Historias Brazileiras

Part 4

Chapter 43,480 wordsPublic domain

FONSECA (_arrebatado_).—Como prosaico! Diga realista... Um bom senso pratico que espanta... não vê as cousas senão como ellas são. Nada ás avéssas... nada de miragens... Pão pão, queijo queijo... É da minha escola... Por isso entreguei-lhe sem receio algum a gerencia de meus bens, e tudo corre ás mil maravilhas... A minha casa de cafés foi a mais poupada... o genero começou a baixar e eu tinha os armazens abarrotados. Assustei-me... Então... (_interrompe para assuar-se com estrondo_).

RIBEIRO (_com interesse_).—Então?

FONSECA.—O Miguel tranquillisou-me e pôz-se a comprar mais...

RIBEIRO.—Ó homem, era arriscado.

FONSECA (_com vivacidade e orgulho_).—Não era? Pois bem, dous dias depois subia o café e ahi vendemos com furia... Graças ao menino ganhei bastante. (_Com alguma ternura_) Ah! Snr. Ribeiro, o senhor faz um casamentão... Palavra de honra é um casamento de mão cheia...

RIBEIRO.—Estou certo que minha filha ha de ser feliz...

FONSECA (_influindo-se pouco a pouco_).—Que duvida! Um noivo d’aquella força no movimento da praça!... Um olho tão firme nas subidas e descidas do café!... Que significa isso senão riquezas, sedas, commendas, e afinal baronatos e talvez até a carta de conselho! Depois... poucos filhos... Comprehende?... Não ha tempo.

RIBEIRO.—E isso é mais conforme á poesia...

FONSECA.—De certo! E mesmo impedem-se subdivisões de fortuna...

RIBEIRO.—É pena que o seu sobrinho não cultive (_parando nas palavras_) alguma arte... Olhe, se eu fosse moço ensaiava o piano ou então a harpa (_com gesto de quem dedilha_). É tão gracioso!

FONSECA (_meio admirado_).—Pois quer mais arte do que a que elle tem? Quer um teclado mais difficil de conhecer do que seja a opinião dos agiotas... do que o capricho dos homens da praça? Oh! se houver no mundo outro noivo como elle, certamente não ha tres... Não, isto lhe asseguro!... Muito brevemente elle terá de seu cento e cincoenta contos de réis... vinte e oito annos.... e um juizo!... Não é sovina... nem gastador; sempre no meio termo...

RIBEIRO.—Creio que elle agrada tambem á minha mulher...

FONSECA.—Tenho toda a certeza. Não ha coração que lhe resista.

RIBEIRO.—E minha filha? Que pensará d’elle?

FONSECA (_com segurança_).—Não póde deixar de sympathisar muito com o meu sobrinho...

RIBEIRO.—Elle não se lembrou ainda de offertar-lhe um album...

FONSECA.—Qual album!...

RIBEIRO.—Na sua posição não lhe ficava mal... Um moço, quasi um noivo, entra em toda a parte com um album debaixo do braço e com versos de sua lavra ou de algum amigo... Isto agrada sempre ás mulheres...

FONSECA.—Não duvido; mas um homem como o Miguel, falle com franqueza, póde estar a namorar? Confessemos que é um periodo difficil esse em que a gente sente necessidade de casar, procura uma noiva e tem que lhe fazer a côrte. Quem tem algum tacto vai logo simplificando tudo... Não vê como o Miguel sahe-se d’esse passo? Observou a sua reserva, a sua dignidade?.. Estou certissimo que elle ama a sua filha como um louco, mas quanta calma!... Hen? mal se percebe...

RIBEIRO.—Na verdade. Acho-o até frio de mais... Eu não quizéra levar o casamento de minha filha, como se fôra um negocio commercial...

FONSECA.—Mas quem pensa em tal, Santo Deos?! Nada. É preciso que falle o sentimento... E quer que lhe dê uma prova? Ha dias o meu sobrinho disse-me com toda a convicção: se eu não casar com Isabel, hei de ter que fazer uma viagem á Europa para distrahir-me... Meça, Sr. Ribeiro, (_com tom grave_) o sacrificio! Um homem tão occupado! uma viagem e não é a Juiz de Fóra ou a Theresopolis. Qual! (_com ar funebre_) É á Europa!...

RIBEIRO.—Com effeito, se elle disse isso...

FONSECA (_com imposição_).—Disse e fal-o. É rapaz de resolução... Tambem posso lhe afiançar: sabendo elle que você gosta tanto de poesia, é capaz de garatujar n’um instante resmas de papel, enchendo-as de versos...

RIBEIRO (_com ar de superioridade compassiva_).—Ah! isto fia-se mais fino! E a inspiração?

FONSECA (_com resolução_).—Queira elle e veremos... Oh! que marido eu lhe dou, Sr. Ribeiro...

RIBEIRO.—Aceito-o para a minha filha... caso agrade, condição indispensavel.

FONSECA.—É do que ninguem duvída... Elle entra n’esta casa com o pé direito... Fará a felicidade de todos; a sua, a de sua mulher...

RIBEIRO.—Basta que faça a de Isabel... É tudo quanto lhe pediremos.

FONSECA.—Então, ao chegar sua senhora á sala, annuncia-se-lhe logo o acontecimento, não é?

RIBEIRO (_com alguma pausa_).—Sim... sim... mas confesso a você que nunca vi casamento com menos estorvo... Não gosta d’esses em que ha alguma cousa de imprevisto?... Paes a negarem... mães a gritarem... filhas a chorar... noivos audazes...

FONSECA.—Ora, pelo amor de Deos, deixe-se disso... São cousas de outro tempo... Ahi chega D. Rita...

SCENA II

RIBEIRO, FONSECA, D. RITA.

FONSECA (_dirigindo-se ao encontro de D. Rita e estendendo-lhe a mão_).—Permitta, comadre, que eu a cumprimente...

D. RITA (_estende-lhe a mão_).—Oh! Sr. Fonseca...

FONSECA (_continuando no que ia dizendo_).—que a cumprimente n’este momento e de um modo especial... com mais effusão do que nunca...

D. RITA.—Aceito os seus cumprimentos, mas pergunto a razão d’esta effusão...

FONSECA.—O seo marido que lh’o diga...

D. RITA.—Meu marido?... Em todo o caso a noticia é boa, não é?

FONSECA.—Para mim, excellente...

D. RITA.—E hade agradar-me?

FONSECA.—Estou que sim...

D. RITA (_meio risonha_).—Então adivinho...

FONSECA.—É...

D. RITA.—O pedido em casamento de minha filha...

RIBEIRO (_intervindo_).—É verdade. O nosso amigo e compadre, o Sr. Fonseca veio cá, e sem gravata nem luvas brancas, sem ceremonias, nem concertar a garganta, ou empertigar o corpo, pedio-me a mão de Isabel...

D. RITA (_interrompendo-o_).—E você lhe respondeo...

RIBEIRO.—O que você responderia.

FONSECA (_voltando-se para D. Rita_).—Então?

D. RITA (_sem hesitação e com simplicidade_).—Eu diria que sim! A que devemos attender senão á felicidade de nossa Isabel?...

FONSECA.—Não soffre duvida...

D. RITA.—E quem poderá tornal-a feliz?

FONSECA (_para Ribeiro_).—Sim, quem?

RIBEIRO.—Quem?

OS TRES (_a um tempo_).—Miguel Faria!...

D. RITA.—Tão amavel moço...

RIBEIRO.—Boa figura...

FONSECA (_com ar de importancia_).—E apatacado...

D. RITA.—Um cavalheiro perfeito...

RIBEIRO.—Previdente...

FONSECA.—Em cafés não ha outro igual...

RIBEIRO.—Então ha uma só voz a seu respeito, não é?... Tudo são rosas...

D. RITA.—Accordo perfeito...

RIBEIRO.—Embora. Eu desejára algum motivo (_hesitando_) de contrariedade... Estes casamentos assim...

FONSECA (_com alguma impaciencia_).—Ora, Sr. Ribeiro, sempre aquellas idéas?... (_voltando-se para D. Rita_).—Não entendo bem... O compadre pretende que... casamentos em que haja opposições... são... não sei como diga... mais poeticos... Paes a negarem, mães a gritarem!...

D. RITA (_offendida_).—Oh! Sr. Ribeiro!...

RIBEIRO (_com alguma vivacidade_).—Não: o meu pensamento não é este... eu...

FONSECA (_interrompendo-o_).—Ora, venha cá... O senhor não foi tão feliz com a sua mulher?... E para esse enlace não concorrerão todos as circumstancias desejaveis?

RIBEIRO.—Talvez houvessemos sido ainda mais felizes, se...

D. RITA (_com indignação_).—Oh! Sr. Ribeiro, esta é forte!...

RIBEIRO (_com ar conciliador e fallando com volubilidade_).—Não é isto que eu queria dizer... Mas, attendão bem... Essas luctas, essas difficuldades anteriores a um consorcio gravão-se na memoria eternamente... São motivos de conversa para uma vida inteira... E quando voltarem os anniversarios! Que fartão de recordações! (_com fogo_) Imaginem vocês dous esposos, 25 annos depois de um rapto. «Tu te lembras, fulana?» pergunta o marido. «Oh! se me lembro, responde a mulher.» «O signal para appareceres na janella era assim (_assovia baixinho e prolongadamente_) Teu pae estava dormindo»...

D. RITA (_procurando interrompel-o_).—Que historias, Sr. Ribeiro!

RIBEIRO (_continuando_).—«Abriste a janella devagarsinho... Eu puz uma escada... Hi! que medos! Teu vestido agarrou n’um varão de ferro... Eu pucho; elle rasga-se»...

D. RITA.—Mas isto é até indecente...

FONSECA.—Deixe ir... n’elle é o poeta que falla...

D. RITA (_rindo-se_).—Poeta!... Aos 50 annos e com dous mil contos de reis!...

RIBEIRO (_pausadamente, meio pensativo e como que fallando para si_).—Não o sou, devéras!... Mas que geito eu tinha!... Parece-me que se houvesse estudado em regra, só fallava em verso... Não me matarão o corpo... não; mas quanto á alma posso exclamar como Nero (_batem palmas na porta do fundo.—Ribeiro muda de tom e alto_).—Quem é?... É sempre assim! Estava com uma idéa bonita, zás, me interrompem... e fica tudo perdido. (_Novas palmas e fortes_) Toda a minha vida foi assim... Mas, quem é? Entre (_caminhando para a porta_) entre pelo amor de Deos!

(_Alfredo Rocha entra_)

SCENA III

D. RITA, FONSECA, RIBEIRO E ROCHA.

RIBEIRO (_olha admirado para Rocha que mostra-se espantado_).—Com a bréca... era você? Que diabo fazia a bater palmas na porta da sala de visitas?... Porque não entrava?...

ROCHA (_cumprimentando a Fonseca e D. Rita com algum acanhamento_).—Sr. Fonseca... minha tia...

D. RITA.—As suas palmas, Alfredo, nos assustárão...

ROCHA (_com sentimentalismo como que comprimido a custo_).—Oh! essas palmas tem uma significação... sim, ellas têm...

RIBEIRO.—O certo é que vierão muito fóra de tempo... Cortarão-me o fio de uma comparação (_voltando-se para Fonseca_) Que dizia eu, compadre?...

FONSECA.—Você dizia... espere...

RIBEIRO (_instando_).—Procure... procure...

FONSECA (_deitando os olhos de um lado e d’outro como quem procura no chão alguma cousa_).—Nada acho...

RIBEIRO (_com um dedo na testa_).—Eu comparava-me... Qual!... Está perdida... Adeos, idéa!... Malditas, malditas palmas!

FONSECA.—Console-se... fica para outra vez... ajudado pelo seu sobrinho... Este, sim, é poeta!...

D. RITA.—Com effeito o Alfredo faz bem bonitos versos...

ROCHA (_com alguma enfatuação_).—Oh! isto é bondade!...

RIBEIRO (_com tom dogmatico_).—Não, eu lhe digo com verdade, aquelle seu livro tem cousas recommendaveis... aquella ode sobre o Amazonas... aquella...

FONSECA (_interrompendo-o_).—Tambem foi acolhido com estrondo (_voltando-se para Rocha_) O senhor deve ter ganho muito, não é?

ROCHA (_ironico e superior_).—Com a minha obra?... Qual! no Brazil não ha quem compre livros... As letras vegetão...

RIBEIRO.—Tem toda a razão... Eu, apezar de ser seu tio, julguei dever comprar um exemplar... Não o quiz gratis, não só para animar a venda, como para não dever favores...

FONSECA.—Fez muito bem... No seu caso assim procedia...

RIBEIRO (_com enfatuação_).—Fui ao livreiro e paguei logo tres mil reis... Sinceramente achei caro... um livrinho fininho muito entrelinhado, emfim era o preço e sem a minima reflexão lá deixei o meu dinheiro... E não me arrependo... Ha trechos que applaudi... Eu faria talvez outra cousa... mais vasta, menos cortada... mas emfim cada qual faz como póde e entende... Entretanto...

D. RITA (_interrompendo_).—Entretanto os senhores permittirão que eu vá vêr porque não apparece Isabel... (_voltando-se para Fonseca_).—O senhor janta comnosco...

FONSECA.—Já que é ordem...

D. RITA (_para Rocha_).—De certo você tambem...

ROCHA.—Com muito gosto...

D. RITA.—Pois, então, entrem. Vamos até o jardim... Talvez lá encontremos a menina... Mostrar-lhes-hei umas lindas dhalias que me chegarão de Petropolis... (_para Rocha_). Quer vir, Alfredo?

ROCHA.—Desculpe-me minha tia, preciso fallar com o seu marido...

D. RITA.—Sr. Fonseca, me dê então o seu braço.

(_D. Rita e Fonseca sahem de braço dado e a conversarem pela porta da esquerda_).

SCENA IV

RIBEIRO E ROCHA.

RIBEIRO.—Então que novidades ha? Olhe que tenho ainda que fazer _toilette_ antes de ir para a mesa do jantar.

ROCHA (_um pouco sombrio_).—Preciso lhe fallar... e agora mesmo!...

RIBEIRO.—Cousa urgente?...

ROCHA.—Urgentissima!

RIBEIRO.—Em todo o caso abrevie quanto puder... Tenho que apparecer hoje com algum esmero mais... Logo saberá a razão... Devéras é cousa grave?

ROCHA.—Gravissima...

RIBEIRO.—Á vista d’isto... sentemo-nos... Sou todo ouvidos...

(_Rocha apresenta uma cadeira: Ribeiro senta-se e indica outra ao lado_).

RIBEIRO.—Comece pois...

ROCHA (_meio acanhado_).—Meu tio... convem recorrer... á sua benevolencia... antes de encetar esta conversa...

RIBEIRO (_olhando para Rocha com alguma admiração_).—Você está perturbado... Que tem?

ROCHA (_no mesmo tom_).—Tambem o favor que lhe venho... pedir... é tão grande... tão grande...

RIBEIRO (_irresoluto_).—Di...nheiro?

ROCHA (_com movimento energico de denegação_).—Não, Snr.!

RIBEIRO (_mais expansivo_).—Então que é?

ROCHA (_hesitando_).—É...

RIBEIRO (_com curiosidade e chegando a cadeira_).—É?...

ROCHA (_tomando subita resolução e ás pressas_).—É a mão de sua filha Isabel, a quem amo desde muitos annos como um louco, a quem adoro, idolatro em segredo, dia e noute, a quem...

RIBEIRO (_affastando um pouco a cadeira e tossindo_).—Hum! hum!

ROCHA (_com anciedade_).—Então?... que diz?

RIBEIRO (_encolhendo de vagar os hombros_).—Homem, eu não digo nada.

ROCHA (_apressadamente_).—Então consente?... Oh! meu Deus!

RIBEIRO.—Eu não disse isso...

ROCHA (_abatido_).—Nega-m’a pois, oh!... hei-de...

RIBEIRO.—Tambem não disse isso...

ROCHA.—Então que foi que disse?...

RIBEIRO.—Nada! (_tomando attitude de quem vai orar_) Alfredo, conversemos um pouco... Você é meu sobrinho e tenho de tratal-o com a consideração devida não só a meu parente, como a um homem de intelligencia e conceituado...

ROCHA (_interrompendo-o_).—Mas...

RIBEIRO (_gravemente_).—Deixe-me fallar... As palavras que vou lhe dirigir são conselhos de quem, prezando-o como parente, preza tambem a gloria de sua familia. Você pede a mão de minha filha, não é?

ROCHA.—É verdade... aspiro...

RIBEIRO (_com gesto de imposição_).—Pois faz uma furiosa asneira...

ROCHA (_levantando-se admirado_).—Como assim?...

RIBEIRO (_levantando-se tambem_).—Em duas palavras lhe explico tudo. Você (_pausado e com voz muito grave_) não deve casar! A sua vocação não lhe permitte senão o celibato... Veja bem. Eu lhe aceno com a gloria! Que quer dizer um poeta casado, em riscos de ter duzia e meia de filhos, ao lado de uma mulher que vai envelhecendo... ficando rabujenta, desdentada, descabellada?! Meu Deos, que cousa horrivel!... Haverá inspiração que resista a causas tão deleterias?...

ROCHA.—Meu tio...

RIBEIRO (_com volubilidade_).—Não me interrompa... Sei que hei de levar a convicção á sua alma... Supponha os grandes poetas presos pelas cadêas do matrimonio. Que teriamos em poesia?... Nada... nada... mil milhões de vezes nada!...

ROCHA (_enfiado_).—O senhor quer caçoar...

RIBEIRO (_enthusiasmando-se_).—Não consinto que me interrompa... Que fôra de Dante, de Petrarca, de Tasso, de Camões e tantos outros, se tivessem prosaicamente desposado a dama de seus pensares?... Se tivessem tido que cuidar no sustento dos filhos, que vestil-os, que leval-os a passeio, á escola!... Meus santos do paraiso, que pensões e que trabalhos!... Puramente a vida material... Em lugar d’isso, que fizerão? Carpirão só os males da alma, d’essa alma que encheu os espaços com clarões inextinguiveis!...

ROCHA.—Mas... eu amo...

RIBEIRO (_levantando a voz_).—Perfeitamente! É o que todos nós queremos. Contrariamos o seu sentimento, machucamos o seu amor proprio, e d’ahi resultaráõ versos sonoros, repassados de fel e de ironia, versos arrebatadores, versos byronianos, versos, emfim, como os faz quem é poeta... e poeta infeliz... Você soffrerá, soffrerá muito, não ha duvida; as insomnias o perseguiráõ, estou certo d’isto; perderá o appetite; terá talvez dispepsias crueis... mas que livro depois de todo esse padecer atroz!...

ROCHA (_um tanto sombrio_).—Não posso crêr que o senhor queira se divertir á minha custa...

RIBEIRO (_muito serio_).—Juro que lhe fallo com toda a sinceridade. Fallo, como fallaria a um filho. Estas são as minhas idéas. Você tem muito talento, todos o reconhecem... Mas sabe porque até agora não tem produzido senão livrinhos de pouco folego, quasi ethicos?... Simplesmente porque é um moço serio, empregado publico, moderado nos seus gastos, cauteloso e homem de sociedade... Que diabo! Porventura póde o fogo sagrado da poesia alimentar-se em quem vive como o commum dos mortaes?! Não, não de certo! O éstro tem alguma cousa de extraordinario, de anormal... direi quasi de infernal!...

ROCHA.—Ora, meu tio...

RIBEIRO.—Ponha-se você a gastar tudo quanto tem... deixe tudo, emprego, bailes e theatros; caia na mais abjecta crapula (_Mudando repentinamente de tom_) Não lhe dou estes conselhos, Deos me defenda: é uma simples hypothese... (_Voltando ao primeiro tom_) frequente a taverna, desça á mais completa miseria; seja, emfim, para resumir tudo em uma palavra, seja um miseravel, e no excesso, nos desmandos, você se sentirá transfigurado... O máo vinho com que você se embriagar, a mulher perdida que abraçar em publico, as convenções sociaes que calcar aos pés, a fome que lhe roer as entranhas, tudo ha de exaltal-o de modo extranho, e, no momento da maior degradação, o seu coração vibrará com uma energia desconhecida... A sociedade lamentará a sua sorte... todos o evitaráõ... eu mesmo, quem sabe?... mas a posteridade o ha de vingar!...

ROCHA.—Não posso ouvil-o...

RIBEIRO.—Que póde fazer uma intelligencia volcanica comprimida por um chapéo Chastel, sentindo os pés apertados em botins envernizados e os dedos entalados em luvas de Jouvin, como você está agora?... Que martyrio para a sua alma! E por cima quer casar?...

ROCHA.—Mas sua filha?...

RIBEIRO.—Minha filha? (_Com simplicidade_) Que tem? Você a accusará perante os seculos... a levará ao tribunal da posteridade. Que thema, hen? Assumpto um pouco batido, mas que mina! Até eu sou capaz de exploral-a com vantagem... porque tambem nasci com aspirações... mas casárão-me cedo de mais... Não tive motivos de arrependerme, mas o estado nunca me inspirou a menor idéa! Ora, eu mesmo, irei consentir que você tambem se perca?

ROCHA.—Tudo quanto o senhor me disse não significa cousa alguma...

RIBEIRO.—Como assim?

ROCHA.—Não vejo uma razão...

RIBEIRO.—Uma razão?

ROCHA.—Sim... um motivo plausivel...

RIBEIRO (_pondo as mãos para traz e abanando de vagar a cabeça_).—Pois elle existe e muito, muitissimo valioso...

ROCHA (_com anciedade_).—Qual é?

RIBEIRO.—A mão de Isabel já está dada...

ROCHA (_com explosão_).—Mas a quem?... A quem?

(_Ouvem-se passos fóra, e apparecem á porta Miguel Faria e Siqueira_).

RIBEIRO (_approximando-se de Rocha; á meia voz_).—O noivo é o Faria.

(_Ribeiro vai para o fundo, ao encontro dos recem-chegados_).

ROCHA (_chegando-se para a boca da scena; com muito abatimento_).—Meu Deus, quanto verso perdido, quanta rima n’agoa!... E eu que tinha para hoje um dythirambo! Lá se vai o dóte.

SCENA V

ROCHA, RIBEIRO, FARIA E SIQUEIRA.

RIBEIRO (_adiantando-se para Faria_).—Meu caro Sr. Faria, seja muito bem vindo (_aperta-lhe as mãos_).

FARIA.—Antes de tudo, permitta, Sr. Ribeiro, que eu lhe apresente o meu particular amigo Alves de Siqueira.

RIBEIRO (_apertando-lhe a mão_).—Conheço-o já de vista. Tenho muito prazer em vêl-o em minha casa.

SIQUEIRA (_inclinando-se_).—A honra é para mim.

RIBEIRO.—Basta ser-me apresentado por quem é...

SIQUEIRA.—Isto me penhora muito; sei que a amizade de Faria me é summamente lisongeira...

(_Rocha está junto á mesa: os outros chegão-se para a frente_).

RIBEIRO.—Sr. Faria, conhece o meu sobrinho Alfredo Rocha?

FARIA (_com frieza e alguma sobranceria_).—Ainda não senhor; de nome... vagamente... Creio que o senhor escreveu um livrinho...

RIBEIRO.—Justamente, um livro de poesias...

ROCHA. (_com ironia_).—Sim... um livrinho pequenino de versinhos...

RIBEIRO (_para Siqueira_).—Meu sobrinho, Sr. Siqueira; Sr. Siqueira, meu sobrinho (_Os dous cumprimentão-se seccamente_).—A proposito já sei que os senhores dous jantão commigo...

SIQUEIRA.—Oh! Sr. Commendador, V. Ex. trata-me com demasiada bondade... Eu pedi ser apresentado para... como devia... tratar de um negocio importante...

RIBEIRO.—Ficará para depois do jantar... entre o café e o curaçáo... Com amigos do Sr. Faria, não cuido de negocios (_com intenção_) principalmente hoje... senão depois de nos termos assentado juntos a uma lauta refeição....

SIQUEIRA.—Pois bem, resigno-me...

RIBEIRO (_com expansão_).—Ah! muito bem! e verá como recompenso a sua resignação!... Com um peixe! (_Dando um muchôcho_) Que peixe!... O primor dos mares!...

FARIA (_com ar grave_).—Entretanto Sr. Ribeiro, pondero-lhe que o negocio a que allude o meu amigo e que interessa tambem a mim, não póde soffrer demóra...

RIBEIRO (_pressuroso_).—N’este caso, ouvil-o hei já e já...

ROCHA.—Então eu me retiro...

RIBEIRO.—Vá lá dentro conversar com a sua prima...

FARIA (_com vivacidade_).—Este senhor é primo de D. Isabel?

(_Faria e Rocha olhão um para o outro com arrogancia_.)

RIBEIRO.—Boa pergunta!... Se é meu sobrinho...

(_Rocha sahe devagar, contestando sempre o olhar de Faria: desapparece e volta logo para trocar novos olhares_.)

SCENA VI

RIBEIRO, SIQUEIRA, FARIA.

RIBEIRO.—Sentemo-nos...

(_Convida Siqueira e Faria para tomarem cadeiras e sentão-se os tres, depois de se cumprimentarem com ar de gravidade e importancia._)

SIQUEIRA (_como que annunciando_).—O meu amigo o Sr. Faria vai fallar...

FARIA (_após breve pausa_).—Sr. Ribeiro, venho fallar a V. Ex. a respeito de dous negocios da mais alta importancia... O primeiro, sobretudo, vai entender com o meu futuro (_parondo um pouco_). Meu tio sem duvida já lhe ha de ter vindo fallar...

RIBEIRO.—Pois não... e...

FARIA (_apressadamente_).—Devo contar com a sua benevolencia?

RIBEIRO (_com ar fino_).—O senhor é um maganão feliz... Só lhe digo isto... muito feliz!

FARIA (_com fingida effusão_).—Agora, sim, reconheço-me como tal... A minha estrella...

SIQUEIRA (_interrompendo_).—Mas o seu merecimento, meu amigo? Tem-o em pouca conta?... Além d’isto tudo estava calculado...

RIBEIRO.—É certo que o senhor soube ganhar todos os corações... Tanta circumspecção...

FARIA (_com ar modesto_).—Oh! Sr. commendador!...

RIBEIRO.—Tão bom senso...

FARIA.—Sr. commendador!...

RIBEIRO.—Não, senhor; não, senhor: faço justiça... A minha casa o estima muito...

FARIA.—E ella?... sua filha?...

RIBEIRO.—Homem... sem duvida ha de ficar contentissima... Ainda não lhe fallei... mas é natural... nada mais natural...

FARIA.—Perfeitamente... Agora que tenho certeza do sentimento que lhe inspiro, acho-me capaz de tudo. (_Com tom frio_) Liquidado este primeiro negocio (_emendando com rapidez a phrase_), decidido este primeiro assumpto, passaremos ao segundo, que traz particularmente o meu amigo Siqueira á sua presença...

SIQUEIRA (_tomando a palavra, com volubilidade_).—É cousa infallivel, Sr. commendador; questão simplesmente de confiança. V. Ex. é capitalista; Faria já póde ser chamado seu genro; eu sou amigo d’elle, homem que a ambos deve merecer credito... não é?

FARIA E RIBEIRO (_inclinando-se_).—De certo!...

SIQUEIRA.—Assim, pois, procurei por intermedio de Faria vir fallar a V. Ex., que, podendo mover de prompto com grandes capitaes, encaminhará uma operação segura, na qual da noute para o dia ganharemos, nós tres presentes, quarenta por cento...

RIBEIRO.—Quarenta por cento... da noute para o dia?...

FARIA.—Todos os calculos estão feitos... Concorra V. Ex. com setenta contos e...

RIBEIRO.—Mas a somma... a somma é grande...

FARIA.—Setenta contos?...

RIBEIRO.—Caspite!... Não é cousa de atirar fóra... setenta!...

FARIA.—Na operação empato cincoenta contos... tal é a minha confiança... digo até, certeza!...

RIBEIRO.—Mas... afinal... de que se trata?

SIQUEIRA.—Trata-se do algodão...

RIBEIRO.—Do algodão?...

SIQUEIRA.—Eu me explico... V. Ex. sabe que este genero teve uma baixa consideravel, quando acabou a guerra dos Estados-Unidos, e que o café subio...

RIBEIRO.—Sei perfeitamente...

SIQUEIRA.—A ultima guerra franco-prussiana trouxe a procura do algodão...