Part 7
É o proprio Claretta quem confessa que a duqueza de Saboya tem sido apreciada por modos diversos; mas a sua opinião exalça-lhe a memoria. Notando que Brantome faz referencia á altivez de D. Beatriz, diz que, tendo a duqueza seguido a causa de Hespanha, este facto explica o resentimento de Brantome. Dueros, na sua HISTOIRE D'EMMANUEL PHILIBERT, explica essa altivez pela firmeza de caracter, que contrastava com a indecisão do marido, e entende que D. Beatriz deve ser collocada a par das mulheres fortes que a historia celebra.
Hoje, conhecidos os importantes documentos que Claretta deu á estampa, a lenda d'essa paixão contrariada, em que D. Beatriz e Bernardim Ribeiro durante tantos annos figuraram como victimas, recebeu por certo mais um golpe.
Se o trovador tivesse sido amado pela infanta, se, como suspeitava Alexandre Herculano, houvesse chegado até Saboya o segredo d'esses amores infelizes, de que Carlos III quereria tirar represalias, o caracter de D. Beatriz, em vez de se dobrar em carinhosas demonstrações de affecto para com o marido, haveria reagido pelo desdem, e até pelo desprezo.
Mas não é isso o que vemos das proprias cartas da infanta.
E, se por hypothese, D. Beatriz se soube algum dia amada de Bernardim Ribeiro, a noção do dever apagou completamente no seu coração a recordação d'esse amor infeliz. Seria, n'esse caso, um idyllio que tivera a duração de um meteoro, e cujas proporções a historia, rigorosamente descarnada, não póde avultar.
A nossa convicção, pelos factos que longamente indicamos, é que a tradição dos amores de Bernardim Ribeiro e D. Beatriz pertence aos dominios da lenda; que se alguma paixão vehemente infernou a existencia do poeta da MENINA E MOÇA, não foi D. Beatriz que a inspirou; mas não achamos sufficientes os elementos até agora apurados para nos determinarmos pela opinião de Varnhagem ou pela opinião do snr. Theophilo Braga, quanto ao nome da dama que deve occupar o lugar em que a lenda collocou, no coração do poeta, a infanta D. Beatriz.
IV
REI E PASTOR
«O rei James V, que morreu de trinta e tres annos em 13 de dezembro de 1542, era um joven rei, tunante e maganão, que se disfarçava em trajos de mendigo, de adello, ou que taes, para andar correndo baixas aventuras pelas aldeias ou pelos bairros escusos das cidades.»
GARRETT.
I
Ao pé do freixo umbroso e da sonora fonte, Que dão sombra e frescura ás boninas do monte, Glycera, a moça loira, Amyntas, o pastor, Juravam-se um ao outro o seu eterno amor.
Sobre a relva assentada, a formosa Glycera Tecia de jasmins e verdes folhas de hera Grinaldas e festões, cantando uma canção Em que menos cantava a voz que o coração.
Assim tambem se eleva o cantico suave De uma ave que estremece á espera de outra ave Nas alcôvas em flôr que tece o mez de abril.
Não tardou que chegasse, á volta do redil, Amyntas, o pastor, já recolhido o gado. —«Grinaldas! Para que?» —«Para o nosso noivado» Córando de pudor, Glycera respondeu, E emquanto elle a fitava, ella os olhos desceu. —«Disseste muito bem, minha amada Glycera, Vamos ambos colhêr jasmins e folhas de hera. Sim!... Tu não serás de outro? É minha a tua mão? De mais ninguem será?» —«Eu te juro que não.» —«Agora sou feliz! Vou dar-te, porque és minha, Aquella ovelha branca, ess'outra malhadinha Que valem um milhão! Iguaes inda não vi! Mas, porque tu és minha, eu dou-t'as para ti. Olha, que lindas são! Valem um bom rebanho Na côr, na timidez, no pello e no tamanho! Só teu, de mais ninguem, é o fresco laranjal, Que dá tão dôce sombra ao meu... ao teu casal. Dou-te do meu redil os dois novilhos bravos, E as colmêas que tenho, e todo o mel dos favos, As arcas, o bragal, peculio do pastor, E, acima d'isto tudo, o meu eterno amor.» E, sorrindo enlevada, a formosa Glycera Alternava jasmins com verdes folhas de hera.
II
Era o rei James V um joven rei feliz, Que de lendas de amor encheu todo o paiz Da sua bella Escocia, alcantilada e fria, Onde o seu coração a neve derretia.
Soam trompas de caça, e em célere tropel Passa o rei cavalgando o seu veloz corcel Entre nuvens de pó; e seguem-no monteiros E pagens de libré e mastins e rafeiros.
Do freixo á verde sombra, assentada no chão, Glycera, de medrosa, ouvia o coração. —«Bons dias, pegureira.» —«Os mesmos vos desejo.» Disse-lhe ella córando ou com medo ou com pejo. —«Que fazes por aqui? Esperas teu pastor N'este ermo pinheiral?!» —«Não espero, senhor.» —«Como te chamas tu?» —«O meu nome é Glycera.» —«Que linda e que gentil! Tu és da primavera A mais formosa irmã!...» —«Mercê que me fazeis.» —«Se alguem te rouba aqui?» —«Sou pobre, bem sabeis. Ninguem rouba á pobreza. Ella de si é escassa.» —«Excepto quando é o rei que n'estes sitios passa...» —«Piedade!» E o louco rei, sem resposta volver, Aos monteiros bradou:—«Prendei-me essa mulher, Conduza-m'a um de vós sentada na garupa Do cavallo. A galope! Ávante, corceis! Upa!»
E tudo se perdeu n'um turbilhão de pó Ao longo do caminho. O pinhal ficou só.
III
Em noites de luar, noites de primavera, Ouvia-se dizer:—«Onde estás tu, Glycera?» N'esse ermo pinheiral, e um longo choro após. Finda a verde estação, calou-se a triste voz, E nunca se ouviu mais sahir d'entre os pinheiros.
Um dia, por acaso, um rancho de vaqueiros Passou alli, e viu estendido no chão Amyntas, o pastor. Chamaram-no em vão, Que elle não respondeu. Era gelado, frio. Dizem que succumbiu ao vêr chegar o estio Sem Glycera voltar. E tinha a luz do sol Por cirio funeral, e folhas por lençol.
Mas o rei James V, em seu palacio bello, Ao pé do lago azul, que espelhava o castello, Estranhava a Glycera esse tão louco amor, Que nos braços de um rei pranteava um pastor.
V
MÃI E FILHOS
I
A MÃI
Domingo, 23 de dezembro de 1888, á hora em que um bello sol de inverno doirava pallidamente o céo de Lisboa, convidando a despreoccupada população a fazer o _trottoir_ da Avenida, achava-me eu na igreja do extincto convento de Agostinhas Descalças, no sitio do Grillo, em frente do caixão onde têm repousado esquecidos os restos mortaes de D. Luiza de Gusmão, rainha de Portugal.
Não vão suppôr que me estou dando ares de poeta funebre da realeza ou de philosopho merencorio dado a scismar no problema da morte: _to be or not to be_. Nada d'isso. Sou apenas um _dilettante_ de estudos historicos; tenho por vezes o mau gosto de preferir os dramas do passado aos do presente, e as epopêas da historia ás _partituras_ de S. Carlos.
Sabendo que se tratava de remover para S. Vicente de Fóra os restos mortaes da rainha D. Luiza de Gusmão, e que o feretro ia ser aberto para se verificar se havia sido violado como constava ás justiças da Boa Hora, não quiz perder a occasião de examinar por meus proprios olhos os ultimos despojos d'essa notavel dama do seculo XVII, tão energica junto de seu marido, tão resoluta na fragilidade do seu sexo, mas tão sincera na firmeza da sua justa ambição.
Fui.
Antes que o acto judicial principiasse, aproveitei o tempo visitando o convento, a que D. Luiza de Gusmão se recolheu a 17 de março de 1663, e onde tres annos depois fallecêra.
É vasto o convento, sem que todavia nada tenha de monumental. As Agostinhas Descalças não ostentavam pompas monasticas. Ha no interior do convento todo o aspecto de uma clausura severa: longos corredores sombrios, cellas estreitas e mal allumiadas, tendo sobre a porta e o fundo da parede alguma legenda biblica, alguma inscripção religiosa, por exemplo—_Da cella ao céo—Não póde o servo servir a dois senhores_.
A abundancia de altares—pois vimos n'um a designação de 193—denuncía que o culto era alli fervoroso, e que não se podia dar um passo no interior do convento sem ter diante dos olhos a imagem de um santo, de uma santa ou do Redemptor.
Mas os nichos dos altares estão vazios, as imagens e as reliquias desappareceram; convento e igreja foram brutalmente despojados; diz-se que até o sino, apesar do campanario ser alto, desapparecêra!
A rainha D. Luiza de Gusmão, afastada duramente da côrte pelos conselheiros de seu filho D. Affonso VI, acabou por decidir-se a entrar n'aquelle convento, mas nada ha alli que denuncie grandeza de aposentos reaes. Pareceu-nos que esses aposentos seriam uns que ficam voltados ao Tejo—por serem um pouco melhores do que os outros—constando de uma sala com chaminé e uma pequena cella, contigua á sala, da qual recebe luz por uma janella interior.
D. Luiza de Gusmão vivêra pois modestamente entre as Agostinhas Descalças.
Poucos conventos, porém, teriam uma claustra mais vasta do que o do Grillo; todo o pavimento terreo, que é enorme, serve hoje de deposito de artilheria, está cheio de peças de campanha.
Algumas freiras, como as inscripçoes tumulares indicam, jazem sob as carretas.
Havia no Grillo só um côro, pequeno e modesto.
Mas, em compensação, a igreja, comquanto não seja grande, é boa, coberta de azulejos de valor e de quadros, hoje completamente estragados pela humidade. A teia do cruzeiro é magnifica, de ébano e mosaico florentino, com as armas de Portugal e da casa de Medina-Sidonia.
Era dentro da teia que estava o caixão da rainha, coberto com um rico panno, deteriorado pelo tempo, e encimado pela corôa real, sobre almofada de estofo igual ao do panno.
Levantada esta cobertura com as formalidades judiciaes que o acto exigia, reconheceu-se que o caixão, de pau Brazil, excellentemente conservado, tinha sido violado nas fechaduras lateraes, pelo menos em duas que estavam encravadas com pregos de arame.
Aberta a tampa do caixão, forrada interiormente de sêda branca lavrada, apenas emergia de uma espessa camada de cal a caveira, a cuja fronte havia adherido a renda preta do véo, dando a impressão, á primeira vista, de que uns restos de cabello a povoavam ainda. A illusão era completa.
A cal estava remexida junto do hombro direito da rainha, e na altura da mão esquerda.
Verificou-se que o craneo se achava desarticulado da columna vertebral.
A cal afogava completamente as vestes do cadaver, e só por uma estreita orla, que ficára a descoberto na extremidade inferior do caixão, se pôde conhecer que o vestido era de seda côr de castanha.
Da energica e virtuosa rainha de outro tempo restava apenas aquillo!
A renda do véo dava a illusão, como já disse, de que a testa da rainha era de uma estreiteza simiana, quando em verdade D. Luiza de Gusmão, como se sabe pelo retrato existente na Bibliotheca Nacional de Lisboa, reproduzido por Benevides nas RAINHAS DE PORTUGAL, fôra uma bonita mulher, de feições muito regulares: testa espaçosa, olhos grandes e pretos, bocca pequena, rosto redondo.
O que nós hoje podêmos apenas estranhar n'esse retrato são as exaggeradas dimensões dos _bandeaux_, que eram moda n'esse tempo, sendo costume adornal-os com murabuths e estrellas de pedras preciosas.
D. Luiza de Gusmão não morrêra de idade que a velhice a tivesse podido deformar: tinha apenas 53 annos. E a proposito citarei um documento, por ser pouco conhecido entre nós: é a certidão de idade, que encontrei, segundo os meus apontamentos, na HUELVA ILLUSTRADA, por D. Juan Agustin de Mora (Sevilha, 1762):
«Que en un libro de baptismos, que comenzó año 1602, y acabó en 1626, que no está foliado, como á la mitad de sus hojas está una partida, que á la letra, es como se segue:
«En la villa de Huelva, jueves veinte y quatro dias del mes de octubre, año de Nuestro Salvador Jesu Christo de mil y seiscientos y trece años, yo el Lic. Diego Muniz de Leon, Visitador General del Arzobispado de Sevilla, baptizé á la señora Doña Luiza Francisca, hija del señor D. Manoel Alonso Perez de Guzman el Bueno, y de la señora Doña Juana de Sandoval, condes de Niebla: fué su padrinho el señor D. Gaspar Alonso Peres de Guzman el Bueno, Marqués de Casaza, y le adverti la cognacion espiritual, y lo firmé: fecho ut supra.—Lic. Diego Muniz de Leon.»
Por este documento fica rectificado o nome do pai de D. Luiza de Gusmão, que o snr. Benevides diz chamar-se João Manuel Peres de Gusmão.
Os restos mortaes d'aquella mulher illustre, abstrahindo mesmo da sua qualidade de rainha, inspiravam respeito.
A sua vida não fôra uma inutilidade grandiosa. Não. Junto de seu marido, D. Luiza de Gusmão fôra uma conselheira cheia de coragem e de energia, indispensavel para completar o caracter irresoluto e medroso do duque de Bragança. Na regencia do reino, todas as côrtes estrangeiras faziam justiça ao seu animo forte, ao seu espirito esclarecido. Só como mãi fôra infeliz. Viu morrer o primogenito prematuramente, e os outros dois filhos não rodearam de carinhos filiaes os ultimos momentos da rainha, que morreu ao abandono da sua propria familia!
Nas MONSTRUOSIDADES DO TEMPO E DA FORTUNA e na CATASTROPHE DE PORTUGAL vem transcriptas as cartas em que D. Luiza de Gusmão chamava do seu leito de agonia o rei Affonso VI e o principe D. Pedro para os abençoar.
Sabe-se que a CATASTROPHE é um livro parcial contra o rei, mas, descontada a paixão politica do author, o principe D. Pedro não se mostra muito superior ao rei em extremos de amor filial.
A historia fornece-nos sobejas provas de que D. Pedro II não sabia respeitar melhor do que seu irmão os vinculos de familia.
O bispo do Porto D. Fernando Corrêa de Lacerda diz na CATASTROPHE que o rei e o infante acompanharam o cadaver da mãi até ao coche funebre:
«Na segunda feira se dispozeram os funeraes com religiosa, e decente pompa, e á terça á noite depois d'el-rei e S. A. lançarem agua benta ao cadaver, e o acompanharem á liteira, foi levado á igreja do mosteiro do Sacramento de religiosos Carmelitas Descalços, que havia edificado, d'onde se sepultou por deposito, até se acabar a igreja das religiosas Descalças da recolecção de Santo Agostinho, de que era fundadora, na qual tinha mandado escolher a ultima sepultura.»
Ora o desconhecido author da ANTI-CATASTROPHE (livro de que Camillo Castello Branco diz com razão: tem relanços que inspiram crença; mas lá vem outros que a desluzem) não menciona o nome do principe, como assistente á agonia da mãi, e a respeito do rei descreve-o gastando tres dias de Salvaterra a Lisboa, sem pressa nenhuma de chegar, porque mandava fazer paragens para ouvir os musicos; e conclue por dizer: «Foi para palacio, porque, nem ainda morta a quiz vêr.»
O auctor das MONSTRUOSIDADES DO TEMPO E DA FORTUNA, qualquer que seja, diz que nenhum dos filhos lhe assistiu, supposto chegassem uma hora antes da rainha expirar, _por estorvados de quem sabia que os conselhos d'aquella hora, como mais desenganados, são fielmente cridos e ficam na memoria mais estampados_.
A verdade deve estar no meio termo: os dois filhos importaram-se pouco com a morte da rainha, quer lhe deitassem agua benta quer não.
Nós é que lh'a não podemos deitar a elles para absolvel-os de tão grave falta.
Pois esta illustre princeza que tanto luctára toda a sua vida, com o marido, com o cunhado D. Duarte[4], com Castella, com o irmão e com os filhos, alli estava reduzida aos seus ultimos despojos, tocados pela mão de vandalos que remexeram na cal para encontrar decerto alguma joia com que a rainha tivesse sido amortalhada. O marido, bem menos sympathico do que ella, está no pantheon real de S. Vicente, mas a benemerita Medina-Sidonia, que, ainda descontado o natural interesse egoista de antes querer ser rainha uma hora do que duqueza toda a vida, foi uma collaboradora importante na restauração da monarchia nacional, tem jazido no esquecimento e no abandono, tão sem repouso, que o seu cadaver vai agora fazer a terceira jornada, porventura definitiva[5].
II
A FACA DO MARQUEZ DE CASCAES
O marquez de Cascaes é que fallou claro a el-rei D. Affonso VI.
Entrou, com uma faca na mão, na camara real, em occasião que o monarcha dormia profundamente.
Sacudiu-o, accordou-o, e pediu licença para dizer uma grande verdade.
D. Affonso VI, se fosse um rei a valer, teria mandado cortar immediatamente a cabeça ao ousado fidalgo que o ia accordar no melhor do seu somno, não para lhe levar um copinho de leite quente, mas para lhe dizer uma grande verdade muito fria!
Era coisa que um rei podesse soffrer! Nem um vassallo a soffreria de boa mente, quanto mais um rei! Imaginemo-nos accordados por um crédor, violentamente, para nos dizer que lhe devemos ainda o capital e os juros. É lá coisa que possa tolerar-se!
Mas D. Affonso VI, recebendo a faca que o fidalgo trazia na mão, limitou-se a dizer:
—Lá vem o marquez com alguma das suas!
Ora se tudo isto não basta para caracterisar um rei! Accordam-no de repente, e não se zanga! mettem-lhe uma faca na mão, e fica com ella! pedem-lhe licença, ainda por cima, para dizer-lhe uma grande verdade, e o rei responde bonacheironamente: «Pois diga lá!...»
É preciso não ter... alma!
Vai o marquez, e diz:
—Senhor, vós nascestes tolo.
E o rei continúa ouvindo, pacientemente, de faca na mão!
Podia o marquez ter-se ficado por aqui, que já não era pouco nem mau, mas carregou na tecla, visto ter achado brando o teclado.
—Sois doente, e cheio de enfermidades, accrescentou.
E o rei, sempre de faca na mão, pediu mais.
Então o marquez queimou o seu ultimo cartucho:
—Nem sois para casado.
Era o mais que se podia dizer! Como havia de servir para rei um homem que não servia para marido?! Rua com elle: era a traducção.
E o rei, diz o author das MONSTRUOSIDADES DO TEMPO E DA FORTUNA, concordou com o marquez de Cascaes!
N'esse mesmo dia, 23 de novembro de 1667, D. Affonso VI assignou um termo de desistencia em favor de seu irmão.
Eis-aqui a synthese de um reinado.
A faca do marquez de Cascaes ha de ficar eternamente na historia portugueza como symbolo de boa administração: corte-se tudo o que não presta.
Fizesse-se assim sempre, e em tudo, e as coisas iriam melhor...
Sabe a gente estes e outros factos, que testemunhas contemporaneas deixaram memorados; sem embargo, D. Affonso VI tem uma tradição galante, de aventuras amorosas... armadas no ar como os castellos de Hespanha.
Eu sei que me corre o dever de ser mais discreto do que a historia. Sei isso. Não irei revolver as monstruosidades escandalosas da nullidade do casamento de D. Affonso VI. Nada d'isso. Procurarei apenas, na vida do successor de D. João IV, o que possa haver de contavel em materia de galanteria com mulheres.
Supponham que nasceu n'um monturo uma flôr. Tem-se visto. Eu arrancarei delicadamente a flôr, sem tocar no monturo.
O snr. Andrade Corvo, n'um bello romance historico que eu anteponho, com muita proeminencia, a varios livros do mesmo genero, á MOCIDADE DE D. JOÃO V por exemplo, conta as proezas galantes que D. Affonso VI fizera por amor da _Calcanhares_, uma hespanhola.
Agora, que estão publicadas as MONSTRUOSIDADES DO TEMPO E DA FORTUNA, sabe-se que o facto é inteiramente verdadeiro, porquanto o author d'este livro, seja frei Alexandre da Paixão ou não seja, escreve com toda a sua authoridade de contemporaneo:
«Acabado o dia soube a rainha que em uma janella do Paço estivera vendo a festa uma mulher conhecida tanto pelo nome, como pela vida, celebrada pela alcunha de _Calcanhares_, sustentada para feitiço de sua magestade.»
A este simples periodo de um manuscripto do seculo XVII foi o snr. Corvo buscar habilmente todos os magnificos episodios a que, no seu romance, a _Calcanhares_ serve de pretexto.
Muita gente, sempre de pé atraz com D. Affonso VI, perguntava, depois de ter lido _Um anno na côrte_: Mas esta _Calcanhares_ existiu ou não existiu?
Ahi fica dada a resposta.
O sr. Corvo foi até excessivamente meticuloso como romancista historico. Andou procurando nos codices do seculo XVII, escrupulosamente, certas minucias, que então não estavam ainda divulgadas, como hoje, pela publicação das MONSTRUOSIDADES DO TEMPO E DA FORTUNA.
Assim, por exemplo, o rei, referindo-se no romance do snr. Corvo á rainha D. Maria de Saboya-Nemours, trata-a por _Brichota_, com sem-ceremonia contraria á etiqueta.
Brichota era synonymo de _estrangeira_.
Pois bem. Lá diz o author do famoso codice: «Respondeu-lhe el-rei que lhe não desse nada da _Brichota_, que fosse, e estivesse, e se ella fallasse...» O resto não digo eu ainda que me queimem, mas disse-o el-rei D. Affonso VI.
Este monarcha não tinha papas na lingua, e por isso não estranhou a descompostura, núa e crúa, que lhe pregou o marquez de Cascaes.
Eu possuo um livro precioso como subsidio para a historia do reinado de Affonso VI. Intitula-se VITA DI MARIA FRANCESCA DI SAVOIA-NEMOURS, REGINA DI PORTOGALLO, PER IL BARONE GAUDENZIO CLARETTA. O meu exemplar, comprado no espolio do visconde de Borges de Castro, é ricamente encadernado, e tem uma dedicatoria do proprio author.
Pois ahi, a pag. 100, lê-se esta passagem, referente ao rei:
«_... nan era privo di un tal qual spirito, quantumque non sapesse nè leggere, nè scrivere ed usasse basse espressioni, come, per esempio: vá bugiar... etc._»
Fiquemos por aqui.
Os grandes amores romanticos de D. Affonso VI tiveram por palco o convento de Odivellas.
Calumnia-se D. João V quando se diz que elle desacreditou Odivellas. Aquillo já vinha de traz.
D. Fernando Corrêa de Lacerda, bispo do Porto, conta que D. Affonso VI «se deu ao galanteio das religiosas, frequentando diversos mosteiros», e que «sem reparar no decôro que se devia aos lugares sagrados, fazia abrir as portas das igrejas, sendo alta noite», «succedendo muitas vezes que quando em outros conventos se levantavam os religiosos para louvar a Deus, o estava el-rei offendendo nas grades das suas igrejas.»
Umas d'estas freiras era D. Anna Angelica de Moura, conhecida em Odivellas pela alcunha galante de _Flôr do Sol_.
«Tomou el-rei amizade illicita com D. Anna de Moura, freira de Odivellas; fazia-lhe continuas assistencias com grande indecencia, e geral reprovação de toda a côrte. O dia em que D. Anna de Moura fazia annos, foi el-rei tourear no pateo de Odivellas: deu uma grande queda, de que esteve sangrado, fazendo-lhe D. Anna de Moura a fineza de se sangrar tambem, lhe mandou um grande presente, e quando a tornou a vêr, lhe disse que desejava fazel-a rainha de Portugal.» (VIDA D'ELREI D. AFFONSO VI, publicada por Camillo Castello Branco, e attribuida ao duque de Cadaval).
Pensa o leitor que esta dupla sangria foi uma galanteria original? Pois está enganado.
No auto do MOURO ENCANTADO, do quinhentista Antonio Prestes, vem citado o exemplo que a freira de Odivellas imitou:
... Foi como o meu, que sou quem o arremendou na guerra que a Pirro deu; sendo o vencimento seu uma mulher captivou da qual vindo-se a vencer por formosa, elle a amava, cousa brava; chegou ella a adoecer, e se ella se sangrava sangrava-se elle, que fava de amor póde mais ser?
Decididamente: não ha nada novo n'este mundo. O caso está em saber a gente onde os outros foram fazer mão baixa.
Ora havia em Odivellas outra freira, que D. Affonso VI deixou para fazer a côrte a D. Anna de Moura.
Mulher de talento mas com cabellinho na venta, est'outra freira, que se chamava D. Feliciana de Milão!
Dos seus desbragamentos de linguagem dão ampla noticia Perim no THEATRO HEROINO e Suppico na COLLECÇÃO DE APOTHEGMAS.
As duas freiras rivaes descompozeram-se em verso... como se valesse a pena!
D. Feliciana desembestou com o rei:
Meu monarcha, o vosso amor e vosso trato amoroso tanto tem de primoroso quanto de pai e senhor; mas, ainda assim, causa dôr e não com pouca rasão vêr que esta vossa affeição muito tem que a desdoura, pois adorais uma _Moura_, sendo vós um rei christão!
A _Flôr do Sol_ respondeu: