Historia Pitoresca: Palavras e frases celebres

Part 5

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Rabelais, o mais philosopho dos bufões, e o mais bufão dos philosophos, nasceu perto de Chinon, em Touraine, por 1483. Os seus biographos são pobres em factos authenticos, mas em compensação abundam em anecdotas romanescas, de onde resalta esse typo de cara alegre e tolerante, amigo de Baccho e da dança, o que só se ama por excepção. O genero muito particular do seu genio foi perfeitamente pintado por La Bruyére:--«Onde Rabelais é mau passa muito além de peior; é o encanto da canalha; aonde é bom, elle vae até ao extremo de excellente, e póde ser um prato dos mais delicados.» De resto, este sentimento do moralista parece ter sido dictado pelo proprio Rabelais que recommendava aos seus leitores «que abrissem a caixa para tirarem a droga, e quebrassem os ossos para chucharem a medula.» Mas o que domina na sua vida e nos seus escriptos é um septicismo zombador que ataca todas as crenças, todas as instituições, todos os sentimentos, e que estala, sobretudo, nos ultimos momentos da sua vida.

Entre as numerosas versões que foram reproduzidas ácerca da sua morte, encontra-se esta. O cardeal de Châtillon, seu amigo, tendo enviado um pagem a informar-se da sua saude, elle respondeu-lhe:

--«Dize a Monsenhor em que bello humor me encontras. Eu vou buscar um grande _talvez_. Está no ninho da pega. Dize-lhe que se deixe estar. E tu não passas d'um tolo.»--Depois exhalou o ultimo suspiro n'uma grande gargalhada acompanhada d'estas palavras:

--«_Desça o panno; acabou a comedia!_»

LXII

_Tudo é perdido, menos a honra!_

Francisco I a quem duas derrotas experimentadas pelos seus generaes Lautrec e Bonnivet tinham feito perder o milanez, quiz reconquistar este ducado, e transpoz os Alpes á frente d'um novo exercito. A breve trecho pôde entrar em Milão. Mas em vez de perseguir o inimigo a todo o transe, obstinou-se no cêrco de Pavia, e, como este cêrco fosse delongado, teve a imprudencia de se enfraquecer, destacando 12:000 homens que deviam marchar sobre Napoles. No entretanto, os imperiaes reforçavam-se e levavam soccorro a Pavia. Feriu-se a batalha e foi encarniçada. O rei foi ferido na fronte, e a sua armadura, que a França possue ainda, foi toda crivada. Mas o numero venceu a coragem, a batalha foi perdida e Francisco I feito prisioneiro. Entregou a sua espada ao vice-rei de Napoles, Lannoy, que a recebeu de joelhos.

«Foi do campo imperial, perto de Pavia, que Francisco I escreveu a sua mãe uma carta que se tornou celebre, graças á tradicção, que muito a alterou dando-lhe a fórma d'um laconismo sublime:

--«_Senhora, tudo é perdido, menos a honra!_»

Recentes investigações, porém, fizeram descobrir o texto verdadeiro d'essa carta que começa do seguinte modo:--«Senhora, para vos fazer saber como se cumpre o resto do meu infortunio, _de todas as coisas, só me ficou a honra e a vida, que está salva_.»

LXIII

_Trombetas de Jericó_

Jericó foi a primeira cidade que os hebreus encontraram na sua entrada na terra promettida. Era fechada por altas muralhas. Por ordem de Deus, Josué mandou fazer ao seu exercito a volta da cidade durante sete dias. A arca d'alliança fôra levada com grande pompa e precedida de sete padres, que tocavam trombeta. O povo acompanhava em silencio. Ao setimo dia, deu-se sete vezes a volta á cidade, e o povo, por ordem de Josué, tendo soltado um grito muito grande, viu no mesmo instante desmoronarem-se as muralhas. A cidade foi reduzida a cinzas e todos os habitantes passados a fios d'espada.

--Em litteratura faz-se muitas vezes allusão ás _trombetas de Jericó_, que se oppõem á lyra d'Amphion. Este contraste não escapou ao rei philosopho que escreveu ao seu amigo Voltaire:--«Interessado em servir o genero humano, consagraes a vossa vida inteira ao bem publico. A Providencia tinha-vos reservado para ensinardes aos homens a preferirem a lyra d'Amphion, que elevava os muros de Thebas a esses instrumentos bellicos que faziam arrazar os de Jericó.»

LXIV

_A tunica de Christo_

«Os soldados, depois de haverem crucificado Jesus, tomaram-lhe os vestidos e dividiram-os em quatro partes: uma para cada soldado. Tomaram tambem a tunica; mas a tunica não tinha costura, era uma só peça inteira de cima a baixo.

«E elles disseram uns aos outros:--«Não a talhemos; tiremos á sorte para vermos a quem pertencerá. Afim de que esta palavra fosse cumprida, elles dividiram entre si os meus vestidos e jogaram á sorte a minha tunica.»--Eis o que fizeram os soldados.--(_S. João_, _cap._ XXIX).

--Esta divisão da tunica de Jesus Christo, no momento da sua morte, tem duas especies d'applicação:--ora se allude a ella para designar a partilha dos despojos d'um innocente, ora recorda que a tunica era d'uma só peça inteira, para indicar que uma coisa não póde soffrer divisão.

LXV

_Um imperador deve morrer em pé_

Vespasiano, imperador romano, ia além de sessenta e nove annos, quando foi atacado da doença que o levou ao tumulo, não por agudos soffrimentos, mas por um enfraquecimento progressivo. Conservando até ao fim a sua serenidade d'alma, elle transformava em gracejo a apotheose que lhe ia ser conferida.--«_Percebo que começo a tornar-me deus_», dizia elle alegremente á medida que a sua situação se tornava desesperada. Apesar da sua extrema fraqueza não interrompeu um instante as suas occupações habituaes; dava tempo aos negocios e audiencia no leito. Afinal, sentindo-se desfallecer, fez um derradeiro e supremo esforço para se levantar, dizendo:

--«_É preciso que um imperador morra de pé!_»

E tendo-se feito vestir, expirou entre os braços dos seus officiaes.

--Luiz XVIII, nos ultimos dias da sua vida teve uma phrase que recorda a de Vespasiano. Apesar do depauperamento das suas forças, continuava a mostrar-se em publico e nos conselhos. A 25 d'Agosto de 1824, dia de S. Luiz, respondeu ao conde d'Artois, seu irmão, que o aconselhava a não receber:

--Um rei de França morre, mas não deve estar doente!»

LXVI

_Vendilhões expulsos do templo_

«E estando proxima a paschoa dos judeus, Jesus fez a sua entrada em Jerusalem.

«E elle achou no templo mercadores que vendiam bois, ovelhas e pombas e os trocadores alli estavam sentados.

«E tendo feito umas disciplinas com cordas, elle os expulsou a todos fóra do templo, assim como as ovelhas e os bois e espalhou o dinheiro dos vendilhões sobre as mezas.

«E elle disse aos vendilhões:--«Está escripto. A minha casa é uma casa de oração e vós fazeis d'ella uma caverna de ladrões.» (_S. João_, _cap._ II).

--Esta expressão--_expulsar os vendilhões do templo_--emprega-se para stigmatisar os profanadores, em qualquer ordem que seja, os que mercadejam com coisas respeitaveis e que só deviam ser apanagio exclusivo da arte, das lettras, das sciencias, e, em geral, da intelligencia e do talento.

LXVII

_Gritar no deserto_

S. João Baptista, filho de Zacharias e de Santa Elisabeth, prima da Virgem Santissima, retirou-se muito cedo para o deserto, levando uma vida cheia d'austeridades. Vestia uma pelle de camello atada á cinta por uma tira de couro, e o seu alimento constava de gafanhotos e mel bravo. Quando chegou á edade de trinta annos e foi preparado com rudes exercicios para o ministerio que lhe estava destinado, dirigiu-se ás margens do Jordão, prégando a penitencia, annunciando a realisação das prophecias e a vinda do Messias, que o tinha enviado para preparar os seus caminhos. «--Façam penitencia--exclamava elle--pois o reino dos céus está proximo». Os habitantes dos arredores corriam em multidão para o ouvirem. O synhedrio, tocado pelo seu genero de vida extraordinario e da sua eloquencia selvagem, enviou-lhe padres e levitas para saberem se era o Messias, ou Elias, ou simplesmente um propheta. Elle respondeu que não era propheta, nem Elias, nem Messias.--«Quem és então?, porque precisamos levar resposta aos que nos mandaram?»--«Sou a voz d'aquelle que grita no deserto:--tornae recto o caminho do Senhor!» E elle ajuntava:--«Aquelle que deve vir depois de mim é mais poderoso do que eu, e eu não sou digno de desatar os cordões do seu calçado. Moisés deu-vos a lei, mas o Christo vos dará a graça e a verdade.»

--Hoje estas palavras--_gritar no deserto_--teem um sentido desviado do primitivo. Significam na applicação--pregar, aconselhar, fallar em vão.

LXVIII

_Zoilo_

Celebre grammatico e critico grego do quarto seculo antes de Christo, e cujo nome era já proverbial no tempo d'Ovidio. Nada se sabe ao certo, quanto ao logar do seu nascimento, circumstancias da sua vida e genero de sua morte. Tambem nos não chegou nenhuma das suas obras. Sabe-se sómente, pelo testemunho quasi unanime dos antigos que elle se encarniçou contra as obras d'Homero.

Vitruvio pretende que Ptolomeu Philadelpho, indignado com as suas blasphemias litterarias, lhe infligiu o supplicio da cruz, ou o fez queimar vivo.

--O nome de _Zoilo_ designa o typo do critico apaixonado e de má fé.

«No futuro, será _Zoilo_, com toda a furia, Aos _censores_ crueis uma cruel injuria.»

LXIX

_Aspasia_

Mulher grega, natural de Mileto, celebre pelo seu espirito e pela sua belleza. Foi muito cedo para Athenas, aonde não tardou a exercer sobre os homens mais illustres d'essa epocha, Pericles, Alcibiades, o proprio Socrates, o ascendente irresistivel da eloquencia, da graça e da belleza. Pericles, arrastado pelos seus encantos, repudiou sua primeira mulher para a desposar. Ella exerceu sobre elle tal ascendente, que teve a maior parte nos negocios da Grecia, tornando-se um verdadeiro poder na republica. Dizia-se que as harengas de Pericles eram mais d'uma vez inspiradas por Aspasia. Accusada d'impiedade ella defendeu a sua propria causa com uma eloquencia que apesar de grande, não a teria salvo, se seu esposo não enternecesse os juizes com lagrimas. Essa mulher illustre deve ser classificada, não como demasiadas vezes o é, na classe das cortezãs, mas na das _hetairas_, mulheres gregas, dedicadas ás artes, á poesia, á propria sciencia, e que eram procuradas para os prazeres do espirito, e de que Aspasia foi um dos typos mais graciosos e mais perfeitos.

Foi por justo titulo que o nome passou a significar entre os gregos a mais amavel das mulheres, como Alexandre o maior dos heroes,--e é n'este sentido que chamamos ainda hoje _Aspasia_ á mulher que reune os dons do espirito aos encantos da belleza.

LXX

_Babylonia_

Assente sobre o Euphrates e embellezada por Semiramis, a Babylonia parecia ter sido a cidade mais esplendorosa da antiguidade. As suas muralhas de cincoenta pés de largura e d'uma altura prodigiosa, as suas cem portas de bronze, os templos, os palacios, as estatuas d'ouro, e, sobretudo, os seus jardins suspensos, tornavam-na a rainha das cidades antigas.

Rival de Jerusalem foi muitas vezes em guerra com o povo judeu que alli passou setenta annos de captiveiro, durante os quaes um grande numero _não suspenderam as suas harpas nos salgueiros da margem_, e abandonaram a religião de seus paes. As Escripturas fallam de Babylonia como de um foco de corrupção e idolatria; fizeram-na a personificação do mundo profano, o receptaculo de todos os vicios e de todas as impurezas. Exasperados pela politica barbara dos babylonios os israelitas votaram-lhes um odio profundo, e a dissolução dos costumes, de que foram testemunhas no captiveiro, augmentou áquelle sentimento o do horror e do desgosto. D'aqui o nome de _grande prostituta_, que elles deram a essa cidade.

--Hoje, que já não existe a Babylonia, que os viajantes e archeologos nem mesmo podem encontrar-lhe o local, só o nome sobreviveu, e applica-se aos grandes centros populosos, como Londres, e, sobretudo, como Pariz, onde a agglomeração das massas, as riquezas, os progressos da industria e da civilisação engendram fatalmente a corrupção de costumes.

--Os protestantes, que pretendem ser os unicos observadores da lettra e do espirito evangelico, chamam á vida eterna--a _grande Babylonia_.

LXXI

_Incendiar os seus navios_

Esta locução allude ao procedimento de alguns grandes capitães, que a historia nos representa incendiando os seus navios, que os haviam conduzido á abordagem nos barcos inimigos, afim de que os marinheiros e soldados, privados de toda a especie de fuga se vissem na contingencia de vencerem ou morrerem. Agathocles, tyranno de Syracusa foi o primeiro que na Costa d'Africa deu o exemplo d'esta resolução arrojada.

O imperador Juliano poz fogo aos seus depositos e aos seus mil e cem navios, no Tigre, quando fez a sua expedição contra Sapor, um rei da Persia. Guilherme, o Conquistador, abordando a Inglaterra em 1066, recorreu ao mesmo expediente, que foi seguido da victoria d'Hastings. Roberto Guiscard, no perigo eminente em que se achava com a sua pequena armada deante das forças consideraveis de Alexis Commene, incendiou a sua frota e as suas bagagens e ganhou a victoria de Durazzo a 13 d'outubro de 1084. Foi d'este modo, emfim, que Fernando Cortez, desembarcando na costa do Mexico preludiou a conquista d'esta região.

--Esta locução--_incendiar os seus navios_--passou a proverbio e quer dizer:--interdizer, subtrahir por uma iniciativa arrojada os meios de volver a uma resolução, de renunciar a uma empreza; pôr-se na impossibilidade de retroceder.

LXXII

_Os ultimos romanos_

Chama-se geralmente assim aos romanos que, a exemplo de Catão, conservaram, n'uma sociedade em decadencia, os costumes e a virtude dos antigos tempos. Mas deu-se mais particularmente este nome a Bruto e a Cassio, que foram a alma da conspiração que victimou Cezar, e que depois de terem combatido nas planicies de Philippes contra os inimigos da liberdade romana, se deram a morte para não sobreviverem á sua perda.

Philopeme, que luctou constantemente pela liberdade hellenica e depois da morte do qual, a Grecia se viu reduzida a provincia romana, é tambem chamado--_o ultimo dos gregos_.

--Estas palavras empregam-se, ora séria, ora ironicamente, para designarem todos quantos conservam a tradicção d'um passado, que são quasi os unicos a representar.

LXXIII

_Faça cabelleiras, mestre André_

Em 1760 um cabelleireiro francez chamado André, arrojou-se a escrever uma tragedia em 5 actos, em verso, intitulada--_O terramoto de Lisboa_--e mandou a peça a Voltaire, que elle chamava _caro confrade_ na seguinte obra prima epistolar:

AO ILLUSTRE E CELEBRE POETA M.ʳ DE VOLTAIRE

«_Meu caro confrade._

«É um estudante, noviço na arte da poesia, que se aventura a dedicar-lhe a sua primeira obra, tendo-o sempre reconhecido por um dos nossos celebres, pelas pomposas obras que tem dado e dá á luz todos os dias. Eu julgar-me-hei feliz se quizer lançar um rapido olhar a essa pequena obra, favorecendo-a com a menor das suas recordações. Faltaria a um grande dever se não confessasse que o reconheço por meu mestre. Se pela sua bondade se dignar favorecer-me eu prometto-me que, livre de todo o receio, publicarei constantemente os seus louvores e testemunharei em toda a parte, quanto lhe sou devedor por a haver acceitado.

«Sou, M.ʳ e caro confrade, humillissimo e affeiçoado servo

_André._»

O grande poeta divertiu-se muito com esta singular e comica confraternidade. E respondeu ao _seu caro confrade_ com uma missiva de quatro paginas, encerrando apenas estas palavras, cem vezes repetidas:--«Faça cabelleiras, mestre André; faça cabelleiras, mestre André.»

Esta espirituosa resposta fez dizer a mestre André que Voltaire envelhecia, porque começava a repetir-se.

A obra prima de mestre André fez muito ruido, porque em 1805, mais de quarenta annos depois, um director alegre fez representar a peça _O terramoto de Lisboa_, n'um pequeno theatro de _boulevard_ e ella obteve um immenso successo comico, em oitenta representações successivas!

--A phrase--_faça cabelleiras_, tornou-se uma das locuções mais pittorescas da lingua franceza, com emprego em todas as outras. É uma traducção espirituosa e comica do _ne sutor ultra crepidam_, dos latinos.

LXXIV

_Fé do carvoeiro_

Dá-se por origem a esta locução o seguinte conto. O diabo, disfarçado em eremita, e, segundo outros, em doutor de Sorbonne, entrou um dia na cabana de um carvoeiro e disse-lhe para o tentar:

--«Tu que crês?»

--«Eu creio o que crê a Santa Egreja».

--«E que crê a Santa Egreja?»

--«Crê o que eu creio.»

E o nosso homem manteve-se n'estas respostas sem d'ellas sahir, e o espirito maligno foi obrigado a renunciar ao seu projecto, vendo a inutilidade de todos os seus estratagemas.

Accrescenta um auctor que esse diabo era, por sem duvida, muito novo, e egualmente dos menos atilados, porque de outro modo elle teria embaraçado muito o carvoeiro fazendo-lhe a seguinte pergunta:

--«E que crêem, tu e a Santa Egreja?»

--A phrase--_fé do carvoeiro_, designa uma fé simples e ingenua, que crê sem exame.

LXXV

_Ha juizes em Berlim_

O grande Frederico, rei da Prussia, desejava ampliar o seu parque de Sans-Souci, mas

«Na encosta que escolhera o principe por si, Tinha o moinho um tal moleiro Sans-Souci; Vendedor de farinha, havia por costume Ganhar, a dia a dia, o pão sem azedume. E seja, emfim, qual fôr o lado d'onde vente A vela gira sempre, e elle dorme contente. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Um projecto traçou um habil engenheiro, Que abrangia o moinho e o seu recinto inteiro. Mas ás vistas forçoso era renunciar, Ou cortar á extensão e o parque mascarar. Das construcções reaes, o intendente geral Fez chamar o moleiro e disse-lhe afinal: --«Quer-se o moinho teu; vê lá que valor tem.»-- --«Não tem valor nenhum, que o não vendo a ninguem! «Quer-se o moinho, é boa! elle é meu e direi «Que, ao menos, tanto como a Prussia é só do rei»-- --«Vamos, dize afinal--responde e tem cuidado!»-- --«N'uma palavra?-- --«Sim.-- --«É meu, está declarado, «Já disse, nada mais!»--

A recusa atrevida Ao principe se conta e é coisa decidida. Manda vir á presença o insolito moleiro, Promette inutilmente, aperta, é lisongeiro, Mas teima Sans-Souci--«Ouvi, Sire, a razão Porque vender não posso o moinho em questão. Meu avô lá morreu; lá tive um filho ha um mez, É o meu Postdam, Senhor. Sou teimoso, talvez; Nunca o fostes jámais? Nem mil ducados, não, No fim d'esse discurso a mim me tentarão! Passae sem elle, Sire, e ninguem mais insista!»

Soffrem difficilmente os reis quem lhes resista, E Frederico acode, o humor arrebatado: --«Irra! que estás ao teu moinho bem pegado! Ora atéqui tratei d'obtel-o e de pagal-o, Mas sabes que, sem paga, eu posso exproprial-o! O dono eu sou!»-- --«Levar sem paga o moinho, a mim? Talvez, _se não houvesse os juizes em Berlim!_»--

Do capricho o monarcha, ouvindo-o, em si cahia, Contente, porque o reino inda em justiça cria; E volvendo-se a rir para o seu architecto: --«Eu acho que é melhor mudarmos de projecto. Visinho guarda a casa, has respondido bem.»-- . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

--Estas palavras--_ha juizes em Berlim_--que o poeta francez Andrieux não fez senão citar na encantadora narrativa que vimos de traduzir incompletamente, porque são historicas, formaram uma locução proverbial que se emprega em todas as circumstancias analogas, isto é, quando a força pretende vencer o direito.

Cabe aqui, a proposito do moinho de Sans-Souci um pequeno caso que não deixa de ser interessante.

O famoso moinho é ainda hoje propriedade do bisneto do obstinado moleiro. Mas n'essa familia os homens seguem-se e não se parecem.

Assim, o descendente de Sans-Souci, necessitado de dinheiro fez saber ao descendente de Frederico II, que estava disposto a ceder-lhe o moinho. O principe respondeu-lhe com esta espirituosa carta:

«Meu caro _visinho_.

«O moinho não lhe pertence, nem a mim, pertence á historia; é-nos pois, impossivel, a si, vendel-o, a mim, compral-o. Mas como entre visinhos e visinhos bons deve haver auxilio, mando-lhe um cheque de 10:000 florins, que póde receber do thesouro.»

LXXVI

_Judas--Beijo de Judas_

Dois dias antes da Paschoa, Jesus disse aos seus discipulos:--«Chegou o dia em que o Filho do Homem vae ser entregue para ser crucificado.» E ao mesmo tempo os principes dos padres e os mais velhos do povo, reunidos em casa de Caiphaz, concertavam-se sobre os meios de se apoderarem de Jesus e o fazerem morrer. Mas receiavam excitar qualquer agitação popular.

Foi então que Judas, um dos apostolos, se chegou e combinou entregar o seu mestre, mediante trinta dinheiros. De tarde Jesus poz-se á meza com os seus discipulos e annunciou-lhes que um d'elles o trahiria.--«Serei eu, Senhor?»--lhe perguntou Judas, e depois da resposta do Salvador, deixou a meza e foi-se, excitado pelo mau espirito. Em seguida Jesus sahiu da cidade, seguido dos seus discipulos, e dirigiu-se ao monte das Oliveiras, a um logar chamado Gethsemani. Logo appareceu Judas acompanhado d'um grupo de soldados aos quaes tinha dito: «Prendam aquelle que eu beijar, é elle que procuram.» E approximando-se de Jesus, beijou-o e disse-lhe:--«Mestre, eu te saudo.» Jesus censurou-lhe o seu crime com doçura:--«Judas, entregas o Filho do Homem com um beijo!» E avançou para os soldados que se lançaram a elle e o ligaram.

--O nome de _Judas_ ficou como a personificação do traidor, do homem profundamente hypocrita, e o _beijo de Judas_, como para designar o acto pelo qual se pratica a traição. Assim chamar Judas a alguem é dirigir-lhe a mais pungente das injurias. E comprehende-se que uma tal comparação seja repellida com indignação.

LXXVII

_Pragas do Egypto_

Moisés acompanhado de seu irmão Aarão, apresentou-se perante Pharaó, que recusou reconhecer as ordens de Deus. Então Moisés e Aarão feriram successivamente o paiz com dez flagellos, chamados--_pragas do Egypto_.

1.º--Agoas transformadas em sangue; 2.º--O Egypto todo coberto de rãs; 3.º--Os insectos devoradores; 4.º--Grandes moscas insupportaveis; 5.º--Peste; 6.º--Chagas nos homens e nos animaes; 7.º--Tempestades de saraiva e trovoadas; 8.º--Nuvens de gafanhotos; 9.º--Trevas espessas; 10.º--Morte de todos os recemnascidos.

O coração endurecido do rei só cedeu a esta ultima praga, a mais espantosa de todas, e os Hebreus partiram para Ramassés em numero de seiscentos mil homens, sem contar-se as creanças.

--Quando se falla _das pragas do Egypto_ na linguagem figurada é quasi sempre á dos gafanhotos que se faz allusão.

LXXVIII

_Não toqueis na rainha_

Os reis d'Hespanha usavam uma regra d'etiqueta exaggerada até á estupidez. Todo o individuo que tocasse o pé da rainha, fosse qual fosse a causa, era condemnado á morte e executado immediatamente.

A joven rainha, esposa de Carlos II, montou um dia a cavallo para um passeio com as suas damas e os seus cortezãos. A breve trecho o cavallo espanta-se e expelle-a, mas por fórma que o pé da princeza ficou preso ao estribo e o furioso animal se poz a arrastal-a. Uma immensa multidão assistia a este triste espectaculo, mas ninguem ousava soccorrel-a por causa da etiqueta. Ia, de certo, ser victima d'esse terrivel accidente, quando dois jovens officiaes francezes, que alli se achavam por acaso, resolveram salval-a. Lançam-se impavidamente, e em quanto que um suspende o cavallo pelo freio, o outro consegue desligar o pé da rainha, que, afinal, apenas soffreu o susto e algumas contusões.

Elles fugiram logo, e era tempo, porque iam ser presos, e Deus sabe o que faria a etiqueta! No dia seguinte a rainha, muito molestada foi obrigada a deixar os seus aposentos, para fallar ao rei, de quem conseguiu a graça dos seus salvadores, mas com a condição de que deixariam a Hespanha immediatamente.

De resto era egualmente perigoso tocar no rei, fóra das severas leis da etiqueta. Eis a este respeito um facto que difficilmente se poderia crer se não fosse historico.