Historias Brazileiras

Part 7

Chapter 73,904 wordsPublic domain

Com tão pouca idade soubera conciliar o respeito dos seus e a amizade dos brancos. Era elle quem tomava a peito as queixas da sua gente nas relações com os moradores de Miranda, quem ia denunciar a frei Marianno as irregularidades dos contractos ou os desmandos que se davão na sua aldêa. Pedia providencias n’um e n’outro sentido; indicava-as acertadas, e conseguia de vez em quando algum resultado, conforme os interesses dos seus e como era de justiça. Soubera até em varias occasiões franzir o sobrolho ás autoridades da povoação, dispostas sempre a abusar, e, apoiado na boa vontade do frade capuchinho e no seu espirito de rectidão, obteve que cessassem para os habitantes de seu aldeamento diversas medidas vexatorias a que estavão sujeitos os indios.

Uma vez Pacalalá teve noticia de que um kinikináo, avelhentado e onerado de familia, fizera com o juiz de paz de Miranda um contracto de locação de serviços por dous mezes pelo preço de quatro mil réis, e mais uma garrafa de aguardente no fim de cada mez.

Sem demora partio para a villa e recorreo a frei Marianno, que se apressou em saber da verdade.

Um papel em regra de accordo mutuo foi-lhes apresentado, e o indio declarou que o lavrára sem sugestões e de muito livre vontade.

Não havia recalcitrar.

Então Pacalalá adoptou um expediente novo. Propôz a substituição do trabalhador, ficando de pé a letra do contracto.

Era um moço que tomava o lugar do velho, e, como o tal juiz de paz não podia fazer negocio melhor, immediatamente aceitou a proposta, com grande applauso do frade.

Pacalalá, que podia, como costumava, arranjar facilmente trabalho a 500 réis diarios, esteve com toda a constancia dous mezes ás ordens do contractante, e sem duvida alguma fez serviço triplo ou quadruplo do indio que substituira.

Findo o tempo convencionado, elle recebeo os quatro mil réis que deo de esmola para as obras da matriz, e levou as garrafas de aguardente para offertal-as a Flavio Botelho, cuja filha mais bella lhe havia prendido o coração.

Em todo caso, se perdera dous mezes de trabalho, em compensação o seu prestigio augmentou de um modo extraordinario.

—Os _portuguezes_, dizião os velhos com aquelle sorriso quasi imperceptivel que os indios têm, não podem com Pacalalá. Elles são velhacos como a jaguatirica, mas Pacalalá é como o lagarto que dá chicotadas sem ser visto.

Camiran tinha orgulho em ser mãi d’aquelle filho, orgulho immenso, mas occulto no ádito de sua alma. Não só por indole, como pelos costumes dos seus, nunca deixára transparecer a affeição intensa que sentia por elle, nunca corrêra ao seu encontro ou o abraçára, quanto mais beijal-o ou tecer-lhe elogios!

A mais completa reserva cercava o seu amor maternal, repassado, com tudo, do mais profundo enthusiasmo.

Se havia cabana bem construida, forte, era a d’ella; se alguem tinha commodidade de vida na aldêa não excedia a que desfructava Camiran.

Da roça de seu filho vinha abundante colheita de aboboras, milho, arroz e feijão; varias gallinhas cacarejavão diante de sua porta, e uma vacca com o bezerro ao lado dava-lhe pela manhã leite a fartar.

Não havia dia em que Pacalalá voltasse dos seus trabalhos sem trazer para a mãi um cesto de carás ou de raizes de aipim, alguma fructa saborosa ou miolo assucarado da macaúba, que os indios chupão com delicia.

Ás vezes a caçada diligente do rapaz fazia apparecer na refeição habitual a delicada carne da _jáo_, da _aracuan_, _jacutinga_ e _inambú_; mas o preço da polvora e do chumbo tornava raras essas occasiões.

Quando Pacalalá vinha do roçado, Camiran, sem dizer palavra, tomava os alimentos e corria a preparal-os. Elle tirava as calças que lhe servião para o gyro habitual, embrulhava-se n’uma _julata_ e ia deitar-se na rêde de tiras de couro, a fumar n’um grande cachimbo de barro.

Assim ficava longas horas, fitando um ponto no chão e com o espirito em torpor.

As idéas de Pacalalá propendião para o congraçamento com os habitantes de Miranda; entretanto elle devéras se affligia da má fé e dobrez que os brancos punhão sempre n’essas relações.

—Cuidado com os _portuguezes_, dizia elle para os seus quando consultado; são nossos iguaes e não nossos amos. N’esta terra não deve haver duas gentes: uma que mande e outra que trabalhe. Todos devem trabalhar.

Uma vez ameaçou até vir ao Rio de Janeiro apresentar as suas razões de queixa e com isso produzio algum abalo no animo de uma das autoridades da villa, tão arbitraria quão subalterna.

—Se nos atormentarem muito, irei até a côrte fallar com o Imperador, que é o capitão grande. Eu sei que elle não quer que os indios sejão maltratados pelos _portuguezes_.

Já se vê que Pacalalá tinha direito a mais consideração entre os kinikináos do que qualquer outro.

Se não reagia, pelo menos protestava sempre.

Era, porém, chegada a occasião de justificar a confiança que inspirava, e elle não hesitou em aceitar a commissão que lhe impunhão o respeito e a consideração de sua tribu n’aquella difficil emergencia.

Sem perda de tempo, Pacalalá ordenou o abandono da aldêa do Agaxi. Separou mulheres, crianças e velhos, carregou-os de tudo quanto podia ser mais facilmente transportado e entregou esse grupo á direcção de Flavio Botelho, que devia dirigir-se ao porto do Canuto, no rio Aquidauána, d’ahi a 8 leguas, para embrenhar-se depois na serra de Maracajú.

A romaria partio; não sem alarido, imprecações e gemidos. As velhas sobretudo levantavão uma grita da mais completa desesperação.

Ião levando á cabeça enormes trôxas, moveis até, ou vergadas ao peso do _nadô_, grande rede de malhas em forma de saccos suspensa por uma tira de couro que applicão de encontro á testa.

Depois de deserta a aldêa, Pacalalá reunio trinta homens validos e á frente d’elles marchou para Miranda a saber o que convinha fazer.

A estrada do Agaxi para a villa estava cheia de fugitivos, indios em grupos, outros isolados, homens montados a correrem, velhos a se arrastarem de cançados, crianças perdidas, mulheres desamparadas e familias inteiras, umas a pé, outras mettidas em carros de bois, que caminhavão aguilhoados por impaciente ferrão.

Toda a população estava em movimento e, cousa digna de reparo, n’essa occasião desastrosa, não se davão factos de violencias, roubos e assassinatos, tão faceis no meio da desordem geral.

—Para onde vão vocês? perguntou a Pacalalá um mineiro, que desanimado da morosidade dos seus bois de carro estava parado ao meio da estrada, cercado da familia em pranto.

—Para Miranda, respondeu o indio.

—Pois então me levem a minha mulher e estas tres crianças. Todas andão bem a pé e depois de amanhã estou _batendo_ na villa. Fico para esconder o meu trem no mato.

O kinikináo aceitou a incumbencia e, acolhendo sob sua protecção a familia do mineiro, com ella entrou em Miranda.

A villa estava, como dissemos, entregue á maior anarchia.

Pacalalá comprehendeu logo que não havia tenções de resistir e que toda demora importava augmento de perigo: entretanto, como era preciso armar os seus e as autoridades não distribuião, nem querião distribuir armamento e munições, esperou que os moradores se retirassem.

No dia 8 de Janeiro não havia mais um só habitante, e um deposito immenso de artigos bellicos ficava entregue ao saque dos indios, antes de passar para o poder dos paraguayos.

Eis porque nas mãos de terenos, kinikináos, laianos, guanás, guaycurús, cadiuêos, beaquiéos e outros vião-se excellentes clavinas e muita polvora e bala durante todo o tempo da occupação do districto.

Com a sua gente municiada, Pacalalá dirigio-se então para o porto do Canuto e capitaneando a tribu subio a serra de Maracajú pelo lado o mais ingreme e foi estabelecer acampamento na bellissima chapada que corôa aquellas alturas.

A esse mesmo planalto, mas por caminhos differentes, havião já chegado muitos fugitivos, entretanto como ella era coberta em toda a superficie de mato virgem e vigoroso, diversos nucleos forão se formando, sem que communicassem logo uns com os outros.

Estava-se ahi livre da perseguição paraguaya, mas quanto soffrimento, quanto desespero, para toda aquella infeliz gente sem outro alimento mais do que palmitos, côcos, fructos da mata, mel de abelhas e uma ou outra caça, essa mesma comprada a peso de ouro!...

Os que tinhão iniciativa tratarão logo de derrubadas para entregar á terra as sementes que havião cuidadosamente trazido comsigo e preparar assim um futuro melhor.

Entre esses achou-se Pacalalá, por cujos conselhos todos os kinikináos cuidarão promptamente de roçar e de plantar, pelo que forão os primeiros que conhecerão a abundancia de cereaes.

Na verdade a terra como que pareceu querer ajudar os pobres refugiados que só de uma boa colheita podião esperar lenitivo para tantos males. O grão que n’ella cahio achou-se em breve multiplicado de uma maneira maravilhosa, e todos quantos galgarão a serra e se acoutarão em suas umbrosas dobras tiverão em pouco tempo mantimentos de sobra, muito além das mais exageradas esperanças.

Houve até um branco de Miranda que, plantando meio alqueire de milho, colheu mais de duzentos, e de uma quarta de feijão tirou perto de quarenta alqueires!

A uberdade do sólo era espantosa. Qualquer clareira no mato, aberta é verdade com muito trabalho e a poder do machado muitas vezes manejado por mãos de mulheres e crianças, tornava-se ponto em que parecia cahir o maná do céo.

Tambem não tardou muito que toda a colonia brazileira ahi estabelecida de mistura com indios kinikináos, guanás, terenos e laianos, gozasse de bastantes recursos para considerar de animo mais calmo as desgraças que acabavão de soffrer e poder com paciencia esperar pelo final da guerra que os paraguayos tão imprevista quão deslealmente havião encetado.

Nos diversos lugares da serra em que havia moradores e que tomarão o nome de acampamentos, construirão-se ranchos vastos e commodos, e pouco e pouco regularisou-se o modo de viver.

Para augmentar até aquella repentina prosperidade, veio um casal de gallinhas, trazido com muita cautela de Miranda por um indio, que lá se introduzio á noute, dar uma producção vigorosa e em tão grande numero que anno e meio depois contavão-se alguns possuidores de centenares de cabeças de criação.

Nos Morros—assim se ficou chamando o lugar—a boa paz presidio as relações de todos, e em honra ao espirito da população de Matto-Grosso póde se afiançar que nenhuma scena de violencia, durante todo o tempo de exilio, lembrou que havião totalmente desapparecido o imperio das leis e a protecção das autoridades.

Os indios, em numero décuplo dos brancos e que podião, como receiarão a principio muitos, libertar-se com estrondo da tutéla em que havião vivido, se ficárão um pouco mais altanados e independentes, nem por isso praticárão desmandos nem se aproveitarão das occasiões para reacções ás vezes justificadas.

Entretanto a nomeada da fartura existente nos Morros ia attrahindo para lá os fugidos do districto, de modo que em fins de 1865 estavão elles quasi todos reunidos na chapada da serra de Maracajú.

O paiz, desde os pantanáes do Cochim até o rio Apa de um lado, e de outro desde o Paraguay até os campos de Camapuan e Vaccaria, ficára entregue aos paraguayos que rondavão sobretudo a área comprehendida entre os pontos do Souza, Espenidio, Forquilha, Nioac, Ariranha e Esbarrancado, onde mantiverão, até Agosto de 1866, importantes destacamentos.

Por entre essas rondas passavão á noute os indios quando descião da serra para vir laçar rezes na planicie e ajoujal-as com outras mansas, tangendo-as assim para os acampamentos.

Com essas expedições repetidas sempre com exito, apezar da vigilancia dos inimigos, abastecião-se de carne fresca e secca ao sol todos os moradores dos Morros, que então só se podião queixar da falta de sal, essa mesma até certo ponto minorada pela exploração dos barreiros e terrenos salitrosos, tão abundantes em todo o sul de Matto-Grosso.

Pacalalá tinha-se formado uma verdadeira especialidade na obtenção de bois para o córte. Era o mais ousado em descer á planicie, ficando ali sem receio dias inteiros a escolher as rezes que contava agarrar. Com alguns companheiros bem armados chegou a levar oito e mais animaes, tendo sempre a cautéla de esconder as suas pégadas ou de deixal-as apparentes, quando n’isso via vantagem.

Uma vez porém, em principios de 1866 foi perseguido de perto por uma ronda paraguaya.

Seis kinikináos tocavão umas rezes emcambulhadas, quando Pacalalá reconheceu que ião ser atacados. O lugar, porém, prestava-se á resistencia: era já na fralda da montanha e a trilha de subida serpeava por denso matagal de taquarissima.

Destacando dous indios para continuarem a tanger o gado, Pacalalá com os outros esperou a ronda n’um angusto pedregoso, e de um tiro certeiro derrubou o paraguayo que vinha abrindo caminho na frente dos mais soldados.

A ronda recuou precipitadamente, deixando como trophéos de victoria não só o cadaver do companheiro como o cavallo que montava.

Grave agitação produzio nos acampamentos dos Morros a chegada de Pacalalá todo cheio de seu triumpho e trazendo atado á cauda do animal o corpo do inimigo.

Uns possuirão-se de pavor tal, cuidando n’um proximo e formal ataque dos paraguayos, que, abandonando os seus ranchos e roçados, atirarão-se pelas matas a procurar novo refugio: outros, pelo contrario virão n’esse successo maior garantia para a sua segurança e cobrirão o vencedor de felicitações e elogios. Sobre o cadaver do paraguayo, exercitou-se a alegria selvatica de todos os indios: cada qual á porfia vinha embeber nas carnes pisadas pelo arrastamento facões e espadas, e o corpo espicaçado, mutilado e já sem forma foi por fim atirado aos cães e corvos.

Como consequencia d’aquelle encontro tornarão-se as descidas dos Morros mais frequentes e ousadas, e os paraguayos mais cautelosos e receiosos de emboscadas e estratagemas.

Pacalalá ia já pescar no rio Aquiadauána distante umas 16 leguas e ficava muitos e muitos dias entretido em preparar e seccar os saborosos pacús, que abundão n’aquelle rio. Era isso tanto mais arriscado quanto vigiadas pelas rondas dos paraguayos as margens do caudal, a que davão o nome de Rio-Branco e que impunhão como divisa do novo districto annexado á republica sob o titulo de Mbotetiû.

As temeridades do kinikináo devião necessariamente trazer um novo encontro e esse deu-se com proporções tão vastas em relação aos que n’elle se empenharão que póde ser considerado como o feito de guerra mais importante durante todo o periodo de occupação.

Foi em Maio de 1866.

No porto de D. Maria Domingas á margem direita do rio Aquiadauána, existia um extenso cannavial que era o objecto da cubiça dos indios muito inclinados ás substancias assucaradas.

Pacalalá formou o projecto de ir fazer rapaduras no proprio lugar e, convidando seis kinikináos e dez terenos, poude encetar com felicidade o seu trabalho.

Passarão-se alguns dias sem novidade, mas ou pelo natural abandono de medidas cautelosas quando nada parece dever prescrevel-as, ou por casualidade, forão os indios, sem o saberem, presentidos por uma ronda inimiga, que rodeou em distancia a mata e mandou pedir reforço ao posto do Souza, d’ahi a 6 legoas.

Vierão perto de duzentos homens.

Os indios, quando se virão cercados, desanimarão.

Foi necessario que Pacalalá, correndo de um em um, os incitasse, mostrasse-lhes a vantagem da posição e emfim a necessidade de se defenderem de quem por certo não daria quartel a nenhum d’elles.

Armas não lhes faltavão, nem munições nem dextreza.

Cumpria, pois, não fraquear e não desperdiçar tiros.

Avançando então para a orla da mata, Pacalalá collocou cada companheiro atraz de arvores grossas e aconselhou-lhes pegar bem a pontaria antes de fazerem fogo.

Os paraguayos estavão a pouca distancia formados em linha na planicie, assim pois os primeiros tiros derrubarão de uma vez para mais de uma duzia d’elles. Responderão com uma descarga geral, cujas balas forão só varar troncos e cortar galhada.

Os indios recuarão então, ganhando o interior da mata. Perseguidos por uma companhia de infantaria acolherão-na por modo tal que a obrigarão a retroceder.

Pacalalá multiplicára-se durante a acção: em toda parte se achava para exaltar o animo de cada combatente e melhor aproveitar os esforços e crescente enthusiasmo dos seus commandados.

Mas, quando o inimigo se retirou aterrado, levando os feridos e mortos e suppondo haver-se batido contra uma tribu de endiabrados, Pacalalá, o valente, a gloria dos kinikináos, o orgulho de Camiran, não poude cantar victoria.

Ao passar de uma arvore para outra, uma bala o tocára no meio da testa e o atirára sem vida no chão.

Essa morte, no fim do combate, encheu os indios de pavor e, quando a noute cahio, elles fugirão todos sem levar sequer uma das rapaduras que tão caro lhes havia custádo.

Apenas chegou a infausta noticia aos aldeamentos dos Morros, levantou-se uma grita immensa. As moças kinikináos cortarão logo os cabellos na altura das orelhas e tirarão de si qualquer enfeite de ouro e prata que ainda conservavão.

A choupana de Camiran foi invadida e n’ella se erguerão gritos agudissimos, soltos pelo mulherio e crianças.

A desgraçada mãe parecia esmagada pela dôr. Nem sequer podia, como é de uso entre os seus, guiar as lamentações e contar as proezas e virtudes do morto.

Estava anniquilada.

Com a cabeça pensa sobre o peito, nada via, nada ouvia. Não chorava, não podia chorar, mas desde aquelles momentos sentio que não podia mais viver.

É n’um estado de quasi completo definhamento que encontramos Camiran no principio d’esta narração veridica em quasi todos os pontos e que terá o merecimento de fallar, pela primeira e talvez unica vez, na historia do quanto soffrerão os refugiados de Miranda, e sobretudo nas façanhas do desconhecido Pacalalá.

O combate do porto de Maria Domingas—que combate deve ser o qualificativo adequado áquelle encontro—fez com que, durante muitos mezes, cessasem as correrias dos indios até as planicies e mata do Aquidauána.

Afinal recomeçarão ellas, e um terena achou-se com coragem para se arriscar até o lugar em que havia valentemente guerreado.

Trouxe a noticia de que o cadaver de Pacalalá não soffrera decomposição, mas estava secco e mirrado como se fôra uma mumia[20].

Com isso novamente alvorotou-se o aldeamento kinikináo. Forão gritos horriveis, gemidos, ululações que se ouvião em distancia consideravel.

Camiran, que passara todo aquelle tempo, longos e longos mezes, mergulhada na dôr que a ia matando, foi consultar um feiticeiro e saber o que significava aquillo.

O nigromante declarou-lhe positivamente que aquelle corpo, emquanto não fosse enterrado, reteria em duro captiveiro a alma de Pacalalá.

Então Camiran tomou inabalavel resolução: ir entregar o cadaver do filho á terra.

Sem dizer nada a ninguem, desappareceu da aldêa.

Caminhou ou melhor arrastou o debil corpo até o porto de D. Maria Domingas.

Quando avistou aquelle cadaver amado, pareceo-lhe que a natureza toda, as arvores, os montes, os rios, soltavão um brado unisono de agonia, e que o seu coração era o unico e immenso echo.

Cahio desfallecida....

Quantas horas ficou assim, ninguem sabe.

Depois se ergueo a muito custo.

Não levára alimento algum.

Nem tão pouco ferro com que abrir a cóva em que devia deitar o guerreiro morto.

Com um páo e mais ainda com as unhas cavou um pouco o chão e já quasi sem forças suspendeu o cadaver ressicado e o estendeu no leito derradeiro que lhe preparára.

Quando Camiran começou a empurrar a terra solta, os seus braços, finos como gomos de canniço, recusarão-se ao movimento; o seu corpo dobrou-se todo e ella, inerte, moribunda, cahio sobre aquella sepultura mal fechada. Ainda nos derradeiros e desacordados estremecimentos, as suas mãos convulsas chamavão a terra para junto de si.

A noute envolveu no manto mysterioso das sombras as ultimas dôres d’aquelle coração, e quando o sol, na manhã seguinte, irrompeo deslumbrante, os seus raios não alumiarão mais a mãe ao lado do filho, mas tão somente dous cadaveres que, ao calor que d’elles recebião, ião-se fundir no gigantesco cadinho que se chama a natureza!

FIM DE CAMIRAN A KINIKINÁO.

O VIGARIO DAS DORES

O VIGARIO DAS DORES

O vigario da villa das Dôres do Rio-Verde, vulgarmente chamada villa das Aboboras, na provincia de Goyaz, era um padre respeitado e que gozava da estima e da consideração de todos os seus freguezes.

Passava por ser homem de muitas letras, e raramente era visto sem ter entre mãos um livro que ora lia com attenção, ora parecia provocar-lhe longas e sérias meditações.

N’essas occasiões, quasi sempre á tarde, passeava o padre Monte—assim se chamava elle—no adro da modesta igrejinha que serve de matriz á villa, e que se projecta no azul do céo, pois o sagrado edificio fica no alto de uma collina, a cuja fralda se estendem as casas da povoação.

—Ahi está o nosso vigario pensando em Deus, dizião as mulheres, seguindo com os olhos o clérigo em seu limitado passeio quanto lhes permittia o pallôr do crespusculo.

Elle chegára de pouco á villa e apezar da physionomia melancolica e quasi sombria havia logo colhido as affeições geraes pela doçura de trato e amenidade de palavra. Era homem alto, pallido de rosto, com olhar vivo e expressivo e testa larga abrindo em calva.

Teria quando muito trinta e tres annos, mas rugas prematuras havião lhe já impresso na fronte os sulcos da preoccupação e do soffrimento interno. Fôra educado em S. Paulo pela caridade de uns padres, por isso que, reduzido pela orphandade á mais completa miseria, nunca tivéra amparo de paes ou de parente algum.

Quando concluio o seu curso de latinidade e francez, abraçou, por gratidão áquelles que o havião socorrido e por não ter outra vida que seguir, a carreira ecclesiastica e sem commoção alguma achou-se de ordens tomadas.

Sentira gosto pelo estudo e, manuseando sempre os seus livros classicos ou theologicos e cumprindo regularmente com os deveres de sua profissão passou alguns annos sem dar motivo algum para que os seus protectores se arrependessem do diminuto apoio que lhe havião dispensado.

Coadjutor de uma das igrejas parochiaes de S. Paulo, ganhava bastante para cobrir os reduzidos gastos que comsigo fazia, recusando com modestia e naturalidade de seus proventos tudo quanto podesse sahir do bolsinho dos pobres.

Sempre prompto para acudir ás necessidades espirituaes de quem o procurasse, era o padre Monte um bello modelo de virtude christã. O seu espirito benevolo não admittia exagerações em materia religiosa, mas a pratica de uma vida sã desafiava a qualquer que tentasse apontal-o como desprezador dos mais insignificantes preceitos do ritual.

Entretanto, ao passo que todos lhe pagavão o maior tributo de veneração, havia alguem que conhecia uma falha profunda naquelle caracter honesto e amigo do dever.

Era elle mesmo.

O padre Monte sabia, e tinha consciencia, de que praticava o bem com satisfação e alegria; conhecia a nobreza natural de seus sentimentos; repellia o mal, como o herminho foge do lôdo, mas não sentia em si essa uncção, esse fogo sagrado, essa crença immensa que elle suppunha necessaria para bem cumprir com a missão que as circumstancias, mais do que a vontade, lhe havião imposto.

Quantas vezes, ao celebrar o santo sacrificio da missa, não era obrigado a fazer um esforço sobre si para chamar a attenção que lhe ia fugindo e retel-a, sobre os versiculos que os labios ião machinalmente recitando? Quantas vezes não sentio elle frôxos os braços, quando erguia a hostia divina ou o calix que ia receber o corpo e sangue do Senhor! De certo não erão elles o devido sustentaculo para tanta grandeza... Faltavão-lhes aquellas fibras que irradiadas do coração estremecem ao impulso gigante da fé.

O padre Monte procurava debalde conforto na oração, no estudo e na meditação dos textos sagrados.

O anjo das trevas fazia penetrar até no seu espirito a duvida, tunica tremenda, cilicio de dôres que lhe constringião o peito a tirar-lhe o folego.