Historia Pitoresca: Palavras e frases celebres

Part 3

Chapter 33,686 wordsPublic domain

Corregio, natural de Corregio, nascido em 1494, é um dos maiores pintores da eschola italiana. As suas composições fazem-se notar, sobretudo, pela graça ondulante dos contornos, pela flexibilidade e elegancia das fórmas, pela riqueza do colorido, pela sciencia da luz e da sombra, pela intelligencia perfeita do claro-escuro! Era eminente em representar creanças, mulheres, emfim, scenas graciosas e de voluptuosidade. A sua _Antiope adormecida_ é d'uma riqueza deslumbrante. A cidade de Parma offereceu, debalde, um milhão a Napoleão para conservar o _S. Jeronymo_, que é considerado como a sua obra prima. Não se conhece nenhum mestre a este pintor, e pensa-se que só a si deve o que foi. A revelação do seu genio explosiu deante d'um quadro de Raphael. Transportado de admiração e como que illuminado, elle exclamou:

--«E eu tambem sou pintor!»

--«_Anch'io son'pittore!_»

XXII

_Estrella dos Reis Magos_

No momento em que Jesus vinha ao mundo em Bethlem, n'um estabulo, os magos do Oriente avistaram uma estrella no céu, que elles ainda não tinham visto. Deixaram o seu paiz, e, guiados por esse pharol miraculoso, chegaram a Bethlem, onde acabava de nascer o Menino Deus. Penetraram no local acima do qual a estrella se detivera, e alli encontraram Maria e seu Filho, e, prostrando-se deante do recemnascido, adoraram-no e offereceram-lhe ouro, incenso e mirra. É este o acontecimento que a egreja celebra na festa da Epiphania ou dos _Reis_.

--A estrella que guiou os magos na sua piedosa peregrinação enriqueceu a nossa lingua com uma imagem poetica, muito frequentemente empregada. Essa estrella é muitas vezes uma voz intima, um ente amado, que nos chama e nos dirige para um fim glorioso.

XXIII

_E, comtudo, ella gira!_

Galileu, é, sem contradicção, a maior gloria scientifica da Italia. O methodo experimental, de que é o creador, fez-lhe em breve repellir os absurdos physicos e astronomicos professados no seu tempo, e levantar contra elle todos quantos eram adeptos das velhas doutrinas. Mas de todas as suas ousadias, a que devia ser mais perigosa para o seu repouso, foi o seu novo systhema astronomico, pelo qual, segundo Copernico, e contrariamente a Ptolomeu, elle fazia do sol o centro immovel do nosso systema planetario. Pretendeu-se que esta doutrina estava em formal contradicção com varias passagens da Escriptura, e foi denunciado á Inquisição. Elle defendeu-se com uma grande habilidade, representando que as passagens da Biblia e dos Santos Padres tinham sido interpretadas, e que, além d'isto, o objecto da Escriptura era a salvação dos homens e não o ensino da astronomia. Contentaram-se a principio em lhe fazerem uma advertencia, e em declararem _falsa e heretica_ a sua doutrina do movimento da terra e da immobilidade do sol. Galileu calou-se durante algum tempo; mas a paixão da sciencia foi a final mais forte que a prudencia. Compoz, por sua desgraça, _Dialogos_, em que, por um artificio empregado muitas vezes nos tempos de despotismo, poz em lucta os partidarios dos systemas oppostos, sem se pronunciar por um d'elles. Adivinha-se facilmente que os partidarios da immobilidade da terra, foram esmagados pelos argumentos, realmente sem replica, dos seus adversarios. Galileu foi mandado immediatamente a Roma pela Santa Inquisição, interrogado, e, segundo uns, mas sem que haja provas, posto em tortura, e, afinal, condemnado a prisão perpetua e á abjuração solemne dos seus _erros_.

A sciencia como a fé tem tido os seus martyres; mas Galileu fraquejou na ultima hora e consentiu em humilhar o seu genio perante os prejuizos dos seus contemporaneos. A 22 de junho de 1633 pronunciou a sua abjuração no convento de Minerva, em presença dos cardeaes inquisidores. A formula que lhe foi imposta é um dos monumentos mais curiosos da inepcia humana:

--«Eu, Galileu, de setenta annos, sobre os Santos Evangelhos que toco com as minhas proprias mãos ... abjuro, maldigo e detesto o erro e a heresia do movimento da terra, etc.»

Conta-se que levantando-se depois da realisação d'este sacrificio, Galileu arrastado pela revolta intima das suas convicções, bateu com o pé no chão e murmurou energicamente:

--«_E, comtudo, ella gira!--E pur si muove!_»

Foi o seu unico protesto; mas elle atravessará os seculos como o grito da verdade opprimida e deporá eternamente contra a ignorancia e a perseguição.

XXIV

_Virtude, não és mais que um nome_

Depois da morte de Cezar, os seus assassinos, forçados a fugirem deante da cólera do povo, levantado por Antonio, retiraram-se para a Macedonia. Os triumviros avançaram contra elles com forças consideraveis. Alguns dias antes da batalha, que devia decidir da sorte da republica, e n'uma noite em que Bruto velava na sua tenda, entregue a sombrias reflexões, pareceu-lhe, de repente, que ouviu entrar alguem. Volvendo-se viu um phantasma horrivel na sua presença.

--«Homem ou deus, quem és?»--lhe diz Bruto.

--«Sou o teu mau genio--responde--; vêr-me-has em breve em Philippes.»

Esta prophecia não devia tardar a realisar-se. Poucos dias depois, com effeito, e na noite que precedeu a batalha de Philippes, quando Bruto velava só na sua tenda, segundo o seu costume, em quanto que todo o exercito estava mergulhado em somno, o mesmo phantasma lhe appareceu segunda vez, o olhou com ar sinistro e se retirou sem proferir uma unica palavra. No dia immediato, a liberdade romana expirava nas planicies de Philippes, e Bruto matava-se, soltando esse grito de desanimo, muito conhecido:

--«_Virtude, não és mais que um nome!_»

XXV

_Festim de Balthazar_

Cyro, rei dos persas, cercava Babylonia á frente d'um exercito formidavel; Balthazar, confiando na força das suas muralhas, ria dos vãos exforços do seu inimigo e esquecia, nos festins, os enfados d'um longo cêrco. Uma noite em que celebrava uma orgia com os grandes da sua côrte e todas as suas mulheres, fez trazer, por uma fanfarronada de impiedade, os vasos sagrados que Nabuchodonosor tinha outr'ora subtrahido ao templo de Jerusalem. Realisada aquella profanação, o impio monarcha viu com espanto uma mão que traçava na parede, em traços ardentes, caracteres mysteriosos, que nem Balthazar nem ninguem da côrte pôde traduzir.

O propheta Daniel tendo sido chamado, disse ao rei.

--«Foi Deus que enviou aquella mão, e é isto o que está escripto: _Mané, Thécel, Pharés_;--_Mané_, Deus contou os dias do teu reino e lhe marcou o fim; _Thécel_, foste collocado na balança e achado muito leve; _Pharés_, o teu reino será dividido!»

Na mesma noite, com effeito, Cyro, tendo conseguido desviar o curso do Euphrates, penetrou na Babylonia pelo seu leito secco. Balthazar foi morto e a Babylonia reunida ao imperio dos persas.

--Por allusão a este festim celebre, chama-se _festim de Balthazar_ a toda a orgia ruidosa, ou, por uma hyperbole familiar, a todo o banquete copioso e prolongado.

XXVI

_Forcas caudinas_

Roma tinha vencido a maior parte das nações visinhas; mas desde que quiz estender o seu dominio á parte meridional da Italia encontrou os samnitas, povo de costumes rudes e bellicosos. Havia de um e outro lado as mesmas armas, a mesma disciplina, o mesmo habito dos combates. D'alli a ambição e o valor romanos; d'aqui o patriotismo e a infatigavel energia dos samnitas, iam dar a esta lucta um caracter d'incrivel encarniçamento. Eis aqui o episodio mais celebre d'essa guerra, que devia terminar pela conquista do Samnio. Romperam-se as hostilidades; os samnitas estavam acampados perto de Candium, no meio das montanhas. Poncio Herennio, seu general, resolveu attrahir, por um falso aviso, o exercito romano a um desfiladeiro, de onde lhe seria impossivel escapar-se. Logo dez soldados samnitas, disfarçados em pastores, approximaram-se dos postos avançados inimigos e espalham a nova de que os samnitas cercam Luceria, cidade alliada dos romanos. Os consules apressam-se a voar em sua defeza, escolhendo o caminho mais perigoso, mas mais curto--desfiladeiro profundo, estreito e coberto de florestas. Era o que tinha previsto o general dos samnitas. Apenas os romanos se empenharam n'esse caminho perigoso, avistam as alturas cobertas d'inimigos. Era forçoso, ou morrer ou render-se, porque as sahidas estavam obstruidas. O pai de Poncio Herennio, velho cheio d'experiencia, aconselhava a seu filho o despedir todos os romanos sem resgate, para os fazer amigos, ou exterminal-os até ao ultimo para vibrar um golpe mortal na republica. O general samnita, escutando sómente o desejo de humilhar o orgulho romano, obrigou-os a entregarem-se á discrição, e fez passar todo o exercito sob um jugo formado de dois _forcados_ espetados no solo e encimados d'um terceiro. Todos os soldados com os consules á frente, passaram, tremendo, sob esse instrumento d'opprobrio, depois de terem deposto as armas. O senado recusou ratificar compromissos impostos em condições tão humilhantes; foi preciso combater de novo, e sangrentas derrotas puniram os samnitas da sua imprudente confiança na fé romana.

--Depois a expressão _passar sob as forcas caudinas_ entrou em uso para caracterisar toda a concessão onerosa ou humilhante, arrancada aos vencidos.

XXVII

_Irmão, é preciso morrer_

As austeridades da vida monastica tornaram-se proverbiaes, mas foi, sobretudo, na Trappa que ellas se observaram com todo o rigor dos primeiros seculos do christianismo. Os trappistas guardam absoluto silencio, dividem o tempo entre a oração e o trabalho manual, alimentam-se de pão grosseiro e legumes e vestem apenas o habito de burel. Devem ter sempre deante dos olhos a imagem da morte. E é para se lembrarem d'esta grande verdade, que em cada dia visitam a valla que deve servir-lhes de derradeiro asylo.

«O silencio--diz um eloquente orador contemporaneo--anda ao seu lado, e se fallam, quando se encontram, é para se dirigirem esta melancholica phrase:

--«_Irmão, é preciso morrer ..._»

XXVIII

_Cahir com graça_

Quando em Roma o gladiador se sentia mortalmente ferido, nos sangrentos combates do circo, e a destreza se lhe tornava inutil, elle procurava ainda accender applausos na multidão, para a qual a sua agonia era um espectaculo, por uma queda a que elle tentava imprimir toda a arte, e _cahia na arena com graça_.

--Esta phrase applica-se, pelo lado moral, aos que, em politica, no amor, etc., se salvam da humilhação d'um cheque, pela boa graça, real ou ficticia, que fazem acceitar.

XXIX

_Hippocrates diz sim, Galiano diz não_

Hippocrates e Galiano são os dois representantes mais illustres da medicina, entre os antigos: aquelle nos gregos, este nos romanos. Galiano nutria uma profunda veneração pelo genio do pae da medicina, e um dos maiores serviços que prestou á sciencia, foi o de ter, no meio d'uma sã critica, collocado o facho sobre as obras d'aquelle que chamava seu mestre. Hippocrates e Galiano teem de commum que dotados ambos d'um vasto genio, avançaram muito nos segredos da natureza, e ambos mostraram egual ardor na investigação da verdade, não pelo apparato das riquezas, mas só pelo amor da humanidade.

--Esta phrase proverbial: _Hippocrates diz sim, Galiano diz não_, não tem pois a sua origem no antagonismo dos dois grandes homens e dos seus systemas; mas como a medicina é o immenso campo da contradicção, e quando um medico diz--_tanto melhor_, um outro diz--_tanto peior_; quando este applica sangrias aquelle proscreve-as; quando um colloca a séde de todas as doenças nos nervos, o outro nos humores; quando, emfim, um escreve no seu estandarte--_contraria contrariis_ ... e o outro--_similia similibus_ ..., comprehende-se que era á medicina que a contradicção devia pedir a sua divisa, e que as duas columnas d'esta sciencia lhe deviam fornecer a expressão.

XXX

_É muito tarde!_

Esta phrase data da revolução de Julho de 1830, em França, e eis em que circumstancia foi pronunciada. Uma ultima tempestade tinha derrubado para sempre o throno do ramo mais velho dos Bourbons. Era em sexta-feira, 30 de Julho; o povo estava inteiramente senhor de Pariz, e uma commissão a que presidia Lafayette cercava o Hotel-de-Ville. Carlos X, em Saint-Cloud, dominado por uma cegueira que lhe tinha feito jogar a corôa, conservava ainda illusões e esperava que algumas concessões o collocariam sobre o throno. M. de Sussy, portador de despachos que revogavam as fataes determinações de 25, apresenta-se no Hotel-de-Ville e entrega-os a Lafayette. Este dá-lhe então a famosa resposta:

--«_É muito tarde!_»

Alguns dias depois o duque d'Orleans, chefe do ramo mais novo, subia ao throno. Mas, estranha volta das coisas d'este mundo, dezoito annos depois e em circumstancias quasi analogas, a mesma resposta foi dada a Luiz Philippe. Elle tambem devia ouvir Lamartine responder ás suas tardias concessões:

--«_É muito tarde!_»

XXXI

_Não ha grande homem para o seu creado de quarto_

Segundo Mademoiselle Aïssé, esta phrase teria sido pronunciada pela primeira vez por Madame Cornuel, mulher d'espirito, do tempo de Henrique IV, da qual Madame de Sevigné cita os bons ditos. Essa phrase é, sem duvida, uma reminiscencia d'essa outra de Montaigne:--«Poucos homens teem sido admirados pelos seus creados.» Qual é, em verdade, o homem de genio que fica egual a si proprio, quando já não está em scena? O mundo é um espectaculo, onde cada qual representa um papel apropriado, em quanto está deante do publico, mas de que se despoja todo o brilho d'emprestimo desde que se recolhe a bastidores. Aqui o homem substitue o heroe e quantos poderiam dizer como o grande Condé, quando era fatigado com titulos pomposos e elogios hyperbolicos:

--«_Perguntem o que sou ao meu creado de quarto!_»

XXXII

_Cantam, elles pagarão_

Mazarino governou a França depois de Richelieu, em momentos de perturbações e de guerra civil. Era a rapoza succedendo ao leão. Fez uma politica completamente opposta á do seu terrivel predecessor; os seus meios favoritos eram a astucia, a finura, a paciencia. Comprazia-se em repetir:

--«O tempo é um homem galante!»

Nenhum ministro foi tão posto em canções como elle; mas insensivel aos pamphletos que diariamente dirigiam contra a sua pessoa, o astucioso italiano apenas dizia:

--«Deixemol-os fallar e prosigamos!»

A cada novo imposto choviam novas satyras. Elle, porém, seguro de que uma opposição, que só desabafava em _couplets_ satyricos, o não poderia incommodar, acudia com toda a serenidade:

--«_Cantam, elles pagarão!_»

XXXIII

_Perdi o meu dia_

O imperador Tito, que a historia cognominou _as delicias do genero humano_, exclamava quando tinha passado um só dia sem encontrar occasião de praticar algum bem:

--«Meus amigos, _perdi o meu dia!_»

Boileau exprimiu esta generosa ideia nos seguintes versos da _Epistola ao Rei_:

«Tal esse imperador, sob o qual, Roma via, Renascer de Saturno e de Rhêa outro dia; Que rendeu ao seu jugo o universo amoroso, Que jámais alguem viu sem se sentir ditoso, E que chorava á noite o tempo que perdera _Quando passava o dia e algum bem não fizera_.»

XXXIV

_Amo Platão, mas amo mais a verdade_

Platão e Aristoteles são os dois mais illustres representantes da philosophia antiga. O primeiro, discipulo de Socrates, estava em todo o esplendor da sua fama, quando Aristoteles foi a Athenas para seguir as suas lições. O discipulo não tardou a tornar-se tão celebre como o mestre; mas dois espiritos d'esta superioridade, e, ao mesmo tempo, tão differentes, ambos feitos para reinarem no dominio do pensamento, deviam em breve separar-se.

Assim, Aristoteles, sem ser, como se diz, inimigo do seu mestre, não adoptava todas as consequencias da sua doutrina; todavia, quando se achava em contradicção com elle, sabia exprimir a sua opinião com a sábia medida d'um philosopho e não com a funda amargura d'um rival.

--«Amo Platão--dizia--mas amo mais a verdade.»--«_Amicus Plato, sed magis amica veritas._»

--Esta homenagem prestada á verdade, quando é tida em desaccordo com as doutrinas de um genio, mesmo transcendente, passou a ter foros de proverbio.

XXXV

_Achei!--Eureka!_

Esta exclamação que se faz ouvir quando, depois de longas investigações, o espirito, repentinamente inspirado, chega á descoberta que elle perseguia, foi proferida pela primeira vez, por Archimedes, nas circumstancias seguintes:

Hieron, rei de Syracusa, suspeitava que um ourives, que lhe tinha fabricado uma corôa d'ouro, tivesse falsificado o metal, misturando-lhe uma certa quantidade de prata. Elle consultou Archimedes, seu parente, sobre os meios de descobrir a fraude, de que julgava poder queixar-se. O illustre mathematico reflectia profundamente na solução possivel d'este problema, quando um dia, estando no banho, percebeu que os seus membros, mergulhados na agoa, perdiam consideravelmente do seu pezo; que, por exemplo, elle podia levantar uma perna com extrema facilidade. O seu genio entreviu logo os elementos d'esse grande principio d'hydrostatica, que determinou em seguida rigorosamente:--que todo o corpo mergulhado n'agoa, perde uma parte do seu pezo, egual ao pezo do volume d'agoa que esse corpo desloca.--Esta descoberta dava-lhe a solução do problema. No meio do enthusiasmo que lhe produziu esta revelação elle sahiu do banho e lançou-se na rua gritando:

--_Achei! achei!_--_Eureka! Eureka!_

Com effeito, tinha encontrado o meio de determinar a gravidade especifica de todos os corpos, tomando a agoa por unidade. Procurou, pois, duas massas, d'ouro e de prata, cada uma d'um pezo egual á corôa: mergulhou-as successivamente n'um vaso cheio d'agoa, observando com cuidado a quantidade de liquido deslocado pela immersão de cada uma d'ellas. Submetteu á mesma experiencia a propria corôa, e achou assim o meio certo d'apreciar a quantidade d'ouro e de prata de que ella era composta.

--O _achei!_ de Archimedes, ficou tendo applicação, nos casos em que, uma difficuldade qualquer, se vence por uma solução satisfactoria.

XXXVI

_Eu desejaria não saber escrever_

Néro, educado por Seneca e Burrhus, dois dos mais sabios romanos d'esse seculo, esteve longe de annunciar, na sua mocidade, as sanguinarias inclinações, que o tornaram o typo da crueldade. Elle pareceu querer consolar os romanos do reino de Tiberio; os seus primeiros actos, cheios d'uma grande doçura, provam que aos seus instinctos de crueldade soube alliar uma profunda hypocrisia, e que a educação é completamente impotente para abafar, em certos caracteres, pelo menos, os germens das paixões más, que trazem nascendo. Desde o segundo dia do seu reinado elle foi ao senado, e em um discurso que Seneca lhe havia composto, annunciou que o seu projecto era tomar Augusto por modelo. Em verdade os principios do seu reino pareceram-se com os ultimos do reino d'aquelle que se propunha imitar. Mostrou-se justo, liberal, affavel, polido, complacente e accessivel á piedade. A modestia realçava-lhe ainda as qualidades. O senado, tendo-o louvado pela sabedoria do seu governo, fez com que elle dissesse:

--«Esperem, para me louvarem, que eu o tenha merecido.»

Um dia em que lhe apresentaram, para assignar, a sentença que condemnava á morte um criminoso, elle disse:

--«_Eu desejaria não saber escrever!_»

E comtudo foi ... Néro!

XXXVII

_Linguas d'Esopo_

Esopo, escravo do philosopho Xantus, recebeu um dia do seu senhor, que tinha convidado varios amigos para jantar, ordem de comprar no mercado, tudo quanto houvesse de melhor, e nada mais.

--«Eu te ensinarei a especificares o que desejas, sem te entregares á discrição d'um escravo»--dissera o phrygio comsigo mesmo.

E comprou só linguas, que fez cosinhar de todos os modos possiveis, de maneira que o principio, o meio e o fim do banquete, foram linguas. Os convidados louvaram a principio a escolha d'Esopo, mas, afinal, desgostaram.

--«Não te ordenei,--disse Xantus--que comprasses o que houvesse de melhor?»

--«E que ha melhor que a lingua?--respondeu Esopo.--É o laço da vida civil, a chave das sciencias, o orgão da verdade e da razão; por ella se construem e policiam cidades; por ella se instrue, se persuade e se reina nas assembleias; por ella se satisfaz ao primeiro dos deveres, que é louvar os deuses.»

--«Pois bem--replicou Xantus, que pretendia apanhal-o--compra amanhã o que houver de peior. Os mesmos convidados virão a minha casa e quero variar.»

No dia seguinte Esopo só fez servir linguas, dizendo que a lingua é a peior coisa que ha no mundo.

--«É a mãe de todas as questões, a alimentadora de todos os processos, a origem das divisões e das guerras. Se ella é o orgão da verdade, é tambem o do erro, e, o que peior é, da calumnia. Por ella destroem-se as cidades; e se por um lado louva os deuses, por outro é o orgão da blasphemia e da impiedade.»

--As _linguas d'Esopo_ ficaram celebres, para designarem o que, podendo ser encarado sob dois aspectos oppostos, dá egualmente occasião ao louvor e á critica.

XXXVIII

_Lanterna de Diogenes_

Na epocha em que vivia Diogenes, os athenienses pareciam ter perdido a memoria de Marathão e Salamina; eram já os athenienses da decadencia, e em quanto que Demosthenes procurava em vão accender essas heroicas recordações pelos masculos accentos da sua eloquencia, o cynico stigmatisava a seu modo, a sua cobardia e a sua corrupção.

Uma vez foi encontrado em pleno meio dia, nas ruas d'Athenas, levando na mão uma lanterna accesa, e como lhe pedissem a razão de tão estranho caso, elle limitou-se a responder:

--«_Procuro um homem!_»

XXXIX

_O mestre o disse_

Pythagoras, um dos maiores, e, talvez até o maior philosopho da antiguidade, aspirava, nada menos, que a constituir no mundo inteiro uma especie de religião. A sua doutrina tendia politicamente a estabelecer uma aristocracia forte e poderosa, e a revestil-a d'um caracter sacerdotal, que a tornasse semelhante ás theocracias do Oriente; em fazer das luzes scientificas a partilha d'um pequeno numero de iniciados, e em dar a estes o governo do mundo, attribuindo-lhes a infallibilidade. Estas grandes e arrojadas ideias inspiraram uma especie de terror aos gregos da Italia e provocaram o desastre espantoso que feriu subitamente os pythagonios.

Comprehende-se o imperio que um philosopho d'este quilate devia adquirir sobre o espirito dos seus discipulos, e assim, entre elles, a phrase--_o mestre o disse_, equivalia a uma formula magica, que cortava completamente todas as disputas.

--Esta phrase que serve para exprimir o respeito que se professa por uma auctoridade, era d'algum modo a divisa de La-Fontaine, cuja veneração pelos antigos é muito conhecida.

--Um orador contemporaneo affirmou, nos rasgos da sua eloquencia, que o homem não dirá mais--_o mestre o disse_, porque o homem está emancipado do homem. Elle dirá agora:--_A verdade diz--A sciencia diz_.

XL

_O rei é morto, vive o rei!_

Este velho grito da monarchia, significava que a realeza nunca morria em França. Apenas o rei exhalava o ultimo suspiro, um arauto apparecia ao balcão do palacio e gritava tres vezes deante do povo reunido:

--«_O rei é morto, vive o rei!--Le roi est mort, vive le roi!_»

Mas era, sobretudo, na cerimonia funebre e quando o defuncto monarcha ia tomar o seu logar nas cryptas de S. Diniz, que estas palavras, pronunciadas no meio das pompas da religião, retumbavam d'uma maneira verdadeiramente solemne. Ouviram-se, pela ultima vez, em França, na morte de Luiz XVIII.

XLI

_O estado sou eu!_

No dia immediato ao da morte do cardeal Mazarino, Luiz XIV, então de vinte e dois annos, fez chamar os ministros que o cardeal lhe tinha deixado--Pedro Séguier, Miguel Lettellier, de Lionne e Fouquet, e declarou-lhes que seria elle proprio, de futuro, o seu primeiro ministro. Na mesma tarde o arcebispo de Ruão foi encontrar-se com elle e disse-lhe:

--«Vossa Magestade tinha-me ordenado que me dirigisse ao cardeal para todos os negocios; elle está morto, a quem devo dirigir-me agora?»

--«A mim, senhor arcebispo.»

O reino de Luiz o Grande estava começado.