Helena

Part 2

Chapter 23,857 wordsPublic domain

Helena estava a concluir seus estudos; semanas depois determinou a familia que ella viesse para casa. D. Ursula recusou a princípio ir buscal-a; convenceu-a disso o sobrinho, e a boa senhora aceitou a incumbencia depois de alguma hesitação. Em casa foram-lhe preparados os aposentos; e marcou-se uma tarde de segunda-feira para ser a moça transladada a Andarahy. D. Ursula metteu-se na carruagem, logo depois de jantar. Estacio foi nesse dia jantar com o Dr. Camargo, no Rio Comprido. Voltou tarde. Ao penetrar na chacara deu com os olhos nas janellas do quarto destinado a Helena; estavam abertas; havia alguem dentro. Pela primeira vez sentiu Estacio a extranheza da situação creada pela presença daquella meia-irmã e perguntou a si proprio se não era a tia quem tinha razão. Expelliu pouco depois esse sentimento; a memoria do pae restituiu-lhe a benevolencia anterior. Ao mesmo tempo, a ideia de ter uma irmã sorria-lhe ao coração como promessa de venturas novas e desconhecidas. Entre sua mãe e as demais mulheres, faltava-lhe essa creatura intermediaria, que elle ja amava sem conhecer, e que que seria a natural confidente de seus desalentos e esperanças. Estacio contemplou longo tempo as janellas; nem o vulto de Helena appareceu alli, nem elle viu passar a sombra da habitante nova.

CAPITULO III

Na seguinte manhã, Estacio levantou-se tarde e foi direito á sala de jantar, onde encontrou D. Ursula, pachorrentamente sentada na poltrona de seu uso, ao pe de uma janella, a ler um tomo do _Saint-Clair das Ilhas_, enternecida pela centesima vez com as tristezas dos desterrados da ilha da Barra; boa gente e moralissimo livro, ainda que enfadonho e massudo, como outros de seu tempo. Com elle matavam as matronas daquella quadra muitas horas compridas do inverno, com elle se encheu muito serão pacífico, com elle se desafogou o coração do muito lagryma sobresalente.

--Veiu? perguntou Estacio.

--Veiu, respondeu a boa senhora fechando o livro. O almôço esfria,--continuou ella dirigindo-se á mucama que alli estava de pe, juncto da mesa; já foram chamar... nhanhã Helena?

--Nhanhã Helena disse que ja vem.

--Ha dez minutos, observou D. Ursula ao sobrinho.

--Naturalmente não tarda, respondeu este. Que tal?

D. Ursula estava pouco habilitada a responder ao sobrinho. Quasi não vira o rosto de Helena; e ésta, logo que alli chegou, recolheu-se ao aposento que lhe deram, dizendo ter necessidade de repouso. O que D. Ursula pôde afiançar foi somente que a sobrinha era moça feita.

Ouviu-se descer a escada um passo rapido, e não tardou que Helena apparecesse á porta da sala de jantar. Estacio estava então encostado á janella que ficava em frente da porta e dava para a extensa varanda, donde se viam os fundos da chacara. Olhou para a tia como esperando que ella os apresentasse um ao outro. Helena detivera-se ao vel-o.

--Menina, disse D. Ursula com o tom mais doce que tinha na voz, este é meu sobrinho Estacio, seu irmão.

--Ah! disse Helena sorrindo e caminhando para elle.

Estacio dera egualmente alguns passos.

--Espero merecer sua affeição, disse ella depois de curta pausa. Peço desculpa da demora; estavam á minha espera, creio eu.

--Iamos para a meza agora mesmo, interrompeu D. Ursula como protestando contra a ideia de que ella os fizesse esperar.

Estacio procurou corrigir a rudez da tia.

--Tinhamos ouvido o seu passe na escada, disse elle. Sentemo-nos, que o almoço esfria.

D. Ursula ja estava sentada á cabeceira da mesa; Helena ficou á direita, na cadeira que Estacio lhe indicou; este tomou logar do lado opposto. O almoço correu silencioso e desconsolado; raros monosyllabos, alguns gestos de assentimento ou recusa, tal foi o dispendio da conversa entre os tres parentes. A situação não era commoda nem vulgar. Helena, posto forcejasse por estar senhora de si, não conseguia vencer de todo o natural acanhamento da occasião. Mas, se o não vencia de todo, podiam ver-se atravez delle certos signaes de educação fina. Estacio examinou aos poucos a figura da irmã.

Era uma moça de dezeseis a dezesete annos, delgada sem magreza, estatura um pouco acima de mediana, talhe elegante e attitudes modestas. A face, de um moreno-pecego, tinha a mesma imperceptivel penugem da fructa de que tirava a côr; naquella occasião tingiam-na uns longes côr de rosa, a principio mais rubros, natural effeito do abalo. As linhas puras e severas do rosto parecia que as traçára a arte religiosa. Se os cabellos, castanhos como os olhos, em vez de dispostos em duas grossas tranças, lhe cahissem espalhadamente sôbre os hombros, e se os proprios olhos alçassem as pupillas ao ceu, dissereis um daquelles anjos adolescentes que traziam a Israel as mensagens do Senhor. Não exigiria a arte maior correcção e harmonia de feições, e a sociedade bem podia contentar-se com a polidez de maneiras e a gravidade do aspeto. Uma só cousa pareceu menos aprazivel ao irmão: eram os olhos, ou antes o olhar, cuja expressão de curiosidade sonsa e suspeitosa reserva foi o unico senão que lhe achou, e não era pequeno.

Acabado o almôço, trocadas algumas palavras, poucas e sôltas, Helena retirou-se ao seu quarto, onde durante tres dias passou quasi todas as horas, a ler meia duzia de livros que trouxe comsigo, a escrever cartas, a olhar pasmada para o ar, ou encostada ao peitoril de uma das janellas. Alguma vez desceu a jantar com os olhos vermelhos e a fronte pezarosa, apenas com um sorriso pallido e fugitivo nos labios. Uma creança, subitamente transferida ao collegio, não desfolha mais tristemente as primeiras saudades da casa de seus paes. Mas a aza do tempo leva tudo; e ao cabo de tres dias, ja a physionomia de Helena trazia menos sombrio aspecto. O olhar perdeu a expressão que primeiro lhe achou o irmão, para tornar-se o que era naturalmente, mavioso e repousado. A palavra sahia-lhe mais facil, seguida e numerosa; a familiaridade tomou o lugar do acanhamento.

No quarto dia, acabado o almôço, Estacio encetou uma conversa geral, que não passou de um simples _duo_, por que D. Ursula contava os fios da toalha ou brincava com as pontas do _fichu_ que trazia ao pescoço. Como falassem da casa, Estacio disse á irmã:

--Ésta casa é tão sua como nossa; faça de conta que nascemos debaixo do mesmo tecto. Minha tia lhe dirá o sentimento que nos anima a seu respeito; não o póde haver mais cordial.

Helena agradeceu com um olhar longo e profundo. E dizendo que a casa e a chacara lhe pareciam bonitas e bem dispostas, pediu a D. Ursula que lh'as fôsse mostrar mais detidamente. A tia fechou o rosto e seccamente respondeu:

--Agora não, menina; tenho por hábito descançar e ler.

--Pois eu lerei para a senhora ouvir, replicou a moça com graça; não é bom cançar os seus olhos; e, além disso, é justo que me acostume a servil-a. Não acha? continuou ella voltando-se para Estacio.

--É nossa tia, respondeu o moço.

--Oh! ainda não é minha tia! interrompeu Helena. Hade sel-o quando me conhecer de todo. Por emquanto somos extranhas uma á outra; mas nenhuma de nós é ma; o coração e a convivencia apertarão de vez os laços que a natureza atou frouxamente.

Éstas palavras foram ditas em tom de graciosa submissão. A voz com que ella as proferiu era clara, doce, melodiosa; melhor do que isso, tinha um mysterioso encanto, a que a propria D. Ursula não pôde resistir.

--Pois deixe que a convivencia faça falar o coração, respondeu a irmã do conselheiro em tom brando. Não aceito o offerecimento da leitura, por que não entendo bem o que os outros me lêm; tenho os olhos mais intelligentes que os ouvidos. Entretanto, se quer ver a casa e a chacara, seu irmão póde conduzi-la.

Estacio declarou-se prompto para acompanhar a irmã. Helena, entretanto, recusou. Irmão embora, era a primeira vez que o via, e ao que parece, a primeira que podia achar-se a sos com um homem que não seu pae. D. Ursula, talvez porque preferisse ficar só algum tempo, disse-lhe seccamente que fôsse. Helena acompanhou o irmão. Percorreram parte da casa, ouvindo a moça as explicações que lhe dava Estacio e inquirindo de tudo com zêlo e curiosidade de dona da casa. Quando chegaram á porta do gabinete do conselheiro, Estacio parou.

--Vamos entrar num logar triste para mim, disse elle.

--Que é?

--O gabinete de meu pae.

--Oh! deixe ver!

Entraram os dous. Tudo estava do mesmo modo que no dia em que o conselheiro fallecêra. Estacio deu algumas indicações relativas ao theor da vida doméstica de seu pae; mostrou-lhe a cadeira em que elle costumava ler, de tarde e de manhã; os retratos de familia, a secretária, as estantes; falou de quanto podia interessal-a. Sobre a mesa, perto da janella, estava ainda o último livro que o conselheiro lêra: eram as _Maximas_ do marquez de Maricá. Helena pegou nelle e imprimiu um beijo na página aberta. Uma lagryma brotou-lhe dos olhos, como pingo do sereno que cahisse da aza da noite, não fria como elle, mas quente de todo o calor de uma alma apaixonada e sensivel; brotou, deslizou-se e foi cahir no papel.

--Coitado! murmurou ella.

Depois sentou-se na mesma cadeira em que o conselheiro costumava dormir alguns minutos depois do jantar, e olhou para fóra. O dia começava a aquecer. O arvoredo dos morros fronteiros estava coberto de flores de quaresma, com suas petalas roxas e tristemente bellas. O expectaculo ia com a situação de ambos. Estacio deixou-se levar ao sabor de suas recordações da meninice. De envolta com ellas, veiu pousar-lhe ao lado a figura de sua mãe; tornou a ve-la, tal qual se lhe fôra dos braços, uma crua noite de Outubro, quando elle contava dezoito annos de edade. A boa senhora morrêra quasi moça,--ainda bella, pelo menos,--daquella belleza sem outono, cuja primavera tem duas estações.

Helena ergueu-se.

--Amava-o muito? perguntou ella,

--Quem o não amaria?

--Tem razão. Era uma alma grande e nobre; ou adorava-o. Reconheceu-me; deu-me familia e futuro; levantou-me aos olhos de todos e aos meus proprios. O resto depende de mim, do juizo que eu tiver,--ou talvez da fortuna.

Ésta ultima palavra cahiu-lhe do coração com um suspiro. Depois de alguns segundos de silêncio, Helena enfiou o braço no do irmão e desceram â chacara. Fôsse influência do logar ou simples mobilidade de seu espirito, Helena tornou-se logo outra do que se revellára no gabinete de seu pae. Jovial, graciosa e travessa, perdêra aquella gravidade quieta e senhora de si com que apparecêra na sala de jantar; fez-se lepida e viva, como as andorinhas que antes, e ainda agora esvoaçavam por meio das árvores e por cima da gramma. A mudança causou certo espanto ao moço; mas elle a explicou de si para si, e em todo o caso não o impressionou mal. Helena pareceu-lhe naquella occasião, mais do que antes, o complemento da familia. O que alli faltava era justamente o gorgeio, a graça, a travessura, um elemento que temperasse a austeridade da casa e lhe désse todas as feições necessarias ao lar doméstico. Helena era esse elemento complementar.

A excursão durou cêrca de meia hora. D. Ursula viu-os chegar, ao cabo desse tempo, familiares e amigos, como se houvessem criado junctos. As sobrancelhas grisalhas da boa senhora contrairam-se e o labio inferior recebeu uma dentada de despeito.

--Titia, disse Estacio jovialmente; minha irmã conhece ja a casa toda e suas dependencias. Resta somente que lhe mostremos o coração.

D. Ursula sorriu,--um sorriso amarello e acanhado, que apagou nos olhos da moça a alegria que os tornava mais lindos. Mas foi breve a ma impressão; Helena caminhou para a tia, e pegando-lhe nas mãos, perguntou com toda a doçura da voz:

--Não quererá mostrar-me o seu?

--Não vale a pena! respondeu D. Ursula com affectada bonhomia; coração de velha é casa arruinada.

--Pois as casas velhas concertam-se, replicou Helena sorrindo.

D. Ursula sorriu tambem; desta vez, porém, com expressão melhor. Ao mesmo tempo, fitou-a; e era a primeira vez que o fazia. O olhar, a principio indifferente, manifestou logo depois a impressão que lhe causava a belleza da moça. D. Ursula retirou os olhos; porventura receiou que o influxo das graças de Helena lhe torcessem o coração, e ella queria ficar independente e inconciliavel.

CAPITULO IV

As primeiras semanas correram sem nenhum successo notavel, mas ainda assim interessantes. Era, por assim dizer, um tempo de espera, de hesitação, de observação reciproca, um tactear de caracteres, em que de uma e de outra parte procuravam conhecer o terreno e tomar posição. O proprio Estacio, não obstante a primeira impressão, recolhera-se a prudente reserva, de que o arrancou aos poucos o procedimento de Helena.

Helena tinha os predicados proprios a captar a confiança e a affeição da familia. Era docil, affavel, intelligente. Não eram estes, comtudo, nem ainda a belleza, os seus dotes por excellencia efficazes. O que a tomava superior e lhe dava probabilidade de triumpho era a arte de accomodar-se ás circumstâncias do momento e a toda a casta de espiritos, arte preciosa, que faz habeis os homens e estimaveis as mulheres. Helena praticava de livros ou de alfinetes, de bailes ou de arranjos de casa, com egual interesse e gôsto, frivola com os frivolos, grave com os que o eram, attenciosa e ouvida, sem entono nem vulgaridade. Havia nella a jovialidade da menina e a compostura da mulher feita, um accôrdo de virtudes domésticas e maneiras elegantes, complexo de cousas na apparencia oppostas, mas não inconciliaveis nem disparatadas entre si.

Além das qualidades naturaes, possuia Helena algumas prendas de sociedade, que a tornavam acceita a todos, e mudaram em parte o theor da vida da familia. Não falo da magnifica voz de contralto, nem da correcção com que sabia usar della, por que ainda então, estando fresca a memoria do conselheiro, não tivera occasião de fazer-se ouvir. Era pianista distincta, sabia desenho, falava correntemente a lingua franceza, um pouco a ingleza e a italiana. Entendia de costura e bordados e toda a sorte de trabalhos feminis. Conversava com graça e lia admiravelmente. Mediante os seus recursos, e muita paciencia, arte e resignação,--não humilde, mas digna,--conseguia polir os asperos, attrahir os indifferentes e domar os hostis.

Pouco havia ganho no espirito de D. Ursula; mas a repulsa desta ja não era tão viva como nos primeiros dias. Estacio cedeu de todo, e era facil; seu coração tendia para ella, mais que nenhum outro. Não cedeu porém sem alguma hesitação e dúvida. A flexibilidade do espirito da irmã afigurou-se-lhe a principio mais calculada que expontanea. Mas foi impressão que passou. Dos proprios escravos não obteve Helena desde logo a sympathia e boa vontade; esses pautavam os sentimentos pelos de D. Ursula. Servos de uma familia, viam com desaffecto e ciume a parenta nova, alli trazida por um acto de generosidade. Mas tambem a esses venceu o tempo. Um só de tantos pareceu vel-a desde princípio com olhos amigos; era um rapaz de 16 annos, chamado Vicente, cria da casa e particularmente estimado do conselheiro. Talvez esta ultima circunstância o ligou desde logo á filha do seu senhor. Despida de interesse, porque a esperança da liberdade, se a podia haver, era precaria e remota, a affeição de Vicente não era menos viva e sincera; faltando-lhe os gozos proprios do affecto,--a familiaridade e o contacto,---condenado a viver da contemplação e da memoria, a não beijar sequer a mão que o abençoava, limitado e distanciado pelos costumes, pelo respeito e pelos instinctos, Vicente foi, não obstante, um fiel servidor de Helena, seu advogado convicto nos julgamentos da senzala.

Ás pessoas da intimidade da casa acolheram Helena com a mesma hesitação de D. Ursula. Helena sentiu-lhes a polidez fria e parcimoniosa. Longe de abater-se ou vituperar os sentimentos sociaes, explicava-os e tratava de os torcer em seu favor,--tarefa em que se esmerou superando as obstaculos na familia; o resto viria de si mesmo.

Uma pessoa, entre os familiares da casa, não os acompanhou no procedimento reservado e frio; foi o padre-mestre Melchior. Melchior era capellão em casa do conselheiro, que mandara construir alguns annos antes uma excellente capella na chacara, onde muita gente da vizinhança ouvia missa aos domingos. Tinha sessenta annos o padre; era homem de estatura mediana, magro, calvo, brancos os poucos cabellos, e uns olhos não menos sagazes que mansos. De compostura quieta, e grave, austero sem formalismo, sociavel sem mundanidade, tolerante sem fraqueza, era o verdadeiro varão apostolico, homem de sua Egreja e de seu Deos, integro na fe, constante na esperança, ardente na caridade. Conhecêra a familia do conselheiro algum tempo depois do consorcio deste. Seu olhar penetrante descobria a causa da tristeza que minou os ultimos annos da mãe de Estacio; respeitou a tristeza, mas attacou directamente a origem. O conselheiro era homem geralmente razoavel, salvo nas cousas do amor; ouviu o padre, prometteu o que este lhe exigia, mas foi promessa feita na areia; o primeiro vento do coração apagou a escriptura. Entretanto, o conselheiro ouvia-o sinceramente em todas as occasiões graves; e o voto de Melchior pesava em seu espirito. Morando na vizinhança daquella familia, tinha alli o padre todo o seu mundo. Se as obrigações ecclesiasticas não o chamavam a outro lugar, não se arredava elle de Andarahy, sítio de repouso apos trabalhosa mocidade.

Das outras pessoas que frequentavam a casa e residiam no mesmo bairro de Andarahy, mencionaremos ainda o Dr. Mattos, sua mulher, o coronel Macedo e dous filhos.

O Dr. Mattos era um velho advogado que, em compensação da sciencia do direito, que não sabia, possuía noções muito aproveitaveis de meteorologia e botanica, da arte de comer, do voltarete, do gamão e da política. Era impossivel a ninguem queixar-se do calor ou do frio, sem ouvir delle a causa e a natureza de um e outro, e logo a divisão das estações, a differença dos climas, influência destes, as chuvas, os ventos, a neve, as vasantes dos rios e suas enchentes, as marés e a pororoca. Elle fallava com egual abundancia das qualidades therapeuticas de uma herva, da nomenclatura scientifica de uma flor, da estructura de certo vegetal e suas peculiaridades. Alheio ás nobres paixões da política, se abria a boca em tal assumpto era para criticar egualmente de luzias e saquaremas,--os quaes todos lhe pareciam abaixo do paiz. O jogo e a comida achavam-no menos sceptico; e nada lhe avivava tanto a physionomia como um bom gamão depois de um bom jantar. Éstas prendas faziam do Dr. Mattos um conviva interessante nas noites que o não eram, como o loto é o jogo por excellencia nas occasiões em que outro qualquer é impossivel. O Dr. Mattos era o loto da sociedade, com a mesma monotonia dos anexins. Posto soubesse effectivamente alguma cousa dos assumptos que lhe eram mais prezados, não ganhou o peculio que possuia, professando a botanica ou a meteorologia, mas applicando as regras do direito, que ignorou até á morte.

A esposa do Dr. Mattos fôra uma das bellezas do primeiro reinado. Quando as graças physicas se alliam ás do espirito, a belleza póde esvair-se, que ainda lhe fica a alma. D. Leonor era uma rosa fanada, mas conservava o aroma da juventude. Algum tempo se disse que o conselheiro ardêra aos pes da mulher do advogado, sem repulsa desta; mas só era verdade a primeira parte do boato. Nem os principios moraes, nem o temperamento de D. Leonor lhe consentiam outra cousa que não fosse repellir o conselheiro sem o molestar. A arte com que o fez illudiu os malévolos; dahi o sussurro, ja agora esquecido e morto. A reputação dos homens amorosos parece-se muito como juro do dinheiro: alcançado certo capital, elle proprio se multiplica e avulta. O conselheiro desfructou essa vantagem, de maneira que se no outro mundo lhe levassem á collumna dos peccados todos os que lhe attribuiam na terra, receberia elle dobrado castigo do que mereceu.

O coronel Macedo tinha a particularidade da não ser coronel. Era major. Alguns amigos, levados de um espirito de rectificação, começaram a dar-lhe o titulo de coronel, que a princípio recusou, mas que afinal foi compellido a acceitar, não podendo gastar a vida inteira a protestar contra elle. Macedo tinha visto e vivido muito; e, sôbre o peculio da experiencia, possuia imaginação viva, fertil e agradavel. Era bom companheiro, folgazão e communicativo, pensando serio quando era preciso. Tinha dous filhos: um rapaz de vinte annos, que estudava em S. Paulo, e uma moça de vinte e tres, mais prendada que formosa.

Nos primeiros dias de agosto a situação de Helena podia dizer-se consolidada. D. Ursula não cedêra de todo, mas a convivencia ia produzindo seus fructos. Camargo era o unico irreconciliavel; sentia-se atravez de suas maneiras cerimoniosas uma a versão profunda, prestes a converter-se em hostilidade, se fôsse preciso. As demais pessoas, não só domadas, mas até enfeitiçadas, estavam ás boas com a filha do conselheiro. Helena tornara-se o acontecimento do bairro; seus ditos e gestos eram o assumpto da vizinhança e o prazer dos familiares da casa. Por uma natural curiosidade, cada um procurava em suas reminiscencias um fio biographico da moça; mas do inventário retrospectivo ninguem tirava elementos que podessem construir a verdade ou uma só parcella que fôsse. A origem da moça continuava mysteriosa; vantagem grande, porque o obscuro favorecia a lenda, e cada qual podia attribuir o nascimento de Helena a um amor illustre ou romanesco,--hypotheses admissiveis, e em todo o caso agradaveis a ambas as partes.

CAPITULO V

Por esse tempo resolveu Estacio dar um passo decisivo em sua vida. Ligado por amor á filha de Camargo, desde antes da morte do conselheiro, hesitára sempre em pedil-a ao pae, deferindo a resolução para quando fôsse propício o ensejo. A condição não era facil, por que o sentimento que elle nutria em relação a Eugenia tinha alternativas singulares de tibieza e fervor. A causa disso póde crer-se que estava tambem em seu coração; mas principalmente residia nella. N'um dos primeiros dias de Agosto, assentira Estacio de ir solicitar de Eugenia autorisação para fazer officialmente o pedido. Assim disposto, dirigiu-se á casa de Camargo.

Mal o avistou de longe, desceu Eugenia á porta do jardim. O chapellinho de palha, de abas largas, que lhe protegia o rosto dos raios do sol,--eram tres horas da tarde,--tornavam mais bella a figura da moça. Eugenia era uma das mais brilhantes estrêllas entre as menores do ceu fluminense. Agora mesmo, se o leitor, lhe descobrir o perfil, em camarote de theatro, ou se a vir entrar em alguma sala de baile, comprehenderá,--atravez de um quarto de seculo,--que os contemporaneos de sua mocidade lhe tivessem louvado, sem contraste, as graças que então alvoreciam, com o frescor e a pureza das primeiras horas.

Era do pequena estatura; tinha os cabellos de um castanho escuro, e os olhos grandes e azues,--dous pedacinhos do ceu; abertos em rosto alvo o corado, os quaes nem sempre lembravam tão alta origem, pois se eram muita vez quietos e modestos, não poucas os desmaiava tal ou qual expressão de languidez lasciva. Seu corpo, levemente refeito, era naturalmente elegante; mas se a dona sabia vestir-se com luxo, e até com arte, não possuia o dom de alcançar os maximos effeitos com os meios mais simples, dom preciosissimo, que faz as grandes elegantes, os grandes artistas e os grandes poetas.