Historia de Portugal: Tomo I

Part 19

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Em novembro de 508, depois de ter voltado ainda outra vez a Hormuz, estava de regresso á India, em Kananor, onde abriu a carta de Lisboa, que lhe confiava o governo do Oriente. N'esse momento a violencia do seu genio furioso arrebatou-o: queria castigar os capitães insubordinados, queria sobretudo terminar rapidamente o plano das suas conquistas; e foram necessarios os rogos de D. Francisco de Almeida, a quem o filho acabava de morrer, para consentir na expedição naval de Diu. Só quando, mezes depois, chegou á India a fidalga armada de D. Fernando Coutinho, poderam terminar as deploraveis contendas, entre o vice-rei e o seu successor. Coutinho levava de Lisboa ordem expressa de tomar Kalikodu; e, cheio de basofias, lançou-se na empreza em que achou a morte. Engolfados na matança e no saque, no meio de parte da cidade incendiada, os portuguezes foram por sua vez trucidados, quando os inimigos os colheram dispersos e sem armas.

Só e livre, absoluto senhor do imperio nascente, Albuquerque entregou-se com franqueza e decisão ao seu projecto. A primeira condição d'elle era a fundação de uma cidade, uma capital portugueza--cousa que até então não existira. Katchi, cujo rajah desde o principio se abraçára aos novos invasores, era uma cidade India, onde possuiamos apenas uma fortaleza, abrigo da feitoria e guarda de um porto amigo. Albuquerque elegeu Goa para capital. Collocada a meia altura da costa Occidental da peninsula, bom porto, a cidade reunia as condições desejaveis. Fazia elle então parte do reino de Vijajapur (Bijapor) fracção que no fim do XV seculo se separára do de Dekkan, declarando-se o seu khan independente, sob o titulo de adil-shah (Adil-Khan, Hidalcão); e o adil-shah do Vijajapur, ao tempo de Albuquerque, tinha por nome Yusuf. Por este governava em Goa Sipahdar, a quem os nossos chamaram Sabaio. Em fevereiro de 510 Albuquerque tomou Goa por surpreza; e pela primeira vez houve no Oriente um Estado portuguez. Até então, depois de uma batalha, a tomada de um logar significava apenas a substituição da suzerania indigena pela nossa; e o estabelecimento de feitorias e a construcção de fortalezas, tinham sómente em vista assegurar o commercio e a cobrança das páreas ou tributos de vassallagem, segundo o plano do primeiro vice-rei. Albuquerque iniciava um systema differente; creava uma cidade propriamente portugueza; e com o novo governador, o nosso dominio desembarcava dos navios para a terra firme. A um systema de colonias, como fôra em volta do Mediterraneo o dos phenicios ou o dos gregos, substituia-se um imperio, como Annibal o sonhára na Italia, e Alexandre o fundou na Asia. Albuquerque, porém, não pensava em fazer de Goa uma cidade portugueza, no sentido de ser exclusivamente habitada por europeus: seria chimerico. Faltava-lhe gente, e para obviar a isto fomentou os cruzamentos de portuguezes com mulheres indigenas, creando, tanto em Goa como depois em Malaka[95], uma população de mestiços, que mais tarde se tornou um dos elementos de dissolução do nosso imperio. Sob o dominio portuguez, os naturaes viveriam livremente na sua religião, com as propriedades garantidas, mas sujeitos ao imperio protector e soberano de Portugal.[96] Era um plano correspondente ao que mais tarde os inglezes pozeram em pratica, sem todavia cruzarem com os indigenas: da mesma fórma que os hollandezes preferiram os planos maritimo-commerciaes de D. Francisco d'Almeida.

Goa occupou ao governador todo o anno de 510; porque o _Sabaio_, tomado por surpreza em fevereiro, voltou no verão; e os soldados de Albuquerque não quizeram resistir-lhe. Apesar do desespero e das maldições, da furia e das ameaças do governador, abandonaram a cidade e embarcaram. Os planos de Albuquerque pareciam loucuras aos bandidos e piratas da India, que além de lhes não comprehenderem o alcance, se viam privados de saques, apenas fartos de guerra. Goa perdeu-se em agosto; mas logo tornou para o dominio portuguez, ganha por assalto em novembro. Os soldados obedeciam, porque o commando do governador era _terribil_, desapiedada a sua crueldade genial, fervorosa a sua fé catholica. Alexandre cria-se um deus, Albuquerque _viu_ mais de uma vez os milagres do céu nas horas do combate. Em Goa viu Santiago: um cavalleiro de armas brancas, no manto uma cruz vermelha, pelejando contra os _mouros_[97]--conforme a tradição historica portugueza. Nas cidades da costa da Arabia, viajando para Hormuz, as suas crueldades tinham sido barbaras: em Goa não o foram menos. Além queria impôr pelo medo; aqui destruia como politico. Todos os _mouros_ de ambos os sexos, de todas as edades, mais de seis mil, foram mortos; e queimados vivos os que se tinham refugiado na mesquita, sendo a terra assim «despejada», porque para socego d'ella só devia conter gentios. Era o logar escolhido para capital do imperio dos novos gregos pelo moderno Alexandre.

Consolidada a posse da capital, no coração da India, Albuquerque voltou-se rapido para as duas emprezas que rematariam o seu imperio: Malaka e Hormuz. Embarcou, logo no principio de 511, e tocando em Ceylão, a terra encantada das pedras preciosas, delicias do mundo, patria da canella e das perolas, achamol-o, já em maio, em frente de Malaka, no extremo Oriente.

Malaka, na ponta da peninsula da Indo-China, sobre o estreito a que dá o nome, era para esta região, como Hormuz, a norte-leste, para a outra. Assim como além se permutavam os generos da India com os da Arabia e da Persia, e em Adem com os do Egypto; assim em Malaka se faziam todas as trocas dos productos occidentaes da China e das Molucas, e de todo o extremo Oriente. De Malaka iam as náus a Ternate e a Tidor, a Banda e a Ambon, em procura do precioso cravo; e o estreito andava coalhado de _juncos_ de Java, conduzindo á cidade o arroz, as carnes, a caça e os _crizes_ tauxiados de fino aço, em troca dos damascos e brocados, que levavam de retorno para as ilhas do archipelago. Amphibios, os malaios viviam no mar em permanencia, com a casa e a familia a bordo; e os seus _juncos_, com enxarcias de verga, iam buscar a Malaka os pannos de Paleakat e de Mahabalipurum (Meliapor), na costa de Coromandel, e as drogarias de Kambai.

Do saque de Malaka, o governador reservou para si apenas seis leões de bronze, destinados ao seu tumulo. Sem se demorar, avassalou todo o archipelago malaio, levantando fortalezas e deixando guarnições; e, segura a porta oriental da India, voltou-se a Goa, de caminho para Hormuz e Aden, a consolidar o imperio pelo occidente. Em fevereiro de 513 sáe com uma armada para Aden, que não consegue tomar; viaja em torno do Mar Vermelho, incendiando e bombardeando as costas; mas não sente forças para levar a cabo o seu plano de conquistar a Arabia, indo a Meka despedaçar a santa Kaaba. A campanha de 513 não tem portanto resultado positivo, desde que Aden consegue resistir ás investidas do governador. Adiou pois para outra vez esses planos, que eram a cupula do seu edificio e a chave do imperio que vinha construindo. Conquistada Aden, as duas emprezas que meditava eram relativamente faceis na sua simplicidade temeraria. Levaria quatrocentos homens de cavallo em taforeas ou caravellas e iria desembarcar em Liumbo, partindo n'um galope até Meka, logar santo mal guardado por gente prostrada em adorações. Roubaria o thesouro sagrado e o proprio corpo do propheta: com ambos se resgataria o Santo-Sepulcro de Jerusalem, captivo. Consumar-se-hia a obra mallograda das Cruzadas, tradição piedosa que na Renascença passara das nações do norte para a Italia e para a Hespanha, arrastando mais tarde Portugal a Alcacerquibir. Ao mesmo tempo, e por outro lado, a grande empreza do mar Vermelho descarregaria um golpe mortal no Egypto, que era a joia do imperio dos turcos e o arsenal de onde vinham as armadas á India. O seu plano consistia em «cortar uma serra muy pequena que corre ao longo do rio Nilo, na terra do Preste Joham, para lançar as correntes d'elle por outro cabo que não fossem regar as terras do Cairo».[98] Desviando o Nilo seccaria o Egypto.[99] Já pedira a D. Manuel que lhe mandasse officiaes da Madeira, onde os havia mestres no córte das serras para formar as levadas de rega dos canaveaes. Tudo isto continha a empreza de Aden, cujo mallogro cortou os vôos ás ambições grandiosas do heroe.

Embora no céu, lá para os lados das terras do Preste abexim, tivesse fulgurado aos olhos do mystico e terrivel heroe uma cruz vermelha, Christo abandonara-o na empreza. Quando o famoso milagre surgiu, Albuquerque e todos, ingenuamente, crentes na missão divina em que andavam, caíram de rastos adorando a cruz.[100] E o capitão, para corresponder ao céu, mandou tanger os córos de trombetas, responder com artilheria aos cumprimentos de Jesus. Lavrou-se um _estromento_ assignado pelas guarnições, que veiu para D. Manuel, com a carga de pimenta, afervorar a piedade mystica da côrte carthagineza.

Como, porém, apesar do milagre, nada se fez, Albuquerque em 514 volta-se para Hormuz, cujo dominio não estava seguro. Outro Alexandre em Persepolis, o heroe condemnou-se em Hormuz: a grandeza das suas façanhas tinha-lhe feito nascer um orgulho, que já não distinguia o bem do mal. Orientalisado como o imperador, cujos exemplos seguia, não lhe bastavam já a crueldade, nem a força: appellava para a perfidia; e intromettendo-se nas miseraveis politicas dos persas, chamou á sua tenda para uma festa o ministro que então governava o principe idiota de Hormuz, e assassinou-o covarde e friamente, substituindo-se-lhe. Estava proximo da cova: e a sorte não queria que á historia d'este heroe faltasse o epilogo frequente da historia dos heroes: uma abjecção. Tampouco a verdade consente que se esconda um fraco de vaidade e fraqueza commum. Alexandre mimoseava os litteratos de Athenas para que o exaltassem: Albuquerque mandava anneis de pedras preciosas ao chronista Ruy de Pina «para escrever com melhor vontade os memoraveis feitos da India».

De volta de Hormuz a Goa morreu na viagem: a morte salvava-o, como fizera a D. Francisco de Almeida, dos ferros que tinham servido a Duarte Pacheco. A côrte de Lisboa já o mandára substituir no governo por Lopo Soares de Albergaria, que, chegando, começou por condemnar o seu predecessor, exaltando todos os que lhe eram inimigos. Antes de acabar, Albuquerque pegou da penna e dirigiu uma carta ao rei--«quando esta escrevo a V. A. estou com um soluço que é signal de morte!» E pedia-lhe que lhe honrasse a memoria e protegesse o filho: o que o rei fez, honra lhe seja. Agonisando, via-se incomprehendido pela tacanha côrte de Lisboa, e acceitava de bom grado a morte: «Mal com os homens por amor d'elrey, mal com elrey por amor dos homens, bom é acabar». E acabou, á vista de Goa. Era homem de mean estatura, rosto comprido e corado. Era avisado latino e de grandes ditos: falava e escrevia muito bem; mui facil na conversação, muito grave no mandar, muito manhoso no negociar com os mouros, muito temido e amado de todos. Nascera filho segundo de uma familia de sangue nobre, e educara-se na côrte militar de Affonso V, viveiro da geração dos capitães da India amestrados nas guerras de Africa. Fôra em 1480 na esquadra mandada a Napoles em auxilio do rei Fernando contra os turcos, e nove annos depois partira para Africa a defender a fortaleza da Graciosa, em Larache, contra os mouros. Era estribeiro-mór de D. João II e já um grande fidalgo quando, em 1503, D. Manuel o mandou á India pela primeira vez. Foi, voltou com bons creditos, mas sem nada ter feito de singular; provavelmente observou e aprendeu muito, levando já um plano formado quando o rei o mandou como capitão na esquadra de Tristão da Cunha. D'essa ida começa a historia que narrámos e que termina agora com a sua morte.

Os soldados, a bordo, amortalharam-no no habito de Santiago com borzeguins e esporas, espada á cinta, na cabeça uma carapuça de velludo e aos hombros uma beca tambem de velludo. O enterro subiu em lanchas, e era tamanho em todos o choro e pranto, que parecia fundir-se o rio de Goa. Ao desembarcar, foi levado aos hombros dos soldados, sob o pallio, pelas ruas da cidade que conquistara; e os gentios, vendo-o com os olhos meio abertos, a longa barba atada até á cinta, fluctuando, não o criam morto: Deus o chamara para alguma façanha no céu! Voltaria breve. E por muito tempo houve romarias ao sepulchro do heroe, vindo os naturaes pedir-lhe justiça contra os desmandos e perfidias dos portuguezes, offerecendo-lhe boninas e azeite para a sua lampada. Do extremo Oriente, desde o Pégu até á China, ficaram-lhe chamando o Leão-do-mar.[101]

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Hormuz, Goa, Malaka, os tres pontos cardeaes do imperio fundado por Albuquerque no breve periodo de cinco annos (1507-11), valiam o dominio em todo o mar das Indias e a vassallagem de todas as costas, desde Sofala, em Africa, ao cabo de Jar-Hafun; desde Khor-Fakhan, na Arabia, até ao golpho Persico; desde o Indo até ao cabo Kumari (Comorim); d'ahi ás boccas do Ganges, e descendo pelo Arakan e pelo Pégu, até Malaka--com as ilhas dispersas de Madagascar e Sokotra, Anjediva, os archipelagos de Lakkha (Laquedivas) e de Malaja (Maldivas), Sinhala (Ceylão),[102] e Sumatra e Java, Bornéo e as Molucas, até aos pontos extremos de Banda e Ambon. Com effeito, depois de Malaka e da viagem temerosa mas esteril de 513 a Aden, todo o Oriente pasmava e tremia de Albuquerque, o _terribil_. A Goa vinham de toda a parte embaixadas e tributos; todos os principes queriam a amisade do portuguez, e a seus pés arrastavam a corôa os rajahs de Ahmednagar e de Kambai, de Vijajapur e de Narsinga,[103] o shah da Persia e os sultões de Sião, do Pégu, do Arakan; e até o proprio _Hidalcão_, o adil-shah do Kanará, consentindo a fortaleza de Kalikodu, comprada com tanto sangue, seguia o exemplo do Gujerât, do Konkana, do Karnataka e de Bengala. Desde o Indo até ao Ganges, pelo Cabo Kumari, desde Kambai até Golkonda, o litoral da peninsula estava inteiramente submettido ao jugo portuguez.

Entretanto este imperio não podia dizer-se ainda construido: era um esboço apenas. Como depois de uma victoria brilhante os timidos se curvam todos perante o vencedor, assim acontecia no Oriente. Lançado na politica de conquistas, o imperio portuguez ganhava a primeira batalha; mas não podia decerto ensarilhar as armas, emquanto a costa da Arabia e as margens do mar Vermelho se conservassem em poder dos inimigos. Os naturaes da India, avassallados por uma corrupção antiga, acceitavam o dominio de qualquer vencedor; mas era necessario, para o manter, que a victoria fosse decisiva. Ora o inimigo, o _mouro_, fôra batido, mas não fôra expulso. Como n'uma doença, tinham-se debellado muitos symptomas, mas não se destruira o principio morbido. Aden continuava a ser o emporio do dominio commercial maritimo dos arabes e egypcios no Oriente; o mar Vermelho, o Suês, no extremo fundo d'esse estreito corredor, as boccas sempre abertas, para vasar sobre a India navios, artilheria e soldados. O dominio, que os portuguezes se propunham substituir, continuava; e do caracter dual ou mixto que a occupação da India apresentava, resultaria um estado de guerra permanente com os _mouros_ e com os naturaes, que ora os preferiam a elles, ora a nós. Ninguem, nação alguma seria capaz de resistir a um seculo inteiro de similhante vida. O destino do imperio portuguez no Oriente dependia do exclusivo do dominio, desde que era impossivel pactuar ou dividir a presa entre os dois caçadores rivaes.

O genio de Affonso de Albuquerque adivinhava isto com toda a lucidez: Aden, Meka, o mar Vermelho, eram a sua preoccupação: «Tres cousas, diz o filho e commentador, ha na India que são escapolas de todo o commercio das mercadorias d'aquellas partes, e chaves principaes d'ella. A primeira é Malaka, que está em tres graus na entrada e sahida do estreito de Singapura; a segunda Aden, que está em vinte e um graus de altura e na entrada e saída do mar Rôxo; a terceira é Hormuz, a qual está em quinze graus e na entrada e saída do estreito do mar da Persia. Este Hormuz, a meu vêr, é a principal de todas. E se el-rey de Portugal tivera senhoreado Aden podera chamar-se senhor de todo o mundo.» Dar um golpe mortal no islamismo era, além de retribuir em Meka a affronta humilhante de Jerusalem, mostrar aos musulmanos do Oriente que Jesus podia mais do que Mafoma. Mas se o genio excepcional de Albuquerque não bastou para levar a empreza ao fim, como poderiam bastar para isso os pigmeus que lhe succederam? Valentes muitos ou quasi todos, incansaveis no mar e na terra, os governadores da India foram extenuando em um seculo de guerra permanente as limitadas forças da nação, sem pensamento politico, sem plano definido, á tôa e á mercê d'um capricho, ou d'uma idéa a que o ciume imbecil da côrte limitava constantemente os vôos. A primeira politica, a maritima, fôra abandonada com a queda de Francisco de Almeida; a segunda politica, a imperial, condemnada com a deposição e morte de Albuquerque. Faltava assim a condição essencial de um dominio estavel e seguro: uma tradição.

Esta falta, comtudo, provinha de causas mais intimas, umas nacionaes, outras chronologicas. O absurdo espirito da politica de Lisboa, e a já provada incapacidade dominadora dos portuguezes, estão na primeira categoria: na segunda estão os costumes e idéas de tempos relativamente barbaros. Os portuguezes, ao pôr pé na India, faziam o mesmo que os povos germanicos, ao descer dos Alpes sobre a Lombardia: cevavam-se. A historia de Affonso de Albuquerque em Hormuz (1507) demonstra bem quanto era impossivel impôr disciplina e ordem em campanhas que tinham no saque o exclusivo motivo.

Fomos ao rio de Meca, Pelejámos e roubámos E muito risco passámos.

Estas palavras de Gil-Vicente resumem a historia da India; e com taes elementos era possivel saqueal-a, era impossivel dominal-a.

Por isso, n'esse seculo de 500 que a historia da India abrange, o conjuncto dos caracteres da occupação portugueza fórma dois systemas: o da rapina, contra o qual protesta e reage em vão a espada militar de Albuquerque; e depois o da simonia, contra o qual, em vão tambem, reage a vara justiceira de D. João de Castro.

Estudemos agora o primeiro, a seu tempo estudaremos o segundo. Todos os soldados de Antonio da Silveira, um capitão que andava pela costa, entre Chala e Daman, trouxeram fato, escravos e dinheiro, com que foram contentes; e assolaram tudo «em tanta maneira que se despovoaram todolos logares da fralda do mar, que pela terra dentro dez leguas não havia gente». Em Barava, destruida por Tristão da Cunha, os barbaros cortaram as mãos e as orelhas ás mulheres para furtarem as manilhas e brincos de ouro. A tomada de Mangaluru ficou celebre: «Foi entrada com muito valor, e dentro d'ella fizeram os nossos espantosas cruezas, não perdoando a sexo nem a idade, nem ainda ás alimarias». D. Paulo de Lima «deu na cidade de Johore (Jor)--escreve á esposa--e assolou-a _com o favor divino_». N'outro logar os combatentes, empilhados contra os muros, pedem aos da frente que, _por amor de Deus_, lhes deixem matar um _mouro_. Á approximação dos portuguezes, despovoam-se as cidades e fogem todos com terror: assim aconteceu em Bintang. Albuquerque sustentou por tres annos, no mar da Arabia, a sua armada com as presas das náus de Meka. Quando os portuguezes occuparam as terras de Bardez «fizeram mui grandes males de roubos, tyrannias, tirando as mulheres e filhas formosas a seus maridos, e outras corrompiam, e as furtavam e tornavam a vender». O de Hormuz queixava-se de que, em paz, lhe tiravam, a elle e aos seus, «parentas de que (os nossos) faziam uso, tornando-as christans a seu pesar». O roubo e a luxuria, alliados aos inimigos, davam lugar a interminaveis guerras: assim os capitães de Malaka originaram as de Johore e do Atchim (Achem); e nas Molucas a cidade de Bachian, despovoada e vasia, foi incendiada, indo-se os barbaros ás sepulturas dos reis furtar os ossos, na esperança de receber por elles, mais tarde, um grosso resgate. Roubando e pirateando á solta, o genio aventuroso dos portuguezes larga as azas, e os exploradores vão até aos confins do mundo, fiados no seu atrevimento. Dois heroes das _Peregrinações_ teem uma historia extravagante. Um, Antonio de Faria, vae á China roubar os sepulcros dos imperadores; outro, Diogo Soares de Albergaria, obtém o titulo de irmão do rei de Pégu, com duzentos mil cruzados de renda e o commando do exercito: é o rei, mas morre assassinado, por ter furtado uma rapariga. Nem se julgue que só pelos confins do mundo oriental portuguez, em Hormuz ou em Malaka, ou só pelas costas, nos seus navios, a furia dos portuguezes se desmanda em ferocidades anarchicas. Na propria Gôa, capital, a vida é um combate. Pelas ruas ha batalhas e cadaveres insepultos. Um governador prende certos salteadores portuguezes, manda-os ferrar no rosto, junto á picota, e degredar para o Brazil: logo um pelotão de amigos se amotina em armas para os libertar, e, não podendo conseguil-o, vae a bandear-se para os mouros inimigos: o governador manda-os desorelhar e amarrar aos bancos das galés; fogem e fortificam-se, e é necessario tomar á força o reducto; prisioneiros, são, afinal, amarrados vivos a elephantes, e esquartejados. É conhecida a tragedia em que a amante de D. Paulo de Lima, precipitando-se das janellas do seu palacio de Pangin, morreu, e o seductor, de espada e rodella, abriu caminho por entre a gente armada que acudia com o marido.

Até dentro das proprias egrejas havia rixas, a tiros: viam-se homens caír assassinados no confessionario, e nos degraus dos altares, á meza da communhão; e uma vez foi morto com um tiro o bispo quando levava a hostia, em procissão, pelas ruas.

Era uma anarchia barbara; e decerto os naturaes lamentavam a má-sorte que os condemnava a supportar tantas crueldades ferozes. Antes o mouro indolente e molle, e o antigo tempo que placidamente corria no seio de uma orgia podre mas calma, nos braços do luxo, da opulencia e dos prazeres! Como demonios vomitando fogo, negros nas suas armaduras, esses portuguezes eram enviados para os desgraçar, para os punir talvez! E levas esfarrapadas de fugitivos, n'um côro unisono de lagrimas e afflicções, acompanhavam por toda a parte a visita dos terriveis forasteiros, que não sabiam fazer-se amar do indio, tão submisso, tão bem disposto para obedecer e servir.

Os _fumos_ da India (como Albuquerque dizia) embriagavam os pobres portuguezes, limitados na Europa á porção congrua do bragal e do aço, sujeitos a uma forçada sobriedade e a costumes mais presos. Na India o _fumo_ desenfreava o animal, que se retouçava delirante nas sedas e nos perfumes, nas fructas e nas mulheres, coberto de diamantes, abarrotado de pardaus de oiro. Breve, porém, esse _fumo_ se dispersou no ar; e a desolação universal trouxe a miseria, o luxo trouxe a fraqueza; e á violencia de barbaros, os portuguezes juntaram a mesquinhez de chatins.

[93] «Ao que se achou presente Tristão Alvares, que era feitor do capitão-mór, que não consentiu que ninguem tomasse nada e com João Rodrigues Pereira que o ajudou levaram tudo ao capitão-mór, o qual logo tudo mandou qubrar e ameaçar e deu ao capitão e aos fidalgos da repartição primeira a cada um um quintal de prata e a Affonso de Albuquerque tres, porque nunca estes capitães e fidalgos se apartaram para ir roubar.» G. Correia, _Lendas_, I, 677.

[94] O xerafin (as hrafi) = 12 rupia = 1 cruzado. Duarte Barbosa da-lhe a equivalencia de 300 reis.

[95] V. _Raças humanas_, I, pp. LX-I.