Historias de Reis e Principes

Part 10

Chapter 103,696 wordsPublic domain

O capote preto e o lenço branco eram, de feito, um trajo nacional, mas não privativo das mulheres do povo. N'isto se enganou o archiduque. Tambem o usavam as fidalgas. Em Lisboa já não ha d'isso senão pelo carnaval. Mas nas provincias do norte ainda existe o capote. No sul, tenho-o visto muitas vezes em Setubal, sem exclusão das senhoras: capotes de panno finissimo e brilhante.

Os homens tambem uzavam capote antes da invasão da capa hespanhola e da capa _á Santo Antonio_; mas era ordinariamente de côr e com mangas. Chamavam-se estes capotes _josésinhos_.

Camillo Castello Branco diz na ENGEITADA: «Era de mulher o outro vulto encapotado n'um _josésinho de mangas, como então se dizia d'uns capotes que tiveram em Portugal reinado longo_.» E Nicolau Tolentino:

Se a pé, dando o _josésinho_, Escoltou Alcino ledo A Marcia todo o caminho, Foi porque elle tinha medo Que lhe cahisse o burrinho.

Isto, leitor, não póde ir de uma assentada. Seguiremos a jornadas vagarosas o itinerario do infeliz archiduque.

III

«Faz-se entre nós uma idéa muito falsa de Lisboa. Figuramol-a uma cidade rica em monumentos historicos, graciosissimamente situada, e beneficiada por um clima dulcissimo: sonhamol-a em todo o brilho das tintas meridionaes, em toda a magnificencia de uma vegetação tropical; imaginamos que o Tejo deslisa sob um céo azul á beira de antigos palacios de marmore, navegado nas suas ondas argenteas por centenas de gondolas doiradas e por galeões carregados de metaes preciosos; o povo de Lisboa suppomol-o alegre, cantando estancias melodiosas ao som da guitarra. Pura phantasia tudo isso!»

A fallar verdade, que culpa podêmos nós ter do que os outros sonham a nosso respeito?! Que responsabilidade nos póde advir do facto de ter o archiduque Maximiliano, commandante da marinha austriaca, imaginado em Lisboa uma vegetação _tropical?! Tropical!_ é forte. Pois não sabia sua alteza qual era a nossa situação geographica no mappa-mundi?! Suppunha-nos na Africa ou na America?! Imaginava-nos talvez em Borneo ou Sumatra, na Oceania? Ah! infeliz archiduque, que culpa tinhamos nós dos erros geographicos de sua alteza e dos seus compatriotas?!

E as gondolas doiradas?! Quem nos inculcou na Austria como sendo o paiz das gondolas?! Vossa alteza sonhou! E nas memorias nublosas d'um sonho confundiu Veneza com Lisboa.

Quanto aos galeões carregados de metaes preciosos, bem poderia sua alteza tel-os visto, se se lembrasse de visitar Lisboa no seculo XVI. Com uma antecipaçãosinha de trezentos annos—uma bagatella!—teria sahido o sonho verdadeiro. Se vossa alteza, desventuroso archiduque, houvesse chegado a tempo de encontrar el-rei D. Manuel, poderia, visto que estamos em maré de anachronismos, apostrophar com Julio de Castilho os famosos galeões da India:

Lá vem galés Tejo acima! lá vem as galés d'el-rei! Quero ir vêl-as á Ribeira; ó madre, comvosco irei. Lá vem, lá vem Tejo arriba, lá vem as galés d'el-rei.

Lá vem as naus da conquista sobre os marinhos cachões; conheço a nau do Almirante entre os outros galeões, abertas as azas brancas! soberba co'os seus pendões!

Quanto a monumentos historicos, uma pirangaria! Já é ter falta de vista! Nem meio. O campo, um horror. A abundancia de moinhos de vento fez-lhe lembrar Leipzig, as longas cordilheiras de collinas recordaram-lhe a Allemanha. As laranjeiras portuguezas, tão celebradas na Europa, cá estavam e não eram feias, mas não se podia parar um momento a olhar para ellas, porque era o mesmo que ter uma constipação no corpo, por causa de um golpe de sol _tropical_ ou de um golpe de vento igualmente... _tropical_.

E tristes, muito tristes os lisboetas. Mas que diabo de teima a do Paulus em dizer ainda hoje que

_Les portugais Sont toujours gais!_

Uma patranha de marca! Nós, os portuguezes, somos tão chorões, que até os reis não escapam ao chôro. Houve um que lagrimejou a ponto de ser metamorphoseado em chafariz, o qual ainda hoje conserva a denominação de _Chafariz d'Elrei_. Patranha por patranha. E ainda hoje conservamos tambem este proloquio lamuriante: _A lagrima é livre_. A alma portugueza é uma cebola que nos sobe aos olhos: por isso dizemos constantemente que os olhos são o espelho da alma.

Sua alteza achou-nos muito parecidos com os macacos. N'este ponto não podêmos deixar de fazer honra á orientação transformista de sua alteza. Chegamos a estar convencidos de que foi Portugal que suscitou a Darwin a concepção scientifica da sua theoria; o sabio inglez, tendo conhecido em Lamarck a lei da hereditariedade e a lei do desenvolvimento dos orgãos, pôde, graças ao estudo anthropologico que fizera dos portuguezes, ir além de Lamarck. Foi isto, por força.

E a lingua portugueza?! Como sua alteza a achou desafinada e charra! Tem graça, porque nós pagamos-lhe na mesma moeda, quanto a lingua. Não ha portuguez nenhum que não esteja de accôrdo com a opinião de Carlos V,—de que o allemão é uma lingua para se fallar aos cavallos. Mas para chamar desafinada á lingua portugueza já é preciso ter dureza de ouvido! E não dizia o pateta do Filinto:

Fallemos portuguez _brando e sonoro!_

Sua alteza estava com muita curiosidade de vêr a rainha D. Maria II, porque era sua proxima parenta e uma princeza reinante, cujo destino havia sido dos mais agitados.

Quem o archiduque encontrou primeiro a esperal-o no palacio das Necessidades foi o marechal duque de Saldanha, a quem chama o _genio universal, o deus ex-machina_, o sol do nosso paiz n'aquelle tempo. N'isto acerta. Triumphante o movimento politico da regeneração, Saldanha, coberto do prestigio que lhe haviam dado as campanhas da liberdade, succedêra no poder ao conde de Thomar. Quando o archiduque Maximiliano chegou a Lisboa, o ministerio era composto por Saldanha, presidencia e guerra; Rodrigo, reino; Seabra, justiça; Garrett, estrangeiros; Fontes, fazenda e obras publicas; Athouguia, marinha.

A Garrett faz o archiduque uma referencia especial, sem o nomear, dizendo: «Entre os ministros mencionarei o dos negocios estrangeiros que, segundo me disseram, é o mais celebre escriptor de Portugal. Suspeito-o mais escriptor que estadista: de resto, falla perfeitamente o francez.»

Maximiliano _esquissa_ o perfil do marechal: «um homem gordo, constellado de condecorações, com os cabellos crespos e brancos de neve, bigode retorcido, côr de azeitona e lunetas escuras com aro de aço.»

Finalmente, o archiduque encontra-se com a rainha, com o rei D. Fernando, e os tres principes mais velhos, D. Pedro, D. Luiz e D. João.

«Maria da Gloria, diz o archiduque, é alta e direita; as suas feições são nobres e graves, o cabello louro e fino. Tem os olhos azues dos Habsburgos, mãos pequenas e, por infeliz contraste, uma corpulencia genuinamente portugueza, horrivelmente exaggerada e realmente inaudita. Não obstante (o que faz o elogio das suas graças naturaes) e cheia de elegancia e vivacidade nos movimentos. Vi-a correr como uma donzellinha nos seus aposentos, e ouvi dizer que dança graciosamente e sóbe com ligeireza o estribo da carruagem. Vestindo com delicadissimo gosto, é ainda seductora a despeito da nutrição; poder-se-ia dizer até que, por momentos, é bella.»

Este esboço não destoa dos retratos que conhecemos da rainha e nos quaes é facil encontrar exacta semelhança com o perfil traçado pelo snr. D. Antonio da Costa na HISTORIA DO MARECHAL SALDANHA: «gentil, como os seus quatorze annos, a pelle, setim; a côr, alva; olhos, celestes; cabellos, como o oiro; porte, nobre; rosto, reflexivo; etc.»

Com taes predicados physicos não ha mulher feia, ainda mesmo que, no dobar dos annos, o _embonpoint_ se torne um pouco exaggerado.

A principio, o archiduque achou a rainha hesitantemente silenciosa; não obstante, as suas poucas palavras eram agradavelmente pronunciadas em francez. Mas á medida que a intimidade se estabeleceu, a rainha revelou-se alegre e espirituosa, comquanto sempre reservada ou antes preguiçosa em fallar, e na apparencia um tanto brusca.

Maximiliano louva a rainha como mãi e esposa, considera-a um _raro modelo de virtudes domesticas no meio d'este Portugal tão corrompido_. Attribue um pouco isso á simplicidade allemã que o rei Fernando teria introduzido nos habitos do _ménage_.

«Ao lado de sua corpulenta esposa, o rei, que é de estatura elevada, parece um pouco _effilé_, revelando grande semelhança com Francisco I de Austria. Conta apenas trinta e sete annos, mas, como tem o costume de inclinar a cabeça, afigura-se-nos mais velho.»

Quanto a dotes de espirito e caracter, o archiduque não teve tempo para os estudar no rei D. Fernando, mas quiz parecer-lhe que não podia medir-se pela bitola de seu tio Leopoldo da Belgica.

Estranhou que o marido da rainha fosse rodeado por taes homenagens, que, n'uma viagem á provincia, o povo pediu-lhe a benção. E o rei deu-a. A fallar verdade, o beija-mão não se distanciava muito da benção.

«Os tres filhos mais velhos estavam presentes, cada um com seu uniforme: o principe D. Pedro, de general; D. Luiz, meu camarada, de official de marinha; D. João, de official de infanteria (aliás lanceiros).

«O principe real tem notavel semelhança com a casa d'Austria, o que desde logo lhe conciliou a minha sympathia. Possue um thesouro de excellentes disposições naturaes que, infelizmente, não têm sido bem exploradas; a despeito da boa vontade dos pais, não parece que tenha havido sufficiente cuidado em formar-lhe esse caracter energico de que um principe tanto precisa hoje, sobretudo na situação incerta em que se encontra Portugal.»

O archiduque fiava muito da influencia que teriam as viagens no espirito do principe real.

Quanto ao infante D. Luiz, depois rei, descreve-o como um rapaz alegre e ladino, propenso a expansões de bom humor. Falla muito, e bem, diz o archiduque: um jovial sangue viennense corre nas suas veias.

«D. João é a antithese de seus irmãos: silencioso e grave, pallido, cabello castanho, olhos negros, olhar profundo; nenhum traço de elemento germanico: um altivo Bragança dos antigos tempos.»

IV

Conta o archiduque que assistíra com a rainha D. Maria II e com el-rei D. Fernando a um espectaculo no theatro de S. Carlos, que, apesar das suas amplas dimensões, considera inferior ao _San Carlo_ de Napoles.

Exhibia-se n'essa noite o panorama do Mississipi, que tinha já feito, diz Maximiliano, _le tour du monde_.

Ao passo que o panorama se desenrolava lentamente, a rainha conversava com seu primo o archiduque, fallando-lhe com saudade do Brazil, onde nascêra. Maximiliano estranha que D. Maria II exprimisse tamanho enthusiasmo por um paiz, como o Brazil, onde o calor é intenso. E observa: qualquer que seja o paiz em que se nasceu, o amor á patria é sempre o mesmo! Esta observação fica muito áquem dos meritos litterarios do archiduque. É de uma banalidade que lhe não faz honra.

Fallou-se tambem de Lisboa, de Portugal. D. Fernando citou com louvor o livro do principe de Lichnowsky[6], o unico que tinha por exacto, parecendo, diz Maximiliano, fazer pouco caso do que a condessa Hahn-Hahn escreveu sobre o mesmo assumpto.

A rainha mostrou-se resentida da surpreza com que a condessa viu na camara real o bastidor em que sua magestade costumava bordar. Uma pessoa que governa, havia dito a condessa, não deve occupar-se de taes coisas. A rainha, que é uma mulher da sua casa (_une femme d'intérieur_), diz o archiduque, glosava a observação da condessa ironisando-a: «Queria talvez que eu escrevesse livros!»

Maximiliano teve occasião de assistir á festa do Coração de Jesus na basilica da Estrella.

«A rainha entrou na igreja ladeada pelo rei-esposo e pelo _Deus ex-machina_ (o marechal Saldanha), os quaes exhibiam, sobre os seus respectivos uniformes, uma mantilha de rendas: é, nas ceremonias de apparato, a bizarra insignia dos gran-cruzes portuguezes. D. Maria collocou-se sob o docel, entre estes dois personagens, e assistiu de pé ao santo sacrificio da missa. S*** (Saldanha) que, além das suas funcções officiaes parece desempenhar tambem o papel de bobo da côrte, dizia infinitas jovialidades á rainha. Que effeito produziria no povo este mau exemplo! D'onde virão a obediencia e o respeito para com a magestade terrena, se ella propria se não souber curvar perante a magestade divina!»

É textual. Apesar de parente da rainha, o archiduque não lhe poupa este epigramma publico. Maximiliano ficou tão indignado, que chamou _bobo_ ao marechal por estar fazendo espirito na igreja da Estrella. Nós, os portuguezes, não somos certamente o povo que mais compostamente assiste aos actos religiosos. Mas no seculo XVII ainda era peor. Foi preciso tomar medidas repressivas contra as liberdades que se praticavam nos templos.

«A mais encantadora e seguramente a mais espirituosa pessoa da côrte é a imperatriz viuva Amelia, segunda esposa de D. Pedro. Um cruel destino tem perseguido com cega obstinação esta soberana desde a sua primeira mocidade. Ao tempo da minha viagem a Lisboa, a imperatriz vivia em Bemfico (masculinisação de Bemfica) com sua amavel filha, princeza distincta, peregrinamente prendada, e que a morte não tardou a arrebatar. _Bemfico_ é uma deliciosa _quinta_, onde recebi o mais cordeal e o mais digno acolhimento de uma boa parenta.»

Maximiliano revela, em todas as suas apreciações, uma refinada intransigencia tudesca. Ora é sabido que a imperatriz Amelia era bávara, e é justamente a esta princeza que o archiduque elogia sem restricções. Não podendo deixar de reconhecer as virtudes domesticas da rainha D. Maria II, não se abstem comtudo de fazer esvoaçar sobre o seu retrato a sombra de mais de um epigramma. Nem mesmo lhe perdoou o ser nutrida, e chega a dizer que a rainha convidava sempre para os jantares de gala a duqueza de Palmella, que, por ser igualmente nutrida, servia para lhe fazer contrapeso.

Maximiliano assistiu com a rainha a uma tourada. Os principes não foram, mas as infantas, _duas creanças encantadoras_, acompanharam sua mãi.

O archiduque, a respeito das touradas portuguezas, dá inteira razão á propaganda que contra ellas tem feito no parlamento o snr. Carlos Testa.

Não as considera um combate cavalheiresco como na Hespanha. Chama a este divertimento, tal como ainda hoje o temos, um brinquedo ignobil e despiciendo; uma mascarada, uma _jonglerie_. Acha cobardes os nossos picadores, e sente a falta do _bello matador, que tão habilmente sabe provocar o enthusiasmo_.

Ralha dos intervallos comicos dos pretos, que ficavam espapaçados na arena, e da exhibição dos forcados que, enchumaçados com almofadas, se atiravam á cabeça dos touros. Classifica de arlequinada insipida este espectaculo, onde a coragem brilha pela sua ausencia, e que faz rir o povo n'uma hilaridade boçal.

«Estes vis tormentos por que fazem passar o animal e os homens constituem um espectaculo que não póde deixar de exercer sobre o povo uma influencia perniciosa; é um alimento fornecido aos seus instinctos grosseiros, ao passo que em Hespanha uma lucta ardente e generosa põe em evidencia o homem. Lá, o touro empenha toda a sua força, o homem toda a sua coragem; combatem corpo a corpo, o sangue corre, e ha commoções extraordinarias n'essa lucta; o homem não desce até ao nivel da besta, e a besta até ao nivel das coisas inanimadas. Em Hespanha, onde ha um combate, aliás leal, este divertimento popular não chega a parecer cruel; mas aqui, onde apenas se trata de uma folia baixa e ignobil, a menor desgraça avulta revoltantemente. Em Sevilha vi cahir numerosos touros, sem que homem algum fosse ferido; aqui, dois dos luctadores, encarregados de pegar o touro, ficaram horrivelmente maltratados; cahiram entre as pontas do animal que os lançou por terra, rasgando-os no ventre e no peito com temerosas marradas; finalmente, arrastaram-nos para fóra da arena todos ensanguentados e semi-mortos. Asseguraram-me, porém, que uma pouca de terra do circo, deitada n'um copo d'agua, bastaria a cural-os prodigiosamente, e que poderiam reapparecer na lide do domingo seguinte. Tudo isso me fazia horror, ao passo que em Hespanha senti-me, á vista do combate, emocionado e arrebatado.»

Mas o archiduque confessa que o divertiu muito o facto de um touro ter saltado duas vezes á trincheira, e de um outro touro ter investido com um cavalleiro, que se não desestribou, mas que no embate perdeu a cabelleira.

Então o archiduque riu francamente com o povo.

«N'esse momento, diz Maximiliano, todo o ardor hespanhol despertou em mim, e por _bravos_ involuntarios, que não seriam talvez muito convenientes na presença da rainha, testemunhei a minha satisfação ao bravo animal, desejando-lhe um successo mais decisivo.»

Parece que Maximiliano quereria que o touro houvesse derrubado e amolgado o cavalleiro.

Como o infeliz archiduque haveria gostado, se lh'a tivessem dado a lêr, da ULTIMA CORRIDA DE TOUROS EM SALVATERRA, de Rebello da Silva!

Aquillo é que eram touros á castelhana, no tempo do senhor D. José!

Maximiliano foi convidado para um dos grandes bailes do marquez de Vianna, n'aquella época tão faustosos. Viu ahi a primeira sociedade de Lisboa. Mas o seu exclusivismo germanico não ficou lisonjeado com os cabellos negros e as faces morenas que se estadeavam no palacio do Rato. _Poucas_ ou _nenhumas_ bellezas viu.

Faz justiça á opulencia das salas, que eu proprio ainda pude vêr no dia do leilão. Por isso digo que _faz justiça_. Mas accrescenta que denunciavam uma absoluta falta de gosto, _um verdadeiro luxo de «parvenu»_. Ora isto não é exacto. O que seria se Maximiliano tivesse entrado em salas menos remotamente fidalgas que as do marquez de Vianna!

Á chegada do archiduque e durante o baile, o hymno austriaco lisonjeou-lhe sobremodo os ouvidos patriotas.

Apesar de ter appellidado o nobre marquez de «grande senhor da época _rococó_» e de haver notado falta de gosto nas esplendidas alfaias do palacio do Rato, não pôde deixar de exclamar, graças ao hymno austriaco toda a noite soprado pela fanfarra: «Este simples traço basta a caracterisar o bom marquez.»

Maximiliano já antes tinha estranhado que no Paço das Necessidades as bandas militares não houvessem tocado o hymno austriaco, mas unicamente o hymno real portuguez, quando alli foi convidado a jantar duas vezes.

Muito hymneiro este infeliz archiduque!

E a proposito d'aquelles dois jantares de gala diz Maximiliano que, não obstante a parcimonia habitual da côrte, a mesa era esplendida, e a cosinha primorosa; que, a ter que queixar-se de alguma coisa, seria da abundancia dos pratos.

Se não se houvessem esquecido do hymno austriaco, Maximiliano, apesar de declarar-se abstemio, ter-se-ia levantado da mesa trauteando mentalmente o antigo _vaudeville_:

Et la frouchette de Camus Est le sceptre du monde.

Foi pena!

V

Maximiliano viu o cemiterio dos Prazeres, e pareceu-lhe uma imitação do _Père Lachaise_.

Impressionaram-n'o mal os mausoleos ostentosos, que se lhe afiguravam verdadeiros templos pagãos. E achou pouco christão o contraste d'estes moimentos faustosos com o systema de enterrar os pobres na valla,—como cães. As edificações arruadas do cemiterio dos Prazeres deram-lhe a impressão de um _Corso funerario_ ou de um _Boulevard dos mortos_, sem caracter religioso.

Para Maximiliano, os cemiterios antigos, em cujos cyprestes e plátanos as avesinhas cantavam n'uma grande paz melancolica, eram o unico typo admissivel para necropole. Sob este ponto de vista encantaram-n'o o _Campo Santo_ de Pisa e as sepulturas da Turquia.

Ora eu posso dar ao leitor dois traços descriptivos do _Campo Santo_. Fornece-m'os madame Colet, a notavel _touriste_ que tão minuciosamente visitou a Italia: «_O Campo Santo_ fórma um longo quadrado fechado por quatro galerias muradas exteriormente, e cobertas de _frescos_; interiormente, elegantes columnas cingem o recinto destinado aos mortos. Estas arcadas são de uma leveza maravilhosa, constituidas por duas finas columnas que emmolduram um pilar quadrado. A sua base assenta sobre a herva verde e cuidada; o fuste desabrocha em ogivas que recortam flôres sobre o azul do céo. Aos quatro cantos do prado elevam-se outros tantos cyprestes enormes figurando guardas taciturnos dos sepulchros. Ao meio uma roseira, opulentamente florida, balouça-se de encontro ao fuste de uma columna; sorri aos mortos como um derradeiro amigo. Comecei a minha visita entrando pela porta do occidente. Antes de examinar os _frescos_ attentei nas sepulturas cavadas no solo que eu ia pisando: cavalleiros das cruzadas, nobres, principes, cardeaes e monges estão ahi confundidos na terra. Sarcophagos antigos descobertos nas escavações e mausoleos modernos avultam de cada lado da galeria, traçando uma especie de alêa sepulchral.»

Como se vê, o _Campo Santo_ de Pisa não é tão despido de ornatos esculpturaes como a referencia de Maximiliano poderia fazer suppôr. Eu acho que o melhor de tudo seria adoptar a incineração, e ter cada um no seu proprio lar as cinzas dos seus mortos queridos. Os romanos davam o nome de _Columbaria_ aos nichos, abertos nas camaras sepulchraes, onde cabiam duas urnas com cinzas, á semelhança de dois pombos em um ninho. D'aqui a origem da palavra, que poderiamos traduzir por _pombaes dos mortos_. Sem embargo havia tambem em Roma os sepulchros faustosos, de dois e tres andares. Mas o que da civilisação dos romanos poderiamos adoptar era o systema da incineração. Emquanto o não fazemos, o meu ideal de cemiterio é muito mais exigente em simplicidade que o ideal de Maximiliano. Ha vinte e um annos publiquei n'um poemeto infantil, que Castilho se dignou prefaciar, o bosquejo de um cemiterio verdadeiramente christão, segundo o meu ideal:

D'aldeia o cemiterio era modesto, Sem pompa e sem lavores: Ao centro, a cruz a dominar c'os braços O recinto dos mortos e os espaços... De resto... algumas flôres!

Isto, ou então os tumulos aereos da Australia, que o infeliz poeta portuense Pedro de Lima descreveu por esse tempo:

São bellos os tumulos D'Australia, suspensos Nos plainos immensos Á beira do mar. Alli o cadaver Pacifico dorme E a lua—olho enorme— O vem contemplar.

Para contrastar com a pagina melancolica em que discretêa sobre a morte, dá-nos Maximiliano a descripção de uma burricada em Cacilhas, a pretexto de um _lunch_, em que certamente foram convivas os officiaes da fragata _Novara_, porque o archiduque diz-nos que nem elle nem os seus companheiros de equitação sabiam uma palavra de portuguez.

Maximiliano não occulta os tormentos por que passaram as azemolas cacilheiras apertadas sob os joelhos dos cavalleiros austriacos. Era, diz elle, um _steeple-chase_ furibundo, de collegiaes em gazeio. Volteavamos a galope—a galope! que sacrificio para um burro de Cacilhas!—punhamo-nos em pé sobre a sella (queria dizer albarda) fazendo proezas de equilibrio mais ou menos gracioso.

Os pobres burros é que não acharam decerto graça nenhuma á patuscada furiosa dos austriacos. Mas vingaram-se, olá! porque um burro vinga-se sempre. Cada burro de Cacilhas tem na vingança, mal comparado, o coração de D. Pedro I. Pregaram com os austriacos no chão, enrodilharam-n'os na poeira do caminho, fizeram d'elles, incluindo o archiduque, gato-sapato. Oh! triumpho do patriotismo asinino sobre a tyrannia estrangeira! Desconfio que os austriacos se deram finalmente por vencidos; pois que, desistindo da perigosa equitação, se agruparam n'um pinheiral para almoçar,—_sur la verdure_.

Quem imaginam os senhores que pretendeu estorvar-lhes o almoço? Os burros? Parece á primeira vista, attendendo a que almoçavam sobre a verdura, e os burros deviam ter fome. Não, senhores: foi uma velha, uma megera, diz Maximiliano, que os descompoz e ameaçou. Faço idéa das bonitas coisas que a velha lhes disse, e que elles decerto entenderam se a philippica da heroina foi acompanhada dos respectivos gestos... philippicos.