Part 2
—Applaudo a idéa, replicou Alberto. Talvez até me entregue aos cuidados de algum velho kinikináo formado em medicina na escola da natureza e da experiencia.
Com essa nova intenção montou o moço a cavallo e, em vez de tomar a estrada de Miranda e dar o rosto ao sol que descambava já, enveredou á direita por uma trilha batida que, segundo dizia Florindo, levava com pouca distancia ao aldeamento dos indios.
O matto foi se tornando mais fechado, depois abrio em clareiras quasi regulares, formando o que se chama _potreiros_, denominação muito popularisada pela guerra do Paraguay. Uma d’essas abertas, maior em dimensões, era cortada a meio por um corrego encachoeirado, cujas agoas crystallinas acompanhava densa e dupla orla de buritys e taquarussús.
Não se podia encontrar retiro mais lindo, situação mais aprazivel e socegada.
—Que bello canto do mundo para a gente viver tranquilla e esquecida, exclamou Alberto.
E, voltando-se para o camarada:
—Aquellas casas que vejo ali, perguntou elle, são já da aldêa?
—Nhôr-não, respondeo Florindo: aqui móra o velho Morevi, kinikináo muito meu conhecido e que é _mandingueiro_.
As tres casinhas, ou melhor choupanas, de que fallava o moço, assentavão n’uma elevação de terreno e dominavão todo aquelle restricto valle. Feitas de pouco e cobertas de palmas de carandá, erão rectangulares, de frente muito baixa e com uma fenda estreita no meio que lhes servia de porta. Diante da mais espaçosa d’ellas, um bambú, ornado de comprido trapo vermelho a ondular no tope, indicava a morada de algum indio de importancia, capitão sem duvida ou então _padre_, que exerce as funcções de sacerdote cumulativamente com as de medico e de prestigiador.
Os viajantes se adiantarão sem demora e forão recebidos com a maior benevolencia por um idoso kinikináo que sentado á porta levantou-se com a presteza que lhe permittião as cansadas juntas. Nú da cintura para cima, tinha uma especie de saia que lhe descia aos calcanhares, toda ornada de vidrilhos e contas de côr. O rosto, pescoço e tronco estavão sarapintados de desenhos e cortados de linhas vermelhas e pretas feitas com o succo do urucú e do genipapo, mas aquelles signaes, destinados principalmente a incutir terror nos que o fitassem, se conseguião disfarçar a côr de tijolo queimado da pelle, nem de leve modificavão a expressão natural de timidez e bondade que caracterisa em geral a physionomia dos indios guanás e kinikináos.
Nem sequer parecia possuido da importancia que a sua posição de feiticeiro devêra lhe angariar, pois sem a menor hesitação estendeo a mão a Florindo e saudou-o com provas até de respeito.
—_Unatiti?_[3] perguntou rindo-se e mostrando uns dentes alvissimos e ponteagudos, ao passo que duas linhas de urucú e genipapo, acompanhando o enrugamento da pelle, formavão dous circulos ao redor da boca.
O soldado respondeo tambem em lingua chané[4] e explicou-lhe que aquelle companheiro era _capitão_[5] e pretendia ir até a aldêa para curar-se de sezões.
—_Quixauó!_ exclamou Morevi, _carineti tchikiiti_.[6]
Como a tarde vinha já descendo, decidio Alberto pousar ao menos uma noute n’aquelle bello lugar, pelo que encarregou Florindo de obter a posse de uma das choupanas o que se conseguio sem a menor difficuldade, tanto mais quanto na occasião não tinha ella occupante. Na outra morava uma india de meia idade, cujos filhinhos robustos e gentis podião attrahir as vistas de um homem branco e artista de coração.
A installação fez-se com presteza. Depois de bem varrido o chão de barro batido, forão as ligeiras cargas do viajante depositadas a um canto e a sua rede suspensa ás traves mais grossas que servião de mourões á palhoça.
Morevi recebeo logo em paga de sua amabilidade um punhado de sal, que elle embrulhou cautelosamente como preciosidade inestimavel.
Mas quando ao sal já recolhido addiccionou-se um vistoso collar de vidrilho e contas de ouro que devia lhe ornar o encarquilhado pescoço, então a sua gratidão não conheceo limites e despegou-lhe, depois de muito gesto comico, a lingoa n’uma catadupa de palavras quasi sem nexo, umas em seu idioma, outras em portuguez estropeado.
—Este _lavrado_[7] não é para mim, disse elle afinal mais calmo a Florindo, é para a minha neta. Ella foi á aldêa grande e d’aqui a um _nadinha_ estará batendo de volta.
Pouco depois, com effeito, appareceo alguem á entrada da clareira, para lá do corrego.
—É Ierecê[8], exclamou Morevi apontando para aquelle lado, é a minha neta!
E os seus olhos já apagados pelas sombras da velhice brilharão de orgulho.
Vinha se approximando uma mulher de altura regular e pórte elegante. Ao chegar á corrente abaixou-se e encheo vagarosamente uma vazilha de carregar agoa que trazia á cabeça, assente em volumosa rodilha. Depois adiantou-se sem acanhamento, acostumada como estava a vêr gente de Miranda na aldêa dos indios seus patricios.
Trazia todo o corpo embrulhado n’um panno alvissimo, a que chamão _julata_ e que, preso por volta muito apertada logo abaixo dos seios, desce até os calcanhares, e mostrava ter quando muito quinze annos idade da plenitude de mocidade e belleza n’aquellas localidades em que o desenvolvimento da puberdade, já de per si precoce, é quasi sempre apressado.
Seo rosto de formosura singular houvera em qualquer parte do mundo prendido as vistas. Se a fronte era estreita, os olhos um tanto obliquos e as sobrancelhas pouco arqueadas, em compensação os cilios compridos e bastos fazião realçar o brilho dos negros iris; o nariz tinha uma rectidão caucasica; os labios parecião tintos de carmim e a cabelleira negrejante, bem que aspera, espargia-se por um collo e seios admiraveis de contorno e de pureza. Para completar o typo de uma bella moça nem sequer lhe faltavão pés e mãos de uma pequenez e delicadeza dignas de cuidadosa attenção.
A tez, muito lisa e fina, na côr approximava-se á do chocolate desmaiado em leite, tão desmaiado que quando qualquer impressão mais viva ia entender-lhe com o coração, as suas faces se accendião vivas de rubor.
O que, porém, mais prompto e doce sobresalto causava em que para ella deitasse os olhos, era, em vez da apathia estampada geralmente no rosto das mulheres de sua raça, a expressão de meiguice e tristeza que lhe pairava na physionomia.
A admiração de Alberto, ao vêr tão formosa creatura, não passou despercebida do velho avô que com isso pareceo sentir viva satisfação, partilhada de resto pela neta, quando ella cingio o pescoço com o collar que lhe havião dado. Olhou então curiosa e agradecida para aquelle estrangeiro e sorrio-se para elle, deixando vêr no encrespar dos mimosos labios uns dentesinhos alvos e agudos, como dentes de maracaiá.
—Sua neta é kinikináo? perguntou Alberto.
—_Acó_, respondeo Morevi, _pae tchoronó-unó_, filha tambem: mãe só _koinukunó_.[9]
—É muito bonita! exclamou o moço com sinceridade.
O velho abanou a cabeça para confirmar aquelle juizo enthusiastico e tomou um ar benevolo e philosophico, de homem já alheio á paixão e que deixou á mocidade o direito de sentir aquellas commoções.
—Você quer Ierecê para sua mulher? perguntou elle com alguma pausa e gravidade. Hade lhe dar comida e roupa.
Alberto vacillou, mas Morevi, sem esperar pela resposta, pegou-lhe na dextra e, abrindo-a, n’ella collocou a delicada mão da neta, ao passo que murmurava umas palavras cabalisticas, com os olhos meio cerrados.
Ierecê não fôra consultada e durante a ceremonia perfunctoria que a ligava, segundo os costumes de sua gente, a aquelle homem desconhecido por um laço que não ella, mas só elle, podia romper, mostrou-se completamente indifferente.
Uma só cousa a occupava: era o collar de contas de ouro que no seu peito os ultimos raios de sol illuminavão de pontosinhos scintillantes como que a desferirem chispas, que lhe aguilhoavão docemente a feminil vaidade.
CAPITULO II
A primeira semana correo para Alberto alegre e animada. Desapparecêra de todo a febre, e elle se sentia como que retemperado pelo socego do retiro em que vivia.
De manhã muito cedo sahia para a caça e só voltava quando o sol ia alto e que o calor apertava, trazendo sempre pesada enfiada de passaros, uns notaveis pelo tamanho, outros pela plumagem.
A essa hora, Ierecê tinha por costume esperal-o com uma cestinha de fructas da terra, bananas, mamões e jaracatiás, ou outros mais incultos como o mureci dos cerrados, a marmelada do campo, a guabiroba ou a uvaia, que, apezar do sabor agreste agradão bastante ao paladar.
Apenas chegada a caça, a india a depennava com ésmero antes de entregal-a aos cuidados de Florindo que tomára a si o preparo da comida, no que mostrava algum talento bem que usasse, para os misteres da cozinha, da gordura geralmente empregada em Matto-Grosso: a graxa de boi.
Á tarde, depois de abundante e sã refeição, Alberto ia conversar com Morevi e tomar lições de lingoa chané, com cujas palavras mais notaveis procurava coordenar um ligeiro vocabulario.
Se, entretanto, o principiante mostrava alguns progressos, erão todos elles devidos ás indicações de Ierecê que se admirava muito dos esforços que aquelle branco empregava para vir a fallar como se fôra indio.
Ella parecia um tanto triste, indifferente sobretudo.
Na choupana ao lado, o avô continuava em suas praticas de devoção e vivia completamente estranho ao casal.
No fim da primeira semana de estada no Hetagati[10]—assim se chamava o lugar—foi o soldado Florindo despachado para a villa de Miranda, afim de, com a necessaria discrição, ir buscar alguns meios de conforto, fructos seccos, conservas, diversos córtes de fazendas e tudo quanto podesse ser de mais immediata necessidade para a estada e alguma demora n’aquelle local.
Entre os objectos encommendados, não forão esquecidas duas garrafas de agoardente de canna e varias braças de bom fumo goyano que erão destinadas ao complacente Morevi.
Com a chegada de uma peça de chita franceza, Ierecê deixou o trajo nacional e primitivo e cobrio o esbelto corpo de um vestidinho que Alberto deo-se ao trabalho de cortar e preparar, dirigindo o trabalho da costureira, tão desageitada em seus movimentos, quão impaciente por terminar e poder envergar aquella roupagem nova.
Não perdeo ella, com isso, em graça; pelo contrario, mais alta e vistosa parecia com a saia escorrida e a camisinha alva que lhe cahia dos hombros, repellida pela rebeldia dos seios.
Seo genio era a realisação fiel do que exprimia logo a physionomia: muita brandura, tristeza e alguma curiosidade.
A principio Ierecê considerára Alberto como um ente de natureza superior, a quem devia obediencia céga, emquanto lhe servisse de méro passatempo; depois foi-se possuindo de admiração e sobretudo reconhecimento ao vêl-o tão occupado de tudo quanto podesse lhe realçar a natural belleza ou agradar ao seu espirito.
Como ella se contemplava ao espelho, radiante de orgulho e alegria, quando aquelle _portuguez_[11], de fronte alva e espaçosa, lhe arranjava com singular paciencia os abundantes cabellos, formando caprichosos e sempre novos penteados?!
Como ouvia attenta, com os bellos olhos arregalados e a boquinha entre-aberta de admiração, as narrações, umas reaes, outras phantasticas que elle á tarde lhe contava, quando, deitados ambos sobre a relva diante da choupana, vião o sol se esconder por detraz da matta e a noute subir da terra para os céos?!
N’essa hora, tudo é tristeza para a alma que as sombras da natureza parece quererem tambem invadir. Entretanto era quando o coração de Ierecê pulsava com mais segurança e calma, embóra o pio aterrado da jaó acordasse melancolicos os échos da floresta, embóra o bacuráo atirasse aos ares as plangentes notas da aspera garganta.
A sua faceirice natural e innocente era ajudada por intelligencia vivida e pela delicadeza de instinctos: assim para logo desterrou do rosto e braços as pinturas que costumava traçar com urucú e genipapo; deixou de cuspinhar, como fazem a cada momento os indios e de comer rapida e vorazmente, empenhando-se emfim por merecer applauso pelo abandono prompto d’este ou d’aquelle habito menos conforme com o modo de viver civilisado.
Além d’isso, apenas foi avisada por Alberto, occultou com modestia os seios, trazendo sempre diante do peito um lenço preso á cintura por duas pontas e atado pelas outras ao pescoço.
O que era bom e poetico, ella conservava; assim, frequentemente entretecia capellas e collares de flores para os cabellos e braços e todos os dias renovava a elegante palma ou a folha de samambaia mimosa que, segura por delgado cordão, lhe acariciava a fronte como verdejante pennacho.
Em principio Ierecê a custo sahia do silencio: depois, observando a bondade com que a tratava Alberto, arriscou algumas palavras em chané, logo após em portuguez, e não tardou muito que ficasse garrula a mais não poder, papagueando o dia inteiro, ora em sua lingua, ora na outra, que ella entendia perfeitamente, por isso que fôra criada na aldêa do Bom Conselho, perto de Albuquerque, onde recebêra das mãos do missionario frei Marianno de Bagnaia as aguas do baptismo e o nome christão de Sylvana.
Das praticas e orações religiosas que aquelle virtuoso capuchinho lhe ensinára na aula de catechismo, só conservára o signal da cruz, symbolo que nunca deixava de fazer pela manhã ou á noute, quando ia se deitar.
Uma vez quebrada a barreira de constrangimento que a separava de Alberto, nasceo no espirito da india o desejo de tornar-se agradavel e bemquista. Então por uma combinação de cuidados graciosos e lembranças felizes, ora ornava o interior da choupana de flores e de festões de folhas, ora contava historias de sua tribu, n’um portuguez muito atravessado e custoso, ora trabalhava com afinco em tecer uma faixa com desenhos de variegadas côres para ser atada á cintura de quem a possuia, ora porfim mostrava-se repentinamente amuada para logo voltar ás boas com um excesso nunca visto de momices e caricias.
Não raras vezes, ao esperar o moço que voltava de suas excursões pela matta, occultava-se Ierecê por traz de alguma arvore possante e cahia de chofre sobre elle com o fim de assultal-o.
Erão então gargalhadas francas, sonoras, argentinas, como solta um peito que não sente cuidados.
Em começo, a india mal deixava os arredores da choupana, chegando quando muito até o ribeirão. Depois alongou os passeios, só com o fim de ir apanhar passaros que tivessem pennas mais formosas e brilhantes do que os que trazia o caçador. Com visgo natural que tirava da mangabeira para armar arapucas e com bagas de succo inebriante, conseguia ella agarral-os vivos, e voltava, então, pulando de contente deposital-os nas mãos de Alberto depois de ligar-lhes as azas ao corpo por meio de uma embira larga.
Era de vêr-se o seo ar de importancia e ufania, um arsinho seductor, irresistivel.
Se havia prazer em prender os mimosos volateis, maior, sem comparação possivel, experimentava ella quando Alberto lhe pedia a liberdade para os prisioneiros.
Soltal-os era uma festa que se fazia quasi sempre á tarde, com luz bastante para que os passarinhos podessem ir buscar os seus pousos de querencia. Ierecê os ia beijando com carinho, ao passal-os um por um a Alberto, que era quem desatava o cordel que lhes impedia o vôo.
O animalsinho disparava palpitante de medo com direcção á matta, e Ierecê seguia-o quanto podia com a vista, descansando, ao volver a cabeça, os olhos carregados de amor n’aquelle mancebo tão bondadoso para com todos os filhos da natureza.
Os dias correrão rapidos, e, bem que Alberto começasse a achar a vida que levava um tanto monotona, não podia eximir-se da satisfação suave que em todos produz a extrema quietação. Entretanto, ao observar os progressos da paixão que accendêra no peito da indigena, sem querer entristecia-se e procurava arredar da lembrança a necessidade de em breve dar fim áquella ligação passageira.
O amor de Ierecê era inventivo. Tudo quanto podesse sorrir ao espirito do moço, tratava ella, na medida de suas forças, de conseguir logo: plantas raras e curiosas, ou que lhe parecião tal; mineraes coloridos, conchas do rio e insectos, objectos emfim mais ou menos approximados pela côr e fórma a qualquer outro que Alberto houvesse fitado com mais attenção e que immediatamente a ella servia de typo para as amorosas pesquizas.
Então como se pagava de um olhar de agradecimento, de um sorriso, um gesto?! Seos olhos inquietos estudavão a impressão que a physionomia do mancebo lhe havia de denunciar.
As narrações que Alberto fazia da vida e dos esplendores do Rio de Janeiro excitavão-lhe vivamente a imaginação. A descripção do trajo das mulheres e da mudança continua das modas sobretudo a encantava de um modo singular.
—Ah! se eu tivesse tudo aquillo! disse ella uma vez com fundo suspiro.
—Você quer ir para lá? perguntou-lhe o moço.
—Nhôr-não: Ierecê ficava feia perto das _portuguezas_ tão alvas e bonitas. Eu nasci para o matto. Depois na cidade minha gente morre toda de bexigas.
Florindo dava-se muito bem com a india: ella o ajudava no preparo da comida; ia buscar fogo; corria a encher no ribeirão a bilha d’agua; respigava para a cozinha gravetos bem seccos, tudo com tamanha espontaneidade que o soldado, apezar da fleugma natural, deixava-se levar a lhe querer muito bem, o que manifestava a Alberto, respeitando na mulher a posição do seu camarada.
—Ó vossa senhoria,[12] dizia elle, esta _dona_ parece mesmo, com sua licença, filha de feiticeiro. Nunca vi uma creatura, com perdão da palavra, de melhores modos. Prende deveras o coração da gente.
Alberto Monteiro jamais se sentira, senão tão feliz, pelo menos tão calmo. Nada lhe perturbava a paz do espirito, e como a saúde voltára completa, vivia sem consciencia exacta do tempo que passava.
A paizagem que o cercava era restricta, mas amena. Densa cintura de matta virgem limitava logo o horizonte; em compensação, porém, os olhos erão obrigados a parar demoradamente nos grupos de buritys e taquarussús que acompanhavão o percurso do corrego e que mais se condensavão em torno de uma bacia larga e natural em que as agoas se espraiavão sobre um fundo de areias prateadas.
Ahi era o banho de Ierecê.
Ás vezes, alta noute, o velho Morevi rompia o silencio do valle com um canto lugubre, cortado de notas agúdas e desafinadas. Para essas barulhentas vigilias é que se trajava do modo em que o encontrára Alberto no dia de sua chegada a Hetagati: sáia toda enfeitada de lentejoulas, presa á cintura por um talim bordado a contas de côr e corpo riscado de urucú e genipapo. Os complementos de sua vestimenta sacerdotal erão um espanador grande de pennas de ema, ornado de desenhos caprichosos e um chocalho que sacudia pausadamente, ao passo que percorria, a avançar e recuar, um couro sem pello estendido diante da porta.
Erão as conferencias do feiticeiro com o _acauan_, especie de gavião pequeno que solta guinchos finos, accentuando as syllabas que lhe derão o nome—a-ca-uán—passaro agoureiro no dizer dos indios e com cujas consultas podem os padres descortinar o futuro.
De madrugada, o canto de Morevi soffria uma parada longa: de repente ouvia-se muito ao longe o grito do milhafre a que o velho respondia com voz de supplica afim de chamal-o para mais perto. Assim parecia acontecer. Os pios vinhão se tornando cada vez mais distinctos e afinal os ares estrugião com um estridente hymno de triumpho em que o rouquejar do velho casava-se com o vozear do passaro adivinho.
Ahi começavão as revelações.
Alberto, a principio, pela singularidade da cousa e pela perfeição com que era imitado o gritar do acauan, foi observar o velho e ouvir-lhe as descompassadas cantigas; entretanto, ao depois, ficava impaciente por ser interrompido no melhor do somno.
Ierecê, então, foi ter com o avô e taes argumentos empregou, apoiados em dadivas e promessas, que nunca mais aquella grita dissonante perturbou a tranquillidade das noutes. Se continuarão as consultas ao acauan, forão sem duvida feitas com toda a modestia em voz muito baixinha, para não incommodar o _portuguez_.
Em compensação, se, para socego dos ouvidos, calava-se Morevi, a netinha cantava melodias de sua nação, sempre no mesmo tom e com as mesmas notas, mas com voz tão suave e pura, que ouvil-a conciliava um somno doce e enervador. Ella cantava como cantão os passarinhos que para unica musica tem só duas ou tres modulações que Deos lhes poz na garganta para o seu passatempo... mas assim mesmo não agrada tanto ouvil-os?!
Quando Alberto lhe pedia alguma canção, Ierecê cheia de alegria, mas tolhida de vexame, principiava toda a corar e a empallidecer, balbuciando e murmurando: depois, firmava a voz e desprendia do peito notas repassadas de uma ternura indizivel e que vibravão como partidas das cordas do coração.
Era, com effeito, o pobre coração que estremecia e alçava preces de amor a quem o captivára.
* * * * *
Uma noute, o luar era brilhante: tudo resplandecia de luz branda e azulada.
A matta, ao redor, formava uma linha escura, e o ribeirão parecia desdobrar-se em laminas de prata. Pontos scintillantes corôavão a folhagem compacta das palmeiras, por entre cujos troncos a luz, coando vivamente, estendia pelo chão compridas sombras que semelhavão columnas derrubadas por terra.
Ierecê preparára uma sorpresa.
Fôra, de manhã, á aldêa do Agaxi convidar diversas indias kinikináos para virem passar a noute no Hetagati.
Á hora aprazada, chegarão de facto seis bellas raparigas, vestidas com a tradicional _julata_ que lhes deixava descobertos os seios pequenos e empinados. O typo era o mesmo que o de Ierecê; mas esta, no meio das companheiras, parecia uma deusa cercada de nymphas. Tinha pórte mais altivo, physionomia mais expressiva e intelligente.
Alberto, ao vêr chegar o gentil bando, adiantou-se ao seu encontro.
A guaná o mostrou com orgulho, e, tomando pela mão a visitante que lhe pareceo mais bella, caminhou para o mancebo: então, entre risonha e medrosa, disse-lhe que d’ora avante se considerava vencida em formosura e cedia o seu lugar a quem mais o merecia.
A recusa immediata não mostrou offender a kinikináo e mais exaltou a alegria de Ierecê.
Um dos caracteristicos das raças selvaticas é estarem os seus individuos sempre dispostos para comer. Foi por isso que, havendo Florindo sido avisado de antemão e preparado lauta refeição de porco do matto, palmito amargoso e pirão de milho, poderão as recem-chegadas sem demora satisfazer a sofreguidão do appetite.
Acabada a ceia, forão todas ao corrego e banharão-se com grande e festivo ruido.
Já então havia Ierecê espalhado diante da choupana uma ramagem fresca e odorifera, sobre a qual estendeu um panno alvo, afim que Alberto se deitasse, e mais a gosto podesse assistir aos dansados que ella e as companheiras ião executar.
Morevi deo o signal batendo n’um tambor de pelle de anta e entoou uma canção de andamento vivo.
Ao ouvirem as primeiras pancadas, as indias se puzerão em linha e n’essa disposição avançárão e recuárão diversas vezes com passo fingidamente tropego: depois, soltando as mãos, compozerão varias figuras ou em grupos de tres, ou correndo em circulo umas atraz das outras, antes de reformarem a linha primitiva. De vez em quando uma d’ellas parava e unia a sua voz á do rouquenho cantor para animar o dansado que se accelerava e mais calor e vivacidade tomava com os gestos elegantes e posições voluptuosas, quasi lubricas, das bailarinas.
Depois da dansa, cantarão todas juntas um côro, que peccava, não pelo afinado das vozes, mas pela falta absoluta de variedade, razão pela qual Florindo observou com graça que aquella musica havia de agradar muito quando a gente estivesse a dormir.
Á hora em que o cruzeiro vai virando no céo, Ierecê deo por finda a funcção.
Alberto se distrahira mediocremente, mas julgou caso de polidez e justa condescendencia mostrar-se plenamente satisfeito e divertido.