Part 1
BIBLIOTHECA UNIVERSAL
Romances, Viagens, Política, Poesias, etc.
Collecção in 8° a 2$000
HELENA
POR
MACHADO DE ASSIS
RIO DE JANEIRO
B.L. GARNIER
Livreiro-editor do Instituto Historico Brasileiro
65--Rua do Ouvidor--65
PORTO: Ernesto Chardon | BRAGA: Eugenio Chardon
LISBOA: Carvalho & C.
_1876_
INDICE CAPITULO I CAPITULO II CAPITULO III CAPITULO IV CAPITULO V CAPITULO VI CAPITULO VII CAPITULO VIII CAPITULO IX CAPITULO X CAPITULO XI CAPITULO XII CAPITULO XIII CAPITULO XIV CAPITULO XV CAPITULO XVI CAPITULO XVII CAPITULO XVIII CAPITULO XIX CAPITULO XX CAPITULO XXI CAPITULO XXII CAPITULO XXIII CAPITULO XXIV CAPITULO XXV CAPITULO XXVI CAPITULO XXVII CAPITULO XXVIII
HELENA
CAPITULO I
O conselheiro Vale morreu ás 7 horas da noite de 25 de abril de 1859. Morreu de apoplexia fulminante, pouco depois de _cochilar_ a sesta,--segundo costumava dizer,--e quando se preparava a ir jogar a usual partida de voltarete em casa de um desembargador, seu amigo. O Dr. Camargo, chamado á pressa, nem chegou a tempo de empregar os recursos da sciencia; o padre Melchior não pôde dar-lhe as consolações da religião: a morte fôra instantanea.
No dia seguinte fez-se o entêrro, que foi um dos mais concorridos que ainda viram os moradores do Andarahy. Cêrca de duzentas pessoas acompanharam o fim do até a morada ultima, achando-se representadas entre ellas as primeiras classes da sociedade. O conselheiro, posto não figurasse em nenhum grande cargo do Estado, occupava elevado logar na sociedade, pelas relações adquiridas, cabedaes, educação e tradicções de familia. Seu pae fora magistrado no tempo colonial, e figura de certa influência na corte do último vice-rei. Pelo lado materno descendia de uma das mais distinctas familias paulistas. Elle proprio exercêra dous empregos, havendo-se com habilidade e decoro, do que lhe adveiu a carta de conselho e a estima dos homens publicos. Sem embargo do ardor político do tempo, não estava ligado a nenhum dos dous partidos, conservando em ambos preciosas amizades, que alli se acharam na occasião de o dar á sepultura. Tinha, entretanto, taes ou quaes ideias políticas, colhidas nas fronteiras conservadoras e liberaes, justamente no ponto em que os dous dominios podem confundir-se. Se nenhuma saudade partidaria lhe deitou a ultima pa de terra, matrona houve, e não só ama, que viu ir a enterrar com elle a melhor página de sua mocidade.
A familia do conselheiro compunha-se de duas pessoas: um filho, o Dr. Estacio, e uma irmã, D. Ursula. Contava ésta cincoenta e poucos annos; era solteira; vivêra sempre com o irmão, cuja casa dirigia desde o fallecimento da cunhada. Estacio tinha vinte e sete annos, e era formado em mathematicas. O conselheiro tentára encarreiral-o na política, depois na diplomacia; mas nenhum desses projectos teve começo de execução.
O Dr. Camargo, médico e velho amigo da casa, logo que regressou do entêrro, foi ter com Estacio, a quem encontrou no gabinete particular do finado, em companhia de D. Ursula. Tambem a dor tem suas voluptuosidades; tia e sobrinho queriam nutril-a com a presença dos objectos pessoaes do morto, no logar de suas predilecções quotidianas. Duas tristes luzes alumiavam aquella pequena sala. Alguns momentos correram de profundo silêncio entre os tres. O primeiro que o rompeu foi o médico.
--Seu pai deixou testamento?
--Não sei, respondeu Estacio.
Camargo mordeu a ponta do bigode, duas ou tres vezes, gesto que lhe era habitual quando fazia alguma reflexão.
--É preciso procural-o,--continuou elle.--Quer que o ajude?
Estacio apertou-lhe affectuosamente a mão.
--A morte de meu pai,--disse o moço, não alterou nada as nossas relações. Subsiste a confiança anterior do mesmo modo que a amizade, ja provada e antiga.
A secretária estava fechada; Estacio deu a chave ao médico; este abriu o movel sem nenhuma commoção exterior. Interiormente estava abalado. O que se lhe podia notar nos olhos era uma viva curiosidade, expressão em que, aliás, nenhum dos outros reparou. Logo que começou a revolver os papeis, a mão do médico tornou-se mais febril. Quando achou o testamento, houve em seus olhos um breve lampejo, a que succedeu a serenidade habitual.
--É isso? perguntou Estacio.
Camargo não respondeu logo; olhou para o papel, como a querer adivinhar o conteudo. O silêncio foi muito demorado para não fazer impressão no moço, que alias nada disse, porque o attribuíra á commoção natural do amigo, em tão dolorosas circumstâncias.
--Sabem o que estará aqui dentro? disse enfim Camargo. Talvez uma lacuna ou um grande excesso.
Nem Estacio, nem D. Ursula, pediram ao médico a explicação de semelhantes palavras. A curiosidade, porém, era natural, e o médico pôde le-la nos olhos, de ambos. Não lhes disse nada; entregou o testamento a Estacio, ergueu-se e deu alguns passos na sala, absorvido em suas proprias reflexões, ora arranjando machinalmente um livro da estante, ora mettendo a ponta do bigode entre os dentes, com a vista quêda, alheio de todo ao logar e ás pessoas.
Estacio rompeu o silêncio:
--Mas que lacuna ou que excesso é esse? perguntou ao médico.
Camargo parou deante do moço.
--Não posso dizer nada, respondeu elle. Seria inconveniente antes de saber as últimas disposições de seu pai.
D. Ursula foi menos discreta que o sobrinho; apos longa pausa, pediu ao médico a razão de suas palavras.
--Seu irmão, disse este, era boa alma; tive tempo de o conhecer de perto e apreciar-lhe as qualidades, que as tinha excellentes, Era seu amigo; sei que o era meu. Nada alterou a longa amizade que nos unia, nem a confiança que ambos depositavamos um no outro. Não quizera pois, que o último acto de sua vida fôsse um êrro.
--Um êrro! exclamou D. Ursula.
--Talvez um êrro! suspirou Camargo.
--Mas, doutor, insistiu D. Ursula, porque motivo nos não tranquillisa o espirito? Estou certa de que não se trata de um acto que desdoure a meu irmão; allude naturalmente a algum êrro no modo de entender... alguma cousa, que eu ignoro o que seja. Porque não fala claramente?
O médico viu que D. Ursula tinha razão; e que, a não dizer mais nada, melhor fôra ter-se calado de todo. Tentou dissipar a impressão de extranheza que deixára no ânimo dos dous; mas da hesitação com que falava concluiu Estacio que elle não podia ir além do que havia dito.
--Não precisamos de explicação nenhuma, interveiu o filho do conselheiro; amanhã saberemos tudo.
Nessa occasião entrou o padre Melchior. O médico sahiu ás 10 horas, ficando de voltar no dia seguinte, logo cedo. Estacio, recolhendo-se a seu quarto, murmurava consigo:
--Que êrro será esse? E que necessidade tinha elle de vir lançar-me este enigma no coração?
A resposta, se podesse ouvil-a, era dada nessa mesma occasião pelo proprio Dr. Camargo, ao entrar no carro que o esperava á porta:
--Fiz bem em preparar-lhes o espirito, pensou elle; o golpe, si o houver, ha de ser mais facil de soffrer.
O médico ia só; além disso, era noite, como sabemos. Ninguem pôde ver-lhe a expressão do rosto, que era fechada e meditativa. Exhumou o passado e devassou o futuro; mas de tudo o que reviu e anteviu nada foi communicado a ouvidos extranhos.
As relações do Dr. Camargo com a familia do conselheiro eram estreitas e antigas, como dissera Estacio. O médico e o conselheiro tinham a mesma edade: cincoenta e quatro annos. Conheceram-se logo depois de tomado o gráo, e nunca mais afrouxara o laço que os prendêra desde esse tempo.
Camargo era pouco sympathico á primeira vista, Tinha as feições duras e frias, os olhos prescrustadores e sagazes, de uma sagacidade incommoda, para quem encarava com elles, o que o não fazia attrahente. Fallava pouco e sêcco. Seus sentimentos não vinham á flor do rosto. Tinha todos os visiveis signaes de um grande egoista; comtudo, posto que a morte do conselheiro não lhe arrancasse uma lagryma ou uma palavra de tristeza, é certo que a sentiu devéras. Além disso, amava sobre todas as cousas e pessoas uma creatura linda,--a linda Eugenia, como lhe chamava,--sua filha unica e a flor de seus olhos; mas amava-a de um amor calado e recondito. Era difficil saber se Camargo professava algumas opiniões políticas ou nutria sentimentos religiosos. Das primeiras, se as tinha, nunca deu manifestação prática; e no meio das lutas de que fôra cheio o decennio anterior, conservara-se indifferente e neutral. Quanto aos sentimentos religiosos, a aferil-os pelas acções, ninguem os possuia mais puros. Era pontual no cumprimento dos deveres de bom catholico. Mas só pontual; interiormente era incredulo.
Quando Camargo chegou a casa, no Rio Comprido, achou sua mulher,--D. Thomasia,--meio adormecida n'uma cadeira de balanço e Eugenia ao piano, executando um trecho de Bellini. Eugenia tocava com habilidade; e Camargo gostava de a ouvir. Naquella occasião, porém, disse ele, parecia pouco conveniente que a moça se entregasse a um genero de recreio qualquer. Eugenia obedeceu, algum tanto de ma vontade. O pai, que se achava ao pe do piano, pegou-lhe nas mãos, logo que ella se levantou, e fitou-lhe uns olhos amorosos e profundos, como ella nunca lhe víra.
--Não fiquei triste pelo que me disse, papae,--observou a moça. Tocava por distrahir-me. D. Ursula como está? Ficou tão afflicta! Mamãe queria demorar-se mais tempo; mas eu confesso que não podia ver a tristeza daquella casa.
--Mas a tristeza é necessaria á vida,--acudiu D. Thomasia, que abrira os olhos logo á entrada do marido. As dores alheias fazem lembrar as proprias, e são um correctivo da alegria, cujo excesso póde engendrar o orgulho.
Camargo temperou ésta philosophia, que lhe pareceu demasiado austera, com algumas ideias mais accommodadas e risonhas.
--Deixemos a cada edade a sua atmosphera propria, concluiu elle, e não antecipemos a da reflexão, que é tornar infelizes os que ainda não passaram do puro sentimento.
Eugenia não comprehendeu o que os dous haviam dito. Seus olhos voltaram-se para o piano, com uma expressão de saudade irritada. Com a mão esquerda, assim mesmo de pe, extrahiu vagamente tres ou quatro notas das teclas suas amigas. Camargo tornou a fital-a com desusada ternura; a fronte sombria pareceu alumiar-se de uma irradiação interior. A moça sentiu-se enlaçada nos braços delle; deixou-se ir. Mas a expansão era tão nova, que ella ficou assustada e perguntou com voz trémula.
--Aconteceu la alguma cousa?
--Absolutamente nada, respondeu Camargo dando-lhe um beijo na testa.
Era o primeiro beijo,--ao menos o primeiro de que a moça tinha memoria. A caricia encheu-a de orgulho filial; mas a propria novidade della impressionou-a mais. Eugenia não creu no que lhe dissera seu pai. Viu-o ir sentar-se ao pe de D. Thomasia e conversarem em voz baixa. Approximando-se, não interrompeu a conversa, que elles continuaram no mesmo tom, e versava sobre assumptos puramente domesticos. Percebeu-o; contudo não ficou tranquilla. Na manhã seguinte escreveu um bilhete, que foi logo caminho do Andarahy. A resposta, que lhe chegou ás mãos no momento em que provava um vestido novo, teve a cortezia de esperar que ella terminasse a operação. Lida finalmente, dissipou todos os receios da vespera.
CAPITULO II
No dia seguinte foi aberto o testamento com todas as formalidades legaes. O conselheiro nomeava testamenteiros Estacio, o Dr. Camargo e o padre Melchior. As disposições geraes nada tinham que fôsse notavel: eram legados pios ou beneficentes, lembranças a amigos, dotes a afilhados, missas por sua alma e pela de seus parentes.
Uma disposição havia, porém, verdadeiramente importante. O conselheiro declarava reconhecer uma filha natural, de nome Helena, havida em D. Angela da Soledade. Ésta menina estava sendo educada em um collegio de Botafogo. Era declarada herdeira da parte que lhe tocasse de seus bens, e devia ir viver com a familia, a quem o conselheiro instantemente pedia que a tratasse com desvello e carinho, como se de seu matrimonio fôsse.
A leitura desta disposição causou natural espanto á irmã e ao filho do finado. D. Ursula nunca soubéra de tal filha. Quanto a Estacio ignorava menos que a tia. Ouvira uma vez falar em uma filha de seu pae; mas tão vagamente que não podia esperar aquella disposição testamentária.
Ao espanto succedeu em ambos outra e differente impressão. D. Ursula reprovou de todo o acto do conselheiro. Parecia-lhe que, a despeito dos impulsos naturaes o licenças juridicas, o reconhecimento de Helena era um acto de usurpação e um péssimo exemplo. A nova filha era, em seu entender, uma intrusa, sem nenhum direito ao amor dos parentes; quando muito, concordaria em que se lhe devia dar o quinhão da herança e deixal-a á porta. Recebel-a, porém, no seio da familia e de seus castos affectos, legitimal-a aos olhos da sociedade, como ella estava aos da lei, não o entendia D. Ursula, nem lhe parecia que alguem podesse entendel-o. A aspereza destes sentimentos tornou-se ainda maior quando lhe occorreu a origem possivel de Helena, Nada constava da mãe, além do nome; mas essa mulher quem era? em que atalho sombrio da vida a encontrára o conselheiro? Helena seria filha de um encontro fortuito entre duas voluptuosidades, ou nasceria de algum affecto, irregular embora, mas verdadeiro o unico? A éstas interrogações não podia responder D. Ursula; bastava porém, que lhe surgissem no espirito, para lançar nelle o tedio e a irritação.
D. Ursula era eminentemente severa a respeito de costumes. A vida do conselheiro, marchetada de aventuras galantes, estava longe de ser uma página de catecismo; mas o acto final bem podia ser a reparação de leviandades amargas. Essa atenuante não a viu D. Ursula. Para ella, o principal era a entrada de uma pessoa extranha na familia.
A impressão de Estacio foi muito outra. Elle percebêra a ma vontade com que a tia recebêra a noticia do reconhecimento de Helena, e não podia negar a si mesmo que semelhante facto creava para a familia uma nova situação. Contudo, qualquer que ella fôsse, uma vez que seu pai assim o ordenava, levado por sentimentos de equidade ou impulsos da natureza, elle a acceitava tal qual, sem pezar nem reserva. A questão pecuniaria pezou menos que tudo no espirito do moço; não pezou nada. A occasião era dolorosa de mais para dar entrada a considerações de ordem inferior, e a elevação dos sentimentos de Estacio não lhe permittia inspirar-se dellas. Quanto á camada social a que pertencia a mãe de Helena, não se preocupou muito com isso, certo que elles saberiam levantar a filha até á classe a que ella ia subir.
No meio das reflexões produzidas pela disposição testamentária do conselheiro, occorreu a Estacio a conversa que tivera com o Dr. Camargo. Provavelmente era aquelle o ponto a que alludíra o médico. Interrogado acerca de suas palavras, Camargo hesitou um pouco; mas insistindo o filho do conselheiro:
--Aconteceu o que eu previa, um êrro, disse elle. Não houve lacuna, mas excesso. O reconhecimento dessa filha é um excesso de ternura, muito bonito; mas pouco prático. Um legado era sufficiente; nada mais. A estricta justiça.
--A estricta justiça é a vontade de meu pae, redarguiu Estacio.
--Seu pai foi generoso, disse Camargo; resta saber se podia sel-o á custa de direitos alheios.
--Os meus? Não os allego.
--Se os allegasse seria pouco digno de memoria delle. O que está feito, está feito. Uma vez reconhecida, essa menina deve achar nesta casa familia e affectos de familia. Persuado-me que ella sabera corresponder-lhes com verdadeira dedicação...
--Conhece-a? inqueriu Estacio, cravando no médico uns olhos impacientes de curiosidade.
--Via-a tres ou quatro vezes disse este no fim de alguns segundos; mas era então muito creança. Seu pae fallava-me della como de pessoa extremamente affectuosa e digna de ser amada e admirada. Talvez fossem olhos de pai.
Estacio desejára ainda saber alguma cousa ácerca da mãe de Helena, mas repugnou-lhe entrar em novas indagações. Como os filhos de Noé, lançou uma capa sobre a nudez de seu pae, e tentou encarreirar a conversa para outro assumpto. Camargo, entretanto, insistiu:
--O conselheiro falou-me algumas vezes no projecto de reconhecer Helena; procurei dissuadil-o, mas sabe como elle era obstinado ás vezes em suas resoluções, accrescendo neste caso o natural impulso de amor paterno. O nosso ponto de viste era differente. Não me tenho por homem mau; contudo, entendo que a sensibilidade não póde usurpar o que pertence á razão.
Camargo proferiu éstas palavras no tom sêcco e sentencioso, que tão natural e sem exforço lhe sabia. A velha amizade delle e do finado era sabida de todos; a intenção com que fallava podia ser hostil á familia? Estacio reflectiu algum tempo no conceito que acabava de ouvir ao médico, curta reflexão, que por nenhum modo lhe abalou a opinião ja assentada e expressa. Seus olhos, grandes e serenos, como o espirito que os animava, pousaram benevolamente no interlocutor.
--Não quero saber--disse elle,--se ha excesso na disposição testamentária de meu pae. Se o ha, é legitimo, justificavel pelo menos; elle sabia ser pai; seu amor dividia-se inteiro. Receberei essa irmã, como se fôra creada commigo. Minha mãe faria com certeza a mesma cousa.
Camargo não insistiu. Sôbre ser exforço baldado dissuadir o moço daquelles sentimentos, que aproveitava ja agora discutir e condemnar theoricamente a resolução do conselheiro? Melhor era executal-a lealmente, sem hesitação nem pezar. Isso mesmo declarou elle a Estacio, que o abraçou cordialmente. O médico recebeu o abraço sem constrangimento, mas sem fervor.
Estacio ficára satisfeito comsigo mesmo. Seu caracter vinha mais directamente da mãe que do pai. O conselheiro, se lhe descontarmos a unica paixão forte que realmente teve, a das mulheres, não lhe acharemos, nenhuma outra saliente feição. A fidelidade aos amigos era antes resultado do costume que da consistencia dos affectos. A vida correu-lhe sem crises nem contrastes; nunca achou occasião de experimentar a propria têmpera. Se a achasse, mostraria que a tinha mediana.
A mãe de Estacio era differente; possuíra em alto grau a paixão, a ternura, a vontade, uma grande elevação de sentimentos, com seus toques de orgulho,--daquelle orgulho que é apenas irradiação da consciencia. Vinculada si um homem que, sem embargo do affecto que lhe tinha, despendia o coração em amores adventicios e passageiros, teve a fôrça de vontade necessaria para dominar a paixão e encerrar em si mesma todo o resentimento. As mulheres que são apenas mulheres choram, arrufam-se ou resignam-se; as que tem alguma cousa mais do que a debilidade feminina lutam ou recolhem-se á dignidade do silêncio. Aquella padecia, é certo, mas a elevação de sua alma não lhe permittia outra cousa mais do que um procedimento altivo e calado. Ao mesmo tempo, como a ternura era elemento essencial da sua organisação, concentrou-a toda naquelle unico filho, em quem parecia adivinhar o herdeiro de suas robustas qualidades.
Estacio recebêra affectivamente de sua mãe uma boa parte destas. Não sendo grande talento, deveu á vontade e á paixão do saber a figura notavel que fez entre seus companheiros de estudos. Entregara-se á sciencia com ardor e afinco. Aborrecia a política; era indifferente ao ruido exterior. Educado á maneira antiga o com severidade o recato, passou da adolescencia á juventude sem conhecer as corrupções de espirito nem as influências delecterias da ociosidade; viveu a vida de familia, na edade em que outros, seus companheiros, viviam a das ruas e perdiam em cousas infimas a virgindade das primeiras sensações. Dahi veiu que aos dezoito annos conservava elle tal ou qual timidez infantil, que só tarde perdeu de todo. Mas se perdeu a timidez, ficara-lhe certa gravidade não incompativel com os verdes annos e muito propria de organisações como a delle. Na política seria talvez meio caminho andado para subir aos cargos publicos; na sociedade, fazia com que lhe catassem respeito, o que o levantava a seus proprios olhos. Convem dizer que não era essa gravidade aquella cousa enfadonha, pesada e chata, que os moralistas asseveram ser quasi sempre um symptoma de espirito chocho; era uma gravidade jovial e familiar,--egualmente distante da frivolidade e do tedio, uma compostura do corpo e do espirito, temperada pelo viço dos sentimentos e pela graça das maneiras, como um tronco rijo e recto adornado de folhagens e flores. Junctava ás outras qualidades moraes uma sensibilidade, não feminil e doentia, mas sobria e forte; aspero comsigo, sabia ser terno e mavioso com os outros.
Tal era o filho do conselheiro; e se alguma cousa ha ainda que accrescentar é que elle não cedia nem esquecia nenhum dos direitos e deveres que lhe davam a edade e a classe em que nascêra. Elegante e polido, obedecia á lei do decoro pessoal, ainda nas menores partes della. Ninguem entrava mais correctamente n'uma sala; ninguem saia mais opportunamente. Ignorava a sciencia das nugas, mas conhecia o segrêdo de tecer um comprimento.
Na situação creada pela clausula testamentária do conselheiro, Estacio aceitou a causa da irmã, a quem ja via, sem a conhecer, com olhos differentes dos de Camargo e D. Ursula. Esta communicou ao sobrinho todas as impressões que lhe deixára o acto do irmão. Estacio procurou dissipar-lh'as; repetiu as reflexões oppostas ao médico; mostrou que, ao cabo de tudo, tratava-se de cumprir a derradeira vontade de um morto.
--Bem sei que não ha ja agora outro remedio mais que aceitar essa menina e obedecer ás determinações solemnes de meu irmão, disse D. Ursula quando Estacio acabou de falar. Mas só isso; dividir com ella os meus affectos não sei que possa nem deva fazer.
--Comtudo, ella é do nosso mesmo sangue.
D. Ursula ergueu os hombros como repellindo semelhante consanguinidade. Estacio insistiu em trazel-a a mais benevolos sentimentos. Invocou, além da vontade, a rectidão do espirito de seu pae, que não havia dispor uma cousa contrária á boa fama da familia.
--Além disso, essa menina nenhuma culpa tem de sua origem, e visto que meu pae a legitimou, convem que não se ache aqui como engeitada. Que aproveitariam os com isso? Nada mais do que perturbar a placidez da nossa vida interior. Vivamos na mesma communhão de affectos; e vejamos em Helena uma parte da alma de meu pae, que nos fica para não desfalcar de todo o patrimonio commum.
Nada respondeu a irmã do conselheiro. Estacio percebeu que não mudára os sentimentos da tia, nem era possivel consegui-lo por meio de palavras. Confiou do tempo essa tarefa. D. Ursula ficou triste e só. Apparecendo Camargo dahi a pouco, ella confiou-lhe todo o seu modo de sentir, que o médico interiormente approvava.
--Conheceu a mãe della? perguntou a irmã do conselheiro.
--Conheci.
--Que especie de mulher era?
--Fascinante.
--Não é isso; pergunto-lhe se era mulher de ordem inferior, ou...
--Não sei; no tempo em que a vi não tinha classe e podia pertencer a todas; demais, não a tratei de perto.
--Doutor, disse D. Ursula, depois de hesitar algum tempo;--que me aconselha que faça?
--Que a ame, se ella o merecer, e se puder.
--Oh! confesso-lhe que me ha de custar muito! E merece-lo-ha? Alguma cousa me diz ao coração que essa menina vem complicar a nossa vida; além disso, não posso esquecer que meu sobrinho, herdeiro...
--Seu sobrinho aceita as cousas philosophicamente e até com satisfação. Não comprehendo a satisfação, mas concordo que nada mais ha do que cumprir textualmente a vontade do conselheiro. Não se deliberam sentimentos; ama-se ou aborrece-se, conforme o coração quer. O que lhe digo é que a trate com benevolencia; e caso sinta em si algum affecto, não o suffoque; deixe-se ir com elle. Ja agora não se póde voltar atraz. Infelizmente!