Historia de um beijo

Part 2

Chapter 23,864 wordsPublic domain

--A vida dos feridos, continuou Ernesto, quando caíam banhados de sangue na arena, ficavam sempre á disposição dos espectadores. O vencedor collocava a ponta da espada no peito do vencido e esperava que o publico lhe dissesse; «Mata» ou «Perdôa». Outras vezes o ferido arremessava as armas e caía ao pé das grades a implorar clemencia. Se os espectadores levantavam o dedo pollegar, concedia-se-lhe a vida; mas se o viravam para baixo, então o ferido apresentava o peito ao seu adversario para que o acabasse de matar.

--Mas perdoavam sempre? disse D. Ventura.

--Algumas vezes. Durante o reinado do infame Caracalla nem uma só vez se concedeu o indulto aos gladiadores vencidos. O povo romano de então, era tão feroz como sanguinario, e só gozava com a agonia dos seus similhantes, pois, como disse o grande poeta inglez Lord Byron, ácêrca dos costumes do povo, assim apparecem singelas e naturaes as cousas mais horriveis e sangrentas.

D. Ventura escutava em silencio o narrador, que lhe contava com a precisão de um bom livro, todas as horriveis scenas que tiveram logar no Colyseu.

Algumas vezes Amparo, para caminhar com mais segurança por aquellas sumptuosas ruinas, dava a mão a Ernesto. Aquellas duas mãos apertavam-se docemente, transmittindo um suave estremecimento.

D. Ventura era um homem de bem, mas um homem todo prosa; e aquillo tudo, apezar do luar e das descripções historicas de Ernesto, parecia-lhe um montão de ruinas, uma toca de lagartos.

Comtudo, para não ser _desmancha-prazeres_, dizia de quando em quando:

--Soberbo! Magnifico!

Á meia-noite regressaram ao hotel.

Quando Ernesto se despediu, Amparo disse-lhe, apertando-lhe a mão e dirigindo-lhe um olhar cheio de doce esperança:

--Passei uma noite deliciosa. Estou certa de que sempre me lembrarei do Colyseu de Roma.

Para Ernesto aquella despedida foi uma promessa irmã da esperança, essa bella flôr que perfuma a alma.

CAPITULO III

Sonhos côr-de-rosa

Ernesto teve aquella noite um sonho côr-de-rosa, porque a bella Amparo foi o anjo do seu sonho.

Os homens de genio e sobretudo os pintores, quando pensam no amor, antes de amar, criam um typo perfeito como todas as sublimes creações da imaginação; uma d'essas mulheres de extraordinaria belleza cheia de luz, sem um _senão_ no moral, sem um defeito no physico, perfeita de corpo e d'alma: mas quando chega o momento de, ou cançados do celibato, ou para pagar esse tributo de que poucos se salvam, chamado matrimonio, se decidem a casar, então já é outra cousa, pois muitas, mesmo muitissimas vezes a poesia se incarna na prosa, e depois... Satanaz toma parte activa na symphonia do matrimonio.

O amor é cego, e os homens e as mulheres devem resignar-se a não vêr bem, precisamente quando deviam ter olhos de lynce.

Ernesto levantou-se alegre e cantando a symphonia de _Guilherme Tell_; e pensando em Amparo pegou na paleta e poz-se a pintar no seu quadro.

A filha do D. Ventura tinha-se photographado d'uma maneira tão profunda na sua imaginação, que o pintor achou sem saber como que uma das figuras do seu quadro tinha grandes parecenças com Amparo. Admirou-se, mas agradou-lhe ao mesmo tempo.

Ás dez horas largou a paleta, almoçou, e pegando n'uma folha de papel, poz-se a pintar uma aguarella do Colyseu visto á luz do luar.

--Isto será uma recordação dedicada a Amparo, disse elle. Dir-lhe-hei que a colloque no seu gabinete para que nunca se esqueça da noite que representa.

Ernesto esmerou-se marcando com arte e delicadeza todos os detalhes da aguarella. Collocou n'um ponto conveniente um pintor tirando o _croquis_ do Colyseu, e ao seu lado um cavalheiro e uma joven.

Apezar das figuras terem apenas duas pollegadas, o pintor tinha o maximo empenho em que ficassem parecidas com os originaes que representavam. A empreza era difficil; mas por fim, apoz algum trabalho, conseguiu o que desejava.

Satisfeito com a sua obra e com a alegria do homem que sente na alma os primeiros perfumes do amor e julga causar uma surpresa agradavel á provocadora dos seus sonhos, ao cair da tarde dirigiu-se para Roma.

D. Ventura e a filha estavam tomando café. Tinham acabado de jantar.

--Chega a proposito, disse D. Ventura.

--Dou-me por feliz, respondeu Ernesto, cumprimentando a joven.

--Sente-se e tome café comnosco.

--Primeiro que tudo, desejo saber em que consiste a opportunidade da minha chegada.

--Aborreciamo-nos, disse Amparo, Roma é uma cidade morta; nem sequer tem theatros.

--Diz muito bem. Roma é um cadaver que todos os annos ressuscita pelo Carnaval, e vive um mez commettendo as mais excentricas loucuras; depois torna a cahir na soledade da tumba, até ao anno seguinte.

--Quer dizer que errámos a epocha da nossa viagem, disse D. Ventura.

--Justamente. Mas se a sr.ª D. Amparo quizer ir ao theatro, temos actualmente um aberto.

--Qual?

--O do Tiano.

--Dizem que não é bonito.

--Sim, mas em compensação representam admiravelmente.

--Sabe, senhor Ernesto, que esta noite tive uma ideia? disse Amparo, cerrando docemente as palpebras para conservar a luz dos seus formosos olhos fixos no pintor.

--Estou crente, de que foi uma ideia sublime.

--Vaes ouvir, papá; o senhor Ernesto já disse que a minha ideia era sublime; agora só necessito que o papá a ache tambem.

--Olha que os artistas são muito aduladores; não te fies n'elles. Mas vamos, dize qual é a tua ideia.

--Resume-se em deixarmos Roma e irmos passar um mez em Florença; mas com uma condição: que o senhor Ernesto nos acompanhe como nosso _cicerone_.

--Essa exigencia é uma loucura, filha da pouca experiencia propria da tua edade, disse D. Ventura. Ernesto está pintando um quadro que tem de mandar para a proxima exposição de Madrid, em setembro.

--Sim, o senhor Ernesto tem o quadro muito adeantado e d'aqui até setembro vão ainda quatro mezes, disse rapidamente Amparo, dirigindo ao pintor um olhar supplicante para que elle annuisse.

--Acceito sem vacillar, disse Ernesto, e dou as minhas razões. Preciso só de um mez para concluir o meu quadro. E antes de voltar a Hespanha tinha necessidade de ir a Florença para tirar uns croquis da _Venus de Médicis_, do _Grupo de Niobe_ e de alguns quadros da escola flammenga que existem no celebre palacio de Pitti. Quero tambem tirar alguns _croquis_ da _cathedral de Santa Maria de Fiore_, d'essa memoravel architectura da qual Miguel Angelo, disse ser impossivel fazer outra mais bella, pois era digna de servir de frontespicio ao Paraiso, e que o imperador Carlos V devia pôl-a n'um estojo para melhor a conservar. Assim pois, tudo se resume em adeantar dois mezes a minha viagem a Florença. Quando partirem para Hespanha, eu regressarei a Roma para terminar o meu quadro, e prometto que o verão collocado n'um dos salões da Exposição no dia 20 de setembro.

Amparo applaudiu, como uma creança que manifesta sem reserva a sua alegria. A viagem projectada por ella era encantadora. Grande foi o seu contentamento vendo que era acceite o seu plano, porque nada é tão grato ao coração de uma mulher joven, como realisar um dos seus sonhos côr-de-rosa que de vez em quando lhe acariciam a alma.

Na noite anterior deitara-se, pensando no seu poetico passeio ao Colyseu. Como o somno se mostrasse rebelde, recapitulou na memoria até as mais pequeninas cousas acontecidas nas celebres ruinas.

Os olhares de Ernesto, os suaves apertos de mão, a lua que banhava, poetisando, as pardas e as derrubadas galerias do Colyseu, as descripções historicas que com doce e carinhoso accento narrava Ernesto, tudo isto formava um conjuncto agradavel ao coração de Amparo.

Amava Ernesto? Nem ella mesmo sabia que responder a esta pergunta que fez pelo silencio da noite.

O pintor era novo, elegante, bem parecido, com uma educação pouco vulgar, e pelo menos era-lhe sympathico.

Como ha sempre algum egoismo no coração da mulher, Amparo pensou que continuar a sua viagem pela Italia acompanhada de Ernesto tinha muito mais encanto, era mais divertido do que viajar sósinha com o pae.

Amparo não pensou senão em si. Com algum conhecimento mais profundo da vida material dos artistas, isto é, a prosa do talento, teria pensado que talvez Ernesto não se encontrasse em condições de emprehender uma viagem em carruagem de primeira classe, e installar-se n'um hotel de luxo.

É bem certo que Amparo ignorava o valor do dinheiro: gastava o do pae, que era rico, sem se preoccupar com o valor que tem um duro[1] para quem não possue vinte reales.

Por outro lado Ernesto, um verdadeiro artista, sonhava que era um principe e julgava os seus sonhos uma realidade... Era mais ambicioso de gloria do que de ouro.

Quando acceitou a projectada viagem por Amparo, sem pensar se o dinheiro que possuia por sua unica fortuna chegaria para occorrer a todas as despezas, só pensou na felicidade de viajar com aquella mulher formosa, por uma terra encantadora, cujo céu azul e o perfume das brisas são o orgulho das filhas de Toscana, a admiração dos estrangeiros.

Combinada a partida para quatro dias depois, Ernesto apresentou a aguarella do Colyseu, que arrancou um grito de admiração e muitos olhares de agradecimento a Amparo.

O pintor regressou a casa já bastante tarde, tão alegre, tão feliz, que não teria trocado a sua existencia por cousa alguma d'este mundo.

A felicidade está ás vezes em tão pequenas cousas!... O pobre artista julgava-se amado, e começava a amar com toda a sua alma virgem e apaixonada.

Quando chegou a casa, pegou n'uma folha de papel para fazer o orçamento das suas despezas.

--Necessito, disse elle, de quatro mil reales para a viagem. Vejamos como estou a respeito de fundos.

Ernesto só tinha seiscentos. Era-lhe preciso arranjar dinheiro.

Procurou na memoria os nomes de alguns amigos pintores que como elle viviam em Roma, mas um sorriso lhe assomou aos labios.

--Todos elles, disse, são tão pobres ou mais do que eu; não devo expôr-me a uma negativa forçada, que é tão desagradavel a quem a dá como a quem a recebe. Melhor será sacrificar alguns dos meus quadros. O senhor Daniel é um judeu, menos judeu que os dez mil que pelo interesse do commercio o papá consente em Roma. Escrever-lhe-hei.

E pegando na penna escreveu:

_Senhor Daniel Raithany_

«Meu bom amigo

«Vou emprehender uma viagem a Florença e preciso vender alguns quadros. Tenha, pois, a bondade de vir hoje ao meu _atelier_, onde o espero até ás quatro horas da tarde.

Seu amigo,

_Ernesto Alvarez_.»

O pintor chamou o creado e disse-lhe:

--Amanha, quando te levantares, vaes a Roma entregar esta carta ao sr. Daniel, negociante de quadros. Mora no bairro dos judeus; já o conheces.

Depois deitou-se para sonhar com Florença e Amparo.

Ernesto achava-se na ditosa edade dos sonhos côr-de-rosa, e viu durante algumas horas passar pelos olhos da sua illusão um panorama encantador onde a flôr mais perfumada, mais bella, mais resplandecente, era Amparo que, olhando-o com languidez, lhe dizia uma e mil vezes mais: «amo-te! amo-te! amo-te!»

E para que desperta um homem d'estes sonhos encantadores?

CAPITULO IV

O pintor e o judeu

Daniel Raithany era um dos maiores negociantes do bairro judaico. Tinha em toda a Europa fama de intelligente e honrado, apezar de ninguem ignorar que vendia caro e comprava barato. Esta qualidade era descupavel, tratando-se de um negociante judeu; mas, em compensação, tinha uma grande qualidade, que era que quando um admirador de pintura, ainda que de Londres, Paris, Vienna, S. Petersburgo, Madrid ou de qualquer das grandes capitaes da Europa necessitava para a sua galeria um quadro d'este ou d'aquelle auctor celebre, escrevia-lhe uma carta, e não olhando a preço tinha o que desejava.

Nunca enganava ninguem, dando uma copia por original. Daniel era intelligente, e apezar de não saber pintura, tão conhecedor era das escolas que mais de uma vez, em casos duvidosos, o chamavam como períto.

Todos os pintores eram amigos de Daniel e era tão difficil enganal-o vendendo-lhe gato por lebre, como vulgarmente se diz, que ninguem tentava fazel-o.

Dizia-se que o negociante conseguira juntar muitos milhões. Comtudo a sua loja apresentava sempre o mesmo aspecto modesto, e a sua pessoa conservava a mesma linha; isto é, usava constantemente uma sobrecasaca verde com grandes abas, calças e collete preto, uma gravata de velludo, um chapéu usado, um chapéu de chuva velho debaixo do braço e uma cadeia d'aço, em cuja extremidade estava preso um modesto relogio de prata.

Daniel era um homem alto, magro e pallido, nariz arqueado, cabello grisalho, olhos verdes, pequenos o encovados; um d'esses typos vulgares, mas em quem, olhados com attenção, se encontra bondade e doçura no semblante.

Ernesto estava pintando. Eram dez horas da manhã quando viu entrar no _atelier_ o judeu.

Daniel entrou como sempre, sorrindo-se, com o chapéu de chuva debaixo do braço, e a caixa do rapé que nunca abandonava, na mão esquerda.

--Bons dias, millionario, disse Ernesto, extendendo-lhe a mão. Muito agradecido pela sua pontualidade.

--Em questão de dinheiro, respondeu Daniel, é preciso sermos pontuaes, e aproveitarmos o tempo. Por um minuto se póde perder um bom negocio.

--Pelo que se vê o senhor é negociante até á medulla dos ossos. Mas vamos falar do nosso.

O pintor deixou a paleta e os pinceis, indicou-lhe uma cadeira e sentou-se n'outra.

--Preciso dinheiro.

--Já o suppunha.

--Por isso lhe pedi que me viesse visitar.

--E eu, conhecendo a impaciencia dos artistas, apressei-me em vir.

--Agradecendo-lhe pela segunda vez, começarei por lhe dizer que dentro de tres dias parto para Florença.

--Uma viagem de recreio.

--De recreio e estudo. Tenciono tirar alguns _croquis_ da celebre galeria do palacio de Pitti.

--Bello pensamento!

--E como para ir a Florença é preciso dinheiro e como eu não o tenho, ou melhor, tenho pouco, quero que me compre alguns quadros. Póde escolher, exceptuando o que está no cavallete, pois esse é, como sabe, para a Exposição de Madrid, e póde dizer-se que me não pertence.

Daniel guardou silencio, levantou-se, poz os oculos e começou a passar revista aos quadros, e estudos que estavam nas paredes.

Ernesto entretanto accendeu um charuto e recostou preguiçosamente a cabeça no espaldar da cadeira.

Mais de tres quartos de hora durou a revista passada ás telas por Daniel. Quando estava perfeitamente inteirado, tirou os oculos, com todo o seu vagar, guardou-os no bolso, e, sentando-se, disse:

--Tem seis quadros de comestiveis, quatro pequenos de costumes hespanhoes, e dois de flôres. Fico com os doze, pois tenho probabilidade de os vender a um inglez que me encarregou de comprar alguma cousa n'este genero, e dou por elles quatrocentos duros.

--É pouco dinheiro.

Daniel encolheu os hombros.

--Não dou mais, respondeu; é impossivel.

--Dou-lh'os por doze mil reales e creia que ainda ganhará uns duzentos por cento.

--N'estes tempos não é possivel. Desde que a photographia póde offerecer o _fac-simile_ de uma obra-prima por um franco, a pintura perdeu muito.

--Senhor Daniel, concedo-lhe o direito de regatear o preço de um quadro, de dizer que é mau sendo bom, mas não lhe consinto que ponha a photographia a par da pintura. Poderá ter-se uma copia do Ticiano estampada em um boccado de papel por dois reales, mas não se terá Ticiano, nem pela photographia se poderá nunca formar uma ideia, ainda que vaga, do que vale o citado auctor.

Daniel fez um gesto de indifferença, o ajuntou:

--Sabe que tenho em muita consideração os seus trabalhos, e que se não estivesse tão occupado, o encarregaria de algumas copias, e isso deve inspirar-lhe confiança para crer que não procuro exploral-o. Quem sabe se terei quatro ou mais annos armazenados na loja esses doze quadros que pretendo comprar. E se assim succeder, o senhor bem sabe que dinheiro vale dinheiro, e isso representa uma grande perda.

Ernesto comprehendeu que o judeu não lhe daria mais, visto conhecer a necessidade que elle tinha do dinheiro.

Calculou que com a importancia offerecida e o que possuia podia fazer desafogadamente e até com luxo a viagem e resolveu acceitar o negocio.

--Está fechada a transacção, disse o pintor. Mando-lh'os ainda hoje mesmo.

Daniel tirou a carteira, e d'ella a importancia offerecida em notas do Banco Romano, e entregou-a ao pintor, dizendo:

--Muito dinheiro podia ganhar!

--Não desejo outra cousa, respondeu Ernesto, pondo o dinheiro sobre a mesa.

--Seriamente?

--O dinheiro é a primeira necessidade do homem n'este valle de lagrimas.

--Então posso offerecer-lhe á volta de Florença algumas notas mais, se me trouxer algumas copias da escola flammenga e franceza dos originaes que existem no palacio Pitti.

--Isso depende do tempo.

--A actividade augmenta as horas.

--Não me comprometo, mas farei todo o possivel porque receio que me faça falta o dinheiro para ir a Hespanha expor o meu quadro.

--Pois já sabe o meio de o obter.

Daniel começou a despendurar os quadros que comprara e ia-os collocando todos juntos, para que Ernesto ao mandal-os se não esquecesse de algum.

Depois despediu-se do pintor, tornando-lhe a recommendar que trabalhasse muito.

--O trabalho, senhor Ernesto, é a maior fortuna do homem. Não se esqueça de que as formigas e as abelhas são muito mais ricas do que as cigarras.

Ha conselhos que só produzem um ligeiro murmurio nos ouvidos de quem os ouve.

Daniel sahiu. Ernesto chamou o creado.

--Logo levas esses doze quadros a casa do senhor Daniel Raithany, disse-lhe. Vou fazer uma viagem a Florença. Demoro-me um mez. Podes dispor de ti como te aprouver, n'esses trinta dias, mas nem uma só noite deixarás de dormir em casa.

Entregou o dinheiro que julgou sufficiente para o sustento do creado, mandou que lhe servissem o almoço, e depois sahiu.

Uma vez em Roma comprou alguma roupa para a viagem.

Á tarde foi visitar os seus amigos e jantar com elles.

D. Ventura começava a olhar Ernesto como da familia; é verdade que quando se encontra um compatriota a algumas centenas de leguas distantes da mãe patria, sente-se uma alegria tão grande no coração que o tratamos como se fosse um parente.

A D. Ventura parecia o mais natural do mundo que um rapaz tão bem educado, tão fino, tão illustrado como Ernesto o acompanhasse na sua viagem a Florença.

Emquanto a Amparo, não pensou senão em realisar o seu desejo; viajando com Ernesto, tinha mais encanto a excursão, porque o pintor lhe era sympathico.

Os olhares, os sorrisos, os apertos de mão, as palavras carinhosas são impulsos muitas vezes naturaes do coração feminino, e é sem duvida por isso que não lhes dão nenhuma importancia.

Mas Ernesto pensava de outro modo, e ia reunindo na sua alma simples e apaixonada, um sem numero de esperanças encantadoras, que eram o seu maior thesouro, e que deviam tornar-se a sua maior desgraça, porque o amor quasi sempre é um jogo em que um dos jogadores perde.

Os preparativos de uma viagem em que esperamos gozar e divertirmo-nos são muito encantadores. Ernesto offereceu a D. Ventura um _Guia do forasteiro em Florença_, preciosamente illustrado, e a Amparo um elegante album para desenhos.

--Temos que trabalhar muito, dizia o pintor, e não podemos consentir que nos importune com perguntas.

--Sim, sim, o senhor Ernesto tem razão; temos que fazer muitos desenhos, e para que se não aborreça, emquanto trabalhamos, lerá o seu _Guia_ deante das obras d'arte que vamos visitar.

D. Ventura para quem não havia maior felicidade do que a alegria de Amparo, vendo-a contente e feliz, ria-se com a expansão de um pae que ama com loucura a filha.

Só uma vez se poz serio vendo crescer aquella sympathia entre Amparo e o pintor, e disse:

--E a rapariga acaba por se enamorar de Ernesto. Fez algumas reflexões mentaes e ajuntou:

--Diabo, Ernesto é pobre; minha filha tem quatro milhões de dote no dia do casamento e mais oito quando eu morrer.

Aqui tornou a deter-se; mordeu o labio inferior como o negociante que pensa n'um negocio importante, mas rapidamente se lhe alegrou o rosto e exclamou:

--Se ella o ama e quizer casar com elle, que se case; vale mais ter por genro um homem como Ernesto, pobre, do que um parvo rico.

Desde aquelle momento, Ernesto podia contar com a protecção do pae.

Chegou o dia da partida. A viagem podia fazer-se de dois modos: em pequenas jornadas, parando-se para vêr as povoações de alguma importancia artistica, ou em caminho de ferro.

D. Ventura optou pela ligeireza da locomotiva, e os nossos tres viajantes, alegres como estudantes em ferias, installaram-se n'um compartimento de primeira classe. A fortuna favorecia-os: iam sós. Emquanto foi dia, Amparo e Ernesto passaram a maior parte do tempo á janella da carruagem, admirando o panorama que se ia desenrolando a seus olhos.

Os jovens só trocaram algumas palavras em voz baixa; mas os olhos têem uma linguagem tão expressiva, que dizem tudo, quando se movem impulsionados por uma alma apaixonada.

D. Ventura lia o livro offerecido pelo pintor, ou dormitava. Quando chegou a noite, Ernesto bastante timido, apoderou-se de uma das mãos de Amparo, não menos linda do que a da Laura que inspirou a Petrarcha quatro sonetos, e disse-lhe:

--Que feliz eu sou!...

Amparo sorriu-se e retirou a mão.

Depois, reclinando a cabeça em um dos cantos da carruagem, cerrou os olhos, fingindo que dormia.

Assim collocara certa distancia entre si e Ernesto. Amparo, apezar de nova, tinha mais conhecimento do coração humano do que o seu companheiro de viagem, e temeu que prolongando a conversação á tenue luz do vagon e quasi tocando-se os joelhos, fizesse alguma d'essas concessões de que mais tarde se arrepende a mulher.

Ernesto procurou tambem posição commoda e tentou dormir, mas foi em vão.

Nasceu o dia, e com elle a animação entre os viajantes.

A linha seguia n'aquelle momento o curso do rio Arno. A conversação renovava-se a cada paragem do comboio. D. Ventura lia o nome das estações e procurava no _Guia_ a parte interessante da terra.

Em Signa atravessaram o Arno e não demorou muito vêr-se ao longe as torres elevadas de Florença, os quatro pontos e os quatros bairros.

Ernesto exclamou:

--Alli está Florença, berço do renascimento das artes, patria de Dante, de Petrarcha, e de Galiléu!

CAPITULO V

O grupo de Niobe

A Florença dos nossos dias é muito differente da que engrandeceram os Médicis; mas por toda a parte se encontram as pégadas de Cosme o Virtuoso, chamado o pae da patria, talvez pelo excessivo rigor com que tratava os filhos.

Indubitavelmente os Médicis foram grandes negociantes. A sua fortuna fabulosa e a sua honradez ao mesmo tempo, elevou-os á primeira dignidade da republica florentina.

Mas como em todas as familias ha sempre um judas que vende a sua raça, succedeu que emquanto Cosme o Virtuoso, chamado pae da patria, mandava emissarios por todo o mundo em busca de manuscriptos para enriquecer as bibliothecas, pensionando com luxo artistas, e Lourenço Magnifico sahia em segredo de Florença e apresentando-se ante Fernando de Napoles, com quem estava em guerra, dizia-lhe: «_Aqui me tens só e desarmado. Se é a mim a quem odeias satisfaz a tua vingança com a minha morte, pois ditoso me julgarei libertando com a minha vida a de tantos valentes, dispostos a despedaçarem-se pelas nossas rivalidades_», outros Médicis deshonraram o illustre appellido que tinham herdado de seus nobres antepassados.

Sublime foi o rasgo de abnegação levado a cabo por Lourenço de Médicis, evitando a corrente de sangue que ameaçava inundar Napoles e Toscana, apezar de dizer a historia que o papá Sixto IV preferia a guerra, esquecendo-se de que era um representante de Christo, do Deus da bondade, do perdão e da tolerancia.

Mas a natureza é variada, e depois dos grandes Médicis da republica vieram os pequenos ladrões do despotismo.