Historia de um beijo

Part 1

Chapter 13,809 wordsPublic domain

Produced by Pedro Saborano

XLVII Colecção Horas de Leitura

Enrique Perez Escrich

HISTORIA

DE UM

BEIJO

2.ª Edição

1912 GUIMARÃES & C.ª--Editores 68, Rua do Mundo (Ex. Rua de S. Roque), 70 LISBOA

Historia de um Beijo

COMPOSTO E IMPRESSO NA IMPRENSA DE MANUEL LUCAS TORRES RUA DIARIO DE NOTICIAS, 93

Colecção Horas de Leitura

_Obras publicadas, a 200 réis o volume_

1 a 4--*Ivanhoé*, de W. Scott, (2.ª edição) 800

5--*O frade negro*, por Clemencia Robert, (2.ª edição) 200

6 e 7--*As Semi-Virgens*, de Marcello Prévost, (3.ª edição illustrada) 400

8--*Werther*, de Goethe, (3.ª edição illustrada) 400

9--*Madame Flirt*, de Jaques Yvel, (2.ª edição) 200

10 a 12--*A Taberna*, de Zola, (2.ª edição) 600

13--*O Vigario de Wakefield*, de Goldsmith, (2.ª edição) 200

14--*A vida aos vinte annos*, de Dumas, filho, (2.ª edição) 200

15--*A agua profunda*, de Bourget, (2.ª edição) 200

16--*O dominó amarello*, de Marcello Prévost, (2.ª edição) 200

17--*Cortezã*, de A Belot, (2.ª edição) 200

18--*O Rosquedo*, de Delfim Guimarães, (2.ª edição) 200

19--*Os Vagabundos*, de Maximo Gorki, (3.ª edição) 200

20--*A escravidão moderna*, de Tolstoi, (2.ª edição) 200

21--*Os degenerados*, de Maximo Gorki, (3.ª edição) 200

22--*A Dama das camelias*, de Dumas, filho, (3.ª edição illustrada) 200

23--*As Virgens*, de G. d'Annunzio, (2.ª edição) 200

24--*Na prisão*, de Maximo Gorki, (2.ª edição) 200

25 e 26--*A Dama das perolas*, de Dumas, filho, 400

27--*Varenka Olessova*, de Maximo Gorki, 200

28--*O jardim dos suplicios*, de Octavio Mirbeau, (2.ª edição) 200

29--*Saudades*, (Menina e Moça) de Bernardim Ribeiro, (2.ª edição) 200

30--*Na Esteppa*, de Maximo Gorki, 200

31--*Nami-ko*, Tokatomi, 200

32--*Um conchego de Solteirão*, Balzac, (2.ª edição) 200

33--*Sapho*, de Daudet, (a sahir 2.ª edição)

34--*Um começo de vida*, de Balzac, 200

35 e 36--*O Paraiso das Damas*, de Zola, (esgotado)

37--*Amor e liberdade*, de Tolstoi, (esgotado)

38--*Casamento de Amor*, de Theuriet, (esgotado)

39 e 40--*Illusões perdidas*, de Balzac, 400

41 e 42--*Esplendores e miserias das cortezãs*, de Balzac, 400

43--*A ultima incarnação de Vautrin*, de Balzac, 200

44--*Mater dolorosa*, de Ernesto Daudet, 200

45--*O Immortal*, de Affonso Daudet, 200

46--*Ares do Minho*, de Delfim Guimarães, 200

47--*Historia d'um beijo*, de E. Perez Escrich, 200

48--*O intruso*, de Gabriel d'Annunzio, (esgotado)

49--*A mulher de 30 annos*, de Balzac, 200

50 e 51--*Germinal*, de Zola, 400

52--*O crime de Silvestre Bonnard*, de Anatolio France, 200

53--*Miseraveis*, (Cañas y barro) de Blasco Ibañez, 200

54--*O Abade Constantino*, de L. Halévy, 200

55--*O Dr. Rameau*, de Jorge Ohnet, 200

56--*Agua corrente*, de Severo Portella, 200

57--*O luxo dos outros*, de Bourget, 200

58--*O tio Goriot*, de Balzac, 200

59 e 60--*A derrocada*, de Zola, 400

61--*O canto do Cysne*, de Tolstoi, 200

62--*Contos*, de G. de Maupassant, 200

63 e 64--*Náná*, de Zola, 400

65--*A Sonata de Kreutzer*, de Tolstoi, 200

66--*O Padre Maldito*, de Silva Pinto, 200

67--*Paulo e Virginia*, de Sain-Pierre, 200

68 e 69--*O Dinheiro*, de Zola, 400

70--*Confissão d'um Amante*, de Prévost, 200

71--*A sepultura de ferro*, de H. Conscience, 200

72--*A musa do departamento*, de Balzac, 200

73 e 74--*A Obra*, de Zola, 400

75--*Genoveva*, de A. de Lamartine, 200

76--*Um filho do povo*, de Escrich, 200

77 e 78--*O crime do padre Mouret*, de Zola, 400

79--*Casamentos fidalgos*, de Feuillet, 200

80--*Amor tragico*, de A. Hermant, 200

81--*A Religiosa*, de Diderot, 200

82 a 84--*Ana Karenine*, de Tolstoi, 600

COLECÇÃO HORAS DE LEITURA

Enrique Perez Escrich

Historia de um Beijo

TRADUCÇÃO DE

A. J. LIONE SOUTELLO

2.ª Edição

1912

GUIMARÃES & C.ª--Editores

68, Rua do Mundo (Ex. Rua de S. Roque), 70

LISBOA

CAPITULO I

Uma chavena de café

Um beijo é muitas vezes a esmola que faz uma mulher a uns labios lisonjeiros; outras um pedaço d'alma que se escapa pela bôcca. No primeiro caso o homem é a victima, no segundo é a mulher.

Existem na terra creaturas tão bem organisadas, corações tão generosos, que não necessitam ser correspondidas para amar com toda a sua alma, para terem gravada em seu coração uma imagem querida.

Estes entes soffrem com o rosto sereno e choram com o sorriso nos labios, porque se chora de dois modos: umas vezes deixando correr as lagrimas, outras recolhendo-se ao coração a queimarem essa bella flôr da juventude chamada a esperança.

A vida n'estes casos é um desejo infinito que se afoga em pranto porque se vê a felicidade que se deseja rodeada de uma muralha cheia de impossiveis. Se pudesse conquistar-se a tiro, conhecer-se-hiam os nomes de muitos heroes ignorados.

A incerteza, essa anciedade da alma que tem o poder de reduzir e prolongar o tempo segundo o seu capricho, faz-se sempre sujeita á poderosa magia de uma syllaba. Um _sim_, resoa docemente no ouvido do namorado e tem a encantadora poesia do mez de Maio com os seus perfumes, as suas flôres, e o harmonioso canto das aves; um _não_, tem a aridez do deserto, a melancholia da desgraça, a solidão da morte.

Vou, pois, contar-lhes uma historia sentida, um gemido do coração.

Vou dar-lhes a conhecer a protogonista do meu livro e supplico-lhes o perdão para a fraqueza da sua alma: o coquettismo.

Chama-se Amparo, nome cujas seis letras encerram uma promessa de amor nunca realisada.

Procurarei pintar com as côres da verdade o seu rosto, formoso como um sonho da adolescencia; a sua fronte radiante como a luz do sol quando apparece, ao romper do dia, do fundo do mar; os seus olhos claros e expressivos através dos quaes se lêem todas as impressões da sua alma, sensivel como as harpas das filhas de Sião que vibram ao menor sopro do zephiro.

Se os impressionam as scenas terriveis, as grandes catastrophes, as situações inverosimeis, fechem o meu livro, porque em suas paginas só acharão a historia de um coração que se partiu em pedaços.

..........................................................................

Ernesto foi para Roma, pensionista do governo hespanhol. Era um rapaz de 25 annos, cheio de vida, de illusões, um genio; muitas vezes nos seus sonhos de pintor julgava egualar-se a Velasquez, Murillo e todos esses grandes homens que brilham em primeiro logar na historia da pintura hespanhola.

Vivia n'uma pequena casa nas immediações da Cidade Eterna, a Deusa da arte; pensando na gloria, trabalhando sempre, porque Ernesto era um sonhador infatigavel, o mundo para elle resumia-se nos seus quadros, nos seus pinceis, na sua paleta.

Nunca amara senão sua mãe, que já tinha morrido, e a gloria, que desejava alcançar.

Coração impressionavel, mas adormecido, as mulheres eram para elle como flôres formosas de um jardim.

N'uma palavra, Ernesto ainda não tinha encontrado o seu bello ideal, o perfume da sua alma.

A mulher formosa, para elle, só era uma bella obra onde o grande artista, que se chama a natureza, derramara os seus mais preciosos dotes.

Vejam, pois, como a casualidade lhe proporcionou o meio de pagar de um modo terrivel o tributo das almas sensiveis, que é o amor.

Como dissémos, Ernesto habitava uma casinha nas proximidades de Roma.

O _atelier_, situado na parte que dava para o jardim, recebia a luz de duas grandes janellas por onde entravam os caprichos e interessantes braços de algumas trepadeiras.

Era uma tarde do mez de Maio. Ernesto estava retocando uma figura quando veiu o creado dizer-lhe que um cavalheiro e uma senhora desejavam falar-lhe.

--São hespanhoes, disse o criado, e parece-me que o conhecem.

--Hespanhoes? exclamou Ernesto, largando a paleta. Que entrem immediatamente!

Ernesto dirigiu-se para a porta seguindo o creado, quando ouviu uma voz que lhe não era desconhecida, dizendo:

--Onde está este mau hespanhol, que é preciso vir a Roma, á Via Appia para lhe dar um abraço?

--Oh! é o sr. D. Ventura! exclamou o pintor, vendo entrar um sujeito d'uns 50 annos, dando o braço a uma menina tão formosa como elegante.

--Sim, sou eu, querido pintor, sou eu, o D. Ventura do café Suisso, o amigo dos artistas, o enthusiasta pela divina arte de Apollo; eu que, apezar do meu enthusiasmo pela pintura, nunca soube collocar n'um rosto o nariz no seu verdadeiro lagar. Mas, senta-te, querida Amparo, senta-te; os homens do talento são sem-cerimonia como aldeãos, e francos como a verdade--e apoz pequena pausa, continuou:

--Começarei por pedir-lhe duas chavenas de café.

Ernesto deu ao creado as ordens necessarias.

A joven, que se sentara n'uma cadeira d'onde distrahidamente contemplava os quadros do _atelier_, dispensou um sorriso de cumprimento ao pintor, deixando vêr uns dentes pequenos como os de uma creança, e brancos como o miolo do coco.

Tudo o que é bello attrae irresistivelmente os homens de talento.

Ernesto fitou a joven.

Amparo teria 20 annos. O seu rosto de uma graça attrahente, provocadora, via-se quasi animado por um d'esses sorrisos em que ficamos em duvida se são a manifestação do coquettismo ou a ternura da alma.

Os seus labios bastante vermelhos e humidos pelo constante roçar dos dentes, ficavam ás vezes entreabertos como se fossem a exhalar um suspiro ou a receber um beijo.

Os seus olhos eram grandes e negros como amoras maduras; mas tão movimentados, tão inquietos, tão cheios de vida, tão promptos em manifestar as impressões da alma, que tão depressa se viam enlanguescer com a sombra embriagadora de um amor platonico, como brilhar com todo o fogo da paixão que conduziu Ovidio a um calabouço e Sapho á morte.

Ernesto estudava dissimuladamente aquella joven que tão profunda sensação causava na sua alma, virgem das terriveis tempestades do amor; e, cousa rara, o seu genio de artista, tão depressa encontrava em Amparo a belleza sensual e provocadora das mulheres de Rubens, como o pudor candido das virgens de Murillo.

Emquanto a D. Ventura só diremos que era um homem de 50 annos, calvo, com os poucos cabellos que possuia já grisalhos, um rosto cheio de saude e alegria; n'uma palavra, uma d'estas physionomias que sorriem sempre, até quando choram; o typo, emfim do honrado commerciante que conseguiu, depois de muitos annos de trabalho, reunir um peculio que o livra de necessidades na velhice.

Amparo era filha unica; fôra educada n'um dos melhores collegios de Madrid, e possuia um dote de quatro milhões de pesetas para quando achasse quem a merecesse.

D. Ventura era feliz, revendo-se na filha, nova, formosa, vivaz e alegre; tocava piano com bastante correcção, cantava regularmente e pintava quasi com tanta perfeição como o divino Raphael.

Amparo era, por assim dizer, rainha absoluta, e seu pae um ministro bastante condescendente.

A mulher nova e livre, quando a riqueza lhe permitte emprehender viagens de recreio durante a estação calmosa, precisa de alguma cousa mais do que mudar de paiz para distrahir-se; a viagem torna-se fastidiosa se a alma não toma parte e o coquettismo não esgrime as suas armas, tão deliciosas como traidoras, para matar o tempo.

Fazer uma conquista sem graves compromissos, sem funestos resultados, n'um commodo _wagon-lit_; trocar olhares expressivos com qualquer mancebo pela praia de Biarritz ou no cume das montanhas da Suissa, tem tantos attractivos para as jovens viajantes!... É tão agradavel ao coração de uma mulher encontrar a duzentas leguas da patria um patricio que se torne seu escravo, que esteja disposto a salval-a, a defendel-a e juncar-lhe de flôres a terra que pisa, que não póde resistir á tentação de pôr em jogo todas as suas seducções.

Demais, a mulher tem a facilidade de comprehender a impressão que causa e sabe aproveitar-se d'ella. Quando volta o inverno, quando as primeiras nuvens do outomno as obriga a recolher aos seus lares, esses ternos bandos de aves emigradoras, com saias de _piquet_, chapéu de palha e botas brancas, recordam-se então já ao calor do fogão, de todas as loucuras, de todas as innocentes concessões feitas ao ar livre e poetisadas pelo vento da montanha ou pela brisa do mar; e como não ha mulher que não saiba calcular, como o melhor mathematico, pensa se deve acabar ou continuar com os amores do verão.

Amparo, pois, encontrou casualmente Ernesto em Roma. Tinha ouvido dizer que possuia talento; agradaram-lhe alguns quadros que viu no _atelier_, e não lhe parecendo má a figura do pintor, dirigiu-lhe alguns olhares e sorrisos, d'esses que no coração de um homem sincero e apaixonado causam uma terrivel tempestade.

Não pensava a joven que aquelle coquettismo era condemnado pelo bom-senso. Empregou-o com a mais santa intenção, apezar de começar a sentir-se aborrecida em Roma, onde andava só com seu pae por toda a parte. Ernesto, então, foi olhado, como um recurso, como uma distracção.

Quando Amparo sahiu de casa do pintor, ia convicta de que o tinha captivado.

--Pensará em mim, disse ella, virá vêr-me, falaremos de pintura, de musica e d'esta fórma aborrecer-me-hei menos.

Amparo ignorava ainda as terriveis consequencias que os seus olhares e sorriso deviam exercer na alma do artista. Se o soubesse, indubitavelmente se teria abstido, porque o seu coração era bom, generoso e tão impressionavel, que se commovia ante a mais ligeira contrariedade, como a folha do trémulo alamo ante o mais ligeiro sopro do zephiro.

CAPITULO II

Uma noite no Colyseu

Quando Ernesto ficou só, em vez de pegar na paleta e nos pinceis approximou-se da janella e ficou pensando na joven hespanhola que acabava de sahir.

Depois de uma hora de meditação, retirou-se da janella, dizendo para comsigo:

--Se me encommendassem um quadro onde figurasse alguma das tres encantadoras filhas de Jupiter e de Eurinome pediria a Amparo para me servir de modelo.

E, tomado de uma subita inspiração, pegou na paleta e nos pinceis e começou a pintar, n'um pedaço de tela, uma cabeça, mas com tanta rapidez que, em vinte minutos, estava completamente esboçada.

Afastou-se um pouco do cavallete para examinar o seu trabalho, e disse:

--Sim, é ella. Tenho boa memoria.

E como não se contentasse com a sua opinião, chamou o creado e perguntou-lhe:

--Com quem se parece esta cabeça?

--Bravo! Com quem se ha-de parecer? Com a senhora que esteve cá, respondeu o creado sem vacillar. Não é preciso ser muito esperto para a reconhecer.

Ernesto tornou a pegar nos pinceis e retocou o seu trabalho.

Duas horas depois tinha terminado um soberbo retrato de Amparo, que o pintor mais escrupuloso não recearia pôr em exposição.

Tinha promettido a D. Ventura ir no dia seguinte almoçar com elle ao hotel de Londres na praça de Hespanha, onde estavam hospedados.

Ernesto levantou-se cedo, fez a barba, vestiu-se com mais cuidado do que de costume, admirando-se de ter gasto tanto tempo ao espelho.

Assim que terminou a sua _toilette_, satisfeito de si mesmo, enrolou a tela com o retrato de Amparo, embrulhou-a n'um papel e sahiu de casa dizendo ao creado que tinha o dia livre, visto não voltar senão á noite.

D. Ventura e a filha occupavam dois quartos no primeiro andar do hotel de Londres.

Quando Ernesto subia a escada ouviu os accordes de um piano. Deteve-se: tocavam a magnifica symphonia de _Guilherme Tell_.

--Será Amparo? pensou elle.

E vendo um creado no corredor, disse-lhe:

--Qual é o quarto do sr. D. Ventura d'Aguillar?

--O seis: ahi onde estão tocando.

Ernesto não se tinha enganado: era Amparo quem tão magnificamente interpretava uma das mais bellas composições de Rossini.

Receoso de interromper aquella brilhante corrente de notas que tão docemente resoavam no coração, esperou junto da porta que terminasse a symphonia.

Logo que ella acabou bateu á porta.

--Entre, disse D. Ventura.

Entrou. Amparo estava ainda sentada ao piano. Por cima d'este estava um grande espelho e no limpido crystal Ernesto viu retratado o encantador rosto de Amparo, que sorria, enviando-lhe um olhar que o perturbou por um momento.

--Bravo, é um homem de palavra, disse D. Ventura. Ahi está uma qualidade que não é muito vulgar nos artistas.

--Então não me esperavam?

--Eu esperava, mas o meu pae, não, disse Amparo, fazendo girar o banco do piano, até ficar voltada para o pintor.

Amparo tinha um vestido tão simples como elegante. O seu cabello negro e frizado, estava atado com uma fita azul que fazia realçar a brancura do seu rosto e o tom rosado das faces.

O pintor achou-a muito mais formosa do que no dia anterior.

De bôa-vontade ficaria contemplando o encantador modelo que tinha ante si; mas isso álêm de inconveniente seria ridiculo.

A donzella, por seu lado, olhava o pintor com o mais seductor dos seus olhares e enviava-lhe o mais bello dos seus sorrisos.

Comprehendera o que se passava na alma de Ernesto. Só D. Ventura não via nada. É bem certo o dictado que diz que os paes são todos myopes.

--Que traz ahi, sr. Ernesto? É algum quadro? perguntou Amparo vendo o rolo que o pintor tinha na mão.

--Como estava distrahido! respondeu Ernesto. Hontem de tarde fiz um trabalho. É um atrevimento que espero me desculpem.

O pintor desenrolou a tela e apresentou-a, sorrindo-se.

A joven não poude conter um grito de assombro, e D. Ventura pronunciou uma interjeição.

--Sou eu!

--É a minha filha!

--É um retrato d'esta senhora, e venho offerecel-o como uma recordação da visita que tiveram a bondade de me fazer.

--São levados da breca estes pintores, exclamou D. Ventura. Como se póde reter na memoria de uma fórma tão completa as feições de uma pessoa e passal-as para a tela com tanta verdade?! Porque és tu! Sim, tão parecida como duas gottas d'agua; muito mais parecida do que uma photographia.

Ernesto sorriu-se das admirações de D. Ventura. Amparo parecia agradecer-lhe com um olhar cheio de ternura aquella recordação tão delicada.

--Pois é a cousa mais facil do mundo, disse o pintor olhando para Amparo, comprometia-me a fazer outro d'aqui a tres annos sem me esquecer do menor detalhe do vestido e do penteado que tem n'esta occasião.

--Pegue-lhe na palavra, papá, disse Amparo, e d'aqui a tres annos, se nos encontrarmos em Madrid havemos de vel-o ficar mal.

--Fica encommendado o retrato. Mas agora parecia-me melhor que nos servissem o almoço e que pensassemos em que devemos entreter o dia.

--Já visitaram as _vilas_ ou casas de campo dos arredores? perguntou Ernesto.

--Já visitámos uma... Como se chama a que vimos hontem? perguntou D. Ventura á filha.

--_Vila Aldobrandini_.

--É magnifica, mas está pouco menos do que abandonada. Deliciosa mansão se se arranjassem os jardins em fórma de amphitheatro. O Dominiquino deixou-nos n'essa casa sumptuosa uns quadros inegualaveis. Faz pena ouvir, no meio de tanto abandono, o cadente murmurio das suas cascatas que se assimilham á harmonia dos orgãos aquaticos da antiguidade como ao mesmo tempo vêr as soberbas estatuas e outros objectos de esculptura de grande merito.

--Com franqueza não a achei grande cousa... como disseste que se chamava, Amparo?

--_Aldobrandini_, papá. Valha-o Deus, que cabeça a sua!

E Amparo trocou um sorriso com Ernesto.

--Podemos vêr outras que estão melhor conservadas, ajuntou o pintor. Por exemplo, é digna de visitar-se a _Vila Borghése_ pelo seu grandioso lago, pelo hypodromo, pelo templo, pelos jardins e, sobretudo, pelo rico museu de numismatica, e se desejarem visitaremos a _Vila Albani_ e o seu celebre museu. Os antigos romanos tiveram grande predilecção pelas casas de campo. Os historiadores d'aquelle tempo contavam cousas fabulosas. Os poetas, esses sonhadores de todas as epochas, esses pobres loucos que não tendo um real de seu phantasiam palacios e cascatas brilhantes, falam com grande entusiasmo das quintas que nos arredores de Roma possuia Cesar, Lucullo, Marcello, Nero, Pompeu, Salustio e muitos outros homens celebres; mas hoje não existem mais do que ruinas. A casa de campo de Mecenas, onde iam Augusto, Virgilio, Horacio, Plocio, Tiscca e Polion descançar das fadigas de Roma, converteram-se hoje em forja de um pobre ferreiro. Que ode tão sentimental escreveria o pudico auctor da _Eneida_ se ressuscitasse ao contemplar as ruinas de Roma.

D. Ventura ouvia Ernesto de bôcca aberta. Tudo isto para elle era grego. Amparo não deixava de se sorrir. Entre elles começava a existir uma grande intimidade, a intimidade que produz as sympathias.

--Sabe o que desejo vêr, sr. Ernesto? disse Amparo. É o Colyseu. Li, não me recordo em que livro, que visto n'uma noite de luar é surprehendente.

--Os viajantes julgam segundo a impressão que os objectos produzem no seu temperamento. Por isso emquanto uns ao percorrer a Palestina a descrevem cheia de frondosidade e poesia que a adornava no tempo de Salomão, outros a classificam de um arido areal, um deserto insupportavel, pobre, povoado por tribus selvagens e ascorosas, mas o Colyseu começado por Vespasiano e acabado por Tito, visto, quer á luz do sol quer á da lua é verdadeiramente admiravel.

--Ainda assim prefiro vel-o de noite, disse Amparo.

--Então aproveitaremos o luar, e hoje mesmo se póde realisar o seu desejo.

--Que dizes a isso, papá?

--Que estou ao teu dispor.

--Fica, pois, combinado para esta noite.

Almoçaram como bons hespanhoes, depressa e sem lhe dar grande importancia, pois não é a Hespanha a terra dos Lucullos.

Do meio-dia ás 5 horas da tarde visitaram algumas casas de campo dos arredores de Roma.

D. Ventura estava encantado. Ernesto sabia tudo; era, como vulgarmente se diz, um livro aberto.

Não encontraram uma pedra, uma columna, um sepulchro do qual o pintor não soubesse a historia.

Amparo escutava-o com prazer. Encostando-se-lhe familiarmente ao braço fazia-lhe perguntas, principalmente quando encontrava alguma inscripção latina.

O dia passou-se agradavelmente para os tres; as horas foram curtas, e os laços de amisade estreitaram-se duplamente com aquelle agradavel passeio.

Ás seis horas regressaram ao hotel. O jantar já os esperava. Depois metteram-se n'um trem que os conduziu ao Colyseu.

A noite estava serena; a lua no seu auge, e a sua clara luz banhava as colossaes ruinas onde em outros tempos oitenta e sete mil espectadores iam gozar o barbaro espectaculo das luctas humanas.

Então, o povo romano pedia pão e circo, e os imperadores tinham o cuidado de satisfazer os desejos da terrivel fera que dormia, lambendo-lhe os pés.

Ernesto levava os dois amigos a um e outro lado, esplicando-lhe com o mesmo conhecimento que poderia fazer-lhe um _cicerone_ do tempo do imperador Claudio, descrevendo-lhe ao mesmo tempo aquellas terriveis luctas, dos adestrados gladiadores, cujo sangue regou com abundancia a arena do circo.

--Assistiram mulheres a esse barbaro espectaculo? perguntou Amparo.

--Ao principio era-lhes prohibida a entrada, respondeu Ernesto, mas depois foi auctorisada, reservando-lhes Octavio Augusto as bancadas mais altas do amphitheatro. Precisamente aqui onde estamos era a tribuna do imperador, e alli a das vestaes, cujo docel era egual ao do imperador. A este sitio chamava-se _Spoliarium_, para onde conduziam os cadaveres dos gladiadores ou os que estavam mortalmente feridos, puxando-os com um gancho de ferro. Esta obra colossal foi construida no curto espaço de quatro annos. Tinha setenta portas, sem contar com as entradas reservadas para o imperador e a sua côrte. As festas da inauguração no tempo de Flavio Sabino Tito duraram cem dias consecutivos, e n'ella perderam a vida dois mil gladiadores.

--Parece impossivel que tão sanguinolentos espectaculos agradassem a mulheres, exclamou Amparo.