Part 13
Ao conde de Loreto nunca parecêra tão formosa a mulher como n'aquelle momento em que comparava o original com o retrato; mas aquelle retrato, onde a mão do pintor, sem se servir da adulação, possuia alguma cousa mais do que a frialdade immovel da pintura, tinha por assim dizer a alma do artista occulta atraz dos olhos e atravez aquella bôcca encantadora.
Ninguem, ao vêr o retrato, duvidaria de que estava um beijo suspenso dos divinos labios d'aquella mulher, e, comtudo, o pintor não violára nem uma só linha, nem na mais delicada sombra, a posição natural d'aquella incomparavel bôcca.
O conde, que assim o comprehendeu, teve o retrato por uma obra-prima, e, amante da arte que immortalizou Raphael, não podia desviar os olhos do quadro.
Durante um quarto de hora Fernando permaneceu como um extasiado. Mauricio estava triste e silencioso a seu lado.
Quando se cançou de contemplal-o, viu que tinha uma carta na mão. Era a que pouco antes lhe entregára o honrado Mauricio.
Rasgou o envellope e leu:
«Senhor conde de Loreto.
«Prestes a entregar a alma a Deus e o corpo á terra, pego na penna com mão fraca para lhe enviar as minhas despedidas.
«Quando receber a minha carta já terei deixado de existir. Um sêr a menos na terra, uma particula de pó a mais em algum ignorado cemiterio d'estas regiões; mas em compensação, outros seres nascem, emquanto o vento levanta o pó dos que morrem. O mundo segue o seu caminho: esta é a cadeia da humanidade.
«Remetto-lhe os tres retratos offerecidos. São as minhas ultimas obras; depois d'ellas os meus pobres pinceis não offenderão mais a arte inutilisando telas, estragando tintas. O unico merito que se lhe poderá attribuir será a parecença, e isso, sem duvida por que eu, durante o meu voluntario e penoso desterro, me não esqueci nem um só instante dos meus amigos.
«Vou concluir pedindo-lhe, senhor conde, um favor. Mauricio e Petra, isto é, o portador d'esta e sua mulher, foram durante a minha doença dois irmãos carinhosos. Se eu fosse tão rico como Salomão, deixar-lhes-hia toda a minha fortuna e creio que assim mesmo não lhes pagaria quanto lhes devo; mas sou pobre, e só posso pagar-lhes com amor e agradecimento os beneficios recebidos.
«Assim, pois, senhor conde, peço-lhe que entregue a Mauricio o valor que der aos tres retratos para que tenham com essa importancia uma recompensa do muito que lhes devo.
«Mauricio é um honrado caçador de profissão que me serviu com desinteresse e sem esperança de recompensa: não sabe portanto que me occupo d'elle n'esta carta.
«Desculpe-me, senhor conde, a liberdade que tomo, e não se esqueça de que ao soltar o meu ultimo suspiro bemdirei os meus amigos.
«Apresente os meus respeitos á senhora condessa e dê um abraço de eterna despedida ao meu bom amigo D. Ventura.
_Ernesto._»
O conde acabou a leitura da carta commovido, dobrou-a e guardou-a na algibeira.
Nos olhos havia uma certa humidade, devida ás lagrimas.
Mauricio, vendo que o conde guardava silencio, e desejando acabar com aquella visita, disse:
--Se o senhor conde m'o permitte, retiro-me, pois preciso ainda esta noite regressar a Toledo.
O conde dirigiu-se para o cofre, abriu-o, e, depois de pensar um momento, começou a contar notas de banco.
--Mauricio, disse Fernando, ignora sem duvida qual a missão de que o meu amigo Ernesto me encarrega n'esta carta.
--Só me disse para a entregar ao senhor conde juntamente com os retratos.
--Pois bem; Ernesto encarrega-me de lhe entregar seis mil duros que lhe devo.
--A mim? disse admirado o caçador.
--Sim, a si.
--Mas que devo fazer a esse dinheiro? Porque elle nada me disse ao morrer.
--Guardál-os para si.
--É impossivel! Seis mil duros é uma fortuna para um pobre como eu.
O conde, admirado da honradez d'aquelle homem, teve um nobre pensamento, e ajuntou:
--Desculpe-me; enganei-me.
--Eu logo vi que não podia ser, disse Mauricio quasi contente.
--Enganei-me na importancia, continuou o conde: em logar de seis mil duros são dez mil.
Mauricio empallideceu. Era uma fortuna.
O conde entretanto contou dez mil duros em notas do banco de quatro mil _reales_, e, collocando-os depois n'uma bandeja, approximou-se de Mauricio, dizendo:
--Isto é o que Ernesto Alvarez deixa como herança a Mauricio e Petra pelo seu generoso comportamento, pelos seus bellos sentimentos. Agora eu, o conde de Loreto, offereço a Mauricio, quando se fartar de ser caçador, o logar de administrador em um monte nas Asturias, com vinte e cinco reales por dia, casa, lenha e mais vantagens que me não recordam agora.
E o conde, apertando a mão ao honrado montanhez, ajuntou:
--Vá a Toledo, diga a sua mulher o que o senhor Ernesto dispôz na sua ultima carta, pense socegadamente o que mais lhe convêm, que aqui me encontrará sempre disposto a cumprir a minha palavra.
Mauricio pegou com a mão trémula nos dez mil reales, apertou depois de encontro ao peito a mão do conde e, com olhos marejados de lagrimas e o parecer bastante commovido, disse:
--Mas que fiz eu para merecer tantos favores?
--Foi um homem de bem, um homem justo, respondeu o conde.
--Ah! a minha pobre Petra vae enlouquecer de alegria. Ella que dentro em pouco vae ser mãe! Ella, que nunca viu cem mil reales! Ella que é tão boa! Todos os nossos filhos aprenderão a bem dizerem os nomes do senhor Ernesto e do senhor conde de Loreto.
Fernando acompanhou Mauricio até á porta, depois voltou para o escriptorio e, sentando-se em frente do retrato da mulher, disse:
--Ernesto não existe, mas nos labios d'este retrato, n'aquella bôcca doce, apaixonada, amorosa como um beijo, deixou escripta a historia da sua morte.
FIM
[1] Um duro corresponde a 900 réis e um real a 50 réis, approximadamente.
[2] Moeda de ouro, que vale approximadamente 14$500 réis.
_N. do T._
Indice
CAPITULO I--Uma chavena de café CAPITULO II--Uma noite no Colyseu CAPITULO III--Sonhos côr-de-rosa CAPITULO IV--O pintor e o judeu CAPITULO V--O grupo de Niobe CAPITULO VI--Um beijo CAPITULO VII--Separação CAPITULO VIII--Caminho de Hespanha CAPITULO IX--De Florença a Paris CAPITULO X--A rosa de brilhantes CAPITULO XI--Mais um CAPITULO XII--Como se pede CAPITULO XIII--Os tres amigos CAPITULO XIV--Curiosidade não satisfeita CAPITULO XV--Carta interrompida CAPITULO XVI--Propostas CAPITULO XVII--Confiança CAPITULO XVIII--A golfada de sangue CAPITULO XIX--Pagar a hospitalidade CAPITULO XX--Abnegação CAPITULO XXI--Abandonando Madrid CAPITULO XXII--Vida de recordações CAPITULO XXIII--Uma caçada CAPITULO XXIV--Uma carta e um annel CAPITULO XXV--O regresso de Mauricio CAPITULO XXVI--Uma caçada ás raposas CAPITULO XXVII--O anjo da morte CAPITULO XXVIII--Conclusão
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End of Project Gutenberg's Historia de um beijo, by Enrique Pérez Escrich