Historia de um beijo

Part 3

Chapter 33,873 wordsPublic domain

Chegou Alexandre, verdugo do povo, morto ás mãos do sobrinho, que com incrivel cynismo lhe perguntou ao enterrar-lhe a espada no peito: «_Senhor, estaes dormindo?_» Veiu depois Fernando, que morreu d'uma indigestão de fructa verde, e por ultimo o estupido Cosme III, cuja esposa Margarida de Orléans, não podendo supportar a repugnancia que lhe causava o marido, o abandonou, envergonhada de lhe ter pertencido. Para que a estupidez de Cosme chegasse ao cumulo, dedicou-se em procurar a mulher pelas côrtes da Europa: mas em toda a parte se riram d'elle, despedindo-o vergonhosamente como a um ente repugnante.

Deixemos os Médicis á historia, e continuemos a narração interrompida ao avistar as altas muralhas de Florença.

Na estação, entre os muitos corretores d'hoteis que disputam os estrangeiros, D. Ventura encontrou-se com um hespanhol que tinha casa de hospedes, entrou em ajuste com elle, e conduziu-os n'um trem para casa.

D. Ventura alugou todo o rez-do-chão, com o direito de lhe pertencer o jardim plantado de laranjeiras, limoeiros e grandes acacias.

O rez-do-chão compunha-se de um quarto com janellas para o jardim, uma sala grande, um quarto de vestir, uma casa de jantar e uma sala. Amparo installou-se em dois quartos. D. Ventura e Ernesto ficaram com a sala e outro quarto contiguo á casa de jantar; a sala declarou-se terreno neutral e todos podiam dispôr d'ella para o que necessitassem. Era o ponto de reunião dos nossos viajantes.

O senhor Rosales, dono da casa, era um sujeito muito amavel e serviçal. Disse-lhes que tinha sempre muitos bons hospedes; que o primeiro andar estava todo alugado ao sr. Conde de Loreto e ao seu velho mordomo; que no segundo estavam varios portuguezes e que era tão apaixonado das cousas de Hespanha, que mandava vir grão e chouriço hespanhoes, para que quando algum hospede quizesse de vez em quando comer rico cosido madrileno, podel-o servir.

D. Ventura esteve quasi a abraçar o seu hospedeiro, porque como bom madrileno começava a sentir a falta d'aquelle manjar predilecto.

Emquanto a Amparo acercou-se da janella do gabinete, viu o formoso céu de Florença, aspirou o perfume das laranjas e dos limões, exclamou:

--Oh! que delicioso cheiro! que bem que ficamos aqui!

A alegria de Amparo reflectia-se no coração de Ernesto.

No primeiro dia entretiveram-se os nossos viajantes em arranjar itinerario. Ernesto propoz visitar na manhã seguinte o palacio de Médicis.

Em Florença o céu tem sempre luz, doçura, poesia. Os nossos viajantes levantaram-se, dispostos a emprehender o seu passeio. A manhã não podia estar melhor, o céu mais azul.

Como não necessitavam de _cicerone_, porque Ernesto conhecia Florença tão bem como Roma, sahiram em direcção ao celebre palacio de Médicis.

Amparo e Ernesto levaram os seus _carnets_, e D. Ventura o seu _Guia_.

Logo que chegaram ao palacio e entraram nos jardins, Ernesto, depois de fazer observar aos seus amigos as duas distinctas architecturas do edificio, a construida na Edade Media e a edificada por Vasari no seculo XIV, exclamou:

--Quando o viajante passeia por estes vastos jardins, parece que encontra de menos Lourenço de Médicis, cognominado o Magnifico. Oh! ditosa epocha aquella em que Lourenço, agarrando o braço de Miguel Angelo, reprehendia com doçura paternal a indolencia do grande artista, incitando-o ao trabalho! Ditoso tempo aquelle! Lourenço ria e applaudia os comicos epigrammas do alegre Pulci, fazendo-o escrever o _Morgante Maggiore_, o poema heroe-comico mais celebre de Italia, e em que Angelo Poliano lhe lia os discursos de historia e philosophia.

E mudando de entoação continuou com accento alegre:

--É preciso confessar, meu caro senhor D. Ventura, que hoje os reis, os potentados da terra se occupam pouco ou nada dos pobres sonhadores, dos filhos do genio. Então, ante o talento dobravam a fronte os soberanos. Cosme de Médicis encontrou um manuscripto de Tito Livio, enviou-o a Fernando de Napoles, com quem estava em guerra, e foi tão grande a alegria d'este rei, que receando ser ingrato, assignou o tratado de paz que Cosme solicitava; devendo as mães de Italia a sua tranquillidade e a vida dos filhos a umas folhas de pergaminho manuscriptas. Hoje, nem todos os preciosos manuscriptos das bibliothecas romanas decidiriam dos reis, quando disputam um palmo de terra, a deporem as armas. Mas entremos na sala que immortalisou o cinzel do filho de Paros.

D. Ventura, que ouvia com satisfação as palavras de Ernesto, exclamou:

--Para que diacho me comprou este livro se aqui não diz nada do que tem estado a contar?

--Senhor D. Ventura, respondeu o pintor, sorrindo-se, breve chegará a hora em que lhe seja util. A collecção de camafeus, medalhas e debuxos compõe-se de vinte e oito mil estudos e _croquis_, feitos pelos mais celebres pintores italianos, e em chegando ahi, fecho a bôcca e pego no lapis. É então que o livro falará pelo _cicerone_.

Ernesto conduziu os seus amigos á sala de Niobe e ao chegar deante d'aquelle grupo que representa a mais sublime epopeia da dôr maternal, ao deter-se em frente d'aquella mãe, cem vezes mais dolorosa do que a dos Machabeos, tirou o chapéu com veneração e ficou como que fascinado ante aquella esculptura, creada pelo magico cinzel de Scopas 478 annos antes de Christo, para que fosse o pasmo e a admiração das edades futuras.

D. Ventura descobriu-se tambem, apezar de não comprehender o valor de tão interessante grupo que tinha ante si. Para elle, aquillo era uma mãe chorando seu filho morto e uma joven ferida que agonisava; para Ernesto e Amparo, que tinham uma alma mais artistica, mais enthusiastica, aquelle drama maternal, aquella cabeça sublime modelada, enlouquecida pela dôr, era uma obra sem rival. Scopas, o _artista da verdade_, apparecia ante os seus olhos como o gigante da esculptura.

--Que bello grupo!

--Sim, senhora D. Amparo, respondeu Ernesto. Para os que têem a arte em alguma conta só para vêr esse grupo vale a pena vir a Florença, ainda que das regiões mais afastadas do universo. Essa scena é tão sublime, tão dramatica, que os exigentes criticos de Athenas inclinaram a cabeça com admiração, assombrados de tão grande obra. Na figura da mãe está toda a alma de Scopas.

D. Ventura, que não compartilhava do enthusiasmo do pintor nem de Amparo, um pouco enfadado com tantas exclamações, nas quaes não podia tomar parte por se julgar profano no assumpto, disse, instigado pela curiosidade:

--Mas o que representa esse grupo que tanto admiram?

--Scopas foi um artista pagão. No seu tempo estava em moda a Mythologia, e os homens adoravam as deusas e os deuses do Olympo, apezar dos seus defeitos e fraquezas, disse Ernesto. Pois bem, Niobe era filha de Tantalo e esposa de Anfior, rei de Tebas, tão presumida da sua fecundidade, que se queixou amargamente aos deuses vendo que no Olympo se dava sensivel preferencia sobre ella á deusa Latona, filha de Saturno e de Febe, mãe de Apollo e Diana, e esposa, segundo se assegura, de Jupiter. Os deuses irritaram-se da soberba d'aquella pobre mortal que se atrevia a refutal-o e combinaram um terrivel castigo. Appollo e Diana feriram com as suas flechas os filhos de Niobe; Jupiter converteu em pedras os subditos da orgulhosa rainha de Thebas, que queria ser mais do que uma deusa. Durante nove dias, os filhos de Niobe permaneceram no solo cobertos de sangue; a agonia foi grande, terrivel, tragica, até ao grau mais sublime; Niobe, louca de dôr e de amargura, derramando um mar de lagrimas, arrancando os cabellos de desespero, pedia soccorro com gritos d'alma, mas os seus vassallos permaneceram immoveis e indiferentes. Por fim ao decimo dia Jupiter compadeceu-se d'aquella mãe e julgando-a já sufficientemente castigada, tornou á vida os thebanos, permittiu que tomassem algum alimento, mandou enterrar os filhos, e convertendo Niobe em uma rocha, collocou-a no cume d'um solitario monte, onde chora eternamente a perda dos queridos fructos das suas entranhas, sendo um monumento de vergonha dos vingativos deuses do Olympo.

Quando Ernesto acabou o conto mythologico D. Ventura, movendo a cabeça em signal de duvida, disse:

--Mas tudo isso é uma fabula.

--Que deu bastante assumpto, respondeu o pintor, para que Scopas, deixasse essa sublime e inimitavel esculptura, que é uma verdade admirada por todas as nações; grupo sublime do qual nos permittirá que tiremos um rapido _croquis_.

E Ernesto começou a copiar a obra prima do celebre filho de Paros.

D. Ventura encolheu os hombros, e emquanto Amparo e Ernesto desenhavam a Niobe, entreteve-se a vêr os bustos antigos, as estatuas egypcias, os sarcophagos e o retrato de Bruto feito por Miguel-Angelo.

O rico commerciante passava com ligeireza por todas aquellas obras de merito. Para elle não tinham a importancia que lhe attribuiam; e do fundo do coração dizia que os artistas eram uns pobres loucos que viviam de illusões, exaggerando tudo.

Ernesto e Amparo entretanto tiravam um desenho do grupo: e tão embebidos estavam no seu trabalho que não repararam que um rapaz elegantemente vestido, de correctas feições e maneiras distinctas, se deteve a poucos passos d'elles, e tomando das mãos de um creado que o seguiu o _carnet_ de desenhos, começou a tirar uma copia da celebre esculptura de Scopas.

Chamava-se Fernando de Villar, Conde de Loreto.

Quando Amparo desviou os olhos do papel onde desenhava viu o conde, e este cumprimentou-a com um ligeiro movimento de cabeça. Ernesto cumprimentou-o mas com uma certa frieza que demonstrava o desgosto que lhe causava a presença d'aquelle homem.

Ao sair da sala de Niobe, D. Ventura disse:

--Viram o conde de Loreto?

--Era o joven que desenhava proximo de nós? perguntou Amparo.

--Sim. Occupa o andar por cima de nós.

E deixando a conversação continuaram visitando o palacio.

O rico museu dos Médicis, contem dezenove galerias.

Não é, pois, nosso intento percorrer minuciosamente estes immensos arsenaes da arte, detendo-nos ante cada obra-prima que se apresenta aos avidos olhos do viajante enthusiasta.

Os nossos amigos dedicaram os dias a vêr os museus, as bibliothecas e as egrejas. Para as noites ou assistiriam aos espectaculos, ou passeariam nos jardins, aspirando os perfumes.

A segunda noite da sua estada em Florença, Amparo passeava no jardim com Ernesto, quando lhe chegaram aos ouvidos as melodiosas notas de um orgão expressivo, tocado com tanto gôsto como mestria. Detiveram-se e ouviram com a religiosidade dos amantes de musica.

No dia seguinte Amparo perguntou ao senhor Rosales quem tocava o orgão.

--O senhor conde de Loreto. É um grande musico.

Desde então Amparo abriu algumas noites a janella para ouvir o orgão

Um dia D. Ventura deteve-se deante da celebre mula negra do palacio Pitti.

--Isto será um capricho de algum celebre esculptor? perguntou.

--Isto é a vergonha de um nobre tão ingrato como parvo, respondeu Ernesto.

--Temos outra historia como a da Niobe?

--Não, esta é historica e vergonhosa para o auctor. Luc Pitti foi um homem cuja riqueza e liberdades lhe tinham grangeado a estima dos seus concidadãos e a aura da popularidade. Pitti quiz luctar em magnificencia com Cosme de Médicis, e começou a construir um palacio, que é este em que nos achamos; mas bem depressa se viu arruinado, e a obra teve que suspender-se. O povo sempre generoso e agradecido com os que d'elle se recordavam e os Médicis, protectores da arte, vieram em ajuda do soberbo Pitti, publicou-se um decreto concedendo o perdão a todos os criminosos e malfeitores que viessem trabalhar no palacio de Luc. O povo correu em tropel a trabalhar nas obras: todos os condemnados de Italia vieram tambem. O palacio acabou-se com o suor dos pobres; mas Pitti tão nescio como ingrato, fez construir essa mula gravando-lhe no pedestal um distico latino para sua eterna vergonha, pois prova-nos a sua inqualificavel ingratidão, porque a mula representa o povo e o distico diz: «_Esta azemola trabalhou e conduziu tudo; pedras, marmores, madeiras e columnas._»

Outra tarde Ernesto conduziu os seus amigos á egreja de São Giovanni, fazendo-lhes admirar os quadros de Andrea del Sarto, tão miseravelmente retribuido pelos frades, e ante a inimitavel _Virgem do Sacco_, por cuja obra, que admira o orbe, pagaram-lhe com um sacco de trigo os irmãos servitas da Annunciada, abusando da pobreza do artista, que se vingou, pondo o mundo por testemunha da sua humilhação dando á sua obra o nome de _Virgem do Sacco_.

Visitaram tambem os sepulchros dos poetas e dos grandes artistas. Junto ao de Dante Alighieri, onde chora a poesia e medita a estatua de Florença, Amparo e Ernesto recordaram Beatriz e os seus interessantes amores.

Assim se passavam os dias, crescendo nas almas dos dois jovens esse preludio do amor que se chama sympathia.

Mas deixemos a luz d'esse esplendoroso sol de Floreça, para gosar dos poeticos raios da lua. A noite tem tambem os seus attractivos.

CAPITULO VI

Um beijo

Os nossos viajantes foram varias vezes aos theatros mais importantes de Florença; ao de _Pergola_ que comporta duas mil e quinhentas pessoas, que tem cinco ordens e cento e dez camarotes, ao de _Los Intrepidos_ e ao de _Alfieri_.

O tempo passava-se sem se sentir.

D. Ventura disse uma manhã:

--É preciso pensar na nossa volta para Hespanha, e contando que sempre nos demoraremos quinze dias em Paris, não temos muito tempo para permanecer em Florença.

Isto foi um grito de alarme para Ernesto. Era tão feliz ao lado de Amparo!

Os vinte cinco dias passados em Florença tiveram para elle a duração de um minuto. Milhares de vezes durante esse periodo esteve a ponto de lhe assomar aos labios o segredo que se lhe occultava no coração.

O receio detinha-o. Amava Amparo com tão firme, tão pura paixão, que o medo de um desengano lhe emmudecia a bôcca.

Uma tarde D. Ventura sahiu para receber uma lettra. Amparo, sentada proximo da janella, entretinha-se em colleccionar e guardar um grande numero de desenhos, feitos pelo seu companheiro, das bellezas artisticas que juntos tinham admirado.

Ernesto entrou no gabinete. Amparo extendeu-lhe a mão sorrindo-se:

--Bem vê, senhor Ernesto, que como a nossa partida se approxima, occupo-me em colleccionar convenientemente estes preciosos desenhos, que conservarei toda a minha vida, pois encerram a historia d'esta viagem encantadora, viagem que, como todas as cousas terrestres, tem que acabar em breve.

Ernesto julgou ouvir sair um debil suspiro dos labios de Amparo. O seu coração bateu com violencia, fez-se pallido e como receasse que as forças o abandonassem, sentou-se n'uma cadeira ao lado da joven.

--Para que a vi em Roma?!

Esta exclamação que se lhe escapou do coração fez estremecer Amparo; mas serenando immediatamente disse:

--Tem pena que a casualidade nos tivesse feito amigos?

Ernesto deixou cair a cabeça sobre o peito. A sympathica physionomia do pintor tinha n'aquelle momento a expressão da mais profunda tristeza.

Amparo compadeceu-se d'aquelle amante respeitoso que se não atrevia a declarar-lhe o seu amor.

A compaixão, essa bella e delicada qualidade da alma da mulher, apoderou-se do coração da joven, e com uma doçura infinita, perguntou:

--Mas, meu Deus. O que tem, Ernesto? Nunca mais nos tornaremos a vêr?

Ernesto, que sentia penetrar no fundo do seu coração a doce voz de Amparo, levantou a cabeça, fixou n'ella um amoroso olhar, e disse:

--Irei a Madrid antes do fim de setembro; mas durante esses tres mezes que faltam, a minha alma viverá em eterna solidão, rodeada de triste melancholia porque vae partir, e eu amo-a como um louco.

Amparo córou. As suas formosas faces cobriram-se d'esse encantador carmim que tão bem assenta ás jovens e que tanto arrebatam e enlouquecem os homens.

--Sim, para que occultar-lh'o por mais tempo? continuou Ernesto. Deve tel-o comprehendido. Se os meus labios ainda lh'o não disseram, os meus olhos têem-lh'o confessado infinitas vezes. Quando se ama pela primeira vez, com a vehemencia filha de um amor tão firme como verdadeiro, é trabalho em vão dissimulal-o. Os olhos revelam o sentimento da alma e atraiçoam-nos. Não é verdade, Amparo, que já tinha adivinhado que eu desde Roma a amava com toda a minha alma? Oh! isto certamente não era segredo para si.

Amparo suspirou. Os seus olhos bellos, cheios de melancholica expressão, fixaram-se com certo receio no joven, e com voz tremula e doce, respondeu:

--Sim, Ernesto, adivinhei-o e, não obstante, fui a causadora d'esta viagem. Se em Roma nos tivessemos separado, talvez que a estas horas já não pensasse em mim.

--Não pensar em si! Isso para mim é tão impossivel como seria a Tasso não pensar em Leonor, a Raphael esquecer a Fornarina, cujo retrato contemplámos os dois de mãos dadas em Roma, e cuja copia admirámos tambem em Florença. Para certos homens é um passa-tempo, uma nuvem de verão carregada de mais ou menos electricidade, mas que passa e que rapidamente desapparece; para outros, o amor é a vida, é a luz, é o ar que dá vida, força á imaginação, alegria á alma, porque o amor é para elle a unica luz que lhe embelleza tudo; tirando-lhe esse amor, ficam rodeados das mais profundas trevas e morrem de tristeza.

Ernesto ia continuar quando se ouviu a voz de D. Ventura, que falava na sala anterior com o senhor Rosales.

--Por Deus, Ernesto, disse Amparo com voz supplicante, que meu pae não suspeite nada!

--Esteja descançada, Amparo. Não receie que a importune; para amar não é preciso ser correspondido. Esta noite estarei á meia-noite no caramanchão do jardim. Espero-a até que amanheça: se vier, a bella flôr da esperança renascerá na minha alma, perfumando a minha existencia, se não vier, ámanhã, com qualquer pretexto, partirei para Roma e não nos tornaremos a vêr.

Amparo guardou silencio. Ernesto poz-se a arranjar os desenhos, procurando dissimular a sua commoção.

Quando entraram Rosales e D. Ventura, os dois jovens occupados com os desenhos, não inspiraram a menor suspeita ao honrado commerciante.

--Fazem muito bem em dispor tudo, disse D. Ventura. Entre quatro ou cinco dias tomaremos o caminho de França.

--Com que então decididamente partimos, papá? perguntou Amparo.

--Filha, ha cêrca de tres mezes que sahimos da nossa casa, é preciso voltarmos a ella.

--Em verdade, senhor D. Ventura, que esta viagem tem um tanto de traiçoeira, respondeu Ernesto esforçando por rir-se. Emfim, brevemente nos veremos em Madrid.

--Diga que é a melhor terra do mundo.

--Assim a reputo.

--Creio que hoje não temos nada que fazer, proseguiu D. Ventura.

--Esta noite, se quizerem, iremos ao theatro. Estreia-se uma opera em Pergala.

--Não, estou muito cançado, e esta noite quero-me deitar cedo; mas se quizer não se prenda por nossa causa.

--Convem-me ficar em casa. Temos que aperfeiçoar alguns desenhos, tirados tanto á pressa, que apenas são quatro traços. Tambem fico em casa.

--Ah! esquecia-me dizer-te que estive falando com o visinho do primeiro andar.

--Com o conde de Loreto?

--Sim.

--Dizem que é um sujeito que deu muitos desgostos á mãe... disse Amparo.

--Em Madrid está sempre em ordem do dia a mexeriquice: O conde de Loreto é um rapaz como muitos outros, que se divertem quanto podem, porque teve a sorte de herdar dos paes uma grande fortuna. Imagina que esse rapaz tem agora 28 annos, possue uma fortuna de quinze milhões. Demais, dizem que é muito instruido. O nosso hospedeiro não se cança de o gabar.

--É um bom hospede, disse Amparo, sorrindo-se.

Ernesto não tomava parte na conversa: desagradava-lhe ouvir elogios do conde.

Mas deixemos correr as horas, e com a rapidez do pensamento transportemo-nos ao jardim da casa que occupavam os nossos conhecidos.

Os relogios de Florença acabam de dar as onze e tres quartos, quando Ernesto saltou da janella para o jardim dirigindo-se para o caramanchão, coberto de madresilva, lupulo e hera.

Dentro do caramanchão haviam quatro bancos e uma mesa. Ernesto sentou-se n'um disposto a esperar toda a noite como tinha dito a Amparo.

A lua estava em quarto minguante, o céu limpido e de um azul escuro carregado onde as estrellas brilham de uma maneira extraordinaria.

A brisa nocturna roubava a essencia perfumada das flôres, e, sempre prodiga, espargia pelo ambiente como se tivesse envergonhado d'aquella usurpação.

N'um relogio de torre soou a meia-noite.

Ernesto levantou a cabeça, poz-se de pé e foi pôr-se em uma das entradas do caramanchão. O coração dizia-lhe que Amparo vinha.

A noite é em todos os paizes a protectora carinhosa dos namorados, porque o amor, vulgarmente timido á luz do sol, cobra valor e energia antes esses tibios reflexos que a lua envia do céu.

Ernesto, de pé junto da entrada do caramanchão, com uma das mãos sobre o coração e a outra languidamente caída, dirigia olhares cheios de inquietação para o silencioso edificio d'onde devia vir a sua felicidade, a sua dita, o anjo dos seus sonhos.

Passou-se um quarto de hora. Amparo não vinha, e os segundos passavam com um vagar, com uma monotonia aborrecedora para Ernesto.

Por fim os labios entreabriram-se-lhe, sem duvida para dar um grito de prazer, mas conteve-se. Vira desenhar-se entre as sombras das arvores a encantadora silhueta de um corpo para elle conhecido, e em seguida uns passos se ouviram na areia das ruas que conduziam ao caramanchão, e o ligeiro _frou-frou_ de um vestido que se approximava.

Ernesto sahiu ao encontro de Amparo, porque era ella; pegou-lhe n'uma mão e conduziu-a até ao caramanchão.

A joven tremia; estava nervosa e pallida.

Ernesto sentou-a n'um dos bancos procurando tranquilisal-a.

--Obrigado, Amparo, obrigado por tanta bondade. Tranquilise-se, os homens honrados que amam como eu, sabem respeitar o objecto do seu amor.

--Ernesto, respondeu a joven, commetti uma imprudencia. Nunca devia ter vindo.

--Tão pouca confiança lhe inspiro?

--Sim, muita, meu amigo, muita; de contrario não teria vindo. Mas sou franca, não pude resistir, porque as ultimas palavras que me disse esta tarde pareciam recriminar-me. Bem vê: aqui estou, apezar de tudo. Tive um susto terrivel. Para vir ao jardim era preciso passar pelo quarto de meu pae; receei despertal-o. E sabe o que fiz? Pois bem, vou-lhe dizer: saltei pela janella. Nem eu mesmo posso explicar como tive coragem para tanto: tratava-se de me despedir de um amigo bom e leal, e não tive animo para faltar.

Ernesto tinha entre as suas as mãos de Amparo, que apertava docemente, escutando ao mesmo tempo aquella voz encantadora que tão suavemente lhe vibrava no coração.

Nunca experimentára um prazer tão completo, uma felicidade tão ineffavel.

O perfume das flôres, o aroma da madresilva que se espalhava n'aquelle recinto; a luz tibia da lua, que penetrava no caramanchão pelos intervallos das folhas; aquella mulher, bella como o mais perfeito e encantador sonho da sua alma de artista, tudo contribuia para que Ernesto se julgasse arrebatado da terra pelos anjos e transportado a esse paraizo de amor que tanto embriaga as pobres creaturas.

--Ha momentos de felicidade, exclamou Ernesto, que nunca deviam acabar. Se ao homem fosse dado escolher o momento da sua morte sem passar por suicida, eu escolheria este.

--Está louco, Ernesto?

--Quem sabe! Talvez. O amor não é outra cousa senão uma loucura sublime que conduziu Raphael aos pés de uma moleira, Tasso a uma prisão e Ovidio a uma masmorra. A historia conta-nos tantas loucuras de amor, que seriam necessarios muitos volumes para a descrever. Mas, feliz o que ama e é correspondido! Ditoso o que ao dar metade da sua alma, recebe em troca outra metade que lhe envia um peito agradecido em mutua correspondencia.

Amparo suspirou em silencio. Ernesto, julgando que esse suspiro era uma confissão, levou aos labios a mão da donzella, imprimindo n'ella um beijo.

Amparo estremeceu sem retirar a mão.

Esta condescendencia animou o pintor.

--Vamo-nos separar, Amparo; não nos veremos durante tres mezes; necessito ouvir antes uma palavra que inunde de felicidade o meu peito, que deposite o perfume da esperança em meu coração. Tambem me ama?