Part 11
Ernesto sentiu o pé de Mauricio comprimir o seu, e como tinha a espingarda apontada, disparou.
As duas detonações produziram no espaço um só echo.
A bala de Mauricio foi tão bem apontada que o javali deu um salto, caindo sem vida depois de soltar um grunhido de raiva. A femea, a que Ernesto apontára foi ferida na cabeça; deu duas voltas, quiz fugir, mas foi cair junto ao charco; depois fez um esforço supremo, levantou-se novamente, entrou na agua para tornar a cair revolvendo-se nas ancias da morte, soltando grunhidos desesperados que pouco a pouco foram enfraquecendo.
Os demais tinham desapparecido como por encanto.
Mauricio ouvia as palpitações do coração de Ernesto cujo ruido e precipitação o assustaram.
--Está peor? lhe perguntou.
--Não, não; é o prazer que experimento n'este momento. Se tornasse a renascer em mim a paixão da caça, talvez esquecesse uma historia que me assassina, que será a causa da minha morte.
O pintor revelára a Mauricio n'um arranco de enthusiasmo, a causa da sua melancholia, a origem da sua doença.
--E que fazemos agora? perguntou Ernesto.
--Primeiro que tudo castrar o macho para que sangre e a carne perca o gosto a bravo.
Mauricio levantou-se, tirou a faca de matto da bainha, e sahiu do esconderijo, dirigindo-se para o sitio onde estava o javali.
Ernesto segui-o, examinando com o mais particular interesse todas as operações que Mauricio fazia ás duas peças mortas.
O caçador depois de lhe abrir todo o ventre e de lhe tirar os intestinos, pendurou-os pelos pés para que sangrassem e ficassem limpos. Depois lavou as mãos na agua do charco, e disse:
--Agora diga-me se quer dar por terminada a caçada ou quer fazer nova espera, apezar de me parecer melhor, o primeiro caso, pois é preciso esperar pelo menos duas horas até que volte outro javali.
--Vamos para casa. E as rezes?
--Ficam ahi. Venho logo buscal-as com o meu cavallo.
--Então dá-me um gole de rhum, e a caminho. Passei um bom boccado.
Ernesto bebeu e deu o frasco a Mauricio. Depois dirigiram-se para casa onde o pintor chegou bastante fatigado.
CAPITULO XXIV
Uma carta e um annel
Ernesto deixou-se cahir na cama, e como sempre, o seu pensamento occupou-se de Amparo.
--Ámanhã, disse, falando comsigo, ouvirá pronunciar o meu nome, e no fundo da sua alma renascerá a recordação das noites de Florença. Os seus labios, vermelhos como bagos de romã, recordar-se-hão tambem d'esse beijo fatal que me fez o mais desgraçado dos homens, e pela mente do conde de Loreto cruzará debil, mas ameaçador, o phantasma de uma duvida, a sombra de uma suspeita.
Ernesto tinha sempre na mesa de cabeceira uma garrafa de rhum; extendeu o braço, pegou na garrafa e bebeu um gole.
--Ha quasi um mez sem a vêr, continuou, e comtudo a ausencia não apagou o fogo devorador d'esta paixão que me abraza. O conde de Loreto tinha mais direito do que eu para ser amado, mas indubitavelmente não a ama tanto. E que importa isso ás mulheres? O conde é rico, nobre, e a vaidade é o dominio tentador do bello sexo. Se o amor é o fogo d'alma que transmitte calôr ás ideias dos homens de genio, devo fazer grandes quadros.
E Ernesto soltou uma gargalhada, pegou novamente na garrafa, e quasi a despejou de um trago.
Na sua physionomia, no seu olhar, assomaram os symptomas da embriaguez produzida pelo alcool.
Com a lingua, presa e balbuciante, começou a falar em voz alta.
--A luz dos seus bellos olhos é o unico reflexo que illumina as profundas trevas da minha alma, a que acompanha a fria soledade do meu coração; as seis lettras do seu nome, as notas mais harmoniosas que resôam no fundo do meu peito. Insensato! A tua vida não é mais do que um sonho, que se desvanece ante o sopro da realidade. Tu recebeste tres beijos, durante tres noites de luar; aquelles beijos encerravam o veneno do teu sangue. A tua vida não é vida; o teu amor é só uma recordação. Onde está a morte? Porque tarda tanto? Porque não chega, quando a espero de braços abertos?
Ernesto fechou os olhos. Os seus labios entreabriram-se para deixar passar um suspiro, e ficou dormindo pensando em Amparo.
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Mauricio entrou no quarto do seu hospede ás cinco da manhã.
Ernesto levantou-se.
--Está tudo prompto para partires? perguntou.
--Sim senhor; tenho o javali grande preso convenientemente ao cavallo. Á femea, segundo as suas ordens, tirei-lhe a cabeça e o lombo; o resto fica em casa.
--Espera, disse Ernesto.
E pegando n'uma carta que estava sobre a mesa e n'uma tira de papel, continuou:
--Entregas esta carta, o javali grande e estes dois quadros ao senhor conde de Loreto, rua do Barquillo, n.º..., e comprarás tudo o que vae mencionado n'esta lista.
Ernesto abriu uma gaveta da commoda, tirou dez moedas de cinco duros e entregou-as a Mauricio.
Depois escreveu rapidamente n'uma folha de papel:
«Meus bons amigos
Marcial e André
«Remetto-lhes uma cabeça de javali que cosinharão no restaurante do _Armiño_ para almoçarem com alguns amigos, bebendo por este caçador _selvagem_ que se não esquece de vocês.
«Sempre amigo
«_Ernesto._»
--A cabeça e o lombo da femea entrega-os onde diz este envellope, rua do Prado. Vae com Deus e vem ámanhã, se te fôr possivel.
Mauricio sahiu, despedindo-se da mulher, e encaminhou-se para Toledo, onde devia tomar o comboio de Madrid.
Ernesto pegou na espingarda, chamou os seus cães Roma e Florença, e sahiu tambem em busca de perdizes, prevenindo Petra de que não viria almoçar antes do meio dia.
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O conde de Loreto, Amparo e D. Ventura estavam almoçando quando entrou um creado dizendo-lhes que estava á porta um homem que parecia um montanhez, que trazia uma carta, um javali e uns quadros.
--Ah! exclamou o conde, Ernesto cumpriu a sua palavra. Dize a esse homem que suba e tragam vocês o javali para o vêrmos.
Dois creados trouxeram o javali para cima de uma mesa.
--Soberbo animal! exclamou Fernando. Pelas cerdas e pelos dentes bem se vê que deve ser velho.
--Oito annos, respondeu Mauricio. Vale bem a onça de chumbo que lhe deu a morte.
--Pelo que vejo, Ernesto diverte-se pelos montes?
--Diverte-se, exclamou o caçador, tudo menos isso; está muito doente, dorme pouco e não tem appetite. A bem dizer que se alimenta só com café e rhum. Tenho cá um palpite em que não morrerá de velho.
Todos escutavam com interesse as palavras de Mauricio.
--Disseram-me que traz uma carta e uns quadros, disse Fernando.
--A carta está aqui: os quadros deixei-os n'aquella casa.
O conde leu em voz alta o seguinte:
«Senhor conde de Loreto
«Ignoro ainda se é proveitosa ao meu corpo esta soledade em que vivo ha vinte dias, mas conheço que é ao espirito.
«No cume d'estas montanhas não se vêem homens, não se encontra a animação nem o bulicio das grandes cidades, mas o ar é mais puro, o horisonte mais limpido, o ambiente mais perfumado e respira-se com mais facilidade.
«Seja como fôr, espero sem sobresalto que se resolva o problema da minha enfermidade, sem me occupar muito se será ou não vantajoso o desenlace.
«Com o portador d'esta, caçador infatigavel e amigo leal, em casa de quem vivo no meio d'estes barrancos solitarios, remetto-lhe o primeiro javali que matámos e dois quadros sobre assumptos de caça, genero a que tenciono dedicar-me emquanto tiver forças para sustentar o pincel.
«Não marco preço aos quadros que lhe envio, porque d'isso falaremos depois de lhe mandar doze. Demais, ainda que pobre, hoje não preciso de dinheiro, mas avisál-o-hei quando precisar. Seja, portanto, o meu banqueiro.
«Para lhes provar que não os esqueço, desejava que me concedessem auctorização para fazer trez retratos de memoria, ainda que se admire ao vêl-os, o meu leal amigo D. Ventura.
«Deponha aos pés da senhora condessa os meus respeitos, dê um abraço em seu sogro e não esqueça que n'este deserto fica esperando occasião de lhe ser util
«o seu amigo e obrg.º
«_Ernesto Alvarez._»
Amparo ouvira lêr a carta sem descerrar os labios, mas agradecia do fundo da alma a fórma delicada como estava escripta.
Só lhe prendeu a attenção a auctorização que pedia para pintar os tres retratos, entre os quaes devia figurar o seu.
--Quando tenciona voltar para Toledo? perguntou o conde ao caçador.
--Desejava ir esta noite no comboio das sete e quarenta. Os meus affazeres em Madrid, depois de sahir d'esta casa, resumem-se apenas a algumas compras de que o senhor Ernesto me encarregou, e entregar uma cabeça de javali e um lombo a uns senhores que moram na rua do Prado.
--Tem algum inconveniente em me dizer que objectos o senhor Ernesto o encarregou de comprar.
--Não, senhor; aqui está a relação.
E Mauricio entregou-a ao conde que depois de lêr, disse:
--Meu amigo, tenho em casa tudo quanto Ernesto deseja; não precisa, pois, ir comprar cousa alguma. Agora vá almoçar emquanto escrevo uma carta, depois irá levar a cabeça a esses senhores, e meia hora antes do comboio partir encontrará na estação, despachado para Toledo, tudo quanto Ernesto pede.
Mauricio com sinceridade natural, ia entregar ao conde o dinheiro que Ernesto lhe dera.
--Não, esse dinheiro entregue-o a quem lh'o deu, e demais, far-me-ha o favor de acceitar esta _onza_,[2] para comprar um presente a sua mulher.
Mauricio tentou recusar a _onza_, mas o conde obrigou-o a acceitál-a.
Depois, conduziram-n'o a outra casa onde lhe serviram o almoço.
O conde escreveu entretanto a seguinte carta.
«Amigo Ernesto
«Os quadros são bellos e o javali soberbo. Quando os homens têem talento trabalham em todos os generos. Obrigado pela sua boa memoria, obrigado, porque se não esqueceu de nós, apezar do mal que lhe temos feito.
«Pede-me auctorização para fazer tres retratos; concedo-lh'a satisfeito não só por lhe ser agradavel a si como tambem ás pessoas que vão ser retratadas nas telas.
«Desejava passar uma temporada na sua companhia para caçarmos juntos, e para vêr se o convencia a abandonar essa vida solitaria, principalmente durante os quatro mezes de rigoroso inverno.
«Até então veremos o que posso conseguir. Hei de fazer a diligencia.
«Fico esperando os doze quadros que me annuncia na sua carta, o que me prova que se sente animado para o trabalho.
«Adeus, meu amigo, e não esqueça que lhe desejamos todas as propriedades.
«Sempre seu amigo,
«_Fernando del Villar._»
O conde leu a carta á mulher e disse:
--Agora, minha querida, escreve quatro linhas ao nosso amigo; talvez isso lhe faça bem.
Amparo olhou o marido, receando que aquelle desejo envolvesse uma intenção pouco agradavel.
O conde sorriu-se porque comprehendêra a duvida da mulher. Mas rodeando-lhe a cintura, e, dando-lhe um beijo apaixonado, disse-lhe:
--Leio nos teus olhos, minha querida, a desconfiança, e sinto-o; isso indica-me que me amas muito, mas que me conheces pouco. Escreve a Ernesto, sou eu que t'o peço. Quatro palavras tuas far-lhe-hão bem, o desgraçado ama-te de toda a sua alma. Muito desgraçado o fizemos. Não sejamos egoistas até ao ponto de sermos malvados gozando com a sua agonia, com a sua dôr, que só terá fim com a morte. Escreve-lhe, pois, o que quizeres, Amparo.
O conde sorrindo-se com bondade, e dando segundo beijo na esposa, continuou:
--Não lerei o que escreves. Adeus. Quando acabares fecha a carta e entrega-a tu mesma a esse homem.
E o conde sahiu.
Amparo ficou com a carta na mão e como que pregada ao chão.
Aquella confiança que o marido acabava de mostrar era verdadeira ou um laço?
Amparo não podia crêr na hypothese de um laço n'um homem tão generoso como Fernando.
O conde de Loreto não era um homem vulgar. Amava a mulher, perdoára-lhe o seu coquettismo com Ernesto antes de o conhecer a elle, calculava as dôres e os soffrimentos do pintor a quem estimava devéras e por isso disséra á mulher que escrevesse.
Amparo sentou-se, pegou na penna e durante dez minutos não soube como começar.
De subito teve uma ideia. Os olhos brilharam-lhe, o semblante reanimou-se-lhe: dir-se-hia que receava transmittil-a ao papel, mas fazendo um esforço, e com mão mal segura, escreveu:
«Senhor Ernesto
«Ja que meu marido o auctoriza a fazer os tres retratos, e julgando que d'elles um será o meu, peço-lhe, (queira perdoar este capricho de mulher), que se não esqueça do vestido que tinha em Roma quando veiu offerecer-me o que fizera, e que ainda conservo sobre o fogão do meu gabinete.
«Trate-se, porque desejamos em breve vêl-o completamente restabelecido.
_Amparo._»
A condessa fechou a carta e foi entregál-a a Mauricio, que já tinha acabado de almoçar.
--Entregue esta carta ao senhor Ernesto, mas só a elle, disse-lhe.
--Sim, senhora condessa.
Amparo ia a sahir, mas deteve-se.
--É casado? perguntou.
--Sim, minha senhora.
--Então faça favor de dar da minha parte este annel a sua mulher, e recommendar-lhe que trate do senhor Ernesto com todo o carinho.
E Amparo como que envergonhada por aquelle arranco, tirou um annel do dedo, entregou-o a Mauricio e sahiu, dizendo para comsigo:
--Assim comprehenderá que me não é indifferente o seu soffrimento e que a sua morte me ha de custar algumas lagrimas.
Mauricio ficou um momento immovel. Pensava se aquella mulher tão formosa teria alguma coisa que vêr com os padecimentos do seu hospede.
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Á hora indicada pelo conde, Mauricio estava na estação, onde um creado lhe entregou uma guia do caminho de ferro.
--Que é isto? perguntou elle.
--Da parte de meu amo, o senhor conde de Loreto. Com esta guia lhe entregarão em Toledo, pois que foram expedidas em grande velocidade, duas caixas e um caixote grande. N'ellas vae tudo quanto o senhor Ernesto encommendou.
Mauricio guardou a guia na carteira e entrou para a _gare_, tomando então logar n'um compartimento de terceira classe.
Durante a viagem, o caçador olhou muitas vezes para o annel, e pensava em quem lh'o dera, dizendo de si para comsigo:
--Parece-me que vou descobrindo alguma cousa do segredo!
CAPITULO XXV
O regresso de Mauricio
Quando Ernesto sahia só, afastava-se pouco da habitação de Mauricio.
Muitas vezes pendurava a espingarda no ramo de um azinheiro, e, subindo com difficuldade ao mais alto monte, sentava-se ahi, ficando largas horas a contemplar a paisagem; outras, sem temer o perigo, descia ao mais fundo dos barrancos, agarrando-se ás plantas, gozando tambem n'aquella silenciosa soledade, onde o menor suspiro faz na concavidade das rochas um echo como se repetisse a voz humana.
Então esquecia os cães, a espingarda e a caça, e a recordação inolvidavel de Florença preenchia-lhe por completo a sua imaginação.
O seu amor por Amparo era tão constante, tão verdadeiro, tão grande, que, enchendo todo o seu ser, formára n'elle uma segunda natureza tão poderosa que era impossivel separar-se d'elle sem perder a vida.
Conhecia, comtudo, toda a loucura da sua paixão, e acceitára-a como se acceita uma d'essas doenças que se não procura e que nos causa a morte.
Se Ernesto tivesse encontrado uma Heloisa, a terra para os dois amantes teria sido um paraiso, mas encontrára uma _coquette_ que lh'a converteu em pantanoso charco, que lhe envenenou o sangue ao aspirar os maleficos miasmas que exhalava.
O seu mal era irremediavel. O amor tem muitas vezes a sua dose de veneno que causa a morte.
Mas, apezar d'isso, o coração de Ernesto era tão grande, tão nobre, tão generoso, que não odiava aquella que era seu tormento, antes pelo contrario, amava-a cada vez mais.
Talvez que ainda lhe restasse um pouco de esperança, e d'essa esperança emanava a doce compaixão que sentia por Amparo.
Por outro lado, o conde de Loreto era um homem digno de ser amado. Quão doloroso teria sido para Ernesto vêr-se preferido por um homem indigno, por um ser desprezivel, como acontece tantas vezes na vida!
Quantos exemplos se podem citar de levianas mulheres que espesinham a honra de homens illustres nos braços de amantes despreziveis!
Ernesto reconhecia no conde grandes qualidades, e isto fazia-lhe menos culposa a conducta de Amparo. Conhecia tambem que, se o conde não fosse um homem superior e menos conhecedor do mundo, sabendo os antecedentes de Roma e Florença e a parecença de Esther com a mulher, tomaria isso por uma grave offensa e o assumpto não teria ficado assim. Talvez um duello, e, por conseguinte, o escandalo que segue casos d'esta natureza, teria augmentado as difficuldades a Ernesto para chegar até Amparo, para ser talvez amado por ella com a vertiginosa paixão do adulterio.
Com a conducta prudente, digna e sabia do conde, evitou todos os perigos que ameaçavam o marido, a mulher e o amante, cortando com um só golpe a cabeça á repugnante maledicencia, que já comecava a levantar-se, sorrindo-se de uma maneira satanica.
Por isso, Amparo e Ernesto admiravam o procedimento do conde de Loreto, e este por seu lado, podia dormir tranquillo, com a segurança de que sua mulher não o trahiria. E emquanto a Ernesto, sabia que de rival intransigente se convertêra em amigo leal.
Amparo, comtudo, passou mal algumas noites. Amava com delirio o marido, mas convencida de que ella era a causadora da doença de Ernesto, temia o momento em que uma carta participasse a sua morte, isto é, que em seu peito entrasse o remorso, que tira o somno, que entristece a alma, que põe uma nuvem no coração.
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Mauricio chegou ao monte ao amanhecer do dia seguinte; Petra acabava de se levantar, e ouvindo assobiar correu a abrir a porta.
O caçador não vinha só. Acompanhava-o um homem com tres burros carregados com os objectos que o conde enviára a Ernesto.
--Tudo isto é para nos? perguntou Petra, depois de abraçar o marido.
--É para o senhor Ernesto, que lh'o manda um amigo de Madrid. Mas tambem trago um presente para ti.
--Isso já eu esperava porque os bons maridos não se esquecem das mulheres quando vão ás grandes cidades.
O homem começou a descarregar as caixas e o caixote, deixando tudo junto da porta.
Mauricio entretanto metteu dois dedos da mão direita no bolso do collete e tirou a _onza_ que o conde lhe dera, dizendo em voz baixa:
Pega: isto offereceu-me aquelle senhor a quem levei o javali e os quadros como gorgeta. É para comprares o que quizeres.
--Uma _onza_! Fizeste bem em a não trocares, porque a mulher cuidadosa pensa sempre no dia de ámanhã, e, quando apanha á mão uma moeda d'estas, guarda-a como um remedio contra as necessidades da vida.
--E o senhor Ernesto? perguntou Mauricio.
--Ainda dorme.
--Hontem sahiu?
--Sim, um boccadito de manhã. Voltou muito cançado e comeu pouco. Coitado! está cada vez mais triste. Esta noite entrei no quarto para vêr se queria tomar alguma coisa, e encontrei-o com os olhos inchados, enegrecidos, como se tivesse chorado. Muito grande deve ser o seu desgosto.
Mauricio guardou silencio; e como o homem já tinha descarregado todos os objectos pagou-lhe, dizendo:
--Petra, dá a este homem alguma coisa de comer e de beber.
Mauricio entrou em casa, dirigindo-se ao quarto de Ernesto, e, como reinava o mais profundo silencio, pensou que se não respondesse, chamando baixinho, seria melhor deixal-o dormir.
Chamou, pois, á porta suavemente, mas a voz do hospede respondeu:
--Quem é?
--Sou, eu, senhor Ernesto.
--Ah! Mauricio! Espera que vou abrir.
Ernesto saltou da cama, abriu a porta e tornou a deitar-se.
--Bem vindo sejas, Mauricio. Não te esperava tão cedo. Abre a janella e dá-me conta da tua missão.
--O conde de Loreto é um sujeito muito generoso, disse Mauricio. Depois de me receber muito bem e de me dar de almoçar como a um principe, deu-me uma _onza_ em ouro.
Mauricio continuou contando tudo quanto se passára em casa do conde e terminou:
--Emquanto a senhora condessa entregou-me esta carta para si e perguntando-me se era casado, disse-me: Pois dê este annel da minha parte a sua mulher para que tratem com muito cuidado o senhor Ernesto.
O pintor sentiu-se commovido até ao fundo d'alma. Mauricio comprehendeu o effeito das suas palavras, e, tirando a carta e o annel, entregou tudo ao hospede.
--Mas este annel é para tua mulher, disse Ernesto, fixando-o com um olhar penetrante.
Mauricio sorriu-se e disse:
--Isso é uma joia bôa de mais para quem está todo o dia a trabalhar. Póde guardal-a. E de mais, Petra não sabe de nada, e olhos que não vêem coração que não sente.
Ernesto não poude conter a sua alegria e lançou-se nos braços de Mauricio, cujo procedimento delicado lhe causou profunda admiração.
--Ah! já me esquecia, disse Mauricio. Tambem os seus amigos da rua do Prado me deram esta carta para si.
E, entregando a carta, sahiu do quarto afim de deixar só o seu hospede, de quem começava a descobrir o segredo.
Ernesto, ao vêr-se só, beijou repetidas vezes o annel, apertando-o depois com delirio de encontro ao peito.
Leu a carta do conde e o post-scriptum da condessa, guardou-a juntamente com o annel n'uma gaveta da commoda, e, procurando serenar, disse:
--Ella não me esqueceu; isto sempre serve de consolação para o meu peito. Vejamos o que me dizem Marcial e André, os meus bons amigos.
Ernesto então leu:
«Illustre Robinson dos montes de Toledo
«Recebemos a _tua cabeça_ e o _teu lombo_. e ámanhã brindaremos á tua saude no restaurant do _Armiño_.
«Não deves admirar-te de que te tenhamos na conta de um animal feroz, pois que outro nome não merece o homem que deixa as delicias de Madrid pelos selvagens barrancos dos montes de Toledo.
«Agora outro assumpto. Tens todas as probabilidades que te concedam o primeiro premio ao teu celebre quadro de Esther. Se assim fôr, iremos entregar-te a medalha de ouro, e beber comtigo uma duzia de garrafas de Champagne.
«Procura, comtudo, restabelecer-te rapidamente e voltares, porque nós preferimos comer sentados em volta de uma mesa, pisando alcatifas, recebendo o calor de fogões e a luz do gaz, do que comer no campo sobre o duro chão, acariciado pelas formigas e outros animaes importunos.
«Estimando-te sempre e admirando como nunca.
«Somos teus amigos
«_Marcial e André._»
Ernesto sorriu-se tristemente quando acabou a leitura da carta.
--Ah! exclamou. Que feliz que é o mortal que encontra uma mulher que o ama e dois amigos leaes e carinhosos! Mas a felicidade nunca é completa para o homem. Só encontrei os amigos. Onde acharei a mulher?
E deixando cahir a cabeça sobre o peito melancholicamente, ficou immovel como uma estatua.
CAPITULO XXVI
Uma caçada ás raposas
Se nos entretivessemos detalhando dia a dia a vida de Ernesto desde que chegou a casa de Mauricio até ao dia em que deixou de existir, fariamos um livro interminavel. Procuraremos, pois, tocar sómente nos pontos que julgamos mais importantes.
Ernesto, como dissémos, cançava-se muito a subir as encostas, e o ponto que escolhera para caçar não era dos mais commodos.
Um doente de peito pode caçar sem perigo, mas em terrenos planos que não cancem os pulmões; porêm os montes de Toledo, os de Almenara e outros não têem nada de hygienicos para um caçador de pouca saude.
Poder-se-ha matar muita caça, respirar-se ar puro mas são fatigantes em demasia! Ernesto, pois, escolhêra mau sitio para se restabelecer, mas, como a vida lhe importava pouco, era o mais apropriado para lhe dar cabo dos seus arruinados pulmões.
Ernesto tratava-se pouco. Quando sentia a mente cheia de ideias tristes, pegava na espingarda, chamava os cães e sahia. Se tropeçava com um bando de perdizes, segui-as até que, cançado, se deixava cahir no chão, permanecendo ás vezes mais de uma hora soffrendo angustias de morte.