Part 4
Havia effectivamente, cêrca de quatro minutos adiante, á esquerda da estrada, uma casa de insignificante apparencia, sôbre cujo telhado fluctuava uma bandeira azul presa a uma vara. Estacio conhecia a casa, mas era a primeira vez que via a bandeira. Helena pediu-lhe a explicação daquelle apendice.
--Va la saber, disse o irmão rindo.
Helena deu de redea á egua e adeantou-se alguns passos. Estacio apertou o animal e alcançou-a.
--Não va fazer tolices! disse elle em tom de branda reprehensão. Aquillo é fantasia do morador, ou algum signal de passaros, ou qualquer outra cousa que não vale a pena de uma travessura. Contemplemos antes a manhã, que está deliciosa.
Helena não attendeu á proposta do irmão e foi andando, a passo lento, na direcção da casa. A casa era velha, abrindo por uma porta para o alpendre antigo que lhe corria na frente. As collunnas deste estavam ja lascadas em muitas partes, apparecendo, aqui e alli, a ossada de tijolo. A porta estava meio aberta. Havia absoluta solidão, apparente ao menos. Quando elles lhe passaram pela frente, a porta abriu-se, mas se alguem espreitava por ella, ficou sumido na sombra, porque ninguem de fóra o viu.
Cêrca de cinco braças adeante, Estacio resolveu definitivamente regressar, e Helena não oppoz objecção nenhuma. Torceram a redea aos animais e desceram.
--Não poderei falar á bandeira? perguntou a moça. Deixe-me ao menos dizer-lhe adeus.
Tinha ja tirado da algibeira o seu fino lenço de cambraia; agitou-o na direcção da casa. Quiz o acaso que a bandeira, até então quieta, se movesse no sopro de uma aragem que passou.
--Ve como ella me respondeu? Não se póde ser mais cortez! exclamou Helena, rindo.
Estacio riu tambem da lembrança da irmã, e ambos desceram, a passo lento, como haviam subido. Helena vinha taciturna e pensativa. Seus olhos, cravados nas orelhas de _Moema_, não pareciam ver sequer o caminho que o animal seguia, Estacio, para arrancal-a ao silêncio, fez-lhe uma observação acerca de um incidente do caminho. Helena respondeu distrahidamente.
--Que tem voce? perguntou elle.
--Nada, disse ella; ia... ia embebida naquella toada. Não ouve?
Ouvia-se effectivamente, a algumas braças adeante, uma cantiga da roça, meia alegre, meia plangente. O cantor appareceu, logo que os cavalleiros dobraram a curva que a estrada fazia naquelle logar. Era o preto, que pouco tinham visto sentado no chão.
--Que lhe dizia eu? observou a irmã de Estacio. Alli vai o infeliz de ha pouco. Uma laranja chupada no capim e trez ou quatro quadras, é o bastante para lhe encurtar o caminho. Creia que vai feliz, sem precisar comprar o tempo. Nós poderiamos dizer o mesmo?
--Porque não?
A moça recolheu-se ao silêncio.
--Helena, isso que voce acaba de dizer. Vamos, estamos sos; confesse alguma tristeza que tenha.
--Nenhuma, respondeu a moca. Peço-lhe, entretanto, uma cousa.
--Diga.
--Peço-lhe que me comunique todas as más impressões que tiver a meu respeito. Explicarei umas, procurarei desvanecer-lhe outras, emendando-me. Sobretudo, peço-lhe que escreva em seu espirito esta verdade: é que sou uma pobre alma lançada n'um turbilhão.
Estacio ia pedir explicação mais desenvolvida daquellas últimas palavras; mas Helena, como se esperasse a pergunta, brandira o chicote, e deitou a egua a correr. Estacio fez o mesmo ao cavallo; dahi a alguns minutos entravam na chacara, elle aturdido e curioso, ella com a face vermelha e a bater-lhe violentamente o coração.
CAPITULO VII
Apearam-se os dous no terreiro e dirigiram-se para a escada que ia ter á varanda. Pizando o primeira degrau, disse Estacio:
--Helena, explique-me suas palavras de ha pouco.
--Quaes?
E como Estacio levantasse os hombros, com ar de despeito, continuou Helena:
--Perdõe-me; sua pergunta não tem nem podia ter outra resposta mais do que a simples recusa. Não lhe direi mais nada. Nunca se devem fazer meias confissões; mas neste caso a confissão inteira seria imprudencia maior. Se se tratasse de factos, creia que a ninguem melhor podia confia-los do que a voce; mas por que motivo irei perturbar-lhe o espirito com a narração de meus sentimentos, se eu propria não chego a entender-me?
Estacio não insistiu. Subiram a escada, atravessaram a varanda e entraram na sala de jantar, onde acharam D. Ursula dando as ordens daquelle dia, a dous escravos. Estacio entrou pensativo; Helena mudou totalmente de ar e maneiras. Alguns segundos antes era sincera a melancholia que lhe ensombrava o rosto. Agora regressara a jovialidade de costume. Dissera-se que a alma da moça era uma especie de comediante que recebêra da natureza ou da fortuna, ou talvez de ambas, um papel que a obrigava a mudar continuamente de vestuario. D. Ursula viu-a entrar risonha e ir a ella dar-lhe os costumados--_bons dias_--que era sempre um beijo,--ou antes dous,--um na mão, outro na face.
--Demorei-me muito? perguntou ella voltando rapidamente o corpo, de maneira a ver o relogio que ficava do outro lado da sala. Nove horas! Que passeio, Sr. meu irmão!
Estacio olhava para ella silencioso e não lhe respondeu. Seu olhar não era de censura, mas de curiosidade, pena e admiração. Os dous foram logo depois mudar de _toilette_, e o almôço reuniu a familia. D. Ursula propoz, durante elle, algumas mudanças na disposição da chacara, mudanças que foram longamente discutidas com o sobrinho, e aceitas afinal por este. O dia estava sombrio e fresco; D. Ursula desceu á chacara com Estacio. As alterações foram ainda estudadas e combinadas no proprio terreno, com assistencia do feitor. Logo que acabou a deliberação e que o projecto de D. Ursula foi definitivamente assentado, Estacio reteve-a e lhe disse:
--Preciso falar-lhe um instante.
--Tambem eu.
--Quaes são os seus sentimentos actuaes em relação a Helena? Oh! não precisa franzir a testa nem fazer esse gesto de aborrecimento. Tudo são meras apparencias. Não creio que seja absolutamente amiga della; mas não póde negar que a antipathia desapareceu ou diminuiu muito.
--Diminuiu, talvez.
--E com razão. Pensa que tambem eu não tive repugnancias depois que ella aqui entrou? Tive-as; mas se não houvessem desaparecido,--desapareceriam hoje de manhã.
--Como?
Estacio referiu á tia a scena do capitulo anterior e as palavras que lhe dissera Helena. D. Ursula sorriu ironicamente.
--Não a impressiona isto? perguntou Estacio.
--Não, respondeu D. Ursula com decisão; a phrase de Helena é achada em algum dos muitos livros que ella le. Helena não é tola; quer prender-nos por todos os lados, até pela compaixão. Não te nego que começo a gostar della; é dedicada, affectuosa, diligente; tem maneiras finas e algumas prendas de sociedade. Além disso, é naturalmente sympatica. Ja vou gostando della; mas é um gostar sem fogo nem paixão, em que entra boa dose de costume e necessidade. A presença de outra mulher nesta casa é conveniente, porque eu estou cançada. Helena preenche essa lacuna. Se alguma cousa, entretanto, a podia prejudicar nas nossas relações é esse dito.
Estacio tomou calorosamente a defesa da irmã.
--O que eu lhe contei, disse elle, foram apenas as palavras. Não pude nem poderei reproduzir a expressão sincera com que ella as proferiu e a profunda tristeza que havia em seus olhos. Não lhe nego que, ao vel-a mudar tão depressa e entrar alegre na sala, senti tal ou qual abalo de dúvida; mas passou logo. Sua natureza tem esse raro poder de concentrar a amargura no coração; tambem a dor tem suas hypocrisias...
--Mas que dor? que amargura? interrompeu: D. Ursula. A dor de ser legitimada? a amargura de uma herança?
Estacio protestou calorosamente contra aquelle caminho que a tia dava a suas ideias; emfim pediu-lhe que interrogasse com cautella a irmã.
--Um homem, concluiu elle, é menos apto para obter taes confissões; uma senhora, respeitavel e parenta, está mais no caso de lhe captar a confiança e obter tudo. Quer incumbir-se desse delicado papel?
--Pedes muito, respondeu D. Ursula. Verei se te posso dar metade disso. Era só o que tinhas para dizer?
--Só.
--Uma creancice! Eu tenho cousa mais séria. O Dr. Camargo escreveu-me: trata-se...
--Não precisa dizer mais nada, interrompeu Estacio; la vem elle.
Camargo apparecêra effectivamente a vinte passos de distância.
--Doutor,--disse D. Ursula, logo que este se approximou delles, chega um pouco fóra de proposito. Eu mal tive tempo de assustar meu sobrinho, que ainda não sabe o que o senhor lhe quer.
--Saberá agora; é só bastante que a senhora lhe diga que me approva.
--Completamente,
--Trata-se...--disse Estacio.
--De uma conspiração; todos conspiramos em seu beneficio.
D. Ursula retirou-se para casa; os dous ficaram sos. Uma vez sos, Camargo pousou a mão no hombro de Estacio, fitou-o paternalmente, emfim perguntou-lhe se queria ser deputado. Estacio não pôde reprimir um gesto de sorpreza.
--Era isso? disse elle.
--Creio que não se trata de um supplício. Uma cadeira na camara! Não é a mesma cousa que um quarto no aljube.
--Mas a que proposito...
--Ésta ideia apoquentava-me ha algumas semanas. Doia-me ve-lo vegetar os seus mais bellos annos n'uma obscuridade relativa. A política é a melhor carreira para um homem em suas condições; tem instrucção, caracter, riqueza; póde subir a posições invejaveis. Vendo isso, determinei-me a mettel-o na Cadeia... Velha. Fala-se em dissolução. Para facilitar-lhe o successo, entendi-me com duas influências dominantes, o negocio afigurasse-me em bom caminho.
Estacio ouviu com desagrado as notícias que lhe dava o médico.
--Mas doutor, disse elle depois de curto silêncio, houve de sua parte alguma precipitação. Pelo menos, de via consultar-me. Do modo por que arranjou as cousas, quasi me acho desobrigado de lhe agradecer a intenção. Quanto a acceitar, não acceito.
Camargo não perdeu a tramontana. Havia nelle a tenacidade do dogue e a tactica da serpente. Deixou passar por cima da cabeça a primeira onda de desagrado, surgiu fóra e insistiu tranquillamente:
--Vejamos as cousas com os oculos do senso-commum. Em primeiro logar, não creio que tenha outros projectos na cabeça.
--Talvez.
--Duvido que sejam mais vantajosos do que este. A sciencia é ardua e seus resultados fazem menos ruido. Não tem vocação commercial nem industrial. Medita alguma ponte-pensil entre a Côrte e Nictheroy, uma estrada até Matto-Grosso ou uma linha de navegação para a China? É duvidoso. Seu futuro tem por ora dous limites unicos, alguns estudos de sciencia e os alugueis das casas que possue. Ora, a eleição nem lhe tira os alugueis nem obsta a que continue seus estudos; a eleição completa-o dando-lhe a vida pública, que lhe falta. A unica objecção seria a falta de opinião política; mas ésta objecção não o póde ser. Hade ter, sem dúvida, meditado alguma vez nas necessidades públicas, e...
--Supponha,--é mera hypothese,--que tenho alguns compromissos com a opposição.
--Nesse caso, dir-lhe-ei que ainda assim deve entrar na camara--embora pela porta dos fundos. Se tem ideias especiaes e partidarias, a primeira necessidade é obter o meio de as expor e defender. O partido que lhe der a mão,--se não fôr o seu,--ficará, consolado com a ideia de ter ajudado a a um adversario talentoso o honesto. Mas a verdade é que não escolheu ainda entre os dous partidos; não tem opiniões feitas. Que importa? Grande numero de jovens politicos seguem, não uma opinião examinada, ponderada e escolhida, mas a do círculo de suas affeições, a que seus paes ou amigos immediatos honraram e defenderam, a que as circumstâncias lhe impõem. Dahi vem algumas legítimas conversões posteriores. Tarde ou cedo o temperamento domina as circumstâncias da origem, e do botão luzia ou saquarema nasce um magnifico lyrio saquarema ou luzia. Demais, a política é sciencia prática; e eu desconfio de theorias que só são theorias. Entre primeiro na camara; a experiencia e o estudo dos homens e das cousas lhe designarão a que lado se deve inclinar.
Estacio ouviu attento éstas vozes com que a serpente lhe apontava para a árvore da sciencia do bem e do mal. Menos curioso que Eva, entrou a discutir philosophicamente com o reptil.
--Entra-se na política,--disse elle,--por vocação legítima, ambição nobre, interesse, vaidade, e até por simples distração. Nenhum desses motivos me impelle a dobrar o cabo Tormentorio.
--Da Boa Esperança,--emendou Camargo rindo;--não supprima tres seculos de navegação.
Estacio riu-se tambem. Depois falou ao médico de sua indole e ambições. Não negava que tivesse ambições; mas nem só as havia políticas nem todas eram da mesma estatura. Os espiritos, disse elle, nascem condores ou andorinhas, ou ainda outras especies intermedias. A uns é necessario o horisonte vasto, a elevada montanha, de cujo cimo batem as azas e sobem a encarar o sol; outros contentam-se com algumas longas braças de espaço e um telhado em que vão esconder o ninho. Estes eram os obscuros, e, na opinião delle, os mais felizes. Não seduzem as vistas, não subjugam os homens, não os menciona a história em suas páginas luminosas ou sombrias; o vão do telhado em que abrigaram a prole, a árvore em que pousaram, são as testemunhas unicas, e morredoras da felicidade de alguns dias. Quando a morte os colhe, vão elles pousar no regaço commum da eternidade, onde dormem o mesmo perpétuo somno, tanta o capitão que subiu ao summo estagio por uma escala de mortos, como o cabreiro que o viu passar uma vez e o esqueceu duas horas depois. Suas ambições não eram tão infimas como seriam as do cabreiro; eram as do proprietario do campo que o capitão atravessasse. Um bom peculio, a familia, alguns livros e amigos,--não iam além seus mais arrojados sonhos.
Um sorriso de lástima foi a primeira resposta do médico.
--Meu caro Estacio,--disse, elle depois,--esse trocadilho de andorinhas e cabreiros é a cousa mais extraordinaria que eu esperava ouvir a um mathematico. Saiba que detesto egualmente a philosophia da obscuridade e a rhetorica dos poetas. Sobretudo gósto que me respondam em prosa quando falo em prosa.
--Parece-lhe que poetei? perguntou Estacio rindo.
--Despropositamente! Ora, eu falo de cousas sérias; e convem não confundir alhos, que são a metade prática da vida, com bugalhos, que são a parte ideológica e vã.
--Eu serei ideologo,
--Não tem direito de o ser.
--Pois bem, deixe-me com as minhas mathematicas, as minhas flôres, as minhas espingardas.
--Não! Ha de intercalar tudo isso com um pouco de política.
Puxando-o familiarmente pela gola do paleto, Camargo fel-o sentar ao pe de si, no banco que alli estava mais proximo. Depois falou. O novo discurso foi o mais longo que proferiu em todos os seus dias. Nenhuma das vantagens da vida pública deixou de ser apontada com uma complacencia de tentador; todas as glórias, pompas e satisfações da política, e não só as reaes, mas as ficticias ou duvidosas, foram inventariadas, pintadas, douradas e illuminadas pelo médico. Sua palavra revellou um poder de evocação, uma vehemencia, uma energia, que ninguem era capaz de suppor-lhe. O taciturno desabrochou tagarella. Para falar tanto e com tal fôrça era preciso que o animasse um grande sentimento ou um grande interesse.
Estacio, lisonjeado com a affeição que elle lhe mostrava, não teve ensejo de fazer essa reflexão. Nem se animou a repetir a recusa; adoptou o alvitre de deferir a resposta para outra occasião.
--Ja lhe disse o que sinto a tal respeito. Contudo, estou prompto a reflectir, e a consultar o padre Melchior e Helena.
O nome de Helena produziu em Camargo uma careta interior. Exteriormente não passou o effeito de um sorriso sardonico e dissimulado. Interveiu uma pitada de rapé, que o médico inseriu lentamente, depois de a extrahir lentamente de uma boceta de tartaruga, presente do conselheiro Valle.
--Helena! disse elle com alguma hesitação. Que vem fazer sua irmã neste negocio?
--É um voto,--redarguiu Estacio; e menos leve do que lhe parece. Ha nella muita reflexão escondida, uma razão clara e forte, em boa harmonia com as suas outras qualidades feminis.
Entre as sobrancelhas de Camargo projectou-se uma longa ruga, e foi toda a expressão de seu espanto e desgôsto. A resposta de Estacio revellara-lhe uma situação nova na familia: o voto de Helena, consultivo agora, podia vir a ser preponderante. Ésta solução, que porventura faria estremecer de alegria os ossos do conselheiro, não a previra o médico. Limitou-se a notal-a de si para si; e, terminando subitamente a conversa, disse:
--Consulte as pessoas de seu agrado. Quem não estiver com a minha opinião, não é seu amigo. Em todo o caso, ninguem lhe poderá affirmar que não é a amizade, a longa amizade.
Estacio cortou-lhe a palavra, apertando-lhe affectuosamente a mão. Tinham-se levantado. Era quasi meio dia; Camargo despediu-se alli mesmo; ia ver dous doentes no caminho da Tijuca. O filho do conselheiro atravessou sosinho a chacara; ia pensativo, e aborrecido. A política, na sua opinião, era uma noiva importuna; mas se todos conspirassem a favor della, não sería elle obrigado a desposal-a? A ésta reflexão respondeu a voz do padre Melchior, do alto de uma janella:
--Venha ca, senhor deputado; quando teremos o seu primeiro discurso?
CAPITULO VIII
D. Ursula tinha ja confiado ao velho capellão a proposta de Camargo. Consultado por Estacio, respondeu este que sua opinião era absolutamente inutil.
--Consulte suas fôrças e a responsabilidade do cargo, e escolha, concluiu o padre.
--Ja escolhi, disse Estacio; pedia seu conselho para apoiar melhor a minha propria decisão. Não é esse o destino de todos os conselhos? Decidi que não acceito a candidatura. A vida política é turbulenta de mais para o meu espirito. Estou prompto para a acção, mas não hade ser exterior. Dado o meu temperamento, que iria eu buscar á camara, além de algumas prerogativas e um papel accessorio? Eu só me meteria na política, se pudesse officiar; mas ser apenas sachristão...
--Entre o officiante e o sachristão, observou Melchior, está o prégador, que é cargo nobre e influente.
--Mas o thema do sermão, padre-mestre?--retorquiu Estacio rindo; falta-me o thema.
D. Ursula, a quem seduziam exclusivamente a posição e o rumor público em favor do sobrinho, viu naquellas razões um pretexto ou uma puerilidade. Defendeu, como pôde, a causa de Camargo; instou com o sobrinho para que reflectisse maduramente, antes de qualquer resposta definitiva. Estacio prometteu como promettêra ao médico, por simples condescendencia; mas sobretudo para pôr termo ao assumpto e ir saber a causa do sorriso quasi imperceptivel que viu roçar os labios de Helena. A moça erguera-se e dirigira-se para uma das janellas; Estacio foi até alli.
--Adivinhei pelo seu sorriso,--disse elle, que tudo isto lhe pareço pueril, e que eu faço bem em não acceitar o que se me offerece.
Helena olhou um pouco espantada para elle; mas respondeu com tranquillidade:
--Pelo contrário, penso que deve acceitar. Além de haver consentimento de minha tia, parece ser um grande desejo do pai de Eugenia.
Era a primeira vez que Helena alludia ao amor de Estacio, e fazia-o por modo encoberto e obliquo. Estacio escapou dessa vez á regra de todos os corações amantes: resvalou pela allusão e discutiu gravemente o assumpto da candidatura. Era pesado de mais para cabeça feminina; Helena intercalou uma observação sobre dous passarinhos que bailavam no ar, e Estacio aceitou a diversão, deixando em paz os eleitores.
Durante dous dias, não sahiu elle de casa. Tendo recebido alguns livros novos, gastou uma parte do tempo em os folhear, ler alguma página, collocal-os nas estantes, alterando a ordem e a disposição dos anteriores, com a prolixidade e o amor do bibliophilo. Helena ajudava-o nesse trabalho,--um pouco parecido com o de Penelope,--por que a ordem estabelecida ao meio dia era às vezes alterada às duas horas, e restaurada na seguinte manhã. Estacio, entretanto, não ficava todo entregue aos livros; admirava a solicitude da irmã, a ordem e o cuidado com que ella o auxiliava. Helena parecia não andar; seu vulto resvalava silenciosamente, de um lado para outro, obedecendo a uma indicação do irmão, ou pondo em experiencia uma ideia sua. Estacio parava às vezes fatigado; ella continuava imperturbavelmente o serviço. Se elle lhe fazia alguma observação, a moça respondia com um movimento de hombros ou um sorriso, e proseguia. Então Estacio segurava-lhe nos pulsos e exclamava rindo:
--Socega, borboleta!
Helena parava, mas eram só poucos minutos; volvia logo ao trabalho com a mesma serena agitação. Era assim que as horas se passavam na intimidade mais doce, e que a reciproca affeição ia excluindo toda a preocupação alheia; era assim que a influência de Helena assumia as proporções de voto preponderante.
No terceiro dia D. Thomasia e Eugenia foram jantar a Andarahy. Eugenia estava nesse dia mais sisuda e docil que nunca; dissera-se que trazia a alma tão nova como o vestido, e menos enfeitada que elle. Estacio sentiu-se satisfeito; o ideal reconciliava-se com o real. Poderam falar sosinhos mais de uma vez; todas as pessoas da casa pareciam conspiradas para lhes deixar a solidão. Foi ella quem recordou a proposta política do pai, da qual soubera casualmente, ouvindo a narração que este fizera a D. Thomasia. O desejo de Eugenia era pela affirmativa; e Estacio, receioso de despertar os caprichos adormecidos da moça, frouxamente resistiu, e consentiu ainda mais frouxamente em reconsiderar o assumpto.
--Deputado! exclamava Eugenia com os olhos no ceu.
Estacio acompanhou Eugenia e D. Thomasia na carruagem que as levou ao Rio Comprido. O dia fôra mais ou menos alegre; a viagem foi divertida e palreira como um regresso de romaria. Os cavallos mostravam-se tão lepidos como as pessoas que iam no carro, e encurtaram alguns minutos o caminho, com desgôsto de Eugenia.
Voltando a Andarahy, Estacio trazia a alma pura de todas as más impressões, que lhe deixavam usualmente as visitas á casa de Camargo. Nenhum dissentimento houvera naquelle dia. Eugenia parecia modificada. Em casa esperava-o porém uma desagradavel noticia: a tia sentira-se incommodada pouco depois que elle sahíra e recolhera-se ao quarto. O caso affligiu-o; mas não tardou a apparecer Helena, que o tranquilisou, dizendo-lhe que D. Ursula tinha apenas uma forte dor de cabeça, ja diminuida com o emprêgo de um remedio cazeiro.
No dia seguinte de manhã, informado de que a tia dormia socegadamente, Estacio abriu uma das janellas do quarto e relanceou os olhos pela chacara. A alguns passos de distância, entre duas larangeiras, viu Helena a ler attentamente um papel. Era uma carta, longa de todas as suas quatro laudas escriptas. Seria alguma mensagem amorosa?
Ésta ideia molestou-o singularmente. Affastou-se da janella, conchegou as cortinas, e pela fresta procurou observar a irmã. Helena estava de pe, no mesmo logar, e percorria rapidamente as linhas, até o final da ultima página. Alli chegando, deu dous passos, tornou a parar volveu ao princípio da carta, para a ler de novo, não ja depressa, mas repousadamente. Estacio sentiu-se movido de imperiosa curiosidade, á qual vinha misturar-se uma sombra de despeito e ciume. A ideia de que Helena podia repartir seu coração com outra pessoa desconsolava-o ao mesmo tempo que o irritava. A razão de semelhante exclusivismo não a explicou elle, nem tentou investigal-a; sentiu-lhe somente os effeitos, e ficou alli sem saber que faria. Duas vezes sahiu da janella para ir ter com a irmã, mas recuou de ambas as vezes, reflectindo que a curiosidade pareceria impolidez, se não era talvez, tyrania. Ao cabo de alguns minutos de hesitação, sahiu do quarto e dirigiu-se á chacara.
Quando alli chegou, Helena passeava lentamente com os olhos no chão. Estacio parou deante della.
--Ja fora de casa! exclamou em tom de gracejo.
Helena tinha a carta na mão esquerda; instinctivamente a amarrotou como para escondel-a melhor. Estacio, a quem não escapou o gesto, perguntou-lhe rindo se era alguma nota falsa.
--Nota verdadeira, disse ella alisando tranquillamente o papel, e dobrando-o conforme recebêra; é uma carta.
--Segredos de moça?