Historias Brazileiras

Part 6

Chapter 63,791 wordsPublic domain

ROCHA (_muito apressado_).—Emfim, posso dizer que a amo, Isabel... que a adoro, a idolatro...

RIBEIRO.—E é com esses confeitos que os poetas nos dão batalha e nos vencem.

ISABEL (_com constrangimento_).—Devéras eu... estimo muito o meu primo... admiro o seu talento... mas...

ALBERTO (_chegando-se e em tom de supplica_).—Falle, D. Isabel... estou soffrendo como um desgraçado.

RIBEIRO (_admirado_).—Então que é isto? Você diz que...

ISABEL.—Eu... não amo a meu primo...

TODOS.—Oh!

(_Olhão-se uns para os outros: Alberto está muito alegre: Ribeiro pucha o beiço, como pessoa que labora em grande duvida._)

RIBEIRO.—Essa não está má! (_Para Isabel_) Então você de quem gosta?

ISABEL (_enrubecendo_).—De ninguem, papae...

ALBERTO (_com tom de supplica_).—D. Isabel...

ROCHA (_implorando_).—Oh! minha prima, que cruel momento! Por que crime estarei expiando tanta dôr! Os meus versos, os meus cantos devem já lhe ter dito quanto amor lhe consagro, e entretanto... quando tudo parecia indicar o final de um soffrimento immenso, uma unica palavra sua, cruel, implacavel, veio me atirar em abysmo insondavel...

(_Durante este tempo Alberto, que tem fallado com seu pae, empurra-o para que se adiante._)

LEMOS.—Sr. Ribeiro, eu... venho lhe pedir a mão de sua filha...

RIBEIRO.—Homem, é excellente! Até você é candidato?...

LEMOS (_apressadamente_).—É para meu filho... meu filho Alberto...

D. RITA (_graciosa_).—É uma cousa muito possivel.

RIBEIRO.—Mas ella diz que não quer ninguem: que hei de...

ISABEL (_intervindo com animação_).—Papae, eu não disse isto...

RIBEIRO.—Então você aceita o Alberto?

ALBERTO (_sofrego_).—D. Isabel... minha sorte depende da senhora...

ISABEL (_confusa_).—Se... papae... consentir... Querendo a mamãe...

RIBEIRO (_risonho_).—Ah! sonsinha, isto é namoro velho. (_Para D. Rita_) E a senhora não me dizia nada!...

D. RITA.—Eu de nada sabia...

RIBEIRO.—Pois eu... tambem ignorava. Em todo o caso dou com ambas as mãos o meu pleno consentimento.

D. RITA.—Eu com a maior satisfação...

ROCHA (_adiantando-se com ar sombrio e theatral_).—E eu? Que fazem de mim? De mim que entrei hoje aqui com um céo na alma, e saio com a morte no coração!... A quem hei de maldizer?... Só a meu destino?

RIBEIRO (_puchando-o pela sobrecasaca_).—Ora, deixe-se d’isso, Alfredo, e vem comer o nosso peixe.

ROCHA (_encara fixamente e por instantes Ribeiro: depois exclama_).—Não quero comer o seu peixe! (_Sahe arrebatadamente._)

SCENA XVIII

LEMOS, ALBERTO, RIBEIRO, D. RITA E ISABEL.

RIBEIRO.—Vai o pobresinho furioso (_levantando os hombros_). Hão de vocês vêr que versalhada sahe d’aquelles furores. O certo é que no fim de contas faz-se um casamento com quem ninguem contava...

LEMOS.—Agrada-lhe menos...

RIBEIRO.—Qual!... Está muito conforme com as minhas idéas... Não tróco o meu novo genro por uma duzia de Farias ou uma carregação de poetas... Agora todos juntos, vamos á mesa beber á saude dos noivos... Comeremos do tal peixe por quantos deixárão de lhe chupar as espinhas... Á mesa e depressa... porque, como diz o proverbio: «_Da mão á boca se perde a sôpa._»

(_Cahe o panno._)

FIM DA MÃO Á BOCA SE PERDE A SOPA.

CAMIRAN A KINIKINAO

EPISODIO DA INVASÃO PARAGUAYA EM MATTO GROSSO

CAMIRAN A KINIKINAO

Camiran era uma infeliz velha kinikináo, que passava os dias a prantear a morte de um filho unico, baleado em acção de guerra pelos paraguayos.

Os seus olhos não derramavão lagrimas; mas o seu corpo mirrado pela consumpção mostrava que uma dôr immensa ia aos poucos lhe devorando a vida. Tudo era motivo para recordar-lhe o valente mancebo, que o chumbo inimigo havia feito cahir para sempre nos campos do Aquidauana. O sol que irrompia deslumbrante, a lua que despontava serena, a nuvem que corria nos céos, a chuva que humedecia o solo, o vento que gemia ou a brisa que sussurrava, trazião-lhe de prompto á lembrança algum facto que se prendia á existencia de seu adorado filho.

Então Camiran, em voz alta e tremula, n’um canto que mais tinha de resignação do que de desespero, contava como e quando elle havia contemplado o sol ou a lua a nascerem, quando fitára a nuvem passageira, se abrigára da chuva, contendêra com o furacão ou refrescára o corpo ás caricias de branda aragem.

Vivia agora da caridade dos seus, caridade, porém, sem vexame para quem a recebia, por isso que todos á porfia vinhão expontaneamente depôr em sua choupana algum alimento escasso sem duvida, pois para todos escasseára, mas dado de coração.

N’esse tempo a gente kinikináo experimentava uma dura provança. Expulsa em principios do anno de 1865 pelo terror da invasão paraguaya que então assolára repentinamente o districto de Miranda, havia ella vagado longos mezes por matas e agruras antes de poder assentar arraiaes ao abrigo do inimigo.

Tambem quem deixára de soffrer!

A columna devastadora vinha dirigida pelo coronel Resquin que, em nome da republica do Paraguay, levára inopinadamente a guerra ao seio do Brasil.

O ataque havia sido tão pouco esperado que os batalhões paraguayos, sem opposição alguma á sua marcha de conquista, forão tangendo adiante de si toda a população tomada de sorpreza e possuida de immenso pavor.

Ao passar a divisa do Imperio, Resquin destacára de sua força de mais de cinco mil bayonetas uns seiscentos homens para irem abafar a resistencia do tenente Antonio João na colonia de Dourados.

Valente homem aquelle tenente!

Isolado no fundo dos sertões, sentinella perdida da fronteira, morreo como um heróe, ao lado de onze companheiros em quem infundira a coragem e o patriotismo que lhe inflammavão o peito.

Não podia esperar soccorro de ninguem. Encerrado em sua palissada, tinha diante e ao redor de si a immensidade do deserto.

Avisado dous dias antes, que para Dourados marchava uma força imponente, não quiz desamparar o posto. Reunio a gente da colonia e fez-lhe uma falla em que citou francez e até latim.

O homem tinha pretenções litterarias que afagava com certo orgulho, e se revelavão nos officios mensaes que costumava dirigir ao chefe militar de Nioac.

N’essa falla elle expôz as circumstancias em que se achava a colonia e a loucura da resistencia, e terminou dando a todos licença para o abandonarem.

Elle ficaria.

—Para que? perguntárão uns soldados.

—Para morrer!

Onze de seus commandados declarárão que ficarião tambem.

Todos os mais partirão: mulheres, crianças, velhos e até moços.

Antonio João esperou então os inimigos da patria. Fez içar a bandeira do Brasil e preparou com esmero o officio com que havia de responder á intimação do invasor.

No dia 28 de Dezembro de 1864 um soldado, que sahira a cavallo a devassar a redondeza, voltou a galope.

A vanguarda paraguaya vinha já apparecendo.

Antonio João mandou tocar a reunir e distribuio os seus onze fieis pela palissada. Cada um tinha uma espingarda a Menié, duas clavinas carregadas ao lado e não lhes faltava nem munição, nem valor.

Por todos os lados se abrião campos immensos, campos que já se ião tingindo de vermelho. Erão os paraguayos, cujas blusas côr de sangue vivo maculavão a verdejante relva.

—Estão todos promptos? perguntou Antonio João á sua gente.

—Todos, respondêrão os onze.

—Então amparem-se com Deos, porque ninguem se entrega.

—Ninguem! repetirão os onze.

Era Leonidas no meio dos lacedemonios.

De repente soou o clarim paraguayo.

Um parlamentario se approximava.

A bandeira brasileira desdobrou-se aos ventos do deserto. Parecia ufana de abrigar aquelles doze sublimes insensatos. Losango amarello sobre fundo verde; côres que mandão um sorriso de consôlo ao moribundo, quando elle lhes deita o olhar de adeos no campo da batalha. A corôa imperial como que preparava-se para descer sobre aquellas cabeças, transformada em corôa de gloria.

Antonio João prezava-se de civilisado: recebeu, pois, com a maior cortezia o enviado.

A intimação era curta: meia duzia de palavras, insolentes, como costumavão alinhar os generaes de Lopez.

O commandante de Dourados rasgou em pedaços o officio que preparára com tanto cuidado e carinho, e a lapis traçou esta resposta:

«Sei que morro, mas o meu sangue e o de meus companheiros servirá de protesto solemne contra a invasão do solo da minha patria.»

E assignou com mão firme:

«Antonio João da Silva.»

Os paraguayos o chamárão de louco, e nem faltou brazileiro que ao depois dissesse o mesmo.

Retirou-se o parlamentario, e a força inimiga em distancia cercou todo o campo. Para qualquer lado que os defensores de Dourados deitassem os olhos, virão um cordão vermelho que vinha se apertando.

Na guarnição não houve alma que fraqueasse. Quanto mais se demorava aquelle ataque disproporcionado, mais crescia o enthusiasmo.

—Viva o Imperador! gritou de repente Antonio João.

Era o signal de fogo. Os brasileiros dispararão a um tempo as armas, ligeira detonação para aquellas vastidões, respondida por uma immensa repercussão.

O heróe brazileiro cahio ferido mortalmente.

—Fogo, minha gente, fogo! gritou elle nos arrancos da agonia.

Raros obedecêrão á ordem.

D’ahi a pouco era arreada a bandeira da palissada, mas ella desceu com ufania como bandeira de victoria e, quando tocou o chão, uma das suas dobras foi se ensopar no sangue d’aquelles que tanto a havião ennobrecido.

Parecia enrubescer de orgulho.

Os paraguayos fizerão justiça a Antonio João.

—Era um valente! disserão elles. Se o Brazil tiver muitos d’esses, a nossa marcha por Matto-Grosso não será um simples passeio militar, como nos contárão.

Outra vez repetirão isto.

Foi alguns dias depois, perto do rio Feio para lá da colonia de Miranda seis legoas.

Ahi quem se impoz á admiração dos inimigos foi um paisano, Gabriel Barboza.

Era mineiro esse; fazendeiro perto de Nioac, homem já feito, robusto de corpo e estimado. Devia se casar quando arrebentou a invasão e trocou as vestes de noivo pelo manto da morte. Dizem que ambos no céo se talhão.

Quando em Nioac, a 26 legoas da fronteira, soube-se que o Apa estava transposto e que Resquin vinha marchando para o Norte, o commandante do corpo de caçadores a cavallo fez montar os seus cento e quarenta soldados, apenou alguns paisanos de boa vontade e marchou ao encontro do inimigo.

Esse commandante gozava de bom nome e estava em condições de prestar grandes serviços. Bemquisto dos seus subordinados e respeitado por todos, podia ter dirigido em regra a resistencia: entretanto mostrou que servia mais para o socego da paz do que para as contingencias da guerra.

Em todo o caso julgou de dever ir em pessoa conhecer a força que pisava terras brazileiras.

Não caminhou muito.

A seis legoas de Nioac parou no rio Feio: do outro lado, encoberta pela mata, estava a columna paraguaya; mais de cinco mil homens, já dissémos.

Era no dia 31 do Dezembro de 1864.

Muita gente pensou que não veria o anno novo.

No rio Feio cambiarão-se notas: Resquin, o commandante paraguayo, mostrou alguma polidez: o brazileiro respondeu-lhe, apurando o tom.

Trocarão-se amabilidades antes das balas.

Era uma imprudencia ter chegado até lá: maior ainda estar a perder tempo.

O que convinha ter feito, fôra recuar em ordem de Nioac, para o que sobrára tempo, arregimentar toda a população valida e os centenares de indios que se apresentárão em Miranda expontaneamente, armal-os e esperar os invasores nos angustos e emboscadas. Assim caro terião pago o seu arrojo.

Em lugar de uma retirada aconselhada pelas circumstancias, retirada que poderia ter produzido uma resistencia notavel, o commandante do corpo de caçadores a cavallo avançou imprudentemente, vio a sua tropa quasi toda debandada na volta para Nioac e, incutindo terror panico em todos os habitantes, foi atropelladamente para a villa de Miranda, d’onde tomou rumo de Sant’Anna do Paranahyba, depois de uns dias de vacillação que mais concorrerão para destruir qualquer intenção de pôr peito á invasão estrangeira.

Aquelle official, cuja fé de officio era honrosa, de certo n’um dia de combate havia de sustentar com dignidade a sua posição, mas não tinha cabeça para organisar a defeza de uma grande zona.

Ah! se fôra Antonio João!

Como diziamos, Gabriel Barboza se alistára entre os voluntarios. Montava um cavallo magro e trazia uma espingarda de dous canos de caçar onças.

A manhã de 1 de Janeiro de 1865 raiou, quando o tiroteio já havia começado. Na mata da margem esquerda do rio Feio estavão emboscados os paraguayos, na da direita os brazileiros, isto é, soldados de cavallaria que havião posto pé em terra. Commandava-os um valente capitão, Pedro José Rufino, homem envelhecido nas fileiras, cheio de serviços e esquecido ha muito no fundo de Matto-Grosso.

Os nossos atiravão bem, e um outro vulto vestido de baeta vermelho estirado no chão immovel mostrava a certeza do fogo. Um cadaver rolára mesmo pela barranca abaixo e tingia de sangue a agoa em que mergulhava o tronco.

A fuzilaria rolava forte, quando soou um grito:

—Os paraguayos estão passando o rio!

Immediatamente o clarim do 1.º corpo de caçadores deu signal de retirar.

De facto já dous esquadrões de cavallaria paraguaya estavão na margem direita e vinhão a redea solta sobre os brazileiros.

A principio os nossos retrocederão rapidamente, mas guardando ainda cada qual o seu lugar na fileira; depois a carreira foi-se accelerando, tornando-se vertiginosa, e ao passo que muitos deixavão a estrada geral para se atirar nas matas, os outros mais fincavão as esporas nos ventres de seus cavallos.

Então já não havia mais ordem nem respeito á gerarchia; tratava-se de correr.

De repente Gabriel Barbosa sentio a cavalgadura afrôxar.

O inimigo, apezar de todos os esforços, ainda vinha bastante longe, de modo que um soldado, ao passar pelo mineiro, parou por um pouco e lhe perguntou:

—O seu cavallo _bombeou_?

—Não póde mais comsigo...

—Pois bem, então faça como eu; _fréche_ para aquelle capão que nós cahimos logo na mata do Nioac.

—Não, replicou Barbosa. Estou cansado de correr... Eu fico aqui...

—Mas aqui é morte certa!

O outro fez um gesto de pouco caso.

—Ao menos, disse elle, não mostrarei só as costas aos paraguayos.

E descendo do cavallo, deo-lhe liberdade. Depois escorvou com cuidado a sua arma e parou immovel no meio da estrada.

Ao vêl-o firme, um dos perseguidores, que tomára a dianteira aos outros, apressou ainda mais a carreira que trazia.

Com o rosto braseado de ardor bellico, fazia na mão direita voltear uma espada voraz de sangue, e na esquerda mantinha as redeas frôxas. Ouvia atraz de si o galopar dos companheiros e queria colher a gloria de matar o primeiro brasileiro.

Gabriel Barbosa fez pontaria com vagar e calma.

Um tiro echoou, e o cavalleiro paraguayo cahio, soltando um grito de agonia.

Um segundo teve igual destino e rolou ferido por certeira bala, mas já a esse tempo cinco ou seis outros se havião atirado sobre o brasileiro e depressa o prostrárão sem vida, todo golpeado e lanceado.

Ainda hoje, n’esse mesmo lugar, se vê uma grande cruz lavrada e coberta de desenhos, na qual está gravada esta inscripção:

«Aqui murió el soldado de cabaleria Eusebio Gama en agzion di guera.—Ennero, 1—1865» (_sic_).

Ao pé d’essa cruz esteve por muito tempo atirado, como homenagem aos restos de quem alli descansava, um craneo com dous grandes talhos de espada.

Era o craneo de Gabriel Barbosa.

No dia 2 de Janeiro os paraguayos entrárão em Nioac. Aquella linda povoação estava deserta e em poucos minutos ficou reduzida a cinzas.

Em Miranda, d’ahi a vinte e poucas leguas, n’esse dia, a perturbação tinha tocado ao seu auge. Pela madrugada havião chegado os restos desordenados do 1º corpo de caçadores, e tudo quanto morava nos arredores da villa affluira para ella. A quantidade de indios terenos, laianos, kinikináos, guanás, guaycurús e até cadiuéos, que são, comtudo, perfidos e mal vistos, era consideravel, todos a pedirem em altos brados armas e munições de que estava repleto o deposito de artigos bellicos, para correrem a se metter em emboscadas.

Uns propunhão que se tratasse quanto antes da defesa, e aconselhavão duas esperas excellentes no Lalima e no Laranjal; outros declaravão qualquer tentativa de lucta inutil e impossivel, e só esperavão pela voz de debandada; outros, emfim, e entre os mais notaveis da villa, já nem esperavão por aquelle signal e tratavão de abarrotar de trastes as canôas e igarités em que pretendião descer o rio Miranda, para demandarem a foz do seu affluente, o Aquidauána.

No meio da grita das mulheres, do chorar das crianças, das lamentações dos fracos, do vozear dos indios, dos conselhos desencontrados, das discussões calorosas, aquelles que devião tomar providencias para o bem geral e assumir a responsabilidade de uma resolução immediata, quer no sentido de resistencia, quer no de prompta retirada, perdêrão a cabeça e deixárão-se arrastar pelo movimento da população, que, a 6 de Janeiro, em peso abandonou Miranda na mais extraordinaria confusão.

Nem sequer ficou indicado um ponto em que todos devessem se reunir. Uns seguirão em canôas a procurar refugio nas matas do rio; o maior numero, a pé, tomou a direcção da serra de Maracajú, distante umas vinte leguas, e em cujas brenhas tinhão tenção de se occultar.

Os paraguayos porém vinhão marchando muito vagarosamente; tanto assim que só a 12 de Janeiro é que entrárão na villa, que achárão quasi que completamente saqueada. Erão os indios que, depois da dispersão do povo, havião voltado e agarrado tudo quanto lhes approuve, principalmente armamento e cartuxame.

O deposito continha, comtudo, ainda grande numero de armas e petrechos de toda a qualidade, que o inimigo tratou logo de arrecadar e de remetter para a republica.

—Os brasileiros, dizião muitos paraguayos, cuidavão defender o seu territorio enchendo os cabides de espingardas e de lanças.

Uma vez de posse de Miranda, o coronel Resquin fez sahir um bando que declarou haver d’aquelle dia em diante passado todo o districto a pertencer á republica do Paraguay, debaixo do titulo de districto militar de Mbotetiû, e convidou a população a recolher-se ás suas casas sob pena de serem os recalcitrantes passados, sem appello, pelas armas.

Naturalmente ninguem se apresentou.

Os fugitivos, que tinhão descido por agoa, estavão então occultos no lugar chamado Salôbra, a duas leguas da villa, sujeitos a milhares de privações, e, o que mais doloroso era, dilacerados pela discordia e pelas intrigas.

Tudo era motivo para recriminações e queixumes.

Debalde o vigario de Miranda, Fr. Marianno de Bagnaia, homem virtuoso e querido quer de brancos, quer de indios, tentava restabelecer a paz, tão necessaria n’aquellas tristes conjuncturas. Não era ouvido, e mais de uma vez vio-se desrespeitado.

O acampamento dos refugiados em pouco tempo tornou-se intoleravel para muitos: uns tocárão as suas canôas para ir mais longe fazer rancho á parte; outros, em pequeno numero, forão espontaneamente se apresentar aos paraguayos.

Entre estes figurava frei Marianno. O piedoso capuchinho sentia-se fraco e acabrunhado diante de tamanha desgraça, e as suas lagrimas corrião a miudo ao lembrar-se de tudo quanto os indios, a quem chamava de filhos, estarião soffrendo, esparsos pelos montes, ou sem duvida cahidos em poder do inimigo.

Depois de haver penetrado no seu espirito a idéa de se entregar ao invasor e obter d’elle compaixão para todas aquellas victimas—mulheres principalmente e debeis crianças—, não descansou um só instante, até ir, acompanhado do tenente João Faustino do Prado e do alferes João Pacheco de Almeida, se apresentar em Miranda no dia 22 de Fevereiro de 1865.

Havia na villa uma razão que o attrahia com força irresistivel: era a igreja matriz que construira com grande trabalho, empregando n’ella os seus magros vencimentos e tudo quanto conseguia da caridade dos freguezes.

Correr portanto a igreja para dizer missa foi o que fez logo frei Marianno, n’um estado de jubilo difficil de descrever. Quanto tempo havia passado longe d’aquelles altares, arredado de todos os objectos de seus extremos, de sua adoração!

As ruinas que por toda a parte o cercavão, casas derrubadas, a meio incendiadas, ruas atravancadas, por todos os lados signaes da destruição, nada o impressionava, nada lhe detinha os passos.

Elle voava para a sua matriz.

Ahi tambem o esperavão destroços que tomavão o caracter de negro sacrilegio. As torres sem os sinos, os altares despidos dos santos ornatos, o tecto esburacado, o chão coberto de caliça e caibros, as imagens mutiladas, de prompto ferirão os olhos de frei Marianno.

Então todos os projectos de conciliação desapparecerão-lhe da mente, e elle, transfigurado pelo desespero e pela indignação, no meio d’aquelle templo esboroado fulminou com a sua excommunhão a todos os paraguayos.

A eloquencia selvatica do capuchinho aterrou os que o cercavão.

—Forão os Mbaiás[18], gritou meio assombrado um d’elles.

—Não, não forão! Meus filhos não farião isto, exclamou o frade cuja exaltação não achou limites senão quando de todo lhe faltarão forças para clamar vingança aos céos.

Na manhã seguinte teve ordem de prisão e pouco depois foi transferido para Assumpção[19]. João Faustino do Prado e Pacheco de Almeida escapárão de igual sórte por se terem ausentado da villa no dia mesmo em que n’ella havião entrado.

Que fim, porém, terião levado os indios de Miranda durante todos aquelles inesperados successos?

Mais de dez aldeamentos regulares contava o districto por occasião da invasão paraguaya.

Os terenos, em numero talvez superior a trez mil individuos, estavão estabelecidos no Naxedaxe, a seis legoas da villa, no Ipêgue, a sete e meia; e na Aldêa-Grande, a trez: os kinikináos no Agaxi, a sete legoas N. E.: os guanás, no Eponadigo e no Lauiád; os laianos, a meia legoa—estes todos da nação chané. Dos guaycurús havia aldeamentos no Lalima e perto de Nioac. Quanto aos cadiuêos moravão em Amagalobida e Nabileke, tambem chamado Rio-Branco.

Quando echoou o primeiro tiro n’aquella vasta zona, cada tribu manifestou as suas tendencias particulares. Nenhuma d’ellas, porém, congraçou com o invasor. O _castelhano_ era por todas considerado de longas éras como inimigo figadal e irreconciliavel; umas, comtudo, identificárão-se com as desgraças dos _portuguezes_; outras se separárão d’elles; outras, emfim, começárão a hostilisar a gente de um e outro lado.

Guanás, kinikináos e laianos unirão-se intimamente com a população fugitiva; os terenos se isolárão, e os cadiuéos assumirão attitude infensa a qualquer branco, ora atacando os paraguayos na linha do Apa, ora assassinando familias inteiras, como aconteceu com a do infeliz Barbosa, no Bonito.

Voltemos, porém, aos kinikináos.

Quando alguns soldados do 1º corpo de cavallaria passárão em debandada pelo Agaxi, a aldêa já estava sobresaltada.

—Que vamos fazer? perguntou a um fugitivo o capitão dos kinikináos, Flavio Botelho.

—Fujão todos.

—Para onde?

—Ninguem sabe, foi a resposta. Cada um por si, Deos por todos.

Flavio Botelho era um velho sem prestigio nem prestimo. Tinha um unico merecimento: ser pai de duas lindissimas moçoilas; no mais embriagava-se diariamente sem respeito algum pela patente que possuia e mostrava com grande orgulho, assignada por D. Pedro I.

N’aquella difficultosa emergencia elle esvasiou uma garrafa de aguardente e tratou de dormir.

A gente do Agaxi comprehendeo que mais do que nunca estavão faltos de um chefe, e, por tacito accordo, deixando, comtudo, as honras ao legitimo possuidor, tratárão de escolher alguem que os soubesse dirigir.

Todas as adhesões cahirão sem discrepancia em Pacalalá.

Era o filho de Camiran.

Tinha elle pouco mais de 20 annos; mas era um soberbo indio, côr de cobre vermelho, com feições angulosas, maçãs do rosto salientes, dentes acerados, olhos pequenos e intelligentes, queixo accentuado e denunciando energia.