Historia de Portugal: Tomo I

Part 10

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O filho de Pedro I era uma infeliz creatura, mal equilibrada nas suas qualidades e defeitos. Não era, decerto, aquelle homem de que a nação carecia para consolidar de um modo seguro a sua independencia; e n'um sentido póde dizer-se que as condições em que se achou foram a causa dos males de que muito soffreu. Faltava-lhe a firmeza necessaria para realisar os planos concebidos por uma intelligencia perspicaz. Era inventivo, mas era chimerico. Media o alcance dos actos e pensamentos, mas não sabia pesar o valor dos meios. O corpo de leis que promulgou para fomentar a navegação e o commercio, honrarão eternamente a sua intelligencia e a fina percepção com que via no desenvolvimento maritimo o futuro da patria. A obra consideravel das fortificações da capital (1377) concorre tambem a mostrar que reconhecia a verdade--cruamente por elle aprendida--de que Portugal era já, e seria sempre Lisboa. Accusam-no modernos sabios de ter defraudado a moeda: mas que outro remedio havia então contra a penuria do thesouro? que outros exemplos davam os demais principes? que outro exemplo damos nós ainda hoje, quando, para não cercear o peso ou diminuir o toque do ouro, cunhamos papel?--Accusam-no porque _hordenou almotaçaria em todallas cousas_ (1375): e que outro remedio havia, na curta sciencia do tempo, contra os monopolios e agiotagens, mais funestos na paz do que as batalhas dos tempos de guerra? Tarifar os generos e os salarios foi medida applaudida quasi até nossos dias; obrigar os detentores á venda dos cereaes, determinar a partilha dos grãos, foram actos de salvação publica repetidos ainda depois de D. Fernando, e sempre que uma crise obriga a suspender as garantias, ou justiça civil. Mas o rei que cerceava as moedas e ordenava a almotaçaria em todas as cousas, era o que fundava a marinha mercante nacional: era o que, olhando para o mar, não se esquecia da terra, obrigando os proprietarios dos maninhos alemtejanos a cultival-os, ou a aforal-os. A administração de D. Fernando é um cesarismo. O desenvolvimento politico e economico da nação chegava a um momento de crise organica traduzida por uma crise militar e dynastica. A população e a riqueza tinham crescido de um modo notavel desde que, havia mais de um seculo, terminára a reconquista do territorio aos musulmanos. O censo que annos depois se fez (1417) dá ao reino 4:800 besteiros de conto, ao Porto 8:500 habitantes, e a Lisboa 63:750. Pullulavam enxames de aldeias e casaes pelos campos agricultados, e muitas villas que depois definharam eram ainda importantes: Sines, Cezimbra e Mertola. Algumas cidades eram muito maiores do que são hoje: Evora e Beja, Santarem, Thomar, Leiria. D. Fernando herdou o reino robusto e forte.

Mas o pobre rei, tão bom e tão sagaz, tinha porém um fraco, que estragava tudo: era doido por mulheres. Singular na edade-média, a pessoa de D. Fernando parece estar no fim de uma epocha historica, como um indicio e um typo mal esboçado de futuros personagens. Superior na intelligencia, acaso por isso mesmo era desmandado no modo de proceder. Talvez lhe conviesse o nome de sceptico, especie moral que o desenvolvimento da inteligencia, sem o desenvolvimento parallelo da vontade, ou do caracter, faz tão commum em nossos dias. Para Cesar, D. Fernando era, porém, bondoso de mais: tinha um fundo de sinceridade que o perdia, porque á indifferença não reunia o cynismo. Era, no fundo, um pobre homem de talento. Este genero de individuos é sempre sympathico; e por isso o povo, embora chegasse a mofar, nunca o odiou. As suas fraquezas, prazeres e amores sempre foram criticados com benevolencia. O povo sabia que no fundo o caracter do rei não era perverso. Não o podia respeitar nem temer, mas sorria-se amigavelmente das suas extravagancias. Era o filho prodigo da nação.

Ás suas qualidades e vicios sympathicos reunia o ser formoso, agil, cavalleiro como os bons, caridoso, affavel, «gran criador de fidalgos e muito companheiro com elles, cavalgante, torneador, grande justador e lançador atavolado»--o jogo era uma das basofias do fidalgo medieval--dadivoso para com todos, e grande agasalhador de estrangeiros. A toda a gente queria bem, mas de um modo familiar e singelo, que não infundia respeito. Os reis de fóra, sabendo-o tão singularmente bom e simples, riam-se d'elle.

Era um infeliz, no sentido que a expressão tem popularmente em castelhano. Dava tudo pela caça: uma paixão desenfreada. Só falcoeiros de besta contava quarenta e cinco, e não estava satisfeito: queria povoar com elles uma rua inteira em Santarem. Quando mandava por aves, nunca lhe trouxessem para menos de cincoenta, entre açores e falcões, gerifaltes e negris, todas _primas_. Tinha um regimento de mouros para apresarem as garças e outras aves, que iam buscar a caça nas lagôas. Não perdoava sequer os innocentes pombos. Eram ás legiões as matilhas de cães para coelhos, rapozas e lebres. Correr lebres ou atirar aos pombos era o seu _grande sabor e desenfadamento_. O do seu avô Henriques fôra correr mouros e atirar ás ameias dos castellos: os tempos, os temperamentos, eram já inteiramente diversos.

Ainda assim, não era a caça que perdia o rei. Namorado sempre e mulherengo, «amador de mulheres o achegador a ellas,» diz F. Lopes, tinha um feitio terno, _amavioso_. A carnalidade arrastava-o aos maiores excessos, e é provavel que tivesse vicios ingenuos. Sua irman solteira, a infanta D. Beatriz, fôra cinco vezes offerecida, outras tantas recusada, a diversos principes, nas varias combinações politicas que a sua fertil imaginação creava, e que a sua indolencia invencivel punha logo de parte. A côrte d'essa irman era um viveiro de donas, onde o rei permanentemente satisfazia os seus gostos mulherengos. Foi n'essa côrte que viu e se perdeu de amores por Leonor Telles. Parece, comtudo, que antes d'isso não amava; porque é proprio dos temperamentos, como era o do rei, não ter paixões. A sua delicia era o gozar indolente dos carinhos e meiguices das mulheres, não era amar. Não é provavel, pois, «a suspeita deshonesta que alguns tinham da virgindade da infanta ser por elle minguada.» Bastavam ao rei «os jogos e fallas tão a meude misturadas com beijos e abraços e outros desenfados de similhante preço.» Só aos fortes corações é dado amar e enlouquecer. D. Fernando não tinha essa virilidade de caracter. Distincto, perspicaz, engenhoso de espirito, bom, affavel de genio, faltavam-lhe o valor que faz os homens, e a vontade que faz os reis. Era uma indolencia formada de espirito e sensualidade; uma creatura romantica e sympathica; uma mulher, fraca e intelligente, sentada no throno. Leonor Telles conquistou-o, porque tinha o genio de um Homem; e o segredo d'essa alliança tenaz não está n'uma paixão do rei, está na inversão das pessoas e dos sexos. Ella fez-se rei; elle tornou-se a amante, passiva, indolente, sensual.

* * * * *

O tempo de D. Fernando foi uma serie de guerras com o visinho reino de Castella. As muitas desgraças d'essas emprezas loucas tiveram de bom o affirmar de um modo terminante a independencia formal e positiva da nação, como sáe da batalha de Aljubarrota. Á maneira de certas enfermidades agudas, quando atacam o homem de temperamento indeciso e constituição debil, na edade em que attinge a virilidade, e determinam uma revolução organica, fixando e consolidando a saude--assim as guerras castelhanas de D. Fernando. são, para Portugal, uma crise. O seu destino vacillante, os seus orgãos esboçados apenas, soffrem a prova de uma commoção violenta. Acordam outra vez as tentações antigas, já anachronicas, da conquista da Galliza; o reino é mais de uma vez invadido; a miseria, a ruina, as devastações e a penuria affligem, como uma febre ardente, o corpo da nação. Falta decerto um rei que a dirija, um homem forte que a represente e guie; mas isso mesmo concorre para caracterisar a crise, demonstrando que a vitalidade collectiva existia já, e não provinha apenas da imposição forte de um braço guerreiro. Em dois seculos Portugal tornara-se de um amalgama de populações ruraes, cuja unidade estava apenas no genio dos seus barões, em um organismo, cuja consciencia de uma vida collectiva era real e definida. Tal é, a nosso vêr, o merecimento d'essa revolução nacional, cujo supposto chefe, o Mestre de Aviz, é mais o instrumento do que o heroe.

Não precipitemos, porém, a narrativa.

D. Fernando julgára convir-lhe apoiar a usurpação do throno de Castella por Henrique de Trastamara, quando o poder do rei D. Pedro ainda chegava para bater o rival em Najera. Depois que o usurpador, voltando de França com o auxilio de Duguesclin, consegue desthronar o rei perdido, D. Fernando julga conveniente alliar-se ao do Aragão e ao mouro de Granada, contra o Trastamara victorioso. Formára o chimerico plano de bater o vencedor com o partido vencido que o invocava; esperando sentar-se no bello throno de Castella, de que promettia um retalho ao aragonez, outro ao granadino. A empreza não destoava dos antecedentes historicos; porque o regime politico da Hespanha, retalhada em varias monarchias, era um systema de conquistas successivas de reinos. Era, porém, chimerica por dous motivos, um ignorado então, outro evidente: a incapacidade do rei, e o destino que marcava á Hespanha a solução unitária. Se Portugal pôde escapar aos preceitos d'esse fado, deveu-o ao movimento que, por lhe dar Lisboa, fazia d'elle uma nação cosmopolita, commercial e maritima, e não propriamente hespanhola: outra Hollanda, no corpo de outra Allemanha[52].

A politica de D. Fernando era, pois, historicamente insensata, falta que seria absurdo irrogar ao rei; mas era tambem pessoalmente absurda, porque os seus planos eram chimeras, tão breve nascidas como abandonadas. Haveria no espirito do rei o pensamento, mais ou menos definido, de se substituir ao castelhano na obra da unificação politica dos Estados peninsulares? Nada authorisa a suppol-o; e até porque tal pensamento não estava ainda cabalmente definido para os monarchas de Castella.

O facto é que D. Fernando declarou a guerra e abriu a campanha, invadindo a Galliza (1369); «mas sua ida foi de tal guisa que mais sua honra fora não ir alla dessa vegada.» Muitos barões gallegos correram a recebel-o, a acclamal-o. Tradições de outras eras? Ambições, ainda vivas, de uma independencia, que mais de uma vez tinham considerado solidaria com a soberania de Portugal? É provavel; mas é tambem certo que a rapina era o motivo immediato da adhesão, porque «muytos vinham-se a ele e pediam-lhe os bees dos que se iam para D. Henrique, o que era dado ledamente.» O inimigo, de Castella, fazia outro tanto. O conde Andeiro foi o mais caloroso dos partidarios gallegos de D. Fernando. Saíu ao encontro do rei, alvoroçado, a gritar: «Hu vem aqui meu senhor Elrey D. Fernando?» E o rei, esporeando o cavallo, radioso e feliz por uma tão facil conquista, vendo-se já sentado no throno de Castella, avançou, respondendo: «Eu som! eu som!» A invasão tornava-se um passeio até á Corunha; mas pouco adivinhavam ambos, o conde e o rei, quanto haviam de pagar caro os prazeres desses dias breves.

O castelhano corre sobre a Galliza, e D. Fernando foge a esconder-se em Coimbra. A resaca assoladora vem até Braga e Guimarães, atravez de todo o Minho. A provincia inteira gritava por soccorro: Aqui d'el-rei, contra o castelhano!--O rei, indeciso, indolente, esperava a realisação da sua chimera:--não é mister batalhar; Castella inteira vem entregar-se, como se entregára, de braços abertos, a Galliza!--Passeava-se, entretanto, com o exercito, entre Santarem e Lisboa. Ia, vinha, avançava e retrocedia, tão tonto que já o povo da capital ria d'esses passeios: _exvollo vae, exvollo vem!_[53]

Afinal em Coimbra--cidade funesta aos dois Fernandos[54]--decidiu-se a acudir ao Minho, quando o rei de Castella, depois de assolar tudo, tinha já partido para além da fronteira. Pela raia, porém, o batalhar continuava, e tambem na costa andaluza o bloqueio maritimo: já Portugal tinha armadas. Mas a guerra dilatava-se; e Castella, decididamente, não o chamava para seu rei. Começou a _assentar-se del a covardice_, abandonou os alliados; e aborrecido e desilludido por esta vez, assignou as pazes de Alcoutim.

A sua chimera só, porém, o deixou quieto por tres annos.

D. Pedro tinha morrido em Montiel, assassinado ás mãos de Trastamara (1369); a filha mais velha do defunto era casada com o duque João de Lencastre, da casa de Inglaterra: d'ahi vinham as pretenções d'este á corôa castelhana e o bravo duello que a Inglaterra e a França debateram na Hespanha por muitos annos. A influencia franceza era dominante em Castella; e para logo, nas successivas e ulteriores convulsões, a alliança ingleza venceu em Portugal. D. Fernando, ou movido pelo desejo de desforra, ou pensando ainda nas suas velhas ambições, e esperando ludibriar o alliado, assigna em Braga (1372) o tratado de alliança com o inglez, contra o castelhano. Henrique de Trastamara, em cuja côrte andavam diversos fidalgos portuguezes, como os gallegos da invasão anterior andavam com D. Fernando, manda Pacheco (o terceiro assassino de D. Ignez de Castro) vêr se effectivamente o rei se dispunha á guerra. Era tão voluvel o seu caracter, que o castellão não acreditava ainda. Voltou Pacheco: sem duvida o rei estava disposto a entrar em campanha. Então D. Henrique, com bondade, lhe pede que abandone essa chimera, e insta pela paz. Elle, excitado pelas _hespanholadas_ de Affonso Tello, suppõe que a fraqueza era o motivo da insistencia. Inuteis as observações, o rei de Castella prefere invadir a ser invadido; e rapidamente entra pela Beira (1372), cáe sobre Lisboa, cujo cêrco uma esquadra, ao mesmo tempo partida de Sevilha, encerra por mar (1373).

Que fazia D. Fernando? Do alto dos muros de Santarem, onde se fechára, via passar o exercito inimigo, sem ousar mover-se. Dois motivos lh'o impediam. Esperava a toda a hora o soccorro do inglez; e se o fructo d'essa guerra lhe era destinado a elle, bom seria que em pessoa o disputasse. Deixar, porém, invadir assim o reino, pôr cêrco á capital, abandonar o povo, abandonar Lisboa, era vergonhoso, decerto. Mas se n'esses dias Leonor Telles, enferma, estava de cama, com as dôres do parto? Como havia de o pobre rei acudir aos dois deveres? A quem obedecer primeiro: ao tyranno politico, a corôa, ou ao domestico, a rainha? Como todos os fracos, decidiu-se pelo mais proximo; tapou os ouvidos aos clamores da nação, para attender só aos ais da enferma. Não era por paixão que o fazia, era por indolencia: sempre esperava que Lisboa afinal havia de resistir, e saberia defender-se!

Com effeito, não se enganava. A cidade valia muito mais do que o rei. Quando viu approximar-se o castelhano, chegou a ser temeraria; porque pretendeu defender com barricadas os arrabaldes, fóra dos muros. Lisboa tinha a homogeneidade na resistencia; e em vão D. Diniz (o infante que por condemnar o casamento de Leonor Telles fugira para Castella), em vão Pacheco e os mais portuguezes de D. Henrique buscavam convencer os lisbonenses da vantagem da rendição. Não estamos agora no norte, meio gallego, onde a idéa de nacionalidade vogava indecisa nos dois lados do Minho: estamos no coração do paiz, e n'uma terra sem tradições leonezas, que não foi _separada_, que nunca obedeceu a outro rei mais do que ao portuguez, a quem deve o que é. Inuteis as tentativas de D. Diniz, de Pacheco, e dos mais, o exercito approximou-se. Viu-se então a temeridade de defender os arrabaldes; e á pressa, recolheram-se todos para dentro dos muros. O enxame acudia ás portas, correndo curvado com o peso das trouxas, das arcas, onde salvára o que tinha mais precioso. Vinham as familias em grupos, as mães, carpindo, arrastando os cordões de creanças, espantadas de tudo aquillo. Já os castelhanos entravam pelos casaes e quintas dos arredores: o lume ardia ainda na lareira, a porta estava aberta, os quartos vasios. Arrazaram e queimaram tudo, desde as hervas até aos telhados.

No rei assentára outra vez a covardice: e, como o inglez não acudia, acceitou a paz, e foi de Santarem a Vallada assignal-a (1373). «Quanto eu _haarricado_ venho!» dizia a rir, na volta. Effectivamente não queria mal algum a D. Henrique; e, se a empreza falhára, o melhor era fazer cara alegre, e acabar por uma vez com o muito que, do cêrco, padecia Lisboa. Além d'isso, agradára-lhe o trato do inimigo: agradára-lhe tanto, que lhe concedeu a irman, D. Beatriz, para casar com o irmão do castelhano, Sancho. Triste destino o d'esta princeza, que era, nas mãos do rei, como os joguetes que as creanças dão, tiram, voltam a dar, ao sabor do seu capricho infantil!

Este mesmo modo de que usava com a irman, estava reservado á filha: a outra Beatriz nascida em Santarem durante a invasão precedente. Henrique de Trastamara tinha morrido; e o herdeiro, João I, na idéa de reunir as duas corôas de Castella e Portugal, pedira a D. Fernando (que não tinha outro filho) a mão da pequena D. Beatriz; ao que este annuira, celebrando-se tratados, porque para casamento era cedo ainda: a pequena teria oito annos, se tanto.

Mas o rei, diz o chronista, trazia sempre sua fala com os inglezes, o mais encobertamente que podia. Que falas eram essas? Era a alliança de Lencaster, na qual D. Fernando via talvez ainda luzir a possibilidade de realisar a sua chimera. O conde Andeiro, que na primeira guerra abrira a Galliza ao portuguez, fôra desterrado para Inglaterra, na occasião de Alcoutim, por exigencia do castelhano. Era Andeiro o confidente do rei, e o seu agente para com Lencaster. Veiu de Inglaterra, escondido, a Extremoz, onde o rei, ao tempo, assistia: trazia novos tratos e combinações, com a promessa de uma esquadra. O rei acceitou com facilidade, e afiançou ao duque inglez a mão da filha promettida ao de Castella.

D'esta vez decidiu-se a proceder com energia. O castelhano, porém, já conhecedor de tudo, mandára começar as escaramuças pelas fronteiras de entre Tejo e Guadiana, theatro das façanhas de Nunalvares (o futuro condestavel, que agora começa a sua epopêa) em quanto dispunha o grosso das forças para a campanha de Lisboa. A energia do portuguez consistiu em enviar a esquadra a Sevilha destruir a inimiga. Com effeito, em quanto mandasse no Tejo, Lisboa não podia ser efficazmente cercada. Mas a _sandia presumpção_ de Affonso Tello perdeu a esquadra em Saltes (1381). A armada castelhana, victoriosa, entrou no Tejo, trazendo a bordo o infante D. João, irmão do rei, filho de D. Pedro o crú, que se homisiára de cá por ter assassinado a mulher, Maria Telles, irman de Leonor. Tambem lhe tinham acenado com a mão da pequena D. Beatriz, e a ambição perdera-o! D. João repete as palavras de D. Diniz na campanha precedente; mas é recebido a tiro, o infeliz. As surriadas de trons e virotões exprimiram a eloquencia independente de Lisboa; e o infante, humilhado, levou para Castella o desmentido formal a todas as sedições que annunciára e promettera.

Chegou, afinal, por mar o Lencaster com os seus, trazendo novo alimento á guerra, já accesa por todo o Alemtejo. Castella declarára-se pelo papa de Avinhão, Clemente VII: os inglezes e o rei D. Fernando pronunciam-se pelo papa de Roma. Urbano VI. A religião vinha azedar ainda mais os odios dos combatentes. E os inglezes do duque, mercenarios o barbaros do Norte duro, lançaram-se a este pedaço do Meio-dia, como lebreus famintos a um regabofe. Estas gentes dos inglezes, refere o chronista, não vinham como a defender a terra, mas para a destruir e buscar todo o mal, matando, roubando e forçando mulheres. Nem se limitavam a tão pouco. De uma guerra que lhes era indifferente, nas causas e motivos, entre povos inimigos que não distinguiam, inimigos eram para elles todos, e cevar-se o seu constante proposito. Guerreavam por conta propria, para saquearem. Tomam aos portuguezes Monsarás, o Redondo e Evora; e as populações, por fim desesperadas, acodem-se ao processo classicamente peninsular das surprezas e assassinatos. «As gentes começaram a matar muitos d'elles escusamente», a ponto de que mais de um terço ficou enterrado pelos campos e aldeias do Alemtejo. Na extraordinaria confusão em que a indolencia e as chimeras do rei punham o paiz, já cada um combatia por si proprio, com o proposito unico da defeza nacional.

Se os inglezes deixaram em volta do Tejo alguma cousa a roubar, ou algum campo a queimar, os castelhanos da esquadra, desembarcando, quando o exercito anglo-luso tinha subido para Evora a encontrar o inimigo, acabaram a obra destruidora n'uma razzia monumental, a que não escapou eira nem beira, nem arvore, nem cousa viva. Em volta das muralhas de Lisboa ficou tudo um deserto morno e secco.

Pela terceira vez assentou no rei a covardice; e sem combater, voltando as costas ao inglez logrado, assignou as pazes de Badajoz com o castelhano (1381). De novo a pequena infanta D. Beatriz torna a ser promettida a outro noivo: Fernando, de Castella, que não vem ainda, comtudo, a ser seu marido; porque, ao voltar para casa, o rei João, enviuvando, teima no antigo plano da fusão dos reinos. O casamento da filha com o valetudinario monarcha visinho, é o ultimo e o mais insensato dos actos de D. Fernando. Extinguia-se com elle a dynastia; e por herança legava, do leito da morte, a independencia em perigo ao povo que, apesar de tão dorido, ainda e sempre lhe queria.

* * * * *

Fôra no viveiro feminino da côrte da irman que o rei Fernando vira Leonor Telles. Era a terceira Leonor que escolhia para companheira, e foi, desastradamente, a unica que veiu a ter. A primeira, de Aragão, recusou-lh'a o perspicaz pae, por vêr quanto era defeituoso e fraco o caracter do promettido genro. A segunda, de Castella, repudiou-a, desde que viu e se namorou da terceira.

Maria Telles, irman de Leonor, era aia da infanta D. Beatriz. Leonor, casada, vivia no seu solar da Beira. Estava em Lisboa, de passagem, a visitar a irman, quando o rei a viu. Como começaram esses amores? Os antecedentes do rei e o caracter da futura rainha deixam vêr bem que não deveu ter havido uma d'estas paixões fulminantes, communs nos homens d'armas, mas de que D. Fernando era incapaz, e Leonor Telles tambem.

A fria ambição calculadora era commum ás duas irmãs. A aia da infanta, por quem o infeliz e louco D. João se namorára com paixão, preparára-lhe cuidadosamente uma entrevista, á noute, no seu quarto. Quando o infante chega, soffrego de amor, vê um altar e um padre diante do leito. Casemo-nos primeiro, amaremos depois. O infante, coacto pela paixão, casou-se para amar; mas a aia pagou mais tarde, com a vida, o erro de brincar com um leão, como so fôra um rafeiro.

Leonor Telles tinha em si o saber sufficiente para ensinar: não carecia das lições da irman. Percebeu que o rei, nas suas ligeirices, a preferia á propria infanta; mas o papel de amante não lhe convinha: queria o de rainha. Foi-se deixando ficar, e acirrava com tentações a inclinação do monarcha sensual e passivo. «Era louçan, aposta, e de bom corpo». D. Fernando costumou-se ás denguices da sereia: nos fracos, o costume gera necessidades imperiosas, a que tudo sacrificam. Com o tempo, a idéa de que Leonor era casada, naturalmente a insistencia com que ella, séria e affectando decóro, falaria na necessidade de voltar para casa, para o marido, fizeram sentir ao rei a impossibilidade de quebrar o habito dos seus amores innocentes e molles. A indolencia é muito mais teimosa nas suas exigencias do que a força; um habito sensual tem maior tenacidade do que uma paixão. Leonor Telles devia saber isto perfeitamente. O momento decisivo approximava-se: não podia continuar por mais tempo em Lisboa, o marido chamava-a, as más linguas podiam falar...