Historias Brazileiras

Part 5

Chapter 53,414 wordsPublic domain

RIBEIRO.—Sei d’isto.

SIQUEIRA.—E desde então vai alteando... Agora participão-me de Santos por um telegramma reservado balas de algodão, no valor de cento e cincoenta contos, a preço inferior... Se d’aqui a horas o paquete de New-York, que é esperado a todo o momento, dér o augmento de poucos _pences_, tem se feito uma bella operação... A colheita de lá foi má, e o algodão que me offerecem é de qualidade superior...

RIBEIRO (_duvidoso_).—Era bom... reflectir... Assim...

SIQUEIRA.—E o palpite?... Ha occasiões em que é necessario atirar-se... E demais que são setenta contos para V. Ex.?... Trinta contos, com que entro, esses, sim, representão arrojo e segurança...

RIBEIRO (_com enfatuação_).—De facto não é somma fabulosa... mas, emfim, não é meia pataca...

SIQUEIRA (_com voz insinuante_).—Se fecharmos o negocio, d’aqui mesmo expeço o telegramma de compra...

RIBEIRO (_voltando-se para Faria_).—Que diz, Sr. Faria?...

FARIA.—Tanto quanto é dado ao homem prevêr, a operação é excellente... Senão, reflexionemos um pouco...

RIBEIRO (_approximando a sua cadeira da de Faria_).—Sim... sim, reflexionemos um pouco...

FARIA.—Tudo n’este mundo está subordinado a causas, de maneira que para estudar bem os effeitos nas suas menores consequencias é preciso remontar á origem...

RIBEIRO (_abanando a cabeça e voltando-se para Siqueira_).—De certo... subamos á origem...

FARIA (_com tom oratorio_).—Ora bem... Quaes são as causas que produzem no mundo as oscillações do movimento commercial?... Diversas...

SIQUEIRA.—Diversas... não ha duvida.

FARIA.—Mas qual a predominante?... Sem contestação a politica... Qual é hoje a face politica do globo? Paz em todos os Estados... A França exhausta... a Allemanha triumphante... desconfianças por toda a parte, mas a luta armada impossivel por muitos annos. N’estas circumstancias o café, bebida excitante, tende a descer... O algodão sóbe; as fabricas pedem trabalho... A colheita do Egypto falhou; a dos Estados-Unidos foi escassa; a do norte do Brazil não satisfez a expectação. Pelo contrario ha muito café... e depreciado...

RIBEIRO (_approximando mais a sua cadeira_).—Estou o seguindo com anciedade...

FARIA (_batendo compasso com a bengalinha que conservára em mão desde a entrada em scena_).—Depois, não nos esqueçamos de um facto natural... Cada genero tem um preço normal que representa a exacta necessidade da população consumidora. O progresso na ascensão justo e natural está sugeito a rigorosas apreciações estatisticas. O café por muito tempo esteve a tres mil reis por arroba; depois passou a cinco e a sete, onde ficou firme...

RIBEIRO.—Perfeitamente.

FARIA.—Sete é, pois, para assim dizer, o valor intrinseco do café... É o seu ponto de equilibrio...

RIBEIRO.—De certo, de equilibrio (_mechendo com os braços, imitando uma balança_) Isto é uma balança: o fiel marca sete...

FARIA.—A sua comparação é justissima.

RIBEIRO. (_com vivacidade_).—Então gostou?

FARIA.—N’uma concha está o café, na outra...

RIBEIRO (_com rapidez_).—O assucar...

FARIA.—Não, o algodão. Nas nossas condições actuaes, são os dous typos de exportação. O assucar pertence agora ao mundo inteiro: tirão-no da betteraba e até de couros velhos...

RIBEIRO.—É verdade: equivoquei-me...

FARIA.—O café desce: sóbe o algodão...

SIQUEIRA (_intervindo_).—V. Ex. vê como temos tudo calculado... Podemos contar com os seus setenta?

RIBEIRO (_hesitando_).—Talvez... se eu consultasse com o meu socio... o Lemos...

SIQUEIRA.—Qual seu socio!... V. Ex. tem tanto tino! Alem d’isso é irresoluto o tal Sr. Lemos...

RIBEIRO.—De facto... elle não tem golpe de vista... esse lance de olhos que vê uma operação em globo...

SIQUEIRA (_apressadamente_).—Como esta, Sr. Commendador, como esta...

RIBEIRO (_vacillante_).—Não direi tanto...

FARIA.—O que é necessario é passar quanto antes o telegramma...

RIBEIRO (_decidindo-se de repente e levantando-se_).—Pois vá lá: o Lemos era incapaz. (_Apresentando a mão aberta a Siqueira, que a aperta com mostras de muito respeito_). Toque, Sr. Siqueira; está fechado o negocio!... Escreva para Santos...

SIQUEIRA (_dirige-se para a mesa, arranca da carteira uma folhinha de papel e escreve a lapis_).—É já e já... Ouça, Exm.: «Todo o algodão para Siqueira & C.ª Embarque no primeiro vapor.» Agora um criado!

RIBEIRO.—Toque a campa.

(_Siqueira bate n’um tympano_.)

FARIA.—Resolvido este ponto, voltemos ao assumpto (_com fingida commoção_) que fará a minha eterna felicidade.

SIQUEIRA (_para Faria_).—Então vem todo o algodão?

FARIA.—Todo. Se mais houver, que mandem! (_Mudando de tom e voltando-se para Ribeiro_).—Sim, a minha felicidade...

SIQUEIRA (_atalhando_).—E se o telegrapho estiver interrompido?

FARIA (_mudando de tom_).—Está trabalhando... Ha pouco passei um telegramma. (_Voltando-se para Ribeiro_) Na verdade o amor que sinto por sua filha...

(_Entra um criado_.)

FARIA (_dirigindo-se para o criado e com tom imperativo_).—Entregue de minha parte ao Sr. Queiroz, o administrador...

(_O criado sahe_.)

RIBEIRO.—Sim, senhor, Sr. Faria; agora, que nos temos entendido, ha de permittir, com o seu amigo, que eu vá cuidar um pouco de minha pessoa antes de apparecer á mesa. (_Para Siqueira_) Como estava decidido, o senhor fica comnosco...

SIQUEIRA.—Com summo gosto...

RIBEIRO.—Verá que peixe!... Parece pescado em Santos! Vale o seu peso de algodão (_rindo-se_). Não gostárão?

SIQUEIRA (_admirado_).—De que?

RIBEIRO.—Do meu dito...

SIQUEIRA (_rapidamente_).—Oh! muito... esteve excellente.

RIBEIRO.—Eu sou assim... Ás vezes tenho graça, mas graça natural, nada forçada... É como aprecio... Isto de repentes estudados de vespera não é commigo... Meus senhores, até já... Uns minutos tão sómente, e estou de volta.

(_Ribeiro sahe pela porta da esquerda_.)

SCENA VII

SIQUEIRA E FARIA.

(_Siqueira passeia pela sala; Faria está sentado, accende um charuto e põe-se a folhear um album de retratos._)

SIQUEIRA.—Emfim, está feito o negocio!

FARIA (_soltando uma fumaça e com indifferença_).—Está, sim.

SIQUEIRA (_parando defronte de Faria_).—Mas agora, muito seriamente, digo a você uma cousa...

FARIA.—Que é que diz?

SIQUEIRA.—Estou com medo. Não é só o meu dinheiro... mas tambem os setenta contos d’este homem...

FARIA.—Você, medroso, só se lembra dos seus trinta...

SIQUEIRA.—Ora... mas...

FARIA.—Deixe-se de mas... O negocio é bom.

SIQUEIRA (_com anciedade_).—Você acha?

FARIA (_indifferente_).—Acho...

SIQUEIRA.—Mas d’onde lhe vem esta segurança?...

FARIA.—Quererá você que eu lhe repita tudo quanto disse ao meu futuro sogro?

SIQUEIRA.—Não, de certo! Mas, emfim, vamos e venhamos: se o vapor de New-York vier pedindo café e recusando algodão?... Levamos um baque soffrivel...

FARIA.—É possivel...

SIQUEIRA.—E então?

FARIA.—Mas não é provavel, e só é provavel aquillo que um homem serio prevê... O mais é anomalia. (_Batendo n’uma folha do album_) Eis-aqui um facto. Estão n’este album dous retratos... um defronte do outro, como que a se namorarem...

SIQUEIRA (_distrahido_).—De quem são?

FARIA.—Um é o de minha noiva; o outro é o do tal primo, o poeta. Não é possivel que estes dous jovens photographados tenhão inclinação um para o outro?

SIQUEIRA.—Com effeito...

FARIA.—Mas o que é provavel? É que a moça tenha considerado que ella não nasceo para casar com um rapaz muito rico de versos, mas pobre de dinheiro... Ella poderá deixar-se namorar, namoral-o mesmo, mas casar-se... fia-se mais fino... Isto é o que o simples bom senso mostra...

SIQUEIRA.—Admiro o seu sangue frio. Eu não sou assim... facilmente perco a cabeça. Esta compra de algodão...

FARIA.—Ora, deixe-se d’isso. (_Com desprezo_) Trinta contos!

SIQUEIRA.—Sinceramente...

FARIA.—Se você se afflige quando navegamos no mar sereno das probabilidades... que fará quando o vento nos açoutar rijo?...

SIQUEIRA.—Oh! Faria, nem fallar n’isso é bom.

FARIA (_fechando o album com força e levantando-se_).—Pois eu... sou homem para a lucta... e...

(_Um criado entra e entrega uma carta a Siqueira_.)

SIQUEIRA.—Está passado o telegramma... O algodão é nosso...

FARIA.—Ás mil maravilhas... Chegue agora o paquete de New-York e teremos feito um optimo negocio... E não póde tardar... De um lado ganho com o algodão, do outro desfaço-me de um carregamento de café que vinha de Campinas. Sou um general previdente... De mim não se dirá que não cuidei.

SIQUEIRA.—Não, de certo; mas a sorte é tão caprichosa...

FARIA.—Qual sorte! O descuido dos homens é que merece este nome, nada mais, nada menos. Infatuados, pueris, buscão uma explicação sobrenatural para a sua desidia. Porque é que o destino tem sempre me ajudado? Meu amigo, tudo n’este mundo cifra-se no esforço proprio, na iniciativa e nas quatro operações da arithmetica...

SIQUEIRA.—Eu sempre conservo o meu medo...

FARIA.—Você quer me ceder a sua parte?...

SIQUEIRA (_apressadamente_).—Não, não! Afianço-lhe que estou perfeitamente tranquillo...

FARIA.—Pois então não fallemos mais n’isso, tanto mais que ahi vem gente.

(_Ribeiro apparece na porta da esquerda. Vem de casaca_.)

SCENA VIII

SIQUEIRA, FARIA E RIBEIRO.

RIBEIRO (_puchando os punhos da camisa_).—Estou prompto, promptinho... Creio que não me fiz esperar demais...

FARIA.—Não, de certo.

RIBEIRO.—Perfeitamente!... D’aqui a pouco estaremos á mesa. O Sr. Siqueira verá que peixe!...

SIQUEIRA.—V. Ex., porém, me disse que...

RIBEIRO.—Minha excellencia não attinge á d’elle... Não ha môlho que me sirva. (_rindo-se_) Não gostou?

SIQUEIRA.—Muito... mas gostarei ainda mais do peixe...

RIBEIRO.—Sim, senhor; teve tambem espirito. Mas falta-nos o compadre Ignacio... Quererá elle dar ponto hoje? Logo hoje! O certo é que está tardando. (_Ouve-se barulho fóra_). Estão subindo a escada: sem duvida é elle... Deos permitta que não venha muito nervoso!

SCENA IX

SIQUEIRA, FARIA, RIBEIRO E LEMOS.

LEMOS (_entra precipitadamente com ar de grande prostração e atira-se n’uma cadeira_).—Ai! não posso mais... morro de calor... que commoção!

RIBEIRO.—Que tem você?... Estava tardando... O jantar...

LEMOS (_levantando-se precipitadamente_).—Bem se trata de jantar!... Não quero jantar... hoje ninguem deve jantar...

RIBEIRO (_inquieto_).—Mas que ha? Você me assusta...

LEMOS (_passeiando agitado_).—Que ha? É que acabo de comprar uma partida forte de café e recusar algodão. Que ha? É que d’aqui a pouco podemos, com a chegada do vapor americano, ganhar muito ou perder ainda mais. É o que ha!

RIBEIRO.—Comprou café?... Recusou algodão? Estamos bem aviados!... Temos prejuizo certo...

FARIA.—É cousa infallivel!

LEMOS (_reanimando-se_).—Mas porque, homens de Deos? Vocês me pôem doudo...

SIQUEIRA.—Eu me abstinha...

RIBEIRO.—Por certo... mas em alguns falta o lance de olhos...

FARIA.—Querem se apressar...

LEMOS.—Talvez tenhão razão (_com acabrunhamento_). Aquellas saccas de café me esmagão. (_Reanimando-se_) Mas ao menos esperemos pelo vapor de New-York...

FARIA.—Não ha que esperar...

SIQUEIRA.—E para que esperar?

RIBEIRO.—Esperar o que?

LEMOS (_muito abatido_).—É verdade... é verdade...

RIBEIRO (_com seccura e concertando a garganta_).—De modo que o Sr. Lemos, sem me consultar, metteu-se a calculista e...

LEMOS (_deixando-se cahir sentado e no maior desconsolo_).—Tem razão... tem razão... Compadre, o nosso prejuizo é grande...

RIBEIRO (_com muita importancia_).—Isto não é o que mais me aborrece... É vêl-o assim arriscar-se sem prévio conselho meu... Olhe, emquanto o senhor fazia imprudencias, eu realizava com toda a calma uma operação grave, premeditada e de lucros certos. Fechei uma compra de algodão em Santos consideravel...

FARIA (_intervindo_).—É verdade, o Sr. commendador, eu e Siqueira, acabamos de telegraphar, e amanhã poderemos impôr o nosso preço ao mercado.

(_Fonseca entra e ouve as ultimas palavras de Faria._)

SCENA X

SIQUEIRA, FARIA, RIBEIRO, LEMOS E FONSECA.

FONSECA.—Impôr preço ao mercado? De que modo?

FARIA.—Eu lhe explico.

(_Vai para Fonseca e falla-lhe baixo._)

LEMOS (_levantando os olhos para Ribeiro, abatido._)—Você salvou-nos, Sr. compadre...

RIBEIRO.—É sempre assim... Eu já lhe disse muitas vezes que faltava-lhe o palpite...

FONSECA (_alto_).—O negocio é excellente.

SIQUEIRA.—Optimo... mas devéras, estou com medo...

FONSECA.—Pois, então, ceda-me metade do que lhe toca...

SIQUEIRA (_irresoluto_).—Não... não quero... entretanto?

FONSECA (_com superioridade_).—Então ceda-me tudo!

SIQUEIRA.—Tudo?

FONSECA.—Sim, tudo com 20% de lucro. Aceita?

RIBEIRO.—Bonito, bonito, Sr. Fonseca, gosto deste rasgo.

FONSECA.—Então aceita?

FARIA.—Você está com receios... você o da idéa... aceite...

SIQUEIRA (_resolvendo-se_).—Pois vá lá... Eu me contento com pouco. Mas palavra, se o senhor ganhar... tem de me agradecer a lembrança...

FONSECA.—Quer que lhe dê uma clareza?

SIQUEIRA.—Não, senhor, a sua palavra vale ouro.

SCENA XI

OS MESMOS, UM CRIADO.

O CRIADO.—Esta carta urgentissima para o Sr. commendador.

RIBEIRO (_apressadamente_).—Dê-m’a. (_Lê_) Meus senhores, o vapor americano está entrando. Falla-se em alta no algodão...

SIQUEIRA (_com dôr_).—Oh! Faria!... Meu algodão...

FONSECA (_com voz de triumpho_).—Quer comprar a minha parte? 30% de lucro sobre a venda!

SIQUEIRA.—O senhor me mata!

RIBEIRO (_para Lemos_).—Compadre, tem algodão que vender?

LEMOS (_sempre sentado; lugubre_).—E o meu café!... O remedio é bebê-lo todo. Arrebentarei!

(_Ouve-se uma voz fóra gritar_: Meu pai! Meu pai! _barulho na escada_).

RIBEIRO.—Que é isto?

SCENA XII

SIQUEIRA, FONSECA, FARIA, RIBEIRO, LEMOS E ALBERTO.

ALBERTO LEMOS (_vem offegante e mal póde fallar_). Meu pai... o vapor americano... alta no café... algodão desceo!

LEMOS (_dá um grito de espanto e ergue-se da cadeira_).—Café?!... Café?...

ALBERTO.—Pede-se de toda a America do Norte.

TODOS.—Impossivel!

ALBERTO.—Leião! (_Entrega um boletim a Ribeiro, que é logo cercado por todos com grande sofreguidão._)

RIBEIRO.—É verdade! Mas... arredem-se um pouco... Os senhores me suffocão!

LEMOS (_com voz de triumpho_).—Eu logo vi!

FONSECA (_deixando-se cahir na cadeira em que estivéra Lemos_).—Em que tremedal me metti! Infame algodão!

SIQUEIRA (_chegando-se para Fonseca_).—Coragem, Sr. Fonseca!... Vou certificar-me das noticias. Não se esqueça de mim.

(_Toma o seu chapéo e sahe arrebatadamente._)

SCENA XIII

FARIA, FONSECA, RIBEIRO, LEMOS E ALBERTO.

FONSECA (_levantando-se_).—Não! isto é horrivel!... D’esta feita... (_Com explosão_) Mas é preciso fazer alguma cousa... tomar providencias!... Anda, Faria! (_Sacode com força Faria, que parece estar meditando_). Diga alguma cousa... Você sempre tem idéas...

FARIA (_meio abatido_).—Estou pensando...

FONSECA (_irado_).—Qual pensando! Agora não é hora de pensar. Queremos factos... factos...

RIBEIRO (_muito sêcco para Faria_).—É facto que o senhor, com suas historias... encalacrou-me (_Com gestos da scena anterior_). Equilibrio, alta... baixa... isto, aquillo e aquillo outro, o certo é que agora em Santos o meu dinheiro (_Pesando nas palavras_) está ardendo... e...

LEMOS (_interrompendo-o_).—Deixe isso... Os nossos lucros por cá compensão tudo...

RIBEIRO (_com altivez_).—Não me queixo da perda... deploro tão sómente que calculos...

FARIA (_como que acordando do lethargo_).—Um telegramma para Santos... um telegramma!

FONSECA.—É verdade... um telegramma!... Um criado, depressa!

ALBERTO (_que tem estado a olhar para o interior da casa_).—É inutil: ha cinco minutos o telegrapho interrompeo as communicações... É noticia certa...

FONSECA.—Meu Deos! Meu Deos! Tudo nos acabrunha!...

RIBEIRO.—Mais calma, meu amigo! Mais calma!

FONSECA (_desabrido_).—Vá á breca com os seus conselhos (_Agarrando na cabeça com desespero_). Minhas perdas! (_De repente_) Ah! uma idéa. Compadre, podemos remediar alguma cousa! Uma idéa! (_Para Faria, imperioso_) Você vai partir d’aqui a meia hora...

FARIA.—Para onde?

FONSECA.—Para Santos... O vapor sahe ás 5 horas da tarde... ha tempo de sobra... Não deixe embarcar o algodão... Ao menos espere elle em Santos... Talvez deixando passar a primeira impressão na praça... d’aqui a dias...

FARIA.—É uma idéa, mas...

FONSECA.—Mas o que?

FARIA.—E o Sr. Ribeiro?... O jantar?... O nosso?...

FONSECA.—Fica tudo adiado... ninguem come emquanto você não voltar... Dous dias, ou pouco mais...

RIBEIRO (_com a mão mettida dentro do bolso do collete_).—Perdôe-me: isto não. (_Com sorriso um pouco altivo_) Mas ninguem póde retêl-o... Antes de tudo... (_Accentuando_) de tudo, os negocios...

FONSECA.—Você bem vê... vamos! Aviemos isto (_Baixo_). Eu arranjo tudo; o casamento e o mais. (_Alto_) Vamos.

FARIA (_um pouco acanhado_).—Então o Sr. commendador... consente?

RIBEIRO.—Pois não... com muito gosto... por minha parte...

FONSECA (_com alegria forçada_).—Ah! muito bem! depressa agora... A Santos! A Santos! (_Procura empurrar Faria_) livra-nos d’essa...

FARIA (_com alguma resistencia_).—Deixe-me ao menos despedir-me... (_Estendendo a mão a Ribeiro_) Dê-me então suas ordens...

RIBEIRO (_com frieza_).—Seja feliz... e avisado...

FONSECA.—Eu vou pôl-o a bordo... Não achão prudente?

LEMOS.—De certo...

RIBEIRO (_sempre sêcco_).—É medida de segurança.

SCENA XIV

ALBERTO, LEMOS, RIBEIRO, FONSECA E ROCHA.

ROCHA (_ao entrar esbarra quasi com Faria_).—Oh! senhor!...

FONSECA.—Adeos... adeos, vamos de sahida...

ROCHA.—Boa viagem!

(_Faria estende-lhe a mão: o outro volta-lhe as costas._)

FARIA.—Oh! eu...

FONSECA.—Vamos... vamos... não ha tempo a perder...

(_Faria encolhe os hombros e sahe quasi empurrado por Fonseca._)

SCENA XV

ALBERTO, LEMOS, RIBEIRO E ROCHA.

(_Ribeiro passeia de um lado para outro com as mãos por baixo das abas da casaca: Lemos conversa com o filho; Rocha, de pé, no meio da scena, com os braços cruzados sobre o peito._)

ROCHA (_ironico e sombrio_).—Então o Sr. Faria se retira?

RIBEIRO.—Parece... tem que ir a Santos... Negocios...

ROCHA.—E é a elle que o senhor vai dar o seu mais bello thesouro?

ALBERTO (_assustado_).—Hen?

RIBEIRO.—Ora, Alfredo...

ROCHA.—Consulte a sua consciencia, meu tio (_melodramaticamente_), e decida se elle é digno da noiva que lhe reservão...

ALBERTO (_assustado sempre_).—Noiva?

ROCHA (_continuando_).—Não, eu tambem sou parente... tenho que erguer a minha voz... Quer uma prova mais evidente da baixa ganancia... do mercantilismo do que a que acaba de ter?... Por uma questão de contos de réis... esse homem, que fingia um sentimento, esqueceo tudo e sobre tudo a sua noiva, anjo de innocencia, gemma de um valor inestimavel...

ALBERTO.—Mas quem é essa?

ROCHA (_arrebatado_).—Oh! é um diamante de Golconda... é um seraphim capaz de levar as almas ao paraizo só com o poder do seu olhar... é emfim...

RIBEIRO.—Se falla de minha filha, declaro-lhe que ella ainda não é noiva...

ROCHA.—Mas o que o senhor me disse ha pouco fazia crêr...

RIBEIRO (_meio zangado_).—Ha pouco eu lhe disse muita cousa... Na realidade, pensei que poderia... mas... emfim... nem tudo... quanto se pensa, pode realisar-se... Ahi é que está o cunho do talento reflexivo... (_Animando-se a pouco e pouco._) E com mil bombas! este procedimento desagrada-me solemnemente...

LEMOS (_com a mão no queixo_).—E com toda a razão.

RIBEIRO (_exaltado_).—Razão tenho de sobra... É fazer pouco em mim. N’um dia em que convido para jantar não pode haver motivos...

ROCHA.—Justamente, justamente...

RIBEIRO.—E depois do que tinhamos conversado... Oh! isto não ha de ficar assim... Desfaço tudo...

ROCHA (_continuando no mesmo tom_).—Por uma questão pequenina de dinheiro! (_Com muito desprezo_) Oh! indigno metal! tão negro como as entranhas da terra em que vives!

RIBEIRO.—Tem razão, tem razão, meu sobrinho e amigo! Ao Faria nunca hei de dar a minha filha...

ALBERTO (_intervindo_).—Por certo... É um coração secco...

ROCHA.—Um ganhador...

RIBEIRO.—Felizmente foi desmascarado... Uma insignificante quantia que perdeu derrubou-lhe o edificio da hypocrisia... Aquella menina devia pertencer a quem a merecesse pela elevação de sentimentos.

ROCHA. (_com exaltação_).—Oh! meu pai (_Aperta as mãos de Ribeiro._)

ALBERTO (_admirado_).—Mas que é isto?

ROCHA (_com affectação_).—É um quadro de familia... Veja e enterneça-se (_Abraça Ribeiro que não lhe mostra boa cara._)

RIBEIRO (_meio triste_).—A final os poetas tem sempre razão...

SCENA XVI

LEMOS, ALBERTO, ROCHA, RIBEIRO E D. RITA.

D. RITA (_entrando pela porta da direita_).—Então, meus senhores, quando quizerem, faráõ o favor de entrar. O jantar nos espera. Mas onde está o compadre Fonseca? O Sr. Faria ainda não chegou?

RIBEIRO.—Aqui estiveram ambos e partiram...

D. RITA.—Mas voltam já...

RIBEIRO (_seccamente_).—Não voltão tão cedo... partiram...

D. RITA.—Para onde?...

RIBEIRO.—Para Santos...

D. RITA.—N’um dia como o de hoje! Depois das promessas! Que foi? Que houve?

RIBEIRO.—Um negocio de algodão...

D. RITA.—Não ha negocio que podesse obrigal-os a se retirar...

RIBEIRO (_com explosão_).—Não sei, não sei, nada sei, mas o que lhe digo, Sra. D. Rita Ribeiro, é que a minha filha, a sua, a nossa filha não casará nunca com o tal Faria. (_Com tom lugubre_) É excusado pedir ou chorar. Ella não casa nem com o Faria, nem com o compadre, nem com ninguem...

D. RITA (_admirada_).—Expliquem-me o que houve... Estou pasma.

RIBEIRO.—Eu nada lhe explico... já manifestei a minha vontade e aqui (_com resolução_) não é casa de Gonçalo, em que a gallinha cante mais do que o gallo... É excusado, senhora...

D. RITA (_picada_).—Mas quem lhe disse que eu morro de amores pelo Faria?... Minha filha, graças a Deos não precisa mendigar noivos...

ROCHA (_adiantando-se_).—Minha tia, em duas palavras lhe explico tudo... O tal pretendente á mão de minha adoravel prima metteo-se, e por seus conselhos metteo o tio, em uma compra de algodão em Santos. Agora acontece que o genero baixou, de modo que elle, sem consideração alguma pela bondade com que o tratava o Sr. Ribeiro, arranjou inopinadamente uma viagem para Santos, afim de vêr se podia dar algum remedio aos seus prejuizos... Não houve nada que o retivesse... nem a honra de jantar hoje aqui, nem a perspectiva de estar com Isabel, que entretanto já lhe tinha sido quasi dada...

RIBEIRO (_tossindo e cortando a palavra a Rocha_).—Isto é, o tio, o animal do Fonseca, procurou, etc., etc., e tal... mas eu...

ROCHA.—Então o meu tio offendeo-se d’aquelle insolito procedimento e...

D. RITA.—De certo, fez muito bem...

ROCHA.—Comprehendeo com a sua nobreza d’alma...

D. RITA.—Eu faria o mesmo...

ROCHA.—E deo o dito por não dito...

RIBEIRO (_com resolução_).—E se eu disse alguma cousa, dou o dito por não dito... Em dignidade ninguem me ha de vencer...

LEMOS.—Perfeitamente, compadre...

ALBERTO.—Aquelle modo de proceder foi indesculpavel...

LEMOS.—Extraordinario...

ROCHA.—Inexplicavel...

RIBEIRO (_com ar de dignidade offendida_).—Digão antes de tudo offensivo; mas eu soube manter-me na posição que me convinha... Não acha, Sr. Lemos?

LEMOS.—Optimamente...

D. RITA.—Agora comprehendo tudo, e só lhe digo que o Sr. Fonseca ha de me ouvir...

RIBEIRO.—Pobre Fonseca! Ficou anniquilado com a possibilidade de um prejuizosinho... O Siqueira prégou-lhe boa!... É verdade que os meus setenta...

(_Isabel apparece na porta da direita._)

SCENA XVII

LEMOS, ALBERTO, ROCHA, FARIA, D. RITA E ISABEL.

ISABEL.—Porque tanta demora, mamãe?... O jantar...

ALBERTO (_adiantando-se para Isabel_).—Minha senhora... eu...

ISABEL (_com acanhamento_).—Meu senhor...

ROCHA (_precipitando-se_).—Oh! minha prima!...

ISABEL (_adiantando-se_).—Que tem, primo Alfredo? Acho-o commovido.

ROCHA.—É de alegria... estou fóra de mim... commovido, sim, e muito...

RIBEIRO.—Acabemos com isto, senão eu tambem passo a commover-me!...

D. RITA.—Eu já estou commovida...

RIBEIRO.—Vamos lá... casem-se, casem-se depressa.

ROCHA.—Que dia este!

ALBERTO (_com sorpreza e dôr_).—Que é isto?

ISABEL (_muito admirada_).—Eu, casar-me?

RIBEIRO.—Sim... faço-lhe a vontade...