embebida no olhar do marido, começou a cantarolar á toa, inconscientemente, uma cousa nunca antes cantada nem sabida, na qual cousa um certo _lá_ trazia apoz si uma linda phrase musical, justamente a que mestre Romão procurára durante annos sem achar nunca. O mestre ouviu-a com tristeza, abanou a cabeça, e á noite expirou.
FIM DA CANTIGA DOS ESPONSAES.
SINGULAR OCCURRENCIA
--Ha occurencias bem singulares. Está vendo aquella dama que vai entrando na egreja da Cruz? Parou agora no adro para dar uma esmola.
--De preto?
--Justamente; lá vai entrando; entrou.
--Não ponha mais na carta. Esse olhar está dizendo que a dama é uma sua recordação de outro tempo, e não ha de ser de muito tempo, a julgar pelo corpo: é moça de truz.
--Deve ter quarenta e seis annos.
--Ah! conservada. Vamos lá; deixe de olhar para o chão, e conte-me tudo. Está viuva, naturalmente?
--Não.
--Bem; o marido ainda vive. É velho?
--Não é casada.
--Solteira?
--Assim, assim. Deve chamar-se hoje D. Maria de tal. Em 1860 florescia com o nome familiar de Marocas. Não era costureira, nem proprietaria, nem mestra de meninas; vá excluindo as profissões e lá chegará. Morava na rua do Sacramento. Já então era esbelta, e, seguramente, mais linda do que hoje; modos sérios, linguagem limpa. Na rua, com o vestido afogado, escorrido, sem espavento, arrastava a muitos, ainda assim.
--Por exemplo, ao senhor.
--Não, mas ao Andrade, um amigo meu, de vinte e seis annos, meio advogado, meio politico, nascido nas Alagoas, e casado na Bahia, d'onde viera em 1859. Era bonita a mulher d'elle, affectuosa, meiga e resignada; quando os conheci, tinham uma filhinha de dois annos.
--Apezar d'isso, a Marocas...?
--É verdade, dominou-o. Olhe, se não tem pressa conto-lhe uma cousa interessante.
--Diga.
--A primeira vez que elle a encontrou, foi á porta da loja Paula Brito, no Rocio. Estava alli viu a distancia uma mulher bonita, e esperou, já alvoraçado, porque elle tinha em alto grau a paixão das mulheres. Marocas vinha andando, parando e olhando como quem procura alguma casa. Defronte da loja deteve-se um instante; depois, envergonhada e a medo, estendeu um pedacinho de papel ao Andrade, e perguntou-lhe onde ficava o numero alli escripto, Andrade disse-lhe que do outro lado do Rocio, e ensinou-lhe a altura provavel da casa. Ella cortejou com muita graça; elle ficou sem saber o que pensasse da pergunta.
--Como eu estou.
--Nada mais simples: Marocas não sabia ler. Elle não chegou a suspeital-o. Viu-a atravessar o Rocio, que ainda não tinha estatua nem jardim, e ir á casa que buscava, ainda assim perguntando em outras. De noite foi ao Gymnasio, dava-se a _Dama das Camelias_; Marocas estava lá, e, no ultimo acto, chorou como uma criança. Não lhe digo nada; no fim de quinze dias amavam-se loucamente. Marocas despediu todos os seus namorados, e creio que não perdeu pouco; tinha alguns capitalistas bem bons. Ficou só, sosinha, vivendo para o Andrade, não querendo outra affeição, não cogitando de nenhum outro interesse.
--Como a dama das Camelias.
--Justo. Andrade ensinou-lhe a ler. Estou mestre-escola, disse-me elle um dia; e foi então que me contou a anecdota do Rocio. Marocas aprendeu depressa. Comprehende-se; o vexame de não saber, o desejo de conhecer os romances em que elle lhe fallava, e finalmente o gosto de obedecer a um desejo d'elle, de lhe ser agradavel... Não me encobriu nada; contou-me tudo com um riso de gratidão nos olhos, que o senhor não imagina. Eu tinha a confiança de ambos. Jantavamos ás vezes os tres juntos; e... não sei por que negal-o,--algumas vezes os quatro. Não cuide que eram jantares de gente pandega; alegres, mas honestos. Marocas gostava da linguagem afogada, como os vestidos. Pouco a pouco estabeleceu-se intimidade entre nós; ella interrogava-me ácerca da vida do Andrade, da mulher, da filha, dos habitos d'elle, se gostava devéras d'ella, ou se era um capricho, se tivera outros, se era capaz de a esquecer, uma chuva de perguntas, e um receio de o perder, que mostravam a força e a sinceridade da affeição... Um dia, uma festa de S. João, o Andrade acompanhou a familia á Gavea, onde ia assistir a um jantar e um baile; dous dias de ausencia. Eu fui com elles. Marocas, ao despedir-se, recordou a comedia que ouvira algumas semanas antes no Gymnasio--_Janto com minha mãi_--e disse-me que, não tendo familia para passar a festa de S. João, ia fazer como a Sophia Arnoult da comedia, ia jantar com um retrato; mas não seria o da mãi, porque não tinha, e sim do Andrade. Este dito ia-lhe rendendo um beijo; o Andrade chegou a inclinar-se; ella, porém, vendo que eu estava alli, afastou-o delicadamente com a mão.
--Gosto d'esse gesto.
--Elle não gostou menos. Pegou-lhe na cabeça com ambos as mãos, e, paternalmente, pingou-lhe o beijo na testa. Seguimos para a Gavea. De caminho disse-me a respeito da Marocas as maiores finezas, contou-me as ultimas Moleiras de ambos, fallou-me do projecto que tinha de comprar-lhe uma casa em algum arrabalde, logo que pudesse dispôr de dinheiro; e, de passagem, elogiou a modestia da moça, que não queria receber d'elle mais do que o estrictamente necessario. Ha mais do que isso, disse-lhe eu; e contei-lhe uma cousa que sabia, isto é, que cerca de tres semanas antes, a Marocas empenhára algumas joias para pagar uma conta da costureira. Esta noticia abalou-o muito; não juro, mas creio que ficou com os olhos molhados. Em todo caso, depois de cogitar algum tempo, disse-me que definitivamente ia arranjar-lhe uma casa e pôl-a ao abrigo da miseria. Na Gavea ainda fallámos da Marocas, até que as festas acabaram, e nós voltámos. O Andrade deixou a familia em casa, na Lapa, e foi ao escriptorio aviar alguns papeis urgentes. Pouco depois do meio-dia appareceu-lhe um tal Leandro ex-agente de certo advogado a pedir-lhe, como de costume, dois ou tres mil réis. Era um sugeito réles e vadio. Vivia a explorar os amigos do antigo patrão. Andrade deu-lhe tres mil réis, e, como o visse excepcionalmente risonho, perguntou-lhe se tinha visto passarinho verde. O Leandro piscou os olhos e lambeu os beiços: o Andrade, que dava o cavaco por anedoctas eroticas, perguntou-lhe se eram amores. Elle mastigou um pouco, e confessou que sim.
--Olhe; lá vem ella sahindo: não é ella?
--Ella mesma; afastemo-nos da esquina.
--Realmente, deve ter sido muito bonita. Tem um ar de duqueza.
--Não olhou para cá; não olha nunca para os lados. Vai subir pela rua do Ouvidor...
--Sim, senhor. Comprehendo o Andrade.
--Vamos ao caso. O Leandro confessou que tivera na vespera uma fortuna rara, ou antes unica, uma cousa que elle nunca esperara achar, nem merecia mesmo, porque se conhecia e não passava de um pobre diabo. Mas, emfim, os pobres tambem são filhos de Deus. Foi o caso que, na vespera, perto das dez horas da noite, encontrara no Rocio uma dama vestida com simplicidade, vistosa de corpo, e muito embrulhada n'um chale grande. A dama vinha atraz d'elle, e mais depressa; ao passar rentesinha com elle, fitou-lhe muito os olhos, e foi andando de vagar, como quem espera. O pobre diabo imaginou que era engano de pessoa; confessou ao Andrade que, apezar da roupa simples, viu logo que não era cousa para os seus beiços. Foi andando; a mulher, parada, fitou-o outra vez, mas com tal instancia, que elle chegou a atrever-se um pouco; ella atreveu-se o resto... Ah! um anjo! E que casa, que sala rica! Cousa papafina. E depois o desinteresse... «Olhe, accrescentou elle, para V. S. é que era um bom arranjo.» Andrade abanou a cabeça; não lhe cheirava o comborço. Mas o Leandro teimou; era na rua do Sacramento, numero tantos...
--Não me diga isso!
--Imagine como não ficou o Andrade. Elle mesmo não soube o que fez nem o que disse durante os primeiros minutos, nem o que pensou nem o que sentiu. Afinal teve força para perguntar se era verdade o que estava contando; mas o outro advertiu que não tinha nenhuma necessidade de inventar semelhante cousa; vendo, porém, o alvoroço do Andrade, pediu-lhe segredo, dizendo que elle, pela sua parte, era discreto. Parece que ia sahir; Andrade deteve-o, e propôz-lhe um negocio; propôz-lhe ganhar vinte mil réis.--«Prompto!»--«Dou-lhe vinte mil réis, se você for commigo á casa d'essa moça e disser em presença d'ella que é ella mesma.»
--Oh!
--Não defendo o Andrade; a cousa não era bonita; mas a paixão, n'esse caso, céga os melhores homens. Andrade era digno, generoso, sincero; mas o golpe fora tão profundo, e elle amava-a tanto, que não recuou diante de uma tal vingança.
--O outro aceitou?