Helena

Part 3

Chapter 33,943 wordsPublic domain

Estacio contemplou-a namorado sem ousar dizer palavra; a primeira que lhe ia sahir dos labios, era justamente o pedido que o levava alli. Mas Eugenia deteve-lh'a mostrando o anel que sua madrinha, uma fazendeira de Cantagallo, lhe remettêra na vespera. Era uma opala magnifica, a tal ponto que Eugenia dividia os olhos entre o namorado e ella. Ésta simultaneidade esfriou o mancebo. Entraram ambos em casa, onde D. Thomasia os esperava. A mãe de Eugenia sabia combinar o decoro com os desejos de seu coração; não seria obstaculo aos dous namorados, infelizmente a presença de duas visitas veiu destruir o cálculo dos tres. Estacio espreitava uma occasião de pedir a Eugenia a autorisação que desejava; até o jantar não se lhe deparou nenhuma.

Depois do jantar, desceram todos ao jardim. D. Thomasia entreteve uma das visitas; Camargo foi mostrar á outra a sua collecção de flores. Estacio e Eugenia affastaram-se cautellosamente dos dous grupos, a pretexto de não sei que flor aberta na manhã daquelle dia. A flor existia; Eugenia colheu-a e deu a Estacio.

--Não va perdel-a; hade entregal-a a Helena da minha parte. Diga-lhe que estou com muitas saudades.

Estacio collocou a flor na casa do paletó.

--Vai cahir! disse Eugenia. Quer que pregue um alfinete?

Estacio não teve tempo de responder, por que a filha de Camargo, tirando um alfinete do cinto prendeu o pe da flor, gastando muito mais tempo do que o exigia a operação. A moça não era myope; todavia approximou de tal modo a cabeça ao peito do mancebo, que este teve impetos de lhe beijar os cabellos, e seria a primeira vez que seus labios lhe tocassem. Não o deteve o risco de ser visto; mas o simples respeito daquella creatura.

--Prompto! disse ella. Diga a Helena que é a flor mais bonita, do nosso jardim. Sabe que eu gósto muito de sua irmã?

--Acredito.

--Supponho que é minha amiga, hade se-lo com certeza. Oh! eu preciso muito de uma amiga verdadeira!

--Sim?

--Muito! Tenho tantas que não prestam para nada, e só me dão desgostos, como Cecilia... Se soubesse o que ella me fez!

--Que foi?

Eugenia desfiou uma historiazinha de toucador, que omitto em suas particularidades, por não interessar ao nosso caso, bastando saber que a razão capital da divergencia entre as duas amigas fôra uma opinião de Cecilia acerca da escolha de um chapeu.

Estacio não escutou a história com a attenção que a moça desejára; limitou-se a ouvir a voz de Eugenia, que era na verdade angelica. Alguma cousa porém lhe ficou, e quando ella poz termo ás suas queixas:

--O que me parece, observou o sobrinho de D. Ursula, é que não valia a pena brigar por tão pouca cousa...

--Pouca cousa! exclamou Eugenia. Parece-lhe pouco chamar-me caprichosa e de mau gôsto?

--Fez mal se o disse; em todo o caso...

Estacio fez uma pausa e continuou a andar. Eugenia, mollemente recostada em seu braço, esperou que elle continuasse o que ia dizer; mas o silêncio prolongou-se mais do que era natural.

--Em todo o caso? repetiu a moça erguendo para elle os seus olhos limpidos e curiosos.

--Eugenia, disse Estacio, quer saber a verdadeira razão do mau successo de suas affeições? é deixar-se levar mais pelas apparencias que pela realidade; é porque dá menos apreço ás qualidades solidas do coração do que ás frivolas exterioridades da vida. Suas amizades são das que duram a roda de uma valsa, ou, quando muito, a moda de um chapeu; podem satisfazer o capricho de um dia, mas são estereis para as necessidades do coração.

--Jesus! exclamou Eugenia estacando o passo um sermão por tão pouca cousa! Se tivesse algum pedaço de latim era o mesmo que estar ouvindo o padre Melchior.

Estacio não respondeu; contentou-se com erguer os hombros, e os dous continuaram a andar silenciosamente, acanhados e descontentes um do outro. A differença é que o enfado de Eugenia manifestava-se por um movimento nervoso de impaciencia e despeito.

--Se o offendi, perdoe-me, disse ella--com um leve tom de ironia.

--Oh! exclamou elle apertando-lhe a mão, como quem só esperava um pretexto para reatar a conversa interrompida.

--Talvez offendesse, continuou a moça; eu sei dizer as cousas como ellas me vem á boca, e parece que não são as mais acertadas...

--Não digo que o sejam sempre, replicou Estacio sorrindo. Agora, pelo menos, foi um pouco precipitada em zombar do que eu lhe dizia, que era justo e de boa intenção. Francamente, é para lastimar uma amizade, ganha entre duas quadrilhas e perdida por causa de um chapeu? Não vale a pena esperdiçar affectos, Eugenia; sentirá mais tarde que essa moeda do coração não se deve nunca reduzir a trocos miudos nem despender em quinquilharias.

Eugenia ouviu calada as palavras do moço; não as entendeu muito. Sabia-lhes a significação; não lhes viu porém nexo nem sentido; sobretudo não lhes sentiu a applicação. O que a irritou mais foi o tom pedagogo de Estacio; estouvada e voluntariosa, não admittia que ninguem lhe falasse sem submissão ou a reprehendesse por actos seus, que ella julgava legitimos e naturaes. A insistencia do moço foi o ponto de partida a um desses arrufos, não raros entre amantes, e communs entre aquelles dous. Os de Eugenia não eram simples silêncios; seu espirito rebelde e livre não adormecia nesses momentos de enfado; pelo contrário irritava-se e traduzia a irritação por meio de pirraças e accessos de mau humor. Estacio viu murmurar, crescer e desabar a tempestade. A moça deixava-lhe o braço e tornava a apoiar-se nelle, articulava algumas phrases sôltas, pedia a morte, batia no chão com o pesinho mimoso que por acaso esmagou uma pobre herva, alheia ás divergencias moraes daquellas duas creaturas. Ora parava ou desandava o caminho; mas logo se dirigia para o moço, com as palpebras trémulas de colera e um remoque nos labios; comprazia-se em torcer a ponta da manga até dilaceral-a, ou morder a ponta do dedo até imprimir-lhe o signal de seus dentes, côr de perola. Estacio, affeito a essas explosões, não lhes sabia remedio proprio, que tanto o silêncio como a réplica eram alli materias inflamaveis. Contudo, o silêncio era o menor dos dous perigos. Estacio limitava-se a ouvir calado, olhando á sorrelfa para a filha de Camargo, cujo rosto parecia mais bello, quando a raiva o coloria. Uma terceira pessoa era a unica esperança de pacificação; Estacio alongou o olhar pelo jardim em busca desse _deus ex-machina_. Appareceu elle enfim sob a forma de um Carlos Barreto,--estudante de medicina, que cultivava simultaneamente a pathologia e a comedia, mas promettia ser melhor Esculapio que Aristophanes. Mal os viu de longe, apertou o passo para o grupo.

--Vem gente, Eugenia,--disse Estacio; não demos expectaculos e... perdõe-me.

Eugenia ergueu os hombros, procurou com os olhos o intruso, que dahi a pouco estenda-lhes a mão.

O ceu não ficou logo claro; mas o vento amainou, e era de esperar que o sol se desfizesse enfim do seu capote de nuvens. Carlos Barreto deu a Eugenia a agradavel notícia de que trouxera a seu pae um convite para a _soirée_ que daria no sabbado proximo uma de suas parentas. A perspectiva da _soirée_ foi uma brisa salutar que dispersou o resto das nuvens que entenebreciam o ceu; Eugenia sorriu. _J'ai ri; me voilà desarmée_, como na comedia de Piron. Vinte minutos depois, não havia em Eugenia vestigio da scena do jardim. Mas a ideia do casamento estava adiada.

O effeito foi agro e doce para Estacio. Estimando ver dissipada a colera, doia-lhe que a causa fôsse, não a propria virtude do amor, mas um motivo comparativamente futil. A resolução de a consultar sôbre o pedido de casamento esvaiu-se-lhe como de outras vezes. Sahiu dalli á noite, antes do cha, aborrecido e azedo. Mas esse estado não durou muito; dez minutos depois de deixar a casa de Camargo sentiu alguma cousa semelhante á dentada de um remorso. O amor de Estacio tinha a particularidade de crescer e affirmar-se na ausencia e diminuir logo que estava ao pe da moça. De longe, via-a atravez da nevoa luminosa da imaginação; ao pe era difficil que Eugenia conservasse os dotes que elle lhe emprestava. Dahi, um dissentimento provavel e um remorso certo. Agora que a deixava, ia elle irritado contra si mesmo; achava-se ridiculo e cruel; chegava a adorar toda a graciosa futilidade de Eugenia; concedia, alguma cousa á edade, á educação, aos costumes, á ignorancia da vida.

Nesse estado de espirito entrou em casa, onde o esperava um incidente novo.

CAPITULO VI

Chegando a casa, achou Estacio um remedio a seu mau humor. Era uma carta de Luiz Mendonça, que dous annos antes partira para Europa, d'onde agora regressava. Escrevia-lhe de Pernambuco, annunciando-lhe que dentro de poucas semanas estaria no Rio de Janeiro. Mendonça fora o seu melhor companheiro de aula. Havia entre elles certos contrastes de genio. O de Mendonça em mais folgazão e activo. Quando este partiu para Europa quiz que o antigo collega o acompanhasse, e o proprio conselheiro opinára nesse sentido. Estacio recusou pelo receio de que, sendo differente o espirito de um e outro, a viagem tivesse de obrigar ao sacrificio de habitos e preferencias de um delles.

A noticia da volta de Mendonça encheu de contentamento o sobrinho de D. Ursula. D. Ursula estava então na sala de costura, relendo algumas páginas do seu _Saint-Clair_, encostada a uma meza. Do outro lado desta, ficava Helena, a concluir uma obra de _crochet_.

--Titia, disse elle, dou-lhe uma novidade agradavel para mim.

--Que é?

--O Mendonça chegou a Pernambuco: está aqui dentro de pouco tempo.

--O Mendonça?

--Luiz Mendonça.

--O que foi para a Europa, sei. Ha quanto tempo?

--Dous annos,

--Dous annos! Parece que foi hontem.

--Não lhe leio a carta que me escreveu por ser muito longa. Diz-me que devo ir tambem á Europa, quanto antes. Querem ir?

--Eu? disse D. Ursula marcando a página do livro com os oculos de prata que até então conservára sobre o nariz. Não são folias para gente velha. Daqui para a cova.

--A cova! exclamou Helena. Está ainda tão forte! Quem sabe se não me ha de enterrar primeiro?

--Menina! exclamou D. Ursula em tom de reprehensão.

Helena sorriu de alegria e agradecimento; era a primeira palavra de verdadeira sympathia que ouvia a D. Ursula. Bem o comprehendeu ésta; e talvez a mortificou aquella expontaneidade do coração. Mas era tarde. Não podia recolher a palavra, não podia sequer explical-a.

--Que tal virá o teu amigo? perguntou ella ao sobrinho. Era bom rapaz antes de ir; um pouco tonto, apenas.

--Ha de vir o mesmo, respondeu Estacio; ou ainda melhor. Melhor de certo, porque dous annos mais modificam o homem.

Estacio fez aqui um panegyrico do amigo, intercallado com observações da tia, e ouvido silenciosamente pela irmã. Vieram chamar para o cha. D. Ursula largou definitivamente o seu romance, e Helena guardou o _crochet_ na cestinha de costura.

--Pensa que gastei toda a tarde em fazer _crochet_? perguntou ella ao irmão, caminhando para a sala do jantar.

--Não?

--Não, senhor; fiz um furto.

--Um furto!

--Fui procurar um livro na sua estante.

--E que livro foi?

--Um romance.

--_Paulo e Virginia_?

--_Manon Lescaut._

--Oh! exclamou Estacio. Esse livro.

--Exquisito, não é? Quando percebi que o ora, fechei-o e la o puz outra vez.

--Não é livro para moças solteiras...

--Não creio mesmo que seja para moças casadas, replicou Helena rindo e sentando-se á mesa. Em todo o caso, li apenas algumas páginas. Depois abri um livro de geometria... e confesso que tive um desejo.

--Imagino! interrompeu D. Ursula.

--O desejo de aprender a montar a cavallo, concluiu Helena.

Estacio olhou espantado para a irmã. Aquella mistura de geometria e equitação não lhe pareceu sufficientemente clara e explicavel. Helena soltou uma risadinha alegre de menina que applaude a sua propria travessura.

--Eu lhe explico, disse ella; abri o livro, todo alastrado de riscos que não entendi. Ouvi porém um tropel de cavallos e cheguei á janella. Eram tres cavalleiros, dous homens e uma senhora. Oh! com que garbo montava a senhora! Imaginem uma moça de vinte e cinco annos, alta, esbelta, um busto de fada, apertado no corpinho de amazona, e a longa cauda do vestido cahida a um lado. O cavallo era fogoso; mas a mão e o chicotinho da cavalleira quebravam-lhe os impetos. Tive pena, confesso, de não saber montar a cavallo...

--Quer aprender commigo?

--Titia consente?

D. Ursula levantou os hombros com o ar mais indifferente que pôde achar no seu repertorio. Helena não esperou mais.

--Escolha voce o dia.

--Amanhã?

--Amanhã.

Estacio costumava dar um passeio a cavallo quasi todas as manhãs. O do dia seguinte foi dispensado; começariam as licções de Helena. Antes disso, porém, escreveu Estacio á filha de Camargo uma carta rescendente a ternura e affecto. Pedia-lhe desculpa do que se passára na vespera; jurava-lhe amor eterno; cousas todas que lho dissera mais de uma vez, com o mesmo estylo, se não com as mesmas palavras. A carta dissipou-lhe a ultima sombra de remorso. Antes que ella chegasse ao seu destino, reconciliara-se elle comsigo mesmo. O portador sahiu para o Rio Comprido, e elle desceu ao terreiro que ficava nos fundos da casa, ao pe da qual estava situada a cavallariça. Naquelle lado da casa corria a varanda antiga, onde a familia costumava ás vezes tomar cafe ou conversar nas noites de luar, que alli penetrava pelas largas janellas. Do meio da varanda descia uma escada de pedra que ia ter ao terreiro.

Ja alli estava Helena. D. Ursula enprestara-lhe um vestido de amazona, com que algumas vezes montára, antes da morte do irmão. O vestido ficava-lhe mal; era folgado de mais para o talhe delgado da moça. Mas a elegancia natural fazia esquecer o accessorio das roupas.

--Prompta! exclamou Helena apenas viu o irmão assomar no alto da escada.

--Oh! isso não vai assim! respondeu Estacio. Não supponha que hade montar ja hoje como a moça que hontem viu passar na estrada. Vença primeiramente o medo.

--Não sei o que é medo, interrompeu ella com ingenuidade.

--Sim? Não a suppunha valente. Pois eu sei o que elle é.

--O medo? O medo é um preconceito dos nervos. E um preconceito desfaz-se; basta a simples reflexão. Em pequena educaram-me com almas do outro mundo. Até a edade de dez annos era incapaz de penetrar n'uma sala escura. Um dia perguntei a mim mesma se era possivel que uma pessoa morta voltasse á terra. Fazer a pergunta e dar-lhe resposta era a mesma cousa. Lavei o meu espirito de semelhante tolice e hoje era capaz de entrar, de noite, n'um cemiterio. E dahi talvez não: os corpos que alli dormem tem direito de não ouvir mais um só rumor de vida.

Estacio chegára ao último degrau da escada. As derradeiras palavras ouviu-as elle com os olhos fitos na irmã e encostado ao poial do pedra.

--Quem lhe ensinou essas ideias? perguntou elle.

--Não são ideias, são sentimentos. Não se aprendem; trazem-se no coração. Senhor geometra, continuou brandindo caprichosamente o chicote,--veja se transcreve em algum compendio éstas figuras de minha invenção, e ande cavalgar commigo.

Com um movimento rapido travou da cauda do vestido, e caminhou para diante. Estacio acompanhou-a, a passo lento, como solicitado por dois sentimentos differentes: a affeição que o prendia á irmã, e a extranha impressão que ella lhe fazia sentir. Quando chegou á porta da cavallariça, viu aparelhados dous animaes, o cavalo de seus passeios, e a egua que a tia cavalgava uma ou outra vez.

--Que é isso? disse elle. Por ora vamos a algumas indicações somente, aqui no terreiro.

--Justamente! respondeu a moça.

Um escravo que alli estava trouxe um tamborete, Estacio approximou-se de Helena, que afagava com a mão alva e fina as crinas da egua.

--Como se chama? perguntou ella.

--_Moema._

--_Moema_!! Ora espere... é um nome indigena, não é?

Estacio fez um signal affirmativo. Helena tinha um pe sobre o tamborete; repetiu ainda o nome da egua, como quem reflectia sobre elle, sem que o irmão percebesse que não era aquillo mais do que um disfarce. De repente; quando elle menos esperava, Helena deu um salto, e sentou-se no selim. A egua alteou o collo, como vaidosa do peso que recebêra. Estacio olhou para a irmã, admirado da agilidade e correcção do movimento, e sem saber ainda o que pensasse daquillo. Helena inclinou-se para elle.

--Fui bem? perguntou sorrindo.

--Não podia ir melhor; mas o que me admira...

As patas de _Moema_ interromperam a reflexão do moço. A cavalleira brandira o chicotinho, e o animal sahíra a trote largo pelo terreiro fora. Estacio, no primeiro momento, deu um passo e estendeu a mão como para tomar a redea ao animal; mas a segurança da moça logo lhe deixou ver que ella não fazia alli os primeiros ensaios. Ficou parado, de longe, a admirar-lhe o garbo e a destreza. No fim de vinte passos, Helena torceu a redea e regressou ao ponto donde sahíra.

--Que tal? disse ella logo que estacou. Terei geito para a equitação?

--Creança!

--Que é isso? Ja aprendeu? interveio D. Ursula do alto da varanda, onde acabava de chegar.

--Estava caçoando comnosco, disse Estacio. Ve como sabe montar?

--Ella sabe tudo, murmurou D. Ursula entre dentes.

Estacio montou no seu cavallo. Consultou o relogio; eram sete horas e meia.

--Permitte que o acompanhe? perguntou Helena.

--Com uma condição, disse elle; é que hade ter juizo. Não quero temeridades; a egua é apparentemente mansa; convem não brincar com ella. Ja vejo que voce é capaz de muitas cousas mais...

--Prometto ir pacificamente.

Helena cumprimentou a tia com um gesto gracioso, deu de redea ao animal e seguiu ao lado do irmão. Transposto o portão, seguiram os dous para o lado de cima, a passo lento. O sol estava encoberto e a manhã fresca. Helena cavalgava perfeitamente; de quando em quando a agua, instigada por ella, adiantava-se alguns passos ao cavallo; Estacio reprehendia a irmã, a seu pesar, porque ao mesmo tempo que temia alguma imprudencia, gostava de lhe ver o airoso do busto e a firme serenidade com que ella conduzia o animal.

--Não me dirá voce, perguntou elle, porque motivo, sabendo montar, pedia-me hontem licções?

--A razão é clara, disse ella; foi uma simples travessura, um capricho... ou antes um cálculo.

--Um cálculo?

--Profundo, hediondo, diabolico, continuou a moça sorrindo. Eu queria passear algumas vezes a cavallo; não era possivel sahir só, e nesse caso...

--Bastava pedir-me que a acompanhasse.

--Não bastava. Havia um meio de lhe dar mais gosto era sahir commigo; era fingir que não sabia montar. A ideia momentanea de sua superioridade neste assumpto, era bastante para lhe inspirar uma dedicação decidida...

Estacio sorriu do cálculo; mas foi um sorriso passageiro, porque dentro de poucos segundos, seu rosto ficou serio, e elle perguntou era tom sêcco:

--Ja lhe negamos algum prazer que desejasse?

Helena estremeceu e ficou egualmente séria.

--Não! murmurou; minha dívida não tem limites.

Ésta palavra sahiu-lhe do coração. As palpebras cahiram-lhe e um veu de tristeza lhe apagou o rosto. Estacio arrependeu-se do que dissera. Sua sensibilidade apurada comprehendeu a irmã; viu que, por mais innocentes que suas palavras fossem, podiam ser tomadas á ma parte, e em tal caso o menos que se lhe podia arguir era a descortezia. Estacio timbrava em ser o mais polido dos homens. Inclinou-se para ella e rompeu o silêncio.

--Voce ficou triste, disse Estacio; mas eu desculpo-a.

--Desculpa-me? perguntou a moça erguendo para o irmão seus bellos olhos humidos.

--Desculpo a injúria que me fez, suppondo-me grosseiro.

Apertaram-se as mãos, e o passeio continuou nas melhores disposições do mundo. Helena deu livre curso á imaginação e ao pensamento; suas falas exprimiam, ora a sensibilidade romanesca, ora a reflexão da experiencia prematura, e iam direitas á alma do irmão, que se comprazia em ver nella a mulher como elle queria que fosse, uma Graça pensadora, uma sisudez amavel. De quando em quando faziam parar os animaes para contemplar o caminho percorrido, ou discretear acerca de um accidente do terreno. Uma vez, aconteceu que iam fallando das vantagens da riqueza.

--Valem muito os bens da fortuna, dizia Estacio; elles dão a maior felicidade da terra, que é a independencia absoluta. Nunca experimentei a necessidade; mas imagino que o peor que há nella não é a privação de alguns apetites ou desejos, de sua natureza transitorios, mas sim essa escravidão moral que submette o homem aos outros homens. A riqueza compra até o tempo, que é o mais precioso e fugitivo bem que nos coube. Ve aquelle preto que alli está? Para fazer o mesmo trajecto que nós, terá de gastar, a pe, mais uma hora ou quasi.

O preto de quem Estacio falára, estava sentado no capim, descascando uma laranja, emquanto a primeira das duas mulas que conduzia, olhava philosophicamente para ele. O preto não attendia aos dous cavalleiros que se aproximavam. Ia esburgando a fructa e deitando os pedaços de casca ao focinho do animal, que fazia apenas um movimento de cabeça, com o que parecia alegra-lo infinitamente. Era homem de cêrca de quarenta annos, ao parecer, escravo. As roupas eram rafadas; o chapeu que lhe cobria a cabeça, tinha ja uma côr inverossimil. No entanto, o rosto exprimia a plenitude da satisfação; em todo o caso, a serenidade do espirito.

Helena relanceou os olhos ao quadro que o irmão lhe mostrára. Ao passarem por elle, o preto tirou respeitosamente o chapeu e continuou na mesma posição e occupação que d'antes.

--Tem razão, disse Helena: aquelle homem gastará muito mais tempo do que nós em caminhar. Mas não é isto uma simples questão de ponto de vista? Em rigor, o tempo corre do mesmo modo, quer o experdicemos, quer o economisemos. O essencial não é fazer muita cousa no menor prazo; é fazer muita cousa aprazivel ou util. Para aquelle preto o mais aprazivel é, talvez, esse mesmo caminhar a pe, que lhe alongará a jornada, e lhe fara esquecer o captiveiro, se é captivo. É uma hora de pura liberdade.

Estacio soltou uma risada.

--Voce devia ter nascido...

--Homem?

--Homem e advogado. Sabe defender com habilidade as causas mais melindrosas. Nem estou longe de crer que o proprio captiveiro lhe parecerá uma bemaventurança, se eu disser que é o peor estado do homem.

--Sim? retorquiu Helena sorrindo; estou quasi a fazer-lhe a vontade. Não faço; prefiro admirar a cabeça de _Moema_. Veja, veja como se vai faceirando. Ésta não maldiz o captiveiro; pelo contrário, parece que elle lhe dá glória. Pudera! Se não a tivessemos captiva, receberia ella o gosto de me sustentar e conduzir? Mas não é só faceirice, é tambem impaciencia.

--De que?

--Impaciencia de correr por essa estrada da Tijuca fóra, e beber o vento da manhã, espreguiçando os musculos, e sentindo-se alguma cousa senhora e livre. Mas que queres tu, minha pobre egua? continuou a moça inclinando a cabeça até as orelhas do animal; vai aqui ao pe de nós um homem muito mau e medroso, que é ao mesmo tempo meu irmão e meu inimigo...

--Helena! interrompeu Estacio; voce é muito capaz de desparar a correr.

--E se fôsse?

--Eu deixava-a ir, e nunca a trazia em meus passeios. Voce monta bem; mas não desejo que faça temeridades. Nós somos responsaveis, não só por sua felicidade, mas tambem por sua vida.

Helena refletiu um instante.

--Quer dizer, perguntou ella, que se eu fôsse victima de um desastre não faltaria quem o imputasse á minha familia?

--Justo.

--Singular gente! Não há de ser tanto assim... Pois se eu me lembrasse--é uma supposição--se eu me lembrasse de deixar a vida por aborrecimento ou capricho, seria voce accusado de me haver propinado o veneno? Não ha melhor modo de me fazer evitar a morte.

--Deixemos conversas lugubres, e voltemos para casa, interrompeu Estacio.

--Ja!

--Raras vezes passo d'aqui; e não pense voce que é perto.

--Parece-me que ainda agora sahimos de casa. Vamos uns cinco minutos adeante? Sim?

Estacio consultou o relogio.

--Cinco minutos justos, disse elle.

--Até aquella casa que alli está com uma bandeira azul.