Historia de Portugal: Tomo I

Part 17

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O dominio portuguez adquiria logo de começo o caracter duplo que jámais perdeu, apesar de todas as tentativas posteriores de regularisação e de ordem. Era no mar uma anarchia de roubos, na terra uma serie de depredações sanguinarias. Vasco da Gama ensinára o modo de imperar com o fogo e o sangue; Sodré indicava o modo de ceifar no mar, pela abordagem, as náus de Meka. A pirataria e o saque foram os dois fundamentos do dominio portuguez, cujo nervo eram os canhões, cuja alma era a Pimenta.

Na artilheria, effectivamente, estava o segredo do poder dos invasores da India. Ao tempo em que o Gama voltava da sua segunda viagem, partia de Lisboa uma terceira esquadra (1503, abril) com Affonso de Albuquerque e Duarte Pacheco a bordo. Foram a Katchi acudir ao rajah, na sua guerra com o de Kalikodu, e construiram a primeira fortaleza na India. Albuquerque voltou ao reino; Pacheco ficou em Katchi com as tropas e navios preparados para o ataque. O heroe--porque este bateu-se como uma féra, no seu covil de Kambalaan, nobre, desinteressada e bravamente--desde logo disse que _toda a festa havia de ser de artilheria_. De que serviam com effeito as armas brancas e de arremeço, principal equipamento dos indigenas, que mal sabiam usar dos mosquetes e bombardas, perante o vomitar distante da metralha? Isto explica a possibilidade da resistencia dos setenta homens de Pacheco, brandamente auxiliados pelos naturaes, contra os cincoenta mil que se dão ao exercito do Samudri-rajah de Kalikodu. As surriadas da mosquetaria auxiliavam decerto, mas a defeza decisiva consistia nas ondas de metralha, que n'um instante varriam as jangadas cobertas de gente que vinham por mar, e as columnas cerradas dos nayres armados de settas e lanças investindo por terra. Mas nem por si só a artilheria seria capaz de resistir á onda massiça das columnas inimigas, se a coragem, a rapidez fulminante das marchas, a ubiquidade--póde dizer-se assim--do primeiro heroe soldado do Oriente não animasse os poderosos meios de defeza. Quatro mezes durou o assedio de Katchi, que terminou pela derrota do Samudri-rajah.

A esquadra de Lopo Soares de Albergaria trouxe para o reino (1505) Duarte Pacheco: um homem simples que, por voltar carregado de feridas, mas leve de dinheiro e diamantes, foi parar á capitania de S. Jorge da Mina, para de lá vir em ferros por _capitulos_ que d'elle deram; para jazer no carcere por muito tempo, e acabar esquecido e pobre. A sorte d'este heroe, diz Goes, «foi de calidade que se pode d'elle tirar exemplo para os homens se guardarem dos revezes dos reis e principes e da pouca lembrança que muitas vezes tem d'aquelles a que são em obrigação.» Pacheco voltou, pois, do Oriente, e na India ficou, por capitão do mar, Telles Barreto com a missão de _correr as náus de Meca_. A armada trazia para o reino, a bordo, Pacheco--um infeliz!--e uma carga abundante de especiarias e cousas ricas. A côrte, o rei, em Lisboa, quizeram muito mais ás segundas, do que ao primeiro.

Entretanto a este devia D. Manuel a consolidação do seu imperio oriental, incipiente ainda. Pacheco demonstrára aos naturaes e aos arabes que os portuguezes não eram apenas piratas; e podiam fazer mais do que bombardear impunemente uma cidade desarmada, ou tomar náus de indefesos mercadores e romeiros. A façanha de Katchi fôra o baptismo de sangue do novo imperio; e o baluarte, de pé, atestava a força dos novos dominadores.

Mas já do principio, tambem, surgia a ultima das pragas da India: a inveja, a sizania, os odios, a maledicencia, com que, uns aos outros, os homens do ultramar se abocanhavam na côrte; e a inepcia do governo do rei, incapaz de pesar o valor das palavras, de medir o alcance das accusações, e de ser justo e sabio. A lisonja reinava, e sobre ella o favoritismo.

Cinco annos tinham decorrido depois da viagem de Cabral; havia já uma fortaleza em Katchi; estava batido o de Kalikodu; os navios portuguezes pirateavam em liberdade no mar da India; e numerosas náus de Meka iam sendo apresadas. Esboçava-se o futuro imperio, anarchicamente, mas já por fórma tão decisiva, que era mistér organisal-o, dar-lhe uma lei e uma direcção.

* * * * *

D. Francisco de Almeida foi o homem escolhido para governador da India, constituida em vice-reino. Das tres successivas phisionomias que o imperio portuguez no Oriente apresenta, é elle quem lhe imprime a primeira; dos tres vice-reis mais notaveis, é elle o primeiro tambem. Sem o heroismo antigo de Albuquerque, um Annibal;[85] sem a sympathica pureza ingenua de um Castro, imitador fiel dos typos de Plutarcho; Francisco de Almeida, valente como soldado, habil como almirante, é sobretudo um estadista.

Pondo de parte o merecimento absoluto d'essa politica commercial, fecundo systema de explorar uma região inteira, fielmente executado mais tarde e com tamanho exito pelos hollandezes, o facto é que, para conseguir o fim desejado de roubar aos arabes o imperio, e a venezianos e arabes o commercio do Oriente, a politica de Francisco de Almeida, sem grandeza, é lucida, perspicaz e forte. O governo da India formou tres grandes homens: Castro, que se póde dizer um santo; Albuquerque, a quem melhor cabe o nome de heroe: Almeida, que é um sabio administrador, um feitor intelligente.

No seu caminho para a India, o primeiro viso-rei foi ajustar as contas antigas com o sultão de Mombas, e arrazou-lhe a cidade (1505, agosto 14.) Levava tambem ordens para construir fortalezas em Quilua, Kananor, Anjediva, além da de Katchi, que seria augmentada e reparada, depois dos damnos soffridos no anno anterior. Não iam então as ambições do governo, no reino, mais além d'esse pedaço da costa oriental da Africa, com as estações fronteiras na costa do Malabar. Entretanto no pensamento do viso-rei, maduro pela observação local e pela prova de uma primeira guerra maritima com que o impenitente rajah de Kalikodu o recebera, formulava-se já todo o seu plano de dominio. Não duvidou expol-o a D. Manuel na carta que lhe escreveu, e que é um dos documentos mais importantes da historia portugueza no Oriente.

Toda a nossa força seja no mar, dizia; desistamos de nos apropriar da terra. As tradições antigas de conquista, o imperio sobre reinos tão distantes, não convém.[86] Destruamos estas gentes novas (os arabes, afghans, ethiopes, turkomanos) e assentemos as velhas e naturaes d'esta terra e costa: depois iremos mais longe. Com as nossas esquadras teremos seguro o mar e protegidos os indigenas, em cujo nome reinaremos de facto sobre a India; e se o que queremos são os productos d'ella, o nosso imperio maritimo assegurará o monopolio portuguez, contra o turco e o veneziano. Imponhamos pesados tributos, exageremos o preço das licenças (_cartazes_) para as náus dos mouros navegarem nos mares da India e isso as expulsará: as nossas armadas darão corso aos contrabandos. Não é mal decerto que tenhamos algumas fortalezas ao longo das costas, mas sómente para proteger as feitorias de um golpe de mão; porque a verdadeira segurança d'ellas estará na amisade dos rajahs indigenas, por nós collocados nos seus thronos, por nossas armadas apoiados e defendidos. Substituamo-nos, pura e simplesmente, ao turco; e abandonemos a idéa de conquistas, para não padecermos das molestias de Alexandre. O que até agora se tem feito é uma anarchia e um esboço apenas; um systema de matanças, de piratarias e desordens, a que é mistér pôr cobro.--A primeira condição de um imperio seguro é um pensamento definido, e tal era o do viso-rei.

As difficuldades appareciam-lhe tanto mais fortes, quanto «as guerras passadas eram com bestas, agora as temos com venezianos e turcos do Soldão». Com effeito, a antiga impunidade, de que os nossos gosavam á sombra da artilheria, desapparecia, desde que o veneziano e o do Egypto, vendo em perigo o seu poder no Oriente, tinham lançado ao mar Vermelho uma esquadra poderosa, e tão bem artilhada como as nossas. A guerra tomava um caracter novo; e os portuguezes já não se encontravam apenas a braços com as armas brancas do indigena. Apparecera a polvora do lado dos inimigos; e a esta grave e nova phase das cousas veiu juntar-se, no animo do viso-rei, o resultado cruel da temeridade do filho, que em Tchala (Chaul) morrera batido pela esquadra egypcia: a armada de _Mirocem, capitão-mór do Soldão do Gram Cairo e de Babylonia_--como se dizia no tempo.

Confirmando a doutrina com o exemplo, esporeado pelo desejo de vingar a morte do filho,[87] e pela necessidade de destruir essa armada que ameaçava matar á nascença o dominio portuguez na India.

... vem o pae com animo estupendo, Trazendo furia e magoa por antolhos.

Descendo pelo Mar Vermelho, a esquadra egypcia viera deitar ferro em Diu, na costa do Gujerât (Guzarate), impondo ao indio a obrigação de ser defendido. Entre _mouros_ e portuguezes, que uns a outros disputavam a presa do commercio do Oriente, os rajahs, perseguidos pela protecção de ambos, não sabiam as mais das vezes por quem se decidir, incertos do lado para onde a victoria final penderia. Os vencedores foram sempre os fieis alliados de todos os fracos. Tal era a situação do indio de Diu. Não teve remedio senão acompanhar os rumes, e aprisionar os portuguezes da esquadra batida de Lourenço d'Almeida, guardando-os como penhor, e base de argumentos e desculpas para com o viso-rei--caso este vencesse com a nova armada em que vinha.

Effectivamente D. Francisco d'Almeida subia ao longo da costa, deixando apoz si o rasto de cinzas e sangue, que por toda a parte annunciava a passagem dos portuguezes. As faulhas do incendio de Deval (Dabul) e os lamentos da população dispersa chegavam até á ria onde fundeavam as esquadras do egypcio e do de Diu, já engrossadas com as trezentas fustas que o de Kalikodu enviára tambem, para vêr se conseguia exterminar por uma vez os incommodos visitantes.

O egypcio, apesar de victorioso, temia o viso-rei; e fundeada a esquadra, dispozera que picassem as amarras os navios assim que fossem abalroados, dando á costa, e arrastando comsigo os portuguezes, sobre os quaes as lanchas e fustas dos indios cairiam então desapiedadamente. Mas o viso-rei, percebendo o ardil, mandou preparar as ancoras á pôpa, e os navios inimigos foram sosinhos varar na praia. Era 3 de fevereiro (1509) festa de S. Braz, pelo meio dia. A viração do mar soprava fresca pela pôpa dos navios portuguezes, quando a _capitaina_ desfraldou o guião azul á prôa e, toda empavezada, no meio dos gritos de «Senhor Deus; misericordia! Santiago!» ao som das charangas de trombetas, soltou a primeira banda de artilheria. Um clamor immenso de vozes, de trompas, de tiros lhe respondeu, e a batalha generalisou-se com artilheria e arma branca, á abordagem. A confusão de gentes que alli combatiam era inextricavel; e os pavilhões da Cruz e do Crescente, erguidos nos mastros dos navios, abrigavam os sentimentos mais extravagantes, as crenças mais disparatadas. É que não se combatia, nem pela fé, nem pela patria: disputava-se com furor o saque da India; e a cubiça torna irmãos os homens de todas as fés, os filhos de todas as raças. Havia allemães e francezes por bombardeiros a bordo das náus portuguezas; havia indios, brahmanes e até _mouros_. Havia, do lado opposto, na confusão dos navios, desde o nubio até ao arabe, desde o ethiope até ao afghan; havia musulmanos de toda a casta, persas, e _rumes_ do Egypto--mercenarios de todas as partes, a que se dava este nome generico; havia ao lado da multidão dos infieis, o veneziano, renegado ou catholico, mas sobretudo mercador, que por ordem da sua republica vinha como artilheiro defender, no mar da India, os interesses solidarios dos seus socios no commercio oriental. Em volta da população confusa da esquadra dos _rumes_, apinhava-se em seus juncos a massa obscura dos indios, de Diu no Gujerât, de Kalikodu no Kanará.

Os navios portuguezes eram poucos, mas solidos, e ainda bem construidos e artilhados; as suas guarnições não excediam mil homens. Eram náus principalmente; mas tambem galés, _bastardas_ e _subtis_, e _fustas_--os _avisos_ d'essas antigas esquadras. As náus vomitavam fogo das amuradas. Nos castellos de pôpa e prôa fusilava a artilharia menor, baptisada com os nomes da monteria feodal, _aguias_, _sacres_ e _falcões_, _leões_ e _serpes_, _pedreiras_ que arrojavam balas de granito, _berços_, _camellos_, _colubrinas_ e _esperas_. Nos bailéos, de pôpa á prôa, os mosqueteiros despediam continuas surriadas de balas; e as xaretas de corda, presas nas amuradas, defendiam as náus das abordagens dos juncos e galeotas dos indios. A bordo das galés, o capitão sobre o chapiteu--Jesus! S. Thomé! Ave-Maria!--excitava os soldados que, de espada e rodella, se juntavam á prôa para a abordagem dos navios inimigos, ou da pôpa, a tiros, caçavam mouros. As enxarcias appareciam crivadas de settas. Da prôa tambem, o castello das galés vomitava fogo; e o ligeiro navio, caíndo perpendicularmente sobre o contrario, rasgava-lhe o ventre com o esporão, despedaçava-lhe os remos, crivava-o de balas. Sentados os forçados, nús e negros, acorrentados aos bancos, remavam agil e poderosamente; obedecendo aos gritos do comitre que, de espada em punho, corria na coxia, entre as platéas dos bancos, distribuindo cutiladas. Sob a coberta, junto ao paiol defendido por colchas e cobertores escorrendo agua, o capitão-do-fogo distribuia a polvora, tirando-a ás gamellas dos caldeirões. E os bombardeiros, com os murrões e bota-fogos a bom resguardo, obedeciam á ordem de atirar. Os bailéus, d'onde a taifa dos soldados se lançava ás abordagens, defendiam com a mosqueteria os remeiros; e as velas estavam carregadas nos mastros, por causa dos incendios. O fogo punha um elemento novo n'este antigo modo de batalhar no mar.[88] No meio do enxame das galés e caravelas,[89] correndo á caça dos paráos fugitivos, os navios de vela, de typos novos, náus e galeões, urcas e carracas, eram como fortalezas fluctuantes, vomitando lume, estrondos, fumo, naufragios e morte.

Tingiram-se mais uma vez de vermelho as aguas do mar das Indias; morreram innumeros; boiavam feridos, pedindo misericordia e recebendo tiros: e por fim, depois de todos os episodios e scenas proprias d'estas tragedias, a victoria foi pelo vice-rei que destruiu rumes e indios. Esta batalha naval tinha uma importancia superior ainda á das victorias de Duarte Pacheco em Katchi: porque os indios, meditando e observando, reconheciam que a phalange portugueza não era só invencivel para elles: era-o tambem para os rumes do Egypto, e para a artilharia de Veneza...

O de Diu, que estivera sempre indeciso, ao vêr o resultado da batalha, veiu pressuroso, desculpar-se, entregar logo os prisioneiros da empreza anterior. Guardára-os para os salvar das garras ferozes dos rumes, a quem desejava todo o mal, sem lhes ter podido resistir. Mandava-os carregados de presentes e parabens, por tão grande victoria, que o libertava da odiosa tyrannia dos rumes.

No chapiteu da sua náu, o almirante e vice-rei contemplava a scena de carnagem, agora muda, e os destroços que boiavam com os cadaveres no mar tinto em sangue; e estava glorioso e contente no meio dos seus, que contavam com verbosidade os episodios, o que tinham feito, como se tinham saído, cada qual de seu lance... quando chegaram á borda, n'uma almadia, os prisioneiros forros, gritando alegres, a pedir que os recebessem. O vice-rei lembrou-se então que lhe faltava o filho, e «se foi assentar na tolda com um lenço na mão, que não podia estancar as lagrimas que lhe corriam!» Acudiram todos a consolal-o; e elle, tomando-lhe os animos, ergueu-se, e disse-lhes enxugando os olhos, e tratando-os por filhos, que isso já passára e traspassára a sua alma, que se alegrassem todos agora com a boa vingança que Nosso Senhor por sua misericordia lhes dava!

E regressando, conformado com a sua sorte, ao passar em frente de Kananor, salvou á terra para celebrar a victoria; mas, para acabar de vingar a morte do filho, mandou amarrar prisioneiros ás boccas das bombardas, e as cabeças e membros despedaçados dos infelizes iam cair na cidade como pelouros... A morte do filho transtornára o seu lucido espirito, mudando as suas opiniões antigas de estadista n'um furor carniceiro, attestado pela devastação da costa do Gujerât. Cedêra tambem ás intrigas e maledicencias dos capitães que tinham vindo de Hormuz, fugindo ao mando terrivel de Albuquerque, atemorisados pela loucura das suas emprezas tytanicas. Bulhavam, o governador que acabava o praso do governo, e Albuquerque já nomeado de Lisboa para lhe succeder; e á côrte haviam chegado noticias perfidas de excessos commettidos pelo sabio vice-rei. Em paga dos seus trabalhos esperava-o a masmorra de Duarte Pacheco; porém, na viagem para o reino, deu á costa da Cafraria, o foi morto pelos negros ás pedradas e zagunchadas.

* * * * *

O seu plano de governo, por ser sabio, era chimerico, pois que a India era uma loucura. Só homens de genio, como Albuquerque, poderiam tornar grande uma empreza condemnada; só, como Castro, um santo podia resalvar o brio portuguez da nodoa de uma ignominia formal.

Para que o nosso dominio fosse maritimo e mercantil apenas, era necessario que essas tradições estivessem na alma portugueza, como tinham estado, n'outras edades, na alma de Carthago, e como agora estavam na de Veneza. Em Portugal, o espirito patrio fôra formado pela religião e pela cavallaria; e exigir dos soldados d'Africa que não desembarcassem dos navios, convencel-os de que o verdadeiro modo de conquistar fosse prescindir do governo, era querer uma cousa impossivel. Alargar, ao contrario, os dominios portuguezes, avassallar territorios, fazer conquistas, e crear um imperio á antiga, como o de Alexandre e o dos romanos, era o pensamento commum--naturalmente deduzido dos antecedentes militares da nação, e agora fomentado de um modo especial pela cultura classica, enlevo de todos os bons espiritos da Europa. A idéa de que Portugal era uma Roma preoccupava os reis e os escriptores, que se fatigavam a procurar origens e a indicar analogias, de certo verdadeiras. Albuquerque fez vivo em si um tal pensamento, e viu-se o Scipião d'essa Roma[90], ou antes o Alexandre da nova Grecia.

Além dos motivos intimos que tornavam inacceitavel a politica commercial e maritima do primeiro vice-rei da India, havia motivos mais praticos. Uma das suas justas exigencias era a da prohibição do commercio aos soldados, magistrados e capitães do Oriente. Com effeito, o dominio, tal como elle o concebia, não era um saque: era uma protecção armada a um commercio, franco por um lado, monopolio do Estado, ou apanagio da corôa, pelo outro. Os capitães e governadores seriam simultaneamente agentes commerciaes de S. A., excelso mercador da Pimenta. Isto exigia uma fleugma de que só os hollandezes foram capazes, e ainda assim á custa de salarios que supprimem as tentações.

Desde que o rei era o primeiro negociante, porque não seria o vice-rei o segundo, os capitães das fortalezas e das armadas os terceiros, os soldados os derradeiros? Só isto era, evidentemente, logico; e, apesar de todas as confusões, quem bem observa, descobre sempre que a historia obedece á logica. Ninguem distinguia bem, na era de 500, entre a pessoa individual do rei e a pessoa abstracta ou symbolica do monarcha. Não se separavam Rei e Estado; e só com esta perspicacia moderna poderia convencer-se o rude soldado da India de que o commercio, bom para o rei, era mau para elle; de que uma virtude podia ser um vicio, por mudarem as condições. Além d'isto, os portuguezes lançavam-se, famintos, ao banquete do Oriente, como seculos antes os povos do norte, ao banquete da Gallia, da India, da Hespanha[91]. Ninguem seria capaz de lhes arrancar dos dentes essas carnes palpitantes, que devoravam com ancia; e eram inevitaveis as consequencias funestas, que D. Francisco d'Almeida previa sabiamente.

Fleugmatico e pontual no cumprimento dos seus deveres duplos de capitão e caixeiro, o vice-rei, ao mesmo tempo que expunha para Lisboa os seus planos de governo, mandava os seus relatorios commerciaes, como um correspondente ao seu patrão de Genova ou de Veneza. O vice-rei estudára como geographo o Oriente; e para fundamentar o seu plano de imperio maritimo dizia, com Barros, que a India «tem entradas e saídas de que seu commercio vive, e que são como o corpo animado, que, se lhe tiram a entrada e saída das cousas que o sustentam, não tem mais vida.» O principal estado consiste na navegação, escrevia o vice-rei; só com ella se governará no mar Vermelho e no golpho persico, essas duas correntes da exportação da India; só com ella na peninsula de Malaka, que é a transição da India para o extremo Oriente; só com ella manteremos o privilegio da passagem do cabo da Boa-Esperança, caminho que descobrimos para a Europa. Albuquerque em Hormuz, em Goa, em Malaka, assentou na terra firme os limites do imperio que para o seu antecessor devia vogar fluctuante sobre as ondas.

Estadista e geographo, D. Francisco d'Almeida era ao mesmo tempo um mercador cuidadoso e até habil. Dava ao rei minuciosas informações dos generos, preços e pezos. «E o lacre que V. A. diz lhe mande, será maravilha haver-se, porque estas náus (portadoras de cartas) partem cedo, e as náus que o trazem do Pegú e Martamão (Martaban) veem tarde. Espero por uma boa somma d'elle, porque o tenho mandado trazer... E assi V. A. me manda que a pimenta vá limpa e secca, e que o pezo se faça com nossas balanças e pezos... e dá-se tal aviamento que, com duas balanças, té vespora pesaram mil quintaes. Se os navios não chegassem tão avariados, em vinte dias carregariam e partiriam. O baar de Cochim (Katchi) tem tres quintaes e trinta arrateis de pezo velho, e custa o quintal mil e quinhentos réis e meio.--Mandei noticiar com pregões que todos trouxessem pimenta, e que logo se lhes pagaria á vista: é o meio de bater os mouros, que são regatões e compram fiado. Acodem os gentios com pimenta, e levam o cobre muito alegres.--Quanto á pimenta e drogas que vão ao Levante, são de Malaca, Sumatra e Diu, onde nasce muita pimenta longa e redonda, e muito bem sei por onde passa e em que tempo: falta-me o principal.--O aljofar e perolas que me manda que lhe envie não os posso haver, que os ha em Ceylão e Carle (?); os sinabafos, porcellanas e mais cousas de jaez são de mais longe. As escravas que quer, tomam-se depressa: que as gentias d'esta terra são pretas e mancebas do mundo, como chegam a dez annos.--Tem cobre aqui para cinco annos, vermelhão sem numero, chumbo e azougue, pannos de lan a apodrecer, escarlatas, espelhos, oculos, chapéus, e sellas ginetas, que é mui certa mercadoria para cá.» E continúa assim, misturando toda a especie de mercadoria, desde as escravas mancebas do mundo, até ás perolas e aljofar.--Porque não manda S. A. papel? Seria um excellente negocio.»

Eis ahi o motivo intimo, o principio fundamental, o cuidado superior do rei e dos seus governadores na India.[92] D. Manuel perdoava tudo, os crimes e os roubos, as carnificinas e as brutalidades, os incendios e as piratarias, com tanto que lhe mandassem o que elle sobretudo ambicionava: curiosidades, primores e riquezas para encher os seus paços de Lisboa, e deslumbrar o papa em Roma com a sua magnifica embaixada. «Manda pimenta e deita-te a dormir», dizia mais tarde, da côrte para a India, Tristão da Cunha, ao filho Nuno, governador. O saque do Oriente--este é o nome que melhor convém ao nosso dominio--ia ordenado de Lisboa.

[82] V. _Quadro das instit. primit._, pp. 264-7.