Part 12
Muitas vezes a noite surprehendeu-o nos barrancos, e Mauricio, sobresaltado, sahia em sua procura; e então o honrado caçador trazia-o ás costas até casa. Petra e Mauricio lamentavam em voz baixa a teimosia de Ernesto em não querer que se chamasse o medico do povoado proximo.
--Está claro, dizia Mauricio. A dôr que o afflige é tal que deseja acabar depressa com a vida, e quando menos pensarmos encontramol-o morto no monte.
Demais Ernesto, cuja fraqueza era em extremo, ia perdendo as forças e o appetite, e tinha caprichos extraordinarios que faziam estremecer Mauricio.
Certa manhã do mez de março (nevára muito durante a noite anterior e o sol que começava a elevar-se no horisonte convertia o gelo em brando rócio que tornava difficil o transito pelas ladeiras dos barrancos). Mauricio e Ernesto estavam no cume de um monte, quando se aperceberam de que andava uma raposa n'um monte proximo. Ernesto disparou, e o arisco animal soltou um grunhido.
O tiro ferira a raposa nas patas trazeiras; mas com o instincto da conservação arrastou-se até a borda de um barranco, deixando-se cair para a frente.
Ernesto correu até chegar á mesma borda do precipicio.
Mauricio gritou-lhe:
--Cuidado, cuidado, senhor Ernesto. Por ahi não ha passagem.
Ernesto dirigiu um olhar para o abysmo, viu a raposa que fazia esforços desesperados para chegar a uma toca, onde por fim se metteu.
--Indubitavelmente tem alli a femea e os filhos. Se pudessemos descer... disse Mauricio.
--E porque não? respondeu Ernesto, avançando intrepidamente até a abertura do abysmo.
--O terreno está escorregadio; é uma temeridade descer por este despenhadeiro. Um pé em falso, uma tontura, precipital-o-hia a quinhentas varas de profundidade, sobre um leito de pedras.
Ernesto inclinou-se, e, agarrando-se a uma matta que vegetava na borda do abysmo, começara descendo, procurando appoio para os pés nas saliencias da rocha e nos arbustos que cresciam entre as fendas.
Mauricio advertiu segunda vez do perigo imminente que o seu hospede corria, mas Ernesto, detendo-se na sua descida e levantando a cabeça, disse sorrindo-se:
--Não receies, meu bom Mauricio, ninguem morre sem que Deus queira; e se succeder faltar-me o appoio que procuro tranquillamente, e precipitar-me no abysmo, previno-te de que na minha carteira acharás um testamento que te livra de toda a responsabilidade.
E continuou descendo.
Mauricio sustinha com trabalho os cães, olhando com admiração para Ernesto.
Não faltava valor ao caçador para descer por aquelle difficil e perigoso caminho; mas isto teria sido uma imprudencia, pois, descendo atraz, augmentava muito o perigo do pintor.
Mauricio era um bom christão, acreditava nos destinos da Providencia, e, calculando que d'aquelle perigo só Deus podia salvar Ernesto, encommendou-o com fervor ao Altissimo.
A descida de Ernesto até chegar ao penedo onde se havia refugiado a raposa ferida, durou quatro minutos.
O pintor dirigiu um olhar sereno para o abysmo, murmurando em voz baixa:
--Mais profunda é a soledade da minha alma.
Mauricio fechou os olhos muitas vezes, julgando que o seu amigo ia despenhar-se, quando ao pôr o pé ou a mão em algum appoio este cedia.
Por fim Ernesto chegou a uma especie de plataforma. Alli estava seguro, mas era extremamente difficil subir, visto necessitar para isso de muita força nos pulsos.
De repente Mauricio, que se dispunha a descer, viu que as pernas de Ernesto se dobravam e que caia desamparado sobre as rochas que o sustentavam, dando com a cabeça n'um sovereiro, que providencialmente o salvou de uma queda fatal.
Mauricio soltou um grito. Ao principio julgou que o seu hospede rolasse para o abysmo, e então era indubitavel que o seu corpo, feito em mil pedaços, não pararia senão quando chegasse ao fundo. Com grande surpresa sua, viu que o mesmo sovereiro que crescia na fenda da rocha deteve o corpo da queda mortal, mas observou tambem que o corpo estava immovel e como morto e que da bôcca sahia algum sangue.
Mauricio, deixando-se levar pelo seu generoso coração, confiado nas suas herculeas forças desceu rapidamente até onde estava Ernesto, completamente desmaiado.
Durante dez minutos fez todos os esforços imaginaveis para o tornar a si; ora lhe chegava a garrafa do rhum ao nariz, ora lhe banhava as fontes com agua fria. Nada: Ernesto parecia um cadaver.
Então, desprezando o perigo que o cercava, tirou a cinta, atou Ernesto a ella, prendendo-o pela cintura, e, com o desespero do naufrago, começou a trepar pela ladeira levando suspenso á cintura o inanimado corpo do seu hospede, que oscillava sobre o abysmo como a pendula de um relogio.
Se a bôa Petra tivesse chegado n'aquella occasião e visto o perigo que o marido corria, certamente morreria de susto. Deus, evidentemente, que vê e premeia as bôas-acções, deu n'aquelle momento forças a Mauricio para chegar ao cume, salvando o hospede e salvando-se elle proprio.
Quando se viu fóra do abysmo, soltou um d'esses suspiros que dilatam o peito e, ajoelhando-se junto ao corpo inanimado do seu companheiro, deu graças á Providencia, que os salvara de tão imminente perigo.
O pintor continuava sem voltar a si.
Mauricio pôz depois as duas espingardas ao hombro, levantou com os seus robustos braços Ernesto e encaminhou-se precipitadamente para casa, que não ficava muito longe.
Petra ao vêl-o entrar pallido, coberto de suor, a respiração offegante e com Ernesto desmaiado nos braços, cujo rosto estava manchado de sangue, soltou um grito de espanto e disse:
--Que foi, Mauricio? Que succedeu? Morreu o senhor Ernesto?
--Não, não morreu, respondeu Mauricio, está apenas desmaiado. Não te assustes e ajuda-me a mettêl-o na cama.
Um quarto de hora depois Ernesto abriu os olhos, dirigiu um olhar vago em redor, e vendo Mauricio e Petra juntos de si, extendeu-lhes as mãos e disse com difficuldade:
--Obrigado, meus amigos, devo-lhes a vida e agradeço-lhes de toda a minha alma, porque não quero morrer emquanto não concluir os tres retratos que prometti ao conde de Loreto.
--Mau! mau! disse o caçador. É verdade que o perigo foi grande, mas já lá vae. Que maldita raposa.
Ernesto não respondeu, mas, pegando na mão de Mauricio, apertou-a de encontro ao peito com fraternal carinho.
CAPITULO XXVII
O anjo da morte
Durante quinze dias, Ernesto não sahiu de casa; pintava de manhã e de tarde. Só alguns curtos momentos deixava a sua tarefa, para dar um passeio em frente de casa.
Vendo pintar aquelle joven febril com os olhos encovados e a respiração fatigante, dir-se-hia que tinha esse afan do homem de genio que presente a morte e que quer concluir a obra que o deve immortalizar.
Estavam concluidos os retratos do conde, e de D. Ventura e tinha entre mãos o de Amparo.
Ás vezes chamava Mauricio e perguntava-lhe:
--Conhécel-os? Parecem-se?
--Oh! Muito! São elles por uma penna.
Depois dava um charuto a Mauricio, accendia outro, apezar da tosse que o fumo lhe causava, e continuava pintando.
No quarto do pintor, graças ás offertas do conde de Loreto, encontravam-se todas as commodidades apetecidas. Quatro pelles de leão almofadavam o sobrado; duas commodas cadeiras de braços forradas de marroquim recebiam o pintor quando se sentia fatigado.
Muitas vezes dizia o pintor, sentado junto do fogão e tomando uma chavena de café:
--Isto não é viver n'um monte: é ter um oasis no meio d'um deserto.
Certa manhã recebeu uma carta dos seus amigos Marcial e André, dizendo-lhe que lhe haviam conferido o primeiro premio e que lhe iam levar a medalha: que mandasse um homem á estação de Toledo para os acompanhar ao monte.
Ernesto chamou Mauricio e disse-lhe:
--Ámanhã devem chegar a Toledo uns amigos de Madrid que veem passar alguns dias commigo. É preciso que os vás esperar á estação, que arranjes cavallos para o que fôr preciso e que os tragas para aqui. Tambem seria bom que trouxesses da cidade o que tua mulher precisar.
Ernesto guardou os retratos para que os seus amigos não vissem. Era avaro do seu thesouro, não queria que o profanasse a publicidade.
Marcial e André não eram caçadores; mas a caça é agradavel a todos os homens, sem duvida porque os coelhos não usam revólver para se defenderem, nem as perdizes disparam dardos contra os seus perseguidores.
Dizem que a caça é a imagem da guerra, sem duvida porque se queima polvora e se derrama sangue; mas a mim parece-me que da guerra á caça vae muita differença e bem crente estou de que o governo não passaria todos os annos trinta e seis mil licenças de caça se o caçador corresse tanto perigo como o soldado deante do inimigo.
Mas se todos gostam de disparar contra os inoffensivos coelhos, as ladinas perdizes e as ligeiras lebres, não é para admirar que qualquer habitante da cidade, ao encontrar-se n'um monte, povoado de caça e tendo á sua disposição uma espingarda, não tente derramar sangue, ainda que não seja senão para se baptisar com a cruz de Santo Eustachio.
Chegaram os amigos de Ernesto e depois dos abraços e das exclamações ante o selvagem panorama, falou-se do quadro de Esther; almoçaram, tomaram café, beberam tres garrafas de Champagne e pensaram em caçar visto haver espingardas e caça.
Mauricio propoz uma batida e se bem que os caçadores não fossem muito felizes, em compensação viram correr e voar muita caça.
Á noite, Petra serviu uma ceia, senão muito variada, pelo menos muito abundante.
A mocidade tem bom estomago. Comeram bem e beberam muito melhor. Falou-se de Ernesto chegar a Madrid e este disse:
--Não penso por emquanto em abandonar estes montes, porque estou aqui perfeitamente. Convenci-me de que a solidão do campo e o ar saudavel d'estas serras me são muito mais proveitosas do que a vida agitada da cidade.
Todas as reflexões de Marcial, todos os conselhos de André não conseguiram demover Ernesto. Os amigos convenceram-se de que seria inutil falar em similhante assumpto.
Os amigos do pintor ficaram com elle mais tres dias. Chegou a hora da partida. Marcial tinha em ensaios uma comedia e não podia retardar o seu regresso a Madrid. Despediram-se promettendo fazer outra visita no mez de maio, se Ernesto até então não tivesse abandonado os montes.
Ernesto, n'um ponto elevado, viu-os afastarem-se montados nos cavallos e cantando o côro das bruxas de Macbeth.
--Aquelles são felizes, disse com tristeza, porque em seus corações vive a alegria da juventude, a esperança da gloria. Ide em paz, meus amigos, a quem nunca mais verei, a não ser que exista alguma cousa da vida occulta ao olhar do homem para lá d'esse céu azul que se extende sobre a minha cabeça.
Ernesto sentou-se. Uma volta do caminho tinha occultado os amigos, a quem, como acabava de dizer, não tornaria a vêr.
Durante uma hora ficou immovel como o penedo que lhe servia de appoio.
Depois levantou-se, vagarosa e tristemente, dirigiu-se para casa, tirou o retrato de Amparo, collocou-o no cavallete e pôz-se a pintar.
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Quando algum conhecido de Mauricio ia caçar aos montes, Ernesto fechava-se no seu quarto e poucas vezes sahia. Pintava, lia, e bebia rhum.
Estava muito doente, mas continuava regeitando os conselhos dos amigos e os auxilios da sciencia.
Durante os mezes da primavera, pareceu fortalecer-se alguma cousa. Passou o verão um tanto alliviado, trabalhava pouco, e ainda por duas vezes mandára Mauricio a Madrid levar quadros de caça ao conde, ficando em seu poder os retratos completamente concluidos, dizendo:
--Isto será a minha despedida, o meu testamento. Chegou o mez de outubro, e Ernesto com os primeiros frios, apanhou uma recahida e perdeu por completo o appettite; apenas se levantava para se sentar na cadeira e d'esta para se metter na cama. Mauricio e Petra insistiram varias vezes com elle para o convencer a que chamasse o medico.
--É inutil, meus amigos, dizia-lhes, talvez que em breve me faça mais falta um sacerdote.
Uma noite, Ernesto peorou a tal ponto, que Mauricio, sem o consultar, montou a cavallo, foi ao povoado de Orgaz e trouxe um medico.
Ernesto, ao vêl-o entrar, ao perceber a que vinha, encolheu os hombros, dirigiu um olhar de gratidão a Mauricio, e disse:
--Tudo isso é inutil. O que preciso ámanhã é de um sacerdote.
O medico viu effectivamente que a doença de Ernesto era incuravel, receitou por simples formalidade e disse que o chamassem se houvesse mais alguma novidade.
Ao sahir, disse a Petra:
--Chamem o padre com urgencia, porque este homem apenas tem tres dias de vida.
Petra chorou, e contou ao marido o que o medico lhe dissera.
Estavam verdadeiramente impressionados.
Quando Mauricio á noite entrou com a luz no quarto de Ernesto este estava sentado n'uma cadeira proximo da mesa.
Ardia um bom fogo no fogão e, apezar do frio não ser muito, Ernesto queixava-se de que se sentia gelado; era a morte, que avançava a passos gigantescos para se apoderar do coração, para extinguir a vida n'aquelle corpo, para separar a alma da materia.
--Mauricio, poe ahi a luz, approxima uma cadeira, senta-te aqui a meu lado, disse o pintor, porque temos muito que conversar e não temos tempo a perder.
Mauricio obedeceu sem dizer uma palavra. Só de quando em quando olhava para o cadaverico semblante do seu hospede, pensando que já tinha visto defuntos com muito melhor parecer.
--Tudo n'este mundo tem o seu fim, meu amigo, ajuntou Ernesto com voz fraca e pausadamente. O dia nasce e morre como a planta e o homem. A vida, como o canto do passaro, como as folhas das arvores, está sujeita á vontade do Creador. Rebellarmo-nos contra tal, é uma loucura, uma temeridade ou uma cobardia. Ninguem se salva da morte, ainda que diga com toda a força do seu desespero: «Não quero morrer.» Assim, pois, é preciso resignarmo-nos. Toda a sabedoria, toda a sciencia, toda a grandeza do homem não é sufficiente para prolongar um segundo sequer a sua vida. Alexandre como Cesar, Aristoteles como Cicero, morreram quando soaram as suas horas, apezar de serem quem foram. A minha approxima-se e é preciso preparar tudo para a minha ultima viagem.
Ernesto deteve-se, respirou, levou a mão ao peito e fixou os olhos em Mauricio, cujo semblante compungido, manifestava a profunda magua da sua alma, porque as palavras sentenciosas e tristes do seu hospede, a quem estimava como a um pae, o affligiam.
--Quero, pois, meu bom Mauricio, inteirar-te do que tens a fazer no dia seguinte ao da minha morte, que não está longe. Por isso, te pedi para te sentares e que me prestasses attenção. Dei grandes incommodos tanto a ti como a tua mulher; têem sido bons amigos para mim, devo-lhes muitos favores, e é por conseguinte meu dever não os esquecer na hora da minha morte. Quizera ser rico como um nababo para lhes deixar toda a minha fortuna, pois bem sabes que não tenho herdeiros forçados; mas, apezar de ser muito pobre, farei tudo quanto possa para os recompensar em parte de todos os beneficios que recebi.
--Mas, senhor Ernesto, nós é que devemos estar agradecidos ao senhor, disse Mauricio, porque desde que tivemos a fortuna de o vêr entrar para nossa casa, têem sido muito maiores as recompensas que temos recebido do que os insignificantes serviços que lhe temos prestado. Por isso não temos que falar sobre esse assumpto.
--O interesse e o carinho que têem dispensado a este pobre doente, nunca o pagarei sufficientemente. Mas deixemos esse assumpto, e ouve.
Ernesto fez uma pausa, pegou n'um rolo de papeis e n'uma carta, e disse:
--Quando eu morrer, e depois do meu enterro, vaes a Madrid onde tens duas commissões a desempenhar da maior importancia. Esta carta para os meus amigos da rua do Prado, e os tres retratos e esta outra carta para o senhor conde de Loreto. Indubitavelmente todos, ao saberem que deixei de existir, querem saber pormenores da minha morte. Dize-lhes o que vires, a verdade. E agora só me falta dizer-te que encontrarás escripto e assignado n'esta folha de papel, que te deixo como herança, como livre senhor que sou de tudo, que me pertence; isto é, tudo isto que nos rodeia, inclusivamente o pouco dinheiro que eu tiver na gaveta da commoda, é teu e de tua mulher.
Mauricio que havia já um boccado luctava para suster as lagrimas, levou as mãos aos olhos.
--Vamos, não te afflijas; da-me um abraço e vae-te deitar. Só tenho ainda a pedir-te para que ámanhã cedo me tragas um padre, porque é bom pensar em Deus alguns minutos antes de morrer, quem esteve tantos annos occupando-se sómente dos pygmeus da terra.
Mauricio precisava sahir d'aquelle quarto para chorar desafogadamente; entrou na cosinha, contou a Petra tudo quanto se passára e acabaram por desatar em amargo pranto.
N'aquella noite nem Petra nem Mauricio puderam dormir.
De quando em quando vinham em bicos de pés até a porta do quarto de Ernesto, e espreitavam pelo buraco da fechadura.
Ernesto continuava sentado na cadeira, ora escrevendo, ora com os cotovellos encostados na borda da meza, e a cabeça appoiada nas mãos.
Pouco antes de amanhecer, Mauricio montou a cavallo e foi chamar o padre.
Ás sete da manhã, Ernesto viu entrar um velho de rosto bondoso e cabellos brancos. A batina preta, a sobrepeliz, e sobretudo a doce expressão d'aquelle rosto, fel-o comprehender que tinha na sua presença o pastor das almas d'algum povoado proximo.
O sacerdote e o pintor estiveram fechados tres horas. O que disseram pertence ao segredo inviolavel da confissão.
Quando o padre sahiu, entrou Mauricio.
Ernesto disse-lhe:
--Faze favor de pôr uma tela no cavallete e de o levares bem como esta cadeira para proximo da janella. Vou fazer o meu ultimo trabalho.
Ernesto pegou na paleta, nos pinceis e sentou-se porque não podia trabalhar de pé, principiando a esboçar uma Nossa Senhora das Dôres.
Apezar do seu estado, pintava com incrivel ligeireza.
A febre da morte guiava-lhe a mão.
Em dia e meio pintou uma formosa mãe do Nazareno, de corpo inteiro; mas aquella virgem, apezar da doce melancholia do seu semblante, era um perfeito retrato da condessa de Loreto.
Evidentemente aquella obra feita de momento, aquelle trabalho feito ás portas da morte, era uma das melhoras obras de Ernesto.
Mauricio e Petra ficaram assombrados ao verem-no concluido.
--Ah! Que pena um homem assim morrer tão novo! exclamou o rude caçador n'um arranco de sublime enthusiasmo.
--Mauricio, disse Ernesto, quando eu morrer entregarás este quadro ao sacerdote que me ouviu em confissão, e diras que, já que os francezes roubaram de uma capella da sua modesta egreja uma formosa Senhora das Dôres, eu offereço-lhe esta para que a ponha no seu logar, apezar de não valer, estou certo, nem a quinta parte do que valia a outra.
No dia seguinte, Ernesto conheceu que lhe restava poucos minutos de vida.
O sol entrava pela janella.
O enfermo permaneceu cêrca de meia hora com o olhar fito no céu e as mãos postas em religioso recolhimento.
Petra e Mauricio, que estavam a seu lado, não se atreviam a interrompel-o d'aquelle doce extasis.
--Meus amigos, disse Ernesto, extendendo os braços e, pegando nas mãos de Petra e de Mauricio, vêem aquella nuvemsinha branca que está suspensa no espaço?
Os dois olharam para o céu, mas não viram nuvem nenhuma, contudo Petra respondeu com voz fraca:
--Sim.
--Pois bem, no meio d'essa nuvem vem o anjo da morte buscar-me. Oh! É mais bello do que eu o suppunha. Os seus trajes são brancos como o disco da lua, brilhante como a prata polida. Os seus olhos são negros e de um brilho raro. O seu rosto, pallido e cheio de bondade, sorri-se com um sorriso frio que penetra até a medulla dos ossos. Sobre a fronte lê-se a palavra _Perdão_, e os seus braços extendem-se até mim como para me receber. Ah! Se eu pudesse retratal-o!... Mas experimentemos. Dá-me a paleta e os pinceis! Põe uma tela no cavallete!
Ernesto apertava as mãos de Petra e Mauricio; mas subitamente soltou-os e dando um debil gemido, levou-as aos olhos e disse:
--Não posso!... Não posso!... Perdi a luz dos olhos!... Estou cego!... Amparo!... Amparo!... Amo-te como sempre!... Meu Deus!... Recebei-me!...
Os braços do pintor cairam sem forças, estremeceu todo o corpo, abriram-se-lhe e fecharam-se-lhe tres vezes as palpebras, e um debil suspiro se lhe escapou do peito.
Depois ficou immovel na cadeira e reinou o silencio frio da morte.
A alma do pintor abandonára a materia.
Ernesto já não existia.
Pobre filho do genio! Pobre sonhador que trocou a sua gloria, o seu futuro, por um beijo.
Mauricio e Petra ajoelharam junto da cadeira onde jazia o seu hospede, e com os olhos cheios de lagrimas, resaram pelo eterno descanço d'aquelle desventurado moço que tinha deixado de existir, e em cujos pallidos e entreabertos labios julgavam ver um sorriso triste, lamentoso, como a morte que lh'o produzira.
CAPITULO XXVIII
Conclusão
O sacerdote, que ouvira o pintor em confissão, em signal de agradecimento pela bellissima Senhora das Dôres que elle offerecera á sua egreja, resou uma missa cantada pelo descanço da alma do artista.
Mauricio deu sepultura ao corpo de Ernesto no cemiterio da villa de Orgaz.
Depois de cumpridos estes tristes deveres, Mauricio dispôz-se a cumprir as ultimas vontades do seu hospede.
Preparou tudo para a viagem e disse á mulher:
--Ámanhã vou a Madrid desempenhar-me das commissões de que me encarregou o senhor Ernesto. Durante a minha ausencia se não queres ficar só levar-te-hei até Toledo. Calculo não me demorar mais de tres dias.
--Vae socegado e sem pressa; eu não deixo a casa onde estão os nossos haveres. Demais, os pastores têem as choças aqui perto, e se tivesse necessidade, bem sabes que me prestariam qualquer auxilio.
Mauricio partiu.
A carta que Ernesto escrevêra aos seus amigos da rua do Prado, resumia-se a uma terna despedida.
Sigamos, pois, Mauricio, a casa do conde de Loreto.
Fernando del Villar, por quem uma carruagem esperava á porta, descia a escada do seu palacio quando viu entrar Mauricio com os tres quadros perfeitamente empacotados.
O conde parou ao reconhecer o caçador dos montes de Toledo.
--Ah! É o senhor? lhe disse. Como está Ernesto?
--Morreu! respondeu Mauricio.
--Como? Morreu?
--Ha quatro dias, senhor conde.
--Pobre rapaz! Mas suba, suba.
O conde começou a subir precipitadamente, seguido de Mauricio, atravessou varias casas e por fim entrou n'um elegante e luxuoso escriptorio.
--Morreu!... repetiu o conde deixando-se cair n'uma cadeira. Pobre Ernesto! Não esperava similhante noticia. Sente-se, sente-se, meu amigo, e diga-me qual o fim da sua vinda, porque creio que ha mais alguma cousa do que annunciar-me tão irreparavel desgraça.
--O senhor Ernesto encarregou-me na vespera da sua morte de trazer ao senhor conde estes tres retratos e esta carta.
O conde levantou-se, desatou o cordão que prendia os quadros, e, collocando cada um em sua cadeira, levantou o estore da janella para que entrasse mais luz.
Quando os olhos se fixaram nos retratos, e em especial no da condessa, não poude conter uma exclamação, um grito de assombro.
--Isto é admiravel! Isto é admiravel! Que pena que homens assim vivam tão pouco!
E ficou immovel como que extasiado deante do retrato da mulher.
O conde era um conhecedor de pintura. Viajára muito e vira muitissimo; conhecia toda essa collecção de retratos celebres, que honram os seus auctores, pendurados em exposição nas paredes dos museus; mas nenhum ainda lhe produzira tanta admiração como a tela que tinha ante si.
O retrato de Amparo era uma obra-prima, pelo desenho, pelo colorido e sobretudo pela parecença.
Demais a bôcca d'aquella mulher, perfeitamente modelada, tinha uma expressão tal que parecia ter vida. Dir-se-hia que aquelles labios humidos, de uma côr bella, um pouco entreabertos, palpitantes de amor e de ternura, iam dar um d'esses beijos que inflammam para sempre a alma do homem que o recebe.
Os olhos, de belleza irresistivel, meio velados pelas compridas pestanas exprimiam tambem amor e melancholia.