Part 9
A fazer-se obra por isto, temos que reputar duplicadamente monstruosas, pela _gaucherie_ de suas maneiras e pela crueza de seu animo, as damas da provincia que ainda hoje empregam nos joguinhos de prendas o castigo da férula, com grande risota dos assistentes, e até dos proprios condemnados.
Conta que D. Miguel dava duas recepções por semana, uma aos homens, outra _ás damas_. Estranha que de joelhos lhe beijassem a mão, mas informa que a concorrencia ás recepções era tamanha, que algumas vezes houve conflictos á porta. Esta accusação tambem me não parece capital. As damas e os cavalheiros queriam beijar a mão do senhor D. Miguel, e elle dava-lh'a a beijar. Quem corre por gosto não cansa. É mesmo possivel que o rei alguma vez retribuisse beijo por beijo. Que monstruosidade é esta?!
De D. Miguel infante refere uma aventura vulgarissima com uma franceza da rua _des Vieilles-Étuves_ em Paris. Esta mulher tinha uma vida tão aventurosa quanto escandalosa, e o infante, que não devia ficar extremamente encantado com a boneja, que era feia, pediu-lhe que reduzisse a escripta a autobiographia com que lhe prendera a attenção. A franceza annuiu ao pedido, que o infante provavelmente remunerou, e o autographo foi subtrahido em Vienna aos papeis de D. Miguel, como consta de uma nota. O facto denunciado é vulgarissimo na vida dos principes e dos outros; mas a subtracção de um papel particular, que andava na bagagem de um principe moço, não me parece grandemente abonatoria da seriedade de quem a praticou. D. Miguel, que restituiu á corôa portugueza as joias que usofruiu, não presumia decerto que lhe roubariam as memorias de uma rameira, escriptas por ella mesma, não podendo valorisar-se como joias nem a escriptora nem as memorias.
Refere o opusculo outra aventura do infante D. Miguel em Paris, e esta é mais consentanea á sua indole de principe estouvado e desenvolto.
Deu-se o caso com uma capellista da rua _des Fossés-Saint-Germain_. A franceza era encantadora: _charmante_, diz Mesnard. D. Miguel, não fazendo reparo ou não se temendo de um sujeito que estava á porta, e que era o amante da capellista, quiz, como pretexto para demorar-se, que ella _deitasse a loja abaixo_, que lhe mostrasse muitas das mercadorias guardadas nos armarios. A franceza trepou ao balcão para descer um pacote, e o infante beliscou-a ou palpou-a. A capellista gritou, e o amante sovou D. Miguel, que teve de recolher-se ao leito no _Hotel Meurice_, onde se havia hospedado.
Isto sim, isto é verosimil e concorda com outra aventura que D. Miguel praticára, quando já desthronado, em Roma, e que logo contaremos.
Finalmente, o opusculo dá-nos noticia de que D. Miguel, antes de sahir de Vienna para Portugal, convidára officiaes e cortesãs para ceiarem com elle depois do theatro. A ceia, que começára á meia noite, terminou ao amanhecer, mas o infante lembrou, para remate da festa, que se queimasse um _punch_ á franceza. Dito e feito. Um leque de chammas phosphorescentes irradiou da _poncheira_, e á volta, de mãos dadas, n'uma farandola patusca, o infante e os seus commensaes giravam n'uma especie de dança macabra, que tinha alguma coisa de satanica. Terpsichore não regeu tão ordenadamente a chorea, que podesse evitar o tombar a mesa e a _poncheira_. Era natural depois de libações capitosas. O liquido inflammado alastrou no soalho, e pelas frinchas das tabuas cahiu n'um palheiro que ficava nos baixos da casa, incendiando-a.
Duas mulheres e um official pereceram no incendio, e D. Miguel, cujo fato ficára queimado, correu grande risco.
Não serei eu que prodigalise elogios á patuscada e ao _punch_, se bem que honestos varões (já não direi o mesmo das donas concomitantes) teem, com o baptismo do _punch_, sahido excellentes maridos. Mas tambem não lançarei á conta das responsabilidades de D. Miguel o desastre da mesa e a coincidencia de haver palha em baixo quando elles comiam em cima.
Aqui está o que pudémos obter da collaboração de tres homens: o barão de Eschwege, J. B. Mesnard e Barreto Feio.
É pouco, sobretudo se attendermos a que foram tres os informadores, todos elles dispostos a não ter complacencias respeitosas para com D. Miguel de Bragança.
Passarei agora a occupar-me da annunciada aventura, que corre parelhas com a da capellista em Paris. Vamos pois ao encontro de D. Miguel, que se passou a Roma depois da convenção de Evora-Monte, e admiremos-lhe o bom humor com que forçadamente desceu do throno.
Não me demorarei a meditar sobre o texto do celebre folheto D. MIGUEL EM ROMA (Londres, 1844), que pregôa as miserias que aquelle principe soffrêra na cidade do papa. E não me demorarei porque, sob o ponto de vista d'este artigo, tenho aquellas miserias por incompativeis com o desassombro de animo com que o snr. D. Miguel de Bragança refinava em galanterias audaciosas.
Não vou inventar um caso, mas unicamente apoiar-me n'uma pagina das NOITES PARISIENSES, de Méry, que, para maior escrupulo, traduzirei quanto possivel acostado ao texto.
Eis-aqui a narrativa do primoroso estylista francez:
«D. Miguel, este Tarquinio o Soberbo, expulso de Lisboa, continua agora em Roma a historia de Lucrecia e Collatino; com a differença de que procede insensatamente, e n'uma igreja! Nero violava as sacerdotizas no recinto do templo de Vesta; Nero deve ser em tudo o patrono de D. Miguel. Parece que o perfume d'um templo ou d'uma igreja é um aphrodisiaco no clima italiano; testemunhas Nero, o sobrinho de Paulo II e D. Miguel.
«Era a 20 de março, domingo da paixão, _vide_ calendario: que paixão dominava D. Miguel? N'esse dia estava elle na tribuna, visinha do tumulo de Paulo II, perto do sarcophago onde dorme essa mulher divina que tanto inglez haveria desposado, se estatuas de marmore podessem desposar-se. D. Miguel, principe catholico, dava pouquissima attenção ao evangelho dominical, e devorava com o olhar madame Aldobrandini Borghese, joven huguenote que exhibia os seus encantos acirrantes aos olhos dos cantores effeminados da capella Sixtina. O papa Gregorio VII officiava sob o baldaquino de bronze, fronteiro ao tumulo de S. Pedro; os peregrinos beijavam o pé de Jupiter Stator, transformado em principe dos apostolos, segundo a metamorphose do raio em chaves; D. Miguel não via senão madame Aldobrandini.
«Ah! não conheceis esta mulher, cujo nome lêdes! Roma inteira se namorou d'ella! Figurai-vos a Venus do museu secreto de Napoles; mas com am pé a mais, cabellos loiros, e uns contornos capazes de fulminarem os Sátyros nos bosques. D. Miguel ardia; escutava o ruge-ruge do setim inglez, e esse _duo_ voluptuoso que canta a luva d'uma mulher quando acaricía as dobras ondulosas do vestido! Oh! que se eu estivesse em Lisboa! dizia D. Miguel em voz baixa e _patois_ portuguez. Á força de contemplar o corpo flexivel da sua encantadora visinha, D. Miguel julgou-se transportado a Lisboa, deixou pender uma das suas reaes mãos até tocar no hombro de madame Aldobrandini.
«—_Mylord!_ exclamou madame Aldobrandini, repellindo o contacto.
«O gonfaloneiro empallideceu, Gregorio VII interrompeu a ceremonia, e o principe Aldobrandini Borghese arrastou D. Miguel para junto do obelisco que Augusto dedicára ao Sol.
«—_Monsieur_, disse o esposo ultrajado, eu descendo em linha recta de Hildebrando, que mandou açoitar os cardeaes francezes Ossat e Duperron, representantes de Henrique IV; descendo de Paulo Borghese, o papa que concluiu esta basilica e, se duvidais, lêde aquella inscripção: _Paulus Borghesius_, etc. Sou pelo menos vosso igual; vinde cruzar a vossa espada com a minha, aqui muito perto, nos pinheiraes de _villa_ Negroni. Vinde!
«D. Miguel respondeu:
«—Sou rei, e ungido do Senhor. Sou assaz bom para vos poupar um sacrilegio e uma excommunhão. Boa tarde.
«Entretanto chegavam o commissario de policia e o cardeal Somaglia, com trinta suissos, vestidos de valetes de oiros.
«—Grande principe e grande rei, disse elle aos dois, é hoje o domingo do perdão. Estendei-vos a mão mutuamente. Sua magestade o rei de Portugal é joven e é preciso que a mocidade passe. Vou contar-vos a historia do sobrinho do pontifice Paulo.
«E os tres interlocutores desceram para a rua de Borgo Nuovo, rindo do sobrinho d'esse grande papa, esquecendo a historia que no momento os interessava; e o principe Aldobrandini convidou D. Miguel a jantar n'essa bella _villa_ que se encontra á esquerda, antes de entrar a porta do Popolo.»
A historia do sobrinho de Paulo II é que eu não contarei, nem que me queimem.
Méry teve menos escrupulos do que eu, e o proprio Paulo II não teve mais quando, sabendo-a, exclamou: _Il faut bien que jeunesse se passe_!
Mas como o livro NUITS PARISIENNES é vulgarissimo, quem quizer que a procure lá.
Eu d'ahi lavo as mãos.
E, por não enfadar a paciencia do leitor, e por evitar algumas memorias de caracter escabrosamento pornographico, não irei mais longe.
VII
MAXIMILIANO EM PORTUGAL
I
As MEMORIAS DE MAXIMILIANO foram pela primeira vez impressas em Vienna, em 1862.
Tiraram-se apenas cincoenta exemplares, destinados pelo archiduque ás pessoas da sua familia, a varios principes estrangeiros, e aos amigos mais intimos.
A idéa de fazer uma edição para o publico acudiu ao espirito de Maximiliano em 1863, pouco tempo antes de lhe ser offerecida a corôa do Mexico. Foi ao barão Münch-Bellinghausen, honrosamente conhecido na litteratura allemã pelo pseudonymo de Frederico Halm, que o archiduque confiou o trabalho da edição definitiva das suas MEMORIAS, que principiaram a ser impressas em Leipzig.
No Mexico, apesar das incessantes attribulações que dolorosamente lhe preoccupavam o espirito, Maximiliano reviu ainda algumas provas, indicou correcções especialmente motivadas pelas circumstancias politicas, que tinham variado desde 1851. Mas a tragica morte do imperador do Mexico roubaria á publicidade as suas MEMORIAS, se o imperador Francisco José, por um terno movimento de piedade fraternal, não tivesse dado ordem para que se concluisse a impressão.
A obra, em allemão, consta de sete volumes e intitula-se AUS MEINEM LEBEN. REISESKIZZEN. APHORISMEN. GEDICHTE. (Recordações da minha vida. Impressões de viagem. Aphorismos. Poesias).
O ultimo volume comprehende as poesias escolhidas.
N'esta edição definitiva não foi porém incluida a _Viagem á Grecia_, que em 1868 sahiu impressa em Leipzig.
Eu vou servir-me da traducção das MEMORIAS, unica traducção franceza authorisada, feita por Jules Gaillard, Paris, 1868.
Consta de dois volumes. O primeiro comprehende impressões de viagem em Italia, Hespanha, Lisboa e ilha da Madeira; o segundo,—na Algeria, Albania, além do Equador, Bahia, Matto-Virgem, e os _Aphorismos_.
Foi em julho de 1851 que Maximiliano sahiu da bahia de Trieste, a bordo da fragata _Novara_, para uma viagem de longo curso, seu ardente desejo. A mesma fragata o conduziu ao Mexico, quando já imperador. É notavel a coincidencia.
Jules Gaillard não traduziu integralmente as MEMORIAS DE MAXIMILIANO. Fez um apanhado do que lhe pareceu mais proprio a interessar o leitor francez, a caracterisar o espirito e imaginação do author ou a tornar conhecidas as suas relações com as côrtes estrangeiras.
Portanto temos que contentar-nos, relativamente a Portugal, com as impressões que a Jules Gaillard aprouve traduzir; mas reputamol-as bastantes a darem uma idéa precisa do modo de sentir e pensar de Maximiliano a nosso respeito.
Começa o archiduque recordando o proverbio _Quem não viu Lisboa não viu coisa boa_, com que a tradição celebra as bellezas de Lisboa, emparelhando a capital portugueza com as mais formosas cidades do mundo, Constantinopla, Stockolmo, Napoles e Rio de Janeiro.
Maximiliano não conhecia a lenda germanica, que Ferdinand Denis citou, de um cavalheiro que em Jerusalem quiz vêr n'um espelho magico a mais bella cidade da Europa, e viu Lisboa; se conhecesse, tel-a-ia citado conjuntamente com o proverbio para tornar ainda mais frisante a impressão não inteiramente agradavel que Lisboa lhe causou.
O archiduque descreve Lisboa, vista do Tejo, como uma agglomeração de casas sem o caracteristico de edificios distinctos e originaes, e sem o pittoresco que resulta da harmonia da perspectiva. Lamenta a falta de uma floresta onde a vista possa repousar, e acha que o ceu e a agua não possuem o colorido quente e brilhante dos paizes meridionaes.
«Não se vêem nem palmeiras, nem cyprestes, tudo é frio e monotono como em certas regiões da Allemanha; cidade por cidade, Praga é muito mais pittoresca. A _Outra banda_ é a unica parte que resalta verdadeiramente bella, ainda que sem a grandeza precisa para que a impressão que produz aproveite ao conjunto.»
Ora Maximiliano veio a Lisboa em 1852, e é certo que no decurso de 37 annos a cidade tem tido um grande desenvolvimento material, mas o aspecto da casaria, disposta caprichosamente ao sabor das ondulações do terreno, quer-nos parecer de um bello effeito pittoresco, de uma variedade de perspectiva encantadora. É tambem certo que falta aos edificios de Lisboa a originalidade bysantina, a magnificencia oriental de Constantinopla, das suas mesquitas, minaretos, bazares e _caravansérails_, que se debruçam sobre as aguas do Bosphoro, produzindo uma impressão surprehendente, tanto quanto pela photographia se póde avaliar. Mas os edificios de Lisboa, se não teem uma architectura typica como os de Constantinopla, são comtudo, pela variedade da construcção e pela sua disposição irregular, mas graciosa, de um _ensemble_ que alegra os olhos e impressiona agradavelmente o espirito.
A bahia do Tejo poderá ser inferior á vasta toalha de agua do lago Mœlar, mosqueada de mil duzentas e sessenta ilhas, que torna deslumbrante a situação de Stockolmo; poderá ser inferior ao golpho de Napoles, cuja belleza se opulenta com o espectaculo maravilhoso do Vesuvio, quando em erupção; poderá ainda ser inferior á bahia do Rio de Janeiro com as suas grandes massas montanhosas, o _Pão de assucar_, o _Corcovado_, a _Tijuca_, ao fundo a _Serra dos Orgãos_, e com as suas ilhas numerosas e sorridentes. Não discutimos primazias pueris. Mas a bahia do Tejo é de uma belleza ampla e suave, de uma vastidão harmonica e dôce, que seguramente a torna uma das mais bellas do mundo.
O Tejo teve a infelicidade de ser visto por Maximiliano n'um dia brumoso e triste, que prejudicava _os tons quentes e brilhantes dos paizes meridionaes_. Não sei se o ceu de Lisboa é menos azul que o de Napoles, tão gabado; mas o que sei é que, nos dias claros, o nosso firmamento é de uma doçura de saphyra incomparavel, de um azul doirado que satisfaz plenamente as nossas almas de meridionaes.
Maximiliano estranhou a falta de arvoredo, mas, por Deus! não faltam arvores no conjunto panoramico de Lisboa, vista do Tejo. É verdade que é núa e arida a serra de Monsanto, pedregoso o corucheu da serra de Cintra, mas que opulencia de vegetação no pendor e na base d'esta serra famosa! E o arvoredo da Tapada da Ajuda? E o da cêrca das Necessidades? E ainda o do cemiterio dos Prazeres? E as manchas verdes com que tantos jardins particulares cortam a brancura alegre da casaria? Decididamente, o archiduque Maximiliano teve um mau dia de chegada, escuro e melancolico.
Mas o que eu admiro são as suas saudades pelo cypreste, arvore funebre, de que todavia alguns exemplares poderia enxergar no cemiterio dos Prazeres, que aliás menciona. Quanto á palmeira, que é realmente uma bella arvore ornamental, Maximiliano deveria saber que essa arvore é filha dos climas orientaes, e que só exoticamente vegeta nos paizes do occidente.
Depois de poucas linhas consagradas á impressão geral que lhe causára o panorama de Lisboa, Maximiliano principia logo a descrever o interior da cidade.
Quanto ás ruas e ás praças, o testemunho do archiduque é-nos mais favoravel.
Falla de _longas ruas regulares e bellas praças como não ha muitas nas capitaes europêas_. «A _Praça do Commercio_ é verdadeiramente magnifica, o centro da cidade nova; todos os seus edificios são uniformemente construidos em estylo neo-romano, e de uma brancura deslumbrante (_éblouissante_). Muitas largas ruas parallelas confluem perpendicularmente a esta praça: as mais bellas são a _rua Augusta_ e a _rua Aurea_.»
Chamar o centro da _baixa_ ao Terreiro do Paço é uma liberdade de poeta e de... principe, pois que uma e outra coisa era Maximiliano.
Á rua da _Boavista_ chama-lhe de _Buanavista_, e menciona-a talvez pela circumstancia de conduzir ao palacio das Necessidades, onde a rainha D. Maria II habitava.
«N'estas diversas ruas encontram-se vastos edificios, verdadeiramente dignos de uma grande cidade, com estabelecimentos ricamente adornados. Perto das Necessidades as casas tornam-se mais irregulares e menos bem alinhadas: conforme ao gosto portuguez, são pintadas a oleo em tons assanhados (_criards_) verdes ou azues.»
II
Maximiliano refere-se á cidade velha, dizendo que ella fórma um completo contraste com os novos bairros. Classifica-a de _medonho zig-zag que sobe e desce_: as ruas cheias de excrementos de animaes e de ratos mortos. Julga precisa uma grande coragem para habital-as, e ainda para transital-as.
Arde-nos? É pimenta. Mas, diga-se a verdade, devia ser assim em 1852, pela simples razão de que ainda o é em 1889.
Eu não sei bem a que Maximiliano chama a cidade _velha_, se se refere á collina oriental ou occidental, ao Castello ou ao Bairro Alto. Mas, em qualquer dos casos, a apreciação é fundamentada.
Ha trinta e sete annos os despejos faziam-se ainda da janella abaixo, depois da famosa prevenção do _agua-vai_. Ás vezes nem a prevenção se fazia. Uma anecdota de Bocage conta que, achando-se o poeta n'uma situação muito naturalista, recebêra sobre o dorso uma baldada d'agua chilra, que lhe despejára uma criada, a qual elle apostrophou n'este chistoso improviso:
Ó menina do toucado, Já que tem a mão tão certa, Venha buscar a offerta, Que ficou do baptisado.
Mas nas tradições da antiguidade grega anda uma anecdota que prova ter existido entre os héllenos igual costume. Tendo Socrates fugido um dia para a porta da rua, por já não poder aturar sua mulher Xantippe, ella aproveitou a occasião para fazer os despejos e encharcal-o, ao que o philosopho respondeu com a sua habitual serenidade:
Que não era agua de rosa, Mas outra menos cheirosa.
Já expungimos, é certo, o sujo costume do _agua-vai_, mas os ratos mortos e as cabeças de carapau perfumam ainda as ruas de Lisboa.
É porém injusto o archiduque quando diz que os portuguezes nem por todo o ouro do mundo quereriam vêr-se livres d'estas montanhas de immundicie. As narinas nacionaes protestam contra a phrase. Mas é que cêrca de quarenta annos de incessantes reclamações não teem conseguido ainda estabelecer uma policia municipal tão vigilante, que ponha cobro a este abuso. De mais a mais Lisboa é, a respeito dos gatos, uma cidade fetichista. Lisboa adora o gato, não só o gato domestico, mas tambem o gato vadio, _callejero_, como diriam os hespanhoes. Toda a gente se julga constituida na obrigação de alimentar os gatos tunantes atirando-lhes para o meio da rua as cabeças dos carapaus e as miudezas das pescadas. Em Lisboa o gato não faz nada; quem caça os ratos não são os gatos, são as ratoeiras. E ao passo que se dá de comer aos gatos bohemios com uma piedade tradicional, toda a gente compra uma ratoeira para demonstrar a inutilidade do gato alfacinha. Na capital portugueza, o gato é um sultão, que tem o seu serralho de bichanas ao ar livre. Mas se houver uma camara municipal que se proponha arcar com o gato, não haverá _gatos_ eleitoraes que a aguentem, n'uma reconducção, á bocca da urna.
Maximiliano impressionou-se em Lisboa com a abundancia dos papagaios. Parece, diz elle, que estamos n'uma floresta virgem do Brazil. E accrescenta que as parlendas dos papagaios são de ensurdecer a gente. Digam que tambem não é verdade, se são capazes! A abundancia de papagaios é talvez um vestigio do nosso antigo dominio colonial. Dos bons tempos em que fomos os primeiros a pôr o pé na costa d'Africa e no Brazil restam hoje apenas as chronicas e os papagaios. O que é certo é que rara casa não só de Lisboa mas tambem de todo o reino deixa de ter um papagaio, seja pardo ou verde, da Africa ou do Brazil. Cada brazileiro que chega, traz um papagaio para si, e tres papagaios para os parentes. E na tradição popular anda o estribilho dos papagaios, que tem passado de geração em geração com o _Bernal francez_ e a _Silvaninha_:
Papagaio real, Por Portugal, Quem passa? O rei que vai á caça.
No glossario nacional conservam-se algumas phrases attinentes aos papagaios, taes como: _dá cá o pé_, _meu loiro_, etc.; e não contentes com os papagaios authenticos, temos varios papagaios metaphoricos, as tabuas divisorias e pintadas de verde que separam as janellas de sacada; as estrellas de papel que os rapazes lançam ao ar.
Depois da abundancia dos papagaios, estranhou Maximiliano a dos negros e negras, que enxameam em Lisboa, notando que por um contraste, que parece ironico, todos os pretos são caiadores.
Aqui está decerto outro vestigio dos nossos bons tempos coloniaes: os pretos. Elles habituaram-se a Portugal desde o tempo em que vinham como escravos; a tradição estabeleceu-se, e hoje vêm como livres. Que diria Maximiliano se soubesse que os portuguezes antigos, incluindo os nossos primeiros poetas, davam o cavaquinho pelas pretas! Camões, o principe dos poetas portuguezes, arrastou a aza a uma escrava negra, a famosa Luiza Barbara:
Pretidão de amor, Tão dôce a figura, Que a neve lhe jura Que trocára a côr.
Por isso, é certo, lhe fez troça um poeta anonymo da época:
Negrado, negrigorio, negregante, Negrica, negraria, negramento, Negrança, negração e negra dura. . . . . . . . . . . Luiz, retrato negro dos amores Negros seus, aqui jaz; a endurecida Luiza negra o fez, com negras dôres, Mudar em negra sorte a negra vida.
Nos autos dos poetas comicos do seculo XVI, um preto ou uma preta são personagens obrigados. Gil Vicente diz na farça do JUIZ DA BEIRA:
Eu andava namorado De ũa moça pretasinha.
No theatro do Prestes e do Chiado a preta ou o preto apparece sempre com a sua aravia, que era de um effeito seguro.
Na poesia popular ainda hoje vive uma quadra, aliás formosissima, em que o elemento chamita fornece a belleza do pensamento:
Os teus olhos são gentios, São gentios da Guiné. Da Guiné por serem negros, Gentios por não ter fé.
Maximiliano falla de uma especie de equipagem, o _sech_, montada sobre duas rodas enormes, tirada por dois cavallos, muito usada então em Lisboa. Ainda cá temos pouco mais ou menos o _sech_, mas hoje serve principalmente para conduzir os mortos ao cemiterio. É um dos espectaculos mais tristemente irrisorios de Lisboa.
Passa depois a occupar-se dos trajos nacionaes.
«O mundo elegante veste-se á franceza. As mulheres do povo usam lenço branco na cabeça e grandes capotes muito pezados: é uma precaução contra os inconvenientes do clima, porque, em pleno estio abrasador, um frio glacial cae sobre a cidade, e a corrente de ar do Tejo sopra frequentemente asperrima através das ruas.»
Tem razão quanto ao estrangeirismo dos trajos no mundo elegante. Dão-lh'a os proprios poetas portuguezes.
Rodrigues Lobo disse:
Por isso qualquer profano Nos toma para entremez, Porque fazemos cada anno Te no trage portuguez Mais mudanças que um cigano. Não tomamos isto em grosso; Vestimos por tantos modos Cada hora, que dizer posso, Que não temos trage nosso, Porque o tomamos de todos.
E Simão Machado:
Vel-os-has, disse, _á franceza_, Depois d'isso á castelhana, Ámanhã á sevilhana, Hoje andam á bolonhesa, E já nunca á portugueza.