Historia de Portugal: Tomo I

Part 16

Chapter 163,916 wordsPublic domain

Facil seria, sem duvida, convencer o principe de que Vasco da Gama era um pirata, o seu rei uma burla; e sem o pensarem, decerto, os mouros de Kalikodu definiam antecipadamente o dominio portuguez, que só veiu a differençar-se d'uma pirataria commum, em ser uma rapina organisada por um Estado politico. Convencido ou violentado, o rajah manda perseguir os navegantes, que embarcam e se defendem (agosto 30.) Depois de uma estação, de alguns mezes na ilha de Anjediva, sobre a costa, Vasco da Gama decide voltar; e faz-se de vela para Portugal em 10 de julho de 98. Um anno depois, no mesmo dia, chegava a Lisboa. Na viagem, separou-se da frota Nicolau Coelho em Cabo Verde, e Vasco da Gama veiu pela Terceira, sepultar ahi o irmão que morrera no mar.

O enthusiasmo foi grande em Lisboa, á chegada de Vasco da Gama: tambem D. Manuel tinha as suas Indias, e Portugal o seu Colombo! E o Preste-Joham, que noticias? E de Covilhan? Nada. O navegador conseguira vencer o Cabo e achar a India, mas não conseguira decifrar o enigma, que a este tempo já contava tres seculos de successivas indagações.

Pouco viriam essas a importar para a historia. O essencial era a decifração do outro enigma, ainda maior--o do Mar Tenebroso. Pouco faltava já; e em vinte annos mais, não haveria, na rotunda superficie do globo, um canto de terra incognita, nem um palmo por explorar na vasta amplidão dos mares. «Debaixo das bravas ondas, por saber os segredos da terra e os mysterios e enganos do oceano», os portuguezes, com uma curiosidade heroica, tomaram em suas mãos o futuro da Europa, e do mundo. No anno seguinte ao da descoberta da India, Pedro Alvares Cabral, que para lá fôra mandado com uma imponente esquadra, não resiste á tentação da curiosidade. Descendo no Atlantico, em direcção de leste, uma pergunta incessante o persegue: que haverá para o poente? Para esse lado descobriu Colombo umas Indias no hemispherio norte: acaso haverá mais Indias no hemispherio do sul? Amarou para oeste, a indagar, a vêr... Mais uns mezes, na longa viagem do Oriente, que importavam? Com effeito, descobriu o Brazil;[79] a terra de oeste vinha, desde o extremo norte até ao extremo sul, estendendo-se ao longo, nos dois hemispherios. Só então a America se pôde dizer inteiramente descoberta.

A noticia das novas terras encontradas impressionou pouco Lisboa; na côrte ardia o desejo de descobrir o Preste, o encantado Preste-Joham; de fazer com elle um bom tratado, para chamar a Portugal um pouco, ao menos, das tantas cousas boas que Vasco da Gama vira por seus olhos, e, contadas, enchiam de cubiça o espirito de toda a gente. Cabral fôra mandado a isso, e não a descobrir terras: já eram demais as Cruzes, e os nomes do repertorio escasseavam já para denominar ilhas e cabos, portos e bahias, costas e continentes. Desejava-se outra cousa, ferviam outras esperanças:

«Boa ventura! boa ventura! muitos rubis! muitas esmeraldas!»

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Tomarem-no por um pirata enchera de colera Vasco da Gama. Além da necessidade de mostrar ao Çamorim perfido o poder do rei de Portugal, era indispensavel desaggravar os brios do fidalgo offendido. Não podia ir d'esta vez, mas para outra seria a sua vingança.

Logo que Vasco da Gama chegou, decidiu-se, pois, enviar uma grande armada á India; porque agora, sabido o caminho, não havia mais receios, nem motivos, para reduzir o numero, nem a lotação dos navios. Pedro Alvares Cabral fôra nomeado almirante da frota, que contava treze náus, e levava mil e duzentos homens.

A construcção dos navios tinha progredido com a frequencia e extenção das viagens. Naus e galés, embarcações de vela e remo, tinham-se preparado melhor, augmentando em dimensões. No primeiro quartel do XVI seculo, porém, quando a avidez commercial não pervertia ainda a prudencia, a lotação ordinaria não excedia 400 toneladas.[80] A náu navegava á vela, jogando dos costados a artilheria, no convez ou sob a coberta. Á pôpa e prôa, nos castellos, luxuosamente ornados de lavores e douraduras, assentavam tambem canhões; e nos cestos de gavea havia pequenas colubrinas. De um a outro castello corria um baileu ou varanda volante, d'onde, nos combates, atiravam os mosqueteiros, e se passava á abordagem dos navios inimigos. Muitas náus andavam munidas de rostos ou esporões de aço nas prôas, para a investida. As galés, navios de remo, dividiam-se em _bastardas_ e _subtis_: as primeiras de 27 bancos a tres remeiros e 7 peças grossas; as segundas de 25 bancos e 5 peças apenas. A artilheria grossa jogava sómente á prôa, nos costados: entre os remeiros, collocavam-se, porém, umas peças menores, a que se chamava _berços_. Havia, além d'isto, as _fustas_, galés pequenas de 16 ou 20 bancos de dois remos, com duas peças grossas. As galés, comtudo, tambem velejavam: e para isso tinham dois mastros, onde levavam latinos; as fustas um só. Havia, porém, galés que, por se approximarem mais da armação das náus, se diziam _bastardas_: armavam dois mastros, mas no do traquete tinham duas velas redondas, e cestos de gavea, como as náus.

A esquadra de Pedro Alvares Cabral levantou ferro do Tejo no dia 9 de março do anno de 1500. Os gritos da marinhagem, para alar a um tempo os viradores nos cabrestantes, melopêa triste e funebre como o mar; o surdo roçar das amarras nos escovens; o apito dos mestres, dirigindo as manobras; as bandeiras multicolores soltas ao vento; e as velas meio desdobradas nos mastros, formavam o vivo quadro da nação que tambem partia, no anno de 500, já confessada e bem disposta, para essa longa viagem de pouco mais de um seculo, cheia de escrobutos e naufragios, ao cabo da qual a esperava um tumulo, vasto como é o mar, mudo como elle é nas calmas funebres dos tropicos.

Não havia protestos agora, senão esperanças, cubiças, ambições. Não partiam á aventura; partiam á conquista do que tinham descoberto, e queriam trazer para Portugal, para casa. Ninguem duvidava do exito, e o capitão levava cartas solemnes do rei para o Çamorim. Em troca d'ellas, da sua alliança, dos presentes que lhe mandavam, viriam os rubis e as esmeraldas, a pimenta e a canella, monopolisada pelo turco, inimigo de Deus!

Já na praia começava a levantar-se a basilica, monumento ingenuo d'essa religião do commercio, erguido a Jesus e á Pimenta--os dois deuses que viviam no céu portuguez (ou carthaginez): dois deuses piamente adorados, mas servidos ambos de um modo egualmente barbaro.

O almirante acaso pensava, já no Tejo, n'esse rumo de Oeste, o de Colombo, que o levaria á America; e porventura acreditava pouco na existencia do lendario Preste-Joham, por cuja causa tantas viagens se tinham feito. Não o mandavam descobrir, mandavam-no conquistar; mas elle queria tambem inscrever o seu nome na lista dos que, durante o seculo anterior, tinham pouco a pouco rasgado as trevas do mar mysterioso. A sua viagem, além de iniciar o dominio portuguez na India, teve, com effeito, as duas consequencias desejadas. Varreu as duas lendas, a do Preste e a do Mar Tenebroso: descobriu o Brazil, e veiu dizer a D. Manuel que o supposto imperador do Oriente era um miseravel rei preto, infiel, acantonado nas montanhas invias da Abyssinia.

Atraz de uma lenda, attrahido por uma voragem, Portugal descobrira os continentes e ilhas do Atlantico e chegára á India. Por uma illusão, consummára a realidade que espantava o mundo inteiro. O mundo é uma miragem, e os homens sombras levadas pelos sabios ventos do destino...

Reconhecidas as terras, sulcados os mares, por occidente e por oriente, faltava porém ainda reunir essas duas metades do mundo conhecido, e dar-lhe a volta, para se saber que cabia todo, inteiro, nas mãos do homem: eis ahi o valor da viagem de Magalhães, vinte annos mais tarde.

Não ha mais trevas no mar; consummou-se a grande conquista. Mas uma nova empreza se desenha agora: devorar o descoberto, digerir o mundo.

Portugal inteiro embarca para a India na esquadra de Cabral[81].

[75] V. _Regime das riquezas_, p. 109.

[76] V. _Hist. da repub. romana_, p. I, XIX, _intr._

[77] V. _Regime das riquezas_, pp. 85-6.

[78] V. nas _Raças humanas_, a ethnographia do Oriente a pp. 70-85, 90-105 e 122-41 do vol. I.

[79] V. no _Brazil e as colon. port._ p. 3 (2.ª ed.) a descoberta das costas brazileiras.

[80] V. no _Brazil e as colonias port._ (2.ª ed.) a composição typo de uma nau da India, a p. 34 _nota_.

[81] _Hist. da republ. romana_, I, pp. 217-8.

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LIVRO QUARTO

A VIAGEM DA INDIA

Dês o primeiro dia que com a vista a experiencia propria me acabei de desenganar do grande erro que até alli me trazia a fama das cousas da India... me nasceu logo um desejo ardentissimo de fazer por esta via um grande e extraordinario serviço.

RODRIGUES DA SILVEIRA, _Reformação da milicia e governo do Estado da India oriental._

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I

D. Francisco d'Almeida

Em 13 de Setembro do anno de 500 chegou Cabral a Kalikodu. Não ia, como Vasco da Gama fôra--como descobridor; ia como embaixador, á frente de uma poderosa armada, para não ser tomado por pirata, mas sim pelo emissario, que era, do nobre monarcha portuguez, portador das suas cartas e propostas de alliança para o rajah de Kalikodu. Como tal foi effectivamente recebido, n'uma audiencia solemne. Os portuguezes, vestindo as suas melhores roupas, as suas armas mais bellas e polidas, pensavam impôr de ricos ao monarcha do Oriente; mas os representantes da pobre e forte Europa iam ficar deslumbrados com as magnificencias da India opulenta. O brilho das armaduras era offuscado pelo rutilar da pedraria «cujas chammas impediam a vista». O rajah vinha em um palanquim ou andor trazido aos hombros pelos nobres, recostado sobre almofadas de seda, entre colchas lavradas de fio de ouro caíndo em pregas franjadas com borlas cravejadas de pedras preciosas, e pannos de carbaso de linho finissimo, cuja alvura sorria ao lado da vermelhidão sanguinea das sedas e brocados. Corria a compasso o andor coberto por um pallio de seda franjado de ouro, e dentro d'este duplo sacrario via-se o rajah negro rutilante de pedras preciosas. Cegava olhal-o. Aos lados do pallio iam pagens com leques de pennas de pavão agitando o ar, e á beira do palanquim os que levavam as insignias da soberania: a espada e a adaga, e estoque de ouro, a flor de liz symbolica, o gomil de agua, e finalmente a copa onde o rei cuspia o betele, cujo mascar faz os dentes côr de rosa e dá «muito bom bafo».

Em toda a volta e prolongando-se na cauda da procissão, charangas de musicos atroavam o ar com os seus tambores, com os tam-tams de prata e de ouro, suspensos por cordeis em bambus altos, com as trombetas enormes, umas rectas, outras curvas, levantadas para o ar, e que davam aos musicos o aspecto de elephantes com trombas douradas, cujos pavilhões se viam cravejados de rubis e esmeraldas. Vinha uma grande trompa de ouro levada por dois homens a cavallo! Os musicos, negros, iam nús, com manilhas nos braços e nas pernas, e á cinta um panno cobrindo as vergonhas. Nús iam os nayres e mais tropas do rajah, esgrimindo aos saltos em pyrrhicas singulares, parecendo atacados de furia, com as suas armas variadas: alfanges curvos para os golpes de cutilada, espadas largas e ponteagudas para as estocadas, espadas triangulares com o vertice nos copos e na ponta a base espalmada, arcos e molhos de frechas de bambu delgados, lanças com anneis tilintantes e guizos, correndo, saltando e gritando em brados: «Cucuya!» como na hora das batalhas. Mais ao largo, o povo mudo, n'uma impassibilidade de orientaes, olhava.

A recepção do embaixador fez-se no _çarame_ do rajah, á beira-mar, pavilhão de fórma oitavada erguido sobre esteios, todo rendado de varandas e lavores, marchetado de marfim, chapeado de prata e ouro em folhas, com pinaculos e corucheos que se desenhavam levemente no fundo azul do ceu--tão azul como o do mar onde fundeava a esquadra de Pedro Alvares Cabral. Na longa praia apinhavam-se as choças dos pescadores e galeotes e por entre ellas a multidão negra, espantada. Para o interior avistava-se a cidade, com os palacios e jardins do rei, dos nobres e dos ricos, docemente abrigados contra o sol inclemente pela sombra dos palmares e dos bosques de arvores aromaticas. No meio de um turbilhão de gritos de guerra, de sons de trombetas, o cortejo encaminhou-se para o palacio do rajah.

Ahi o Çamorim estava sentado sobre o véllo preto, insignia da realeza, no seu throno de prata com braços de ouro e as espaldas cravejadas de rubis, diamantes e esmeraldas, no meio da sua côrte, recostado em macias almofadas de seda, sobre fôfos tapetes da Persia, somnolento e immovel. Negro, nú, um véo de linho branco descia-lhe em pregas desde o umbigo até aos joelhos, com a ponta caída e n'ella enfiados anneis de ouro e rubis. Da extremidade pendia uma perola enorme. Os dedos, braços, estavam cobertos de anneis e manilhas. Das orelhas caíam arrecadas de ouro cravejadas: á cintura trazia um cinto de ouro. Ao pescoço collares roliços, de ouro tambem; e duas voltas de um fio de perolas, grandes como avellans, que desciam até ao umbigo, suspendiam um enorme coração de ouro encastoando a mais bella, a maior esmeralda. Nos cabellos compridos e apanhados em nó no alto da cabeça havia perolas e pingentes, e a corôa era um deslumbramento. O thesouro inteiro de Kalikodu saíra á luz. Ao lado do rajah, em pé, viam-se os pagens nús com pannos de purpura, apresentando as espadas e adagas de copos de ouro cravejados, e junto ao soberano o da copa de ouro com a toalha a tiracollo, e o da boceta cravejada de brilhantes, com o sal delido em agua de rosas, onde molhava as folhas de betele, antes de as dar ao brahmane-mór, que detraz das espaldas do throno as passava religiosamente ao rajah, para mascar. Outros pagens tinham as toalhas, perfumadas de almiscar, com que nas occasiões devidas esfregavam os braços e as pernas núas do soberano reluzentes de manilhas cravejadas de rubis. Em torno havia castellos de alfaias: vasos e urnas de bronze, de prata, de ouro, e os lampadarios de metal amarello sempre accesos, segundo os ritos ordenavam. Os escrivães, de pé, tinham debaixo do braço as longas folhas de palmeira, seccas, onde se registravam as leis e tratados, em sulcos abertos pelos estyletes de ferro, que balouçavam entre os dedos. Em frente de Pedro Alvares Cabral, que, sentado, lia a carta de D. Manoel em arabigo, estava a credencia com os presentes que trazia: uma taça e duas massas de prata, quatro almofadas de brocado e dois pannos de Arraz, de um desenho primoroso. A côrte, de pé, escutava em torno. Mais longe agrupavam-se as mulheres do rajah, untadas de sandalo, e núas da cintura para cima, com as cabeças coroadas de flôres, e collares de contas de ouro, e pedraria, manilhas grossas nas pernas, braceletes, e anneis fulgurantes. O rajah tinha mais de mil, entre amantes e varredeiras, escravas e embostadoras. Para além das columnatas de alabastro, nos pateos inundados de sol, viam-se os elephantes submissos, com os seus collares de campainhas e guizos, cobertos por xaireis de seda recamada de ouro; viam-se os pallios e leques do cortejo do soberano; os truões e os fakires, rebolando-se no chão, desgrenhados, a uivar gritos. Depois formavam alas, ou esgrimiam com tregeitos e cutiladas, os nayres, bucellarios do rajah, casta singular e polyandra de quem disse o poeta: «geraes são as mulheres porém sómente para os da geração de seus maridos.»[82] Mas o que sobretudo enchia de espanto e cubiça os portuguezes, envergonhados da sua pobreza, eram os rios luminosos da pedraria que, destacando-se do fundo acobreado das pelles indigenas, os cegavam: «As chammas que d'elles saíam impediam a vista!» Sobre o ouro de Sofala, eram os rubis do Pegú, os diamantes do Dekkan e de Narsinga, as saphiras de Simhala (Ceylão) e os seus topazios e turquezas, jacinthos e amethistas. Eram as bellas esmeraldas de Babylonia!

De parte a parte, comtudo, passada a recepção solemne, não se entendiam bem; e os escrivães em balde mostravam as longas folhas de palmeira escriptas, agitando os estyletes de ferro, a indicar as passagens das leis que julgavam oppôr-se ao que pensavam serem os pedidos dos portuguezes. Estes, em tregeitos, esforçavam-se por lhes fazer perceber que queriam pôr alli feitorias, para trazerem por mar, para a Europa, as preciosidades da India; e não cessavam de affirmar quante el-rey de Portugal era poderoso e forte. Apesar de não ter tantos ouros nem pedrarias tinha o bronze das suas peças e o ferro das suas granadas! accrescentavam com decidida importancia. Os escrivães iam comprehendendo, desconfiados: e os portuguezes desconfiavam tambem dos sorrisos do rajah. Apesar d'isto, porém, foi concedido o que pediam; e Cabral fundou a primeira feitoria portugueza na India, em Kalikodu.

Logo os mouros vieram reclamar contra os intrusos que os despojavam: e favorecidos pelo indigena, caíram sobre a feitoria, trucidando os portuguezes que lá havia: cincoenta ao todo. Começava a historia da India. Seguiram-se logo as terriveis represalias do almirante. Tomou dez náus de mercadores arabes, passou á espada mais de 500 homens tripulantes, e, bombardeando a cidade, poz-lhe fogo. O incendio de Kalikodu, em 16 de dezembro do anno 1500, era a funebre aurora da historia oriental. Se as pedrarias tinham cegado os olhos dos portuguezes, agora as chammas cegavam os olhos afflictos do rajah, n'essa noute de cruel memoria.

Incendiada Kalikodu, o almirante foi com a esquadra entrar em Katchi (Cochim) um pouco ao sul, na mesma costa de Malabar, mas já para além dos dominios do rajah perfido de Kalikodu. O terror da recente façanha abriu-lhe os braços do pequeno soberano de Katchi; e fundou-se ahi, em boa paz e amizade, uma feitoria, tomando o almirante, entretanto, refens, para segurança. Triumphára; o brahmane rajah de Katchi, revoltára-se abertamente contra o Çamorim seu suzerano. No meiado de janeiro (1501) partiu Cabral para Kananor: ahi carregou as suas náus de pimenta e canella, e regressou ao reino. Dos treze navios com que partira um anno antes, apenas tres o acompanhavam: cinco, desgarrados, voltaram por diversas vias, e outros cinco foram tragados pelo Mar Tenebroso. Esse inimigo terrivel, embora vencido, não estava domado, e a primeira expedição da India, este primeiro acto da tragedia de mais de um seculo, esboçava já todos os elementos da acção: assassinatos e incendios, morticinios e naufragios; a espada e a pimenta; as armas do guerreiro em uma das mãos, as balanças do mercador na outra; uma Carthago moderna--e, no fundo, a voragem aberta do mar, prompto a devorar homens, navios e riquezas; a fonte perenne do vicio, entornando caudaes de torpezas!

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Da curta historia anterior da India resultavam dois factos: a inimisade perfida do rajah de Kalikodu, e a feitoria de Katchi. Castigar terrivelmente o primeiro e consolidar, fortificando-a, a ultima, foi o principal motivo da segunda armada, que em 1502 (fevereiro) partiu de Lisboa para o Oriente, sob o commando de Vasco da Gama, o capitão desapiedado, o fidalgo offendido nos brios pelo miseravel _Çamorim_.

A historia da viagem é um horror; e a desforra do capitão uma prova d'essa frieza sanguinaria, impassivel e cruel, que effectivamente existe no temperamento, quasi africano, do portuguez. Obliterada na sujeição ou na paz, rebentou sempre com o dominio e com a victoria, na guerra. Se taes sentimentos, vivos na alma do Gama, inspiram os seus actos, a sua campanha não obedece a um plano, nem no seu rude espirito cabem as largas vistas do estadista. Se algumas levava, reduziam-se a espantar a India com a crueldade das suas façanhas, e a dominal-a com o terror dos seus morticinios. Grande sobre as ondas, em lucta com os temporaes, é a imagem da nação, cuja grandeza está na coragem e na teima com que soube vencer o Mar Tenebroso. Um terramoto agitou o mar da India quando o Gama pela segunda vez o trilhava; e o almirante, imagem da bravura épica do povo portuguez, acreditou e disse que até as proprias ondas tremiam com medo nosso--com medo d'elle!

Navegando porém no mar das Indias, com toda a artilheria carregada de metralha, para arrasar Kalikodu, encontra o Gama uma náu de mercadores arabes que ia para Meka ou voltava, nas romarias constantes á santa Kaaba. Além da tripulação, o navio trazia duzentos e quarenta homens passageiros, com suas mulheres e filhos. Era isto no dia 1 de outubro de 1502, «de que me lembrarei toda a minha vida!» escreve o piloto ainda horrorisado, ao recordar como a náu foi cobardemente incendiada, com todos os que continha, e que morreram desesperados no fogo ou no mar. Ia a bordo um flamengo, que assim refere a occorrencia: «Tomámos uma náu de Meka, onde iam a bordo 300 passageiros, entre elles mulheres e creanças; e depois do sacarmos mais de 12:000 ducados de dinheiro e pelo menos 10:000 de fazenda, fizemol-a saltar com os passageiros que continha, por meio de polvora, no 1.º de outubro.» Satisfeito de si, o capitão rumou para Kalikodu. Mandou intimar ao rajah a expulsão de todos os mouros, que eram cinco mil familias, das mais ricas da cidade: dizendo-lhe que qualquer creado d'el-rey D. Manuel valia mais do que elle, _Çamorim_; e que seu amo tinha poder para fazer de cada palmeira um rei!--Como era de vêr, o rajah recusou; e o capitão que, ao fundear, apresára um numero consideravel de mercadores no porto, mandou cortar-lhes as orelhas e as mãos, e amontoados n'um barco, foram com a maré varar na praia, levando a resposta do Gama á recusa do afflicto principe.[83] Começou logo o bombardeio (2 de novembro). A cidade ardia outra vez; e á população em choros, respondiam as risadas ferozmente cynicas dos marinheiros, abrigados detraz das amuradas dos navios, junto ás peças que vomitavam fogo. Era uma inepcia, uma barbaridade e uma covardia; porque as curtas lanças e as settas dos indigenas não podiam medir-se com as granadas, despedidas de longe, de bordo das náus. O Gama, cada vez mais satisfeito de si, foi-se a visitar o porto amigo de Katchi; e decidiu regressar ao reino por Quilua, d'onde trouxe o ouro com que o rei D. Manuel fez uma custodia para o seu templo dos Jeronymos. Vinha contente da brava desforra que tomára: o _Çamorim_ estava punido!

Deixára o Gama na India uma parte da sua armada sob o commando de Vicente Sodré, personagem tão eminentemente celebre como o proprio almirante, cujo tio era. Fidalgo, este amava as façanhas brutaes e estrondosas; o outro queria mais á pirataria e ao roubo. Com effeito, assim que o Gama partiu da costa do Malabar, o de Kalikodu, invocando porventura direitos de suzerano sobre o visinho de Katchi, exigiu d'elle a expulsão dos portuguezes da feitoria. Mas os ataques repetidos ao poderoso rajah do Canará ensoberbeciam os seus vassallos, e fomentavam a decomposição do systema politico de Hindustan. O de Katchi resistiu, implorando o auxilio do Sodré, que pouco se lhe dava da feitoria, e a abandonou para ir ao corso das náus de Meka: era trabalho de mais proveito e menor risco piratear de parceria com a corôa portugueza nas costas de Adal e da Arabia, á embocadura do mar Vermelho.[84] O producto das náus de Meka pertencia, metade ao rei de Portugal, metade ás tripulações: cabendo aos soldados uma parte, aos marinheiros duas, outras duas aos bombardeiros, quatro aos pilotos e outro tanto ao mestre. Pilhavam todos, de braço dado com a Corôa.

Vicente Sodré andava n'isto, ao mesmo tempo que Ruy Lourenço, por sua conta e risco, varria a costa de Zamgebar, caçava navios e cobrava tributos aos sultões.