Part 11
Ora, naturalmente, a velha era a burriqueira, que vinha desaffrontar os sendeiros escalavrados. N'aquelle tempo não estava ainda organisada, com uma succursal em Cacilhas, a sociedade protectora dos animaes. A velha demosthenava _pro domo sua: domo_ é synonymo de burro.
O que aconteceu? Os austriacos ouviram tudo a pé quedo, com a impassibilidade de sphynges de Memphis, e então a velha, reconhecendo que os estrangeiros não tinham... sangue nas veias, entendeu que seria cobardia, deshonrosa para a Lusitania, correl-os a pau ou a pá, como fez a sua compatriota Brites d'Almeida em Aljubarrota.
Mas quem sabe se a derrota soffrida em Cacilhas não contribuiu para azedar a impressão com que Maximiliano sahiu de Lisboa!
As suas ultimas palavras são accentuadamente pessimistas. Acha que Lisboa não tem caracter proprio. As edificaçoes apresentam aspecto allemão; as _toilettes_ são parisienses; a educação nacional é ingleza. Lisboa, emfim, é uma cidade de Marrocos, morta e triste. Culpa de tudo isto: os nevoeiros frequentes, a frialdade do ar, e os capotes das mulheres! Uma verdadeira descoberta do infeliz archiduque.
Achou-nos colonialmente decadentes, e n'isso não exaggerou. Mas, de descoberta em descoberta, pareceu-lhe que o abatimento nacional provinha da gordura hydropica dos nacionaes, que degenerava em lympha, e que nos arrastava á doença e á morte.
«Quando a decomposição começa, peróra Maximiliano, a vida evapora-se e, como diz o proverbio, «os ratos abandonam a casa que vai desabar.»
É uma ratice, que a historia desmente, porque nós ainda cá estamos, cada vez mais... gordos,—excepto eu.
Maximiliano tambem passou na ilha da Madeira, que descreve, mas eu cerro por aqui as suas impressões de viagem, para que o leitor não tenha motivo de se malquistar commigo pela monotonia do assumpto.
VIII
DUAS IMPERATRIZES
I
A IMPERATRIZ EUGENIA
A viuva de Napoleão III é a filha mais nova do conde de Montijo, da familia hespanhola dos Guzman, originarios de Granada, e da condessa de Montijo, _née_ Kirk-Patrick, de origem irlandeza.
Sua irmã, a filha primogenita do conde de Montijo, casou aos dezoito annos com o duque d'Alba, descendente dos Stuarts pelo marechal de Berwich. Foi uma das estrellas da côrte de Izabel II. Deixou tres filhos: o actual duque d'Alba, que casou com a filha do duque de Fernan-Nuñez: a duqueza de Tamamés e a duqueza de Medina Cœli, que morreu alguns mezes depois de casada.
Em 1860, a imperatriz Eugenia, estando na Algeria com o imperador, soubera, depois de sahir de um baile, que a duqueza d'Alba tinha morrido. As duas irmãs estremeciam-se, a imperatriz sentira profundamente a morte da duqueza. Pela primeira vez experimentára a imperatriz uma dôr intima; fôra esse, em meio da vida faustuosa das Tulherias, o primeiro golpe da má fortuna.
Até ahi, a existencia de Eugenia de Montijo tinha sido um triumpho ininterrompido de formosura e felicidade, a marcha gloriosa de uma mulher incomparavelmente bella através da vida.
Fôra em 1840, depois dos acontecimentos de Strasburgo, que ella vira pela primeira vez o principe Luiz Napoleão, que entrava preso em Paris. A condessa de Montijo estava então com suas filhas na capital de França, e de uma das janellas da Prefeitura de policia viram, a convite de madame Delessert, mulher do Prefeito, chegar o principe.
A _toilette_ de Luiz Napoleão era n'esse momento simplesmente desastrosa. O official da escolta, vendo-o desprevenido de roupa branca, offerecera-lhe uma camisa que parecia ser de _onze varas_, não só porque a situação era critica, mas porque, grande de mais para o principe, todo elle era camisa.
Ninguem poderia dizer, porém, n'esse momento, o que annos depois havia de acontecer.
Já Luiz Napoleão era presidente da Republica quando, por occasião de um baile no Elyseu, se encontrou com a condessa de Montijo, e com sua filha Eugenia, condessa de Teba. Foi n'essa noite que principiou o romance de amor. Luiz Napoleão ficou encantado com a bella castelhana.
Apesar de se estar em plena republica, o presidente fizera-lhe a _côrte_ na côrte, porque o presidente rodeava-se de esplendores verdadeiramente realengos. Preparava elle então o golpe d'estado, e dissera a Eugenia de Montijo:
—Estamos em vesperas de grandes acontecimentos, e não quero sujeitar-vos ao perigo das eventualidades. Voltai para Hespanha e, se eu triumphar, convidar-vos-hei a vir occupar o throno da França.
Mademoiselle de Montijo respondera:
—Aconteça o que acontecer, serei vossa mulher. Se as vossas esperanças se mallograrem, viveremos no meu paiz, talvez mais felizes do que no throno da França.
Como se vê, a condessa de Teba respondera precisamente á pergunta... em verdadeiro genitivo amoroso. Voltando a Hespanha, mademoiselle de Montijo levava comsigo um talisman, que era o penhor da sua felicidade futura: um alfinete que representava uma folha de trevo em esmeraldas, contornada de brilhantes.
Tinha sido o premio com que a fortuna a favorecera n'uma loteria organisada pelo presidente da republica em Compiégne. Conservou-o sempre, e só se desapossou d'esse alfinete fatidico depois da morte do principe imperial. Então, vendo desmoronado todo o castello das suas esperanças de mãi, disse um dia, em Chislehurst, á duqueza de Mouchy:
—Considerei toda a minha vida este alfinete como um talisman encantado. Era a minha mais querida reliquia. Não quero que fique abandonado: dou-vol-o como um penhor de felicidade e de terna amizade.
A duqueza de Mouchy nunca mais deixou de trazer o alfinete da imperatriz.
Ascendendo ao throno imperial da França pelo processo que toda a gente conhece, Luiz Napoleão, tres annos depois, em Janeiro de 1853, annunciava aos poderes do estado a sua resolução de casar por amor.
O imperador proclamou no sentido de mostrar a inconveniencia dos casamentos politicos, que serviam menos a estreitar as boas relações internacionaes do que os processos de uma politica leal, que elle, aliás, diga-se a verdade, nem sempre seguiu. A questão do Mexico é uma prova do que affirmamos. Occupar-nos-hemos mais tarde d'este desgraçado acontecimento, quando tivermos que fallar da imperatriz Carlota, a segunda imperatriz cuja biographia bosquejaremos.
A proclamação do novo imperador terminava por estas palavras:
«Venho, pois, meus senhores, dizer á França: Prefiro uma mulher que eu amo e que respeito a uma mulher desconhecida, cuja alliança apenas traria vantagens contrariadas por sacrificios. Sem desdenhar de ninguem, cedo á minha inclinação, mas só depois de ter consultado a minha razão e as minhas convicções. Finalmente, antepondo a independencia, as qualidades de coração, a honra de familia aos preconceitos dynasticos e aos calculos da ambição, não serei menos forte, porque serei mais livre.
«Brevemente, dirigindo-me a Notre-Dame, apresentarei a imperatriz ao povo e ao exercito; a confiança que elles depositam em mim asseguram a sua sympathia por aquella que eu escolhi, e vós, meus senhores, desde que a conheçais, ficareis convencidos de que ainda d'esta vez fui inspirado pela Providencia.»
O casamento realisou-se na igreja de Notre Dame a 30 de janeiro d'esse anno.
Uma tradição hespanhola diz que as perolas, com que no dia do casamento se adornam as noivas, virão a converter-se em outras tantas lagrimas.
Eugenia de Montijo não deu importancia a esta tradição, e completou a sua _toilette_ de noiva com um collar de perolas.
A tradição não mentiu d'esta vez.
A imperatriz vendeu o collar, com as suas outras joias, depois da guerra franco-prussiana.
Os imperadores foram viver para o pequeno castello de Villeneuve-l'Etang, que ainda está de pé no parque de Saint-Cloud.
Vinte e quatro horas depois do casamento, os noivos passeavam n'um phaeton, que o imperador guiava, através dos bosques estrellados de neve, que um bello sol de inverno doirava.
Que importava que a neve espelhasse a desolação do inverno, se os corações dos noivos, ardentes de amor e florescentes de esperanças, cantavam o epithalamio das suas nupcias, n'essa melopea intima que é a melodia do silencio!
Eu estou soccorrendo-me de um livro já este anno publicado em França, SOUVENIRS INTIMES DE LA COUR DES TUILERIES. Authora madame Carette, _née_ Bouvet. Madame Carette é neta do almirante Bouvet, e foi distinguida pela imperatriz com muitas attenções por occasião da viagem dos imperadores á Bretanha, em 1858. Mais tarde, madame Carette entrou nas Tulherias como segunda leitora da imperatriz, porque a primeira era a condessa de Wagner de Pons.
No fundo d'este livro revela-se uma pequena vaidade de mulher: a imperatriz fizera reparo na então mademoiselle de Bouvet, quando a viu na Bretanha, por a ter achado formosa.
Um traço final do livro trae um pouco a intenção da authora. Conta madame Carette que em 1865, por occasião da cholera morbus, indo a imperatriz visitar com a sua leitora os hospitaes, lhe dissera, no de Santo Antonio, ao entrar n'uma enfermaria de variolosos:
—Não quero que entreis. Poderieis ficar feia, e ser-me-ia difficil casar-vos.
Revela-se aqui a mulher, _Chassez le naturel, il revient au galop_.
As recordações de madame Carette teem, é certo, o peccado original da parcialidade fanatica, da dedicação amavel, mas, em compensação, levantam o véo da vida intima das Tulherias, e põem em evidencia alguns factos interessantes do _ménage_ imperial.
Madame Carette não é precisamente uma estylista. Nas Tulherias o seu cargo de leitora era apenas um pretexto. Não teve por isso occasião de cultivar estheticamente o espirito com os primores litterarios de que a França é tão opulenta. Mas escreve com a facilidade e elegancia que são proprias de toda a mulher franceza bem educada.
Sob o ponto de vista da contextura historica, o livro é ás vezes descosido, e outras vezes futil. Mas, descontado o que elle tem de parcial, de frivolo e de truncado, offerece ainda assim um pequeno filão, que se póde explorar com interesse.
Madame Carette, remontando-se a 1858, dá o seguinte retrato da imperatriz:
«Era de estatura mais do que média; podia dizer-se alta. As feições regulares, e a linha extremamente delicada do perfil tinha a perfeição de uma medalha antiga com alguma coisa de intraduzivel, um peregrino encanto pessoal, que fazia com que se não podesse comparar a outra mulher; a fronte, elevada, e rectilinea, escanteava-se apertada, as sobrancelhas, longas e delicadas, eram um pouco obliquas; as palpebras, muitas vezes descidas, seguiam a linha dos supercilios velando os olhos pouco distanciados, o que era um caracteristico da physionomia da imperatriz: dois bellos olhos de um azul vivo e profundo, opulentos de sombra, de alma, de energia e de doçura; bastariam os olhos para dar relevo a uma physionomia. O nariz, descendo correctamente desde a raiz até ás fossas, finamente recortadas, denunciava uma raça aristocratica; a bocca, pequenissima, tinha contornos de uma graça exuberante, e um sorriso irresistivel animava essa bocca encantadora; os dentes eram brilhantes, o queixo descrevia uma curva delicada, que se dilatava contornando a face, nitidamente colorida, de uma brancura transparente. A pelle, muito fina, deixava vêr o tecido das veias, e fazia pensar no sangue azul da velha nobreza castelhana. O pescoço alto, esculptural. Os hombros, o peito e os braços lembravam uma estatua. A cintura estreita, mas redonda, os dedos afilados, os pés tão pequenos como os de uma creança de doze annos. O ar gracioso e nobre, cheio de distincção nativa. O andar facil, desembaraçado. Finalmente, uma completa harmonia entre a pessoa physica e a pessoa moral: n'isso estava, creio eu, o segredo do seu irresistivel encanto.»
Durante os primeiros tempos de casada, a imperatriz tivera dois móbitos. A razão de estado fazia com que o imperador desejasse ávidamente um filho.
Quando pela terceira vez a imperatriz se achou gravida, o drama da maternidade, chamemos-lhe assim, ameaçou, durante tres dias e tres noites, um desenlace fatal. Para salvar o filho seria preciso arriscar a vida da mãi. Consultado pelos medicos, o imperador respondeu n'esta dura alternativa:
—Não pensem senão na imperatriz.
Como o momento fôsse decisivo, a obstetricia teve que ser precipitada, o que prejudicou grandemente o organismo da imperatriz. Soube-se isto fóra das Tulherias, e d'aqui nasceu certamente o boato calumnioso de que se não pudera salvar o filho para garantir a existencia da mãi. Disse-se por essa occasião que o principe imperial era uma creança qualquer que o imperador adoptára para acautelar a estabilidade da dynastia. Mas tudo quanto se passou depois, os carinhos da imperatriz para com o herdeiro do throno, a sua dolorosa heroecidade na viagem á Zululandia, quando o joven principe foi morto, provam ainda mais, e melhor; do que as affirmações de madame Carette.
O que é certo é que, depois de tão laborioso parto, a saude da imperatriz ficára muito affectada, a ponto de que sua magestade, segundo o testemunho da sua leitora, _ne pouvait se soutenir que grâce à un appareil d'acier, dissimulé sous ses vêtements_.
A fim de que a imperatriz podesse fazer a sua _toilette_ o mais commodamente possivel, os vestidos desciam do andar superior por meio de uma especie de _montecharge_. Este descensor mecanico, e um tubo acustico que communicava com o guarda-roupa, poupavam muito tempo, e incommodo para a imperatriz.
Pois tambem o descensor serviu de cavallo de batalha para a maledicencia dos pamphletarios. Toda a gente sabe como o imperio de Napoleão III foi politica e pessoalmente atacado. Vive ainda a senhora que, alvo de crueis diffamações, se sentava a esse tempo no throno da França. Não está nos meus habitos faltar ao respeito a ninguem, muito menos a uma dama que a desgraça feriu. Mas nem mesma madame Carette se exime a recordar as calumnias que por muitas vezes foram morder o manto da imperatriz.
É visivel a intenção com que madame Carette, referindo-se á princeza de Metternich, embaixatriz de Austria, essa captivante _jolie laide_ que tanta impressão causou em todo o Paris, escreve: «A imperatriz tinha uma grande sympathia por esta mulher seductora, attraía-a a vivacidade do seu espirito e conversava familiarmente com ella quando as circumstancias officiaes e mundanas as reuniam; mas não havia intimidade entre ambas. Com excepção de sua joven prima a princeza Anna Murat, depois duqueza de Mouchy, que a imperatriz estimava muito, nenhuma outra mulher, além das damas de serviço, a menos que se não desse uma circumstancia rarissima, era recebida nas Tulherias sem audiencia.»
Foi o principe de Metternich que no dia 4 de setembro offereceu o braço á imperatriz, que, como se sabe, teve que sahir precipitadamente das Tulherias.
Renunciando depois d'isso á vida diplomatica, o principe reside algum tempo em Vienna, com a princeza, ou nas suas terras da Bohemia. Hoje, a encantadora princeza de Metternich, que tanto ruido fizera em Paris, pela graça do seu espirito e pelo esplendor das suas _toilettes_, que mandava buscar a Vienna ou que encommendava a Worth, o celebre _couturier_ do imperio, tem a cabeça corôada de cabellos brancos, é avó.
Madame Carette, depois de rebater delicadamente a calumnia que o nome da princeza de Metternich lhe suscitára, lembra que a imperatriz gostava de vêr-se rodeada por uma côrte de mulheres bonitas. Ora madame Carette fazia parte da côrte. Ah! nada se deve perdoar tão facilmente a uma mulher bonita como o lembrar-se de que o foi, mesmo quando não o é já!
II
A côrte das Tulherias, descripta por madame Carette, revela a vida um pouco frivola, e até um pouco mexeriqueira, de todas as côrtes, mas tinha a vantagem de ser, quanto á belleza das damas que rodeiavam a imperatriz, constituida em harmonia com a celebre phrase de Francisco I: uma côrte sem mulheres é um anno sem primavera, e uma primavera sem rosas.
A _entourage_ feminina era numerosa, e gentil. Os lyrios da belleza floresciam nas Tulherias como n'um jardim que a primavera esmalta. Madame Carette esboça o perfil de todas as grandes damas que rodeiavam a imperatriz Eugenia. Faz passar diante dos nossos olhos a viscondessa de Aguado, marqueza de las Marismas, bella e espirituosa, mãi da duqueza de Montmoreney, uma mulher elegante que morreu aos trinta annos. A insinuante condessa de Montebello, que tinha sido a amiga intima da duqueza de Alba, e que fôra embaixatriz em Roma, onde brilhára como estrella no corpo diplomatico. Madame de Malaret, de uma rara elegancia de linha. A marqueza de Latour-Maubourg, filha do duque de Trévise, sempre muito ciumenta do marido. Um dia perguntaram-lhe o que ella faria se soubesse que o marido a enganava. Morreria de espanto, respondeu a marqueza. A baroneza de Pierres, que era a mulher da França que montava melhor a cavallo. A condessa de la Bédoyère, uma _virtuose_ distinctissima, que tinha a belleza das mulheres do tempo de Luiz XIV. Viuva em 1869, casou com o principe de Moskowa, porque a sua belleza chegava á vontade para fascinar dois maridos. A condessa de la Bédoyère tinha uma irmã, a condessa de la Poëze, e ninguem como estas duas irmãs possuia em grau mais eminente o que póde chamar-se _l'esprit des cours_. A condessa de Rayneval, formosissima, não casou nunca: era _chanoinesse_ n'uma ordem da Baviera. Foi ella que serviu de modelo para a Musa, que no celebre quadro d'Ingres corôa a cabeça de Cherubini. A baroneza de Viry-Cohendier, em cujo rosto brilhavam dois olhos, que pareciam carbunculos. A princeza Anna Murat, d'uma belleza loira, fresca, primaveril. A duqueza de Malakoff, o mais puro typo da belleza andaluza. A duqueza de Morny, uma flôr de neve da Russia, colhida pelo duque que alli fôra embaixador, e que representára olympicamente a França na coroação do czar Alexandre II. A duqueza de Persigny, loira como Daphne. A esta pleiade de mulheres encantadoras viera reunir-se, nos ultimos dez annos do imperio, a famosa princeza de Metternich. E occupando o centro d'este systema planetario de bellezas femininas, um sol: a imperatriz.
Havia nas Tulherias um _salão azul_ que a imperatriz quizera dedicar exclusivamente á belleza, povoando-o com os retratos das mais formosas damas da sua côrte. Nas telas que revestiam as paredes, cada dama personificava uma das grandes nações da Europa. A princeza Anna Murat representava a Inglaterra, a duqueza de Malakoff a Hespanha, a duqueza de Morny a Russia, a condessa Walewska a Italia, e no meio de toda esta constellação desenhava-se o perfil da imperatriz sobre um medalhão sustentado por figuras allegoricas.
O incendio das Tulherias, depois da quéda do imperio, carbonisára essas notaveis télas, de que ficaram apenas, aqui, alli, fragmentos indemnes, vestigios d'esses retratos que resumiam toda a graça feminina da França imperial.
De resto a vida das Tulherias agitava-se nas mil intrigasinhas e rivalidades de que as mulheres, ainda que sejam encantadoras, não sabem emancipar-se. Eram frequentes as tempestades n'um copo d'agua. Por exemplo. Um anno, no dia da festa da imperatriz, a 15 de novembro, resolveu-se fazer quadros vivos, reproduzir o _Déjeuner champêtre_ de Watteau. Foi a princeza de Metternich, que tinha uma rara habilidade para este genero de divertimentos, quem ficou encarregada da distribuição dos personagens e dos _costumes_.
A duqueza de Persigny devia entrar no quadro, mas, não tendo gostado do _costume_ que a princeza lhe distribuíra, declarou que se vestiria a capricho, e que appareceria com os cabellos soltos,—uns bellos cabellos loiros, opulentos como uma floresta.
—Quero, dizia a duqueza, que me vejam o cabello.
—É impossivel! replicava a princeza de Metternich. Isso desarranja o quadro!
A condessa insistia com a terrivel logica que até nos caprichos é um dos poderosos apanagios do seu sexo:
—Nós fazemos isto para nos divertirmos, e a mim diverte-me apparecer com o cabello solto.
—Nada, não! Ou a condessa ha de submetter-se como nós todas, ou não entra no quadro.
Mas a condessa continuou a reagir.
A princeza de Metternich, exasperada, correu ás Tulherias, foi levar ao conhecimento da imperatriz este grave negocio de estado.
A imperatriz sorriu, e aconselhou:
—Deixe lá, princeza. É uma novidade que talvez produza effeito.
—É uma festa estragada!
—Mas, princeza, o que quer fazer? A condessa, de qualquer modo que appareça, ha de ser sempre bonita. Seja indulgente com ella. De mais a mais sabe que a mãi de madame de Persigny está doida?
—Ah! ripostou a princeza. A mãi de madame de Persigny é doida? Pois meu pai tambem o é. Não cederei.
E assim era, realmente. O conde Chandor, pai da princeza de Metternich, que era o melhor _sportman_ da Europa, avariou o cerebro á força de trambolhões com que se vingavam do seu calção audacioso os cavallos insubmissos.
Outro exemplo das mil _coisissimas nenhumas_ que preoccupavam ás vezes a côrte das Tulherias.
A condessa de Wagner, que tinha setenta annos, mas que havia sido uma bonita mulher, appareceu uma vez nas Tulherias com uma cabelleira loira similhante á que a Schneider exhibia na _Bella Helena_.
Madame Carette desatou a rir quando a viu, e a imperatriz, que n'esse momento sahia do seu gabinete, quiz saber o motivo de tamanha hilaridade. Madame Carette disse-lh'o, e a imperatriz quiz vêr, através de uma vidraça, a cabeça de Medusa da condessa de Wagner. Viu, e tambem desatou a rir. Mas, passado o primeiro momento, ordenou a madame Carette:
—Diga da minha parte á condessa que lhe peço para tirar immediatamente a cabelleira. Que ridiculo para a minha côrte, se se soubesse!
Nem nas altas espheras sociaes o espirito feminino perde a fragilidade pueril que lhe é propria. A imperatriz, que dirigiu muitas combinações politicas, e que para esse effeito era sempre a mulher do imperador, deixava-se enleiar muitas vezes, como qualquer simples mortal, nas espiras d'essas duas serpentes graciosas que se enroscavam nos seus nervos de mulher: o sangue de hespanhola e a frivolidade parisiense.
Sempre que o ciume lhe cravava no coração a garrasinha adunca, apparecia na imperatriz a mulher, e só a mulher.
O imperador que, como sabemos, tivera pela imperatriz uma paixão de Romeu, principiára, dentro da primeira década da vida conjugal, a morder a maçã do paraiso terrestre.
Ora a condessa de Castiglione, filha das primeiras nupcias do marquez de Oldoini, ha pouco fallecido, fizera sensação quando pela primeira vez appareceu n'um baile _costumé_ das Tulherias. A condessa ainda vive hoje. Deve estar velha, como todas as bellas damas d'aquelle tempo, mas a sua belleza era, em 1860, a de uma estatua grega, esculptural, posto que dura.
A imperatriz ardia em ciume por causa da condessa de Castiglione, que conseguiu distanciar da côrte. N'um dos ultimos bailes das Tulherias, em que a imperatriz appareceu em _costume_ de Marie Antoinette,—a imperatriz teve sempre uma viva sympathia pela memoria de Marie Antoinette,—a condessa de Castiglione, que não tinha sido convidada, foi reconhecida n'uma esplendida _toilette_ negra, de viuva, representando _Marie de Medicis_. A imperatriz, sabendo que era a condessa, mandou-lhe ordem por um camarista para que sahisse immediatamente.
Em 1860, o principe Jeronymo déra uma festa no Palais-Royal em honra da imperatriz, que deslumbrou todos os olhos quando entrou na sala com um vestido de tulle branco e uma grinalda de violetas de Parma, porque a imperatriz fez da violeta a flôr imperial.
Á uma hora da noite sahiam o imperador e a imperatriz, encontrando-se na escada com a condessa de Castiglione.
—Chega muito tarde, condessa! disse-lhe galantemente o imperador.
—Sois vós, sire, que sahis muito cedo! respondeu a condessa.
Póde calcular-se a scena de ciume que se passára dentro do _landeau_ imperial, caminho das Tulherias.