Part 11
O rei lembrou-se então de que para alguma cousa lhe podia servir sel-o: desmancharia esse casamento, porque uma dama tão senhoril e casta não podia ser sua amante. D. Fernando não tinha, o ingenuo, nem ponta de cynismo. Falou seriamente, em particular, á irman. Mulheril como era, este caso tinha maior gravidade do que uma guerra com Castella, pelo repudio da princeza que lhe estava promettida nos tratados de Alcoutim. «Melhor fizera elrey, dizia o povo, tel-a por tempo e depois casar com outra mulher.» Bons conselhos! para quem vivia todo na atmosphera feminina e molle da côrte de D. Beatriz, onde Maria Telles reinava. Como se Maria, Leonor, não fossem excellentes senhoras, recatadas, mas seductoras na sua terna dignidade!
Maria poz por condição o casamento; Leonor Telles concordou em que muito queria ao rei, mas ainda mais ao seu nome. Combinaram tudo em segredo, e foram, ás escondidas, ao norte, casar-se (1371) a Leça do Bailio, junto ao Porto. Tinham, com effeito, medo de Lisboa. Quando regressaram á côrte e os rumores se confirmaram, as opiniões moveram-se na capital. O commum das gentes accusava o rei com odios apaixonados; mas não faltavam os experientes a observar placidamente, «que não era maravilha; já a outros acontecera cousa semelhante; todo o homem namorado tinha uma especie de sandice; o amor era como dôr que doe e não doe ao mesmo tempo». Muita gente se ria do marido infeliz que sensatamente fugira para Castella, e para prevenir os motejos mandára pôr no barrete dois cornos de ouro em fórma de plumas; muitos notavam a facilidade com que o papa fazia e desfazia casamentos; e esta cumplicidade da religião e do amor não augmentava em nada o respeito pela Egreja. Em summa, desde que o riso entrava na questão, o odio do povo não era muito; e Lisboa esperava para ver o resultado d'essa comedia, e tomar o pulso ao caracter da rainha. Ninguem sabia ainda de quantas manhas elle era formado.
Mas nem em todos a longanimidade era tão grande; e uma parte da plebe decidiu-se a pedir contas, a reclamar garantias, e até a protestar. Esses adivinhavam a perversidade da rainha. No rei assentou a covardice, e Leonor Telles não podia ainda contar com partido proprio. Fugiram, pois, ás escondidas, para Santarem: e o povo, burlado, ficou em vão esperando o rei no atrio de S. Domingos, para onde o comicio fôra aprazado. Pelo caminho, na fuga, o rei carinhoso observava: «Olha aquelles villões traidores, como se juntavam: prendiam-me certamente, se lá vou.» E não podia esconder o susto, conchegando-se ao collo da rainha, no seio d'uma inclinação protectora. Leonor Telles sorria, calada. Era rainha, mas apupada: o plano da vingança acordava-lhe no animo, e tambem o desdem por esse pobre rei, perdido e fraco.
Este primeiro acto da nova rainha foi decerto o seu primeiro erro. Desde logo, até os mais indulgentes viram que não havia remedio; e o partido dos seus inimigos cresceu em numero e ganhou forças e atrevimento. Ella prejudicára os seus planos por um acto precipitado; e todos os esforços que empenhava em ganhar sympathias eram vãos. «Era mui grada e liberal a quaesquer que lhe pediam, mas quanto fazia tudo damnava; e a sua caridade e as suas manhas não podiam encobrir os seus deshonestos feitos.»
Com effeito, a rainha nem melhorava a fraqueza do rei, nem o afastava das suas loucuras e emprezas perdidas; e por sobre isto era reconhecidamente má. Accusavam-na de ter preparado o assassinato da irman pelo infante seu marido; e era publico que, no meio da agitação da terceira guerra castelhana, tentára matar o Mestre de Aviz, forjando para tanto um falso alvará. O povo já a descrevia como uma féra sangrenta; e o povo sabia quantos odios comprimidos ella guardava contra essa Lisboa miseravel que a insultava e a apupava. Toda a gente se sentia offendida, humilhada, com a humilhação do pobre rei. Contava-se como era com elle ousada e faladora; e como el-rei, submisso e indolente, curvava a cabeça e se calava. Era uma desgraça que entrára no palacio. Depois, além de cruel, sanguinaria, e descomposta no modo, era de uma deshonestidade publica. Todos sabiam que nas barbas do marido tinha o amante no paço. E o pobre rei não desconfiava, na sua cegueira. Quando o Andeiro viera de Inglaterra, escondido, com os tratos de Lencaster, el-rei recolheu-o na torre do seu paço de Extremoz. A sala da sesta era o quarto do conde; e o rei ia-se, e a rainha vinha passar horas esquecidas a sós com o amante. O rei, como homem de são coração, não via o que escandalisava a todos. Pouco se lhe dava d'isso a ella, chegando a fazer gala dos seus desvarios. O adulterio e a crueldade, o prazer e o sangue, alliavam-se bem n'esse genio perverso, mas intelligente e altivo, tão desdenhoso como impudico. Queria firmar sobre o odio uma força que não pudera conquistar pelo amor. Repellida, accusada, escarnecida por um povo, para quem talvez quiz ser boa, decidiu impôr-se-lhe pelo desabrido do odio e pelo desplante do comportamento. Vingava-se á maneira antiga, como uma Cleópatra.
No outomno de 1383 falleceu D. Fernando; e logo que a tampa caiu sobre o caixão do defunto, rebentou a revolução.
* * * * *
A revolução de 1383-5 tem um caracter de um Juizo-de-Deus. A dynastia mentira ao papel justiceiro: morra por ello! Por uma serie de extravagancias domesticas e politicas, D. Fernando levára a uma crise a obra lenta e demorada da independencia nacional, iniciada com uma espada por Affonso Henriques, assegurada com um açoite por Pedro o crú. É verdade que não deixára de fomentar a consistencia material interna do corpo da nação; mas de que valia isso, pois que a deixava outra vez a braços com o problema vital da successão, o problema da independencia?
Logo que o rei morreu, os differentes actores da tragedia começaram a tomar os seus logares na scena.
O castelhano immediatamente encarcera em Toledo o infante D. João, o mais perigoso dos seus émulos por direito de herança, mas perdido perante o povo pela nodoa do ataque de Lisboa, na esquadra inimiga.
A rainha viuva, julgando o momento opportuno para conquistar sympathias, representa uma scena de prantos. Abandonára por um instante a sua politica de vingança, agora que tudo podia perder, se a não escudassem o respeito, ou o amor dos seus. Ella não queria entregar o reino a Castella: queria que a filha fosse acclamada rainha, e ella, como regente, rei de facto. Talvez pensasse em casar-se com o Andeiro, a quem parece amava do coração: seria esse o castigo fatal dos seus crimes, por ser a causa da sua perdição?
Como a rainha sabia a ruim opinião que havia a seu respeito, «fingia-se mui desconsolada e chorava em grandes prantos. Em uma camara escura, coberta de dó, com lagrimas e soluços--que ás mulheres não faltam quando lhes servem--se lamentava, com as visitas, do seu desamparo, queixando-se do governo que o rei déra ao reino, agora pobre e infeliz.» (Fernão Lopes) Na sua dôr, na boa vontade que tem de servir a nação (para que ella a não expulse do throno) está por tudo. Com effeito, a morte do marido punha-a á mercê da vontade do povo. «Era em tudo obedecida, assim dos povos como dos grandes; mas bem via que essa obediencia nada tinha de pessoal, porque ninguem a amava, nem a respeitava. De um momento para outro podia perder tudo. Os de Lisboa queriam que se constituisse um conselho de governo composto de dois homens-bons de cada comarca: annuiu a essa tutela. Quando fôra a acclamação da rainha D. Beatriz, mulher do castelhano, observára os tumultos geraes e os votos desencontrados das cidades. Em Lisboa, a acclamação provocára rixas e conflictos; muita gente era pelo infante D. João ou pelo infante D. Diniz, que andavam por Castella; outros gritavam: _Arreal, arreal, cujo for o reino, leval-o-há!_ Em Santarem o infante D. João foi positivamente acclamado. Elvas, para não se decidir, no meio de tanta confusão, gritou: _Arreal, arreal, por Portugal!_
Esse era effectivamente o grito da nação: por Portugal! Ninguem se recommendava bastante, no animo do povo, para merecer uma corôa disponivel, para se sentar n'um throno vago. O que Portugal não queria, era que n'esse throno viesse sentar-se o castelhano. A rainha não o queria tampouco; e era toda esforços para ganhar a si o povo, para herdar de facto o reino. Organisada a regencia, pensou desde logo na guerra; porque o rei de Castella já se preparava para vir occupar Portugal. Nomeou os fronteiros do reino, e deu ao Mestre de Aviz a zona de entre Tejo e Guadiana.
Havia porém dois homens que, no fundo, protestavam: Nunalvares e Alvaro Paes. O primeiro é a mais nobre, a mais bella figura que a Edade-média portugueza nos deixou. O typo cristallisado nos romances, o typo do cavalheirismo e da pureza, tinha encarnado na pessoa do futuro condestavel. «Usava muito de ouvir e lêr livros de historias, e especialmente usava mais lêr a historia de Galaaz, em que se continha a somma da tavola redonda.» Tinha a nobreza ideal do cavalleiro, e a castidade de um mystico. Era uma açucena na alma, e um leão na bravura e na generosidade. Resistira por muito tempo ao pae que o queria casar, porque não curava de mulheres, nem isso lhe alegrava o coração. Por tudo isto, a infamia da rainha abraçada ao amante, e as lagrimas fingidas pelo marido, córavam-lhe as faces de pejo e enchiam-no de indignação. Nunca a obra indispensavel de salvar Portugal podia levar-se a cabo com tal mulher: Deus não consente aos impuros os grandes actos, «Um dia, passeando só no paço, a cuidar no que havia de ser do reino», occorreu-lhe a idéa de que só a morte do Andeiro podia pôr termo ás desgraças publicas.
O cavalleiro tinha então 24 annos; e esse rapaz, typo ingenuo e puro de virtude, é a imagem de uma nação, tambem joven, e ainda crente n'um futuro proximo. Á indignação da candidez forte junta-se a sabedoria fria e o calculo experiente de Alvaro Paes, padrasto do futuro grão-doctor. Tudo se conspirava para matar o Andeiro, para perder a rainha.--Era verdadeiramente o juizo de Deus, cuja sentença, logo que fosse publica, seria acclamada pela nação inteira. Isto assegurava ao mestre de Aviz Alvaro Paes em Lisboa. Falava por sua bocca a cidade que Leonor Telles tanto odiava, e que tamanhos medos tinha da rainha. Pensaria já o author do plano do dia 6 de dezembro (1383) na fundação de uma nova dynastia? Queria acaso matar apenas o valido para aterrorisar a rainha; e entregal-a, assim, manietada, ao poder de uma oligarchia urbana, em que Lisboa se arrogasse o papel de defensora do reino, tendo á frente de um conselho de governo, com a regente vilipendiada e coacta, o Mestre, homem simples, por instrumento e chefe? Era um plano atrevido, mas mais de uma vez posto em pratica por diversas cidades opulentas da Hespanha. Não contava, porém, Alvaro Paes, nem com a arte que os annos desenvolveram no Mestre; nem com o generoso e nobre caracter de Nunalvares; nem com a força invencivel dos futuros textos e doutrinas do grão-doctor João das Regras.
Combinado o programma do dia 6, Alvaro Paes abraçou e beijou o Mestre. N'esse dia foi este ao paço despedir-se da rainha: partia para a sua fronteira do Alemtejo. Momentos depois voltou acompanhado por alguns fidalgos dos seus. A rainha, surprehendida, interrogou-o.--A fronteira era muito _grossa_, levava pouca gente, os arrolamentos estavam errados, queria examinal-os...
Leonor Telles estava então na sua camara, sentada no meio das suas damas, costurando, sobre o estrado. De joelhos, aos pés da rainha, o Andeiro, de corpo bem disposto, _lustroso_, viril (40 annos), vestindo, apesar do luto, um gibão de setim cramesi e um tabardo de panno preto, sem o burel branco do estylo, falava manso com ella. Era um quadro de familia, e tudo parecia sereno, menos o tom e o aspecto do Mestre e dos seus, de pé, carrancudos e indecisos, como quem tem na mente um crime.
A rainha, inquieta, mas simulando indifferença e sangue frio, chamou o escrivão da puridade e mandou abrir o livro dos vassallos da comarca: Escolhesse o Mestre os que quizesse. O escrivão de pé, com o livro aberto, ia lendo, indifferentemente _item_, _Dom_... etc, mas o Mestre não lhe prestava grande attenção. Uns perante outros, os personagens da tragedia adivinhavam-se, mas não se confessavam. Só, porventura, o escrivão, no seu tabardo negro, com a voz monotona, era sincero. Andeiro levantou-se, saíu a outra sala, a avisar os seus sequazes: o que o Mestre vendo, receiou perder-se, ou que o ensejo lhe fugisse. Levou-o comsigo para fóra. A rainha, no meio das suas damas, sobre o estrado, costurava. O momento agudo da crise chegára: era mistér consummar o acto. O Mestre empurra então o conde para o vão de uma janella. Elle ia a fallar... «sendo, porém, mais tempo de o matar, do que de o ouvir», deu-lhe uma cutilada na cabeça, a valer. Desarmado, o infeliz não podia defender-se; e assim que inclinou a cabeça rachada pelo meio, a gente do Mestre acabou-o alli ás estocadas. Foi uma façanha arteiramente combinada, barbara e cobardemente executada. Nunalvares, quando a mesma solução lhe occorrera, pensou decerto n'um plano diverso.
Consummado o assassinato, poz-se em scena a comedia do contra-regras, Alvaro Paes. Foi mandado um pagem a gritar pelas ruas que acudissem ao Mestre, que o matavam no paço. Entretanto, dentro d'elle, era grande o alvoroço. Uns fugiam pelas janellas, outros pelos telhados: todos corriam como doidos, cheios de susto, e se acotovellavam nos corredores e entre as portas. A rainha levantando-se, ao ouvir que lhe tinham matado o amante, rugiu de colera, como a fera a quem roubam os filhos: era a sua cruel fraqueza! Viu tambem a sua vida em perigo, e por ventura n'este momento desejou a morte[55]. Animosa, mandou perguntar ao Mestre, que n'um eirado do palacio, á vontade, descançava das commoções violentas, se tambem a queria matar. Elle voltou, respeitosamente, que não. Era um homem simples, costumado a vêr em Leonor Telles a mulher do rei: e por isso, além de ser muito novo (26 annos), não se atrevia a tanto. Era fogoso, brutal, e de instinctos pesados: um instrumento capaz de executar os planos manhosos do Alvaro Paes, prompto para tudo, porque não distinguia bem a linha que separa a nobreza da villania--como, de resto, succedia a quasi todos os homens d'armas da Edade-média. Foram a revolução, os companheiros e depois a mulher, quem fez d'elle na edade madura um sabio rei.
Na rua, Alvaro Paes vinha a cavallo (por excepção rara, que era velho já e pesado) á frente da procissão de energumenos, bradando por desvairadas maneiras. A plebe, investindo com o palacio, quebrava os cancellos de ferro, trazia escadas para o assalto e montes de lenha para queimar tudo. Era uma algazarra incrivel de improperios e nomes deshonestos, dirigidos á rainha. Já de dentro havia medo de que o fogo pegasse, e que o fim da tragedia fosse um incendio justiceiro. Extenuavam-se a gritar que o Mestre estava vivo, Andeiro morto; mas ninguem tinha ouvidos no meio do clamor da turba. Por fim, o Mestre de Aviz appareceu a uma janella e foi victoriado: «Vinde para nós, gritavam-lhe, e dáe ao démo esses paços!» Alli mesmo, ao pé do palacio, ficava a Sé; Era necessario solemnisar a festa com os repiques dos sinos, conforme a plebe o ordenava; mas os padres, recolhidos no alto da torre, não sabiam o que queriam d'elles: e por esse crime foram precipitados á rua o bispo e mais dois: e os cadaveres, arrastados ao Rocio, ahi ficaram para pasto dos caens.
Tambem o Mestre já sentia fome, depois de tamanho dia. Foi com Alvaro Paes comer socegadamente. O homem cumprira o que tinha promettido: e, á mesa, na satisfação da victoria, instruiu o rapaz sobre o que lhe restava fazer: pedir perdão á rainha, depois de jantar. Quem sabe? dir-lhe-hia elle, mastigando, mais tarde... casar com ella... E o mestre, bastardo, pobre, ambicioso e simples, via abrirem-se-lhe horisontes seductores.
Com effeito, depois de jantar, o Mestre de Aviz foi ao paço e, de joelhos, pediu perdão á rainha. Tamanha simplez encheu-a a ella de espanto. Estava calada, não sabia que responder: e como o pobre insistia, ella, afinal com desdem, voltou-lhe: Falemos de outras cousas... O Mestre saía desorientado e corrido, atraz d'elle as suas guardas, quando a rainha, seguindo-os, deu de chofre com o cadaver do conde empoçado em sangue e coberto com um tapete velho. Não pôde mais conter-se; e o seu animo, perdido, rebentou em duras queixa: «Enterrae-o ao menos, já que o mataste tão deshonradamente!» Elles não curaram d'isso, nem se doeram do adverbio da rainha, e foram para suas pousadas. Era tempo perdido.
Ao outro dia a rainha partiu para Alemquer--suffocada em odios contra Lisboa: queria vel-a arrazada e queimada de mau fogo, queria uma tonelada de linguas das suas mulheres. Queria uma vingança, uma desforra que désse brado ao mundo. Que lhe importavam, á sua alma desvairada, a nação e a independencia? No egoismo absoluto de uma paixão, esquecia tudo; e por isso mudou de rumo á sua politica, e convidou o rei de Castella a vir tomar posse de Portugal. Perdia-se irremediavelmente.
Entretanto a maxima parte da nobreza acompanhava-a, e a fidalguia era então o exercito. Uns não queriam pactuar com a revolta da plebe de Lisboa, nem curvar a cerviz ao imperio de Alvaro Paes. Outros eram fieis á legitimidade da regencia. O resto dos que não acompanhavam a rainha e grande parte das classes médias eram pelo infante D. João, preso em Toledo. O plano de Alvaro Paes e o partido do mestre de Aviz caiam tanto, que, desanimado, o ultimo decide-se a abandonar a empreza e a fugir para Inglaterra--como fez depois o seu successor na historia, o Prior do Crato. Poderam, porém, contel-o. Para que? Para o decidirem a uma segunda vergonha. Eram incapazes de nenhuma grande audacia, de nenhum plano temerario; e só um d'esses poderia dar a victoria. Não sentiam o palpitar violento de uma nação forte que aspirava á vida. Os seus meios eram mesquinhos, soezes e crueis. Conquistaram o castello em Lisboa, levando á frente de si as mulheres e os filhos dos que o defendiam pelo infante D. João. Angariavam sequazes, comprando-os a dinheiro, segundo a regra de Alvaro Paes: _dae o que não é vosso, promettei o que não tendes, e perdoae a quem vos errou._ A rapina e a impunidade eram o alicerce da força do partido, já ridiculamente alcunhado do _Mexias de Lisboa_. O segundo plano proposto, para evitar a fuga do _Mexias_, era a antiga idéa commum e soez de Alvaro Paes: casal-o com Leonor Telles. O Mestre accedeu; e propoz o caso á rainha, que respondeu com uma gargalhada. Podia-se acaso descer mais? Não podia.
Quem faz, porém, os Messias é o povo. Valham pouco, valham nada, pouco importa. São um lábaro, onde a turba escreve um moto. Vão, mas não guiam. Portugal com effeito gerava uma revolução messianica; pedia em altos brados que o salvassem; tinha a consciencia de que podia e havia de ser salvo. Esta força latente e invencivel, era, porém, ignota para a simplez do Mestre e para o lerdo instincto de Alvaro Paes. Andavam ambos como cégos em torno de um pharol, sem o verem. Eram ambos como certos animaes das trevas, a quem a desnecessidade priva de olhos.
Para vêr e para sentir a gravidade do momento, para conceber a audacia da revolução, era mistér, ou a ingenua candura dos fortes, ou a refinada sabedoria dos mestres. O de Aviz teve a fortuna de encontrar dois homens que o fizeram rei, e tornaram o seu titulo ridiculo de _Mexias_, no titulo verdadeiro e forte de Defensor-do-reino, positivo messias da nação (1384).
Termina o reinado de Alvaro Paes, desde que o futuro condestavel e o grão-doctor tomam conta, um da guerra, outro da politica. Temerarias, audazes, quasi loucas ambas, exprimem ambas a suprema sabedoria; porque traduzem o até ahi indefinido querer do povo, e empregam os meios unicos de salvação. Nunalvares faz de toda a fronteira o theatro de incessantes campanhas, pouco ou nada attende ás ordens do Defensor-do-reino, por vezes desobedece formalmente. Á medida que o Mestre via o resultado das armas do nobre capitão, ia reconhecendo a propria inferioridade; e a simplez natural do seu genio tinha de bom o abrir-lhe os olhos á verdade. Nos actos alheios, aprendia a pesar os seus, ganhando com isso a attitude de um moderador prudente. Era sábia a arte com que ponderava os conflictos inevitaveis de Nunalvares com João das Regras: do cavalleiro idealista e heroico, e do habil, consummado politico: do representante ingenuo de douradas phantasias, com o frio calculador das cousas positivas; do ultimo homem da Edade-média, com o primeiro do novo Portugal monarchico. Entre ambos, o Mestre de Aviz era um pendulo regulador das duas forças em opposição.
A politica ia buscar outra vez as allianças inglezas, acordando a antiga ambição castelhana da casa de Lencaster; e a guerra, ora terrivel em batalhas, ora fidalga em reptos e duellos, ia acordar por todo o paiz a revolução. Os grandes, os alcaides das terras, eram por Castella ou pelo infante D. João; mas o povo era pelo Messias: cria e esperava o milagre. Formavam-se _uniões_ espontaneas; e as levas de populares conquistavam para o Mestre os castellos e villas fortificados aos senhores e aos alcaides dos concelhos.
Uma grande parte do reino obedecia ao governo de Lisboa; mas a rainha, o rei de Castella e o exercito invasor, na sua marcha sobre a capital, occupavam Coimbra. Leonor Telles acabou ahi. Arrependida de ter chamado o castelhano que a desprezava; reconhecendo que erradamente, por uma precipitação, forjára por suas proprias mãos as cadeias do seu captiveiro, vendo agora quanto se illudira, e que erro fôra o seu em não avaliar a justa vitalidade do paiz, tentou ainda urdir uma trama para se libertar, perdendo o genro e a filha. Os seus planos falharam; e anojada e cheia de desespero, seguiu a ordem do genro, que de Coimbra a mandou enterrar no mosteiro de Tordesillas. Como acabaria a sua vida? Quem sabe? talvez arrependida, santamente amortalhada no burel monastico? acaso roída de desespero, impenitente?
O exercito castelhano desceu sobre Lisboa, e este segundo cêrco da capital (1384) foi mais cruel ainda do que o primeiro, no tempo de D. Fernando. Veiu a fome perseguir os heroicos lisbonenses, que andavam já doentes das cousas que comiam. Por fóra a peste alastrava, porém, de cadaveres os arrayaes castelhanos; e quando, um dia, a rainha de Castella, pretendente de Portugal, adoeceu tambem, os inimigos levantaram o cêrco. O povo encontrava n'isto motivos para crer n'uma protecção do céu.
Por mais de um anno se prolongaram ainda as guerras pelas provincias afastadas; mas Lisboa, Coimbra e todo o centro do paiz era, já em 1385, pelo Mestre. Os ultimos actos da revolução iam consummar-se: as côrtes de Coimbra e a batalha de Aljubarrota.
Em Coimbra o grão-doctor é o general e o chefe. Essa batalha de discursos era diversa, mas não menos brava de pelejar; porque uma grande parte da nobreza, decidida a defender o reino do castelhano, não o estava a acclamar rei o Mestre de Aviz. Legitimista, considerava-se ligada ao infante D. João; e a união dos fidalgos, completa para a defeza, não existia, agora que se tratava de consolidar, com uma nova dynastia, a independencia e a constituição definitiva do reino.
O rei de Castella era schismatico e excommungado por apoiar Clemente VII contra Urbano VI; e além d'isso os maus costumes de Leonor Telles não deixavam ter certeza sobre a legitimidade de D. Beatriz.--Todos apoiavam João das Regras, porque ninguem queria o castelhano.--D. João, continuava o doutor (e aqui principiavam os murmurios) é bastardo, porque el-rei D. Pedro jámais se casou com D. Ignez de Castro.--Um momento houve em que Nunalvares esteve a ponto de brigar com o _roncador_ Martim Vasques, o chefe dos _leaes_; e as côrtes por um triz se tornavam n'uma batalha. Interveiu o Mestre de Aviz, apasiguando o exaltado capitão, melhor no campo do que no conselho.