Part 18
[83] «Então mandou aos bateis que fossem roubar os pageres (barcos) que eram dezeseis e as duas náos, em que todos acharam arroz e muitas jarras de manteiga e muitos fardos de roupa. Então tudo isto recolheram aos navios e a gente toda das náos grandes, e mandou que recolhessem o arroz que quizessem, que tomaram quatro pageres, que vasaram, que não quizeram mais. Então o Capitão-mór mandou a toda a gente cortar as mãos e orelhas e narizes e tudo isto metter em um pager, em o qual mandou metter o frade tambem sem orelhas, nem narizes, nem mãos, que lhas mandou atar ao pescoço com uma ola (folha, carta) para el-rey em que lhe dizia que mandasse fazer caril para comer do que lhe levava o seu _frade_.
E a todos os negros, assim justiçados, mandou atar os pés, porque não tinham mãos para se desatarem, e porque se não desatassem com os dentes com páos lhes mandou dar n'elles que nas bocas lh'os metteram por dentro, e foram assim carregados uns sobre os outros embrulhados no sangue que d'elles corria e mandou sobre elles deitar esteiras e ola secca e lhe mandou dar as vélas para terra com o fogo posto, que eram mais de 800 mouros, e o pager do _frade_ com todas as mãos e orelhas tambem á véla para terra sem fogo, com que foram logo ter a terra, onde acudiu muita gente a apagar o fogo e tirar os que acharam vivos com que fizeram seus grandes prantos.» Gaspar Correia, _Lendas_, I, p. 302.
[84] «... em que no mar tomaram náos de Cambaya e Calecut que iam para Meka, a que roubaram o melhor que acharam de que se carregaram os navios e caravellas quanto poderam e mormente roupas de muito preço e muitos mantimentos e mouros para dar ás bombas, e não se occuparam em carregar os navios de pimenta e drogas que levavam as náos de Calecut que a todas, umas e outras, poseram fogo e queimaram com toda a gente sem a nenhum darem vida, mas Vicente Sodré mandou que os Mouros que tinham tomado para a bomba todos os tornaram com os outros e todos forão mortos.» Gaspar Correia, _Lendas_, I, pp. 365-6.
[85] V. _Hist. da republica romana_, I, pp. 215-80.
[86] V. _Hist. da republica romana_, I, pp. 211 e segg.
[87] «O Viso rey estava assentado em uma janella que vinha sobre a praya com o Capitão e com outros fidalgos, e vendo o geito da caravella e o capitão d'ella d'arte que desembarcava, se tirou da janella e se assentou dentro em uma cadeira e poz o braço na cadeira e sobre a mão encostou a face direita e disse:
--Esta caravella me traz a nova que eu tenho no coração; pois que as náos de Cochim vieram sem meu filho, é que elle é morto.
Ao que o Camacho entrou com grande tristeza no rosto, o qual antes que fallasse, o Viso rey lhe fallou dizendo:
--Camacho, ainda que meu filho seja morto, porque não salvaste esta fortaleza: pois não é do pae do morto? Que meu filho não era mais que um só homem... Nem me fica outro.
O Camacho não lhe respondeu, mas poz os joelhos no chão e com muitas lagrimas disse:
--Senhor, Nossa Senhora perdeu a seu bento filho posto na Cruz entre dois ladrões, e vós perdestes o vosso filho pelejando com os turcos do Soldão.
O Viso rey com o rosto muy seguro lhe disse:
--Ora vos ide a descançar e mandae á caravella que faça sua costumada salva e eu mandarei na Egreja fazer signal pelo defunto e acodirá gente e lhe dirão paternosters pela alma, porque quem o frangão comeu hade comer o galo ou pagal-o.
Com o que se recolheu para uma ante-camara, onde assentado, o Capitão e fidalgos moveram pratica de sustancias consolatorias para abrandar tamanha dor como sentiam que o pae devia ter com a morte de tal filho. Ao que o Viso rey lhes foi á mão, dizendo:
--Eu não me posso escusar da dor que a carne me dá, como pae, de força da natureza, mas espero em Nosso Senhor que me ajudará por sua misericordia, e com a ajuda de meus amigos ma dará alegria n'esta dor que ora tenho, em que acabando a vida será para mim o mór descanço. Vão-se Vossas Mercês embora, que as palavras de conforto são das mulheres para suas amigas, quando pranteam seus filhos mortos em acontecimentos como ora foi d'este meu.
E lhes fazendo sua cortesia se recolheu á sua camara.» Gaspar Correia, _Lendas_, I, 775.
[88] V. quadros das batalhas navaes dos antigos, _Hist. da republ. romana_, I, pp. 193-8.
[89] «Não tém cestos de gavea (as caravelas) nem as vergas fazem angulos rectos com os mastros, mas pendem obliquas d'uma alça que é triangular, roça quasi pelas amuradas. As vergas que se amuram aos costados do navio são pela parte de baixo grossas como mastareus, e adelgaçam até ao cimo da vela. De vasos d'esta feição se servem na guerra maritima os portuguezes, pelo muito ligeiros que elles são, sendo-lhes mui maneiro apontar á prôa ou á pôpa o conto d'estas vergas, e ainda a meio costado do navio passalas da direita para a esquerda segundo lhes faz feição, ferrar o panno ou disferillo das vergas, a que o atam pelo cepo da entenna, com quem as velas abrem a base do angulo: e qual lhes sopra o vento, tal lhe apresentam o bojo da vela não tardios. Todo o vento lhe fas geito, de modo que com vento de ilharga bolinam em direitura, como se foram arrazadas em pôpa, e para ir o mesmo navio em senso contrario não tem mais que mudar o velame, o que muy prestes se prefaz.» Osorio, _Vida e feitos d'el-rey D. Manuel_ (tr. F. M. do Nascimento) I, p. 193.
[90] V. _Hist. da republ. romana_, I, pp. 292 e segg.
[91] V. _As raças humanas_, I, pag. 358 e segg. e _Hist. da civilisação iberica_ (3.ª ed.), pag. 34 e segg.
[92] _V. Regime das riquezas_, p. 90 e segg.
* * * * *
II
Affonso de Albuquerque
«As cousas da India fazem grandes fumos!» costumava dizer o novo governador. Mas que _fumos_ eram esses? Eram a vaidade e os erros de tantos pigmeus que o gigante via formigar activamente, encelleirar, e, depois de gordos e ricos, pavonearem-se na côrte, allegando serviços, com a basofia de quem tudo sabia das cousas do Oriente. Fumos, com effeito, eram todos esses para o governador, que aprendera nas suas primeiras viagens, e agora levava já bem definido o seu plano. Levava sem o saber os seus _fumos_ tambem: porque em fumo se havia de tornar o imperio ephemero que construia na mente...
Quando em 1506 partira de Lisboa, o rei tinha-o mandado como subalterno, na armada de Tristão da Cunha; mas o genio do guerreiro não se reprimia com isso, nem estava decidido a esperar que o tempo lhe desse o mando absoluto, para pôr em pratica o seu plano gigantesco. Elle sabia demais que, no cháos da India, cada qual trabalhava por sua conta e risco; e que, n'esse vasto campo de batalha, as manobras não obedeciam ao mando de um general; iam ao acaso, segundo a audacia e o genio dos capitães. De Lisboa a Zamgebar uma armada era um exercito; no mar da India o exercito fraccionava-se em batalhões independentes, e cada capitão era senhor de proseguir, conforme o seu plano, na vasta empreza de saquear o Oriente. O plano de Albuquerque não era o de um saque, era o de um imperio.
A esquadra de Tristão da Cunha foi de caminho, como introducção, arrasando, queimando e saqueando Juba (Oja) e Barava (Brava),[93] na costa, acima de Zamgebar, dirigindo-se a Sokotra--essa ilha que, junto á ponta extrema da Africa, pelo norte, o cabo de Jar-Hafun (Guardafui), era a vedeta sobre a entrada do mar Vermelho, e a estação onde os navios de corso ás náus de Meka se deviam abastecer e refrescar. Os arabes defenderam a sua ilha em vão; e Cunha matou-os todos, sem ficar um só, e construiu a fortaleza, deixando-a guarnecida. Feito isto, dirigiu-se á India, destacando Albuquerque (impaciente quasi até á rebeldia, durante a delonga da construcção do forte) com seis navios e quinhentos homens, para a caça das náus, no Estreito.
Afinal, o capitão commandava! Afinal dispunha de uma phalange sua! e resolveu não perder um só dia. Logo que as velas de Tristão da Cunha desappareceram, na sua viagem para a India, Albuquerque largou de Sokotra para a costa da Arabia, ao longo da qual foi subindo vagarosamente, assolando tudo. Formára o plano de começar por Hormuz as suas conquistas, marcando primeiro o limite por norte e occidente, para mais tarde ir ao oriente, pôr em Malaka o extremo do seu imperio. Hormuz, Sofala e Malaka são tres quinas de um triangulo, cuja base mede 70 graus em longitude, cuja altura, até ao vertice de Hormuz, conta 50 em latitude.
Foi a 10 de agosto do anno de 507 que Affonso de Albuquerque largou de Sokotra, em direcção do golpho Persico. A sua esquadrilha compunha-se de seis navios apenas, e não contava mais de quinhentos homens; mas a poderosa unidade que o mando do atrevido capitão imprimia, a confiança que todos tinham no seu genio e na sua sabedoria, e tambem nos mosquetes e artilharia das náus, tornavam poderosa como um ariête esta pequena divisão. Para nos servirmos da expressão de Francisco d'Almeida, tratava-se apenas de combater _com bestas_; e não havia ainda que temer em Hormuz a artilharia dos rumes, nem os bombardeiros venezianos. A novidade de um engenho de guerra e a audacia de um guerreiro á antiga, iam levar a cabo uma empreza, de facto espantosa, como as de Alexandre ou de Cyro.
Seguindo os exemplos d'esses famosos, cuja sombra Albuquerque tinha na mente, punha em pratica os antigos meios orientaes. Avançava no meio de um côro de afflições e mortes, precedido por uma columna de incendios, para que, ao chegar, a vanguarda do terror precipitasse os animos na abjecção. Assim ia ao longo da costa da Arabia assolando e devastando todos os logares vassallos do suzerano de Hormuz. Primeiro arrazou Kalhât (Calayate) «que é feito de casas de pedra, terradas e muitas cobertas de palha, casas espalhadas e mal armadas e fóra do logar á mão direita um palmar de palmeiras de tamaras, onde estavam uns poços de agua de que bebiam. O logar assenta ao longo d'agua, e por detrás ha grandes serranias de pedra viva, e no mar alguns zambucos e náus que vem aqui carregar cavallos e tamaras e peixe salgado.» (G. C., _Lendas_).
Em Karayât (Curiate), que lhe resistiu, cortou as orelhas e o nariz a todos os prisioneiros, soltando-os para irem, lavados em sangue e mutilados, annunciar por toda a parte a fama do seu poder. Em Khor-Fakhan (Orfacate) reduziu tudo a cinzas; e como em Karayât, mutilou todos os prisioneiros. Entre elles, porém, estava um velho letrado persa, de longas barbas brancas, que vivia de admirar Alexandre, cujo livro possuia. O velho applaudia o portuguez, commentando o livro com as façanhas do novo heroe; e applaudia-se a si por ter ainda em vida assistido á resurreição do filho de Olympias. Acclamava o portuguez, ou o grego, confundindo a realidade com a historia; e de joelhos, adorando-o, deu o seu livro a Albuquerque. O novo Alexandre perdoou-lhe.
Em Makât (Mascate), já na entrada do golpho, e quasi fronteiro a Hormuz, tinham vindo acudir a curar-se, chorando, os fugitivos de Karayât e Khor-Fakhan, atroando os ares com a fama do poder terrivel d'esse heroe que se approximava. Tremiam todos de susto; mas quando a esquadrilha appareceu diante da poderosa cidade, ainda houve quem pensasse em resistir, por vêr que os navios eram tão poucos. Ignoravam, porém, que cada um d'elles, com os seus canhões escondidos por detraz das amuradas, era um vulcão prompto a rebentar em lava, um inimigo perfido cuja força latente não podia medir-se. Maskât foi bombardeada. A mesquita onde os infelizes se tinham refugiado caíu a machado, e os captivos, mutilados, foram fugindo, chorando, reunir-se á gente da cidade escondida nas serras. Havia cadaveres em todas as ruas e o fogo posto começava a crepitar lavrando nos armazens cheios de azeite e de melaço. As labaredas subiam, zumbia ao longe o clamor dos desgraçados, e á maneira que o terribil heroe se alongava na praia com os seus para regressar aos navios, os _mouros_ vinham anciosos e cheios de medo vêr se podiam ainda salvar algumas migalhas da sua cidade, pasto das chammas vivas. Era em vão. Como uma tromba devastadora, Albuquerque proseguiu deixando um rasto de sangue e cinzas. Hormuz estava proximo, e cumpria que a onda do terror, que fôra crescendo, estoirasse agora de um modo pavoroso.
Hormuz era então a joia mais preciosa da corôa da Persia. Chamavam-lhe _a pedra do annel_ das Indias. Era a Londres oriental, onde todos os productos do Oriente vinham desembarcar; d'onde saíam nas longas caravanas que se dirigiam a Bagdad e ao Cairo, para a Tartaria e o Turquestan, por toda a Asia do norte. Os armadores levavam por mar a Hormuz a pimenta, o cravo das Molucas, o gengibre, o cardamomo, os paus de sandalo e brazil, os tamarinhos, o açafrão, a cera, o ferro, as cargas do arroz de Dekkan, os côcos, as pedrarias, as porcellanas, o benjoim, os pannos de Kambai, de Chala, de Deval, e os cinabasos de Bengala. Ahi vinham, de Aden, no estreito de Bab-el-Mandeb, o cobre, o azougue, os brocados, os chamalotes, e tudo quanto Veneza mandava da Europa, pelo caminho de Alexandria, a Suês, via do mar Vermelho. Toda a Persia se abastecia em Hormuz dos generos de fóra; por Hormuz toda ella mandava importar os productos indigenas. Os navios carregavam ahi a seda e o almiscar, rhuibarbo de Babylonia, e as récuas de cavallos da Arabia, tão queridos no Dekkan, em Kambai e nos Estados da contra-costa de Cholomandalam (Coromandel) até Bengala, na foz do Ganges. Contra o arroz e os pannos que levavam, os commerciantes traziam de Hormuz as tamaras, o sal das suas collinas coloridas, as passas, o enxofre e o aljofar grosso, muito procurado em Narsinga.
A cidade era em si pequena, mas um brinco. Era uma terra de luxo e prazer, uma côrte de mercadores. As casas, recheiadas de cousas preciosas, eram thesoiros ou museus, com paredes forradas de marmores, columnatas, eirados, pateos ajardinados e fontes preciosas. A vida custava ahi carissimo, porque o luxo absorvia todos os recursos naturaes. A terra, uma salina, era esteril de si: tudo vinha da Persia, da Arabia, da India: mas os mercadores tinham defronte, além, na costa firme, as quintas e hortas, onde iam com frequencia. Ahi o platano magestoso do Oriente, o álamo esguio e esbelto, o negro cypreste meditativo, destacavam-se no meio das hortas viçosas, das quintas e jardins de rosas, povoados de rouxinoes, abrigando nas encostas á sua sombra as vinhas ferteis. Os pomares regados estavam coalhados de laranjeiras, de fructos de ouro e flôres de neve perfumada; de macieiras, pecegos, albaquorques; de figueiras de fórmas extravagantes e amplas folhas; de granadas, com os fructos rebentados a sorrir nos seus grãos côr de rubi. No chão serpeavam as redes de hastes dos meloaes, louros e perfumados; e das latadas e parreiras caíam com peso os cachos de uvas preciosas de todas as côres. Por entre os bastos pomares e do seio dos jardins de rosas, levantava-se orgulhosa e nobre a palmeira, com o seu turbante de folhas agudas, carregada de tamaras.
Nas ruas da formosa cidade, em frente dos bazares, sob os toldos que a defendiam da luz e do calor do sol, formigava uma população de varias raças, de côres diversas, occupada em comprar, em vender; mais occupada ainda em gozar a vida no seio de uma devassidão torpe. O calor e os perfumes inebriavam os sentidos, e acordavam todos os instinctos sensuaes. Vinham ali vender neve, de trinta leguas do interior da Persia. Amar era o primeiro de todos os commercios de Hormuz; e o persa, alto, elegante e formoso, entregava-se a todos os desvairamentos da pederastia. Por isso as mulheres valiam pouco, eram até aborrecidas em Hormuz. Os pobres escravos, moços e mutilados, enchiam os harens dos ricos, e os bordeis para o commum dos mercadores. Era uma devassidão abjecta, e um luxo desenfreado. Os personagens, nos seus passeios, iam sempre seguidos por pagens, com toalhas e jarras de prata e bacias com agua. Havia musicas e festas por toda a parte e as bandas e orchestras andavam constantemente nas ruas onde os mercadores expunham á venda o aljofar em colchas purpurinas. Os trajos eram dos mais preciosos estofos, e sobre as camisas brancas de algodão finissimo vestiam-se tunicas de chamalote ou gran, cingidas por almejares com grandes adagas ornadas de ouro e prata e pedras preciosas. Os broqueis eram redondos, forrados de seda; os arcos acharoados, ou de corno de bufalo com cordas de seda. Usavam, além do arco e da frecha, do escudo e da adaga, machadinhas e maças de ferro, todas preciosamente lavradas e tauxiadas de ouro e prata. Os mouros diziam que o mundo era um annel e a pedra Hormuz. Só a alfandega rendia meio milhão de xerafins.[94]
As noticias de Maskât, os mutilados de Karayat e Khor-Fakhan encheram de terror essa população embriagada na orgia de uma vida de delicias. No porto havia, com effeito, uma poderosa armada que escondia as aguas: eram centenas de náus e galeões, uma infinidade de terradas. Tinham-se arrestado os navios dos mercadores e do seio da frota estava a náu de Cambaya, a _Meri_, de mil toneis, com gente basta e numerosa artilharia. Havia o melhor de duzentos galeões de remo com arrombadas de saccas de algodão tão altas que escondiam os remeiros. O persa que vestia os laudeis, em vez de corpos de aço, couraçava tambem de algodão os navios. As terradas alastravam o mar, carregadas de gente armada, com estandartes garridos «que era cousa fermosa para ver». Na terra, ao longo da praia, havia de quinze a vinte mil homens formados com as suas musicas de trombetas e anafis. «As gaitas do mar e terra eram tantas que parecia que se fundia o mundo!» Mas os fugitivos abanavam a cabeça desesperados, contando como os seis, seis navios apenas portuguezes! traziam no ventre uns monstros de fogo destruidores! E o soldão persa, afflicto, não sabia de que modo receber a visita de Albuquerque e dos seus navios, que já estavam, terriveis mas quietos como um volcão em paz, fundeados no meio do porto, entre os galeões de Hormuz. Albuquerque exigia-lhe que abandonasse o persa, e se declarasse vassallo do portuguez; e o infeliz estava decidido a abandonar tudo, para que deixassem em paz--quando o capitão, enfadado com as delongas e subtilezas, rompeu inopinadamente o fogo. Começou a varejar em torno o estendal de barcos, reduzindo-os a uma massa de destroços, de naufragios e cadaveres que era horroroso de vêr. Estava como um lobo no meio de um rebanho de ovelhas. Não era uma batalha, era uma carnagem. Os fugidos nadavam n'um mar rubro de sangue, perseguidos pelas almadias em que os soldados matavam n'elles ás lançadas e cutiladas. Da amurada das náus os grumetes e pagens rasgavam-lhes o ventre com os croques, pondo pastas de visceras fluctuantes no mar de sangue. Houve grumete que matou assim oitenta _mouros_. E emquanto a armada de Hormuz e as tropas do sultão eram chacinadas, desmanchava-se o lançol de barcos como uma teia cujas malhas se soltam. Havia correrias sobre as ondas, e de espaço a espaço o mar sorvia uma atalaia com a gente e as armas. Outras, já ardendo, iam fugindo em chammas, como trombas de fogo correndo, vogando á mercê do vento «que era um grande espectaculo para vêr». Ainda oito dias depois do sanguinario caso havia cadaveres boiando no mar, e os portuguezes em lanchas occupavam-se n'essa particular especie de pesca. A colheita era abundante, os cadaveres aos centos, os trajos ricos, e muitos os anneis e alfinetes, as adagas e punhaes tauxiados de ouro e prata com joias engastadas. Denudados, vinham a bordo as familias reconhecer os cadaveres e leval-os piedosamente, em lagrimas, aos seus sepulcros. A façanha fôra tão grande, que parecia milagre: pois não se viam nos corpos mortos as chagas das frechas, não havendo similhante arma entre os nossos? Milagre! diziam os soldados e os capitães, perante esse caso tristemente revelador da confusão do combate com o novo Alexandre da India.
O pobre sultão de Hormuz, afflicto, immediatamente accedeu a tudo: consentiu que Albuquerque levantasse uma fortaleza e pagou-lhe vinte mil xerafins de tributo. E d'este concerto se fizeram duas cartas, uma em folha de ouro, a modo de livro, escripta em arabico com letras abertas a buril e suas brochas de ouro com tres sellos de ouro dependurados por cadeias; a outra em parsi, que era a linguagem commum da terra, e em papel com letras de ouro. E ambas estas cartas mandou Affonso d'Albuquerque a el-rei D. Manuel.
* * * * *
Hormuz escapara, rendendo-se, aos horrores de um saque: mas isto mesmo desesperava os capitães e soldados da esquadrilha, que murmuravam, cubiçosos de tamanha riqueza desenrolada diante de seus olhos. Não comprehendia para que se haviam de demorar alli, a construir uma fortaleza; quando, a não saquearem a cidade, mais valia partirem para o rendoso corso das náos de Meka, na bocca do Estreito. A intriga insinuava-se, dizendo que o capitão-mór queria construir a fortaleza para si, e fazer-se rei de Hormuz, levantando-se contra o de Portugal: na India não havia ainda mais tradição do que a do saque maritimo, e o pensamento imperial de Albuquerque chegava a não ser comprehendido. Nem em tres annos, diziam, voltariam á India, perdendo occasião de carregar as quintaladas que tinham de ordenado. A cubiça de mãos dadas com a violencia e a cegueira agitavam perigosamente as guarnições. Albuquerque, impassivel, proseguia. De uma vez que lhe levaram um requerimento quando vigiava pessoalmente a obra da fortaleza, tomou-o assim dobrado como lh'o deram, e sem o ler metteu-o debaixo de uma pedra do portal da torre que se estava erguendo. O baluarte ficava cimentado com as queixas. Mas as lages não pesavam bastante para as abafar, e recrudesceram. Além do mais, os queixosos reclamavam a metade dos 20:000 xerafins pagos pelo de Hormuz, que, esperançado n'estas desordens, confiado em promessas de sedição, e nos auxilios que o persa lhe enviava, ousou romper as hostilidades. Viera com effeito o cheik Yar (Xaquear) trazendo comsigo quatro mil arabes. Albuquerque estava n'um serio perigo, e outro qualquer perder-se-hia. Os capitães recusavam ir ao combate; mas elle, arrancando as barbas, aos punhados, ao capitão Nova, levou diante de si os soldados, sósinho, ás cutiladas. Dos seis navios, porém, fugiram-lhe tres, que vieram para a India contar ao vice-rei as loucuras e barbaridades do conquistador: não podiam resistir ao seu mando _terribil_, só lhes era dado fugir! Albuquerque retirou tambem de Hormuz, quando viu a impossibilidade de levar por diante a empreza, abandonado por metade das suas forças. Levantou ferro, voltou a Sokotra aprisionar as náus de Meka, e mais um navio o abandonou ahi: nenhum podia supportar o ferreo mando do heroe.