Part 3
Quem não cabia em si de contente era a guaná. Sem contestação dansára com mais graça do que as outras, provocando sempre os applausos do branco, cujos sentimentos de delicadeza começava a comprehender e a partilhar, tanto assim que não deixou ninguem vir dormir na sua choupana e foi levar as visitantes a fazerem companhia pelo resto da noute ao velho Morevi.
Este não teve remedio senão ceder lugar ás jovens kinikináos e, puxando para fóra o couro que lhe servia de leito, dormio sem mais ceremonia ao relento.
De manhã, antes que o sol rompesse, retirárão-se as indias, levando os presentes que mais podião lhes agradar: sal, chitas, espelhos, contas, agulhas, e os restos do banquete da vespera.
Ierecê foi acompanhal-as até certo ponto do caminho, mas não quiz chegar até a aldêa.
No entretanto os dias e as semanas havião passado, e Alberto não dava mostras de perceber isso.
—Sabe V. S., perguntou-lhe um dia Florindo, quanto tempo faz que estamos aqui?
—Talvez um mez, não é?
—Já lá vão dous, rectificou o soldado.
Foi com verdadeiro espanto que Alberto verificou ser exacta a conta.
—Mas então, disse elle, Julio Freitas ha muito deve estar de volta!... Como é que não appareceo por cá?
—É que o Sr. capitão frechou direitinho de Nioac para Miranda pelo Lalima. Fazia V. S. na _cidade_ e foi para lá em rumo certo.
—Então de Nioac ha outro caminho que não este?
—De Nioac, nhôr-não. Da Forquilha, dez legoas mais _arriba_. Ahi ha uma estrada que vai de parelha com o rio Miranda.
—O que você diz é certo. Julio Freitas deve estar á minha espera. É preciso que eu chegue até a villa. Amanhã.... talvez....
No dia seguinte o projecto de partida não se realisou.
—Não irei eu mesmo, disse Alberto para o soldado. Você é quem seguirá para Miranda montado no meu animal. Entenda-se com o Sr. capitão, diga-lhe que estou de saúde e peça que, se poder, dê uma chegada até cá. Se não, eu lá estarei n’estes dias proximos.
O camarada, á noutinha, preparou uma passóca para a viagem.
—Quem é que vai embóra? perguntou-lhe Ierecê vendo-o occupado n’aquelle mister.
—Eu, respondeo Florindo, tenho que dar um pulo até a _cidade_.
A india ficou sobresaltada; muitas vezes fez a mesma pergunta e ouvio a mesma resposta.
Sem saber ainda pelo que, o seu coração se apertava de tristeza e um presentimento doloroso agitava-lhe a alma.
Tambem mal poude dormir e, abrazada de insolita agitação, debalde foi por vezes pedir ás agoas do corrego refrigerio para o calor e o mal estar que não lhe permittião quietação.
Uma cousa impedio a partida de Florindo: foi o apparecimento matutino de Julio Freitas a cavallo, acompanhado de um morador da villa.
Elle deo grandes brados ao avistar Alberto.
—Então, Sr. anachoreta das duzias, escondido n’este lindo retiro e os outros com cuidados de sua pessoinha!
Os dous amigos se abraçárão affectuosamente.
—Quando cheguei a Miranda, disse Julio, ha quasi uma semana, fiquei pasmo de não encontrar a você. Pedi noticias suas, não m’as souberão dar.... Então suspeitei que podesse ter dado fundo na aldêa dos kinikináos e vim em pessoa arrancal-o, morto ou vivo, de seus estudos anthropologicos..... E as febres?
—Ha muito que já se forão....
—Mas tudo aqui é lindo! exclamou o recem-chegado com expansão. Que soberbos boritys! Você é um verdadeiro artista. Emquanto eu corria campos batidos de um sol abrazador e caminhava sem tregoa, sua senhoria, deitado á sombra dos taquarussús, deixava o tempo correr mansamente como as aguas d’aquelle bello corrego! Não ha vida melhor. Que diz, Sr. João Faustino? Ah! deixe lhe dar o conhecimento d’este amigo de Miranda. É um morador da villa, pessoa que estimo muito e que conheço desde Cuyabá.
Alberto apertou a mão do apresentado, homem de meia idade, rosto moreno, physionomia amena e franca.
—O Sr. Faustino, continuou Julio, acompanhou-me até cá, porque vem contractar uns indios para irem trabalhar na sua fazenda do Rodrigo. É um optimo companheiro para a folia e para o perigo, homem com quem se póde contar.
Quando ao almoço Alberto apresentou Ierecê ao seu amigo e a João Faustino, estes não poderão occultar a admiração que lhes causava a venustade da india.
—É uma bella mulher! murmurou Julio a meia voz. Palavra de honra, Alberto teve faro.
—Você é da aldêa? perguntou Faustino a Ierecê em lingua chané que elle fallava com perfeição.
—Não, respondeo ella, sou de Albuquerque: desde que estou aqui, os _paratudos_[13] já derão flôr cinco vezes.
Se a india produzio aquella impressão de sorpresa, homenagem inequivoca á sua formosura, por seu turno recebeo um choque immenso. De momento percebeo que aquelles homens vinhão lhe roubar o ente a quem ella prezava n’este mundo só, acima de tudo.
Poz-se attenta a ouvir a conversa, e qualquer duvida ainda possivel, qualquer esperança que podesse affagar, fugio-lhe para logo do espirito.
—Então, Alberto, dizia Julio Freitas, a sua vida tem sido um paraiso....
—Passei bem...
—Pois, meu amigo, não ha bem que não se acabe. N’estes dias devemos todos partir de Miranda. Não sei se você quer ficar.... Ah! a proposito, trago-lhe uma carta do Rio de Janeiro.... Quer vêr que a perdi!... Não; está aqui: fui pescal-a na mala que por acaso chegou de Cuyabá, de modo que a data não póde ser muito antiga.
Alberto abrio a carta que lhe passára o amigo, e uma nuvem correo-lhe pelo rosto.
—Tenho más noticias, disse elle, dos meus negocios na Côrte. O banqueiro em que tenho algum dinheiro está, pelo que me escrevem, um tanto abalado...
—Com mil bombas! exclamou Julio, o caso não é de brinquedo! A sua presença é indispensavel e quanto antes...
—Sim, concordou Alberto distrahidamente, preciso partir.
Ierecê ouvira tudo com rosto impassivel, mas dentro d’alma parecia-lhe que a sua hora de morrer vinha chegando.
Durante o dia Alberto, com algum constrangimento, confessou a Julio Freitas e a João Faustino que sentia bastante desgosto, quasi remorsos, em deixar Ierecê. Leval-a, era impossivel, elle bem via, mas tambem abandonal-a de chofre...
—Entretanto, objectou Freitas com algum calor, você não póde ficar aqui anniquilado!... Fôra quasi um crime!...
—De certo, porém...
—São cousas que acontecem todo os dias... Demorar a resolução é que é máo...
—Depois, ponderou João Faustino, convém lembrar-se que os indios esquecem depressa. Ierecê poderá ficar sentida uma semana, duas, se tanto; depois consolar-se-ha... é...
—É a lei universal, concluio philosophicamente Julio Freitas.
Alberto nada replicou.
—Se eu tivesse, disse elle por fim, ao menos alguem que olhasse para esta pobre creatura, lhe désse de vez em quando alguma cousa para a sua subsistencia...
—Pois aqui está o João Faustino, respondeu Freitas. Ninguem melhor do que elle se incumbirá de tudo...
—E com a maior satisfação, confirmou o outro. Estou completamente ao seu dispor para tudo quanto fôr do seu serviço....
—Obrigado... agradeço a sua boa vontade e aceito os seus offerecimentos sinceros... Sobre o mais, conversaremos com vagar em Miranda.
—Em todo o caso, annunciou Julio Freitas, volto amanhã para a villa. No fim de poucos dias parte de lá o vapor, e não podemos perder uma occasião d’essas...
—Pois bem, concordou Alberto, partão vocês, eu ficarei mais uns dias, e no domingo estarei em Miranda.
—Sem falta? perguntou João Faustino sorrindo-se.
—Infallivelmente...
—Veja se vai perder o vapor... depois não teria outro remedio senão descer em _igarité_ para Corumbá... viagem vagarosa e massante....
—Não... eu partirei no _Alpha_, afiançou Alberto.
De manhã Julio de Freitas e Faustino se despedirão.
Ierecê mostrou-se completamente alheia áquellas novidades, mas, quando vio os visitantes partidos, olhou para Alberto com tamanha angustia, tanta expressão que este ficou todo perturbado.
—Que tem você? perguntou elle.
—Nada, respondeu a india...
—Você está doente?
—O corpo não está, mas isto está ficando...
E apontou para o coração, accrescentando.
—E para sempre.
Depois tornou-se silenciosa.
Á hora da refeição recusou comer e com a approximação da tarde tornou-se muito agitada. Ia e vinha do corrego para a choupana a passo lento e com o ar de completa distracção. Debalde Alberto procurou gracejar com ella: nem se quer um sorriso melancolico desdobrou-lhe os labios contrahidos. Tinha os olhos seccos e brilhantes.
A noute não lhe trouxe lenitivo: pelo contrario mais augmentou-lhe o desassocego: por vezes sahio para fóra da palhoça e respirou sofrega o ar frio da madrugada.
Havia um luar tristonho de mingoante: o valle estava frôxamente illuminado e ao longe ouvião-se os _quero-queros_ que gritavão nas matas do Aquidauána.
O coração de Ierecê confrangeo-se ainda mais. A certeza de que uma grande desgraça estava imminente sobre a sua cabeça a acabrunhava.
Voltou para a choupana e parou perto da rede em que dormia Alberto.
Ahi ficou por largo tempo perplexa; depois tocou levemente no hombro do moço e acordou-o.
—Então, disse ella, _unái_[14] vai-se embóra?
Sua voz era tão fraca que mal se ouvia no silencio da noute, e entretanto quanto esforço assim mesmo lhe custára essa pergunta!
—Preciso partir, Ierecê, respondeu-lhe Alberto sentando-se na rede.
—Forão aquelles homens máos que vierão buscar _unái_.
—Não. Eu devia mesmo ir para o Rio.
—E que será de Ierecê?
Alberto não poude de prompto acudir á interrogação.
Estava vacillante.
—Ierecê, disse a final, ficará aqui. Hade sempre se lembrar de mim. Deixo ordem a João Faustino para que o seu avô tenha dinheiro e roupa....
—E _unái_, perguntou ella, parando em cada palavra, nunca mais hade voltar?
—Volto....
Ierecê abanou a cabeça e suspirou profundamente.
De manhã a sua physionomia estava toda alterada. A mão pesada da dôr havia pousado sobre o seu rosto e, tirando-lhe o colorido das faces, traçára circulos rôxeados ao redor dos olhos.
Durante todo o seguinte dia, apezar das rogativas e até ordens imperiosas de Alberto, ella nada comeu. Acocorada em um canto estava sombria. Parecia doente; teve um pouco de febre.
Como tal situação tornava-se penosa para Alberto, decidio elle partir antes do dia em que pretendêra sahir do Hetagati.
Communicou, pois, a Morevi que na manhã seguinte fazia-se de viagem.
O velho não mostrou o menor abalo nem desgosto: pelo contrario desejou-lhe toda a sorte de felicidades pelo regresso e cobrio-o de bençãos quando soube que tudo quanto continha o rancho ao lado viria a pertencer-lhe desde logo. Com a posse de duas redes, alguns cobertores, espingardas, polvora e chumbo, pelles, facões, um par de tamancos e varias notas de papel-moeda, julgou-se o estimavel feiticeiro senhor de riquezas inexgotaveis e na obrigação de manifestar ruidosamente o maior reconhecimento a quem se despedia por modo tão generoso.
Não foi sem beijar repetidas vezes a mão de Alberto, que Morevi deixou-o montar a cavallo.
Ierecê tinha se ausentado.
O mancebo, depois de despachar o camarada Florindo, disse com os olhos um adeos eterno áquelle recanto e fazendo um gesto amigavel ao velho, partio á hora em que o sol ia quasi chegando ao pino.
Seguia elle pela trilha que levava á estrada geral, quando n’uma das voltas vio Ierecê mais adiante sentada n’um tronco de arvore cahida e á sua espera.
Ella levantou-se empallidecendo muito; quiz correr, mas não poude e deixou que o cavalleiro se approximasse mais. Então chegou-se tremula e, encostando a cabeça á côxa de Alberto, ficou por um pouco immovel apertando de encontro aos labios a mão do seu amado, ao passo que lentamente lhe descia pelas faces uma lagrima, uma unica, mas de fogo que devorava para sempre a alegria do seu rosto, como lava ardente de vulcão a abrir sulco fundo e devastador.
—_Biónne_[15], disse-lhe o moço sinceramente commovido.
—_Pehehêvo_[16], respondeo ella, _pehehêvo_!
Levantou então os olhos e contemplou ainda uma vez aquelle que ia deixar para nunca mais vêr; depois voltou as costas e com passo vagaroso tomou rumo de sua choupana tão cheia de seducções ha dias, agora deserta.... deserta....
Para a sua dôr immensa, nem sequer tinha, como india que era, o balsamo das lagrimas, esse orvalho das almas malferidas.
Alberto tocou o cavallo com energia. D’ahi a dous dias chegou á villa de Miranda.
CAPITULO III
Julio Freitas se occupára activamente do regresso, e, como o vapor _Alpha_ estivesse prompto para seguir viagem, veio a presença de Alberto dispensar outra qualquer demora.
—Quanto mais depressa melhor, pensava elle depois de dar a João Faustino as instrucções relativas ao valle do Hetagati.
A lembrança de Ierecê opprimia-lhe o espirito, como se houvera praticado uma acção má. Não era propriamente paixão o que sentia por aquella india, mas uma immensa commiseração acompanhada de verdadeira amizade.
Tres dias se passarão na villa empregados nos cuidados da partida. Na manhã seguinte o vapor levantava ferro.
Á tarde estava Alberto conversando com João Faustino á porta da casa d’este, uma das raras cobertas de telha, na rua da Matriz, quando avistou um velho e uma mulher que vinhão quasi a arrastar-se pelo caminho, prostrados de fadiga.
Erão Morevi e Ierecê, cobertos de pó, arfando de cansaço e de fraqueza.
Correr ao encontro da infeliz rapariga, abraçal-a e leval-a para o interior da casa em que se achava foi o que fez Alberto com a maior espontaneidade, sem hesitação nem vexame, apezar de haver espectadores que podessem o censurar.
O velho, banhado de suor, anniquilado, deixára-se cahir pesadamente no chão ao pé da porta.
Alberto quiz ralhar com Ierecê, mas achou-a tão mudada, que não teve animo. Ella tinha as faces encovadas e tremia de frio e emoção.
—Que farei, Sr. Faustino? perguntou o moço querendo tomar sério conselho n’aquella contingencia.
—Parta, disse-lhe este com firmeza. Esta coitadinha mostra dedicar-lhe uma affeição verdadeira, mas por isso ficará o Sr. retido n’estes sertões? E por quanto tempo? Não ha rapariga que não tenha passado por transes d’esses, mulheres da mais alta sociedade e fortuna, quanto mais estas infelizes que se apegão logo a quem as trata com carinho. Leval-a para o Rio de Janeiro fôra para o Sr. causa de incommodo e de continuo vexame. Além d’isso os encantos de Ierecê que agora podem parecer irresistiveis, perderão muito, caso não se offusquem de todo, comparados que sejão com as bellezas que a arte e a civilisação fazem realçar. As suas relações que aqui erão muito licitas e naturaes tornar-se-ião em qualquer outra parte impossiveis e motivo justo de escandalo. Parta! Escrever-lhe-hei de vez em quando, mostrando-lhe que cumpri exactamente com todas as suas ordens.
Á noutinha a india comeo um pouco, depois de muito instada. O avô porém precipitou-se sobre a comida e devorou-a como se houvesse jejuado todos aquelles dias passados.
A final chegou a hora da partida.
Ierecê foi até o porto de rio Miranda e deitou um olhar de cólera concentrada para o navio que lhe roubava o amante.
Parecia, comtudo, calma.
Alberto, não querendo chamar sobre si a attenção da gente que acudira a vêr o embarque, occupava-se activamente de suas cargas; antes porém de saltar na canoinha que o ia levar ao _Alpha_ já sobre rodas no meio do rio, chegou-se a Ierecê, apertou-a ao peito rapidamente mas com força e, retendo a custo as lagrimas, depositou-a nos braços de Morevi.
Ella tinha perdido os sentidos, e quando uma filha das selvas e da inculta natureza desmaia, é que a dôr a esmagou com mão de ferro n’um paroxismo horrivel; é que o seu coração estalou n’uma contracção de agonia e a sua alma entrou em duvida se era ou não chegada a hora de sahir d’aquelle corpo para ir buscar outro mundo, outros destinos.
* * * * *
Cinco mezes depois de sua chegada ao Rio de Janeiro, Alberto Monteiro recebeo da mala de Cuyabá uma carta extensa que, datada da villa de Miranda, logo ás primeiras linhas o abalou fortemente.
Era de João Faustino.
«Meu amigo, dizia elle, as minhas previsões forão infelizmente erroneas. Ierecê, a bella virgem do Agaxi, já não existe.
«Pouco tempo depois d’ella sahir d’aqui, tive necessidade de chegar ao Lauiad e como o desvio da estrada era insignificante, fiz uma visita ao valle de Hetagati.
«Nem de proposito. Vinha eu assistir á morte d’aquella bella creatura. Quando assomei á porta do seu _rancho_[17], ella deo um grito de jubilo e, reconhecendo-me logo, fez gesto de querer levantar-se da rêde em que estava deitada.
«Sua magreza era extrema.
«Fiquei tanto mais sorprehendido, quanto ella se mostrára, á sahida da villa, tranquilla e resignada.
«—_Unái_ volta? perguntou-me ella com anciedade que me cortou o coração.
«Julgei de caridade mentir.
«—Elle me mandou dizer que já tinha partido do Rio de Janeiro.
«Um sorriso melancolico entreabio-lhe os esbranquiçados labios, e os seus olhos empanados ainda podérão fulgir.
«Depois não disse mais palavra.
«Perguntei ao velho Morevi como chegára Ierecê áquelle estado em tão curto prazo. Contou-me então que desde a volta ao Hetagati, a sua neta não quizéra ou não pudéra mais nem dormir nem tomar alimento. Uma tristeza sombria a acabrunhava, e febre surda mas continua lhe minava as fontes da vida. Debalde, como feiticeiro, conferenciára elle com o acauán; debalde, como sacerdote, cantára noutes seguidas; debalde, como medico, chupára o lugar em que batia o coração para ir cuspir n’uma cova distante o terrivel mal—a nada cedêra a molestia mortal.
«—O _portuguez_, disse-me em voz baixa Morevi, levou a alma d’ella.
«Observei Ierecê: poucas horas tinha que viver.
«Estava como que adormecida, arfando um pouco. De vez em quando parecia querer sorrir.
«Ao meio dia abrio de repente uns olhos espantados, pedio agoa e expirou, pronunciando em voz, mais e mais baixa, um nome que o senhor hade conhecer.
«—Alber...to... Al...ber...to!
«Vendo-a morta, prohibi que Morevi se entregasse ás expansões de dôr tumultuosa como usa a gente de sua nação, de modo que aquelles uivos e gritos selvaticos com que os chanés pranteão a morte dos parentes, não perturbarão o socego do valle em que tanto havia soffrido um coração.
«Antes de chegar a noute, enrolei o corpo d’aquella bella mulher na rede e enterrei-o no chão do rancho, conforme ella desejára e poucos dias antes pedira ao seu avô.
«Fiz uma cruz e finquei-a á cabeceira da sepultura.
«Ierecê tinha o direito de descansar amparada pelo symbolo da religião do Deos, cujos labios sagrados perdoarão a aquelles que havião durante a vida amado muito.»
* * * * *
Alberto Monteiro chorou largo tempo, e ainda hoje a recordação do amor de Ierecê ennuvia-lhe o espirito e constringe dolorosamente o seu coração.
FIM DE IERECÊ A GUANÁ
DA MÃO Á BOCA SE PERDE A SOPA
PROVERBIO EM 1 ACTO
PERSONAGENS
Manoel Ribeiro, capitalista. D. Rita, mãe de Isabel. Antonio da Fonseca, tio de Miguel Faria. João de Siqueira. Alfredo Rocha, primo de Isabel. Ignacio Lemos, pae de Alberto Lemos. Um criado.
A scena passa-se no Rio de Janeiro.
Época—1871.
DA MÃO A BOCA SE PERDE A SOPA
PROVERBIO
ACTO UNICO
SCENA I
Sala de visitas de Manoel Ribeiro: mobilia rica. No meio, uma mesa com tapete de gosto. Nos consolos jarras com flôres. Portas lateraes e ao fundo.
MANOEL RIBEIRO, FONSECA.
RIBEIRO (_passeia de um lado para outro, ao passo que Fonseca está sentado junto á mesa_).—É como lhe digo, meu amigo; tudo póde se arranjar...
FONSECA.—Então não lhe desagrada a minha proposta?
RIBEIRO.—Sinceramente, não. Eu, além d’isso, já a esperava... Combinei certas cousas... vi em você uns ares. É que não sou nenhum palerma: previ que breve teriamos que fallar a respeito e preveni D. Rita, minha mulher...
FONSECA.—Nós todos o conhecemos como homem sagaz.
RIBEIRO (_com simplicidade affectada_).—Sagacidade, não: alguma penetração... e quer que lhe diga uma cousa? (_parando diante de Fonseca que se levanta_) essa penetração não se desenvolveu como devêra por causa da educação que meus paes me derão. Oh! eu havia nascido para alguma cousa de grande n’este mundo... e que consegui afinal?... Que sou no fim de contas?
FONSECA (_com calor_).—Oh! meu amigo, capitalista e muito forte!... Que se póde desejar mais?
RIBEIRO (_levantando os hombros_).—Qual!... E a gloria, Snr. Fonseca? A gloria?
FONSECA (_com sorpreza_).—Que quer você com a gloria?
RIBEIRO (_apressadamente_).—Sim... ter um nome celebre, conhecido... ouvir a boca da fama apregoar os nossos triumphos, nossas façanhas... vêr-se apontado... sentir o nosso amor proprio docemente lisongeado... Então tudo isso de nada vale? Olhe, palavra de honra: eu quizéra agora, n’este momento, ter só uma côdea de pão duro que roer, comtanto que tivesse a certeza de que o nome de Manoel Ribeiro enchia os quatro cantos do universo... Pintar um quadro immenso... escrever um poema em cincoenta cantos ou um romance em trinta volumes... compôr uma marcha solemne para oitocentos e cincoenta professores (_com muito fogo_) hen? Que satisfação!... Como se deve ficar cheio!... Isso sim... isso é viver. Tudo o mais não passa de um penoso vegetar, como se a gente fosse simplesmente um páo de ipé ou de peroba... Para tudo aquillo é que eu nascera:... entretanto...
FONSECA.—Entretanto?
RIBEIRO.—Desde os meus primeiros annos vi contrariada a minha vocação... Nasci na opulencia, cresci na riqueza, fui obrigado a cuidar de meus bens, a augmental-os, e com esses cuidados materiaes lá se foi extinguindo o fogo sagrado que em minha mente ardia, e que a miseria e o desgosto terião feito medrar como chamma devoradora...
FONSECA.—Eu o acho, Sr. Ribeiro, poeta de mais...
RIBEIRO (_com ar desabusado e puchando o beiço_).—Eu poeta?... Aos cincoenta annos... depois de trinta de casado e bem casado?!... Já com uma filha em estado de tomar estado?!... Você então não conhece o poeta!... Poeta é um moço pallido, macerado de vigilias, namorador das estrellas, apaixonado louco de quanta mulher encontre, versejador em cima das fogueiras da inquisição ou espetado n’uma bayoneta, choramigador de desgraças por que nunca passou... de cotovelo rôto e chapéo amassado (_parando de repente e com satisfação_). Sinceramente agrada-me esta descripção... fui feliz devéras. (_Mudando de tom_) Se o poeta fôr velho então é philosopho... ou calvo como um urubú, ou possuidor de guedelha inculta e rebelde... unhas compridas, olhar desvairado, cantará as delicias da mocidade, que outr’ora lhe parecêra atroz, e desesperará da salvação da humanidade. Mas, no meio de tudo isso, como a gente sente o coração bater! Quantas alegrias, quantas doçuras nas privações... No juizo dos outros não passa de um infeliz... mas no intimo o poeta não troca as suas illusões pela fortuna de um principe... de um nababo...
FONSECA.—De um Ribeiro... maganão!
RIBEIRO (_sorrindo-se meio resignado_).—Que quer você? Não tenho outro meio de me celebrisar... Custei a consolar-me... custei!... Tambem não estaria casado... não teria uma filha que é preciso dotar... Uma vez nestas condições é melhor... que eu possua algum dinheiro nos bolsos do que muitos versos na cachola. (_Rindo-se, approxima-se de Fonseca a piscar um olho_) Que diz, Snr. Fonseca? O senhor pensa tambem assim, não é? Diga com franqueza...
FONSECA.—De certo os encargos de familia...
RIBEIRO (_abanando a cabeça com ar fino_).—Não é só por isso!.. É tambem por aquelle maganão... aquelle seu sobrinho... Que rapaz feliz!
FONSECA (_com repentino enthusiasmo_).—Que actividade!
RIBEIRO.—Boa presença... bons cabellos...
FONSECA (_encarecendo_).—Dentes excellentes!
RIBEIRO.—É um moço que tem futuro...
FONSECA.—Calculista, meu amigo! Não dá um passo sem pensar; não diz uma palavra (_faz com as mãos gesto de quem pesa_) sem pesal-a cuidadosamente...
RIBEIRO (_com certa hesitação_).—Mas elle... me parece...
FONSECA (_com algum receio_).—O que?
RIBEIRO.—Prosaico de mais...