Historia Pitoresca: Palavras e frases celebres
Part 2
Marco Porcio Catão, é, sobretudo, celebre pela austeridade dos seus costumes. Fez-se notar, desde o principio da sua vida publica, pela sua eloquencia mordente e aggressiva e pela sua opposição apaixonada ás ideias da Grecia, que começavam desde então a modificar o genio da Roma Antiga. Tão duro comsigo, como para os seus escravos, levantava-se antes da aurora, excitava os servos ao trabalho, punha-se nú como elles, para lavrar, comia o seu pão negro e bebia da sua agua avinagrada. Elevado á censura, pôde, emfim, trabalhar na realisação do seu sonho:--a restauração da antiga simplicidade romana. Fez regulamentos sumptuarios, contribuiu os objectos de luxo, os enfeites das mulheres, reprimiu as delapidações, e mostrou uma inflexivel severidade de costumes, a ponto de degradar um senador que tinha beijado a esposa em presença da filha. Amava-se a sua palavra, honrava-se o seu caracter; o povo applaudia este censor inexoravel que _mordia_ toda a gente. O sobrenome de _Censor_ ficou-lhe, e erigiram-lhe uma estatua com esta inscripção:--_A Catão, que corrigiu os costumes_.
A sua presença inspirava um tal respeito aos romanos, que, quando elle assistia ao espectaculo, o povo esperava que elle sahisse para pedir as farças e as danças licenciosas.
--Dizer que um homem é um _Catão_ é dizer que é severo e rigido no cumprimento do seu dever e nos seus costumes.
XI
_Cezar_
Caio Julio Cezar, consul romano, dictador e um dos maiores capitães da antiguidade, era sobrinho de Mario. Cresceu no meio das guerras civis e foi proscripto aos desoito annos, por Sylla, que viu n'elle _varios Marios_. A estatua d'Alexandre, o Grande, que elle viu, passando em Cadiz, fez-lhe derramar lagrimas de despeito, por vêr que na idade em que tinha morrido esse heroe, elle não tinha ainda realisado nada de notavel. Tinha uma ambição e uma actividade devoradoras e--«julgava não ter feito coisa alguma em quanto lhe restasse alguma coisa a fazer.»
O seu nome, como o de Alexandre, ficou como synonymo de grande guerreiro, de conquistador civilisador.
Vamos apontar por ordem chronologica, as differentes circumstancias da vida de Cezar, que originaram locuções proverbiaes.
_1.º--A mulher de Cezar nem mesmo deve ser suspeitada._
Clodio, joven patricio, ambicioso e desmoralisado, amava Pompeia, mulher de Cezar. Uma noite, quando as mulheres celebravam os mysterios da boa-deusa, interdictos aos homens, elle introduziu-se, disfarçado com trajes femininos, nos aposentos de Pompeia. Mas foi surprehendido por uma escrava, que não era confidente.--«No dia seguinte, diz Plutarco, toda a cidade soube que Clodio commettera um sacrilegio horrivel.»
Julgado, como profanador dos santos mysterios, corrompeu os juizes e foi absolvido. Cezar contentára-se em repudiar sua mulher. Chamado, porém, como testemunha, elle depoz que não tinha nenhum conhecimento dos factos que se imputavam ao accusado. Este depoimento pareceu muito estranho e o accusador perguntou-lhe porque havia então repudiado sua mulher. Elle respondeu:
--_É porque a mulher de Cezar nem mesmo deve ser suspeitada._
_2.º--Gostaria mais de ser o primeiro n'uma aldeia, que o segundo em Roma._
Todos os actos, todas as palavras de Cezar, antes do seu advento ao poder, revelam o seu caracter e a natureza da sua ambição. Depois da sua pretura, tendo-o a sorte designado para o governo da Hespanha ulterior, elle partiu para a sua provincia. Quando atravessava uma pobre aldeia, perdida no fundo dos Alpes, alguns dos seus amigos perguntaram-lhe, gracejando, se a ambição do poder e o desejo das dignidades occasionavam tambem debates n'essa miseravel terra.
--«Não riam--respondeu o futuro dictador--_eu gostaria mais de ser o primeiro n'esta aldeia, que o segundo em Roma_.»
_3.º--Passar o Rubicão._
Cezar vinha de concluir a conquista dos gaulezes, e tinha encontrado n'essas regiões thesouros bastantes para tudo comprar em Roma, onde tudo se tornára venal. Os seus successos, o seu poder, mais ainda que os seus conhecidos projectos, despertaram, emfim, a desconfiança de Pompeu, que começava a receiar ver-se o logro d'aquelle de que elle se tinha imaginado ser o protector. Desde então, poz tudo em acção para obter do senado um decreto que ordenava a Cezar o abandono do seu exercito e a resignação do commando. Este respondeu que estava prompto a obedecer, com a condição de que Pompeu entraria, pelo seu lado, na vida civil. Desde este momento, a guerra estava declarada. O senado encarregou os consules de proverem a segurança publica, e Cezar fez avançar o seu exercito para o Rubicão. Era uma pequena ribeira, que separava a Italia da Gallia cisalpina. O senado para assegurar Roma contra as tropas da Gallia, tinha, por um senatus-consulto celebre, declarado traidor á patria e dedicado aos deuses infernaes, todo aquelle que, com uma legião ou uma cohorte, passasse aquella ribeira. Prevenido na margem opposta, Cezar, dominado pelo perigo da resolução audaciosa que ia tomar, hesitou alguns instantes.
«Tinham-se visto revoluções d'imperios, diz Lacordaire, thronos mudando de senhores, e fôra isso, n'esse jogo de passageiras fortunas, o que tinha illuminado o genio dos maiores d'entre os homens. Cezar, no Rubicão, parára pensativo; a mão no peito e o olhar além do regato, elle se dissera:--«Eu, Cezar, faço uma coisa que nenhum romano fez ainda: desobedeço ao senado romano. Passando este ribeiro, faço um imperio d'uma republica, senhora do mundo: passemol-o.»
--«Vamos, pois, exclamou Cezar, como se cedesse á obsessão da sua fortuna; vamos aonde nos chamam as vozes dos deveres e a iniquidade dos nossos inimigos. _Alea jacta est!_--a sorte está lançada!»
Palavra irrevogavel, pronunciada depois por todos os homens que, não encontrando fundo no seu pensamento, e obrigados a escolherem entre dois perigos supremos, tomam resolução no seu caracter, não podendo tomal-a em outra parte, e se lançam a nado no Rubicão do acaso, para morrerem ou para se salvarem pela sorte.
_4.º--Levas Cezar e a sua fortuna._
Pompeu, desesperando de defender a Italia com a approximação de Cezar, deixou Roma acompanhado d'um grande numero de senadores, magistrados e cidadãos e passou á Grecia, onde levantou um exercito. Cezar seguiu-o. Tendo desembarcado á frente de cinco legiões, soube que a frota que lhe levava viveres e reforços foi batida e dispersa pela de Pompeu. Na critica circumstancia em que se achava toma a resolução d'ir ao encontro d'Antonio, que devia soccorrel-o, e embarca elle só n'um barco de pescador. Durante a travessia levanta-se uma tempestade e ameaça submergir a fragil embarcação. O piloto espantado quer volver ao posto. É então que o heroe lhe diz essa famosa phrase, contada por Plutarco:
--«Que receias? _levas Cezar e a sua fortuna!_»
E alguns dias depois humilhava o seu rival nos campos da Pharsalia.
_5.º--Soldado, fere no rosto!_
Antes da batalha de Pharsalia, Cezar, no meio d'uma região dedicada ao seu rival, estava n'uma situação muito critica. Pompeu, cujo exercito estava bem munido e fornecido pela sua frota, resolvera reduzir á fome o seu inimigo. A perda de Cezar parecia certa, quando Pompeu, cedendo á impaciencia dos seus soldados, travou peleja com os velhos legionarios das Gallias, que bem podiam ser destruidos pela fome, mas que não podiam deixar-se vencer.--«Soldado, fere no rosto!» tinha gritado Cezar aos seus veteranos, vendo os brilhantes cavalleiros do exercito de Pompeu. Estes jovens patricios, espantados, pozeram-se em fuga para não serem desfigurados pelas lanças dos legionarios, e Cezar ficou senhor do campo de batalha.
A implacavel phrase de Cezar não encontra applicação alguma em circumstancias analogas, e emprega-se a respeito d'um adversario de que se quer tocar a fibra sensivel, que se deseja ferir á falta de couraça.
_6.º--Cheguei, vi e venci._
Apoz a morte de Pompeu e a conquista do Egypto, e em quanto Cezar se engolfava no seio dos prazeres que lhe offerecia Cleopetra, o partido de Pompeu, mais disperso que destruido, erguia-se por toda a parte. Pharnacio, rei do Ponto, aproveitára a guerra civil para tentar reunir na Asia as antigas possessões de seu pae. Despertado pelo perigo, Cezar corre ao Bosphoro, esmaga o filho de Mithridates e termina essa guerra com uma tal rapidez, que pôde contal-a inteira n'estas tres palavras celebres, que elle dirigiu ao senado:
--_Veni, vidi, vici; cheguei, vi, venci!_
--Faz-se uso da phrase para exprimir a facilidade, a promptidão com que se executa uma empreza.
Lembra-nos a proposito o seguinte caso analogo. Depois da sua victoria sobre os turcos, Sobieski enviou ao Papa o estandarte de Mahomet, com estas palavras de Cezar a que deu um caracter de modestia christã:--«_Cheguei, vi e Deus venceu!_»
_7.º--Idos de Março._
Cezar entrára em Roma, senhor do mundo inteiro. O senado conferiu-lhe honras extraordinarias e revestiu-o d'uma illimitada auctoridade. Foi nomeado consul por dez annos e dictador perpetuo; deram-lhe o nome de _imperador_, o titulo de _Pae da Patria_ e erigiram-lhe uma estatua com esta inscripção:--_Ao deus invencivel!_ A sua pessoa foi declarada inviolavel. Concederam-lhe o privilegio de assistir ao espectaculo n'uma cadeira dourada, com uma corôa na cabeça. Elle meditava projectos immensos; queria engrandecer Roma, ornamental-a de monumentos magnificos, fazer d'ella a rainha do Universo. Mas não lhe estava reservado o cumprimento de tão vastos designios. Debalde se exforçára por apagar todos os traços da guerra civil, debalde tinha cumulado de favores e elevado aos primeiros cargos os que o tinham combatido, debalde tinha erguido estatuas ao seu rival, porque nada podia desarmar os partidarios da antiga liberdade.
A sua clemencia parecia insultante; viu-se que não perdoava, mas que desdenhava punir. Afinal uma formidavel conjuração se tramou contra a sua vida. A conspiração devia explosir no meio do senado, e fôra fixada para os _idos de Março_. O caso transpirou no publico, mas Cezar recusou tomar qualquer precaução. Calpurnia, sua mulher, estava tão persuadida da realidade do perigo, que o conjurou, com as mais vivas instancias, a não sahir n'esse dia.
Conta Plutarco, que muito tempo antes, um adivinho tinha advertido o dictador de que devia desconfiar dos _idos de Março_. Quando sahia de casa para o senado, encontrou o adivinho e disse-lhe, rindo: «--Chegamos aos idos de Março.»--«É verdade--respondeu--mas ainda não passaram.»
Alguns passos adeante um homem entregou-lhe um bilhete que continha todas as particularidades da conspiração:--«Lêde--disse--e rapidamente!» Mas Cezar não teve tempo e entrou para o senado.
--Os _idos de Março_ designam, por analogia, uma epocha perigosa de passar, e para a qual se fizeram incommodativos prognosticos.
_8.º--E tu tambem, meu filho!_
Apenas Cezar tinha entrado no senado, todos os conjurados o rodearam como para lhe prestarem honra. Cimber, um d'elles, apresentou-se, afim de lhe pedir o chamamento de seu irmão exilado, e como para lhe pedir com mais submissão, tomou-lhe a fimbria da toga e puxou-a com violencia. Era o signal combinado. Casca, tirando o seu punhal, feriu com elle o dictador no hombro. Cezar, no mesmo instante toma a arma do assassino e precipita-se sobre elle gritando:--«Que fazes, scelerado Casca?» Então todos os conspiradores desembainharam as suas espadas e lhe vibraram varios golpes. Cassio, mais animado que os outros, fez-lhe uma profunda brecha na cabeça; Cezar defendia-se ainda, quando avistando Bruto, com o punhal erguido sobre elle, exclamou:--«E tu tambem, meu filho Bruto!» Ao mesmo tempo cobriu o rosto com o vestido e cahiu atravessado com vinte e tres golpes, aos pés da estatua de Pompeu.
_9.º--A tunica de Cezar._
O cadaver de Cezar abandonado no senado foi conduzido, todo cheio de sangue a sua casa por tres escravos. Alguns dias depois, Antonio appareceu na tribuna das harengas e leu á multidão o testamento do dictador. O povo, que elle não tinha esquecido nas suas generosidades fez explosir a sua indignação. Então, Antonio, desdobrando do alto da tribuna a tunica de Cezar, ensanguentada e crivada de golpes, tratou de parricidas os auctores d'aquelle assassinio. Esta scena levou ao cumulo a exasperação popular. E todos os assistentes fazendo logo uma fogueira com as mezas e os bancos que encontraram á mão, n'ella queimaram o corpo de Cezar; depois, tomando tições correram a casa dos assassinos para lhes lançarem fogo, e os atacarem a elles proprios.
XII
_Estava escripto_
Esta resignação perante os duvidosos decretos do destino é o fundo da doutrina religiosa da maior parte dos povos orientaes. É uma especie de _fatum_ antigo, um pallido reflexo d'esse caracter poetico, quasi grandioso, que o fatalismo--mistura de sensibilidade profunda e sombria resignação--revestira entre os antigos.
Os differentes systemas phrenologicos parecem não ter por fim senão o darem razão physica d'estes factos moraes.
A litteratura philosophica do seculo XVIII legou-nos duas obras muito conhecidas, apesar de francezas, sobre a fatalidade: _Zadig_, conto de Voltaire, e _Thiago o fatalista_, romance de Diderot.
XIII
_Conhece-te a ti proprio_
Estas famosas palavras estavam gravadas sobre o frontão do templo de Delphos. Era a maxima favorita de Socrates; elle adoptou-a, explicou-a e tornou-a celebre para sempre. Toda a lei moral reside n'estas palavras, como toda a lei religiosa está encerrada n'estas admiraveis palavras de Christo:--«Ama o proximo como a ti mesmo.»
Seneca, o tragico, desenvolveu esta bella maxima nos seguintes versos que traduzimos assim:
«O homem é infeliz no instante em que fenece; Quando tendo esquecido o ponto necessario, Morre mui conhecido e a si se não conhece.»
XIV
_As joias de Cornelia_
Cornelia, mãe dos Grachos, era filha de Scipião, o Africano, e mulher de Sempronio Gracho, que se illustrou nas guerras de Hespanha. Enviuvando, com doze filhos, consagrou-se inteiramente á sua educação, e recusou até, dizem, a mão de Ptolomeu, rei do Egypto. D'esta numerosa prole conservou apenas uma filha, que foi casada com Scipião Emiliano, e dois filhos, Tiberio e Caio Gracho, este sempre famoso pelo seu genio, pela sua coragem e pelo seu tragico destino. Mulher d'um caracter viril e d'um espirito cultivado, ella educou-os com o maior esmero, e inspirou-lhes cedo o amor publico, a paixão da gloria e das grandes emprezas, pedindo-lhes, por vezes, que a chamassem sempre a filha de Scipião e nunca a mãe dos Grachos.
Conta-se que uma dama da Campania estendendo, um dia, deante d'ella as suas joias e os seus preciosos adornos, e pedindo-lhe para que ella lhe mostrasse as suas, Cornelia lhe apresentou os filhos, dizendo:
--«Eis as minhas joias e os meus adornos».
XV
_Cresus_
Cresus, rei da Lydia, submetteu a maior parte das cidades da Asia Menor, e levou as suas conquistas até ao rio Halys. A fama do seu poder e das suas riquezas, constantemente renovadas pelas areias auriferas do Pactolo, tornou proverbial o nome de Cresus, para designar um homem cumulado dos bens da fortuna. Elle perguntou um dia a Solon, que fôra visitar a sua côrte, se conhecia um homem mais feliz do que elle. O philosopho respondeu-lhe que nenhum homem póde ser saudado com o nome de feliz antes da sua morte. Cresus não tardou a experimentar os effeitos d'esta triste verdade. Um de seus filhos foi morto na caça, o outro tornou-se mudo, e elle proprio, depois de ter visto os seus Estados invadidos por Cyro, foi vencido na celebre batalha de Thimbreia e cahiu nas mãos do vencedor, que ordenou a sua morte. Quando o conduziam ao supplicio, vieram-lhe á memoria as palavras de Solon, e elle pronunciou tres vezes, suspirando, o nome do legislador atheniense. Instruido da causa d'esta exclamação, Cyro, commovido de piedade e tocado d'aquelle exemplo das vicissitudes humanas, perdoou a Cresus e admittiu-o no numero dos seus conselheiros.
Esta bella legenda philosophica da vida de um homem, que foi successivamente, e d'um modo tão frisante, o favorito e o joguete da fortuna, é narrada por Herodoto, mas Xenophonte não falla d'ella.
--O nome de _Cresus_ passou a designar um homem opulento, coberto de todos os favores da fortuna.
XVI
_Dôr, tu não és um mal_
O stoicismo, fundado por Zenon, fórma uma das mais illustres philosophias da antiguidade. Simples no seu principio e nas suas deducções, frisante pelo seu caracter heroico e paradoxal, de tal modo se fez conhecer, ao menos, pelos traços mais salientes da sua moral, que os nomes de _stoicismo_ e _stoico_, entraram na applicação usual da lingua, como expressão d'uma grande impassibilidade. Os stoicos faziam consistir a virtude e a ventura na posse d'uma alma egualmente insensivel á voluptuosidade e á dôr, liberta de todas as paixões, superior a todos os receios, a todas as fraquezas. Admittindo como mal apenas o vicio, como bem sómente a virtude, e considerando o resto como indifferente, elles negavam que a dôr fosse um mal. Zenon, seu illustre chefe, foi o primeiro que proclamou a lei do _dever_ e que d'ella lançou os fundamentos com uma abundancia de provas que tinha a sua origem n'uma profunda convicção, independentemente de toda a argumentação dialectica. As paixões não são elementos necessarios da nossa condição; são doenças da alma: a saude, a _apathia_, a ausencia das paixões. Foi por causa d'esta severidade d'opiniões moraes, pelo menos entre os primeiros stoicos, que se deu, em geral, o nome de stoicismo a toda a opinião severa em moral.
Esta doutrina, que se allia perfeitamente com todas as grandes virtudes, e que tendia a fazel-as nascer, logrou grande credito entre os romanos, apesar da sua pequena inclinação pela philosophia; adoptaram-na com enthusiasmo, porque se concertava admiravelmente com a sua energia intellectual e a sua severidade. Notou-se, em honra da seita dos stoicos, que os personagens mais virtuosos de Roma a tinham adoptado:--Bruto, Catão d'Utica, Thrasêas, Seneca, Tacito, Epictecto, Antonino e Marco Aurelio. A moral ficou como gloria dos stoicos, e tirando-lhe o que encerra de paradoxal e exaggerado, ella assegura-lhes o primeiro logar entre os percursores mais puros e mais directos do christianismo.
A divisa principal dos stoicos era:--«_Soffre e abstem-te!_»
Conta-se que um discipulo de Zenon, exclamava no meio dos maiores soffrimentos causados pela gôtta:
--«_Dôr, tu não és um mal!_»
Havia, por sem duvida, ostentação n'estes principios da doutrina do stoicismo, mas nem por isso ella deixou de produzir as virtudes mais heroicas.
XVII
_Egéria_
Numa Pompilio, legislador e segundo rei de Roma, nasceu em Ceres, no paiz dos sabinos. A tradição pinta-o como um principe pacifico e cheio de sabedoria. Nem uma guerra perturbou o seu reino, consagrado inteiramente á legislação e ás instituições religiosas. Elle creou e organisou, entre outras coisas, as vestaes, os pontifices, e construiu templos e instituiu festas.
Como todos os legisladores da antiguidade, usou d'artificio para assegurar o respeito das suas instituições, e persuadiu aos romanos que recebia inspirações da nympha Egéria, só visivel para elle no fundo d'um bosque sagrado.
Vê-se ainda hoje, perto de Roma, n'um valle delicioso, o resto da fonte Egéria, entre a via Latina e a via Appia. Antigos monumentos representam esta nympha n'um costume analogo ao das sybillas, de tunica fluctuante, pés nús, cabellos soltos, e traçando caracteres n'um livro posto sobre os joelhos.
--Hoje o nome de Egéria dá-se familiarmente, sobretudo, a uma mulher de que se tomam os conselhos, de que se segue a opinião, principalmente para a direcção de negocios politicos.
XVIII
_Mais uma victoria como esta e estamos perdidos_
Pyrrho, sobrinho d'Olympias, era o principe mais valente, mais aventureiro de quantos se habilitaram á herança d'Alexandre. Passou a vida a conquistar e a perder corôas. Não podia permanecer tranquillo no Epiro, julgando que não fazendo mal nem havendo quem lh'o fizesse, não tinha em que passar o tempo. Assim, o successo faltou sempre aos designios d'essa creança animada da fortuna, que viveu e morreu, menos como rei que como aventureiro. A sua brilhante reputação militar, fel-o chamar pelos tarentinos, então em guerra com os romanos. A imaginação exaltada representa-lhe já a Italia conquistada, depois a Sicilia e Carthago, e parte cheio de alegria para Tarento, cidade de prazeres, que elle transforma n'um campo, e os seus habitantes afeminados em soldados. Ganhou primeiro, graças aos seus elephantes, a batalha de Heraclêa, em que os romanos perderam quinze mil homens e elle treze mil. Venceu ainda em Asculo, em que o triumpho não foi comprado menos caro. Depois d'esta sangrenta batalha foi que elle respondeu aos que o felicitavam:--«Mais uma victoria como esta e estamos perdidos!»
Pyrrho, afinal, deixou a Italia, e encontrou a morte nas ruas de Argos, aonde uma velha o matou, atirando-lhe de cima do telhado uma pesada telha.
XIX
_Espada de Damocles_
Damocles, um dos cortezãos de Denys, o Antigo, fazia-se notar pela emphase das suas adulações, e não cessava de elogiar a ventura de seu senhor. O tyranno resolveu inicial-o nos prazeres da grandeza, por meio d'uma allegoria espiritual que faria honra a um califa oriental. Convidou-o a tomar o seu logar durante um dia, e deu ordens para que Damocles fosse tratado como rei, e lhe servissem um banquete sumptuoso. O cortezão tomou logar n'um leito d'honra; tem a fronte cingida do diadema; as iguarias mais exquisitas cobrem a meza. Damocles está rodeado d'escravos, attentos aos seus minimos signaes; deliciosos perfumes fumegam em torno a si, e a mais adoravel musica lhe encanta o ouvido; as cortezãs adulam-no, e poetas cantam em seu louvor. Embriaga-se em ventura, quando, de subito, levantando os olhos, vê suspensa, por cima de sua cabeça, uma espada apenas preza pela crina d'um cavallo. Pallido e tremulo, deixa escapar a taça das mãos, levanta-se desnorteado e pede a Denys para pôr termo á sua realeza. Tinha comprehendido o que é a ventura d'um tyranno.
--De todos os factos historicos que deixaram traço nas linguas, a _espada de Damocles_ é o mais conhecido, poderemos até dizer o mais vulgar. É o perigo temido ou previsto, que póde ferir um homem no meio d'uma apparente prosperidade.
Um escriptor contemporaneo disse:--«A abobada dos céus é para o criminoso a sala do festim de Damocles, d'onde pendia uma espada sobre sua cabeça».
E Alfredo de Musset, nas _Confissões d'um Filho do Seculo_, tambem:--«Conta-se que Damocles viu uma espada sobre a sua cabeça; é assim que os libertinos parecem ter por cima d'elles um não sei quê, que lhes grita constantemente:--Vai, vai sempre, estou por um fio!»
XX
_O prato de lentilhas_
Esaú, o primogenito, era um grande caçador; Jacob, pelo contrario, era um homem simples, vivendo em casa, occupado unicamente em trabalhos domesticos. A doçura do seu caracter tornava-o mais agradavel a sua mãe que Esaú, que tinha attrahido a affeição particular de seu pae Isaac. Um dia, em que Esaú voltava do campo, cheio de fadiga e oppresso pela fome, pediu a Jacob que o deixasse comer d'um _prato de lentilhas_ que este tinha preparado. Jacob consentiu, com a condição de que Esaú lhe cederia o seu direito de primogenito. Mais tarde, Jacob, recorrendo ao estratagema e auxiliado por sua mãe, surprehendeu a Isaac, moribundo e cego, a sua benção, que o fazia chefe da familia de onde devia sahir o Christo. Esaú concebeu uma violenta cólera, e Jacob, para se subtrahir ao seu resentimento retirou-se para casa de Labão, seu tio.
--Diz-se _prato de lentilhas_, a insignificancia relativa, pela qual se cede uma coisa realmente muito valiosa, especialmente moral.
XXI
_E eu tambem sou pintor!_