Historia Pitoresca: Palavras e frases celebres

Part 6

Chapter 63,298 wordsPublic domain

Estando doente Filippe III achava-se sentado n'um _fauteuil_, muito junto da chaminé do fogão, aonde acabava de accender-se o lume, e aonde se havia depositado uma certa quantidade de material combustivel. O calor tornou-se, em breve, intoleravel e o rei disse aos cortezãos para retirarem algumas achas; mas como o duque accendedor-mór não estava presente, e só elle tinha o direito de bulir no lume da real camara, nenhum dos assistentes ousou commetter tão grande infracção da etiqueta. Por outro lado, ninguem podia tocar no _fauteuil_ do rei a não ser o camareiro-mór, que egualmente estava ausente, e, emfim, era prohibido sob pena de morte, tocar na sagrada pessoa de sua magestade, de que resultou deixarem os cortezãos tranquillamente assar o rei, embora lamentando-se por tão triste sorte. Quando os dois funccionarios chegaram já era tarde: o rei estava moribundo e pouco sobreviveu a este cruel supplicio!

LXXIX

_O ovo de Colombo_

A 15 de Março de 1493, Christovam Colombo, que vinha de fazer uma das mais admiraveis descobertas de que se honra o espirito humano, aportava a Palos, de onde tinha partido sete mezes e meio antes. Foi recebido com grande enthusiasmo. Os sinos repicaram, os magistrados seguidos de todos os habitantes desceram á praia a recebel-o. O trajecto até á côrte foi um triumpho continuo; de toda a parte se corria para vêr o homem que tinha terminado, tão felizmente, uma empreza que toda a gente julgára impossivel. Toda a cidade foi ao seu encontro. Elle ia no meio dos indios que trouxera comsigo na sua entrada em Barcellona, e que conservaram o costume do seu paiz. Uma multidão de objectos desconhecidos e cuja vista dominava vivamente os espiritos eram conduzidos na vanguarda em corbeilles e bandejas descobertas. Elle avançou assim no meio d'um concurso immenso até ao palacio dos reis d'Hespanha. Fernando e Isabel esperavam-no sentados no throno. Quando elle appareceu, no meio do seu cortejo, levantaram-se. Colombo lançou-se-lhes aos pés, mas elles ordenaram-lhe que se sentasse. O illustre navegador narrou-lhes a viagem e descobertas que fez. Em seguida apresentou-lhes os indios que o acompanhavam e os objectos preciosos que havia trazido. Toda a gente se poz de joelhos, e cantou-se na propria sala do throno um cantico em acção de graças. Fernando confirmou a Colombo todos os seus privilegios, e permittiu-lhe juntar ao seu brazão, as armas da sua familia, as do reino de Castella e Leão, com os emblemas das suas dignidades e das suas descobertas. Todos os seus parentes foram cumulados de provas da munificencia real.

Com tão grandes honras Christovam Colombo podia julgar-se ao abrigo dos golpes subitos da fortuna. E, comtudo, nunca um homem os sentiu d'um modo mais terrivel e mais cruel!

Iam mal passados ainda os primeiros transportes do enthusiasmo e já a maldade e a inveja haviam começado a erguer a cabeça. Procuraram por meio de perfidas insinuações entibiar o merito d'essa immortal descoberta.--«Dado o primeiro passo, o novo mundo viera a elle d'algum modo; o seu genio consistia apenas n'uma longa, mas trivial paciencia; em uma palavra, para descobrir a America, _não tinha sido preciso pensar n'isso_ ...» Tal era já a ousadia dos detractores, que faziam circular estes propositos, um dia, á meza d'um grande d'Hespanha para que fôra convidado Colombo.

O grande homem permaneceu silencioso durante toda a discussão; mas n'um dado momento e depois de haver reflectido, fez vir um ovo e apresentando-o aos nobres convivas, disse-lhes:

--«Qual de vós, senhores, se sente capaz de fazer com que este ovo se sustente ao alto, por uma das extremidades?»

O ovo começou a circular, passando de mão para mão, até que voltou a Colombo, sem que qualquer dos presentes houvesse resolvido o problema. Elle, então, tomou-o, bateu-o levemente no prato e o ovo ficou em equilibrio. Cada qual exclamou:

--«Isso não era difficil!

--«Sem duvida--replicou Colombo com um sorriso ironico--comtudo _era preciso pensal-o!_»

--O _ovo de Christovam Colombo_ passou a uma especie de proverbio, a que se allude a proposito d'uma coisa que se não póde fazer, e que se encontra facil, depois de feita.

LXXX

_Waterloo_

Napoleão, depois de ter fundado um imperio mais vasto e mais poderoso que o de Carlos Magno; depois de ter visto a Europa inteira tremer com a sua presença e submetter-se a todas as suas vontades, emprehendeu a funesta campanha da Russia, em que o exercito mais formidavel foi vencido, não pelos homens, mas pelos elementos e pelo rigor do clima.

Essa longa jornada da Russia foi realmente o termo da brilhante fortuna que collocou Napoleão, como o primeiro dos mais illustres conquistadores; mas como ella relembra ao espirito uma série multipla de desastres, o seu nome, por muito funesto que pareça, não podia ser escolhido para designar uma ruina subita, um esboroamento rapido. Foi a derrota de Waterloo, que recebeu esta consagração.

Depois de se ter visto forçado a abdicar em Fontainebleau, depois de ter mudado o seu poderoso imperio pela soberania irrisoria d'uma ilha, em que apenas contava alguns milhares de subditos, Napoleão, por uma d'essas inspirações repentinas, que constituiam o caracter particular do seu genio, escapou-se á vigilancia de que era objecto, desembarcou em Cannes, e marchou sobre Pariz sem encontrar resistencia. Os Bourbons, dominados pelo terror, abandonam a França, e Napoleão entra como senhor nas Tulherias, d'onde, durante dez annos, dera a lei á Europa.

Mas este successo admiravel não tinha solidez. A coalisão da Europa não estava dissolvida, e ia reformar-se, mais potente que nunca, e a França, exangue d'homens e de recursos, fatigada d'essas guerras interminaveis, que arruinavam o commercio e a industria, não ia oppor uma resistencia sem impeto, quasi passiva, e que facilmente seria vencida.

No entretanto, Napoleão desenvolve ainda uma vez a energia, a decisão, que fulminaram tantos inimigos; mas os seus officiaes parecem ter perdido o vigor d'outr'ora.

Em Waterloo, comquanto não tenha mais que quinze mil combatentes a oppor a forças duplas das suas, a habilidade das suas disposições parece a principio fazer pender a victoria para o seu lado; mas o general prussiano Blucher, que Grouchy não póde, não sabe, ou não quer deter, chega com as suas forças frescas, faz mudar a face ao combatente, e o exercito francez, o ultimo exercito de Napoleão, é esmagado.

D'esta vez a fortuna do Cezar moderno estava despedaçada para sempre, e os derradeiros exforços que pôde desenvolver ainda, serviram apenas para lançarem algum brilho sobre os ultimos momentos d'esse astro, outr'ora tão brilhante.

--A palavra _Waterloo_ emprega-se muito para designar a ruina completa e fatal d'uma coisa, que foi grande e que, por muito, parecia ser estavel.

LXXXI

_Templo de Jano_

O famoso templo de Jano, que foi fundado em Roma por Numa, estava aberto durante a guerra e fechado no periodo da paz. Jano, o mais antigo rei d'Italia, ácerca do qual os mythologos teem dificuldade em se entenderem, passava por ter tido um reinado longo e tranquillo, o que o fizera considerar como o deus da paz e o tinha posto em grande honra para Numa, o rei mais sabio que teve Roma.

Durante um periodo de quasi mil annos, o templo de Jano só foi fechado oito vezes: a primeira no reinado de Numa; a segunda, no anno 519, de Roma, depois da primeira guerra punica; a terceira, no anno 723, depois da batalha d'Actium; a quarta, no anno 730, depois da guerra cantabrica; a quinta, no anno 740, apoz a pacificação da Germania; a sexta, no anno 824, por Vespasiano, depois da conquista da Judeia; a setima, no anno 834, por Domiciano, em seguida á guerra dos Dacios, e a ultima, no anno 994, por Gordio III, vencedor dos persas.

É esta a ultima menção que a historia faz d'esta cerimonia. Virgilio, no livro VII da _Eneida_, fez a descripção do templo de Jano e do cerimonial que presidiu á sua abertura.

--É por allusão a este templo, que se diz no estylo oratorio, e, sobretudo, em poesia--_abrir o templo de Jano_--para fazer guerra, começal-a, declaral-a, e--_fechar o templo de Jano_--para conclusão do tratado de paz, e pôr fim ás hostilidades.

LXXXII

_Estatua de Nabuchodonosor_

Nabuchodonosor II, cognominado o _Grande_, rei da Babylonia, tivera um sonho espantoso, mas de que ao despertar se não lembrava absolutamente nada. Nenhum dos magos da côrte pôde avivar-lhe a visão. O joven Daniel, então captivo na Babylonia, foi mandado vir á presença do rei e disse-lhe:

--«Eis o que viste, rei:--Havia uma estatua immensa, cuja cabeça era d'ouro, o peito e os braços de prata, o ventre e as côxas de bronze, as pernas de ferro e os pés de barro. De repente deslocou-se por si uma pedra da montanha, e indo ferir os pés da estatua, fel-a pedaços. Então os quatro metaes quebrados tornaram-se como o pó, que enche a athmosphera, no verão, e tendo-se levantado um grande vento, tudo levou. Mas a pedra que despedaçára a estatua tornou-se uma montanha immensa, que encheu toda a terra. Eis o teu sonho, ó rei, e agora a sua interpretação:--Tu és o rei dos reis; és tu, pois, a cabeça de ouro. Ha-de haver depois de ti um reino menor que o teu, que será de prata, depois um terceiro de bronze, que mandará em toda a terra. O quarto reino reduzirá tudo a pó como o ferro quebra tudo, mas assim como a estatua, de pés de barro, elle se dividirá por sua vez. Então Deus suscitará um reino para sempre eterno, que derribará e destruirá todos os reinos, como a pedra deslocada da montanha partiu a estatua e lançou ao vento o seu pó.»

Era a imagem dos quatro grandes imperios d'Assyria, da Persia, da Macedonia e de Roma, que, destruindo-se successivamente uns aos outros, deviam todos ser absorvidos por um imperio immenso e immortal, o de Jesus Christo n'este mundo.

--No estylo elevado faz-se muitas vezes allusão ao colosso de Nabuchodonosor, quando se quer exprimir que ha liga nas coisas, apparentemente mais puras, que os genios mais sublimes se prendem por qualquer ponto fraco aos lados vulgares da humanidade, que o poder que parece mais solidamente estabelecido não tem muitas vezes senão uma base fragil, que a circumstancia mais imprevista póde fazer cahir.

Assim, por exemplo, um escriptor contemporaneo, fallando da guerra de 1809, que foi a origem de todas as desgraças de Napoleão, diz:

--«Foi na outra extremidade do continente, foi em Portugal que se fez sentir o primeiro estalido, e que se percebeu de repente que a _estatua colossal tinha um pé de barro_.»

LXXXIII

_Sepulchros do Evangelho_

No capitulo XXIII do Evangelho, segundo S. Matheus, Jesus Christo levanta-se contra os impostores e hypocritas, com uma força d'expressão, uma vehemencia de linguagem, que espantam, n'aquella bocca divina, habituada a só fazer ouvir palavras de mansidão e de caridade. Elle não reprehendeu nenhum vicio com tanta energia, e quando nos lembramos da sua celeste indulgencia para com a mulher adultera, admiramo-nos do anathema terrivel que dardeja aos scribas e phariseus. É que nas inspirações da sua sublime natureza Jesus Christo bebia a certeza de que a hypocrisia é capaz de todos os crimes, que ella os contem todos em germen.

* * * * *

«Desgraça a vós! scribas e phariseus hypocritas, que purificaes o exterior da taça e do vaso, em quanto que por dentro sois cheios de rapinas e de maculas!»

«Phariseus cegos, purificae primeiro o interior da taça e do vaso, afim de que o exterior seja puro tambem!»

«Desgraça a vós! scribas e phariseus hypocritas, porque sois semelhantes a _sepulchros caiados_, que, por fóra parecem bellos aos homens, mas por dentro são cheios d'ossos e podridão!»

* * * * *

--A applicação d'esta phrase _sepulchros caiados_, ou a equivalente--_sepulchros do Evangelho_--sobresáe claramente do texto que citamos, quando se dirige ás pessoas; quanto ás coisas, caracterisa tudo quanto tem mais apparencia de brilho, que fundo e realidade.

LXXXIV

_Isso que prova?_

Não temos a pretensão de exprimir uma verdade muito nova, dizendo que as mathematicas não são irmãs da poesia, embora Urania seja uma das nove Musas. E se não era mathematico, era digno de sel-o, aquelle que interrogado ácerca do effeito que lhe produzia a audição d'uma opera, respondeu:

--«O mesmo que o d'um sacco cheio de pregos, agitado vigorosamente.»

O mathematico habituado a medir tudo a regua e compasso, a tirar deducções por meio de raciocinios evidentes, fica quasi sempre insensivel ás bellezas da harmonia e do sentimento.

Um geometra assistia a uma representação da _Phedra_, e em quanto que todos os outros espectadores derramavam lagrimas, commovidos por essa magnifica poesia, que mostra em scena

«. . . . . . essa dor virtuosa» «De Phedra, a pezar seu, perfida, incestuosa»

elle ficava frio, impassivel e contentava-se em dizer nas passagens mais patheticas:

--«Isso que prova?»

O astronomo francez Villemont, menos exclusivo, nunca deixava de dizer d'um fragmento de poesia que lhe causasse prazer:

--«É bello como uma equação!»

Era para elle o superlativo da admiração.

LXXXV

_Manná_

Quando os hebreus chegaram ao deserto e viram as provisões esgotadas, começaram a murmurar contra Moisés, dizendo:--«Conduzistes-nos a este logar para nos fazerdes morrer de fome?»--Moisés respondeu-lhes da parte do Senhor:--«Esta tarde comereis carne, e amanhã estareis saciados de pão.»--Com effeito, de tarde uma enorme quantidade de rôlas veio pousar sobre o campo, e no dia seguinte, pela manhã, um orvalho matutino cobria toda a planicie. Era uma especie de pó branco que tinha o gôsto da mais fina farinha misturada com mel.

Este alimento chamava-se _manná_. Os hebreus deviam apanhal-o em cada manhã e antes do nascimento do sol, e só em quantidade necessaria para o dia, excepto na vespera do _sabbat_ em que deviam tambem recolhel-o para o dia seguinte. Alguns deixando-o de um para o outro dia encontravam-no corrompido.

Ora os filhos d'Israel nutriram-se d'este orvalho celeste durante os quarenta annos que viveram no deserto, até á sua entrada na terra da promissão.

--Comprehende-se que--_manná_--ou--_é um manná_--se não póde applicar senão n'um sentido metaphorico, como por exemplo:

--A verdade _é um manná_ divino, com que se deve sustentar o espirito e o coração.

LXXXVI

_Annel de Gyges_

Gyges era um moço pastor da Lydia. Um dia vendo entreabrir-se a terra, desceu pela abertura, e viu, entre outras maravilhas um cavallo de bronze, completamente ôcco, com portas nas ancas. Abriu-as e encontrou um cadaver de grandeza mais que humana, tendo em um dedo um annel d'ouro. Esse annel, desde que se voltava o engaste para o lado interior da mão, tinha o poder de tornar invisiveis aquelles que o usassem. Gyges apoderou-se d'esse precioso talisman e dirigiu-se á côrte, aonde o annel foi a origem d'uma brilhante fortuna, porque o possuidor não tardou a tornar-se favorito e primeiro ministro.

--Não são raras as circumstancias em que cada qual desejaria ter no dedo o annel de Gyges. Qual é o que nunca se viu collocado n'alguma d'essas situações criticas, que fazem desejar, como vulgarmente se diz, «estar a cem braças pela terra dentro»? Por outro lado, que não daria a gente, em determinadas occasiões, para se encontrar invisivel, em certos logares, em que se debatem os nossos mais caros interesses, e o nosso destino?

D'aqui a frequente applicação que se faz do _annel de Gyges_, em litteratura e na conversação.

O espirituoso Alphonse Karr quiz ver no annel de Gyges uma allegoria que explicou a seu modo n'estes versos:

«Quem de Gyges o annel, conta, maravilhoso «Nos casos falsos, ou na pura phantasia, «--Agora o sei--a si se engana em demasia, «Porque o frisante exemplo é grande, é numeroso. «Se sois feio e sois mau, sem genio e já d'idade «Ponde, á noite um annel, no vosso indicador, «Com um brilhante que tenha um subido valor, «E vereis como faz a sua claridade, «Sob os raios da luz, em ponto bem escolhido, «Dar-vos genio e belleza, e juventude, e encanto. «Se sois mau e imbecil, elle vos faz um santo, «Dizei quanto quereis, que já sois applaudido!»

LXXXVII

_Honni soit qui mal y pense_

Divisa da ordem da Jarreteira, instituida em Inglaterra em 1340 por Eduardo III. Em um baile da côrte que elle dava em honra da condessa de Salisbury, sua favorita, esta deixou cahir, dançando, uma liga, que era azul. O rei apressou-se a apanhal-a, e expoz assim a formosa condessa aos sorrisos malignos e aos maus propositos dos convidados.

--«Senhores--exclamou Eduardo III--_honni soit qui mal y pense_. Os que riem agora hão-de honrar-se um dia por usarem um objecto semelhante, porque a liga será posta em tanta honra que até os mais zombadores a procurarão com avidez!»

E no dia immediato instituia a Ordem da Jarreteira, que é uma das mais célebres da Europa.

A principal insignia consiste n'uma liga de velludo azul, que se aperta por cima do joelho esquerdo com uma fivela de ouro, sobre a qual se lê: _Honni soit qui mal y pense!_--Maldito seja quem d'isto mal pensar.

A rainha usa-a no braço. Só os principes soberanos ou as pessoas d'alta distincção podem ser membros da Ordem. O numero dos primeiros é illimitado, mas os outros não podem ser mais de vinte e seis.

--A famosa divisa tornou-se proverbial e emprega-se para fazer comprehender que se affronta a opinião, n'uma circumstancia sujeita a má interpretação, d'equivoca apparencia.

LXXXVIII

_Mal com el-rei pelos homens e mal com os homens por el-rei_

Esta phrase, que bem exprime as apertadas circumstancias em que o homem tantissimas vezes se encontra, de não poder, de modo algum, satisfazer e contentar a todos, é do grande Affonso d'Albuquerque.

Avisado elle de que el-rei D. Manoel lhe ordenava o regresso ao reino, fazendo-o substituir no governo da India por Lopo Soares, com o qual seguiam Diogo Pereira e Diogo Mendes, um como secretario e outro como capitão de Cochim, e ambos de lá enviados a Portugal sob prisão pelo valente governador, por delictos graves, exclamou:

--Mal com el-rei pelos homens e mal com os homens por amor de el-rei.

A phrazeologia popular formulou o mesmo pensamento de um modo, se não tão primoroso, pelo menos egualmente expressivo, quando disse:

--Preso por ter cão, preso por não o ter.

Vê-se claramente qual o emprego da locução do grande capitão, e não é difficil nem raro que cada um tenha varias occasiões, infelizmente, de applical-a a si proprio.

LXXXIX

_Bandeira da Misericordia_

D'antes, por um privilegio, fundado, decerto, n'um principio caritativo, as irmandades da Misericordia eram obrigadas--e no Estatuto d'algumas se acha consignada esta obrigação--a acompanhar com a respectiva bandeira, os condemnados a pena ultima, desde o carcere ao local do supplicio.

Alli, tanto que a victima era executada cobria-a immediatamente essa bandeira, o que equivalia a tomar a Misericordia conta do cadaver, a fim de prevenir ou evitar profanações no corpo, por parte dos populares, arrastados, muitas vezes, a scenas bem pouco edificantes, pela excitação de odios e de paixões violentas e desordenadas.

Quando acontecia que a corda se quebrava--no supplicio da forca--e o paciente cahia com vida, desde que a bandeira o cobrisse, estava salvo.

Nas ultimas execuções d'este genero, realisadas em Vizeu, no largo de Santa Christina, no tempo das luctas do absolutismo, aconteceu que um dos pacientes, graças a um convenio com o carrasco, cahiu com vida e foi coberto com a bandeira da Misericordia.

Uma mulher, porém, que ainda morreu ha poucos mezes, e que tinha a triste e original mania de assistir a todos os actos lugubres e a todas as scenas mais contristadoras, por um assomo de curiosidade feminina foi levantar uma ponta da bandeira. O desgraçado, que se fingia morto, imaginando que era algum dos que conhecia o convenio para a sua salvação, abriu os olhos, e tanto bastou para que a original mulher começasse a gritar que elle estava ainda vivo.

A populaça desenfreada cahiu sobre o infeliz e cevou as suas iras.

D'esta vez a bandeira não valeu.

--Do privilegio d'esse estandarte nasceu a locução de--_bandeira da Misericordia_,--d'um grandissimo emprego, sobretudo, na conversação familiar, servindo para designar toda a intervenção caritativa para a suspensão ou allivio d'uma pena ou d'um castigo.

* * * * *

A critica poderá encontrar motivo para exercer-se, no delineamento e execução d'esta despretenciosa obra, mas a benevolencia será a _bandeira da Misericordia_, que ha-de abrandar a dureza das apreciações.

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