Part 8
Com rara desigualdade vós murchaes, ella florece: Anna deidade parece, Feliciana _de idade_. Deixai pois essa vaidade porque a todos nos enfada, pois que sendo só chamada ser escolhida queiraes, maiormente quando estaes affeita a ser engeitada.
Que tolas! tudo isto por que?! Façam favor de lembrar-se da historia da faca!
O _calembour_ de D. Anna de Moura era, como hoje dizemos, uma _piada_ á outra, que foi uma grande _calemburista_ do seculo XVII.
Exemplo: D. Anna de Moura tinha um irmão, que se chamava Gil Vaz Lobo.
Um dia as duas freiras travaram outra das suas muitas pegadilhas. D. Feliciana disse á rival:
—Se vos não aquietaes, dou-vos com vosso irmão pela cara (_Gilvaz_).
O rei pediu a alguem que lhe fizesse versos desconsoladores para D. Feliciana, e mandou-lh'os. Vai ella, agastada, respondeu:
Mais que louco atrevimento é disparate cantado avaliar por cuidado _o que é só divertimento_.
Tome lá, real senhor! Não foi só o marquez de Cascaes que lhe disse a mesma coisa.
Sempre a faca!
III
A FILHA DE D. LUIZA DE GUSMÃO
Em novembro de 1887, publicava um jornal de Lisboa a seguinte noticia, que transcrevo textualmente:
«El-rei o snr. D. Luiz acaba de receber um presente, que lhe devia ter sido em extremo agradavel.
«Existia em Londres um magnifico retrato da princeza D. Catharina de Bragança, rainha de Inglaterra, e mulher de Carlos II, pintado por um dos melhores pintores inglezes d'esse tempo. Esse retrato, depois da queda dos Stuarts, soffrêra fortunas varias, até que foi cahir ha pouco tempo, por venda em leilão, nas mãos do coronel americano Mac-Murdo, concessionario primitivo do caminho de ferro de Lourenço Marques.
«O snr. Mac-Murdo entendeu que devia presentear com essa tela historica el-rei de Portugal, e pediu-lhe licença para lh'o offerecer. Hontem o snr. Levis, ministro dos Estados-Unidos em Lisboa, devia ter entregado na Ajuda a el-rei D. Luiz a preciosa dadiva do seu compatriota.
«Dizem que este retrato, magnifico e muito bem conservado, desmente a lenda da fealdade da mulher de Carlos II, lenda que se fazia correr talvez para desculpar as numerosas infidelidades conjugaes do amante da duqueza de Portsmouth. A rainha D. Catharina, tal como o retrato a apresenta, sem ser uma formosura, é todavia uma gentil senhora, sobretudo com uma grande expressão de bondade.»
_Sem ser uma formosura_, diz o texto da noticia, não era comtudo D. Catharina de Bragança, rainha de Inglaterra, uma dama despicienda, segundo o retrato feito por um pintor inglez contemporaneo.
É certo que em torno d'esta illustre dama da casa real portugueza, para quem o throno britannico fôra pouco menos de um calvario, se formára uma lenda de fealdade, que os historiadores inglezes confirmam.
Assim, David Hume, o author da historia dos Stuarts, pinta-nos D. Catharina de Bragança como princeza de uma virtude sem macula, a qual, todavia, não pôde nunca fazer-se amar do rei pelas graças da sua pessoa nem do seu espirito.
Dizia-se, até á apparição do retrato offerecido pelo snr. Mac-Murdo, que Portugal fôra obrigado a dotar a princeza de Bragança com Tanger e Bombaim como compensação dos dois defeitos que Carlos II notava na sua noiva: ser feia e ser catholica.
O que é certo é que o casamento custou a realisar-se, e que Portugal, para vêr no throno inglez a filha de D. João IV, teve que desapossar-se, effectivamente, de Tanger, que não aproveitou muito aos inglezes, e de Bombaim, de que elles vieram a fazer uma das primeiras cidades do mundo.
A infeliz princeza não tirou, porém, d'esse casamento as vantagens que se esperavam. Viveu humilhada pelas leviandades amorosas de Carlos II, preterida pelas amantes do rei, especialmente pela condessa de Castlemaine, e, guerreada pelos protestantes, chegou a ser accusada de querer envenenar o marido.
Tudo isso se sabe, e seria fastidioso recordar n'um artigo fugitivo os lances dramaticos da vida atribulada de D. Catharina de Bragança em Inglaterra.
O meu fito é outro.
Eu quero principalmente fazer notar, como curiosidade bibliographica, alguns opusculos, em prosa e verso, a que deu lugar o casamento da infanta portugueza com o rei inglez.
Principiarei por fallar de um escriptor que se desenfastiava dos seus trabalhos nobiliarchicos cultivando as musas.
Refiro-me a Antonio de Villasboas e Sampaio, que escreveu: SAUDADES DO TEJO E DE LISBOA NA AUSENCIA DA SENHORA CATHARINA, RAINHA DA GRAN-BRETANHA.
Villasboas, na sua qualidade de poeta, tomou a liberdade, que n'essa qualidade lhe era permittida, de celebrar D. Catharina como um sol de belleza, uma maravilha de formosura.
Disse uma vez um notavel homem politico do nosso paiz que todas as princezas eram formosas. O poeta Villasboas justifica plenamente esta espirituosa affirmação. Ninguem dissera nunca que D. Catharina fosse uma dama formosa, nem mesmo o proprio retrato, que apenas põe em evidencia _uma grande expressão de bondade_. No PEVERIL OF THE PEAK, de Walter Scott, a rainha, que atravessa os ultimos capitulos d'este romance, resalta com essa mesma expressão de bondade, annuveada de melancholia. Mas Antonio de Villasboas não se prendeu com estas pequenas teias de aranha, e saudou em D. Catharina de Bragança a oitava maravilha do mundo, quanto a belleza.
Oiçamol-o:
Dita será que vejam lá no Norte, D'onde o mal até agora ha procedido, O bem melhor da lusitana côrte, A bellesa maior, que hão conhecido.
Esta hyperbole é um pouco compromettedora para as damas portuguezas, visto que D. Catharina, não sendo bonita, era inculcada pelo poeta como o _bem melhor_ da lusitana côrte, a _bellesa maior_!... O poeta offendia d'est'arte os creditos das damas portuguezas, que sempre tiveram fama de bellas. Aqui ha prejuizo de terceiro.
Mas os poetas, se lhes dá para serem lisongeiros, teem a vertigem da hyperbole. Villasboas continúa:
De dia, se a não via, me alegrava Vêr o sol, _que algum tanto a parecia, Não em tudo, que a elle lhe faltava Da bella infanta a graça e bisarria_: De noite co'as estrellas conversava, E de todo o meu siso lhe dizia: Tendes estrellas, porventura, inveja De que a infanta mais formosa seja?
As estrellas, provavelmente, nunca responderam nada.
Outro poeta, Antonio da Fonseca Soares, que veio a chamar-se na religião frei Antonio das Chagas, já tinha dito, saudando o anniversario natalicio da princeza:
Oy bellissima infanta Del lusitano sol alba nascistes, Y aurora apenas de sus rayos fuistes Quando te jusgaron del futuro trono Luz feliz, bello annuncio, ilustre abono.
Os poetas são como as Marias: vão uns com os outros.
Por occasião do casamento houve festas pomposas em Lisboa, e são hoje raros os opusculos que as commemoram.
Por exemplo:
FESTAS REAES NA CÔRTE DE LISBOA _ao feliz casamento dos reis da Grã-Bretanha Carlos e Catharina em os touros que se correram no Terreiro do Paço em outubro de 1661. Dedicadas a Europa Princeza da Phenicia e escritas por Izandro, Aonio e Luzindo, toureiros de forcado. Em Lisboa, 1661._
EPITHALAMIO _aos augustos desposorios de Carlos II e a Senhora D. Catharina, Reys de Inglaterra, por Antonio Raposo, natural de Aviz_. Em verso heroico.
Como se vê, os poetas não tiveram mãos a medir por occasião d'este casamento realengo.
A viagem da noiva tambem foi largamente descripta:
RELAÇAM _dedicada á serenissima senhora rainha da Gran-Bretanha da jornada que fez de Lixboa athé Por-Tsmouth pello padre Sebastião da Fonseca, mestre, cappellão, e presidente em o hospital real de Todos os Santos na Cidade de Lixboa. Londres, 1662_.
Amostra:
Serenissima senhora a quem todo o mundo acclama por bella Estrella do Norte lusido Sol da Bretanha
Com lisonja,—mas sem pontuação.
RELAÇAM _dedicada ás magestades de Carlos-Catharina reys da Grande Bretanha da jornada que fizerão de Portsmouth athé Antoncourt e entrada de Londres pelo P. Sabastião da Fonseca, etc. Londres, 1662_.
É o mesmo padre, sempre com _pello_ e sempre _cappellão_—com dobrada.
RELAÇAM _das festas de palacio, e grandezas de Londres, dedicada á magestade da serenissima rainha de Gran-Bretanha. Londres, 1663_.
É ainda padre Sebastião o author.
Dos vinte e tres annos que D. Catharina de Bragança viveu como rainha em Inglaterra, não consta deixassem poetas memoria alguma metrificada.
Mas conhecemos a HISTORIA AMOROSA DA CÔRTE D'INGLATERRA, pelo cavalheiro de Grammont, que chegou justamente a Inglaterra quando D. Catharina lá chegava tambem.
Depois de descrever a pessoa amavel do rei, diz o cavalheiro de Grammont com referencia á sua côrte:
«Quanto a bellezas, não se podia dar um passo sem as vêr. As de maior reputação eram as d'esta mesma condessa de Castelmaine, depois duqueza de Cléveland; madame de Chesterfield, madame de Shrewsbury, mesdames Roberts, madame Middleton, mesdemoiselles Brook e cem outras da mesma formosura que brilhavam na côrte, cujo principal ornamento eram, porém, mademoiselle de Hamilton e mademoiselle Stewart.
«A nova rainha em nada augmentou o brilho do palacio, nem pela sua presença, nem pela sua comitiva. O sequito da rainha compunha-se da condessa de Panetra, na qualidade de açafata; de seis monstros, que se diziam damas de honor, e de uma aia, outro monstro, que se inculcava governanta d'estas raras beldades.
«Os homens eram: Francisco de Mello, irmão da Panetra; um certo Taurauvédez, que se appellidava D. Pedro Francisco Correo da Silva, feito ao pintar, mas só elle mais tolo do que todos os portuguezes juntos. Era mais altivo do seu nome que da sua boa figura; ora o duque de Buckingham, ainda mais tolo do que elle, e mais zombeteiro, atrambolhou-lhe a alcunha de _Pierre du Bois_. O pobre Correo da Silva indignou-se a tal ponto que, depois de muitas queixas inuteis e algumas ameaças sem effeito, teve que deixar a Inglaterra, ao passo que o feliz duque de Buckingham herdava d'elle uma nympha portugueza, que lhe tinha roubado, bem como dois dos seus appellidos, a qual nympha era ainda mais horrorosa que as damas da rainha. Completavam o sequito seis capellães, quatro padeiros, um perfumista judeu, e um certo official, apparentemente sem funcção, que se denominava o barbeiro da infanta _(sic)_. Catharina de Bragança não se preoccupou de brilhar na côrte encantadora onde vinha ser rainha, se bem que mais tarde conseguisse evidenciar-se algum tanto. O cavalheiro de Grammont, desde longo tempo conhecido da familia real e da maior parte dos homens da côrte, não teve mais do que fazer conhecimento com as damas. Para isso não lhe era preciso interprete. Ellas fallavam o bastante para explicar-se, e entendiam o francez preciso para comprehenderem o que se lhes dizia.
«A côrte era sempre numerosa junto da rainha; junto da princeza era menor, comquanto fosse mais escolhida.»
Esta narração carece de rectificações.
A condessa de Panetra (por pouco que a não faz condessa de Penetra) era a condessa de Penalva, irmã de D. Francisco de Mello que fôra agraciado com os titulos de conde da Ponte e marquez de Sande.
Esta senhora morreu solteira em Inglaterra.
Francisco Corrêa da Silva era o nome do outro fidalgo portuguez roubado pelo duque inglez; Pedro é que elle se não chamava, nem tão pouco _Correo_.
O cavalheiro de Grammont é apenas citado a titulo de curiosidade historica, porque, de resto, limita-se a estropear o nome das pessoas e a verdade dos factos. Acha os portuguezes tolos e as portuguezas monstros. Em compensação, falla sempre de si com encarecimento.
Morre Carlos II, depois de ter pedido perdão a sua esposa de todos os desgostos que lhe fizera soffrer, regressa D. Catharina a Portugal, e logo se reata a série, vinte e tres annos interrompida, dos panegyricos.
Temos pois:
ORAÇOENS GRATULATORIAS _na feliz vinda da muita alta e muito poderosa rainha da Gram Bretanha, compostas e recitadas na igreja da Divina Providencia á nobreza de Portugal nas trez ultimas tardes do mez de janeiro de 1693 pelo padre D. Raphael Bluteau. Lisboa, 1693_.
Seis annos depois, apparecia um folheto em latim, AGILULPHUS, impresso em Evora, cujo argumento é o seguinte: Agilulfo, rei da Lombardia, idólatra e perseguidor dos christãos, feito christão pelas orações e industria de sua esposa, a rainha Teodolinda.
Este opusculo allude ao passamento de Carlos II, que, como conta Macaulay na sua _History of England_, morreu reconciliado com a igreja catholica, graças á piedosa intervenção da rainha e do conde de Castel-Melhor.
Fallece em Lisboa D. Catharina de Bragança, em 31 de dezembro de 1705, e os gemidos saudosos da poesia palaciana não se fazem esperar.
GEMIDOS SAUDOSOS _entre a illustre e luctuosa côrte de Lisboa, e o poderoso e sentido reino de Inglaterra: aquella lamentando defunta a sua venerada Infante, e esta suspirando morta a sua melhor rainha a serenissima senhora D. Catharina, por Pedro de Azevedo Tojal. Lisboa, 1706_.
Pobre rainha! como se lhe não bastasse soffrer um marido leviano, toda a sua vida teve que aturar os poetas lisongeiros!
VI
TRADIÇÃO GALANTE DE D. MIGUEL
Toda a gente tem mais ou menos ouvido contar aventuras amorosas do rei D. Miguel de Bragança. Chamo-lhe rei porque de facto, senão de direito, o foi. Escrevem falsa historia os authores de compendios que na lista dos reis portuguezes supprimem o nome de D. Miguel, por o considerarem rei intruso. Mas os tres Filippes, tambem intrusos, não deixam de apparecer em todos os compendios de historia elementar. Nós temos cá esta especie de critica, e já agora havemos de ir assim. Mas o que importa ao nosso proposito é dizer que as aventuras amorosas de D. Miguel, mais ou menos conhecidas de toda a gente, não deixam este rei n'um plano inferior aos seus collegas em absolutismo os galantes Henrique IV, Francisco I, Luiz XIV e Luiz XV. Fico por aqui para não desdobrar um estendal de nomes... estrangeiros. N'isto é que eu sou patriota.
Ha meio seculo apenas, raro principe sahia lettrado. A educação, vasada ainda tradicionalmente nos moldes medievaes, tendia a fazer d'elles mais homens do que sabios. É certo que, mesmo entre nós, D. Diniz, D. João I e D. Duarte cultivaram as lettras, mas só de passagem. E assim aconteceu até ao tempo em que floresceram os filhos d'el-rei D. João VI. Equitação, caça, jogo de armas, alguma musica, e pouco mais como prendas de educação. Ora D. Miguel foi educativamente modelado á feição e similhança dos seus antecessores. Sahiu, pois, completamente, um principe do seu tempo.
De minguadissima illustração, exhibia com pericia os dotes da sua educação physica. Era excellente cavalleiro. Os soldados, quando o viam a cavallo, ficavam enthusiasmados, e, quando a cavallo tinham de seguil-o, ficavam estropeados.
D. Miguel partia de Queluz para Lisboa _au grand galop_, tomando uma dianteira enorme ao esquadrão que o acompanhava. E o seu cavallo, quando elle apeava, ficava com os peitos abertos.
As mulheres, sentindo a correria doida d'um cavallo, vinham á janella para vêr passar D. Miguel, que era joven, bem posto, e rei absoluto. Rei absoluto! A personificação viva de todo o poder terreno, emanado do poder divino! Era para deslumbrar os homens, quanto mais as mulheres!
Muitas trovas populares fallam ainda hoje da belleza de D. Miguel de Bragança, conservando através dos tempos um como rescaldo do enthusiasmo popular com que o endeusavam:
O senhor D. Miguel, _Lindo diamante!_ Elle já é rei E não é infante.
Eu fui vêr a D. Miguel: 'Stava n'um somno profundo. _Cara mais delicada Não a ha em todo o mundo._
_D. Miguel é delgadinho, Bonitinho e bem feito._ Prometteu aos realistas Uma venéra p'r'o peito.
_D. Miguel é bonito, É bonito e bem feito. Quebrou as pernas, Ficou sem defeito._
Fôra n'uma d'essas correrias doidas, não a cavallo, mas em trem, que D. Miguel déra uma queda no dia 9 de novembro de 1828. Esse desastre, de que resultou para o rei fractura d'uma perna, foi, segundo uma versão vulgarisada, a origem de se dar a alcunha de _malhados_ aos constitucionaes, porque as mulas infieis que tiravam a carruagem eram malhadas.
Sem embargo, encontrei outra versão, que é pouco conhecida, para não dizer desconhecida. É o caso de repetir: _Se non é vero, e bene trovato_. Achei-a no livro DON MIGUEL, _ses aventures scandaleuses, ses crimes et son usurpation, par un portugais de distinction; traduit par J. B. Mesnard. Paris, 1833_.
Ponho a citação em francez para que nada perca da sua inteira originalidade:
_Comme D. Miguel aime beaucoup les combats de taureaux, et que l'on a remarqué que ceux qui sont tachetés sont les plus féroces, les absolutistes ont appellé les libéraux malhados, mais por indiquer que D. Miguel devait les traiter como les taureaux._
A fallar verdade, tanto importa, para a offensiva malicia da alcunha, que se tratasse de mulas como de touros.
Terei ainda que referir-me ao livro cujo titulo deixei indicado, mas, por agora, observarei, com a trova popular, que o rei _galant'uomo_, apesar da queda,
Ficou sem defeito.
Ha em Braga uma escadaria de pedra, que do Campo Novo sobe para a ermida da Senhora de Guadalupe, dividida por patamares, mas altissima e extensa.
Diz a tradição bracharense que n'um dos predios lateraes d'aquellas escadas vivia uma mulher galanteada pelo rei, e que D. Miguel, em 1832, quando de Lisboa sahira para Braga, ia todas as tardes vêl-a, subindo e descendo as escadas a cavallo.
Das suas faceis aventuras minhotas deve o leitor presumir. Braga estava completamente fanatisada pelo rei. As mulheres cobriam de beijos as medalhas e os anneis que se vendiam com o lindo retrato de D. Miguel.
Se fôres a Braga, Traze-me um annel, Que tenha o retrato D'el-rei D. Miguel.
Braga era a cidade fiel, por excellencia, ao rei.
Nos campos ou nas ruas, mulheres, de lenço encarnado,—a côr miguelista,
Se fôres a Braga, Traze-me _uma fita, Que seja vermelha, Que eu sou realista_,
cantavam trovas em que o nome de D. Miguel se confundia com o das plantas e das flôres mais rescendentes.
O alecrim é verde, A rosa tem cheiro: Viva D. Miguel, D. Miguel primeiro!
E toda a pena das mulheres do Minho era não serem soldados, não serem granadeiros,
Para defender D. Miguel primeiro.
Ainda ha pouco tempo recolhi em Mafra a tradição de um passatempo galante de D. Miguel, quando alli ia, e se demorava no convento, cujos corredores são, como se sabe, extensissimos.
O passatempo a que me vou referir tem todo o caracter d'esses jogos cavalheirescos da idade-média, que nós ainda hoje vemos com agrado através do prisma da elegancia antiga, para sempre quebrado.
O rei organisava nos corredores do mosteiro cavalhadas pittorescas. As damas montavam jumentos, e deviam partir em duas alas e em sentido inverso á direcção que D. Miguel tomava, tendo partido do extremo opposto do corredor.
O rei brandia uma tocha accesa, e as damas hasteavam uma roca abundantemente carregada de estopa. D. Miguel, sempre a galope, devia, ao passar pelas damas, incendiar-lhes a estopa das rocas,—o que poucas vezes falhava.
Imagine-se a ruidosa alacridade d'esse galante torneio, em que, não raras vezes, succederia ás damas o desastre de cahirem _mal_, como aconteceu uma vez a Marie Antoinette, proporcionando-lhe a queda um bello dito:
—_Ah! dame! quand on monte à âne, il faut être en état d'en tomber._
Não me demorarei pela decencia devida aos leitores de menor idade, e aos outros, em considerações philosophicas relativamente á estopa das damas e ao fogo do rei.
Passarei agora a fallar mais detidamente do livro cujo titulo indiquei ha pouco.
O traductor Mesnard diz no prefacio que se propoz trasladar a francez um opusculo allemão no principio d'aquelle anno publicado em Hamburgo, e acaba declarando que Barreto Feio lhe permittira addicionar á versão interessantes notas, e enriquecel-a com excellentes informações. Agradece-lhe, reconhecido, esse serviço.
Uma justa curiosidade bibliographica penetrou logo no meu espirito: qual era o opusculo allemão que Mesnard traduzira em francez?
Um feliz acaso fez com que, volvido tempo, se me deparasse na Bibliotheca da Academia Real das Sciencias um opusculo escripto em lingua allemã, e intitulado D. MIGUEL I, USURPADOR DO THRONO PORTUGUEZ. _Um documento para a historia contemporanea de Portugal por uma testemunha ocular, G. v. E. Hamburgo, 1832_.
Era este decerto o opusculo, publicado em Hamburgo no principio _d'aquelle anno_ em que Mesnard trabalhava na versão, que fez estampar no anno seguinte.
Com o auxilio do snr. Pamplona, official da bibliotheca da Academia e perito germanista, pude verificar que eu tinha diante dos olhos o original allemão, cuja traducção franceza possuia.
Restava saber quem era o allemão, G. de E., _testemunha ocular_, qualidade com que elle proprio se abonava.
De investigação em investigação, cheguei a apurar que a testemunha ocular era Guilherme de Eschwege, barão d'este titulo, de quem Innocencio dá noticia no seu DICCIONARIO BIBLIOGRAPHICO, posto a não dê do opusculo relativo a D. Miguel.
Guilherme de Eschwege nasceu na Allemanha em 1778, entrou ao serviço de Portugal em 1802 com outros officiaes da sua nação, chamados pelo ministro D. Rodrigo de Sousa Coutinho, a fim de serem empregados nos trabalhos de mineração que se tratava de promover no Brazil.
Em 1822 ou 1823 regressou do Brazil a Lisboa, onde D. João VI o nomeou intendente geral das minas e mattas do reino, cargo de que tomou posse em agosto de 1824.
Demittiu-se em 1829 por não querer servir sob o governo de D. Miguel.
Partiu para a Allemanha, onde esteve até 1835, voltando então a Portugal e sendo reintegrado no exercicio de intendente de minas. Demittido no anno seguinte, el-rei D. Fernando empregou-o na direcção das obras dos palacios reaes.
Estava com licença na Allemanha, quando morreu em Wolfsanger, no dia 1 de fevereiro de 1855.
D. Miguel sae das mãos do barão de Eschwege com a figuração de um monstro sanguinario, que se refocillava na perpetração de atrocidades selvagens. Outras testemunhas oculares fornecem depoimentos que podem servir de contestação a este. Guilherme de Eschwege era um ferrenho adversario de D. Miguel de Bragança e, para nol-o pintar horrendo de alma, deixa em silencio os actos que podem igualmente deslustrar o caracter de D. Pedro. Escreveu quando D. Miguel reinava em Portugal, isto é, escreveu para combatel-o como adversario irreconciliavel. É preciso que esta consideração entre em linha de conta.
Mas que subsidio nos póde fornecer o seu livro para uma ligeira monographia sobre a tradição galante de D. Miguel?
Eis o que importa saber.
Pequeno subsidio recebemos do opusculo do barão de Eschwege; sem embargo, a biographia galante do filho predilecto de D. Carlota Joaquina não carecia d'elle.
Diz-nos que D. Miguel não teve como rei nem como infante uma favorita, posto que em Vienna d'Austria se pensasse que a tivera. _Gosta muito de variar, o que não pouco contribuiu para o engrandecimento do visconde de Queluz._ São palavras do opusculo. Depois Eschwege conta que o visconde de Queluz fôra barbeiro, e que n'essa qualidade assistira ás enfermidades secretas de D. Miguel.
Noticía que as damas abundavam na côrte, durante os annos em que D. Miguel reinára; que nos serões do paço se faziam representações, n'uma das quaes o rei desempenhára o papel de D. Quichote, e que outras noites se organisavam jogos de prendas, sendo sempre D. Miguel quem _sentenciava_, e sendo muito seu predilecto o castigo de dar palmatoadas.
Esta pena da palmatoria, aliás usada ainda hoje nos serões de provincia em que os jogos de prendas florescem, não constitue decerto uma das provas mais eloquentes e ponderosas para acreditar nos instinctos sanguinarios de D. Miguel de Bragança.