Historia Pitoresca: Palavras e frases celebres

Part 4

Chapter 43,696 wordsPublic domain

Estes preliminares pintam já o caracter de Luiz XIV e tornam muito provavel a authenticidade da famosa phrase--_O estado sou eu!_--que a historia diz elle fez ouvir, quando entrou de botas e esporas no parlamento.

Como o presidente lhe significasse que a resistencia opposta aos seus editos, tinha a sua origem nos interesses do estado, o joven monarcha respondeu:

--«_O estado sou eu!--L'etat, c'est moi!_»

XLII

_Alavanca d'Archimedes_

Chama-se _alavanca_ um corpo longo, inflexivel, fixo em um ponto da sua extensão, e destinado a levantar pesos. O ponto sobre a qual a alavanca tem o seu ponto fixo, diz-se _ponto d'apoio_; o peso a levantar, chama-se _resistencia_ e a força que actua é _potencia_. Quando o ponto d'apoio está collocado no meio da alavanca a _potencia_, e a _resistencia_ são eguaes, isto é, para se levantar um peso de cem kilogrammas é necessario uma força egual a esse peso. Mas a par e passo que o ponto d'apoio se approxima da resistencia, a força que se tem de desenvolver diminue proporcionalmente. D'aqui é facil comprehender que uma força egual, por exemplo, a algumas grammas, póde levantar um navio completo, dando-se um comprimento sufficiente ao braço da alavanca que separa o ponto d'apoio da força activa.

É certo que a alavanca era conhecida de Archimedes, e foi o genio d'este grande homem que lhe determinou as propriedades e as proporções exactas. Comprehende-se que Archimedes tendo levado até ao infinito o estudo theorico da potencia da alavanca haja ousado exclamar:

--«_Deem-me um ponto d'apoio e eu levantarei a terra!_»

Ha n'isto uma evidente hyperbole de linguagem, mas esta hyperbole satisfaz a razão, porque assenta n'um principio mathematico.

XLIII

_Magdalena_

Magdalena, mulher celebre do Evangelho, era uma cortezã d'uma grande belleza. Tendo ouvido fallar Jesus, foi commovida de repente, e o arrependimento entrou no seu coração. Um dia em que Jesus estava á meza em casa de Simão Phariseu, a bella peccadora apresentou-se toda lastimosa na sala da refeição e precipitou-se aos pés do Salvador, regando-os com as suas lagrimas, beijando-os, inundando-os de perfumes e enxugando-os com os seus cabellos. O Phariseu escandalisou-se vendo que Jesus se deixava tocar por essa mulher, conhecida em toda a cidade por uma grande peccadora. Foi n'esta circumstancia que Jesus mostrou toda a misericordia que trasbordava do seu coração, dizendo aos que o rodeavam:

--«_Ser-lhe-ha muito perdoado, porque muito amou!_»

--Esta resposta applica-se hoje, mas quasi sempre ironicamente, ás mulheres conhecidas pela facilidade dos seus costumes, sejam ou não arrependidas, e ha, ao mesmo tempo, o uso de as designar pelo nome de _Magdalenas_.

XLIV

_Casa de Socrates_

Socrates estava fazendo construir uma casa. Como lhe fizessem sentir que era demasiado pequena, elle acudiu:

--«_Prouvera a Deus que ella se enchesse de verdadeiros amigos!_»

Esta bella phrase foi aproveitada por La-Fontaine, de que damos a seguinte versão:

«Socrates uma casa edificava, E cada qual a obra criticava. Um achava o interior, Para dizer a verdade, Indigno do morador; Um outro desdenhava a frontaria, E toda a gente que essa casa via, Achava os aposentos limitados E bem pouco lisongeiros Mesmo por qualquer dos lados. --«Prouvera a Deus que d'amigos provados Se enchesse--diz--d'amigos verdadeiros!»

Socrates razão tivera De achar, por tal, espaçosa a casita; Amigos muitos ha--quem acredita? Amigos de nome apenas, Não d'amisade sincera.

XLV

_Desgraça aos vencidos!_

Depois da sangrenta batalha d'Allia, cujo anniversario foi incluido pelos romanos no numero dos dias nefastos, o terror tinha-se espalhado em Roma e todos os habitantes haviam fugido, excepto oitenta velhos que esperavam corajosamente a morte nas suas cadeiras curues, e a mocidade que se refugiou no capitolio. Depois de terem saqueado e queimado Roma, os gaulezes pozeram cêrco á fortaleza, e tendo dado um assalto sem resultado, estabeleceram então um cêrco mais rigoroso. Os defensores da fortaleza, sitiados havia sete mezes e entregues a todos os horrores da fome, pedem, afinal, capitulação. Brenno, chefe dos gaulezes, consente em levantar o cêrco mediante mil libras de ouro em peso. O tribuno Sulpicio apresenta a somma no dia marcado. Em quanto que se pesa o ouro, levanta-se uma contestação e os romanos censuram aos vencedores o uso de falsos pesos.

É então que Brenno, lançando a sua pesada espada na balança, pronuncia a phrase celebre que depois se tornou proverbial:

--«_Desgraça aos vencidos!_»--«_Væ victis!_»

XLVI

_Manto de Joseph_

Os mercadores ismaelitas, aos quaes Joseph fôra entregue por seus irmãos, levaram-n'o para o Egypto e venderam-n'o a Putiphar, um dos principaes officiaes do rei. A mulher de Putiphar, animada d'uma criminosa paixão, pelo joven israelita, que era formoso, tentou abalar-lhe a virtude e, para o obrigar a consentir nos seus desejos, ella agarrou-o um dia pelo manto e quiz attrahil-o a si.

Joseph abandonou-lhe o manto e fugiu. Cheia de cólera e envergonhada por se vêr assim desprezada, essa mulher disse ao marido:

--«O escravo hebreu quiz ultrajar-me, mas aos meus gritos fugiu, deixando-me o manto entre as mãos!»

Putiphar, irritado, fez encarcerar Joseph.

--Comprehende-se, sem que seja necessario que o expliquemos, em que ordem de ideias se faz allusão ao manto de Joseph e á mulher de Putiphar.

XLVII

_Mario sobre as ruinas de Carthago_

Mario, livre das prisões de Minturnes, fez-se á vela para a Africa. O navio que o conduzia, privado d'agua, quiz aportar á Sicilia, mas uma força armada assaltou a equipagem, matou varios homens, e o proprio Mario só com difficuldade escapou. Alguns dias depois desembarcou na Africa, nos mesmos locaes aonde se elevava outr'ora a poderosa cidade de Carthago.

Apenas em terra, Sextilio, pretor da Lybia, homem dedicado a Sylla, fez-lhe intimar ordem de deixar aquella provincia, e como o mensageiro lhe pedisse uma resposta, elle disse-lhe:

--«_Vae dizer a teu senhor, que viste Mario, errante e fugitivo, sentado sobre as ruinas de Carthago!_»

A presença d'este grande proscripto sobre as ruinas ainda fumegantes da antiga e poderosa rival de Roma, é um dos mais frisantes exemplos das vicissitudes humanas, e a maneira simples e energica com que esta approximação é expressa, faz d'elle uma das mais sublimes lições que a historia tem tido a consignar.

Toda a gente conhece o verso em que Delille poz em presença esses dois infortunios:

«_E essas ruinas, sim, consolavam-se a si!_»

XLVIII

_Subir ao Capitolio_

Na antiga Roma, os generaes vencedores subiam em triumpho ao Capitolio, no meio das acclamações de todo o povo, e alli offereciam sacrificios aos deuses; em seguida o povo os acompanhava a sua casa com archotes e soltando gritos de alegria.

Na Edade Média, e durante o grande seculo litterario da Italia, resuscitaram-se, em favor da poesia, os antigos triumphos do Capitolio. No dia de Paschoa, a 8 d'abril de 1341, Petrarcha subiu ao Capitolio no meio dos principaes cidadãos, precedidos de doze mancebos, escolhidos nas familias mais illustres, que declamavam os seus versos. Recebeu a corôa de louro e recitou um soneto ácerca do heroe da antiga Roma.

Tasso recebeu tambem as honras da coroação; a sua entrada em Roma já teve o aspecto de um triumpho. O povo, os nobres, os prelados, os cardeaes, os sobrinhos do Papa, foram ao seu encontro e o conduziram ao Vaticano, no meio das mais vivas acclamações. O Papa, avistando-o, disse-lhe com graça particular:

--«Vinde honrar esta corôa, que honrou todos quantos a collocaram antes de vós.»

Os aprestos da cerimonia proseguiam com a maior rapidez e o Tasso ia, emfim, receber a recompensa d'uma vida cheia d'amargura e de dôr; mas por uma ultima irrisão da sorte elle morreu na vespera do proprio dia em que devia subir ao Capitolio, e o louro poetico não adornou senão a fronte do seu cadaver, que fôra amortalhado com a toga romana.

Pouca gente desconhece a magnifica descripção que Madame de Stael fez da coroação de Corinna. A brilhante escriptora faz reviver no seu celebre romance a _Corinna Thebana_, a rival feliz de Pindaro, varias vezes coroada nos jogos olympicos.

XLIX

_Onde não ha el-rei o perde_

Representava-se na comedia Franceza, com immenso successo o _Cerco de Calais_, tragedia de Belloy. O principal papel era desempenhado pela actriz Clairon, tão conhecida pelas suas aventuras galantes sob o nome de Fretillon. Um comediante muito obscuro, chamado Dubois, que desempenhava um papel n'esta peça, era accusado pelos seus collegas d'um acto de improbidade. Estes, tendo á frente a Clairon, recusaram-se a entrar em scena em companhia d'elle, e o _Cerco de Calais_ foi interrompido na vigesima representação. Os espectadores agitaram-se e houve desordem no theatro. Clairon fazia-se especialmente notar entre os mais obstinados. Ordenou-se que ella fosse conduzida ao Fort-L'evêque. Ella, então, disse a quem a intimava, com emphase theatral, que ia, mas que sua magestade podia tudo sobre os seus bens e sobre a sua liberdade, mas nada sobre a sua _honra_.

--«_Isso é sabido_--responderam-lhe--_onde não ha el-rei o perde!_»

É vulgar e de facil comprehensão a applicação d'esta phrase.

L

_Onde se vae aninhar a virtude?_

Moliére alliava a um grande genio as mais formosas qualidades do coração, e tinha uma alma ao nivel do seu espirito. Caracter suave, complacente e generoso, nunca o abandonava o seu elevado sentimento caritativo.

Um dia em que partiu para S. Germano approximou-se-lhe um mendigo e pediu-lhe esmola. Moliére lançou-lhe uma moeda e subiu para o trem. Instantes depois percebeu que o pobre o seguia correndo. Fez parar. O pobre chegou-se e disse-lhe:

--«O senhor enganou-se, de certo, porque me deu um luiz, que eu venho entregar.»

--«Não, meu amigo--acudiu--e aqui tens outro.»

E como o seu genio estava continuamente álerta, e elle estudava em toda a parte a natureza, como homem que queria pintal-a, exclamou:

--_Onde se vae aninhar a virtude?_

LI

_Perdoae-lhes, meu Pae, não sabem o que fazem_

Jesus Christo, cuja vida, acções e doutrina tinham sido mansidão e misericordia, só teve sobre a cruz palavras de doçura para os seus proprios algozes, sobre a cabeça dos quaes attrahiu o perdão de seu Pae. «Ora--diz S. Lucas--com elle levavam dois outros homens, que eram criminosos, para os pôrem á morte, e quando chegaram ao Calvario, Jesus foi crucificado entre dois ladrões, um á direita e outro á esquerda, e elle dizia fallando dos seus verdugos:--_Perdoae-lhes, meu Pae, não sabem o que fazem!_

Esta phrase cahiu do alto da cruz, no meio das agonias da morte e dos soffrimentos mais crueis, e resume admiravelmente o espirito evangelico e a moral sublime do sermão da montanha.

A applicação d'esta phrase suprema não tem logar, geralmente, senão no estylo familiar.

LII

_Lavar as mãos como Pilatos_

Poncio Pilatos, governador da Judeia, sob Tiberio, seria completamente desconhecido hoje, se o seu nome se não achasse envolvido no maior successo da historia. Jesus, perseguido desde muito pelo odio dos principes dos padres e dos phariseus, tinha sido apresentado perante o tribunal de Caiphaz, e condemnado á morte por se dizer Christo, filho do Deus vivo. Mas esta sentença não podia ser executada sem as ordens do governador romano. Os judeus levaram Jesus a Pilatos. Este convencido da sua innocencia, perturbado, além d'isto, por um estranho sonho que sua mulher Claudia Procula tinha tido durante a noite e que lhe despertára o maior interesse pelo Christo, procurava illudir a sentença de morte. Mas a populaça tendo reclamado o ultimo supplicio com gritos de furor, e ameaçado o proprio Pilatos com a cólera de Cesar, o fraco governador abandonou Jesus á raiva dos algozes. No entretanto, querendo protestar contra o que elle considerava uma suprema injustiça, elle fez trazer agua, e lavando as mãos deante do povo, exclamou:

--«Estou innocente da morte d'este justo; sois vós que respondereis por ella!»

--«Sim, sim--gritaram os loucos--que o seu sangue cáia sobre nossas cabeças e sobre nossos filhos!»

E crucificaram-n'o!

Alguns annos mais tarde, Pilatos, cahindo em desagrado sob Caligula, foi exilado, e no exilio, perseguido pelos remorsos, matou-se de desespero, dizem.

A sentença iniqua que Pilatos pronunciou contra Jesus pesará sempre sobre a sua memoria, e até ao fim dos seculos Pilatos será o typo dos magistrados pusillanimes, que, obedecendo á voz do medo e dos seus interesses, teem a cobardia de pronunciarem condemnações que a consciencia reprova. Embora lavem as mãos, o sangue innocente derramado deixará sempre uma nodoa indelevel, que será para elles uma nodoa infamante.

--É, fazendo allusão á acção de Pilatos, que em linguagem familiar se diz:--«_D'ahi lavo as mãos_», como declaração de que se não tem responsabilidade nas consequencias de successos para que se concorreu.

LIII

_O que não peccou, atire a primeira pedra_

Os scribas e phariseus levaram a Jesus uma mulher que fôra surprehendida em adulterio, e disseram-lhe:

--«Mestre, esta mulher acaba de ser surprehendida em adulterio. Ora a lei de Moisés ordena-nos que apedrejemos as adulteras. Qual é a este respeito a vossa opinião?»

Fallavam-lhe assim para o tentarem, e a fim de o poderem accusar. Mas Jesus Christo abaixando-se, escreveu com o dedo na terra.

E como continuassem a interrogal-o, elle levantou-se e disse-lhes:

--«_Aquelle d'entre vós que não peccou lhe atire a primeira pedra._»

A esta phrase elles retiraram-se a um e um, e só ficou Jesus com essa mulher que se conservava de pé.

Jesus disse-lhe então:

--«Ninguem te condemnou, não te condemnarei tambem. Vae e não peques mais.» (_Evang. S. João_).

LIV

_Tres linhas escriptas e eu farei enforcar quem as escreveu_

Nada ha que mais se preste á critica e á satyra do que as leis. Anacharsis comparava-as ás teias d'aranha que prendem as pequenas e deixam passar as grandes moscas. La-Fontaine rimou a mesma ideia quando disse:

«Assim, conforme o que és, ou grande ou miseravel «A justiça fará que sejas branco ou negro.»

Não confirma a sabedoria das nações, os juizos do philosopho e do fabulista, quando concede ao condemnado vinte e quatro horas para maldizer a um juiz? Mas a cabula, o processo, o codigo n'uma palavra não justifica hoje estas accusações? e os traços que acabamos de citar são uma calumnia ou maledicencia? O presidente d'Ormesson parece ter respondido a esta pergunta quando disse:

--«Se eu fosse accusado de ter roubado as torres de Notre Dâme, e ouvisse gritar atraz de mim--_agarra que é ladrão!_--eu fugiria desesperadamente.»

Este terror que inspira a justiça, mesmo ao mais innocente, está plenamente justificado por estas palavras:

--«_Deem-me tres linhas da escripta d'alguem e eu o farei enforcar._»

Os eruditos estão divididos sobre o auctor d'esta celebre phrase, que attribuem a Laubardemont, ao Padre Joseph, a Richelieu, a Jeffries, e que M. Proudhon, mais prudente, attribue a um ... criminalista.

O cardeal Richelieu, que conhecia o poder do equivoco, citava um dia esta phrase deante dos seus secretarios. Um d'elles, julgando embaraçal-o, escreveu n'um cartão--«Um e dois fazem tres.»--«Blasphemia contra a Santissima Trindade!--exclamou o cardeal--um e dois só fazem um.»

LV

_Quem te fez conde? Quem te fez rei?_

A fraqueza dos ultimos carlovingianos tinha permittido á feudalidade lançar profundas raizes entre os francos, e tornar-se quasi independente, e quando em 987 Hugo Capeto foi eleito rei de França em Noyon, pelos seus proprios vassallos e alguns pequenos feudatarios visinhos, elle ficou o que tinha sido antes, conde de Paris, possuidor de vastos dominios, mas não sendo, no meio dos poderosos barões, mais que o primeiro entre iguaes. Assim, todo o seu reino foi perturbado pelas revoltas dos proprios que o tinham levado ao throno, mas que recusavam reconhecer a sua supremacia. Poder-se-ha julgar pela altiva resposta d'um d'elles, com que olhos consideravam a nova realeza.

Um conde de Périgneux, Adalberto, emprehendeu conquistas e usurpára os titulos de conde de Poitiers e de Tours. O rei de França mandou-lhe um mensageiro para lhe perguntar:

--«Quem te fez conde?»

Ao que Adalberto respondeu:

--«Quem te fez rei?»

Estas phrases, frequentemente citadas, resumem uma epocha inteira.

LVI

_A Cesar o que é de Cesar a Deus o que é de Deus_

Alguns dias antes da celebração da Paschoa, Jesus fez uma entrada triumphal em Jerusalem, no meio d'um concurso immenso de povo que gritava:--Hossana ao filho de David! Bemdito o que vem em nome do Senhor!» Os principes dos padres e os scribas procuraram então os meios de o perder e de o prender nas proprias palavras por perguntas insidiosas. Os herodianos approximaram-se, pois, d'elle, e lhe perguntaram:

--«Mestre, sabemos que és verdadeiro nas tuas palavras e que ensinas o caminho de Deus, sem distincção de pessoas. Dize-nos então a verdade sobre isto:--É permittido pagar o tributo a Cezar?»

Jesus, penetrando na intenção d'elles, respondeu:

--«Mostrem-me a moeda de dinheiro que se dá em tributo.»

Apresentaram-lhe um dinheiro. Jesus disse-lhes então:

--«De quem é esta moeda?»

--«De Cezar.»

--«_Dêem, então, a Cezar o que é de Cezar e a Deus o que é de Deus!_»

Vem a proposito citar que Henrique IV, que antes de entrar em Paris fôra obrigado a comprar muito caro os chefes da Liga, modificou, a este respeito, da maneira mais original e mais espirituosa, a lettra do Evangelho.

Um dia depois do seu jantar, Henrique IV disse ao seu secretario:

--«Que pensas, vendo-me em Paris como estou?»

--«Penso, senhor, que deram a Cezar o que era de Cezar, como é preciso dar a Deus o que é de Deus ...»

--«Ora essa!--replicou o rei--não me fizeram como a Cezar, porque me não _deram_, mas porque me _venderam_ o que era meu.»

LVII

_Salto de Leucade_

Sapho, a mais illustre das poetisas, appellidada a decima musa, nasceu em Mitylene, na ilha de Lesbos, pelo anno 600, antes de Christo. Amiga do poeta Alceu, ella foi arrastada na conspiração contra Pittaco e acabou os seus dias no exilio.

Os antigos representam-na devorada pelas paixões e entregue ao furor dos sentidos; e elles não davam o nome de versos ás suas poesias, mas _ardores_, _chammas_, etc.; e acceitando os costumes muito conhecidos das lesbianas com a indulgencia cynica d'aquella epocha, elles inflammavam-se n'um enthusiasmo sem limites pelo lyrismo desordenado dos seus cantos, pela graça exquisita, pela harmonia arrebatadora e pelo estylo de fogo das suas odes.

Conta a tradição que, apaixonada pelo insensivel Phaon, joven lesbiano, d'uma grande belleza, e não podendo vencer os seus desprezos, ella se precipitou, cheia de desespero, do alto de Leucade no mar.

A ilha de Leucade era famosa por um promontorio, formado de rochedos escarpados que dominavam o mar. Era alli que as amantes desgraçadas iam procurar remedio a seus males, precipitando-se do alto do promontorio sobre as vagas. É isto o que se chamava _dar o salto de Leucade_. Os que escapavam á morte depois d'esse perigoso salto, ficavam curados do seu amor.

Mas comprehende-se que pouquissimas resistiam a esse remedio heroico.

LVIII

_Se é possivel, está feito; se é impossivel se fará_

Impotente, gottoso, e já velho leão Queria achasse algum remedio á velhice. _O impossivel aos reis allegar é illusão_.

Eis uma verdade que Colonne, quartel mestre geral das finanças, sob Luiz XVI, era demasiado fino e cortezão para ignorar. Leviano, espirituoso, incapaz d'um plano fortemente concebido e pacientemente executado, elle devia deixar as finanças do reino n'um estado ainda mais deploravel do que as tinha encontrado ao entrar para o ministerio. As suas operações aventureiras só deviam augmentar o mal geral e o numero dos descontentes. N'essa côrte tão prodigiosamente descuidada na vespera d'uma catastrophe e em que só Luiz XVI tinha o sentimento dos seus deveres, sem ser dotado da energia necessaria para bem os cumprir, o luxo e a prodigalidade eram tão insaciaveis como se os cofres do estado estivessem pejados. Para crear elogiadores entre os homens de lettras, o ministro concedeu pensões a um grande numero d'elles.

Maria Antonietta era a primeira a dar o exemplo do luxo e não punha qualquer freio ao seu prazer pelo gasto. Um dia que ella precisava d'uma somma consideravel dirigiu-se a Colonne, cuja facil condescendencia ella conhecia. Antes de lhe expor o pedido, ella disse-lhe n'esse tom de mulher e rainha que não quer recusa:

--«O que tenho a pedir-lhe é difficil talvez, Colonne!»

O espirituoso ministro respondeu, inclinando-se graciosamente:

--«_Se é possivel, está feito; se é impossivel, far-se-ha!_»

Não era possivel commentar mais finamente o verso de La-Fontaine.

Nas guerras da republica, a possibilidade do _impossivel_ foi expressa d'uma maneira mais nobre por um general francez, no ardor d'um combate encarniçado. Um official que elle acabava de encarregar d'uma operação perigosa, respondeu-lhe que era impossivel.

--«Impossivel, senhor?--respondeu o general--Olhe que essa palavra não é franceza!»

LIX

_Terra promettida_

Depois da morte de Joseph, os descendentes de Jacob não tardaram a ser perseguidos pelos egypcios, que os empregavam nos trabalhos mais rudes. Mas Deus que tinha sempre os olhos fixos sobre o seu povo, suscitou Moisés, ao qual ordenou que conduzisse os hebreus _á terra de Chanaan_, berço de seus paes.--«Era--diz a Escriptura--uma terra de promissão, produzindo uvas que dois homens mal podiam carregar, e onde corriam regatos de leite e de mel.» Mas os israelitas, constantemente rebeldes, foram condemnados a errar quarenta annos no deserto, á vista d'essa terra de delicias, sem n'ella poderem entrar. Afinal lá chegaram, conduzidos por Josué.

--A _terra promettida_ é uma expressão que passou em todas as linguas a designar um estado, uma ventura a que se aspirava ha muito tempo. Victor Hugo disse, a proposito, nas _Folhas do Outomno_:

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . «Um homem, dentro em si, construe e phantasia Um mundo encantador, mundo d'arte e poesia, --A nossa Chanaan, que nós vemos de cima ...»

LX

_Thebaida_

A Thebaida, uma das tres grandes divisões do antigo Egypto, e que tinha Thebas por capital, era famosa pelos desertos que a éste e oéste cercavam a sua parte habitada. Foi n'uma destas solidões que nos primeiros seculos do christianismo se refugiaram muitissimos christãos, já para fugirem á perseguição, já para se esquivarem ás seducções do mundo, entregando-se ao jejum, á oração e a todas as austeridades da vida ascetica.

O mais illustre d'entre elles, Santo Antonio, dera o exemplo, distribuindo a sua fortuna aos pobres, para viver do trabalho das suas mãos. A sua reputação de santidade espalhou-se ao longe, e a breve trecho, milhares de discipulos se gruparam em volta d'elle. Durante algum tempo, foi, d'algum modo repovoado de monges e anachoretas. Mas afinal a despovoação geral do Egypto produziu a extincção de quasi todos os mosteiros, que se haviam creado.

Hoje, só as cellas vasias, marcadas com o symbolo dos christãos, indicam a assistencia d'esses religiosos nos templos pagãos arruinados, bem como as grutas dos sepulchros da Thebaida.

--Na linguagem ordinaria, _Thebaida_, diz-se d'um deserto, d'uma solidão profunda, em que se vive retirado do mundo; mas esta palavra está longe de ser tomada sempre n'este sentido. Faz-se muitas vezes uso d'ella, em poesia, especialmente para designar um retiro favorito, que propositadamente se escolhe, longe do bulicio, para o goso das doçuras da amisade, ou dos encantos do amor.

Lembra-nos até que Theophilo Gautier disse já n'uma das suas esplendidas poesias:

«Um bom _cottage_ inglez, eis a _Thebaida_ sua!»

LXI

_Desça o panno, acabou a comedia!_